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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Sonic

 


E os estúdios de Hollywood ainda se esforçam na tentativa de conceber um universo de histórias e personagens que espelhe o da Marvel Studios –dos poucos a chegar muito perto de conseguir algo assim, surpreendentemente está o “Universo Sega”, isto é, um universo compartilhado que pode vir a abarcar todos os personagens oriundos dos jogos de computador da Sega, graças ao súbito sucesso de bilheteria e crítica deste “Sonic” que apresentou, quando de seu lançamento, um inesperado nível elevado de qualidade.

E muitos indícios apontavam para o contrário: Meses antes, quando o primeiro trailer foi divulgado, os fãs reagiram desgostosos com o visual insatisfatório dado à versão digital do famoso ouriço azul. Foi a reação dos produtores à isso que revelou-se sensata e acertada: Eles atrasaram em alguns meses a estréia do filme para rever todo o conceito visual de seu protagonista para aproximá-lo mais das características do game, atendendo ao anseio dos fãs.

Assim, o Sonic que chegou estrelando o filme já vinha abrilhantado pela aceitação do público: A competência geral de todo o restante do filme em si fez o resto do serviço e “Sonic” –dos poucos filmes em 2020 que conseguiu fazer todo um circuito em cinema antes da loucura da pandemia –sagrou-se como ótimo entretenimento e como um passo válido e promissor para que o Universo Sega (que inclui potenciais franquias como “Golden Axe”, “Castlevania”, “Mario Bros”, “Landstalker” e outros) fosse estabelecido nos cinemas –e a cena pós-crédito está lá para provar que sim, ao menos planos para algo assim, os realizadores já tinham.

Vindo de outro mundo, o ouriço azul humanóide Sonic (voz de Ben Schwartz) acaba refugiado na Terra, mais precisamente nos arredores da cidadezinha de Green Hills, Montana, graças ao sacrifício de sua coruja mentora (!), que o previne dos muitos que o caçarão a fim de obter seu vasto poder, capaz de atingir velocidades inacreditáveis.

Vivendo anos às escondidas dos moradores, Sonic se ressente de não ter amigos e nem companhia –e tal frustração é extravazada numa certa noite, quando sua supervelocidade provoca um pulso eletromagnético que gera um apagão em toda aquela região dos EUA. O evento acende um alerta vermelho no Pentágono que despacha para o epicentro do ocorrido –a pacata Green Hills –um cientista cujo adjetivo ‘maluco’ seria um eufemismo: O Dr. Robotnik (Jim Carrey, esbaldando-se num personagem antológico do jogo) é anti-social, presunçoso, arrogante e implacável –características todas que Carrey converte, cena após cena, num deleite cômico à parte.

De cara ele compreende a natureza sem igual da criatura que anda aprontando das suas por lá; e não tarda a almejar capturar Sonic, e dissecá-lo se for preciso, a fim de replicar sua prodigiosa velocidade.

Para livrar-se desse encalço vilanesco, Sonic recorre à ajuda do policial local Tom Wachowski (James Marsden, sempre carismático), inclusive para poder levá-lo à São Francisco, onde Sonic perdeu, numa tremenda trapalhada, seus anéis mágicos com os quais era capaz de se teleportar –entre diferentes mundos, até –e que ele planejava usar para partir em definitivo da Terra.

Contudo, Sonic não está certo de que ao fim disso tudo partirá: Na Terra, seu lar nos últimos e solitários dez anos, ele encontrou a amizade de Tom e os primeiros raios de esperança, em muito tempo, de não mais viver sozinho.

E é assim, com essa simplicidade, mas sabendo investir com sensatez nos elementos qualitativos que a fazem funcionar, que o filme do diretor Jeff Fowler segue em frente, dosando muito bem a descontração da trama com o ritmo da ação necessária para manter o interesse do público continuamente renovado. Somado à esses bons predicados, o filme consegue gerar uma incomum empatia nos expectadores por seu irrequieto e carente protagonista digital: Até o fim do filme, Sonic é um personagem por quem torcemos e pelo qual sentimos genuína apreensão quando se vê, já no clímax, diante de perigos espantosamente tensos.

E arrancar tal resposta emocional da plateia é, afinal, um indicativo de que a experiência cinematográfica cumpriu sua tarefa.

sábado, 20 de junho de 2020

O Máskara

Se “Ace Ventura-Um Detetive Diferente” foi a revelação de Jim Carrey perante Hollywood, então seu filme seguinte, “O Máskara” foi a sua consolidação como grande estrela da comédia.
Aqui contrário da realização anterior, Jim Carrey não carregava nas costas uma produção mediana, convencional e de predicados genéricos –adaptado de uma obscura histórias em quadrinhos (numa época em que esse procedimento não era comum em produções hollywoodianas), o filme dirigido por Chuck Russell além de uma trama mirabolante e divertida ostentava efeitos especiais de ponta; emoldurando com brilhantismo um ator que se encarregava maravilhosamente bem de transformar o filme num passatempo único.
É curioso notar que, diante da realização certeira que se tornou, “O Máskara” atravessou um tortuoso caminho até ser aquilo que é: O estúdio New Line, por muito tempo, cultivou o projeto de um filme de terror extraído da HQ (cujos níveis de violência e tom sombrio são consideráveis), e para tanto chamou Chuck Russell justamente por conta de seus créditos –ele havia realizado “A Hora do Pesadelo 3”, apontado pelos fãs como um dos melhores filmes da série depois do original.
Contudo, Russell não enxergou um apelo atrativo o bastante na seriedade que o gênero terror impunha à história –partiu dele a ideia de transformar tudo numa comédia tão selvagem quanto seu personagem principal.
Sendo assim, Jim Carrey é Stanley Ipkiss, aquele tipo de protagonista tão subestimado pelos outros à sua volta que sabemos, de antemão, que haverá de saborear uma reviravolta existencial ao longo do filme –e a forma com que a atuação de Jim Carrey trabalha os pormenores desse descaso é, até hoje, um desbunde de se assistir.
Às mãos de Stanley chega, por caminhos tortos e imprevistos, uma máscara que é, em si, uma relíquia e uma antiguidade: Dentro dela (numa explicação breve que surge da boca de um indiferente especialista), se encontra o espírito de Loki, o deus nórdico da trapaça; assim quando a coloca, o tímido e retraído Stanley se transforma no incontrolável Máskara, um ser de cabeça inteira verde –emoldurando as expressões insanas de Carrey –cujos poderes interferem na realidade a fim de atormentar os coadjuvantes sisudos que cruzam seu caminho.
É o caso do policial Tenente Kellaway (Peter Riegert, de “Momento Inesquecível”) cujas suspeitas recaem sobre o pacato Ipkiss desde o primeiro momento em que o viu –certo de que ali se esconde a identidade do Máskara. Ou do chefe mafioso Dorian Tyrell (Peter Greene, de “Pulp Fiction”), que almeja os poderes do Máskara para si, e quer destruir o novo herói desde que ele passou a interferir em seus planos e a conquistar o coração da deliciosa cantora Tina Carlyle (Cameron Diaz, em sua devastadora estréia no cinema!), estrela principal de seu clube, Coco-Bongo.
Embora não alce voos mais pretensiosos em torno dessa premissa básica –que certamente reúne também características de ‘filme de origem’ –o trabalho de Chuck Russell é hábil o suficiente para agregar nele também elementos inesperados, como o curioso desenvolvimento de dois interesses românticos em potencial paralelamente; o que gera uma dúvida no expectador de primeira viagem –Quem é a mocinha de “O Máskara”? A sensacional Tina ou a repórter inxerida Peggy Brandt (Amy Yasbeck)? –e o torna memorável e magnífico naquilo que tem de melhor: As intervenções do personagem Máskara, uma força da natureza, ao redor do qual os objetos criam vida, as leis da física (e da realidade) se torcem a ponto de não existirem, e até mesmo a quarta parede é quebrada, com o protagonista dando pequenos indícios ao público enquanto converte o filme a seu bel-prazer numa comédia screwball, num musical, numa versão live-action dos desenhos de Chuck Jones, ou em qualquer outra coisa que ocorrer à imaginação do roteirista.
Em “O Máskara”, ninguém está seguro do non-sense contagiante de seu herói. Que bom!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Kick Ass 2

Era inevitável que o surpreendente e divertido “KickAss-Quebrando Tudo” ganhasse uma continuação. O problema foi, talvez, ela ter perdido um certo timing para acontecer.
Perdeu outra coisa também: O competente diretor do filme anterior, Matthew Vaughn, que não retornou –e que tinha até outro dia o hábito de não dar continuidade a nenhum de seus trabalhos: Assim como em “Kick Ass”, ele também dirigiu o ótimo “X-Men Primeira Classe” e não retornou para fazer sua aguardada continuação. Ele só rompeu com esse ciclo ao realizar a seqüência do bem-sucedido “Kingsman-Serviço Secreto”.
No lugar de Matthew Vaughn, foi chamado o diretor Jeff Wadlow (que realizou um bom trabalho no filme de pancadaria “Quebrando Regras”), dono de uma sólida percepção para as cenas de ação, porém, burocrático no trato para com os personagens e a graça genuína que pulsava de suas dinâmicas.
Após os acontecimentos do primeiro filme, Mindy (a Hit-Girl, que Chloe Grace Moretz agora uma adolescente e não uma garotinha interpreta com vigor e personalidade) abandonou a vida de vigilante e passou a freqüentar a mesma escola que Dave (Aaron Taylor Johnson, ótimo no papel) –este ainda atua ocasionalmente como Kick-Ass.
Sozinho, ele termina unindo-se a um certo grupo auto-intitulado Justiça Eterna, capitaneado pelo ligeiramente desajustado Coronel Estrelas e Listras (uma ponta especialíssima de Jim Carrey), e formado por diversos pretendentes a heróis uniformizados, todos inspirados pelo próprio Kick-Ass.
No entanto, o vingativo Chris Dammicco (Christopher Mintz-Plasse, impagável), agora abandonando sua identidade de Red Misty e assumindo sua persona vilanesca como Motherfucker, retorna e ladeado por todos os capangas truculentos e brutais que seu dinheiro é capaz de pagar –incluindo aí uma certa Mama Rússia (Olga Kurkulina) cuja expectativa pelo embate contra Hit-Girl a narrativa faz questão de preparar com todo o cuidado e minúcia.
Os atos perigosos e inconseqüentes de Motherfucker e sua gangue irão obrigar não só Mindy a rever sua decisão de abandonar o vigilantismo (tarefa para a qual ela tem excelência inquestionável), como também colocará Dave –e todo um exército de heróis mascarados e voluntários aos quais ele próprio deu origem –em rota de colisão com seu arquiinimigo.

É nítida a constatação de que esta seqüência do inesperado sucesso não vem agraciada com a mesma química do filme anterior (conseqüência, sem dúvida, da troca de diretores), contudo, o resultado ainda é plenamente divertido, ultra-violento e debochado.

domingo, 23 de abril de 2017

Batman no Cinema

Batman
Por muito tempo, o cinema tateou na busca por uma conciliação narrativa com a linguagem dos quadrinhos. Essa busca é bastante ilustrativa quando olhamos a seqüência de filmes protagonizados pelo Batman, que ganhou, na opinião de muitos, sua personificação cinematográfica definitiva com Christian Bale, na Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
Bem antes disso, o público e a crítica (na verdade, bem mais o público do que a crítica) deixou-se encantar pela primeira versão cinematográfica do herói, concebida por Tim Burton e estrelada por Michael Keaton.
De um estilo peculiar e personalíssimo, Burton tinha uma visão eclética do projeto conceitual: Ao mesmo tempo em que ele via uma apropriada atmosfera sombria a relacionar-se diretamente com o personagem e o mundo que o cerca (a obscura e corrupta Gotham City) o que passou a influenciar até mesmo os quadrinhos dali por diante, embora o próprio filme de Burton deva muito à reformulação do personagem promovida na graphic novel “Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller –ele também tinha uma certa displicência para com a figura do próprio herói (visto como nitidamente desinteressante em sua narrativa) o que priorizou, neste primeiro filme, o antagonista Coringa interpretado com som e fúria por Jack Nicholson.
O vigilante sombrio e amargurado Batman (cuja origem acaba sendo pouco mais que uma recordação, longe do trabalho cuidadoso feito em "Batman Begins") torna-se quase um detalhe em meio à trama que acompanha Jack Napier (Nicholson) e a traição sofrida por seu mentor, o líder do crime organizado de Gotham City, Carl Grisson (Jack Palance), o quê leva Napier à mergulhar acidentalmente num tonel de ácido, de onde emerge já transformado no maluco homicida Coringa.
Para o Coringa, depois de matar Grisson, o controle de Gotham agora só encontra obstáculo mesmo no Batman, cuja identidade secreta, o milionário Bruce Wayne, está às voltas de um relutante romance com a repórter Vicky Vale (Kim Basinger, esplêndida), dedicada, por sua vez, a descobrir a real identidade do herói mascarado.
Um sucesso exorbitante, menos por seus valores cinematográficos e mais por sua campanha maciça de marketing, “Batman” revelou o inesperado pendor comercial de Tim Burton e uma sutil predisposição dele em deixar de lado os aspectos mais marcantes de seu estilo em função de uma colaboração com um produto de estúdio, o quê ele voltaria a fazer, anos mais tarde, na refilmagem/reinvenção de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Batman-O Retorno
O êxito arrebatador do filme de Burton deixava claro que, à ele, brevemente uma continuação se seguiria. Se teria Tim Burton mais uma vez na direção, aí a história era outra (Burton não ficou satisfeito com o controle criativo limitado que teve no primeiro filme, e o diretor de arte, Anton Furst, ganhador do único Oscar recebido pelo filme, era muito cotado para assumir a direção da seqüência, antes de falecer).
O estúdio terminou concluindo que não valia a pena mudar a equipe e manteve Burton dirigindo o novo filme e Michael Keaton o estrelando –embora muitos questionassem sua adequação ao papel.
Tal e qual o primeiro “Batman”, neste novo filme Burton tornou a manifestar seu fascínio pelos desajustados e seu indisfarçável carinho pelo monstruoso –ou seja, pelos vilões –centrando todo o interesse da narrativa desta vez, na origem pontuada por abandono e detalhes grotescos de Oswald Cobblepot, ou melhor, o Pingüim (Danny De Vito, irreconhecível debaixo da densa maquiagem) e, principalmente, na trajetória envolvente de Celina Kyle, secretária do empresário Max Shreck (Christopher Walken, num personagem cujo nome remete ao ator célebre por interpretar o vampiro no clássico “Nosferatu”, de Murnau) cuja descoberta dos negócios ilícitos do patrão leva Celina a uma transformação radical, tornando-se a ambígua e sensacional Mulher-Gato (que ganhou, nas formas e nas expressões de Michelle Pfeifer uma personificação considerada, até hoje, imbatível).
Batman, como se pode perceber, é um mero coadjuvante diante de personagens tão exuberantes.

Batman Eternamente
Para Tim Burton, dois filmes bastaram. Após “Batman-O Retorno”, o máximo que ele se dispôs a aproximar-se do novo projeto envolvendo o personagem foi na função de produtor executivo. O diretor escolhido para substituí-lo, sabe-se lá porque, foi Joel Schumacher: Talvez tenha sido o estilo rebuscado e sombrio que ele demonstrou em “Linha Mortal”, similar ao de Burton (embora, Schumacher nunca tenha preservado qualquer estilo ao longo de seus filmes), ou o fato de ser um típico de diretor padrão, ideal para trabalhar sob contrato.
Com ele no comando, o filme imediatamente ganhou nova roupagem e um novo intérprete: Val Kilmer, cujo excesso de sisudez e as madeixas castanhas claras não ajudaram muito a ser visto como uma escolha melhor do que Keaton.
Também o orçamento inflado da nova produção deixava claro o quanto Batman, enquanto produto corporativo, significava para o estúdio: Não foram poupadas despesas, inclusive no que diz respeito ao elenco milionário –Nicole Kidman (começando uma auspiciosa escalada ao estrelato graças ao lançamento de “Um Sonho Sem Limites” naquele mesmo ano) como o par romântico do herói (sendo que as menções às anteriores Vicky Vale e Mulher-Gato foram completamente ignoradas); Tommy Lee Jones como o pra lá de caricato vilão Duas-Caras (chega a ser covarde e absurdo comparar esta versão ao bem construído Duas-Caras de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”); Jim Carey como Charada (papel que ele tirou do anteriormente cotado Robin Willians); e Chris O’ Donnell surgindo pela primeira vez como Robin, o parceiro do herói deixado de lado nos dois filmes anteriores.
Aqui, Batman se vê diante do desafio de um novo chefão do crime, o antigo promotor Harvey Dent transformado no vilão Duas-Caras. Paralelo ao surgimento de um novo vilão, o Charada, o acrobata Dick Graysson perde toda sua família, encontrando um lar na mansão Wayne onde passa a auxiliar Bruce Wayne, o Batman, como seu fiel parceiro, o Robin.

Batman & Robin
E foi assim, com o relativo êxito do filme anterior que chegamos no quarto e famigerado filme do Batman, o segundo sob o comando de Joel Schumacher, onde ele teve liberdade para fazer a “sua” visão do Batman, deixando de lado qualquer realismo ou interiorização sombria, e com isso soterrando a série no cinema, até que a reformulação radical de Nolan viesse para salvar o personagem.
A trama acompanha o surgimento dos vilões Sr. Frio (Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (uma deslocadíssima Uma Thurman) –há também a aparição de Bane “interpretado” pelo brutamontes insípido e inexpressivo Jeep Swenson, o que reduz o personagem à um mordomo truculento, longe do significado imposto por Tom Hardy ao personagem em “Batman-O Cavaleirodas Trevas Ressurge” enquanto pequenas desavenças minam o relacionamento entre Batman (agora George Clooney no lugar de Val Kilmer...) e Robin (Chris O’ Donnell, cada vez mais irritante no papel), dando oportunidade para a origem de uma nova heroína, Batgirl (Alicia Silverstone, inadequada como atriz, num personagem absolutamente disfuncional, desnecessário, redundante e introduzido de forma descuidada).
O fato de não manter Val Kilmer como Batman/Bruce Wayne em seu filme seguinte já indicava uma certa irregularidade da parte de Schumacher na forma com que ele via o projeto, mas ninguém imaginava que suas idéias conduziriam a uma obra tão escandalosamente catastrófica quanto foi este “Batman & Robin”, um filme tão equivocado, tão absurdo em seu desleixo e ruindade que no making of (disponível na edição em DVD do filme) pode-se conferir o próprio diretor pedindo desculpas pelo trabalho que realizou (!).
Uma sucessão de cenas absolutamente vergonhosas: Os novos e alardeados trajes dos heróis que já contavam antes com ridículos mamilos salientes, aqui ganham cores berrantes como o roxo (no caso de Batman!) e o vermelho escarlate (no caso de Robin), além de uma iluminação de neon com muito rosa, verde a alaranjado (!); o leilão pelo corpo de Hera Venenosa, onde Batman e Robin iniciam uma imatura discussão encerrada de forma patética com o ‘bat-cartão de crédito’ (“Nunca saia da caverna sem ele!”); o Sr. Frio de Arnold Schwarzenegger usando pantufas de ursinho polar e regendo um coro entre seus capangas.
É espantoso notar que o elenco, de Schwarzenegger à Clooney, passando por todos os outros atores, abraçou a proposta do diretor e assume suas presepadas sem aparentar constrangimento.
Como se não bastasse esse erro crasso de tom, o filme ainda se revela sofrível em termos cinematográficos: Dentre todos os filmes feitos sobre o Batman, este é aquele que mais o negligencia, colocando-o em segundo e até terceiro plano (e olha que essa era uma crítica freqüentemente dirigida aos títulos anteriores).

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Show de Truman

Um estudo dos reality show muito, muito antes da era dos reality show começar, "O Show de Truman" é um feito e tanto: Um roteiro primoroso, astuto e audaz de Andrew Niccol, versando sobre ganchos, paradigmas e reflexos de narração que ainda soavam inéditos naqueles saturados anos 1990; um projeto onde o comediante Jim Carrey abraçou a oportunidade para mostrar o ator brilhante que é de fato, num personagem carregado de camadas, através das quais o ator permite vislumbrar o lado a um só tempo patético, destemido, vulnerável e beligerante do ser humano; e, sobretudo, uma obra de cinema singular perpetrada pelo sempre talentoso Peter Weir, que a exemplo de seus magníficos "A Testemunha" e "Sociedade dos Poetas Mortos" adentra um gênero para distorcê-lo, transmutá-lo com seu agudo estilo e diferenciação, e dele extrair algo absolutamente novo.
E é, definitivamente algo novo, que encontramos aqui, na história de Truman Burbank, um rapaz que, sem saber, é o centro do programa de TV mais assistido de todo o mundo: o "Truman Show", que é exibido desde que nasceu –e do qual, ele não tem o menor conhecimento!
Todos ao redor dele, portanto, seus amigos, conhecidos e familiares, são atores contratados para fingir que fazem parte de sua vida.
Aos poucos porém, Truman começa a detectar indícios de que sua realidade é diferente aquela que ele pensa (por meio de pequenos acidentes técnicos que se sucedem ao longo dos anos, pelos ocasionais erros de continuidade dos atores a sua volta, e pela determinação de uma jovem vivida por Natascha McElhone disposta a livra-lo de sua ‘novela-prisão’), e isso tudo pode levar Truman a tentar algo que foi basicamente educado para não fazer: Arriscar-se a deixar a vida que conhece para trás a fim de ser dono do próprio destino, e com isso, defrontar-se com o homem responsável por tudo o que representa o “Truman Show”, o controlador e paternalista Cristof (o magistral Ed Harris).
Não são somente o roteiro de Niccol, nem a direção soberba de Weir as grandes estrelas deste achado cinematográfico: Também o são as atuações de Jim Carrey e de Ed Harris.
Harris, aliás, é o responsável pelo grande momento do filme, quando já no desfecho, ao alcançar o que certamente é o limite final de seu mundo idealizado e construído (e portanto, o início do assustador mundo real), Truman e Cristof (seu pai, criador e, de certa forma, o deus de seu mundo; e a encenação cuida para que essa metáfora fique clara e poderosa) ficam pela primeira –e, provavelmente única vez –em contato um com o outro, para ambos poderem esclarecer dúvidas (sobretudo Truman) e descobrirem quem passarão a ser dali em diante.
Um trabalho poderoso, sem dúvidas, um dos melhores dos anos 1990.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Joel sofre copiosamente. A razão é uma só: Clementine, sua ex-namorada não só terminou com ele, como também fez uma lavagem cerebral que apagou Joel de sua memória e, por conseguinte, todo o relacionamento que tiveram juntos. Quando se encontram ela nem mesmo o reconhece. 
Inconformado, Joel decide se submeter à mesma experiência e apagar Clementine da sua mente. Entretanto, no meio do processo ele encontra lembranças de Clementine, e da relação que teve com ela, das quais ele não quer se desfazer. Joel então se arrepende e inicia uma fuga desesperada dentro de sua própria mente na vã tentativa de manter uma mínima recordação de Clementine. 
Um roteiro primoroso norteia este filme emocionante, mas que nunca se torna refém das emoções que consegue provocar: Sem a menor sombra de dúvida, o melhor trabalho do diretor Michel Gondri, no qual até mesmo suas duvidosas escolhas cênicas, que muitas vezes remetem a orientação circense de Terry Gillian, surgem significativas para os efeitos propostos pelas cenas lindas de recordação que materializam-se na tela. 
A memória surge como um catalizador das próprias definições humanas. 
Há que se louvar, com insistência, o mérito do roteiro. Escrito pelo quase sempre transgressor Charlie Kaufman, a trama tem toda sua falta de conformismo, toda sua ânsia de não se prender às convenções de narrativa cinematográfica que engessam, em particular, o gênero no qual ele parece pairar: o romance. Todavia, “Brilho Eterno...” é também uma ficção científica, e de uma certa maneira uma comédia, e muitas vezes um drama. É, no fim das contas, um daqueles trabalhos incategorizáveis tal a fluidez com que vai de um gênero à outro, e com a qual se vale, justamente disso, para contar sua história. 
Á frente do elenco, Jim Carrey é surpreendente, mostrando-se muito mais que o primoroso comediante que é: Ele expões suas dores de amor, em cenas de insuspeita sensibilidade, ainda mais arrojadas em termos de interpretação, do que o trabalho magistral que entregou em “O Show de Truman”. 
Kate Winslet, por sua vez, faz uma personagem espalhafatosa, petulante. carregada de histrionismos e talvez, por isso mesmo, cativante. Ela não só interpreta essa personagem, se você reparar, mas também o conceito de idealização dessa personagem, nas memórias do ex-namorado, e por isso mesmo, um registro distinto do que é feito nas cenas que se passam na realidade. É necessário uma intérprete de brilhantismo irrestrito para um trabalho assim. 
Minha cena predileta (embora apontá-la seja de uma grande injustiça para com a maravilhosas outra cenas que se apresentam) é a última lembrança na casa da praia, uma espécie de despedida, onde o filme suscita sentimentos muitos universais acerca do receio e das dúvidas que o sentimento desperta em todos nós. E dos inúmeros motivos porque as lembranças que mantemos são (e devem sempre ser) indeletáveis. 
As repercussões e consequências desse gesto contrário e do amor que Joel por Clementine estão entre as muitas surpresas desta história.