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sábado, 21 de setembro de 2024

Os Fantasmas Ainda Se Divertem


 Existem complicações inerentes ao fato de se tentar realizar uma continuação de um cult-movie: Primeiro, porque muito provavelmente, as razões que o tornaram cult vão além da mera competência técnica e artística, sendo mais uma conjunção de fatores favoráveis e incomuns; segundo, porque muitas vezes, tal produção pertence à um tempo (anos 1980, no caso) e à um contexto que não se pode reproduzir espontaneamente; e terceiro, porque cult-movies costumam ser encontrados por seu público de uma forma que dificilmente acaba se repetindo.

Embora pertinentes, essas questões se tornam menores diante deste brilhante “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, e tudo isso graças ao nome de Tim Burton atrás das câmeras –ele, que jamais abriu mão de seu estilo ao longo de quase quarenta anos de carreira, entendeu que somente preservando os mesmos elementos que em 1988 fizeram a originalidade palpitante do divertidíssimo “Os Fantasmas Se Divertem” seria possível conceber uma continuação digna e sólida.

E –vejam só! –ele de fato conseguiu: O novo “Beetlejuice” começa mostrando a rotina da personagem de Winona Ryder, Lydia Deetz, que no filme original era uma adolescente: Agora, atriz e personagem estão na idade madura, Lydia possui um programa de TV que, de maneira sensacionalista, explora as capacidades sensitivas que ele descobriu no primeiro filme. Sua filha, Astrid (Jenna Ortega) tem a mesma idade que Lydia tinha na época do filme anterior, no entanto, diferente da mãe, ela faz lá seus esforços para se adaptar –o que leva mãe e filha a terem seus eventuais conflitos, principalmente, porque Astrid não acredita nos dons sobrenaturais da mãe (se ela pode comunicar-se com os mortos, conclui a jovem, então por que nunca conseguiu estabelecer contato com o falecido pai de Astrid?) e disso se ressente. Um acontecimento inesperado acaba por reunir as três gerações de mulheres da Família Deetz –Astrid, a filha, Lydia, a mãe, e Delia (Catherine O’Hara) a madrasta de Lydia –na mesma casa do filme original: Charles, pai de Lydia e marido de Delia, morreu de forma um tanto caricata num acidente de avião (mostrado em animação stop-motion) e seu funeral se sucede na mesma casa, na cidadezinha de Winter River, em que os eventos anteriores ocorreram. O roteiro até que engenhoso de Miles Millar e Alfred Gough consegue assim justificar uma espécie de ausência do personagem outrora vivido por Jeffrey Jones (de “Curtindo A Vida Adoidado”) sem precisar descartá-lo pela força das circunstâncias (em 2002, ele foi judicialmente incriminado de pornografia infantil).

Mas, é claro que, uma vez que toda essa trupe reaparece em Winter River, a estrela principal haveria de dar as caras também: Beetlejuice, a assombração de aluguel, vivido de maneira impagável por Michael Keaton, volta mais uma vez para tumultuar a rotina dos Deetz. Ou não... quando Astrid se mete numa encrenca de proporções literalmente sobrenaturais, Lydia não tem outra escolha senão chamar aquele que ela tentava evitar à todo o custo desde que chegaram –ela pede ajuda ao próprio Beetlejuice que, obviamente, tem lá o seu preço a cobrar: Com uma ex-esposa maligna e sugadora de almas à solta, Delores (interpretada pela italiana Monica Bellucci, atual namorada de Burton) responsável inclusive pela morte de Beetlejuice uns seiscentos anos atrás (!), ele precisa forjar com Lydia o mesmo pacto do primeiro filme, no qual, ao casar-se com ela, ele poderia voltar ao mundo dos vivos. No encalço de Beetlejuice, de Delores e de todo esse pessoal, está ainda Wolf Jackson (Willem Dafoe, hilário) um ator morto, tão convicto do personagem que morreu interpretando que, mesmo no além, ainda age como um detetive –e é obedecido por subalternos como se fosse um!

Tim Burton está, portanto, afiadíssimo em “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, levando todos esses personagens, e muitos outros mais à interagir incessantemente numa trama de idas e vindas vertiginosas, possivelmente, a melhor mescla de comédia pastelão e homenagem macabra ao terror que Burton conseguiu urgir nas últimas décadas.

sábado, 22 de julho de 2023

Flash


 Falar sobre filmes de superheróis, hoje, é evocar todo um contexto no qual estão inseridos como o universo provavelmente compartilhado que eles habitam do lado de lá das telas, e também, a situação, periclitante ou não, que a produção vivencia do lado de cá. Em “Flash” há muito o que se falar nos dois casos, e nenhum é uma história muito curta: Primeiramente, temos o herói velocista vivido por Ezra Miller (de quem este é o primeiro filme solo), finalmente alçado ao status de protagonista numa trama em que almeja usar de sua supervelocidade para voltar no tempo e impedir o assassinato da sua mãe (a maravilhosa Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também”), crime do qual seu inocente pai (Ron Livingston, de “Band Of Brothers” e “Como Enlouquecer Seu Chefe”, substituindo Billy Crudup dos outros filmes) é acusado.

No entanto, como bem sabem todos os expectadores de “De Volta Para O Futuro”, mexer com o tempo acarreta pesadas repercussões no presente, e é aí que o filme dirigido com notável habilidade por Andy Muschetti começa a se complicar um pouco: “Flash” faz parte do Universo DC nos cinemas, perpetrado por Zack Snyder em seus três primeiros filmes: Esboçado em “Homem de Aço”, ampliado com algum desleixo em “Batman Vs Superman” e bastante comprometido com as turbulências ocasionadas na produção de “Liga da Justiça” –a Liga da Justiça, inclusive, da qual o Flash faz parte, comparece, na bombástica cena de abertura –logo, viajar no tempo, no contexto da sua narrativa, significa revisitar eventos ocorridos nos filmes anteriores, neste caso específico, a chegada do General Zod (Michael Shannon) à Terra, episódio que proporcionou a revelação do Superman (Henry Cavill, que aqui nem aparece) ao mundo, como visto em “Homem de Aço”. Mas, a intervenção de Flash, ou melhor, Barry Allen, no continuum espaço-tempo provocou uma espécie de efeito-borboleta: A maioria dos membros da Liga da Justiça não parece existir nesse mundo, incluindo Superman, assim, aliado a uma versão sua daquela realidade (o ator Ezra Miller faz um incrível trabalho desempenhando com credibilidade duas versões distintas do mesmo personagem), Barry vai à Mansão Wayne tentar encontrar o Batman e, quem ele encontra, ao invés do personagem vivido por Ben Affleck, é o Bruce Wayne interpretado por Michael Keaton, o Batman de 1989, do filme que praticamente deu o estopim para as tentativas de adaptações de histórias em quadrinhos dos últimos trinta e quatro anos!

Ao tentarem juntos descobrir o paradeiro do Superman, os dois Flashs e o veterano Batman descobrem que, nesta nova realidade, quem terminou vindo para a Terra foi sua prima, Kara Jor-El (Sasha Calle, pouco aproveitada) que se encontra, por sua vez, presa na União Soviética como objeto de estudo daqueles militares.

Não há dúvidas de que, para os fãs mais crescidos e nostálgicos, a visão de Michael Keaton retomando seu papel de Batman é um deleite e tanto –ainda mais quando este ótimo ator vale-se de cada instante de filme para roubar completamente a cena e provar que guardadas algumas proporções e distinções, ele é, sim, um dos melhores intérpretes de Batman. No entanto, há um grave problema enfrentado por “Flash”, o filme, e que se reflete na pífia bilheteria que esta superprodução amargou: A despeito de um ou outro momento genuinamente divertido (e de ser, no cômputo geral, um bom filme) “Flash” não passa a sensação de euforia e entusiasmo que se esperaria de um trabalho com essa proposta –a Marvel Studios, valendo-se de mote muito semelhante em “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” levou plateias à vibrarem nas salas de cinema.

Em parte porque desde o primeiro momento de filme, estamos cientes de que “Flash” se passa num universo já moribundo; meses antes de seu lançamento, já sabíamos que a Warner havia contratado James Gunn para reformular todo o Universo DC, recomeçando tudo do zero com novos atores. Ou seja, “Flash”, de Andy Muschetti, representa então os estertores finais, o último suspiro de um mundo com seus minutos contados. Ter consciência disso tira toda a satisfação que, por ventura poderia existir em momentos descontraídos como os esforços a la Marty McFly de Barry Allen em refazer sua realidade como era antes (e não ajuda nada as cenas profusas de efeitos visuais serem adornadas por gráficos que parecem visivelmente mal acabados), nem nas aparições-surpresa que surgem na tela durante o clímax (e que poderiam ser o ponto alto do filme, mas não o são porque os realizadores não sabem explorar o potencial da mitologia que manejam com a mesma habilidade que a Marvel Studios) ou na cena pós-créditos, construída para ser divertida mas que, por razões óbvias, termina sendo completamente vazia. Não haverá uma continuidade em relação a qualquer coisa que se vê aqui, logo, não há qualquer peso nas consequências sugeridas no roteiro, para o bem e para o mal. E o filme de Andy Muschetti, a despeito de todas as suas boas intenções, não se sustenta sozinho para ser, no fim das contas, um projeto válido e digno, mesmo que mal-fadado.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias


 Tendo perpetrado um dos mais adorados cult movies dos anos 1990 –o inebriante “Feitiço do Tempo” –o diretor e roteirista Harold Ramis enveredou por uma premissa muito parecida, de novo extraindo humor e uma certa ternura de um tema que girava em torno da repetição.

Se “Feitiço do Tempo” era sobre um dia que se repetia, “Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias” era sobre um homem que se replicava. Tal homem é Doug Kinney vivido com compreensão singular de comédia por Michael Keaton, ainda que a parceria certeira e bem azeitada do diretor com Bill Murray, protagonista da obra anterior, não se repita. Todavia, Ramis recrutou mais uma vez a adorável Andy MacDowell para o papel feminino principal; ela é Laura, casada com Doug, com quem têm dois filhos.

As atribulações de Doug começam quando ele se apercebe de que as tarefas domésticas, profissionais, familiares e matrimoniais lhe sobrecarregam: Para dar conta de todas elas sem estafa, ele precisa se dividir em vários. A questão, existencial para muitos pais da família, é resolvida de forma literal por Doug: Ele conhece um inventor (Harris Yulin, de “O Lugar Onde Tudo Termina”) capaz de fazer um clone seu, uma cópia com sua aparência, suas memórias e seu comportamento. Assim surge o Nº 2 a quem Doug incumbe de encarregar-se do seu emprego como construtor civil em Los Angeles.

Entretanto, a comodidade de desdobrar-se em mais de um leva Doug a encomendar mais um clone, Nº 3, desta vez, incumbido dos serviços do lar, enquanto o Doug original tenta harmonizar as coisas em seu casamento com Laura (tudo isso, diga-se, sem o conhecimento dela!). O curioso é que as cópias, a partir do momento em que são instruídas a uma única ocupação desenvolvem uma personalidade específica: Imerso no trabalho, Nº 2 se torna uma versão fria e ranzinza de Doug, amargurado pelo distanciamento da mulher e dos filhos e tornado anti-social; Nº 3, por sua vez, segue o caminho oposto, ganhando ares mais sensíveis devido ao constante traquejo doméstico. E há, ainda, um Nº 4 (!), uma cópia da cópia que resulta numa versão debilóide de Doug, requisitado para auxiliar 2 e 3 em suas tarefas –e todos são interpretados com versatilidade e primor por Keaton, um ator naquela época ainda lembrado tão somente pelo sucesso de “Batman”, de Tim Burton, mas que sempre ostentou insuspeito brilhantismo inclusive no difícil gênero da comédia.

“Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias” não atinge a mesma genialidade em todas as frentes que “Feitiço do Tempo” –um trabalho cujo primor visivelmente Harold Ramis busca reprisar –e nem teria como fazê-lo mesmo, diante dos acertos tão raros e improváveis que aquela pérola consegue obter; no entanto, se não proporciona o mesmo elevado fascínio, este bom trabalho de Ramis consegue levantar um divertido questionamento sobre as atribulações da vida moderna amparado em recursos admiráveis e francamente surpreendentes de efeitos visuais que conseguem replicar o ator Michael Keaton diversas vezes em cena, de uma maneira realista e sem traços visíveis da ilusão praticada, num resultado à época, sem precedentes no cinema –e olha que o tema da multiplicação de um protagonista em cena não era nem nunca foi algo muito novo ao cinema como atestam projetos distintos como o autoral “Gêmeos-Mórbida Semelhança”, a comédia “Cuidado Com As Gêmeas”, a ação “Duplo Impacto” ou o quintessencial “Um Corpo Que Cai”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O Último Golpe

 


O trabalho até que interessante do diretor estreante Michael Caleo (roteirista do excelente “A Família”, de Luc Besson) é um daqueles roteiros de moderada inventividade que, pelo generoso material interpretativo que oferece, costuma atrair bons e prestigiados atores, como é o caso de Michael Keaton e –vá lá! –Brendan Fraser.

Seus personagens são arquétipos bem interpretados que, ao gosto das reviravoltas que devido à natureza do suspense haverão de chegar, vão se transmutar em outra coisa, por uma ou por outra razão ao longo da trama.

No caso, temos Jamie Bashant (Fraser) e Ted Riker (Keaton, sempre excelente); o primeiro um vendedor recém-chegado a Nova York vindo de Ohio, o segundo, um tubarão implacável que coleciona clientes, leva nas costas sua empresa (capitaneada por Daniel Stern, de “Esqueceram de Mim”) e inspira o assombro de seus colegas menores.

Ted não tem paciência com Jamie, apontado para ser uma espécie de aprendiz seu ao longo do processo de adaptação; e certamente também não tem qualquer interesse em compartilhar com ele as dicas que o tornam tão a frente dos demais vendedores. E com isso, Jamie, que vinha então se vangloriando de seu desempenho, fracassa simultaneamente em conseguir obter as vendas dos produtos.

Um tanto indiferente a tudo isso, Ted só muda de postura quando conhece a linda esposa de Jamie, Belissa (Amber Valetta, de “Hitch-Conselheiro Amoroso”), cujas circunstâncias, nos dias que se seguem auxiliam a torná-lo amante dela (!).

Entretanto, o caso tórrido migra para uma paixão quando ficam evidentes traços humanos que Ted até então escondida de todos: A fim de manter Belissa sempre por perto, Ted tem que encontrar meios para que o incompetente Jamie (sempre com a corda no pescoço) continue no emprego, e portanto, em Nova York.

E assim, em troca da satisfação romântica e sexual, Ted vai gradualmente sacrificando sua solidez profissional –e, como pode ser antecipado com alguma facilidade (no que é, talvez, o grande problema do filme) haverão revelações já próximas do desfecho indicativas de que nem tudo é aquilo que parece ser.

Em cena, a bela Amber Valetta trata com lisonja Michael Keaton pelo grande ator que ele é; enquanto Michael Keaton é demasiado cavalheiresco com Amber, em decorrência dela ser uma linda mulher. Eis aí, então, uma das problemáticas principais de “O Último Golpe”: Embora sejam bons atores e até tenham alguma química, seu par central não se comporta como os amantes que presumidamente se tornam.

Somada ao fato de que sua tensão se deve mais pelo contexto do drama em si do que pela ameaça que poderia representar (ninguém no filme inteiro, em absolutamente momento algum, chega a correr algum perigo), estas são pequenas considerações que minam a eficácia deste suspense razoável e nada inovador que aproveita o fascinante universo retratado em “O Sucesso A Qualquer Preço” –embora não consiga fazê-lo assim tão fascinante quanto naquele filme –para narrar uma trama adúltera de causa e efeito em torno da ética corporativa e da imprevisibilidade (ou não) dos sentimentos pessoais.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Irresistível Paixão

Muito aclamada devido ao sucesso de público e crítica de “Onze Homens e Um Segredo” e suas continuações, a parceria entre o diretor Steve Sodenbergh e o astro George Clooney começou, de fato, neste sensacional “Irresistível Paixão”.
Aliás, astro pode ser termo, à época, precipitado para atrelar à George Clooney: Tendo deixado a série “Plantão Médico” para protagonizar o frustrante “Batman & Robin” –a mais catastrófica versão do Homem-Morcego para os cinemas –Clooney ainda não era um dos grandes nomes de Hollywood, mas, havia ganho tanto dinheiro para estrelar o mal-fadado filme que, na sequência, descobriu ter o privilégio de escolher a dedo seus projetos seguintes: Se colocar dinheiro no bolso já não era mais prioridade, ele podia passar a almejar a qualidade.
Foi assim que Clooney envolveu-se em trabalhos prestigiados como a aventura marinha “Mar Em Fúria”, o drama de guerra “Três Reis” e esta notável adaptação de Elmore Leonard, uma trama intrincada (bem ao gosto do autor) que, lá no fundo, versava sobre um caso de amor improvável entre um ladrão de bancos e uma oficial de justiça.
Clooney é Jack Foley, cujo orgulho é ter assaltado quase duzentos bancos sem jamais precisar sacar uma arma, em vez disso, Foley se valia de esperteza, inteligência e uma astúcia prodigiosa –características que ele põe em prática já na primeira cena.
Não adianta muito: Por um golpe de azar, ele vai preso mesmo assim.
Amargando mais algum tempo na prisão –e começando a concluir, por conta disso, que seu próximo golpe deve render sua aposentadoria definitiva desse negócio –Foley participa de uma fuga em massa, de cujo fracasso ele se desvencilha graças à cumplicidade do amigo Buddy (Vhing Rhames) e a casual aparição no local da agente federal Karen Sisco (a maravilhosa Jennifer Lopez, no papel que ajudou a construir sua imagem de símbolo sexual dos anos 1990) no carro de quem eles empreendem sua escapada.
Dividindo o porta-malas (eles a levam como refém), Foley e Karen trocam alguns minutos de conversa onde o diretor Sodenbergh permite-se vislumbrar com satisfação e exultação a química espetacular que Clooney e Jennifer compartilham em cena; é uma pena que eles não tenham feito outros filmes juntos.
A partir daí, revelando o gosto do hábil roteirista Scott Frank (de “Um Plano Simples” e “Minority Report-A Nova Lei”) para tramas elaboradas e fragmentadas, o filme se divide em duas linhas distintas de tempo, destinadas a se encontrar (e a se complementar) quando o filme de Sodenbergh atingir seu clímax: Numa delas, passada dois anos antes, vemos Foley em uma prisão da Flórida junto de outros detentos, entre eles, o estelionatário ricaço Ripley (Albert Brooks, de “A Musa” e “Bem-Vindo Aos 40”) e o ex-pugilista e bandidão barra-pesada Snoopy (o simpático Don Cheadle aqui, contudo, ameaçador). Na outra, evidentemente, acompanhamos os eventos subsequentes à fuga de Foley, suas tentativas de escapar ao jugo da polícia e do FBI e de prosseguir, ao lado de Buddy, com seu derradeiro golpe, aquele com o qual ele almejava se aposentar (assaltar a mansão de Ripley ao lado de Snoopy); além, é claro, das investigações por conta própria da esperta e persistente Karen Sisco que deseja reencontrar Jack, para prendê-lo novamente, ou quem sabe, descobrir o que é essa estranha atração que sentem.
Naquele ano, 1998, “Irresistível Paixão” chegou às salas de cinema capitaneando um formidável abalo sísmico no cinema comercial norte-americano, ao substituir as pirotecnias em voga nas produções de então por uma inteligência instigante e à toda prova –uma tendência inesperada e salutar que moldaria um pico insuspeito de qualidade entre as obras hollywoodianas naqueles anos –grande responsável pelo êxito deste filme foi também o tratamento sempre diferenciado de Steve Sodenbergh, um entusiasta nítido e confesso das narrativas antigas da Velha Hollywood, sobretudo, os filmes de gangster e os filmes noir. São tons e atmosferas que ele atribui à este brilhante e bem calibrado conto de polícia e ladrão, temperado com bem-vinda sensualidade, imprevisto requinte e palpitante virilidade: Sim, pois, em seu tumultuado, eletrizante e divertido desfecho não tenha dúvidas, o romance entre Jack Foley e Karen Cisco termina em bala!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Dumbo

Um dos responsáveis pela inauguração do filão de adaptações em live-action dos clássicos animados da Disney, com “Alice No País das Maravilhas”, o diretor Tim Burton retorna ao, vamos dizer, sub-gênero que ajudou a criar com esta versão com atores de carne e osso de “Dumbo”.
Ao contrário de produções que tentaram revisionar obras consagradas mas ainda relativamente contemporrâneas, como “A Bela e A Fera” e os posteriores “Aladdin” e “O Rei Leão”, Burton sabiamente optou por revisitar um trabalho do passado –como também o fez Jon Favreau em “Mogli-O Menino Lobo", talvez, o melhor filme dessa categoria até então –beneficiando sua realização não somente com a repaginação técnica da trama e de suas sequências assim reproduzidas e resgatadas, mas agregando valores culturais que não estavam em voga na época da animação original –datada de 1941 –como, por exemplo, o politicamente correto: O “Dumbo” original é notório, entre outras coisas, por uma representação de cunho desprezivelmente racista observada na caracterização de um grupo de corvos.
Tal e qual em ambos os casos (desenho e filme), Dumbo é o filhote de elefante completamente rejeitado pelo dono do Circo Medici (Danny De Vito) no qual nasceu e ao qual pertence. O motivo: O filhote tem imensas orelhas nas quais vive tropeçando ao caminhar.
As primeiras mudanças no filme de Burton –bastante necessárias –surgem já no núcleo de protagonistas: A animação tinha, quando muito, humanos inexpressivos e pouco relevantes à história. Aqui, é pelo olhos das duas crianças, a menina Milly (Nico Parker) e o garoto Joe (Finley Hobbins), que vemos a trajetória de Dumbo se desenvolver.
Os dois são filhos de Holt Farrier (Colin Farrell), outrora um astro do circo como cowboy e domador de cavalos, mas relegado a função de cuidador de elefantes após voltar mutilado –sem um dos braços –da Primeira Guerra Mundial.
É essa família quem adota Dumbo quando todos os outros mais, incluindo o Sr. Medici, tentam livrar-se dele e afasta-lo de sua mãe.
Entretanto, Milly e Joe descobrem uma particularidade em Dumbo: Suas grandes orelhas permitem a ele a capacidade inesperada de voar!
E eis que o filme de Burton, numa estrutura narrativa mais bem resolvida diante da fonte original, toma a deliberada decisão de começar de fato onde a animação terminava: No original, Dumbo descobria só perto do fim o dom de voar e sua transformação em estrela no circo representa assim a redenção alcançada por meio do sucesso.
Já aqui, atingir o estrelato significa, para o elefantinho, o início de suas desventuras. A fama singular de um elefante que voa atrai para perto do Sr. Medici alguém infinitamente mais ambicioso e inescrupuloso, o Sr V.A. Vandemere (Michael Keaton, minimalista em sua vilania), proprietário de um circo de última geração, luxuoso e sofisticado –quase uma espécie de versão sombria de Walt Disney. Ele enreda o Sr. Medici em suas artimanhas e inclui Dumbo em seu próprio espetáculo a fim de ve-lo num número acrobático com sua esposa, a malabarista Colette (a francesa Eva Green, presente nos últimos três filmes de Burton).
Para garantir que tal achado não escape de suas garras, Vandemere pretende afastar Dumbo de sua mãe definitivamente, nem que para isso tenha de sacrificar o animal.
É pois o reencontro de Dumbo com sua mãe, e posteriormente a fuga dos dois para um lugar livre e natural, o objetivo enquanto final feliz da narrativa, algo que não era sequer esboçado na animação de 1941, mas era visto como imprescindível neste filme pelo público ainda durante sua pré-produção; e o diretor Burton, ao lado do roteirista Ehren Kruger (de “Transformers 2-A Vingança dos Derrotados”) foram de encontro à essas expectativas ecológicas.
Um trabalho de encher os olhos em função dos vastos efeitos visuais –aspecto no qual as adaptações em live-action dos clássicos da Disney parecem encontrar seu ponto forte e principal –e embevecido de decisões narrativas que recolocam a trama no elefantinho de orelhas grandes em um novo e certamente mais válido contexto para as novas gerações, “Dumbo”, no conformismo de exibir seu vistoso aparato técnico, é uma produção onde Tim Burton faz aquilo que se espera dele em termos estéticos –e isso já pode ser visto como êxito –embora falhe ao atingir picos de intensidade e de genialidade e nem tampouco alcance o patamar de reconhecimento artístico à época conquistado pelas animações que a Disney agora quer reformular.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Minha Vida

Tendo obtido diversas indicações ao Oscar (e saído com os prêmios de Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante debaixo do braço), além da gorda bilheteria, com sua primeira incursão num cinema mais sério e açucarado com “Ghost-Do Outro Lado da Vida”, era natural que o comediante Jerry Zucker tentasse mais uma vez.
E ele procurou não mexer muito na receita: Aqui está ele novamente, desta vez produzindo (ao invés de dirigir) um roteiro do esotérico Bruce Joel Rubin (que aproveita o ensejo para estrear como diretor) também ele versando sobre vida, morte e desapegos afetivos.
Diferente de “Ghost”, no entanto, “Minha Vida” não se beneficia das mesmas sacadas inspiradas e certeiras.
Michael Keaton é Bob cuja vida adulta –a despeito das frustrações de infância inerentes a todos nós –é privilegiada: Empresário bem-sucedido, casado com a bela Gail (Nicole Kidman, ainda pouco conhecida) e está prestes a ser pai pela primeira vez.
Seus planos de vida são, no entanto, tolhidos com a descoberta de um câncer terminal.
Os médicos lhe dão poucos meses de vida; não o suficiente para que possa ver seu filho nascer. No entanto, Bob está decidido a usar de todos os recursos para estender sua vida pelo menos até o nascimento da criança e a reconciliação de todas as suas indisposições familiares –para tanto, ele se vale da medicina oriental, aqui personificada por um curandeiro imerso em clichês do gênero vivido por Haing S. Ngor (de “Os Gritos doSilêncio”).
Para depois de sua partida, Bob também tem um plano: Grava uma infinidade de fitas de vídeo com conselhos variados para o filho. Se não vai conhece-lo, Bob vai tentar se fazer conhecer, e grava depoimentos que vão da praticidade cotidiana ao intimismo reflexivo.
No entendimento testado e comprovado de que pode emocionar a plateia, em virtude de sua realização conjunta anterior, Rubin e Zucker ostentam aqui um pouco de soberba e pretensão –elementos que tornam seu trabalho superficial e nada espontâneo.
Comovente mesmo é o empenho de elenco em capturar as nuances emocionais da trama e dos personagens.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Presa Na Escuridão


Lembrado tão somente pelo pouco relevante “Dormindo Com O Inimigo”, com Julia Roberts, no início dos anos 1990, o diretor Joseph Ruben ressurgiu no comando deste “Presa Na Escuridão” no qual apenas ratifica sua tendência para o convencional com esta trama que extrai elementos de um sem fim de outros filmes muito parecidos.
Sara (Michelle Monaghan) é uma fotógrafa de guerra cuja trágica explosão de uma bomba lhe tirou aquilo que a definia: A visão –ainda que tal drama seja absolutamente deixado de lado pelo roteiro.
Anos depois, já em Nova York e na companhia do namorado Ryan (Andrew Walker), Sara aguarda as festividades do Ano-Novo.
Entretanto, após uma ida ao supermercado tudo está diferente quando ela chega em casa. Ryan está morto (!), e um estranho chamado Chad (Barry Sloane) está em seu apartamento. Ele quer algo –dinheiro, talvez –que, aparentemente, Sara não faz ideia do que seja; as atividades ilícitas do namorado, pelo jeito, lhe eram completamente despercebidas.
A medida que galgam as aflições de Sara, outro indivíduo soma-se à vilania de Chad: O veemente Hollander (Michael Keaton, sempre inspirado).
Fazendo uma fusão objetiva e restritiva entre dois filmes até bem conhecidos –“Um Clarão Nas Trevas”, de Terence Young (onde Audrey Hepburn também vivia uma cega acuada dentro do apartamento por bandidos), e “O Homem Nas Trevas”, de Fede Alvarez (onde os assaltantes, desta vez, tinham por antagonista um cego) –o trabalho de Joseph Ruben se prejudica não pela repetição de expedientes já vistos nessas premissas, mas devido a contradição acarretada pela necessidade de estender ao máximo possível sua história.
Quase sem abandonar o espaço do apartamento da personagem principal –alternativa que parece mais por questões orçamentárias do que por opção narrativa –o roteiro faz malabarismos mirabolantes e tacanhos para conquistar reles minutos a mais de duração; sua jogada mais lastimável é a alteração de personalidade que os protagonistas sofrem em alguns momentos: Hollander, no princípio, apresenta-se como o líder experiente e austero, o único capaz de conter o ímpeto violento do psicótico Chad. Logo mais, entretanto, é Hollander quem adquire ares psicopatas e Chad ganha certa suavidade conforme o roteiro começa a querer sugerir um embate iminente entre os dois.
Não bastasse essa discutível incoerência, a própria heroína também se torna vítima dela: Sara aparenta inocência durante quase todo o filme –e nada em seu ‘background’, incluindo o flashback inicial, vai contra esses indícios –até que, de um ponto em diante, muda quase que completamente; agora, não apenas ela faz uma ideia de quem Ryan era e de onde ele escondeu o precioso material que os bandidos procuram, como usa de manipulação para fazer com que Hollander e Chad matem um ao outro.
Um resultado muito melhor poderia ter sido obtido se os realizadores estivessem atentos a pormenores mais humanos desses personagens, e não se contentasse em deles fazer arquétipos básicos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Ao Vivo de Bagdá


Quando lançou este brilhante telefilme em 2003, a HBO provou-se tão ou mais audaciosa que as produções cinematográficas ao dedicar toda a atenção deste longa-metragem a uma impressionante história absolutamente digna de ganhar o conhecimento do público.
Interpretado com um brilho e uma inteligência que o ator Michael Keaton só expressou em obras cinematográficas a partir da década seguinte, o protagonista Robert Wiener é um irrequieto produtor de reportagens para a CNN que, no início da década de 1990, era uma pequena rede de noticiários para a TV 24 horas por dia.
Wiener fareja uma grande reportagem quando o Iraque de Saddam Hussein invade o pequeno estado do Kuwait, acirrando os nervos para um grave conflito.
Junto de sua equipe de reportagem –na qual está sua produtora de confiança, Ingrid Formanek (Helena Boham Carter) –eles partem para Bagdá, dispostos e registrar o estado das coisas, os ânimos inevitavelmente acirrados da população e, com sorte, capturar algum grande furo.
Contra eles, há toda sorte de disputa –velada ou declarada –com os repórteres de redes rivais (algumas com recursos muito mais vastos) e ainda o feroz patrulhamento dos políticos e militares locais que não permitem o registro de imagens ofensivas ao seu país.
Usando de toda a desenvoltura que pode, Wiener conquista a amizade do Ministro de Informação (David Suchet) tentando negociar com ele uma entrevista com o próprio Saddam Hussein, enquanto sofre derrota atrás de derrota pelos outros canais jornalísticos em busca de reportagens especiais.
A entrevista, após uma penosa deliberação, acontece –dirigida com um primor que a faz uma cena antológica pelo diretor Mick Jackson –conduzida pelo apresentador Bernard Shaw (Robert Wisdom), trazido especialmente dos EUA, dos estúdios da CNN para isso.
Mas, o grande momento de Wiener ainda estava por vir: Quando a data-limite decretada pelo então presidente americano George H.W. Bush para as tropas iraquianas abandonar o Kuwait começa a se aproximar (sem que haja qualquer sinal de negociação da parte de Hussein), fica claro que quando a guerra eclodir, Bagdá não será um lugar seguro para ninguém.
Se os correspondentes americanos já passavam apreensão –retratada em diversas sequências primorosas –a partir daí seu medo é de uma profundidade inapelável: Todos sabem que a única alternativa racional é deixar Bagdá.
Todavia, enquanto os outros se enfileiram nos aeroportos para partir, Wiener sofre um dilema: Deixar o país em segurança e voltar para sua família, ou ficar e registrar em primeira mão um acontecimento histórico sem precedentes na conjuntura sócio-política mundial?
Pelo menos dois de seus companheiros estavam certos de ficar, John Holliman (John Carroll Lynch) e o corajosamente insano Peter Arnett (Bruce McGill). É ao lado deles e de Bernard Shaw que Wiener, na madrugada de 16 de janeiro de 1991 se torna parte da única equipe de reportagem (todas as outras deixaram Bagdá) a cobrir em tempo real o início da Guerra do Golfo diretamente da janela de seu hotel de onde eles testemunharam as horripilantes cenas da batalha aérea entre as Forças de Coalizão e a infantaria antiaérea do Iraque.
Um feito que fez da CNN uma verdadeira lenda entre as emissoras jornalísticas.
Diretor de filmes cheios de energia, porém superficialmente comerciais (suas obras mais famosas até então eram a comédia “L.A. Story”, “O Guarda-Costas” e “Volcano-A Fúria”), Mick Jackson imprime à narrativa toda a urgência de que ela precisa, exibindo um equilíbrio magnífico entre a atenção aos vastos e pertinentes detalhes e o impecável cuidado na construção de um todo espetacular, no qual entrega uma lição de história moderna e uma aula de jornalismo destemido, além, claro de um dos grandes filmes da década de 2000.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Os Fantasmas Se Divertem

À época da realização deste filme, Tim Burton ainda não havia experimentado o auge mercadológico da indústria (como em “Batman”), o ápice criativo de seu estilo (como em “Edward-Mãos de Tesoura” ou “Ed Wood”), e nem adquirido qualquer experiência como cineasta que, para o bem e para o mal, converteu seu estilo também numa espécie de fórmula (como em “Sombras da Noite” ou “O Lar das Crianças Peculiares”).
Em “Os Fantasmas Se Divertem” temos, portanto, um Tim Burton em estado puro no que tange à sua conexão com o moleque de 12 anos fascinados por monstros e filmes de terror que ele declaradamente sempre usou como inspiração.
Neste filme podemos conferir Burton tateando a narrativa em busca de uma voz, e por isso ele tenta de tudo (e exagera em tudo): Quando precisa de comédia, ele elabora cenas rasgantes de tão hilárias –a seqüência do jantar musical é, por isso mesmo, inesquecível! –quando precisa do tom macabro e cartunesco que ele tanto adora, ele entrega momentos de um absurdo inacreditável, muitos deles a cargo de um irrequieto e incontrolável Michael Keaton no papel do vilão-título Beetlejuice (nem dá para acreditar ser este o mesmo ator que apenas um ano depois o próprio Burton chamaria para viver o sisudo e elegante herói de “Batman”).
Beetlejuice é, por assim dizer, uma espécie de assombração de aluguel; ele dispõe seus serviços tenebrosos aos fantasmas inexperientes que desejam enxotar os vivos de suas antigas residências.
É o caso de Barbara e Adam Maitland (Geena Davis e Alec Baldwin), um jovem e adorável casal que, por ironia do destino, veio a sofrer um acidente de carro em uma ponte (ao qual Burton dá todas as características de um acidente de desenho animado) e, falecidos, se tornaram fantasmas da casa que antes moravam.
Um ano depois, a casa recebe novos moradores, os Deetz, e Beetlejuice surge assim como uma opção para que possam aterrorizá-los e ficar com a casa novamente para eles.
Mas, o casal Deetz (interpretado por Catherine O’ Hara, de “Esqueceram de Mim” e Jeffrey Jones, de “Curtindo A Vida Adoidado” e “Amadeus”) tem uma filha, a desajustada, gótica, porém, encantadora Lydia (Winona Ryder, num papel que, a despeito de ser feminino, remete ao próprio Burton), que termina se afeiçoando aos dois fantasmas –talvez, justamente por sua pouca adequação com os vivos.
Se existe a possibilidade dessa premissa soar dramática e sombria, isso ocorre apenas na teoria: “Os Fantasmas Se Divertem” mesmo que abraçando por completo todas as suas nuances macabras é uma comédia assumida e deslavada, onde seu realizador nitidamente se sente plenamente a vontade na retratação do fantasioso e original mundo dos mortos e algo deslocado quando registra o mundo dos vivos –e por isso mesmo, recebe dele tão pouca atenção.
Em meados dos anos 1980, tão inovadora deve ter sido essa postura enquanto gênero e enquanto cinema que muitos não souberam o que achar do filme –e como costuma ocorrer em casos peculiares assim, ele logo virou um cult.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância

Não é por acaso que a ironia pulsa deste trabalho do diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu –não havia abordagem melhor, mais apropriada e merecida do que um humor cáustico para falar sobre as percepções da arte pelo ponto de vista frenético daqueles que se alimentam do aplauso público.
Outrora famoso por interpretar o super-herói Birdman nos cinemas, o ator veterano Riggan Thompson (Michael Keaton, transcendental em sua excelência) tenta reaver o prestígio perdido produzindo e protagonizando uma peça adaptada de um conto do escritor Raymond Chandler na Broadway. Mas, a montagem além de enfrentar os obstáculos de praxe, acaba sendo prejudicada por um astro imprevisível e vaidoso (Edward Norton, no seu melhor trabalho em muitos anos), convidado em cima de última hora para trazer mais evidência ao projeto, e pela costumeira rejeição dos críticos.
Substituindo o drama contundente que definia sua narrativa em “Amores Brutos”, "21 Gramas" e “Babel”, por uma comédia ferina e elegante que surpreendentemente lhe cai muito bem, o diretor Alejandro Gonzáles Iñarritu concebe um grande trabalho no qual exercita, de maneira esteticamente distinta do convencional (os planos ininterruptos de câmera são um show à parte da direção de fotografia), a percepção de arte, carreira e sucesso que acerca os bastidores do show-bussiness e os egos daqueles que o orbitam.

A câmera ao simular um único take magistral a acompanhar todo este filme agraciado com 4 Oscars, (incluindo de Melhor Filme e Diretor) parece remeter a uma simulação técnica e espiritual do formato teatral –em especial, no fôlego admirável do grande elenco que se desdobra em entradas e saídas de cena espetaculares –ao qual Iñarritu dedica tanta admiração.

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha - De Volta Ao Lar

Parece escapar à compreensão de alguns que o sucesso conquistado pela Marvel Studios com seu universo compartilhado ao longo de vários filmes não se deve somente pela excelência técnica (exercida, sobretudo, no quesito de efeitos visuais) ou pela competência artística: Ela se deve, acima de tudo, porque a Marvel tem o bom senso raro de compreender integralmente seus personagens.
Essa característica fica totalmente clara em “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –obra cujo protagonista a Marvel agora tem em mãos devido à um acordo (e a uma espécie de clamor popular, também) com os estúdios da Sony.
A dica já é dada no princípio do filme, quando surge escrito na tela, “Um Filme de Peter Parker” –embora a intenção seja uma galhofa (como muitas que o personagem protagonizará), ali há algo de verdadeiro: Este filme é, sim, sobre Peter Parker. O Homem-Aranha, a identidade que ele assume para combater o crime, impulsionado pela obtenção de seus poderes de aranha e por um entusiasmo característico da juventude, é um detalhe que determina a narrativa, mas seu cerne emocional e moral é, o tempo todo, Peter Parker, interpretado com vivacidade e profundidade por Tom Holland que, desde sua participação em “Capitão América-Guerra Civil”, ganhou não só a honra de viver o personagem agora oficialmente inserido no Universo Marvel Cinematográfico (e neste filme, tal aspecto é empregado numa infinidade de detalhes saborosos), mas também o direito de ser considerado até então a melhor personificação em cinema do personagem –que me perdoem as esforçadas tentativas de Tobey Maguire e Andrew Garfield...
Morador de classe média do Queens, em Nova York e estudante do ensino médio, o novo membro apadrinhado por Tony Stark (Robert Downey Jr. sempre fazendo sua participação valer a pena) do grupo dos Vingadores, tem a peculiaridade de ser um adolescente de quinze anos. Talvez, seja por isso que, apesar de sua imensa ansiedade, Peter não receba, ao longo de meses, nenhum telefonema de seu novo tutor para alguma missão além daquela em “Guerra Civil”, onde ele foi apresentado; e as cenas iniciais, que mostram os eventos daquela produção vistos por outra ótica já são um show à parte, e uma indicação das mais inspiradas do humor genuíno e irresistível do qual este filme vem dotado.
As coisas se complicam para o Homem-Aranha quando, em sua patrulha habitual como “herói do subúrbio”, ele descobre o esquema de Adrian Toomes (Michael Keaton, sensacional) que, desde os eventos mostrados em “Os Vingadores”, vem obtendo clandestinamente tecnologia alienígena e vendendo-a no mercado negro. A despeito dos alertas de Tony Stark e de seu braço direito Happy Hogan (Jon Favreau, de perfeito timing cômico) para que não se meta em encrencas, Peter decide ir a fundo na tentativa de desmantelar essa quadrilha, mas as atribulações dessa vida de vigilante mascarado vão colidir com a já agitada e caótica vida adolescente e estudantil de Peter que precisa equilibrar um romance relutante –com a bela Liz Allan (Laura Harrier), uma das meninas mais populares da escola –a amizade com o divertido Ned (Jacob Batalon), que acaba descobrindo seu segredo, e seus esforços atrapalhados para tentar ocultar isso tudo de sua Tia May vivida por uma deliciosa Marisa Tomei.
E sobram assim oportunidades (nenhuma delas desperdiçada) para que “De Volta Ao Lar” faça magníficas referências aos filmes de John Hugues, essenciais retratos desse tipo de dramaturgia adolescente; e a seqüência que emula um dos momentos antológicos de “Curtindo A Vida Adoidado” é nada menos que genial!
Está aí, pois, na variedade de cores e perplexidades da rotina de Peter Parker a grande sacada que faz da Marvel –e do universo ao qual ela dá corpo –algo tão especial: Os mesmos elementos que fazem e que fizeram o fascínio perene de gerações inteiras de leitores se vêem preservados e transpostos com brilho na tela do cinema.
No caso de Homem-Aranha/Peter Parker, são as irônicas exigências da vida heróica que insistem em intervir em suas tentativas de ser feliz numa vida normal, e o filme magistralmente dirigido pelo jovem Jon Watts utiliza desses expedientes com habilidade seja em seu humor, seja em seu drama.
Em meio à isso tudo, ele ainda insere cenas prodigiosas de ação e uma admirável construção de praticamente todos os personagens –as revelações a respeito de Adrian Toomes no terço final do filme são notáveis e surpreendentes: Precisa mais para que este seja o melhor filme do Homem-Aranha realizado até hoje?

domingo, 23 de abril de 2017

Batman no Cinema

Batman
Por muito tempo, o cinema tateou na busca por uma conciliação narrativa com a linguagem dos quadrinhos. Essa busca é bastante ilustrativa quando olhamos a seqüência de filmes protagonizados pelo Batman, que ganhou, na opinião de muitos, sua personificação cinematográfica definitiva com Christian Bale, na Trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan.
Bem antes disso, o público e a crítica (na verdade, bem mais o público do que a crítica) deixou-se encantar pela primeira versão cinematográfica do herói, concebida por Tim Burton e estrelada por Michael Keaton.
De um estilo peculiar e personalíssimo, Burton tinha uma visão eclética do projeto conceitual: Ao mesmo tempo em que ele via uma apropriada atmosfera sombria a relacionar-se diretamente com o personagem e o mundo que o cerca (a obscura e corrupta Gotham City) o que passou a influenciar até mesmo os quadrinhos dali por diante, embora o próprio filme de Burton deva muito à reformulação do personagem promovida na graphic novel “Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller –ele também tinha uma certa displicência para com a figura do próprio herói (visto como nitidamente desinteressante em sua narrativa) o que priorizou, neste primeiro filme, o antagonista Coringa interpretado com som e fúria por Jack Nicholson.
O vigilante sombrio e amargurado Batman (cuja origem acaba sendo pouco mais que uma recordação, longe do trabalho cuidadoso feito em "Batman Begins") torna-se quase um detalhe em meio à trama que acompanha Jack Napier (Nicholson) e a traição sofrida por seu mentor, o líder do crime organizado de Gotham City, Carl Grisson (Jack Palance), o quê leva Napier à mergulhar acidentalmente num tonel de ácido, de onde emerge já transformado no maluco homicida Coringa.
Para o Coringa, depois de matar Grisson, o controle de Gotham agora só encontra obstáculo mesmo no Batman, cuja identidade secreta, o milionário Bruce Wayne, está às voltas de um relutante romance com a repórter Vicky Vale (Kim Basinger, esplêndida), dedicada, por sua vez, a descobrir a real identidade do herói mascarado.
Um sucesso exorbitante, menos por seus valores cinematográficos e mais por sua campanha maciça de marketing, “Batman” revelou o inesperado pendor comercial de Tim Burton e uma sutil predisposição dele em deixar de lado os aspectos mais marcantes de seu estilo em função de uma colaboração com um produto de estúdio, o quê ele voltaria a fazer, anos mais tarde, na refilmagem/reinvenção de “Planeta dos Macacos”, de 2001.

Batman-O Retorno
O êxito arrebatador do filme de Burton deixava claro que, à ele, brevemente uma continuação se seguiria. Se teria Tim Burton mais uma vez na direção, aí a história era outra (Burton não ficou satisfeito com o controle criativo limitado que teve no primeiro filme, e o diretor de arte, Anton Furst, ganhador do único Oscar recebido pelo filme, era muito cotado para assumir a direção da seqüência, antes de falecer).
O estúdio terminou concluindo que não valia a pena mudar a equipe e manteve Burton dirigindo o novo filme e Michael Keaton o estrelando –embora muitos questionassem sua adequação ao papel.
Tal e qual o primeiro “Batman”, neste novo filme Burton tornou a manifestar seu fascínio pelos desajustados e seu indisfarçável carinho pelo monstruoso –ou seja, pelos vilões –centrando todo o interesse da narrativa desta vez, na origem pontuada por abandono e detalhes grotescos de Oswald Cobblepot, ou melhor, o Pingüim (Danny De Vito, irreconhecível debaixo da densa maquiagem) e, principalmente, na trajetória envolvente de Celina Kyle, secretária do empresário Max Shreck (Christopher Walken, num personagem cujo nome remete ao ator célebre por interpretar o vampiro no clássico “Nosferatu”, de Murnau) cuja descoberta dos negócios ilícitos do patrão leva Celina a uma transformação radical, tornando-se a ambígua e sensacional Mulher-Gato (que ganhou, nas formas e nas expressões de Michelle Pfeifer uma personificação considerada, até hoje, imbatível).
Batman, como se pode perceber, é um mero coadjuvante diante de personagens tão exuberantes.

Batman Eternamente
Para Tim Burton, dois filmes bastaram. Após “Batman-O Retorno”, o máximo que ele se dispôs a aproximar-se do novo projeto envolvendo o personagem foi na função de produtor executivo. O diretor escolhido para substituí-lo, sabe-se lá porque, foi Joel Schumacher: Talvez tenha sido o estilo rebuscado e sombrio que ele demonstrou em “Linha Mortal”, similar ao de Burton (embora, Schumacher nunca tenha preservado qualquer estilo ao longo de seus filmes), ou o fato de ser um típico de diretor padrão, ideal para trabalhar sob contrato.
Com ele no comando, o filme imediatamente ganhou nova roupagem e um novo intérprete: Val Kilmer, cujo excesso de sisudez e as madeixas castanhas claras não ajudaram muito a ser visto como uma escolha melhor do que Keaton.
Também o orçamento inflado da nova produção deixava claro o quanto Batman, enquanto produto corporativo, significava para o estúdio: Não foram poupadas despesas, inclusive no que diz respeito ao elenco milionário –Nicole Kidman (começando uma auspiciosa escalada ao estrelato graças ao lançamento de “Um Sonho Sem Limites” naquele mesmo ano) como o par romântico do herói (sendo que as menções às anteriores Vicky Vale e Mulher-Gato foram completamente ignoradas); Tommy Lee Jones como o pra lá de caricato vilão Duas-Caras (chega a ser covarde e absurdo comparar esta versão ao bem construído Duas-Caras de “Batman-O Cavaleiro das Trevas”); Jim Carey como Charada (papel que ele tirou do anteriormente cotado Robin Willians); e Chris O’ Donnell surgindo pela primeira vez como Robin, o parceiro do herói deixado de lado nos dois filmes anteriores.
Aqui, Batman se vê diante do desafio de um novo chefão do crime, o antigo promotor Harvey Dent transformado no vilão Duas-Caras. Paralelo ao surgimento de um novo vilão, o Charada, o acrobata Dick Graysson perde toda sua família, encontrando um lar na mansão Wayne onde passa a auxiliar Bruce Wayne, o Batman, como seu fiel parceiro, o Robin.

Batman & Robin
E foi assim, com o relativo êxito do filme anterior que chegamos no quarto e famigerado filme do Batman, o segundo sob o comando de Joel Schumacher, onde ele teve liberdade para fazer a “sua” visão do Batman, deixando de lado qualquer realismo ou interiorização sombria, e com isso soterrando a série no cinema, até que a reformulação radical de Nolan viesse para salvar o personagem.
A trama acompanha o surgimento dos vilões Sr. Frio (Arnold Schwarzenegger) e Hera Venenosa (uma deslocadíssima Uma Thurman) –há também a aparição de Bane “interpretado” pelo brutamontes insípido e inexpressivo Jeep Swenson, o que reduz o personagem à um mordomo truculento, longe do significado imposto por Tom Hardy ao personagem em “Batman-O Cavaleirodas Trevas Ressurge” enquanto pequenas desavenças minam o relacionamento entre Batman (agora George Clooney no lugar de Val Kilmer...) e Robin (Chris O’ Donnell, cada vez mais irritante no papel), dando oportunidade para a origem de uma nova heroína, Batgirl (Alicia Silverstone, inadequada como atriz, num personagem absolutamente disfuncional, desnecessário, redundante e introduzido de forma descuidada).
O fato de não manter Val Kilmer como Batman/Bruce Wayne em seu filme seguinte já indicava uma certa irregularidade da parte de Schumacher na forma com que ele via o projeto, mas ninguém imaginava que suas idéias conduziriam a uma obra tão escandalosamente catastrófica quanto foi este “Batman & Robin”, um filme tão equivocado, tão absurdo em seu desleixo e ruindade que no making of (disponível na edição em DVD do filme) pode-se conferir o próprio diretor pedindo desculpas pelo trabalho que realizou (!).
Uma sucessão de cenas absolutamente vergonhosas: Os novos e alardeados trajes dos heróis que já contavam antes com ridículos mamilos salientes, aqui ganham cores berrantes como o roxo (no caso de Batman!) e o vermelho escarlate (no caso de Robin), além de uma iluminação de neon com muito rosa, verde a alaranjado (!); o leilão pelo corpo de Hera Venenosa, onde Batman e Robin iniciam uma imatura discussão encerrada de forma patética com o ‘bat-cartão de crédito’ (“Nunca saia da caverna sem ele!”); o Sr. Frio de Arnold Schwarzenegger usando pantufas de ursinho polar e regendo um coro entre seus capangas.
É espantoso notar que o elenco, de Schwarzenegger à Clooney, passando por todos os outros atores, abraçou a proposta do diretor e assume suas presepadas sem aparentar constrangimento.
Como se não bastasse esse erro crasso de tom, o filme ainda se revela sofrível em termos cinematográficos: Dentre todos os filmes feitos sobre o Batman, este é aquele que mais o negligencia, colocando-o em segundo e até terceiro plano (e olha que essa era uma crítica freqüentemente dirigida aos títulos anteriores).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Spotlight - Segredos Revelados

O gênero investigativo já rendeu grandes filmes. Talvez o maior exemplar do gênero seja “Todos Os Homens do Presidente”, contudo, nos últimos tempos tem sido uma categoria de filmes cada vez mais escassa, possivelmente devido ao pouco interesse do público, mais e mais voltado para obras de entretenimento vazio do que produções com conteúdo. 
É possível lembrar apenas de “O Informante” de Michael Mann, com Russel Crowe e Al Pacino, num já longínquo ano 2000... e mais nada. 
“Spotlight” vem para suprir essa lacuna. E o faz com pompa e circunstância. 
Desde o início é um tanto quanto admirável ver um projeto corajoso como esse ganhar a luz do sol, pois ele toca em temas escandalosos ao apontar o dedo para a Igreja Católica. Mais admirável ainda é a inesperada consagração que ele vem obtendo na temporada de prêmios, tirando ligeiramente um favoritismo que antes parecia ser apenas de “O Regresso”. Méritos para isso não lhe faltam. 
Em 2001, pouco antes do trágico atentado ao World Trade Center (que é mostrado em um determinado ponto da narrativa), o novo editor do The Globe, prestigiado jornal de Boston, propõe uma incisiva investigação aos casos de pedofilia envolvendo padres das paróquias da cidade, que ao que tudo indica estão sendo varridos para debaixo do tapete pela própria Igreja. Essa iniciativa, movida por uma equipe jornalística apelidada "Spotlight" acaba revelando, ao longo dos persistentes meses de investigação, que tais casos não são ocorrências corriqueiras, mas abusos que ocorrem em uma imenso número, em comunidades do mundo todo, e em  todos os casos, a atitude da Igreja é a de silenciar as vítimas e minimizar os danos à própria instituição.
Com base nesse argumento, primorosamente urgido como roteiro, e contando com um elenco fenomenal (no qual se faz impossível não destacar o brilho de Michael Keaton e de Mark Ruffalo), o diretor Tom McCarthy elabora uma intenso e urgente registro do jornalismo investigativo real -aquele que parece estar morrendo, em face dos blogs e sites de notícias superficiais da internet -ao mesmo tempo que aborda um tema, no mínimo espinhoso. Prova de sua perícia, e da qualidade estratosférica que alcançou, é o fato de que ninguém está se referindo a este magnífico longa-metragem como uma obra polêmica, mas sim como o grande filme que é.