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segunda-feira, 4 de março de 2019

O Predador

O cinema norte-americano continua a espernear na tentativa de resgatar a mesma química que o antológico filme de John McTiernam tinha, em sua incomum mistura de ação descerebrada oitentista com ficção científica de primeira qualidade.
E após dois esforços válidos, porém, insuficientes –a continuação “O Predador 2” e uma espécie de rebbot, “Predadores” (o crossover “Alien X Predador” é tão ruim que não conta) –eles recrutaram o diretor e roteirista Shane Black (que participava do primeiro “Predador”, mas exclusivamente como ator) para a tarefa.
O estilo característico de Black, como era de se presumir já impõe, de pronto, uma diferenciação instantânea entre este novo “Predador” e os filmes anteriores: Black gosta de escrever diálogo afiados e sarcásticos, e construir personagens cheios de ironia, logo, suas narrativas contemplam a interação entre eles, como é visto em “Máquina Mortífera”.
“O Predador” –ao menos o original, aquele que todos os que vieram depois tentaram imitar –não se ampara nisso; é um suspense crescente, onde o mistério em torno de seu mirabolante protagonista é um achado da equipe técnica com o qual o filme presenteia o expectador após uma sucessão envolvente e inquietante de ação e perseguição.
O novo filme já joga algumas considerações por terra em seu início (como o suspense e a sugestão) escancarando o alienígena na cena inicial, quando uma nave cai praticamente em cima do herói, o atirador de elite McKenna (Boyd Holbrook, de "Logan", pouco adequado como protagonista) tornando-o uma testemunha em potencial da existência da criatura.
A partir daí algumas linhas narrativas meio caóticas se desdobram: Acompanhamos McKenna que, algo foragido, envia artefatos do Predador pelo correio (!) para o filho Rory (Jacob Tremblay) antes de ser capturado pelo exército, e colocado num comboio junto de vários outros soldados surtados (os personagens sarcásticos dos quais Shane Black tanto gosta); também vemos o próprio Predador aprisionado por militares interessados no aparato alienígena, liderados por um agente governamental descolado, mas perverso (Sterling K. Brown); junto deles, é chamada a bióloga Dra. Bracket (Olivia Munn).
Quando um novo Predador –maior, mais forte, mais evoluído e ainda mais impiedoso –aparece na Terra a fim de limpar todas as evidências da chegada do Predador anterior, o diretor Black põe todas essas peças para se movimentar; algumas delas, num frenesi tamanho que sequer ele próprio consegue controlar ou organizar.
No humor, nas características gerais de seus personagens masculinos (e até nos femininos, visto que a Dra. Bracket guarda traços não muito bem-sucedidos da Tenente Ripley de “Aliens-O Resgate”), Black quer porque quer remeter à obras que fizeram a alegria dos expectadores comerciais da década de 1980 –mas, apenas suas intenções são perceptíveis, não a conquista delas.
Do modo como está, este “”Predador” quer evocar certo cinema dos anos 1980, sim, entretanto, na percepção de Shane Black e seu co-escritor Fred Dekker (que juntos também conceberam o oitentista “Deu A Louca Nos Monstros”), esse cinema corresponde à junção indissociável de piadinhas e ação ininterrupta, além de uma premissa que carrega nos expedientes de ficção científica para encher o expectador de informações acerca dos tais Predadores (este é um dos filmes mais reveladores sobre a estranha espécie de alienígenas caçadores) ignorando o fato de que era a nebulosa ausência de informações sobre tal antagonista que o tornava intrigante.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Deu A Louca Nos Monstros


Lembrado com certo carinho pelo público que tinha uma determinada faixa etária nos anos 1980 –algo entre crianças ainda impressionáveis e adolescentes querendo algo mais –este filme não ganha muito em revisão (a técnica narrativa, ainda que eficiente, não tem arroubos de criatividade), não consolidou-se cult com o passar dos anos (não pelo menos no sentido pleno da palavra) e nem tampouco representa maiores significados à carreira de seu diretor Fred Dekker –que fez também “A Noite dos Arrepios” e o medíocre “Robocop 3”.
Quais as razões para lembrá-lo e resenhá-lo, então?
Em primeiro lugar, porque nenhuma obra merece, por assim dizer, o completo esquecimento (e filmes bem piores que esse são lembrados com entusiasmo pelos nostálgicos de hoje em dia); em segundo, porque “Deu A Louca Nos Monstros” se situa em um injusto meio termo que inspira indiferença –não é tão memorável quanto “Caça-Fantasmas”, por exemplo (com o qual dividiu a mesma equipe de técnicos em efeitos visuais), mas não é uma catástrofe incontornável como “Falcão-O Campeão dos Campeões” ou “Ruas Selvagens” (filmes que, ainda assim, têm lá seus apreciadores) –tornando assim necessário recordá-lo. Obras assim merecem, de tempos em tempos, a chance de encontrar o seu público que, neste caso específico, ainda não descobriu o filme.
Financiado e distribuído pela Tri-Star Pictures, o filme –muito na cara de pau –brincava em torno de um promissora reunião dos monstros clássicos da Universal (cujos direitos, à época, se achavam em domínio público): O roteiro escrito por Dekker e Shane Black (antes de roteirizar “Máquina Mortífera” e décadas antes de escrever e dirigir “Homem de Ferro 3”) junta de forma descontraída e pouco preocupada com a plausibilidade histórica e geográfica o Conde Drácula, o Monstro de Frankenstein, o Lobisomem, a Múmia e o Monstro da Lagoa Negra num única grupo a ser enfrentado por um time de crianças (!) no melhor estilo “It-A Coisa”, cujo livro (lançado naquele período) visivelmente influenciou as idéias da narrativa –em sua primeira aparição, o garotinho protagonista, Sean (Andre Gower), usa uma camisa vermelha com o escrito, “Stephen King Rules”!
No século XIX, o caçador de vampiros Van Helsing falhou na tentativa de expurgar o Conde Drácula e seus comparsas do nosso mundo através de um ritual. Um século depois –mais precisamente nos anos 1980 –a tal data, mais uma vez se aproxima: A cada 100 anos, existe a chance de que se abra um portal para banir as forças do mal para sempre; ao mesmo tempo, essa data permite à Drácula a tomada do mundo.
Ciente disso, o vampiro recruta e reagrupa os integrantes de seu grupo de monstros. Mas, ele não contava com a intervenção de um grupo de crianças auto-intitulado a Patrulha Monstro, que encontrarão um meio de ter sucesso onde Van Helsing fracassou.
Um exemplar dos ‘filmes de turma’ daquele período ao lado dos bem mais festejados, “Goonies”, “Conta Comigo” ou “Garotos Perdidos”, “Deu A Louca Nos Monstros” está longe de ser excepcional, mas é plenamente adequado ao carinhoso rótulo de “filme da sessão da tarde”.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Beijos e Tiros

Para o diretor Shane Black, o projeto de “Beijos e Tiros” representou um regresso às fileiras mais reverenciadas dos realizadores de Hollywood, décadas depois que ele renovou os paradigmas do gênero policial de ação com os roteiros para os dois primeiros “Máquina Mortífera”.
Para o ator Robert Downey Jr., o protagonista, o filme representou algo ainda mais crucial e divisor de águas, um recado para a indústria: Os escândalos, bebedeiras e toda sorte de problemas acarretados por seu vício em drogas que mancharam sua reputação nas décadas de 1980 e 90, tinham ficado para trás e somente seu grande talento havia restado.
Com efeito, Downey Jr. (cujo trabalho anterior havia sido o estranho “Crimes de Um Detetive”) não faz muito esforço para surpreender o expectador já na primeira cena: Seu personagem, um reles ladrão em fuga, ao tentar escapar de ser preso, finge-se de ator em uma audição, e tão genuinamente assustado e angustiado é seu teste que ele acaba conseguindo um contrato (!) onde terá de interpretar um detetive particular numa produção a ser filmada em Los Angeles.
Ele é orientado pelo próprio estúdio a fazer um "laboratório", ou seja, acompanhar um detetive de verdade para captar seus maneirismos e compor o personagem. O detetive em questão é estressado, mau-humorado, durão e homossexual (e o ator Val Kilmer se esbalda na caracterização rabugenta e melindrosa de tão notável personagem) que o envolve numa investigação de homicídio que inclui segredos sórdidos de pessoas poderosas.
E com isso, Shane Black já adentra não em um, mas em dois conceitos que ele domina com maestria: Um, o dos filmes de parceiros, tal e qual “Máquina Mortífera”, onde as diferenças essenciais da dupla protagonista moldará a dinâmica através da qual o filme entreterá o expectador; e o outro, o film noir pós-moderno, onde os arquétipos detetivescos que sempre definiram o gênero recebem uma pertinente transfiguração da realidade, da modernidade, da própria especificação cultural do lugar (o retrato do submundo de Los Angeles é pontuado por minúcia, lascívia e conhecimento de causa) e do estilo particular de seu realizador (o roteiro de Shane Black mescla elementos de comédia e de trama rocambolesca de forma tão excessiva e proporcional que é difícil levá-lo a sério).
Tão frutífero e habilidoso foi o desempenho de Shane Black ao lidar com esta produção que ele voltou a realizar um filme em moldes parecidíssimos com o deste daqui, o divertidíssimo “Dois Caras Legais”, com Ryan Gosling e Russel Crowe.
E Robert Downey Jr.? Ele soube muito bem lidar com as portas que se abriram depois de provar sua eficiência, sua capacidade e seu valor neste ótimo filme (cujo bom resultado de muitos momentos dependiam exclusivamente de seu talento), fechando um contrato com a Marvel Studios onde interpretou o personagem de sua vida, Tony Stark, o “Homem de Ferro”, papel que fez dele o ator mais bem pago de Hollywood na década seguinte.
Já gozando desse cacife, Downey Jr. reuniu-se com o diretor e roteirista Shane Black justamente em “Homem de Ferro 3”, um dos mais desiguais trabalhos do estúdio.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O Predador

O espaço sideral em seu vácuo silencioso e amedrontador. Assim começa um dos grandes sucessos dos anos 1980 que consolidou a carreira de Arnold Schwarznegger como astro de ação: Entre as estrelas, um ponto luminoso logo se destaca –num trabalho de computação gráfica um bocado eficaz e impressionante para a época do filme –uma nave espacial! Dela uma cápsula se desprende e mergulha no planeta Terra, provavelmente em algum ponto da América Central; e esta é, por incrível que possa parecer, toda a informação que receberemos acerca do intrigante e eletrizante antagonista do filme, um alienígena cuja motivação parece ser tão somente o processo competitivo de seleção natural embutido na caçada e a nobreza que acarreta o fato de matar seus adversários com os próprios recursos e em igualdade de condições.
A esse breve prólogo, segue-se a introdução dos personagens protagonistas de fato, um grupo de elite de fuzileiros liderados pelo eficiente e gabaritado Dutch (Arnold Schwarznegger, numa atuação carregada de carisma e autoridade). Composto por uma galeria de figuras marrentas e peculiares (o brucutu irredutível vivido por Jesse Ventura; o seu melhor amigo Mac, interpretado por Bill Duke, que depois seguiu carreira como diretor; o soldado irrequieto e falastrão de Shane Black, que depois também seguiu carreira de diretor e roteirista; o atirador de Ricardo Chavez; o índio habilidoso em rastreamento de Sonny Landham), o grupo tem em comum uma habilidade tática singular em combate –o quê fica logo óbvio quando fazem uma incursão tumultuada e explosiva contra rebeldes insurgentes no meio da selva –há outra coisa também em comum em todos eles: Um certo destempero mesclado à desconfiança pela persona de Dillon (Carl Weathers, o Apollo de “Rocky-Um Lutador”), representante de seus contratadores em Washington incluído no grupo à força.
Logo após esse primeiro terço, onde os personagens (ainda que nada profundos) e sua dinâmica foram devidamente introduzidos, assim como a técnica bastante primorosa do especialista John McTiernam para cenas de ação e combate (ele dirigiu também o sensacional “Duro de Matar”), o grupo em regresso para sua base através da selva –acompanhado ainda de uma prisioneira vivida pela bela latina Elpidia Carrillo –passa a ser perseguido por um ser misterioso, muito interessado em caçá-los um a um.
Este ser, logo eles percebem, não parece humano –e o bom entendedor não precisa saber mais para relacioná-lo à rápida seqüência do começo. Cada cena em que o “predador” aparece é um assombro para o expectador: Revestido de uma atmosfera enigmática que o diretor McTiernam sabiamente mantém nebulosa até o fim, o alienígena é amparado num designer visual hipnótico e arrojado –cortesia dos efeitos de Stan Winston –e guarda características originais (como o sangue fosforescente, a camuflagem camaleônica, a visão em infravermelho e as parafernálias tecnológicas) que logo provocaram um abalo sísmico na cultura pop e nos filmes de ação e ficção científica.
Sem reviravoltas muito notáveis (e absolutamente prescindido delas!), “O Predador” segue nesse ritmo movimentado e envolvente (auxiliado pela trilha sonora instigante e antológica de Alan Silvestri) até que apenas Dutch reste vivo, como o grande adversário do “predador”, no formidável duelo que ocupará os vinte minutos finais de filme –e aonde teremos também uma demonstração prodigiosa de iluminação de sua equipe técnica.
Vibrante, vertiginoso e bem realizado mesmo nos dias de hoje, “O Predador” é certamente uma das obras que exemplifica o nível máximo de qualidade a que eram capazes de chegar os títulos descerebrados de ação dos anos 1980, quando realizados por artesãos realmente competentes.
A indústria cinematográfica jamais esqueceu o predador, dando-lhe algumas continuações bem-intencionadas, porém medíocres (“O Predador 2”, de 1990, e “Predadores”, de 2009) e até mesmo promovendo um festejado, porém ridículo encontro com outro memorável alienígena do cinema (o péssimo “Alien X Predador”).
Nenhum, entretanto, foi capaz de igualar este notável trabalho.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Máquina Mortífera - A Quadrilogia

Máquina Mortífera
É possível que hoje seja necessário explicar, para um expectador adolescente a importância que teve a série “Máquina Mortífera” para o cinema de ação a partir dos anos 1980, para a carreira de Mel Gibson (cujo estrelato ele deve à série “Mad Max” e à esta!) e para o gênero de filmes policias cujo filão de “filmes sobre parceiros” ganhou aqui um modelo de excelência para seguir.
Nem todos os exemplares são primorosos, é bom dizer, mas a série é um dos poucos casos em que um mesmo diretor (Richard Donner, neste caso) conseguiu se manter à frente de todos os capítulos –no cinema norte-americano, os casos em que me lembro são Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), Steven Spielberg (“Indiana Jones”), Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”), Peter Jackson (“O Senhor dos Anéis”), Robert Zemeckis (“De Volta Para O Futuro”) e Christopher Nolan (“Batman”).
O primeiro filme é, talvez, aquele que melhor equilibra o tempo entre seus dois protagonistas –talvez, porque a trama, em grande parte, se vale de um certo suspense criado em torno da instabilidade de Martin Riggs, personagem de Mel Gibson.
O personagem de Danny Glover, por sua vez, é Roger Murtaugh, um detetive já experiente da polícia de Los Angeles que se vê bastante confortável com a vida que leva. De uma hora para outra, isso tudo muda quando lhe é designado Riggs como parceiro, até então policial do departamento de narcóticos. Ao contrário de Murtaugh, pacato pai de família, Riggs é viúvo e, embora seja considerado apto para o trabalho, tem, em decorrência da morte da esposa, uma perigosa tendência ao suicídio, o quê complicada consideravelmente a vida de seu novo parceiro, especialmente quando os dois começam a investigar a morte de uma jovem, e a relação disso com um comércio de heroína coordenado por um ex-agente da CIA.
Conduzido com um refinamento inédito para filmes policiais de ação de então, “Máquina Mortífera” foi uma grata surpresa graças ao roteiro detalhado, espirituoso e inteligente de Shane Black e à direção notável de Richard Donner, duas forças que iniciaram uma pequena reformulação no gênero.

Máquina Mortífera 2
O melhor filme da série.
O primeiro “Máquina Mortífera” surpreendeu o público com uma receita, à época, incomum para um filme de ação, já o segundo, surpreendeu pela perícia com que os realizadores conseguiram superar o antecessor –talvez, porque realizar esta continuação já estivesse primeiramente nos planos do roteirista Shane Black (aqui recebendo o auxílio de Jeffrey Boam, de “Indiana Jones e A Última Cruzada”), que idealizou um desfecho primordial para as maluquices do oficial Riggs.
O segundo filme já começa dizendo a que veio numa seqüência espetacular de perseguição: Um exercício de virtuosismo plenamente indicativo da habilidade do diretor Donner.
A bordo de uma viatura, Riggs e Murtaugh perseguem um veículo suspeito em disparada, e que fica ainda mais suspeito a medida que vai obrigando mais e mais agentes da polícia a se unirem em sua captura.
É a partir dessa cena inicial espetacular que se desenrola o fio narrativo que constituirá a ágil trama desse segundo filme que coloca Riggs e Murtaugh (agora bem mais habituados um com o outro) atrás de uma quadrilha de traficantes controlada por um diplomata da África do Sul, Arjen Rudd (Joss Ackland, um vilão padrão dos anos 1980). Eventualmente, Riggs acaba por se envolver com a bela secretária Rika Van Des Hass (a ótima Patsy Kensit), ao mesmo tempo em que vem a descobrir que o braço direito do vilão, Vorstedt (Derrick O’ Connor), é também o homem que matou a sua esposa.
Ao longo do filme, o diretor Donner entrega uma sucessão de cenas eletrizantes e memoráveis: Além da seqüência inicial, vemos um bandido ser decapitado por uma prancha de surf durante uma perseguição (!); em outra cena, Murtaugh perfura um inimigo com rebitadas de um martelo hidráulico; o mesmo Murtaugh, numa das cenas mais tensas (e engraçadas!) do filme tem de salvar-se de uma bomba instalada em seu vaso sanitário (!); e perto do fim, a caminhonete de Riggs proporciona o espetacular desabamento de uma luxuosa casa envidraçada nas colinas de Hollywood.
Outro fator marcante para a série é a introdução do personagem de Leo Gertz (vivido pelo baixinho Joe Pesci), como o “alívio cômico” oficial da série –embora neste filme ele tenha uma relevância de mais seriedade para com a trama –quando este é detido pela dupla por envolvimento com limpeza de dinheiro proveniente do narcotráfico.

Máquina Mortífera 3
Sem os roteiros de Shane Black –cujo plano era mesmo que a história de Riggs se encerrasse no segundo filme –os filmes subseqüentes se converteram exatamente naquilo que “Máquina Mortífera” aparentava ser, mas no fundo não era: Produções genéricas com fusões ocasionalmente exageradas de comédia e ação.
Como conseqüência disso, uma fórmula se estabeleceu: Um início frenético (espelhando o brilhante prólogo da segunda produção) em geral, sem qualquer conexão com o restante do filme –mais ou menos como as aberturas dos filmes de James Bond –e então a trama pontuada pelos bordões habituais –“Estou ficando velho demais para isso” –na qual A) Riggs ostentava sempre descaso para com vilões e autoridades maiores, B) Joe Pesci, ou melhor, o seu personagem, era carinhosamente destratado pela dupla, que acabou fazendo dele uma espécie de alívio cômico da saga, C) a personagem de Rene Russo, o par romântico de Riggs a partir deste filme, ostentava habilidade prodigiosa de artes marciais e D) o filme ia num crescendo de ação, pancadaria e tiroteios até o final.
São esses ingredientes que conduzem a trama que coloca os dois protagonistas inicialmente como dois rebaixados guardas de trânsito (em conseqüência da apoteótica cena inicial onde acabam já explodindo um prédio inteiro), para em seguida se verem na trilha de uma quadrilha de contrabandistas de armas.
Lançado nos cinema no verão de 1993, “Máquina Mortífera 3”, à época, precisou de todo seu apelo junto ao público e do magnetismo notório que Mel Gibson possuía junto aos expectadores para superar um imprevisto de última hora: A repercussão extremamente negativa do vídeo em que policiais americanos eram mostrados espancando um jovem negro inocente, cuja intensa celeuma deflagrada no período ameaçava a trajetória comercial de filmes como este, estrelados por policiais.

Máquina Mortífera 4
Mel Gibson não é nada bobo. Ele tinha consciência do quão drástico havia sido a queda de qualidade do segundo para o terceiro filme. Com sua carreira estável e aproveitando, já durante a década de 1990, os louros colhidos pelo sucesso de público e crítica da superprodução que dirigiu, “Coração Valente”, não faziam parte de seus planos retomar a série “Máquina Mortífera”. Nem mesmo o cachê vultuoso oferecido pelo estúdio contribuiu para seu regresso. Na verdade, o quê terminou determinando a volta de Gibson –e, por conseqüência, a viabilização do quarto filme –foi um pedido pessoal do amigo Danny Glover: Ele encontrava dificuldade em obter um bom papel em Hollywood sendo “Máquina Mortífera” uma de suas poucas alternativas, por isso, ele praticamente implorou para Gibson aceitar fazer o novo filme.
Neste quarto episódio, os elementos que caracterizavam a série (e que em parte a banalizavam) já estão completamente assimilados pela equipe técnica e pelo elenco. Os atores na verdade parecem encarar tudo como uma grande brincadeira, fato que é potencializado pela atmosfera de grande família que o diretor Richard Donner criou no set ao longo de todos os filmes –e que é absolutamente ratificada nas fotos (tiradas ao longo de todos os quatro filmes) que ilustram os créditos finais. Pena que essa camaradagem acabe se refletindo numa tendência a suavizar bastante uma série que começou violenta e frenética.
Tratado como o episódio final da saga (o que terminou, de fato, acontecendo) esta “parte 4” encontra Riggs e Murtaugh já estabelecidos, deixando a atribulação das cenas de ação para os mais jovens: Agora o bordão “Estou ficando velho demais para isso!” não é mais exclusividade de Murtaugh, mas sim compartilhado pelos dois. Prova disso é a introdução, um tanto forçada e sem muita graça, de Chris Rock, até inesperadamente sério, como um jovem detetive relutantemente envolvido com a filha de Murtaugh.
O roteiro, bem mais ameno e menos violento que nos primeiros filmes, trata de reforçar os conceitos de família: Não só a família de Murtaugh aumenta exponencialmente aqui, como também Riggs e a detetive Lorna Cole (Rene Russo) vão agora ter um filho. Diante disso, é também natural que a representação da criminalidade ganhe assim ares mais simplistas e exóticos; eles agora se deparam contra Wah Sing Ku, desejoso de mobilizar todo o crime organizado de Chinatown e mover um império (e contra muitos prognósticos, o ágil e vigoroso Jet Li revela-se mesmo assim o mais sensacional vilão de toda a saga!).
Os momentos de clímax parecem constantemente insinuar (mas, deliberadamente, jamais concretizar) uma possível morte de Riggs, algo com o qual a série sempre flertou –e até mesmo o marketing deste quarto filme trabalhou em cima dessa possibilidade; entretanto, isso não acontece –e dificilmente viria a acontecer logo neste último e mais “familiar” exemplar da série.
Em tempo: Gibson e o diretor Richard Donner prolongaram sua parceria para além deste projeto em filmes bem interessantes como o inventivo suspense “A Teoria da Conspiração” e o faroeste “Maverick”. Eventualmente ainda falaremos deles...

sábado, 11 de março de 2017

Dois Caras Legais

O roteirista e diretor Shane Black (de “Beijos e Tiros” e “Homem de Ferro 3”) é fascinado por tramas rocambolescas, nada mais natural que investir num filme com ares detetivescos. E se ele vem acrescido de uma ambientação estilosa e sedutora como os anos 1970, tanto melhor.
Dito isso, há muitos elementos irresistíveis em “Dois Caras Legais”, a começar pela ótima dupla de protagonistas, os detetives particulares de diferentes índoles interpretados por Ryan Gosling (hilário) e Russel Crowe (ótimo como sempre). O primeiro tem lá seus princípios, mas eles batem de frente com o fato de que, no ramo competitivo em que está, sua má sorte pode, e deve, levá-lo à praticar atitudes questionáveis. O segundo, em sua truculência, está mais para leão-de-chácara do que para investigador, e isso se reflete na natureza dos casos que constantemente recebe.
Quando o personagem de Gosling é contratado para achar o misterioso paradeiro de uma garota chamada Amélia, e o de Crowe é incumbido de descobrir o quê se passou com uma atriz pornô conhecida como Misty Mountain, a trajetória dos dois colide e, aos trancos e barrancos, eles percebem que têm de se unir para elucidar um mistério que poderá esclarecer ambos os casos.
Curioso lembrar que Shane Black foi também o criador do conceito da série “Máquina Mortífera”, e realmente a exploração da dicotomia entre parcerias disfuncionais é uma constante em seus filmes, tão mais prazerosa quando se tem dois atores fantásticos como Golsing e Crowe. O filme de Black, no entanto, reserva outras maravilhas ao público: Por exemplo, a aparição de Kim Basinger, que se reencontra em cena, com Crowe, vinte anos depois de  terem protagonizado o primoroso “Los Angeles-Cidade Proibida” (uma homenagem, talvez?). E o quê dizer da jovem Angourine Rice, no papel da filha adolescente de Gosling, e que rouba praticamente todas as cenas em que aparece?
Compartilhando a ambientação e certa similaridade conceitual com um filme lançado em 2015, o bem mais autoral e denso “Vício Inerente”, de Paul Thomas Anderson, este divertido, acelerado e inquieto “Dois Caras Legais” se sobressai em meios às obras comerciais como a pequena gema que é.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Homem de Ferro 3

Jon Favreau, o diretor dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro sentia-se esgotado em lidar por tanto tempo com aquele mesmo material –e seu cansaço na condução de “Homem de Ferro 2” é particularmente visível.
Tendo ele então recusado a direção do terceiro filme de Tony Stark, e antes disso, também recusado a direção do filmes dos Vingadores, a Marvel Studios foi em busca de um novo diretor (essa prática passou a ser bastante benéfica para o estúdio e suas produções, não deixando que um mesmo diretor se sobrecarregasse com sucessivos filmes).
Foi o astro Robert Downey Jr. quem interveio, sugerindo para o cargo seu grande amigo Shane Black, realizador do ótimo “Beijos e Tiros”, provavelmente a obra inicial do retorno de Downey Jr. ao estrelato.
Também ator (participou de “O Predador”), além de conceituado roteirista (criou a premissa e escreveu o roteiro dos dois primeiros filmes da série “Máquina Mortífera”), Shane Black contribuiu com seu senso de espetáculo, seu humor pontual e seu gosto por ramificações rocambolescas na trama, proporcionando ao personagem de Tony Stark um filme interessante que dá continuidade aos eventos de "Os Vingadores", mas que gerou uma controvérsia entre o público. Certamente, a maior dentre todos os filmes da Marvel: Os expectadores basicamente se dividem entre aqueles que o consideraram ótimo, tão bom quando os filmes anteriores, e aqueles que repudiaram completamente as escolhas (polêmicas é bem verdade) da história, cujas reviravoltas mostram-se desafiadoras no que tange a alguns elementos canônicos dos quadrinhos, além do humor afiado, incisivo e constante que fizeram muitos imaginar que este era um filme que não se levava a sério –e isso é tema para infindáveis debates.
Quando “Homem de Ferro 3” começa, portanto, Tony Stark (Downey Jr como sempre dando o seu melhor), o Homem de Ferro em pessoa, goza de seu status de celebridade na Costa Oeste após a Batalha de Nova York –ocorrida na segunda metade de “Vingadores” –torná-lo  famoso no mundo inteiro, junto com os outros heróis. Enquanto mantém um relacionamento relativamente sólido com Peper Potts (Gwyneth Paltrow), Tony lida, ao seu jeito, com o stress pós-traumático provocado por aquele conflito: Constrói novas armaduras sem parar!
Já, seu melhor amigo, James Rhodes (o ótimo Don Cheadle), que em “Homem de Ferro 2” assumiu a alcunha de Máquina de Combate, segue atuando agora como Patriota de Ferro. Entretanto, quando um certo Aldrich Killian (Guy Pearce) aparece, Tony começa a suspeitar de seu envolvimento em uma série de atentados relacionados a uma droga experimental, a Extremis, e que levam diretamente a um terrorista disposto a ameaçar a vida do próprio presidente dos EUA: o misterioso Mandarim (Ben Kingsley, numa atuação soberba).
Gozando do privilégio de ser o primeiro filme a iniciar a "fase 2" da Marvel Studios, ou seja, todos os planos envolvendo o Universo Marvel após o estrondoso filme dos Vingadores, “Homem de Ferro 3” foi audacioso nos rumos inventivos que buscou dar para personagens já estabelecidos –ao mesmo tempo que ele reinventou por completo o celebradíssimo arco “Extremis”, dos quadrinhos, o roteiro não se intimidou de subverter a lógica e a origem do vilão Mandarim (um personagem muito aguardado pelos fãs), dando a ele um background metalingüístico inesperado (para não dizer desconcertante!) que chocou o público, frustrando alguns expectadores e surpreendendo outros tantos.
O filme de Shane Black também mostra audácia na maneira com que amarra pontas soltas dos filmes anteriores do Homem de Ferro, firmando-se como um “final de trilogia” –ainda que todos sabiam, a trajetória de Tony Stark não tenha se acabado.
O mais controverso filme da Marvel Studios, o sarcástico e espetacular “Homem de Ferro 3” mostrou, pelo menos, que o estúdio tinha muita lenha pra queimar, mesmo depois de “Vingadores”.