Mostrando postagens com marcador Donald Pleasence. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Donald Pleasence. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de janeiro de 2025

Halloween - A Noite do Terror


 Na comparação com obras do gênero de terror lançadas em sua mesma época, “Halloween”, de John Carpenter, é um filme contido, restrito à sugestão e até elegante –isso se pararmos para pensar que, nos anos que o antecederam, foram lançados “Aniversário Macabro”, “Quadrilha de Sádicos”, “A Vingança de Jennifer” e “O Massacre da Serra Elétrica”. O exploitation, em geral, ainda estava em voga nos EUA, e na Europa, ainda o giallo, embora já fosse o início da defasagem desse sub-gênero.

Cheio de boas intenções e, à luz de algumas constatações relacionadas à época, o diretor John Carpenter nada mais quis do que resgatar, para aqueles novos e transgressivos tempos, algumas lições de sutileza e primazia deixadas pelo mestre Alfred Hitchcock, para quem prevalecia sempre, antes de qualquer carnificina gratuita, a sensação de perigo, a sugestão de ameaça, estabelecida por meio de um clima cuidadosamente construído. E não deixa de haver até certa poesia no fato de que “Halloween” traz, como protagonista, Jamie Lee Curtis, ela que é filha da atriz Janet Leigh (de “Psicose”) com Tony Curtis: É John Carpenter, ao assumir a cadeira de diretor, estabelecendo com seu filme uma indissociável relação com Alfred Hitchcock, a influência inquestionável para todos os ramos do suspense que se desdobraram a partir da década de 1970.

E “Halloween”, nada mais é que isso: Uma gradual evolução dessa espécie específica de cinema; depois que Hitchcock concebeu bases sob as quais construir essas narrativas, os italianos acrescentaram sangue e o estilo ópera-bufa para moldar o giallo, e o cinema mundial como um todo valeu-se das libertinagens criativas dos anos 1970 para agregar os ecos do exploitation, mas nos EUA, o que havia restado do suspense convertido em giallo transformou-se, por sua vez, em slasher. E o primeiro dessa safra –que revelou-se abundante em produção nos anos 1980 –é “Halloween”.

Sua história tem início em 1963, quando testemunhamos através de um inventivo e fascinante jogo de câmera –toda ela sob o ponto de vista do jovem assassino que adentra a casa após espiar através das janelas –o ainda pequeno Michael Meyers perpetrar seu primeiro assassinato: O de sua irmã, Judith, pouco depois dela fazer sexo com seu namoradinho –e está assim estabelecida uma das primeiras regras imutáveis do slasher, que não foi quebrada por nenhuma das sequências ou imitações que vieram depois: Quando uma personagem transa, automaticamente, na sequência ela irá morrer!

Corta para quinze anos depois e, em 1978 (época que, no filme, seria o tempo presente), Michael Meyers, após o surto psicótico esteve todo esse tempo numa clínica psiquiátrica, da qual já inicia o filme escapando, em pleno Dia das Bruxas. O Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence, escolhido pelo diretor provavelmente por marcar presença em festejadas produções cult da época, como “Armadilha do Destino”, de Roman Polanski, “THX 1138”, de George Lucas, e anos depois, “Phenomena”, de Dario Argento) que acompanhou o caso de Michael sabe que não existe, ali, qualquer esperança –trata-se de um assassino frio e implacável que fará mal a quem puder. A única alternativa é tentar pará-lo.

Por razões que permanecem nebulosas durante todo o filme (mas, que ganharão um certo respaldo em algumas das continuações), a vítima escolhida por Michael Meyers vem a ser Laurie Strode, personagem da própria Jamie Lee Curtis. Na verdade, este primeiro “Halloween”, em face de toda a mitologia que construiu-se depois em torno de seus personagens, revela-se um filme assombrosamente básico, cuja premissa serve somente às oportunidades para o diretor John Carpenter exercitar sua técnica e construir sua atmosfera.

E ele o faz magnificamente: Não importa se tudo o que ele fez aqui, virou clichê nas infindáveis imitações que o filme ganhou, em “Halloween”, essas escolhas continuam soando como decisões pontuais e eficientes à narrativa. Por exemplo, Laurie tem duas amigas, ambas –veja só! –muito mais sexualizadas que ela. Annie (Nancy Kyes) e Lyndsey (Kyle Richards) planejam passar o Dia das Bruxas aos amassos com seus namorados, entretanto, pelo menos Annie terá de se conformar em fazer o mesmo que Laurie: Trabalhar de babá, cuidando de uma criança para um casal da vizinhança. Todavia, Lyndsey tem planos para ajudar a amiga a escapar desse destino enfadonho. Durante grande parte da primeira metade de “Halloween” (ou até mais!), é isso que acompanhamos: As três amigas às voltas com uma rotina jovem e prosaica. Elas discutem na mesma dinâmica (Lyndsey é assanhada; Laurie, pudica e chocada com isso; e Annie mantem-se no meio-termo). Fumam maconha (tentando escapar da vigilância do pai de Annie, um policial interpretado por Charles Cyphers). Vão à escola, e de lá para casa. Ao longo, dessa sucessão quase banal de acontecimentos, o diretor registra a atenção quase voyeur de Michael Meyers sobre essas garotas, criando o suspense de uma ameaça iminente, sobretudo, graças ao uso  imodesto e intermitente da marcante trilha sonora (por sinal, de autoria do próprio John Carpenter). Neste filme, diga-se, não há nada de tão sobrenatural ou sobrehumano em Michael Meyers, características que ele foi adquirindo somente mais tarde, quando o próprio filme que protagoniza foi se consolidando como uma obra mítica dentro do gênero. Aqui, Michael rouba um carro, e passa o filme quase inteiro observando as garotas sem nada fazer. E tão lesadas são elas que nem lhes ocorre de chamar a polícia (ou mesmo avisar o pai de uma delas que É policial!) quando avistam, vez ou outra, esse cara estranho às seguindo ao longe.

A partir de mais ou menos a sua metade, “Halloween” explode nas sequências explícitas de morte que vinha sugerindo desde o começo –ainda que, de novo, na comparação com o que veio depois, ou mesmo com obras anteriores, ele se mantenha bastante ameno.

Pode-se afirmar que o tempo transformou “Halloween” em algo que ele não é: Não se trata de um dos mais terríveis e aflitivos filmes de terror jamais feitos, nem de possuir um dos mais sanguinários e mortais vilões já concebidos no cinema. Essas certamente não eram as intenções de John Carpenter aqui. O que ele queria, era a chance de construir uma atmosfera, valendo-se de técnicas simples mas objetivas. Estabelecer um filme com identidade de gênero sem necessariamente forçar os limites. Criar um bom e eficiente filme de terror e suspense com a mesma maestria que seu grande mestre, Hitchcock, havia feito antes. E nesse sentido, ele acertou em cheio.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Armadilha do Destino

 


Roman Polanski realizou este “Cul-De-Sac” –“Beco Sem Saída”, na tradução literal –um ano após seu excelente “Repulsa Ao Sexo” e, embora este novo trabalho, pulsante de humor negro, não alcance a grandeza da obra anterior, Polanski mostrou-se abertamente mais satisfeito com este resultado do que com o memorável suspense estrelado por Catherine Deneuve. E para isso há uma razão muito particular: Em sua temática e execução, “Cul-De-Sac” conversa muito melhor com as inquietações pessoais que sempre fizeram o gosto de Polanski.

Nele, o diretor polonês tem a oportunidade de mesclar humor e tensão com resultados desconcertantes, vislumbrar as fissuras do relacionamento homem/mulher com indiscreta contundência e ainda trabalhar amplamente os desdobramentos do desconforto –uma tema que sempre o fascinou.

A surgir por uma estrada deserta em algum ponto da Inglaterra, vemos na cena inicial, um carro sendo empurrado. Ele traz Dicky (Lionel Stander, de “Era Uma Vez No Oeste”) e Albie (Jack MacGowran, de “A Dança dos Vampiros”, filme seguinte de Polanski). Os dois são capangas de gangsteres vindos, aparentemente, de uma operação que deu errado: O moribundo Albie tem um tiro fatal na barriga; Dicky foi alvejado no braço direito.

Disposto a encontrar refúgio, Dicky caminha até um casarão antigo, à beira-mar, ocupado pelo casal George (Donaldo Pleasence) e Teresa (Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve).

Ele é rico, civilizado, acomodado e passivo. Ela é jovem, atrevida, impetuosa e infiel –quando Dicky a flagra pela primeira vez, está aos beijos com o jovem filho de um morador das redondezas.

Logo, Dicky invade o casarão e, de uma maneira um tanto desleixada, os faz de reféns. Seu plano é aguardar pela chegada de ajuda –de preferência, fornecida por seus chefes mafiosos –e, enquanto tal ajuda não vem, Dicky espera, fazendo nesse processo, com que os nervos acirrados pela situação galguem extremos intoleráveis de injúria e provocação. As discrepâncias inerentes a todo o casal que George e Teresa compartilhavam só vão assim se acentuando com a circunstância: Porque Teresa cobra uma atitude mais digna e valente de George e, diante da frustrante cordialidade dele, busca juntar laços existenciais com o truculento Dicky, aliando-se a ele nas provocações ao infeliz George, prostrando-se nas tarefas que Dicky deseja ver realizadas (como cavar uma cova para o cadáver de Albie), e usando de pretextos para inferiorizar o próprio marido ante o sequestrador grosseiro.

Polanski vê nessa dinâmica uma miríade de possibilidades que ele explora de forma tão sardônica quanto empolgada –expectadores avessos ao humor negro que ele discorre certamente farão fortes ressalvas ao filme.

Em algum momento, Polanski tem a ideia de novamente alternar essa dinâmica: Chegam, como quem não quer nada, um grupo de desavisados amigos burgueses ao casarão (entre eles, uma ainda jovem Jacqueline Bisset), e com isso, Dicky tem de fingir ser o mordomo do lugar, enquanto não decidem ir embora.

Novamente, Teresa se mostra volátil: Sem o artifício da ameaça com a qual exercia controle, Dicky tem que aguentar as humilhações dela para manter a dissimulação, ainda que por uma margem muito pequena.

Finalmente livres das visitas indesejadas, George e Dicky parecem relaxar, mas não Teresa; ela está disposta a ver o circo pegar fogo. Queima os pés de Dicky enquanto ele dorme, e diante do castigo que recebe, coloca George novamente contra ele afirmando que Dicky tentou violentá-la. Há algo de vilanesco e extremamente calculista em Teresa. São facetas que vão ficando mais e mais claras nas revisões do filme, mas é nítido que Polanski jamais reduz ela a um arquétipo tão simplório –devido à formosura palpitante de Françoise Dorléac, ela é também a personagem mais cativante em cena, o que somente depõem a favor da constantemente reabilitada bizarrice que o filme evoca.

Remetendo também à circunstância básica observada no visceral “Sob O Domínio do Medo”, de Sam Peckinpah –onde um marido demasiadamente urbanizado e uma esposa linda, jovem e fútil têm as fragilidades de seu matrimônio confrontadas com uma situação de confinamento insuportável –Polanski constrói um filme claustrofóbico e instigante destituído de rótulos ou de definições cinematográficas confortáveis. Como todo jovem diretor que se preze no auge de seu experimentalismo formal e atrevimento narrativo, ele aqui está disposto à provocar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Pelos Caminhos do Inferno


 Lembrado especialmente por seu trabalho em “Rambo-Programado Para Matar”, o diretor australiano Ted Kotcheff demonstrou capacidade e habilidade (além de insuspeita versatilidade) em vários outros projetos, infelizmente bem menos reconhecidos que a aventura que lançou Stallone ao estrelato.

Certamente a obra que o colocou no radar de Hollywood veio a ser este sufocante conto sobre ciclos viciosos que ele realizou em sua Austrália natal, parte da profusão de obras cheias de identidade e personalidade que surgiram abundantes por lá nos anos 1970 e 80, integrando o movimento hoje conhecido como ozploitation.

Ao iniciar o filme, somos testemunhas da insatisfação crônica do Prof. John Grant (Gary Bond) para com sua situação presente: Lecionando crianças interioranas numa estação no meio do nada, ele conta as horas e os minutos para a chegada de suas férias, quando planeja partir de lá num trem a caminho da capital, Sydney, onde sonha encontrar a namorada e com ela, de repente, partir para a Inglaterra.

Contudo, as paradas inevitáveis de trens, o obrigam a hospedar-se provisoriamente numa cidadezinha em algum lugar em meio ao trajeto, de nome Yabba, habitada por caipiras sintomaticamente hospitaleiros, sujos e beberrões; o lugarejo e seus habitantes de pronto suscitam a irritação em Grant, tão superior se sente e tão pretensioso de ver-se longe de tudo aquilo ele está. Mas, a narrativa de Kotcheff corresponde a um castigo divino: Ao pernoitar num hotel, crente de que partiria no dia seguinte, Grant vai a um bar local e lá se embebeda junto do xerife, para logo em seguida convencer-se de participar de jogos de apostas em andamento ali por perto e, com isso, perder todo o dinheiro que tem.

Gradualmente convertido num dos indivíduos que ali vivem –suas roupas brancas vão ganhando a mácula da sujeira, seus modos rígidos vão se tornando desmazelados, e suas atitudes vão espelhando cada vez mais os violentos bêbados locais –Grant encontra um senhor que lhe oferece bebida e pouso em sua casa; e, nela, sua filha oferece à Grant também sexo, o que aparentemente ela oferece a todo homem do lugar (!).

“Pessoas de bolsos vazios conseguem sobreviver relativamente bem em Yabba” é o que lhe conta o médico vivido por Donald Pleasence, que lhe recebe em sua casa nos dias tumultuados que se seguem. Ele é um reflexo de Grant: Também escolado, também vindo da cidade grande e, provavelmente, também dono de sonhos mais ambiciosos no passado, mas capturado em Yabba pela bebedeira constante à que são submetidos pelos insistentes convites hospitaleiros, enredado pela amizade viril com os brutamontes locais que o fazem parte dos hábitos bizarros como a caçada à cangurus (em cenas reais feitas de forma francamente chocante).

Logo, Grant percebe que, do alto de sua presunçosa superioridade, não se deu conta de que eles o prenderam ali também: Sem dinheiro para sua própria independência de ir e vir,morando com o médico num barraco caindo aos pedaços, fazendo parte de sua rotina insensata de loucuras, bebedeiras e farras inconsequentes, e dependendo da boa vontade daqueles que não cessam de lhe empurrar cerveja goela abaixo, Grant não consegue, durante dias, desvencilhar-se daquela circunstâncias –porque os detalhes nunca lhe ajudam; porque nunca a situação lhe parece urgente o bastante para tratá-la com seriedade; e porque a embriaguez não lhe permite um pensamento muito austero acerca disso.

Em suma: Uma armadilha onde a vítima parece ser seu próprio futuro.

Mesmo em um momento, quando um instante de epifânia o leva a partir dali numa carona, eis que o destino conspira contra o protagonista, levando-o, por um acordo mal-entendido com um caminheiro, a ser levado de volta para Yabba, ao invés de para longe dela.

Uma reflexão claustrofóbica e atordoante sobre a bestialização do ser humano –tão mais assombrosa por cumprir sua promessa ao mostrar com propriedade um indivíduo urbano, asseado e vistoso converter-se por forças externas num bêbado deplorável e cambaleante –o filme de Ted Kotcheff vale-se magnificamente bem dos elementos visuais que caracterizavam o cinema australiano de então: As paisagens grandiosamente desoladas do ‘outback’, as regiões áridas com muita poeira, os ambientes paupérrimos e em constante degradação, e uma representação quase sensorial do calor do deserto, traduzido em cena pelos rostos sempre umedecidos de suor, pelos filtros amarelados ou avermelhados de câmera e pelos mosquitos. Recursos inteligentes e empregados com brilho que não tardam a nos deixarem tão perplexos quanto o próprio personagem metido nessa enrascada.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A Dupla Explosiva

Teria o filme “Dupla Explosiva” inspirado George Romero a realizar o estranho “Cavaleiros de Aço”? A ideia do filme todo estrelado por motoqueiros que adotam a mesma postura de cavaleiros medievais duelando com lanças pontiagudas e usando motos no lugar de cavalos é a mesma presente numa das mais divertidas cenas deste filme, uma das melhores colaborações da famosa dupla Terence Hill e Bud Spencer.
Ao contrário do que deveria imaginar toda a geração de expectadores brasileiros que cresceu vendo reprises de seus filmes na TV, Hill e Spencer não eram norte-americanos e, sim, italianos (!) –Hill tinha como nome de batismo Mario Giuseppe Girotti, enquanto que Spencer na verdade se chamava Carlo Pedersoli –o que não impedia seus filmes de ter aval americano, de trazer uma trama que se passava em terras americanas e, depois de seu sucesso consolidado, se passar de fato nos EUA.
Datado de 1974, “Dupla Explosiva” foi realizado dois anos depois de “Dá-Lhe Duro, Trinity!” e um ano antes de “Dois Missionários em Apuros” –é, portanto, o oitavo filme da dupla, enquanto também alternavam esses trabalhos com produções ‘solo’; e é também uma de suas realizações mais acertadas. Impressiona, justamente por isso, o fato do diretor e roteirista Marcelo Fondatto ter tão poucos créditos, ostentando, mesmo assim, um trabalho melhor até do que o veterano Sergio Corbucci que também assinou filmes dos dois.
Na trama, Terence Hill é Kid, e Bud Spencer é Ben. Ambos disputam um rally no qual almejam ganhar como prêmio principal um buggy vermelho de capota amarela.
Após a disputa –que em si é uma sequência de corridas, batidas e capotagens insana e eletrizante, dirigida e editada com admirável habilidade –os dois terminam empatados em primeiro lugar. Agora, donos do mesmo veículo, eles devem decidir com quem o buggy vai ficar.
Após as piadas de praxe –que pontuam alegremente toda a narrativa do filme e fazem muito lembrar os filmes dos Trapalhões que também faziam sucesso em terras nacionais pelo mesmo período –os dois resolvem decidir numa competição de quem come mais salsichas e bebe cerveja. Enquanto o fazem, a lanchonete em que estão é atacada por capangas mafiosos que simplesmente arrebentam todo o lugar. Os protagonistas, numa atitude muito parecida com certos desenhos animados, continuam a conversar como se nada ao redor deles estivesse acontecendo.
Contudo, na sua saída, o buggy deles é atingido por um carro, capota e pega fogo. Com seu precioso prêmio destruído, resta a Kid e a Ben irem procurar o chefe mafioso para lhe cobrar o prejuízo. Tal chefe (John Sharp), glutão e afetado como o mais caricato estereótipo de gangster que se possa imaginar não lhes dá ouvidos; ele só ouve os conselhos insensatos e vilanescos de seu braço direito, um alemão, também ele afetado, vivido por Donald Pleasence.
Assim, Kid e Ben ao invés do buggy ressarcido, acabam recebendo uma série de ataques dos quais se desvencilham com a desenvoltura costumeira da dupla: Num ginásio, eles enfrentam vários ginastas que os atacam a mando do mafioso. Depois, um grupo de motoqueiros os aborda na oficina onde Ben trabalha –dando início a uma divertida perseguição (na qual as motos, inclusive, correspondem às características dos dois heróis!) e que culmina na cena que eu mencionei lá em cima.
Se há um detalhe que destaca “Dupla Explosiva” dos tantos outros filmes protagonizados pela dupla, é a quantidade notável de cenas memoráveis entregues sucessivamente, como quando o chefão encomenda os caros serviços de um atirador chamado Paganini (Manuel de Blas) que tenta encurralar os dois durante um ensaio de coral –do qual Ben participa! É um momento hilário que certamente ficou na mente de muitos expectadores que viram o filme nos anos 1980.
Ou o embate final de Kid e Ben contra os mafiosos no salão de um restaurante tomado por balões, o auge do estilo ‘pancadaria cômica’ que Terence Hill e Bud Spencer tanto difundiram em seus filmes.
Bons tempos em que a série “Trinity” rendia essas agradáveis e descompromissadas aventuras.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Phenomena

Após ter sido o responsável por estabelecer as linhas gerais do sub-gênero giallo –que durante toda a década de 1970 foi largamente explorado na Itália –o diretor Dario Argento chegou, na década de 1980, em fase criativa na qual seu estilo pulsava na direção de outras experimentações.
Curioso notar que, como todo autor apegado a um tema e a uma inquietação específica, Argento valia-se dessas experimentações para modificar facetas do que era tão somente a variação de outras premissas que ele mesmo já havia executado.
Já em seu início, “Phenomena” lembra um bocado “Suspiria” ao mostrar a chegada da jovem Jennifer Corvino à Escola Interna Richard Wagner para Moças, na Suíça.
Não é apenas com “Suspiria” que a obra de Argento dialoga: Na presença inebriante e exalando pureza de Jennifer Connelly como a jovem protagonista o filme remete à “Labirinto-A Magia do Tempo” (ainda que tenha sido realizado depois), e com isso a um indissolúvel aspecto de contos de fadas –o misto de juventude pubescente, capacidade interpretativa precoce e beleza incomum capaz de afetar até mesmo homens adultos levou Jennifer Connelly a despertar o interesse de diretores europeus interessados nessa síntese intrigante entre fábula e história macabra, vide “Étoile”, de Peter Del Monte –certamente, também enxergamos a inevitável influência do próprio giallo; a trama de “Phenomena” se estrutura, por assim dizer, pelo recurso básico dos assassinatos cometidos em série, e da convulsiva dúvida acerca de quem os perpetra.
O mundo surreal e encantado de Jennifer Corvino (além de linda e imaculada, ela é filha de um ator famoso, e tem mal explicados poderes que permitem se comunicar com insetos) se choca, portanto, com o filme de terror característico de Argento quando ela, durante uma crise de sonambulismo, presencia um dos assassinatos, tornando-se a partir daí, alvo do assassino.
Na gramática de Argento, a entrada no contexto sinistro de sua trama se dá por meio do que por vezes define o conceito de cinema (o sonho) e sua permanência nele (a investigação subsequente) ocorre através do que define a própria filmografia de Argento: A sensação contínua de que se testemunhou algo vital sem no entanto ter certeza do que foi.
Argento é um realizador cheio de imperfeições: Ele relega inúmeras de suas participações coadjuvantes à irrelevância (como Donald Pleasence, Daria Nicolodi e o próprio antagonista da trama) em prol da atmosfera e das guinadas de ordem dramática; e se mostra negligente até mesmo com elementos que parece enaltecer (os poderes sobre os insetos da heroína nunca chegam a ter importância fundamental de fato na narrativa).
Mas, ele compartilha com o expectador uma fascinação genuína pelas conclusões morais e éticas que obtém através de suas miscelâneas visuais.
Aqui, ele leva a um extremo sanguinolento e grosseiro os impulsos corruptíveis do ser humano, para então deixar que sua protagonista encontre refúgio de tanta sordidez na natureza.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Viagem Fantástica

Certamente despido das pretensões científicas que orientavam projetos dessa natureza que chacoalharam o cinema naqueles anos 1960 (como “O Planeta dos Macacos”, de Franklin J. Schaffner, e principalmente “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Stanley Kubrick), este filme realizado por Richard Fleischer se propõe a ser nada mais que uma eficiente aventura –bem de acordo com o perfil modesto de seu realizador –entretanto, ele o faz com um aparato técnico tão arrojado que sua recriação das entranhas humanas aumentadas em improváveis proporções lhe valeu dois Oscar: Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Especiais.
E Fleischer, ainda por cima, executa uma narrativa das mais eficazes e objetivas, muito de acordo com o resultado almejado.
Dessa forma, no início somos testemunhas de um prólogo eficiente que prescinde diálogos para mostrar o atentado contra um importante cientista perpetrado em solo americano pelo que será apenas mencionado como “o outro lado”; e podemos apenas supor que, sendo esta uma obra da década de 1960, esse “outro lado” possa tratar-se dos russos numa menção velada à Guerra Fria.
O filme, de fato, tem início logo ali: Com um coágulo no cérebro capaz de mata-lo, o importante cientista deve submeter-se a uma operação que, no entanto, não tem nada de usual.
O Agente Grant (Stephen Boyd, o Messala de “Ben-Hur”) é assim recrutado para uma missão da qual ele não tem muitas informações: Ao lado de uma equipe médica, ele deve integrar a tripulação de um submarino a ser miniaturizado e injetado na corrente sanguínea do dito cientista –o único jeito de salvá-lo, é eliminando o coágulo de dentro de seu cérebro e, para isso, a equipe precisa ser reduzida a um tamanho microscópico para ter acesso ao local da enfermidade.
Mais: A miniaturização irá durar apenas 60 minutos, o que dá ao grupo (constituído pelo capitão do submarino, dois médicos vividos por Arthur Kennedy e Donaldo Pleasence, e a enfermeira interpretada por Rachel Welch) apenas uma hora para executar o procedimento, salvar a vida do cientista e sair de seu cérebro.
O trabalho do diretor Richard Fleischer busca tornar a premissa tão interessante quanto ela de fato soa. Com efeito, ele imprime um realismo carregado de seriedade à condução, não obstante alguma ingenuidade de sua encenação e até mesmo certo anacronismo –possivelmente muito mais perceptível hoje do que na época de seu lançamento.
A verdade é que, com seu roteiro assim compenetrado e a criação incisiva de subterfúgios pontuais que beneficiam e muito o suspense, “Viagem Fantástica” é um belíssimo trabalho de um artesão competente que nunca pareceu muito interessado em se sagrar gênio.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Fuga de Nova York

Ao lado de “O Enigma de Outro Mundo”, este “Fuga de Nova York”, de 1981, é um dos filmes mais cultuados da parceria entre o diretor John Carpenter e o astro Kurt Russell.
Como toda ficção científica oriunda daquele fantasioso período comercial, ela hoje soa absurda em sua proposta: Em 1988 (o futuro dali a sete anos), a ilha de Manhattan, em Nova York, é convertida em uma gigantesca prisão com imensas muralhas a circundá-la. Anos depois, em 1997, o lugar é um domínio confinado de bandidos completamente isolado do resto do mundo.
Poucos têm noção das circunstâncias lá dentro, e seus muros são patrulhados ferozmente por militares impedindo qualquer tentativa de fuga.
As autoridades que vigiam esse inacreditável perímetro são pegas de surpresa quando um grupo revolucionário denominado Movimento de Libertação Nacional seqüestra o avião presidencial, o Força Aérea-1, e leva o presidente em pessoa (Donald Pleasence, outra presença habitual nos filmes de Carpenter) a cair com uma cápsula ejetora dentro da própria Manhattan. Com um refém dessa importância nas mãos dos bandidos, o chefe de segurança Bob Hauk (Lee Van Cleeff) não encontra outra opção senão recorrer aos serviços do mercenário Snake Plissken (Kurt Russell, antológico usando tapa-olho), outrora um herói de guerra, e agora sentenciado àquela mesma prisão.
O acordo feito é pouco favorável a Plissken –ele recebe uma dose de cápsulas microscópicas que irão matá-lo se não trouxer o presidente em 22 horas –mas ele aceita a missão em troca do possível perdão presidencial por seus crimes.
Em Manhattan –que ele invade pousando um planador numa das torres do World Trade Center –o perigo ronda cada esquina, e não são raras as menções feitas pelos personagens à Leningrado (esse precedente histórico parece servir constantemente de modelo para o clima que Carpenter deseja construir neste trabalho).
A medida que seu prazo avança, Plissken adquire alguns aliados inesperados naquela terra de ninguém, como o fanfarrão Cabbie (o grande Ernest Borgnine, já em fim de carreira), o bem informado, mas pouco confiável Brain (o saudoso Harry Dean Stanton) e sua ajudante/companheira Maggie (Adrienne Barbou, usando o filme todo um decote matador!).
Há ecos claros de “Mad Max”, de “Selvagens daNoite” e de “Ruas de Fogo”, todos filmes dos anos 1980 que, em comum, têm aquele clima distópico no qual o protagonista adentra um ambiente tão inóspito quanto mirabolante –e curiosamente em todos, essa hostilidade mirabolante vem calcada numa previsão pessimista, subversiva até, de uma deterioração urbana e social, como se fosse um reflexo condicionado do cinema de ação oitentista, a previsão de um futuro devastado e retrógrado em suas mazelas criminais e bárbaras.
“Fuga de Nova York” ganhou uma seqüência, um tanto tardia, em 1996, bastante beneficiada pelo culto que surgiu ao longo dos anos em torno deste filme: Com um orçamento generoso, o diretor Carpenter levou Snake Plissken à Costa Oeste em “Fuga de Los Angeles”. Toda a inspiração da premissa e de seu protagonista, entretanto, parecem mesmo terem ficado restritos à este primeiro filme.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

007 - A Fase Sean Connery

Por qual razão deixei o período de Sean Connery como James Bond (justamente o primeiro!) por último? Talvez, por que envolve mais filmes do que os demais... se incluirmos aí o imbróglio que foi a tentativa dos produtores de substituí-lo por um outro ator visivelmente mal escolhido (o pouco carismático George Lazenby, sobre quem falaremos um pouco mais a frente), o quê levou-os a trazer Connery de volta, mas, acima de tudo, a razão para isso deve ser o quão absolutamente icônico Connery é nesse papel, e o quanto imprescindíveis para a cultura pop os seus filmes como James Bond são.
Ele foi o primeiro dentre todos a viver James Bond. E ele é (a despeito da aceitação inquestionável da qual Daniel Graig goza hoje) a pedra fundamental a partir da qual todos os intérpretes seguintes sofrem a comparação.

O Satânico Dr. No
Pragmático, denso, rocambolesco. O roteiro do primeiro filme realizado de James Bond chama a atenção por trazer elementos que destoam das aventuras mirabolantes que se tornaram paradigma da série: Ainda tentando encontrar o tom apropriado das aventuras de 007 para as telas de cinema, os realizadores constroem aqui um filme de espionagem de fato, onde o protagonista James Bond é um detalhe em meio a uma trama construída de diversos pormenores, levando o assim chamado agente 007, do Serviço Secreto Britânico a investigar estranhos acontecimentos na Jamaica.
A despeito da atuação bastante característica do ator Joseph Wiseman como o vilão-título, Dr. Julius No, a grande presença do filme é mesmo a da deslumbrante sueca Ursula Andress, inaugurando o hall das bondgirls e já estabelecendo um elevadíssimo patamar de beleza: Ela não somente foi a primeira como até hoje é uma das parceiras do herói preferida pelos fãs.

Moscou Contra 007
Herdando uma certa percepção do filme anterior –onde a trama mais complexa e suas elucubrações tinham uma característica divergente das fórmulas que a série passou a adotar –a história deste filme gira em torno dos planos fatais da organização S.P.E.C.T.R.E. para com o eficaz James Bond, um agente britânico que, eles sabiam, começava a dar-lhes dor de cabeça.
Dessa maneira, é despachada uma espécie de “distração” para nosso herói, uma à qual ele não seria capaz de resistir dado seu histórico mulherengo, nas curvas realmente esculturais de Tatiana Romanova (Daniela Bianchi, deliciosa).
Os produtores mantiveram o competente diretor do filme anterior, Terence Young, que aqui demonstrou mais tranqüilidade com o material fazendo um filme mais dinâmico e muito mais bem equilibrado entre as facetas técnicas de uma produção cheia de efeitos especiais e as exigências comerciais de um filme que oscila entre a aventura, a ação e um bem administrado senso de humor.

007 Contra Goldfinger
Sai Terence Young, entra Guy Hamilton como diretor, neste que, para muitos, é o filme que estabeleceu o padrão, a fórmula por meio da qual um típico filme de James Bond é construído. E isso até é verdade, embora a questão dele ser ou não o melhor filme de 007 seja relativa e pessoal –eu mesmo considero “Moscou Contra 007” infinitamente superior a este daqui.
A trama introduz um vilão bem característico dos antagonistas que Bond teve, com a diferença de que o maquiavélico Goldfinger (Gert Froebe, numa composição pouco usual) é, em geral, mais lembrado pela natureza memorável com que este filme o apresenta.
Seu plano –que James Bond tem por missão impedir –é contaminar toda a reserva de ouro do governo dos EUA depositada em Fort Knox.

007 Contra A Chantagem Atômica
No quarto filme da série a fórmula estava estabelecida e funcionava como uma máquina bem azeitada, os mesmos ingredientes se sucediam de maneira competente, bem administrados mais uma vez pelo diretor Terence Young: Movimentadas perseguições, um desfile de beldades no elenco feminino, um tempero de humor característico e sofisticado (cortesia do refinamento na composição proporcionada por Connery) e a execução de notáveis seqüências submarinas de ação.
Desta vez, James Bond deve impedir que a organização criminosa S.P.E.C.T.R.E. cumpra uma terrível ameaça: Destruir uma série de mísseis nucleares se os governos do mundo não lhes fornecer a soma de cem milhões de dólares em diamantes.
Foi este filme –premiado com o Oscar de Melhores Efeitos Especiais –que serviu de pivô para um processo judicial movido pelo co-produtor Kevin McClory que estendeu-se por décadas e culminou na inusitada realização de “Nunca Mais Outra Vez”, do qual logo falaremos...

Com 007 Só Se Vive Duas Vezes
A ambientação da nova aventura de 007 foi modificada a fim de inserir novidades sistemáticas à série: Aqui, Bond visita o Japão com direito a duas bondgirls japonesas (Akiko Wakabayashi e Mie Hama) –que, por sua vez, destoam ligeiramente do padrão de beleza das mulheres vistas até então na série.
Satélites e artefatos espaciais dos EUA e da União Soviética são misteriosamente roubados e, na tensão política proporcionada pela Corrida Espacial de então e pela Guerra Fria (mote do qual a Fase Sean Connery usou e abusou), essas duas superpotências se vêem à beira de um conflito.
O agente 007, designado devido às circunstâncias neutras do Serviço Secreto de Inteligência Britânica, segue a única pista para elucidar a identidade do arquivilão responsável por tudo, o quê o leva a uma aldeia japonesa.
Cinco filmes. A sucessão de trabalhos que o atrelavam a um mesmo personagem começava a cansar o ator Sean Connery, que nutria outros planos para sua carreira.

007 À Serviço Secreto de Sua Majestade (com George Lazenby)
A primeira tentativa real de substituição do ator de 007 se deu neste filme. O grande problema enfrentado pelo australiano George Lazenby foi não apenas a incrível adequação que Sean Connery teve com o personagem, como também a larga aceitação de público para sua caracterização; e o fato da estatura avantajada de Lazenby lhe dar um aspecto ligeiramente desengonçado (pouco condizente com o charme à toda prova de Bond) não ajudou muito –para os fãs, a ironia requintada imposta por Connery não encontrou um substituto à altura, por mais que a produção fosse caprichada, dinâmica e, dentre os filmes da franquia, fosse um dos que trabalhava com mais refinamento a dicotomia entre a estética rica e detalhada, a execução fluída e envolvente, e as cenas de ação.
A missão deste novo Bond é assim deter o chefe da S.P.E.C.T.R.E., Blofeld (interpretado por Telly Savalas), cujos planos visam contaminar o mundo com um vírus fatal.
Uma boa aventura, pena que seus méritos passaram despercebidos pela platéia e pelos críticos completamente atentos à inadequação do ator principal.

007-Os Diamantes São Eternos
Dessa maneira, foi necessário que Albert Broccoli e seus sócios desembolsassem uma grana considerável para trazer Sean Connery de volta.
E não é que “Os Diamantes São Eternos”, dirigido pelo mesmo Guy Hamilton de “Goldfinger”, figura mesmo entre uma das mais sensacionais aventuras do agente secreto?
Aqui, Blofeld (agora vivido por Charles Gray) organiza uma rede internacional de ladrões especializados em roubar um tipo muito particular de diamante, restando a James Bond a tarefa de deter o plano de seu inimigo.
Embora bem-sucedida –em muitos aspectos devido ao retorno de Sean Connery –era óbvio que os produtores teriam de seguir em frente sem o astro a partir daqui: Até pela fortuna que pagaram para tê-lo de volta, Connery havia se tornado uma opção cara demais para uma série que almejava produções com um intervalo de dois anos entre um filme e outro.
Foi aqui que os produtores começaram a notar no protagonista de uma série inglesa de nome, “O Santo”, um tal de Roger Moore...
Contudo, James Bond e Sean Connery ainda voltariam a ter seus caminhos cruzados.

Nunca Mais Outra vez
Um caso totalmente à parte na franquia 007, mas tão curioso e intrigante que não poderia ter ficado de fora, o projeto de “Nunca Mais Outra Vez” só viu a luz do dia graças à uma complicação judicial envolvendo os direitos autorais de um dos livros de Ian Fleming, o já adaptado “007 Contra a Chantagem Atômica”, nos anos 1960: A insatisfação do co-produtor daquele filme, Kevin McClory, fez com que uma disputa judicial pelos direitos desta obra específica fosse a julgamento, sob a alegação de que McClory desejava refilmar o resultado que o frustrou, possibilitando a ele usar a mesma trama e os personagens nela citados numa filme, digamos, bastardo... de James Bond.
O andamento caracteristicamente lento desse processo judicial levou duas décadas, fazendo com que “Nunca Mais Outra Vez” terminasse produzido e lançado em 1983, mesmo ano em que foi também lançado “007 Contra Octopussy”, com Roger Moore.
Espertamente, o produtor Kevin McClory não poupou despesas e providenciou a escalação de Sean Connery (já um tanto envelhecido, mas ainda espetacular no papel) e o cercou com um elenco de apoio sensacional (Edward Fox como M, Alec McCowen como Q, Max Von Sydow como o vilão Blofeld, chefe da S.P.E.C.T.R.E., e uma Kim Basinger recém-saída da carreira de modelo como a bondgirl da vez). A trama parte do inteligente princípio de que apenas os filmes estrelados por Connery contam em sua pressuposta cronologia, fazendo deste aqui uma espécie de encerramento –são constantes as menções e afirmações do herói acerca de sua iminente aposentadoria –justificando plenamente o título recebido.
Para comandar a aventura, um nome aparentemente interessante: Irving Keshner, então em alta com público e crítica por ter entregado aquele que é tido até hoje como o melhor de todos os “Star Wars”, “O Império Contra-Ataca”.

Visto hoje, “Nunca Mais Outra Vez” não resistiu tão bem ao tempo como muitos dos títulos oficiais protagonizados por Sean Connery, e até mesmo alguns que já contavam com Roger Moore.

sexta-feira, 18 de março de 2016

THX 1138

Anos antes de tomar o mundo de assalto com seu “Star Wars”, George Lucas realizou este conto de ficção científica, hoje bastante esquecido e desconhecido, a partir de um curta-metragem que ele realizou quando formou-se na faculdade de cinema.
THX 1138 não é somente o nome que leva o arrojado sistema de som, mas também o nome do protagonista da história, um cidadão quase autômato, desprovido de emoção e vontade que vive numa sociedade futurista (bem, o que imaginava-se por sociedade futurista no fim da década de 1960...), com evidentes inspirações em George Orwell.
Vivido por um jovem Robert Duvall, ele ensaia uma breve tentativa de rebelar-se, e é sufocado: As cenas estéreis de distanciamento formal que mostram ele sendo acometido pelo efeito de drogas sedativas e outras, onde soldados de aspecto impessoal chegam para coagi-lo usando bastões num interminável cenário branco evidenciam bem as obsessões estéticas do jovem George Lucas. Em sua segunda tentativa de rebelião, THX se dá um pouco melhor: identifica rebeldes como ele e formam um pequeno grupo, entre os quais tem a intenção de escapar daquele subsolo onde seu mundo se desenvolveu, e tentar chegar à lendária superfície.