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sábado, 4 de janeiro de 2025

Halloween - A Noite do Terror


 Na comparação com obras do gênero de terror lançadas em sua mesma época, “Halloween”, de John Carpenter, é um filme contido, restrito à sugestão e até elegante –isso se pararmos para pensar que, nos anos que o antecederam, foram lançados “Aniversário Macabro”, “Quadrilha de Sádicos”, “A Vingança de Jennifer” e “O Massacre da Serra Elétrica”. O exploitation, em geral, ainda estava em voga nos EUA, e na Europa, ainda o giallo, embora já fosse o início da defasagem desse sub-gênero.

Cheio de boas intenções e, à luz de algumas constatações relacionadas à época, o diretor John Carpenter nada mais quis do que resgatar, para aqueles novos e transgressivos tempos, algumas lições de sutileza e primazia deixadas pelo mestre Alfred Hitchcock, para quem prevalecia sempre, antes de qualquer carnificina gratuita, a sensação de perigo, a sugestão de ameaça, estabelecida por meio de um clima cuidadosamente construído. E não deixa de haver até certa poesia no fato de que “Halloween” traz, como protagonista, Jamie Lee Curtis, ela que é filha da atriz Janet Leigh (de “Psicose”) com Tony Curtis: É John Carpenter, ao assumir a cadeira de diretor, estabelecendo com seu filme uma indissociável relação com Alfred Hitchcock, a influência inquestionável para todos os ramos do suspense que se desdobraram a partir da década de 1970.

E “Halloween”, nada mais é que isso: Uma gradual evolução dessa espécie específica de cinema; depois que Hitchcock concebeu bases sob as quais construir essas narrativas, os italianos acrescentaram sangue e o estilo ópera-bufa para moldar o giallo, e o cinema mundial como um todo valeu-se das libertinagens criativas dos anos 1970 para agregar os ecos do exploitation, mas nos EUA, o que havia restado do suspense convertido em giallo transformou-se, por sua vez, em slasher. E o primeiro dessa safra –que revelou-se abundante em produção nos anos 1980 –é “Halloween”.

Sua história tem início em 1963, quando testemunhamos através de um inventivo e fascinante jogo de câmera –toda ela sob o ponto de vista do jovem assassino que adentra a casa após espiar através das janelas –o ainda pequeno Michael Meyers perpetrar seu primeiro assassinato: O de sua irmã, Judith, pouco depois dela fazer sexo com seu namoradinho –e está assim estabelecida uma das primeiras regras imutáveis do slasher, que não foi quebrada por nenhuma das sequências ou imitações que vieram depois: Quando uma personagem transa, automaticamente, na sequência ela irá morrer!

Corta para quinze anos depois e, em 1978 (época que, no filme, seria o tempo presente), Michael Meyers, após o surto psicótico esteve todo esse tempo numa clínica psiquiátrica, da qual já inicia o filme escapando, em pleno Dia das Bruxas. O Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence, escolhido pelo diretor provavelmente por marcar presença em festejadas produções cult da época, como “Armadilha do Destino”, de Roman Polanski, “THX 1138”, de George Lucas, e anos depois, “Phenomena”, de Dario Argento) que acompanhou o caso de Michael sabe que não existe, ali, qualquer esperança –trata-se de um assassino frio e implacável que fará mal a quem puder. A única alternativa é tentar pará-lo.

Por razões que permanecem nebulosas durante todo o filme (mas, que ganharão um certo respaldo em algumas das continuações), a vítima escolhida por Michael Meyers vem a ser Laurie Strode, personagem da própria Jamie Lee Curtis. Na verdade, este primeiro “Halloween”, em face de toda a mitologia que construiu-se depois em torno de seus personagens, revela-se um filme assombrosamente básico, cuja premissa serve somente às oportunidades para o diretor John Carpenter exercitar sua técnica e construir sua atmosfera.

E ele o faz magnificamente: Não importa se tudo o que ele fez aqui, virou clichê nas infindáveis imitações que o filme ganhou, em “Halloween”, essas escolhas continuam soando como decisões pontuais e eficientes à narrativa. Por exemplo, Laurie tem duas amigas, ambas –veja só! –muito mais sexualizadas que ela. Annie (Nancy Kyes) e Lyndsey (Kyle Richards) planejam passar o Dia das Bruxas aos amassos com seus namorados, entretanto, pelo menos Annie terá de se conformar em fazer o mesmo que Laurie: Trabalhar de babá, cuidando de uma criança para um casal da vizinhança. Todavia, Lyndsey tem planos para ajudar a amiga a escapar desse destino enfadonho. Durante grande parte da primeira metade de “Halloween” (ou até mais!), é isso que acompanhamos: As três amigas às voltas com uma rotina jovem e prosaica. Elas discutem na mesma dinâmica (Lyndsey é assanhada; Laurie, pudica e chocada com isso; e Annie mantem-se no meio-termo). Fumam maconha (tentando escapar da vigilância do pai de Annie, um policial interpretado por Charles Cyphers). Vão à escola, e de lá para casa. Ao longo, dessa sucessão quase banal de acontecimentos, o diretor registra a atenção quase voyeur de Michael Meyers sobre essas garotas, criando o suspense de uma ameaça iminente, sobretudo, graças ao uso  imodesto e intermitente da marcante trilha sonora (por sinal, de autoria do próprio John Carpenter). Neste filme, diga-se, não há nada de tão sobrenatural ou sobrehumano em Michael Meyers, características que ele foi adquirindo somente mais tarde, quando o próprio filme que protagoniza foi se consolidando como uma obra mítica dentro do gênero. Aqui, Michael rouba um carro, e passa o filme quase inteiro observando as garotas sem nada fazer. E tão lesadas são elas que nem lhes ocorre de chamar a polícia (ou mesmo avisar o pai de uma delas que É policial!) quando avistam, vez ou outra, esse cara estranho às seguindo ao longe.

A partir de mais ou menos a sua metade, “Halloween” explode nas sequências explícitas de morte que vinha sugerindo desde o começo –ainda que, de novo, na comparação com o que veio depois, ou mesmo com obras anteriores, ele se mantenha bastante ameno.

Pode-se afirmar que o tempo transformou “Halloween” em algo que ele não é: Não se trata de um dos mais terríveis e aflitivos filmes de terror jamais feitos, nem de possuir um dos mais sanguinários e mortais vilões já concebidos no cinema. Essas certamente não eram as intenções de John Carpenter aqui. O que ele queria, era a chance de construir uma atmosfera, valendo-se de técnicas simples mas objetivas. Estabelecer um filme com identidade de gênero sem necessariamente forçar os limites. Criar um bom e eficiente filme de terror e suspense com a mesma maestria que seu grande mestre, Hitchcock, havia feito antes. E nesse sentido, ele acertou em cheio.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Vampiros de John Carpenter

A indefinição de gênero parece uma constante na filmografia de John Carpenter –ela aparece na inacreditável propensão para a comédia surgida em seu “Memórias de Um Homem Invisível”, quando todos esperavam de Carpenter uma revisão sublinhada no terror da premissa concebida por H.G. Wells; aparece também em sua obra-prima, “Halloween”, moldando códigos descobertos no giallo italiano para forjar um dos primeiros exemplares do slasher; até mesmo no cult “O Enigma do Outro Mundo”, uma refilmagem da obra de Howard Hawks que integrada à produção comercial de então se torna um produto completamente distinto de sua fonte.
Há diversos exemplos assim ao longo de toda carreira de Carpenter –a aventura de artes marciais que, em seu estranhamento, não vai a lugar algum (“Aventureiros do Bairro Proibido”); o filme pós-apocalíptico absolutamente peculiar em sua singularidade (“Fuga de Nova York”) –mas, quase todos eles, pela proximidade ou pelo afastamento, remetem ao terror.
Nesse sentido, “Vampiros” é uma obra de Carpenter dos pés à cabeça –e essa compreensão é tão absoluta que ele batiza o filme com seu próprio nome! Carpenter queria realizar um faroeste, dos poucos gêneros que em sua ampla experiência, ele ainda não tinha adentrado –e esforços não faltaram visto que seu “Assalto À 13ª DP” é praticamente uma refilmagem de “Onde Começa O Inferno”, também de Hawks.
Quiseram dele, porém, mais do mesmo: Terror, desta vez, uma produção envolvendo as criaturas sugadoras de sangue e seus caçadores.
Carpenter enxergou nessa oportunidade a chance de desconstruir o filme para fazer o faroeste que tanto almejava. O coração do filme, portanto, é definido pelo estilo que o norteia mais que pela trama que conta.
Marrento como o mais durão dos cowboys, James Woods interpreta Jack Crow, líder de um grupo de caçadores de vampiros contratados pelo Igreja Católica que, armados até os dentes e trajados de roupas escuras e estilosas, remetem aos pistoleiros de antigamente. Também o cenário por onde singram –um árido deserto americano nos arredores do Novo México –ajuda nessa relação.
Jack Crow e seu grupo estão no encalço do mais poderoso dos vampiros, Valek (Thomas Ian Griffith) que tem, também ele, seus planos.
Valek quer por a mão em uma relíquia, uma cruz centenária que, segundo contam as lendas, pode neutralizar sua maior fraqueza, permitindo aos vampiros caminhar à luz do sol.
Já no princípio de sua missão, Jack Crow já tem seu grupo quase todo dizimado pelo poderoso Valek –em compensação, sua retribuição é implacável, eliminando também a horda de vampiros de Valek deixando-o sozinho em sua busca.
A Jack Crow resta o fiel Montoya (Daniel Baldwin) que se dedica a cuidar (e, mais tarde, enamorar-se) da prostituta Katrina (Sheryl Lee, de “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), uma vítima de Valek que, a exemplo das outras, está em processo de converter-se, também ela, em uma vampira.
O filme se debruça assim sobre os percalços dos dois antagonistas maiores, Jack Crow e Valek –de Crow, ele acompanha sua aliança com o padre Guiteau (Tim Guinee) e seu plano de usar a conexão psíquica de Katrina com o vampiro para enfim encontrá-lo; de Valek, ele registra seus ataques sistemáticos na busca para criar novos lacaios, enquanto procura por sua preciosa relíquia.
O confronto final entre os dois, inadvertidamente situado no clímax do filme, é alcançado num ritmo cadenciado, característico das atmosferas cheias de suspense e apoteose do Velho Oeste, exatamente como almejava seu realizador.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Fuga de Nova York

Ao lado de “O Enigma de Outro Mundo”, este “Fuga de Nova York”, de 1981, é um dos filmes mais cultuados da parceria entre o diretor John Carpenter e o astro Kurt Russell.
Como toda ficção científica oriunda daquele fantasioso período comercial, ela hoje soa absurda em sua proposta: Em 1988 (o futuro dali a sete anos), a ilha de Manhattan, em Nova York, é convertida em uma gigantesca prisão com imensas muralhas a circundá-la. Anos depois, em 1997, o lugar é um domínio confinado de bandidos completamente isolado do resto do mundo.
Poucos têm noção das circunstâncias lá dentro, e seus muros são patrulhados ferozmente por militares impedindo qualquer tentativa de fuga.
As autoridades que vigiam esse inacreditável perímetro são pegas de surpresa quando um grupo revolucionário denominado Movimento de Libertação Nacional seqüestra o avião presidencial, o Força Aérea-1, e leva o presidente em pessoa (Donald Pleasence, outra presença habitual nos filmes de Carpenter) a cair com uma cápsula ejetora dentro da própria Manhattan. Com um refém dessa importância nas mãos dos bandidos, o chefe de segurança Bob Hauk (Lee Van Cleeff) não encontra outra opção senão recorrer aos serviços do mercenário Snake Plissken (Kurt Russell, antológico usando tapa-olho), outrora um herói de guerra, e agora sentenciado àquela mesma prisão.
O acordo feito é pouco favorável a Plissken –ele recebe uma dose de cápsulas microscópicas que irão matá-lo se não trouxer o presidente em 22 horas –mas ele aceita a missão em troca do possível perdão presidencial por seus crimes.
Em Manhattan –que ele invade pousando um planador numa das torres do World Trade Center –o perigo ronda cada esquina, e não são raras as menções feitas pelos personagens à Leningrado (esse precedente histórico parece servir constantemente de modelo para o clima que Carpenter deseja construir neste trabalho).
A medida que seu prazo avança, Plissken adquire alguns aliados inesperados naquela terra de ninguém, como o fanfarrão Cabbie (o grande Ernest Borgnine, já em fim de carreira), o bem informado, mas pouco confiável Brain (o saudoso Harry Dean Stanton) e sua ajudante/companheira Maggie (Adrienne Barbou, usando o filme todo um decote matador!).
Há ecos claros de “Mad Max”, de “Selvagens daNoite” e de “Ruas de Fogo”, todos filmes dos anos 1980 que, em comum, têm aquele clima distópico no qual o protagonista adentra um ambiente tão inóspito quanto mirabolante –e curiosamente em todos, essa hostilidade mirabolante vem calcada numa previsão pessimista, subversiva até, de uma deterioração urbana e social, como se fosse um reflexo condicionado do cinema de ação oitentista, a previsão de um futuro devastado e retrógrado em suas mazelas criminais e bárbaras.
“Fuga de Nova York” ganhou uma seqüência, um tanto tardia, em 1996, bastante beneficiada pelo culto que surgiu ao longo dos anos em torno deste filme: Com um orçamento generoso, o diretor Carpenter levou Snake Plissken à Costa Oeste em “Fuga de Los Angeles”. Toda a inspiração da premissa e de seu protagonista, entretanto, parecem mesmo terem ficado restritos à este primeiro filme.