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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

A Fuga


 Em seu livro “Especulações Cinematográficas”, Quentin Tarantino dedica um capítulo inteiro a falar de “Os Implacáveis”, dirigido por Sam Peckinpah, estrelado por Steve McQueen e Ali MacGraw, adaptado de um livro de Jim Thompson, roteirizado por Walter Hill e lançado em 1972. O mesmo filme –talvez, o último grande filme da carreira do astro McQueen –foi refilmado, nos anos 1990, neste “A Fuga” –cujo o título original é o mesmo, “The Getaway”. E talvez seja mesmo imprescindível tecer esse comentário: “A Fuga” é daquelas produções que se mostra muito mais baseada no filme anterior que adaptou a obra do que na própria obra adaptada.

Não à toa, o roteirista aqui é novamente Walter Hill (em colaboração com Amy Jones) que, na segunda metade da década de 1970 e ao longo de toda década de 1980, sagrou-se como um diretor especializado na ênfase da masculinidade e da violência, ambos elementos em constante conjugação; mais ou menos como um pupilo de Sam Peckinpah. Já o diretor deste novo “The Getaway” vem a ser Roger Donaldson (de "Sem Saída") cujo estilo característico, tão charmoso quanto presunçoso, adorna com elementos típicos dos anos 1990, a trama de tormento romântico e perseguição que se desenrola, com algumas referências, sobretudo, na primeira parte, ao requintado cinema policial de Michael Mann, especialmente o clássico “Profissão: Ladrão”.

Carter ‘Doc’ McCoy (Alec Baldwin) e Carol (Kim Basinger) são casados e apaixonados; mais que isso, são frequentemente cúmplices nas investidas criminais que executam. Uma delas (o resgate das mãos de policiais do sobrinho de um chefão fora-da-lei) dá errado: Com isso, graças à traição do muy amigo Rudy Travis (Michael Madsen), Doc amarga pouco mais de um ano atrás das grades de uma penitenciária no México. Para salvá-lo, a esposa, Carol, negocia com o empresário inescrupuloso Jack Benyon (James Woods, todo serelepe numa ponta especial) a libertação de Doc e, com isso, sua participação num grande roubo. As coisas começam a se complicar quando Doc e Carol devem aceitar como companheiros nesse roubo –basicamente, uma invasão explosiva e perigosa numa casa de apostas de corrida de cachorros –o instável Frank Hansen (Philip Seymour Hoffman, ainda bem jovem) e, mais uma vez, o traiçoeiro Rudy.

O assalto se sucede sem maiores atropelos, entretanto, tão logo os três saem com a generosa quantia de dinheiro roubado em mãos, as traições de costume começam a se suceder: Rudy fulmina Hansen à tiros e, ao tentar fazer o mesmo com Doc no ponto de encontro, é alvejado e largado ao léu no leito de um rio. Já, Benyon imaginava outra coisa: Tendo negociado com Carol a liberdade de Doc em troca de favores sexuais (e revelado isso à Doc em cima da hora), Benyon esperava que Carol traísse seu parceiro e se juntasse a ele, mas, Carol descarrega sua arma no próprio Benyon e agora, o casal fica com mais um cadáver nas mãos.

Doc e Carol têm assim, uma mala de dinheiro consigo, porém, as autoridades, os homens de Benyon (chefiados por um sibilante David Morse) e o próprio Rudy (que sobreviveu aos tiros!) para caçá-los até chegarem à fronteira do México, onde os documentos falsos de praxe possibilitarão que desapareçam do mapa. A situação, no entanto, se revela ainda mais complicada com o fato de que, agora, com as novas revelações acerca de toda a real dimensão do trato feito com Benyon, Doc e Carol não mais confiam um no outro como antes.

Ao conferir as considerações de Tarantino acerca de “Os Implacáveis”, podemos entender algumas das escolhas tomadas aqui neste filme. Em primeiro lugar, as escolhas para os antagonistas: Se no filme de 72, Benyon era vivido por um ligeiramente inadequado Ben Jonhson (velho demais e sexualmente apático demais para o papel), nesta versão, Benyon tem a maldade libidinosa de James Woods (sem dúvidas, um acerto), enquanto que em 72, tínhamos o contido e truculento Al Lettieri para o papel de Rudy, aqui temos, o nada contido e ainda mais truculento Michael Madsen, dando toda a dimensão psicopata e imprevisível que ficou faltando em Rudy no filme anterior, durante sua sórdida sub-trama na qual empreende uma perseguição ao casal Doc/Carol levando como reféns, o desafortunado veterinário Harold (James Stephens) e sua espevitada esposa Fran (Jennifer Tilly), cuja Síndrome de Estocolmo logo a leva a tornar-se amante de Rudy (!?).

Já os protagonistas de “The Getaway” são um caso curioso –e sobre muitos aspectos até de apelo junto ao público, a grande razão de ser do projeto: Casados na vida real, Kim Basinger (assombrosamente linda, e no auge de seu status de sex-simbol máximo no cinema de então) e Alec Baldwin estrelam a obra em circunstâncias até bem parecidas com as quais o público se acostumou a ver Ali MacGraw e Steve McQueen no “The Getaway” dos anos 1970 –foi durante essas filmagens, que McQueen (divorciado à pouco tempo) engatou um romance com MacGraw (então casada com o produtor Robert Evans).

Dito isso, não são as cenas de ação (executadas com minúcia e precisão técnica o suficiente para não fazer feio ante a comparação com Peckinpah) nem a trama frenética e palpitante em torno da perseguição (bem equacionada entre as manobras de roteiro e a criteriosa montagem) que representam o maior atrativo desta produção na época em que foi lançada (meados de 1994) e agora: São as tórridas cenas de sexo entre o casal Alec Baldwin/Kim Basinger (cuja primeira colaboração juntos foi a comédia “Uma Loira Em Minha Vida”). Na verdade, essas cenas por pouco não tiraram completamente a atenção sobre todo o restante do filme –não apenas pelo irresistível apelo (em plenos anos 90, época do sexploitation chic, as produções erotizadas como “Instinto Selvagem”) da nudez em cena de uma estrela como Kim Basinger, como também pela ousadia até hoje flagrante de tais sequências –ainda é possível observar nessas cenas indícios, que repercutiram desde o começo, nos quais o casal principal pode ter chegado às vias de fato durante as filmagens (!).

Portanto, “A Fuga”, embora tenha predicados técnicos e artísticos de cinema (tímidos, no fim das contas), deixa esses tais aspectos de lado, que fizeram de “Os Implacáveis” o filme sensacional de ação que ele é, para abraçar considerações mercadológicas (e, hoje, estranhas) bem particulares de sua época.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

8 Mile - Rua das Ilusões


 Como todo artista apaixonado pela arte que exerce, o rapper Eminem, em sua estréia cinematográfica, queria a energia das ruas a definir a vibração musical de seu filme.

Para a plena realização de seu intento, ele conseguiu para “8 Mile” o diretor Curtis Hanson, um habilidoso apreciador da natureza humana e profundo entendido dos códigos a determinar o gênero de um filme –vide seus formidáveis “Los Angeles-Cidade Proibida” e “Garotos Incríveis”.

Eminem vive (e muito bem!) o jovem Jimmy ‘Rabbit’ Smith, morador do subúrbio de Detroit, membro de um grupo de amigos que obedece todas as características dos jovens suburbanos norte-americanos: Falam em gírias, vestem-se de modo informal, extravasam constantemente sua agressividade latente e têm, na maioria das vezes, um pé já fincado na criminalidade.

Jimmy nutre certa consciência –em grande parte motivado pela condição alcoólatra da própria mãe (Kim Basinger) –mas convive com circunstâncias que insistem em marginalizá-lo.

As agruras de Jimmy se acumulam até culminarem na fabulosa cena do duelo de rappers ao final do filme, onde Eminem justifica toda a árdua provação que experimentou na arte da atuação ao longo do filme ao demonstrar, com seu talento musical irreprimível, porque este filme é todo dele –e porque sua presença, inteligência e perspicácia como músico, compartilhada certamente com o personagem que interpreta, é o que difere Jimmy da fauna medíocre e sem futuro que o rodeia.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

A Morte e Vida de Charlie


 Revelado no fenômeno adolescente “High School Musical”, o ator Zac Efron demonstrou capacidade em muitos projetos distintos que foram além da obra juvenil que iniciou sua carreira. Um desses projetos foi esta adaptação do best-seller de Ben Sherwood cujo objetivo, nem um pouco disfarçado, é levar a plateia às lágrimas. O resultado –de qualidade satisfatória –mostra que tal objetivo foi atingido por meio de méritos genuínos e sem abraçar obviedades na maior parte do tempo.

Morador de uma cidadezinha costeira, o jovem Charlie St. Cloud (Efron) vive com sua família que restringe-se à mãe enfermeira (Kim Basinger) e ao irmão pequeno Sammy (Charlie Tahan, de “Eu Sou A Lenda”). A vida segue seu rumo normal quando Charlie, que fez fama na cidade como campeão velejador, obtém uma bolsa de estudos na Universidade de Stanford e prepara-se para deixar o lugar, para ressentimento do seu irmão mais novo, para quem Charlie é um ídolo e companheiro.

Entretanto, a trama dá uma imprevista guinada quando Charlie, numa noite em que a mãe dos dois fez plantão, envolve-se num trágico acidente automobilístico com Sammy.

Charlie é milagrosamente revivido por um paramédico (vivido por Ray Liotta), mas, para Sammy já é tarde.

Contudo, Sammy não deixa Charlie em definitivo: Honrando uma promessa que fizeram em vida –de encontrarem-se, todos os dias, ao pôr-do-sol para treinarem beisebol –Sammy retorna, ao entardecer para Charlie, e somente para ele.

Com isso, nos cinco anos seguintes, Charlie abdica da universidade, dos campeonatos marítimos e de qualquer tipo de futuro, para não ter de despedir-se de seu irmão caçula, que mesmo falecido continua a visitá-lo ao fim de todas as tardes. Trabalhando assim como zelador do cemitério local, em consequência disso, Charlie se torna o ‘esquisitão da cidade’ embora ninguém –nem mesmo ele –se dê conta do dom mediúnico que ele adquiriu naquele acidente: O fantasmo de outro amigo, falecido em exercício como cadete do exército (vivido por Dave Franco) também lhe aparece numa breve, mas significativa cena.

É a jovem Tess (Amanda Crew, de “Evocando Espíritos” e “Sex Drive-Rumo Ao Sexo”), outra jovem velejadora do lugar, quem aparecerá para tentar libertar Charlie das prisões existenciais a que ele se impôs, e que o impedem de viver plenamente e encerrar seu luto.

Dirigido com hegemonia e transparência por Burr Steers (de “Orgulho & Preconceito & Zumbis”), “A Morte e Vida de Charlie” é um drama com pitadas de romance e até de certa aventura que se encaixaria com perfeição em meio aos ‘clássicos da sessão da tarde’ tão inofensivo e abertamente emotivo ele é –trata-se exatamente de uma dessas produções hollywoodianas feita sob medida para adequar-se ao gosto do público, sem ofendê-lo e sem exacerbá-lo, veículo perfeito para um astro emergente. A diferença é que, no mais, ele acerta em tudo que deveria: O astro em questão, Zac Efron, tem talento o bastante para sair-se bem em cativar o público feminino sem irritar o público masculino, a trama –com algumas reviravoltas até bastante pontuais, inesperadas e capazes de preservar o interesse na narrativa –não é condescendente para com os expectadores e o trabalho da direção conduz o filme com bela noção de ritmo, lógica e atmosfera.

Trocando em miúdos: Não é nada fora do comum, mas funciona que é uma beleza.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Sem Perdão

Quando a Columbia Tris-Star Pictures (hoje, Sony Pictures) financiou um filme para o produtor D. Constantine Conte, o projeto que ele lhes vendeu foi uma espécie de “noir dos anos 1940” transfigurado para o tempo presente de então (1986), no qual Richard Gere interpretava, nas suas palavras, “uma versão contemporânea dos personagens de John Garfield”.
Reza a lenda também que a estrela Kim Basinger foi escalada por que os produtores queriam uma protagonista nos moldes sensuais de Rita Hayworth; uma sensual cena de dança que ela pratica em dado momento do filme faz alusão à famosa cena de Hayworth em “Gilda”.
Entre essas intenções e o resultado final de “Sem Perdão”, no entanto, muita coisa mudou –ou o produtor Conte foi um tremendo malandro...
Na verdade, são os elementos oriundos de um cinema comercial dos anos 1980 baseado em fórmulas que realmente definem “Sem Perdão”. Entretanto, o manejo desses elementos se dá com tanta desenvoltura e suas escolhas resultam tão felizes que  o convencionalismo de sua estrutura e proposta até faz bem: Ele promove uma sensação confortável ao expectador para que absorva a trama sem preocupações acompanhando suas guinadas mais pelo charme com que tudo é narrado do que pela originalidade em si; mais pelo carisma que verte de seus personagens do que propriamente por suas motivações.
Detetive da polícia de Chicago, o instável Eddie Jillette (Richard Gere) tropeça num caso desigual: Um traficante preso lhe confidencia que um figurão lhe fez uma proposta para matar alguém importante em Nova Orleans.
Jillette e seu parceiro, e melhor amigo, mal têm tempo de se passar pelo traficante para obter informações e são atacados –o amigo de Jillette é morto, o que representa um estopim para colocar o policial em rota de colisão com os misteriosos bandidos.
Assim, alimentado pelo desejo de vingança –um mote de nove a cada dez filmes policiais feitos na época –Jillette vai para Nova Orleans atrás da única pista que tem: A escultural Michel (Kim Basinger, uma aparição) que estava presente no momento em que seu amigo foi assassinado e é, possivelmente, a única testemunha viva do ocorrido.
Atuando clandestinamente –pois os tiras daquela jurisdição, representados pelo rabugento Hall (Bruce McGill, de “Ao Vivo de Bagdá”), não o querem investigando ali –Jillette encontra Michel numa boate do bairro barra-pesada Argel, e descobre, após escapar com Michel algemada à ele de um tiroteio, que o lugar (assim como a própria Michel) pertence ao poderoso e perigoso Losado (o ameaçador Jeroen Krabbé, o segundo ator mais reconhecido, depois de Rutger Hauer, dos filmes holandeses de Paul Verhoeven).
Escapando através dos pântanos inóspitos da Lousianna, um algemado ao outro, Jillette e Michel passam dias a vagar nos charcos dos rios e com isso desenvolvem uma espécie de sintonia –seria de fato, desperdício colocar os fotogênicos e sedutores Richard Gere e Kim Basinger em cena sem engendrar aí um romance.
A despeito da trama óbvia (extremamente similar a um grande sucesso da época, a comédia “Um Tira da Pesada”), é nesses aspectos que o filme dirigido por Richard Pearce de fato ganha força. As atuações orgânicas e viscerais de Gere e Basinger trabalham num compasso harmonioso com a direção realista e minimalista, sábia em evidenciar a história e suas nuances de ordem dramática em detrimento da ação e da investigação –características que teriam sido o ponto fraco do filme não fosse essa sensata inclinação ao drama romântico.
É, de fato, no foco dos dois protagonistas, o policial Jillette e a amante do bandidão Michel, que “Sem Perdão” encontra algum diferencial: Apesar da impaciência e da agressividade que pulsa de ambas as partes desde o momento em que fogem aos tiros dos homens de Losado, passando pelos perengues nos pântanos estando algemados, até enfim conseguirem voltar à cidade, é perfeitamente crível a empatia que vai surgindo entre os dois, e que se converte em paixão, estreitando ainda mais a ameaça de Losado sob os apaixonados. Prova de como a química entre eles se mostrou certeira, é que Kim Basinger e Richard Gere realizaram juntos outro filme, anos depois, o suspense “Desejos”.
É claro que, na mescla de gêneros que promove, “Sem Perdão” não vai deixar  que seus desenlaces afetivos terminem sem tiros e explosões, afinal, nos códigos desse tipo específico de dramaturgia –o que os leva até a apoteótica cena final, decalcada, por sua vez, dos exemplares do faroeste –existe, afinal de contas. uma quantia determinada de decibéis a serem dispendidos para que o mocinho e a mocinha se tornem merecedores de chegarem vivos e juntos ao fim do filme.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Encontro Às Escuras

O diretor Blake Edwards e o astro Bruce Willis se reuniram pela primeira vez em 1987 –mais tarde, em 1988, eles fariam novamente juntos o charmoso, mas irregular “Assassinato Em Hollywood” –nesta comédia romântica feita sem sombra de dúvida para capitalizar em cima do sucesso de Willis na série de TV “A Gata e O Rato”. Para um ator de perspectivas promissoras, o papel de um galã em potencial num filme divertido e romântico era uma boa e segura estratégia na carreira, e ele ainda contava com a direção de um dos mais hábeis realizadores de comédia de todos os tempos.
O resultado, se não atinge os picos de genialidade da filmografia de nenhum dos dois, ao menos é plenamente satisfatório, e continua agradabilíssimo de ser visto mesmo hoje, quase quarenta anos depois.
Willis contribui com credibilidade e carisma para interpretar Walter Davis, outrora um músico que abriu mão de sua vocação para trabalhar num emprego de boa remuneração: No caso, um executivo de uma empresa atolado de yuppies ambiciosos.
Todos estão concentrados no fechamento de um negócio com um magnata chinês e, para tanto, todos devem, portanto, se reunir num restaurante para um jantar coletivo, onde querem passar a melhor das impressões ao provável cliente.
Walter deve, então, comparecer com uma acompanhante adequada.
Eis que seu irmão lhe empurra então uma amiga da esposa, completa desconhecida, mas que ele garante seu uma moça bela, interessante e simpática –só há uma condição (à qual não é dada muita atenção por Walter): Nada de fazê-la beber bebida alcóolica!
Ao conhecê-la, um bom sinal: Nadia é linda (e interpretada por Kim Basinger, tão sedutora morena quanto o é loira) e, ao que tudo indica, uma companhia bastante agradável para a noite.
Lá pelas tantas, porém, Walter resolve abrir uma garrafa de champanhe para dividir com Nadia e, para o bom entendedor das tramas engendradas nos filmes de Blake Edwards, já fica claro que é dada a deixa para as confusões começarem: Uma vez embriagada, Nadia é um verdadeiro imã para confusões; ela tumultua o jantar de forma irreparável e as coisas não param por aí; o casal vai a outros lugares onde a embriaguez dela sempre consegue colocar o pobre Walter em maus lençóis –além da ocasional presença do ex-namorada maluco dela, o instável David (John Larroquete, um vilão cômico e abestalhado).
Amparado como tantas outras comédias que vieram antes e depois onde tudo se deflagra em meio a uma noite muito tumultuada –embora seu trecho final, seu clímax, digamos, se dê em outro lugar e em algum tempo depois –“Encontro Às Escuras” fazia parte do repertório de obras oitentistas que foram reprisadas à exaustão na televisão, criando com isso uma geração inteira de cinéfilos que deve tê-lo visto diversas vezes em sua exibição.
Edwards já havia demonstrado mais talento e brilho em outras obras, Willis trilhava aqui o início de um caminho que o tornaria um astro radiante nos anos 1990 (“Duro de Matar” também sairia no ano seguinte) e Kim Basinger, ainda que bela e encantadora, viria a tomar o cinema comercial de assalto com “9 e ½ Semanas deAmor” e com “Batman” sagrando-se como o grande símbolo sexual dos anos 1990, todos esses elementos (a habilidade de seu diretor; a popularidade de seu astro; o apelo sensual de sua estrela) podem ser conferidos em menor grau nesta descompromissada comédia romântica que diante do objetivo de entretenimento singelo a que se propõe não merece padecer diante de maiores expectativas.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Desejos

Os astros Richard Gere e Kim Basinger já haviam feito um par no romance policial “Sem Perdão”, de 1986 –uma das muitas obras comerciais ameaçadas pelo esquecimento à medida que novas mídias perpetuam apenas alguns específicos títulos –e tornaram a fazê-lo, já em 1992, com este “Desejos”, onde o diretor Phil Joanou (de “Te Pego Lá Fora”) traveste-se até descaradamente de Alfred Hitchcock; e cujo oportunista título nacional certamente almejou capitalizar em cima de sua atriz principal, um dos maiores símbolos sexuais dos anos 1980 e 90.
“Desejos” começa em São Francisco com a rotina usual do psicanalista Dr. Isaac Barr (Richard Gere) que atua tanto privadamente (atendendo as neuroses de seus clientes) como publicamente (prestando avaliações psicológicas em casos julgados no tribunal), sobretudo, aqueles defendidos por seu melhor amigo, o advogado O’ Brien (Paul Guilfoyle, de “Spotligth-Segredos Revelados”).
Entre os clientes que o Dr. Barr atende está Diana (Uma Thurman) cujos transtornos parecem tão profundos que levam ele a consultar também a irmã mais velha dela, Heather (Kim Basinger).
Entretanto, Heather é extraordinariamente bela e sedutora, e não tarda a fazer do disponível Dr. Barr seu amante. Ela é casada com o gangster Jimmy Evans (Eric Roberts), e com isso, as engrenagens do suspense usual já começam a girar. No entanto, o diretor Joanou, em dado momento sai-se com uma guinada (que curiosamente não surpreende) quando Heather, num surto repentino, o mata.
“Desejos” converte-se então em um filme de julgamento (sub-categoria que proliferou nos anos 1990), onde está em jogo a inocência de Heather e seu romance com Isaac Barr.
Até então, o filme testa consideravelmente a paciência do expectador com uma condução enfadonha e lenta onde o diretor procura saborear os meandros minimalistas da narrativa enquanto planta indícios que se revelarão pertinentes mais tarde, o público, porém, alheio a isso tem dificuldade de se envolver com tais aspectos: Em grande parte, porque Joanou não se deu conta de que, enquanto emulava Hitchcock nessa primeira hora de filme, nada absolutamente acontecia.
Se há algo que assegura algum interesse são deveras as presenças de Gere (que aqui atua como produtor também) e, em especial, Kim Basinger, sempre uma atriz funcional em diversos aspectos, além do desbunde de mulher que é!
É irônico, portanto, que, ao adentrarmos a segunda metade (ou talvez até o terceiro terço tão arrastada é sua condução), quando o filme promove uma nova reviravolta, seja justamente a empatia da personagem de Kim com o público que a narrativa parece descartar, ao contextualizá-la como uma femme fatale –papel que cai muito bem na loiraça.
Porém (e essa lição parece ter sido esquecida por Joanou), uma boa antagonista requer um protagonista tão bom quanto, e esse papel, o personagem entediante e raso de Gere não é capaz de preencher.
Dessa forma, a trama até ganha em surpresas, mas perde em precisão: Hitchcock, ao contrário daqui, sempre foi hábil e austero no manejo de elementos e personagens que o público odeia amar e ama odiar.
O que sobra em “Desejos” são, portanto, as referências a serem identificadas: A ambiguidade na protagonista que remete à “Marnie-Confissões de Uma Ladra”; o assassinato súbito (a eliminar um personagem que aparentava ter importância junto a trama) dando novo rumo ao filme como em “Psicose”; as insistentes observações de ordem psicanalítica, como em “Quando Fala O Coração”; e (a mais gritante de todas) o desfecho retumbante e vertiginoso no alto de um farol que em tudo e por tudo faz lembrar “Um Corpo Que Cai”.
A homenagem que o estiloso Phil Joanou presta a Alfred Hitchcock é sincera, faltou apenas fazer um grande filme (à altura daqueles do mestre do suspense) com ela.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1998

A cerimônia realizada em 1998 foi a grande noite de James Cameron. E não tinha mesmo como a Academia ignorar o fenômeno que foi “Titanic”, na época a produção mais cara até então do cinema, assim como também sua maior bilheteria. Suntuoso, bonito, estupendamente bem realizado e cercado por estatísticas sem precedentes, era de se esperar que o Oscar se curvasse a tamanho triunfo.
E ele o fez desde o começo: Primeiro igualando “Titanic” ao recordista isolado em número de indicações –foram 14, até então apenas ”A Malvada” detinha tal honraria.
Na premiação em si, o épico romântico de Cameron encerrou a noite igualando, por sua vez, o recorde de 11 estatuetas que “Ben-Hur” mantinha há quarenta anos.
O restante dos filmes –um tanto ofuscados por esse fenômeno –eram produções de extrema qualidade que representavam, cada um ao seu modo, as distintas facetas das produções dos estúdios de Hollywood: o film noir com “Los Angeles-Cidade Proibida”; a comédia romântica com “Melhor ÉImpossível”; e o cinema independente com “Gênio Indomável”.
Ao gracioso “Ou Tudo Ou Nada” restava a responsabilidade de representar o cinema inglês entre os indicados.
Ah, e o cinema brasileiro mais uma vez perdeu a chance de ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “O Quê É Isso,Companheiro?”...

MELHOR FILME
"Titanic"

MELHOR DIREÇÃO
"Titanic", James Cameron

MELHOR ATRIZ
Helen Hunt, "Melhor É Impossível"

MELHOR ATOR
Jack Nicholson, "Melhor É Impossível"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Kim Basinger, "Los Angeles-Cidade Proibida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Robin Williams, "Gênio Indomável"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Titanic"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"The Long Way Home"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"A Story of Healing"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Caráter" (Holanda)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Titanic"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Titanic"          

MELHOR MAQUIAGEM
"Homens de Preto"

MELHOR FIGURINO
"Titanic"

MELHOR SOM
"Titanic"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Titanic"

MELHOR TRILHA SONORA - DRAMA
“Titanic"

MELHOR TRILHA SONORA – MUSICAL OU COMÉDIA
"Ou Tudo Ou Nada"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"My Heart Will Go On", de "Titanic"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Gênio Indomável"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Los Angeles-Cidade Proibida"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR MONTAGEM
"Titanic"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"Visas and Virtue”

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

007 - A Fase Sean Connery

Por qual razão deixei o período de Sean Connery como James Bond (justamente o primeiro!) por último? Talvez, por que envolve mais filmes do que os demais... se incluirmos aí o imbróglio que foi a tentativa dos produtores de substituí-lo por um outro ator visivelmente mal escolhido (o pouco carismático George Lazenby, sobre quem falaremos um pouco mais a frente), o quê levou-os a trazer Connery de volta, mas, acima de tudo, a razão para isso deve ser o quão absolutamente icônico Connery é nesse papel, e o quanto imprescindíveis para a cultura pop os seus filmes como James Bond são.
Ele foi o primeiro dentre todos a viver James Bond. E ele é (a despeito da aceitação inquestionável da qual Daniel Graig goza hoje) a pedra fundamental a partir da qual todos os intérpretes seguintes sofrem a comparação.

O Satânico Dr. No
Pragmático, denso, rocambolesco. O roteiro do primeiro filme realizado de James Bond chama a atenção por trazer elementos que destoam das aventuras mirabolantes que se tornaram paradigma da série: Ainda tentando encontrar o tom apropriado das aventuras de 007 para as telas de cinema, os realizadores constroem aqui um filme de espionagem de fato, onde o protagonista James Bond é um detalhe em meio a uma trama construída de diversos pormenores, levando o assim chamado agente 007, do Serviço Secreto Britânico a investigar estranhos acontecimentos na Jamaica.
A despeito da atuação bastante característica do ator Joseph Wiseman como o vilão-título, Dr. Julius No, a grande presença do filme é mesmo a da deslumbrante sueca Ursula Andress, inaugurando o hall das bondgirls e já estabelecendo um elevadíssimo patamar de beleza: Ela não somente foi a primeira como até hoje é uma das parceiras do herói preferida pelos fãs.

Moscou Contra 007
Herdando uma certa percepção do filme anterior –onde a trama mais complexa e suas elucubrações tinham uma característica divergente das fórmulas que a série passou a adotar –a história deste filme gira em torno dos planos fatais da organização S.P.E.C.T.R.E. para com o eficaz James Bond, um agente britânico que, eles sabiam, começava a dar-lhes dor de cabeça.
Dessa maneira, é despachada uma espécie de “distração” para nosso herói, uma à qual ele não seria capaz de resistir dado seu histórico mulherengo, nas curvas realmente esculturais de Tatiana Romanova (Daniela Bianchi, deliciosa).
Os produtores mantiveram o competente diretor do filme anterior, Terence Young, que aqui demonstrou mais tranqüilidade com o material fazendo um filme mais dinâmico e muito mais bem equilibrado entre as facetas técnicas de uma produção cheia de efeitos especiais e as exigências comerciais de um filme que oscila entre a aventura, a ação e um bem administrado senso de humor.

007 Contra Goldfinger
Sai Terence Young, entra Guy Hamilton como diretor, neste que, para muitos, é o filme que estabeleceu o padrão, a fórmula por meio da qual um típico filme de James Bond é construído. E isso até é verdade, embora a questão dele ser ou não o melhor filme de 007 seja relativa e pessoal –eu mesmo considero “Moscou Contra 007” infinitamente superior a este daqui.
A trama introduz um vilão bem característico dos antagonistas que Bond teve, com a diferença de que o maquiavélico Goldfinger (Gert Froebe, numa composição pouco usual) é, em geral, mais lembrado pela natureza memorável com que este filme o apresenta.
Seu plano –que James Bond tem por missão impedir –é contaminar toda a reserva de ouro do governo dos EUA depositada em Fort Knox.

007 Contra A Chantagem Atômica
No quarto filme da série a fórmula estava estabelecida e funcionava como uma máquina bem azeitada, os mesmos ingredientes se sucediam de maneira competente, bem administrados mais uma vez pelo diretor Terence Young: Movimentadas perseguições, um desfile de beldades no elenco feminino, um tempero de humor característico e sofisticado (cortesia do refinamento na composição proporcionada por Connery) e a execução de notáveis seqüências submarinas de ação.
Desta vez, James Bond deve impedir que a organização criminosa S.P.E.C.T.R.E. cumpra uma terrível ameaça: Destruir uma série de mísseis nucleares se os governos do mundo não lhes fornecer a soma de cem milhões de dólares em diamantes.
Foi este filme –premiado com o Oscar de Melhores Efeitos Especiais –que serviu de pivô para um processo judicial movido pelo co-produtor Kevin McClory que estendeu-se por décadas e culminou na inusitada realização de “Nunca Mais Outra Vez”, do qual logo falaremos...

Com 007 Só Se Vive Duas Vezes
A ambientação da nova aventura de 007 foi modificada a fim de inserir novidades sistemáticas à série: Aqui, Bond visita o Japão com direito a duas bondgirls japonesas (Akiko Wakabayashi e Mie Hama) –que, por sua vez, destoam ligeiramente do padrão de beleza das mulheres vistas até então na série.
Satélites e artefatos espaciais dos EUA e da União Soviética são misteriosamente roubados e, na tensão política proporcionada pela Corrida Espacial de então e pela Guerra Fria (mote do qual a Fase Sean Connery usou e abusou), essas duas superpotências se vêem à beira de um conflito.
O agente 007, designado devido às circunstâncias neutras do Serviço Secreto de Inteligência Britânica, segue a única pista para elucidar a identidade do arquivilão responsável por tudo, o quê o leva a uma aldeia japonesa.
Cinco filmes. A sucessão de trabalhos que o atrelavam a um mesmo personagem começava a cansar o ator Sean Connery, que nutria outros planos para sua carreira.

007 À Serviço Secreto de Sua Majestade (com George Lazenby)
A primeira tentativa real de substituição do ator de 007 se deu neste filme. O grande problema enfrentado pelo australiano George Lazenby foi não apenas a incrível adequação que Sean Connery teve com o personagem, como também a larga aceitação de público para sua caracterização; e o fato da estatura avantajada de Lazenby lhe dar um aspecto ligeiramente desengonçado (pouco condizente com o charme à toda prova de Bond) não ajudou muito –para os fãs, a ironia requintada imposta por Connery não encontrou um substituto à altura, por mais que a produção fosse caprichada, dinâmica e, dentre os filmes da franquia, fosse um dos que trabalhava com mais refinamento a dicotomia entre a estética rica e detalhada, a execução fluída e envolvente, e as cenas de ação.
A missão deste novo Bond é assim deter o chefe da S.P.E.C.T.R.E., Blofeld (interpretado por Telly Savalas), cujos planos visam contaminar o mundo com um vírus fatal.
Uma boa aventura, pena que seus méritos passaram despercebidos pela platéia e pelos críticos completamente atentos à inadequação do ator principal.

007-Os Diamantes São Eternos
Dessa maneira, foi necessário que Albert Broccoli e seus sócios desembolsassem uma grana considerável para trazer Sean Connery de volta.
E não é que “Os Diamantes São Eternos”, dirigido pelo mesmo Guy Hamilton de “Goldfinger”, figura mesmo entre uma das mais sensacionais aventuras do agente secreto?
Aqui, Blofeld (agora vivido por Charles Gray) organiza uma rede internacional de ladrões especializados em roubar um tipo muito particular de diamante, restando a James Bond a tarefa de deter o plano de seu inimigo.
Embora bem-sucedida –em muitos aspectos devido ao retorno de Sean Connery –era óbvio que os produtores teriam de seguir em frente sem o astro a partir daqui: Até pela fortuna que pagaram para tê-lo de volta, Connery havia se tornado uma opção cara demais para uma série que almejava produções com um intervalo de dois anos entre um filme e outro.
Foi aqui que os produtores começaram a notar no protagonista de uma série inglesa de nome, “O Santo”, um tal de Roger Moore...
Contudo, James Bond e Sean Connery ainda voltariam a ter seus caminhos cruzados.

Nunca Mais Outra vez
Um caso totalmente à parte na franquia 007, mas tão curioso e intrigante que não poderia ter ficado de fora, o projeto de “Nunca Mais Outra Vez” só viu a luz do dia graças à uma complicação judicial envolvendo os direitos autorais de um dos livros de Ian Fleming, o já adaptado “007 Contra a Chantagem Atômica”, nos anos 1960: A insatisfação do co-produtor daquele filme, Kevin McClory, fez com que uma disputa judicial pelos direitos desta obra específica fosse a julgamento, sob a alegação de que McClory desejava refilmar o resultado que o frustrou, possibilitando a ele usar a mesma trama e os personagens nela citados numa filme, digamos, bastardo... de James Bond.
O andamento caracteristicamente lento desse processo judicial levou duas décadas, fazendo com que “Nunca Mais Outra Vez” terminasse produzido e lançado em 1983, mesmo ano em que foi também lançado “007 Contra Octopussy”, com Roger Moore.
Espertamente, o produtor Kevin McClory não poupou despesas e providenciou a escalação de Sean Connery (já um tanto envelhecido, mas ainda espetacular no papel) e o cercou com um elenco de apoio sensacional (Edward Fox como M, Alec McCowen como Q, Max Von Sydow como o vilão Blofeld, chefe da S.P.E.C.T.R.E., e uma Kim Basinger recém-saída da carreira de modelo como a bondgirl da vez). A trama parte do inteligente princípio de que apenas os filmes estrelados por Connery contam em sua pressuposta cronologia, fazendo deste aqui uma espécie de encerramento –são constantes as menções e afirmações do herói acerca de sua iminente aposentadoria –justificando plenamente o título recebido.
Para comandar a aventura, um nome aparentemente interessante: Irving Keshner, então em alta com público e crítica por ter entregado aquele que é tido até hoje como o melhor de todos os “Star Wars”, “O Império Contra-Ataca”.

Visto hoje, “Nunca Mais Outra Vez” não resistiu tão bem ao tempo como muitos dos títulos oficiais protagonizados por Sean Connery, e até mesmo alguns que já contavam com Roger Moore.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Vidas Que Se Cruzam

No principio, o escritor Guillermo Arriaga e o diretor Alejandro Gonzáles Iñarritu dividiram uma rara compatibilidade artística. Desse entendimento surgiu uma parceria que rendeu obras elogiadas como “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel” –estes dois últimos filmados nos EUA quando ambos já gozavam de um reconhecimento internacional.
Com a ruptura vieram as tentativas (de ambos os lados) de seguir caminhos próprios.
Arriaga, após fracassar em estabelecer a mesma sintonia com outros realizadores (vide o irregular “Búfalo da Noite”), buscou ele próprio assumir as rédeas, como diretor dos roteiros que ele mesmo concebia. O resultado é este drama promissor em sua contundência, e que ainda leva o mérito de ter sido um dos primeiros filmes a revelar o talento de Jennifer Lawrence –antes mesmo de sua indicação ao Oscar por “Inverno da Alma”.
Como é de hábito no cinema de Arriaga, três linhas narrativas distintas, aos poucos, vão se revelando partes da mesma e fatídica trama: Uma dona de casa adultera (Kim Basinger, ótima) tem seu caso extraconjugal pouco a pouco constatado pela filha mais velha (Jennifer Lawrence, bem novinha e entregando um trabalho exemplar); Noutro, a mesma adolescente, agora já sem a mãe, que morreu, termina por se envolver com o filho do homem que ela tivera como amante; Na última trama, uma mulher amarga e depressiva (Charlize Theron, sempre focada) é confrontada com um passado que havia deixado para trás, na forma da filha pequena que ela nunca conheceu.
São essas três excelentes atrizes que dão solidez a este filme cuja estrutura da história, contada fora de ordem cronológica, remete de fato às outras obras anteriores de Guillermo Arriaga. Ao encarar a direção, ele termina realizando um trabalho muito semelhante ao estilo realista e despojado adotado por Iñarritu, com seu registro seco, suas atuações naturalistas e seu ritmo sucinto a anunciar uma tragédia iminente –o quê pode indicar tanto que ele não conseguiu desvencilhar-se da poderosa influência do ex-parceiro, como também que, talvez, fosse ele a força criativa mais predominante naqueles trabalhos.
Do jeito como está, “Vidas Que Se Cruzam” fica bem aquém da excelência dos três grandes filmes que Arriaga fez ao lado de Iñarritu, claro, mas é muito melhor do que “O Búfalo da Noite”.

domingo, 21 de maio de 2017

Cinquenta Tons Mais Escuros

Sem o elemento ligeiramente atrativo de estabelecer o ponto de partida da história, resta a “Cinqüenta Tons Mais Escuros” dar continuidade a tudo o que o filme anterior tinha de enfadonho: O romance claudicante ocasionado por cenas de sexo (cujo teor erótico vai paulatinamente perdendo a força justamente devido a sua repetição).
Uma pena para o diretor James Foley (que, veja só, realizou o ótimo “O Sucesso A Qualquer Preço”) que encarou esta barca furada depois que a diretora do filme anterior, Sam Taylor Johnson, abandonou o projeto –Foley, nota-se, faz o que pode (ao que parece, ele está também confirmado na terceira parte, a ser realizada meio que simultaneamente), mas o filme é tão amplamente desinteressante que nem mesmo o fato de ser ou não fiel ao livro adaptado (já ele bastante pobre de qualidade) não faz grande diferença.
Os apaixonados e lascivos Anastassia Stelle (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) haviam se separado na cena final de “Cinqüenta Tons de Cinza”. O novo filme retoma um certo fio narrativo logo depois disso.
Anastassia, ou melhor, Ana, tem um compromisso com a exposição fotográfica do amigo José (Victor Rasuk). Será lá onde ela reencontrará Christian, e retomarão seu relacionamento de onde tinha parado.
Em sua condução prosaica, o novo filme ameniza involuntariamente todos os aspectos que, no livro, ainda guardavam um mínimo de intensidade.
Como costuma ocorrer em adaptações literárias, muitas das passagens são narradas num ritmo errado, deixando tudo muito rápido e superficial –característica que já aparecia no primeiro filme, mas que se ressalta neste daqui –resta assim ao diretor Foley destacar a elegância geral e predominante da produção que, a medida que a duração vai se estendendo, começa a parecer um comercial televisivo de qualquer coisa, tamanha a beleza e a limpeza de todos os móveis, figurinos e adereços que parecem em cena.
Uma roupagem luxuosa que não demora a cansar os olhos.
As cenas de sexo seriam outro destaque se não fossem tratadas de modo evasivo pela narrativa –sexo no cinema sempre foi uma coisa complicada, ou trabalha-se com ele de maneira velada e sugestiva, ou escancara-se suas intenções. É preciso que a direção compreenda os objetivos da história para que essa abordagem seja narrativamente relevante, caso contrário, seu excesso pode ser compulsivo, ou sua ausência pode ser frustrante.
Ao longo de seu filme, Foley oscila entre esses dois extremos: Ele evita as cenas na medida do possível durante a primeira parte, mas quando se rende a elas (que surgem filmadas com um pudor estético maior que o do filme anterior) deixa que se sucedam sem critérios.
É uma obra sem conflitos, onde as poucas inserções de suspense soam desconexas e sem harmonia com o todo: São elas, a nebulosa perseguição de uma antiga ex-namorada de Christian (Bella Heathcote) à Ana (resolvida de maneira breve e rasteira); a gradual transformação do novo chefe de Ana (Eric Johnson), de amigável e sorridente à abusivo e ameaçador (esse plot, aliás, é um gancho usado para conectar o desfecho à vindoura parte final); e, por fim, a presença, finalmente revelada, da mulher madura que iniciou Christian Grey no sexo, e que aqui posiciona-se para Ana como um obstáculo, Elena Lincoln (um participação especial de Kim Basinger, uma atriz muito interessante e empática que não merecia marcar presença numa obra tão equivocada).
Ah, sim, e não vamos nos esquecer da cena do acidente de helicóptero, feita para acrescentar tensão e dramaticidade ao enredo, mas tão rápida –e igualmente resolvida de maneira breve e rasteira –que chega a soar destoante e irrisória.
Como ator, Jamie Dornan faz um trabalho convencional, deixando com indiferença que a câmera explore seu corpo sarado para a satisfação do público feminino, já, Dakota Johnson, filha da atriz Melanie Griffith, compensa sua beleza discreta com uma entrega inesperada nas cenas de nudez –a cena mais interessante dela, entretanto, é quanto tem uma rápida conversa com uma secretária: Numa referência graciosa, ela reproduz o mesmo diálogo feito por sua própria mãe no melhor filme de sua carreira, “UmaSecretária de Futuro”.
Uma pena que a lembrança daquele excelente filme só faz ressaltar a mediocridade deste.

domingo, 23 de abril de 2017

Batman no Cinema

Batman
Por muito tempo, o cinema tateou na busca por uma conciliação narrativa com a linguagem dos quadrinhos. Essa busca é bastante ilustrativa quando olhamos a seqüência de filmes protagonizados pelo Batman, que ganhou, na opinião de muitos, sua personificação cinematográfica definitiva com Christian Bale, na Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
Bem antes disso, o público e a crítica (na verdade, bem mais o público do que a crítica) deixou-se encantar pela primeira versão cinematográfica do herói, concebida por Tim Burton e estrelada por Michael Keaton.
De um estilo peculiar e personalíssimo, Burton tinha uma visão eclética do projeto conceitual: Ao mesmo tempo em que ele via uma apropriada atmosfera sombria a relacionar-se diretamente com o personagem e o mundo que o cerca (a obscura e corrupta Gotham City) o que passou a influenciar até mesmo os quadrinhos dali por diante, embora o próprio filme de Burton deva muito à reformulação do personagem promovida na graphic novel “Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller –ele também tinha uma certa displicência para com a figura do próprio herói (visto como nitidamente desinteressante em sua narrativa) o que priorizou, neste primeiro filme, o antagonista Coringa interpretado com som e fúria por Jack Nicholson.
O vigilante sombrio e amargurado Batman (cuja origem acaba sendo pouco mais que uma recordação, longe do trabalho cuidadoso feito em "Batman Begins") torna-se quase um detalhe em meio à trama que acompanha Jack Napier (Nicholson) e a traição sofrida por seu mentor, o líder do crime organizado de Gotham City, Carl Grisson (Jack Palance), o quê leva Napier à mergulhar acidentalmente num tonel de ácido, de onde emerge já transformado no maluco homicida Coringa.
Para o Coringa, depois de matar Grisson, o controle de Gotham agora só encontra obstáculo mesmo no Batman, cuja identidade secreta, o milionário Bruce Wayne, está às voltas de um relutante romance com a repórter Vicky Vale (Kim Basinger, esplêndida), dedicada, por sua vez, a descobrir a real identidade do herói mascarado.
Um sucesso exorbitante, menos por seus valores cinematográficos e mais por sua campanha maciça de marketing, “Batman” revelou o inesperado pendor comercial de Tim Burton e uma sutil predisposição dele em deixar de lado os aspectos mais marcantes de seu estilo em função de uma colaboração com um produto de estúdio, o quê ele voltaria a fazer, anos mais tarde, na refilmagem/reinvenção de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Batman-O Retorno
O êxito arrebatador do filme de Burton deixava claro que, à ele, brevemente uma continuação se seguiria. Se teria Tim Burton mais uma vez na direção, aí a história era outra (Burton não ficou satisfeito com o controle criativo limitado que teve no primeiro filme, e o diretor de arte, Anton Furst, ganhador do único Oscar recebido pelo filme, era muito cotado para assumir a direção da seqüência, antes de falecer).
O estúdio terminou concluindo que não valia a pena mudar a equipe e manteve Burton dirigindo o novo filme e Michael Keaton o estrelando –embora muitos questionassem sua adequação ao papel.
Tal e qual o primeiro “Batman”, neste novo filme Burton tornou a manifestar seu fascínio pelos desajustados e seu indisfarçável carinho pelo monstruoso –ou seja, pelos vilões –centrando todo o interesse da narrativa desta vez, na origem pontuada por abandono e detalhes grotescos de Oswald Cobblepot, ou melhor, o Pingüim (Danny De Vito, irreconhecível debaixo da densa maquiagem) e, principalmente, na trajetória envolvente de Celina Kyle, secretária do empresário Max Shreck (Christopher Walken, num personagem cujo nome remete ao ator célebre por interpretar o vampiro no clássico “Nosferatu”, de Murnau) cuja descoberta dos negócios ilícitos do patrão leva Celina a uma transformação radical, tornando-se a ambígua e sensacional Mulher-Gato (que ganhou, nas formas e nas expressões de Michelle Pfeifer uma personificação considerada, até hoje, imbatível).
Batman, como se pode perceber, é um mero coadjuvante diante de personagens tão exuberantes.

Batman Eternamente
Para Tim Burton, dois filmes bastaram. Após “Batman-O Retorno”, o máximo que ele se dispôs a aproximar-se do novo projeto envolvendo o personagem foi na função de produtor executivo. O diretor escolhido para substituí-lo, sabe-se lá porque, foi Joel Schumacher: Talvez tenha sido o estilo rebuscado e sombrio que ele demonstrou em “Linha Mortal”, similar ao de Burton (embora, Schumacher nunca tenha preservado qualquer estilo ao longo de seus filmes), ou o fato de ser um típico de diretor padrão, ideal para trabalhar sob contrato.
Com ele no comando, o filme imediatamente ganhou nova roupagem e um novo intérprete: Val Kilmer, cujo excesso de sisudez e as madeixas castanhas claras não ajudaram muito a ser visto como uma escolha melhor do que Keaton.
Também o orçamento inflado da nova produção deixava claro o quanto Batman, enquanto produto corporativo, significava para o estúdio: Não foram poupadas despesas, inclusive no que diz respeito ao elenco milionário –Nicole Kidman (começando uma auspiciosa escalada ao estrelato graças ao lançamento de “Um Sonho Sem Limites” naquele mesmo ano) como o par romântico do herói (sendo que as menções às anteriores Vicky Vale e Mulher-Gato foram completamente ignoradas); Tommy Lee Jones como o pra lá de caricato vilão Duas-Caras (chega a ser covarde e absurdo comparar esta versão ao bem construído Duas-Caras de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”); Jim Carey como Charada (papel que ele tirou do anteriormente cotado Robin Willians); e Chris O’ Donnell surgindo pela primeira vez como Robin, o parceiro do herói deixado de lado nos dois filmes anteriores.
Aqui, Batman se vê diante do desafio de um novo chefão do crime, o antigo promotor Harvey Dent transformado no vilão Duas-Caras. Paralelo ao surgimento de um novo vilão, o Charada, o acrobata Dick Graysson perde toda sua família, encontrando um lar na mansão Wayne onde passa a auxiliar Bruce Wayne, o Batman, como seu fiel parceiro, o Robin.

Batman & Robin
E foi assim, com o relativo êxito do filme anterior que chegamos no quarto e famigerado filme do Batman, o segundo sob o comando de Joel Schumacher, onde ele teve liberdade para fazer a “sua” visão do Batman, deixando de lado qualquer realismo ou interiorização sombria, e com isso soterrando a série no cinema, até que a reformulação radical de Nolan viesse para salvar o personagem.
A trama acompanha o surgimento dos vilões Sr. Frio (Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (uma deslocadíssima Uma Thurman) –há também a aparição de Bane “interpretado” pelo brutamontes insípido e inexpressivo Jeep Swenson, o que reduz o personagem à um mordomo truculento, longe do significado imposto por Tom Hardy ao personagem em “Batman-O Cavaleirodas Trevas Ressurge” enquanto pequenas desavenças minam o relacionamento entre Batman (agora George Clooney no lugar de Val Kilmer...) e Robin (Chris O’ Donnell, cada vez mais irritante no papel), dando oportunidade para a origem de uma nova heroína, Batgirl (Alicia Silverstone, inadequada como atriz, num personagem absolutamente disfuncional, desnecessário, redundante e introduzido de forma descuidada).
O fato de não manter Val Kilmer como Batman/Bruce Wayne em seu filme seguinte já indicava uma certa irregularidade da parte de Schumacher na forma com que ele via o projeto, mas ninguém imaginava que suas idéias conduziriam a uma obra tão escandalosamente catastrófica quanto foi este “Batman & Robin”, um filme tão equivocado, tão absurdo em seu desleixo e ruindade que no making of (disponível na edição em DVD do filme) pode-se conferir o próprio diretor pedindo desculpas pelo trabalho que realizou (!).
Uma sucessão de cenas absolutamente vergonhosas: Os novos e alardeados trajes dos heróis que já contavam antes com ridículos mamilos salientes, aqui ganham cores berrantes como o roxo (no caso de Batman!) e o vermelho escarlate (no caso de Robin), além de uma iluminação de neon com muito rosa, verde a alaranjado (!); o leilão pelo corpo de Hera Venenosa, onde Batman e Robin iniciam uma imatura discussão encerrada de forma patética com o ‘bat-cartão de crédito’ (“Nunca saia da caverna sem ele!”); o Sr. Frio de Arnold Schwarzenegger usando pantufas de ursinho polar e regendo um coro entre seus capangas.
É espantoso notar que o elenco, de Schwarzenegger à Clooney, passando por todos os outros atores, abraçou a proposta do diretor e assume suas presepadas sem aparentar constrangimento.
Como se não bastasse esse erro crasso de tom, o filme ainda se revela sofrível em termos cinematográficos: Dentre todos os filmes feitos sobre o Batman, este é aquele que mais o negligencia, colocando-o em segundo e até terceiro plano (e olha que essa era uma crítica freqüentemente dirigida aos títulos anteriores).