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domingo, 5 de julho de 2026

Supergirl


 Superman”, de James Gunn, foi a primeira incursão cinematográfica dentro desse novo universo compartilhado da DC Comics no cinema, ainda almejando levar todo o seu universo de personagens dos quadrinhos para a telona, após a tentativa claudicante de Zack Snyder. Agora, presenciamos a chegada do segundo longa-metragem dessa empreitada, este “Supergirl” – cuja protagonista, interpretada por Milly Alcock, já havia dado as caras, antecipando este projeto, numa cena pós-créditos de “Superman”.

Como era de se presumir, algumas pressões de ordem artística e mercadológica pairavam sobre a produção: A primeira delas, adaptar com pomba e circunstância a graphic novel “Supergirl-Woman Of Tomorrow”, de Tom King, um elogiadíssimo arco de histórias da personagem que serviu de fonte para o roteiro. As outras obrigações do filme eram introduzir ao público leigo (sem conhecimento dos quadrinhos) essa nova personagem tendo em vista a possível comparação com as versões anteriores (a primeira, no filme B de 1984, vivida no cinema por Helen Slater; as versões de séries de TV, tendo Laura Vandervoort personificado ela em “Smallville” e Melissa Benoist vivido a personagem numa série própria do Warner Channell de 2015 a 2021; e a última versão para cinema, do Snyderverse, interpretada por Sasha Calle, no irregular “Flash”), e ser, no fim das contas, um sucesso de bilheteria e um  filme bom de fato – objetivos que, na opinião de muitos, o filme inicial de James Gunn não chegou a cumprir totalmente.

Ao encontrarmos Kara Zor-El (Milly Alcock, entregando um bom e dedicado trabalho), prima do Superman, ela está junto de seu cachorro Krypto, comemorando seu aniversário num outro planeta, irradiado por sol vermelho – lá, portanto, seu metabolismo kryptoniano não apresenta os mesmos assombrosos poderes de quando está num planeta de sol amarelo como a Terra, lá ela pode beber e usufruir dos efeitos do álcool (!?!).

É nessa situação que ela cruza-se com Ruthie (Eve Ridley), sobrevivente de uma família de ferreiros espaciais dizimada pelo perverso Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts, num vilão irritante e completamente subaproveitado). Num argumento que remete muito à “Bravura Indômita”, Ruthie quer vingança, mas sabe que sua juventude e inexperiência a tornam um desafio irrisório para o seu inimigo. Naquele bar interplanetário (a exemplo dos bares habituais da saga “Star Wars”), portanto, ela está à procura de alguém que compre sua causa e a ajude a eliminar Krem.

Num primeiro momento, não é essa a intenção de Kara – como toda protagonista que se pretende descolada, ela não aceita se envolver, evitando encrenca – mas, o objetivo se torna pessoal depois que Krem e seus ‘bandoleiros do espaço’ roubam sua nave e, o pior, alvejam seu cachorro com uma flecha envenenada, cujo antídoto só ele possui. A motivação – emprestada sem qualquer disfarce de “John Wick” – dá, assim, o pontapé à narrativa e toda uma jornada espacial (a lembrar, por sua vez, um road movie) que se desenrola a partir daí com o roteiro truncado de Ana Nogueira e a direção de Craig Gillespie (do ótimo “Eu, Tonya”) fazendo o possível (e falhando) em dar ao filme alguma originalidade – isso porque a cada momento, “Supergirl” evoca uma narrativa já conhecida, e que funcionou muito melhor antes; e os exemplos são todos os filmes já citados.

Nem mesmo acréscimos que poderiam dar algum fôlego à trama (como o Lobo, vivido por Jason Momoa, deixando para trás “Aquaman” com este novo personagem) ou que poderiam aprofundar a protagonista e sua jornada (como a revelação de sua origem, extraída da graphic novel, mais sombria e distinta que a de seu primo) ajudam a tornar o resultado palatável, uma vez que as escolhas, em sua maioria soam aleatórias e sem razão de ser – uma pena: Não só a composição acertada de Milly Alcock merecia um filme muito melhor para estrelar, como também o material-base dos quadrinhos era uma história vibrante, excelente e pronta para ser adaptada fielmente, sem necessidades de alterações equivocadas.

Com um roteiro repleto de incongruências (e contradições nas quais as personagens entram a todo o momento), “Supergirl” parece evidenciar de forma cristalina as intervenções de produtores no seu resultado final: O diretor Gillespie, notoriamente um realizador bastante competente, não  parece ter tido pleno controle sobre o projeto e muito do que vemos remete nitidamente ao trabalho sintomático do produtor (e Todo-Poderoso da DC Comics atualmente) James Gunn que impõe o estilo com o qual construiu “Guardiões da Galáxia” para a Marvel Studios.

sábado, 24 de maio de 2025

Um Filme Minecraft


 A verdade é que poucas pessoas colocavam fé num projeto que almejava adaptar para o cinema o jogo “Minecraft” –uma simulação onde crianças (pois, o jogo é mais voltado para elas...) constroem casas e edificações afim a partir de cubos feitos de diferentes materiais numa dimensão onde as leis da Física são mais simplificadas –sabendo então que o projeto era dirigido por Jared Hess, diretor do cultNapoleão Dynamite” e do simplesmente esquisito “Nacho Libre”, decretava de vez a morte comercial da produção. Contudo, eis que numa ironia extraordinária do destino, “Um Filme Minecraft” sagrou-se como a grande bilheteria do primeiro semestre do ano de 2025, esmagando feito um rolo compressor as ambições financeiras de “Branca de Neve”, da Disney –que estreou no mesmo período.

A tônica, como em alguns dos filmes realizados por Hess, é difícil de ser apreendida: “Um Filme Minecraft” é, sim, uma obra estranha, e tem orgulho disso. Seus personagens são desajustados, seus intérpretes são, num primeiro momento, escolhas pouco usuais. Sua trama é non-sense, sem muito propósito ou razão de ser e, em seus melhores momentos, fragmentada. Ainda assim, “Um Filme Minecraft” é muito, muito mais que a soma de suas partes.

Essa jornada tortuosa, ainda que sempre engraçada, começa com Steve (vivido por Jack Black, colaborador de Jared Hess em “Nacho Libre”) um cara comum que, na narração cheia de intensidade e energia de Black, afirma desde criança ter sempre nutrido o sonho de... garimpar numa mina! Quando adulto ele finalmente resolve fazê-lo e, durante uma de suas garimpagens, encontra uma espécie de cubo cósmico (a lembrar, de fato o Tesseract visto em “Vingadores”) que lhe permite ir para outra dimensão! –sim, a trama é absurda e, conforme avança, equilibra uma insanidade sobre a outra e segue em frente.

Essa outra dimensão –chamada Overworld ou Mundo Superior –corresponde pois ao ambiente do jogo “Minecraft”. É ali que o protagonista descobre que, usando dos cubos à disposição (lá tudo tem o formato quadrado), pode construir tudo o que quiser, com a restrição de sua própria imaginação. É ali, também, que Steve vive por anos, até que acidentalmente acaba indo parar em outro mundo, o Mundo Inferior, este dominado por porquinhos malignos (tão fofos quanto hilários!) que almejam chegar ao Mundo Superior para dominá-lo. Prisioneiro, Steve despacha seu cachorro, Dennis (que também é quadrado, como tudo o mais naquele lugar!), para o mundo real, onde deve esconder o cubo que abre o portal para o Mundo Superior.

Anos mais tarde, o ex-campeão de videogame Garett ‘O Lixeiro’ Garrison (Jason Momoa, engraçadíssimo, vivendo um daqueles personagens presos ao passado que o diretor Jared Hess tanto ama), Dawn (Danielle Brooks, da versão musical de “A Cor Púrpura”), uma corretora de imóveis e os jovens irmãos Natalie (Emma Myers, de “Manual de Assassinato Para Boas Garotas”, a única do elenco a trazer um registro dramaticamente inapropriado) e Henry (Sebastian Eugene Hansen) acabam encontrando o cubo e vindo para o Mundo Superior, onde acham Steve e seguem para... bem, não fica bem claro qual é o objetivo deles (!). Nem o tal Mundo Superior, nem o mundo real correm qualquer perigo na trama –mesmo os porquinhos, vilões do filme, não oferecem qualquer ameaça –e durante boa parte da segunda metade de “Um Filme Minecraft”, o propósito mais sólido do grupo de protagonistas reunidos por acaso parece ser o de encontrar o cachorro de Steve (!?).

Entretanto, da forma como o filme é conduzido, isso não importa. Cada cena é simplesmente um deleite, graças à sintonia do elenco reunido em cena –sobretudo, Jack Black e Jason Momoa que formam um par imbatível na manutenção de um humor improvável e contagiante –e às cenas estranhamente curiosas engendradas pelo diretor –artesão desacostumado com produções desse porte e com efeitos digitais, Jared Hess usa de sua inadequação com o material para benefício próprio e compõe um filme onde cada cena se sustenta com um propósito distinto; ainda que, no fim das contas, o objetivo cristalino seja sempre o de divertir.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

O Dublê


 “The Fall Guy”, a exemplo de inúmeras produções, hoje cultuadas, dos anos 1980, ganhou sua versão cinematográfica (era antes uma série de TV) repaginada e incrementada com todos os divertidos exageros do cinema comercial atual. Ao que parece, entretanto, os funcionários das distribuidoras nacionais são jovens demais lembrar que a série “The Fall Guy”, estrelada por Lee Majors, levava aqui no Brasil o título de “Duro Na Queda” –esta versão cinematográfica chega aqui intitulada meramente como “O Dublê” (!?).

Como em muitas obras já reaproveitadas em filmes turbinados e frequentemente descerebrados, “The Fall Guy”, o filme, amplifica o conceito tímido de ação da série (que acabava um pouco disfarçado com um viés investigativo) com sequências de luta e/ou perseguições elevadas a níveis inacreditáveis. O grande trunfo deste projeto, em si, foi mesmo poder contar com a direção de David Leitch.

Outrora um requisitado coordenador de  dublês da indústria (fez, entre outros, “Clube da Luta”, “300” e “O Ultimato Bourne”), Leitch faz de “The Fall Guy” não apenas um filme pulsante, palpitante e fluído (sua especialidade como diretor), mas também um enaltecimento indelével em forma de longa-metragem de sua antiga profissão: Não faltam menções, em diversas ocasiões do roteiro, ao fato de que clássicos como “Rocky”, “Coração Valente” e “Titanic” jamais seriam realizados sem dublês, ou de que a classe, tão fundamental à indústria cinematográfica, não tem um categoria no Oscar que a prestigie.

No fim das contas, é a direção apaixonada de David Leitch que faz toda a diferença na história de Colt Seavers (Ryan Gosling, sensacional), dublê profissional –e, na maior parte do tempo, quase sempre do imaturo astro Tom Ryder (Aaron Johnson). Aposentado após um acidente num set de filmagens, Colt é convocado de volta à ativa pela produtora  Gail Meyer (Hannah Waddingham, de “Os Miseráveis”) para participar de um filme feito na Austrália e dirigido por Jody Moreno (Emily Blunt), um romance mal-resolvido de seu passado.

Contudo, as circunstâncias são mais complicadas: Gail chamou Colt porque o astro da produção (o próprio Tom Ryder), simplesmente desapareceu. Como o sumiço do ator principal pode interromper a realização do primeiro filme da carreira de Jody, Colt aceita a incumbência, dando uma de detetive nas horas vagas, enquanto atua paralelamente no filme, levando bordoadas usuais como dublê.

O diretor Leitch é inteligente e inquieto na aproveitação desses expedientes –ele molda um vibrante filme de ação (aproveitando a desenvoltura fora do comum de Ryan Gosling), oscilando entre os acréscimos de detalhes investigativos de sua trama (com desenlaces até bem inesperados), inspirados lampejos de metalinguagem (o ‘filme dentro do filme’ proporciona sacadas muitas vezes hilariantes) e os altos e baixos da relação afetiva entre Colt e Jody, construída em oportunidades pouco usuais pela narrativa –e ainda se vale de um gancho muito envolvente e sedutor das obras oitentistas que ele tanto homenageia: O protagonista íntegro e valoroso, cuja integridade e valor escapa (graças ao habilidoso do roteiro) dos olhos de todos, inclusive da mocinha que ele ama, exceto dos da plateia, que por conta disso, identifica-se plenamente com ele.

Não faltam filmes fabulosos na filmografia de David Leitch, cada qual ostentando uma mescla desigual, competente e surpreendentemente funcional de filme de ação com outras variantes da narrativa cinematográfica, “The Fall Guy”, em seus acertos admiráveis (para muito além de seus eventuais lapsos) traz a perícia insuspeita para cenas de ação e pancadaria, definindo com primor a homenagem subliminar que ele faz à profissão de dublê e ao romantismo truculento e nostálgico da década de 1980.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Aquaman 2 - O Reino Perdido


 Em 2013, o diretor Zack Snyder dava o estopim inicialmente ao que seria o DCU, o Universo Cinematográfico da DC Comics nos cinemas com “Homem de Aço”, agora, em 2013, esse mal-fadado universo chega ao fim com este “Aquaman 2”, de James Wan, o segundo filme a trazer o herói interpretado por Jason Momoa como protagonista, depois do sucesso do primeiro filme em 2018. Entre esses dois extremos absolutos de tempo –a promessa e a ambição de 2013 e esse final relativamente amargo de 2023 –houve a tentativa de criação de um universo que resultou problemático, afligido pelas interferência dos Estúdios da Warner no processo de criação que levou à obras equivocadas como “Batman Vs Superman”, “Esquadrão Suicida” e “Flash”, longe, muito longe do sucesso de público e crítica obtido pelos filmes realizados no mesmo período pela Marvel Studios.

A sensação, portanto, não é de uma espécie de despedida, mas, sim a de possibilidades que não conseguiram ser atingidas. Com esse fantasma a lhe assombrar, o filme de James Wan dá continuidade à trama do filme de 2018 sem a menor predisposição para ousar: Diferente de alguns dos exemplares mais audaciosos que, em algum momento, esse universo produziu (sobretudo, os dirigidos pelo próprio Zack Snyder), “O Reino Perdido” se afasta de qualquer esboço de uma narrativa sombria (e olha que estamos falando de um diretor, James Wan, tarimbado no gênero de terror!), e trilha o caminho fácil, previsível e confortável de uma diversão para toda a família. Se as esperanças artisticamente honoráveis de se criar um universo compartilhado estão todas perdidas, então, ao menos, faça-se um produto vibrante, agradável e acessível, que consiga satisfazer a maior fatia possível do público, assim devem ter pensado seus realizadores.

“O Reino Perdido” começa, assim, com Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, numa vibe caricata que ombreia as patetices de Chris Hemsworth em “Thor-Amor e Trovão”...) em uma posição onde é agora pai, marido, herói e rei –todos títulos obtidos no filme anterior, onde salvou a Terra, sagrou-se rei de Atlântida e casou-se (e teve um filho) com Mera (Amber Heard, com tempo de cena visivelmente reduzido devido ao escândalo envolvendo seu processo contra o ex-marido Johnny Depp nos tribunais). Todavia, oriundo também do primeiro filme, o vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), desejoso de vingança contra Aquaman, adquire o misterioso tridente negro que pertenceu a um monarca de um reino renegado e ancestral dos mares, o chamado Reino Perdido. Tal tridente traz um poder tão grande quanto corruptível: Restaura o funcionamento de maquinários bélicos implacáveis e dá ao seu usuário força de sobra para colocar seus inimigos de joelhos, mas ele leva também o espírito diabólico do antigo rei de Necrus, cujo único objetivo é queimar uma substância de nome Oricalco, capaz de destruir, em poucos dias, todo o eco-sistema do planeta Terra.

Para o Arraia Negra, cuja sede de vingança pelo que Aquaman fez (ele deixou que seu pai morresse) o torna capaz de qualquer coisa, sacrificar a segurança do planeta acaba sendo um preço que ele se dispõe a pagar em troca dos meios adequados para ter sua revanche. Com esse problema nas mãos –e ciente de que, sendo mestiço de humano e atlante, sua responsabilidade é proteger ambos os mundos de onde veio –Arthur deve reencontrar seu irmão Orm (Patrick Wilson, sensacional), prisioneiro desde o filme anterior, quando conspirou uma invasão contra o povo da superfície.

O que o diretor James Wan engendra, a partir daí, é um filme frenético, e acometido de ocasionais piadinhas, acompanhando a relação conflituosa, mas no fim, afetuosa, entre esses dois irmãos, Arthur e Orm, onde eles se unem para encontrar a trilha que os levará aos segredos que ajudarão a sobrepujar o mal. Pela trajetória cheia de perigos que não ameaçam ninguém (pois, sabemos, até pela leveza da narrativa que tudo ficará bem no final), pelos cenários sempre exóticos e selvagens que surgem no caminho dos protagonistas, e pela receita oscilante de ação, humor e suspense de montanha-russa que entrega, o filme lembra muito “Cidade Perdida”, com Sandra Bullock e Chaning Tatum (que, por sua vez, já lembrava o oitentista “Tudo Por Uma Esmeralda”) mesclado à excentricidade visual (e ao exagero digital, por que não) de “Valerian e A Cidade dos Mil Planetas”.

É um bom entretenimento –e o elenco, pleno de carisma, ajuda muito nesse quesito –mas, é absolutamente esquecível. Para um filme que acaba sendo o último suspiro de um universo que almejava ir tão longe, “O Reino Perdido” se revela melindroso em suas opções deliberadamente formulaicas.

sábado, 22 de julho de 2023

Flash


 Falar sobre filmes de superheróis, hoje, é evocar todo um contexto no qual estão inseridos como o universo provavelmente compartilhado que eles habitam do lado de lá das telas, e também, a situação, periclitante ou não, que a produção vivencia do lado de cá. Em “Flash” há muito o que se falar nos dois casos, e nenhum é uma história muito curta: Primeiramente, temos o herói velocista vivido por Ezra Miller (de quem este é o primeiro filme solo), finalmente alçado ao status de protagonista numa trama em que almeja usar de sua supervelocidade para voltar no tempo e impedir o assassinato da sua mãe (a maravilhosa Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também”), crime do qual seu inocente pai (Ron Livingston, de “Band Of Brothers” e “Como Enlouquecer Seu Chefe”, substituindo Billy Crudup dos outros filmes) é acusado.

No entanto, como bem sabem todos os expectadores de “De Volta Para O Futuro”, mexer com o tempo acarreta pesadas repercussões no presente, e é aí que o filme dirigido com notável habilidade por Andy Muschetti começa a se complicar um pouco: “Flash” faz parte do Universo DC nos cinemas, perpetrado por Zack Snyder em seus três primeiros filmes: Esboçado em “Homem de Aço”, ampliado com algum desleixo em “Batman Vs Superman” e bastante comprometido com as turbulências ocasionadas na produção de “Liga da Justiça” –a Liga da Justiça, inclusive, da qual o Flash faz parte, comparece, na bombástica cena de abertura –logo, viajar no tempo, no contexto da sua narrativa, significa revisitar eventos ocorridos nos filmes anteriores, neste caso específico, a chegada do General Zod (Michael Shannon) à Terra, episódio que proporcionou a revelação do Superman (Henry Cavill, que aqui nem aparece) ao mundo, como visto em “Homem de Aço”. Mas, a intervenção de Flash, ou melhor, Barry Allen, no continuum espaço-tempo provocou uma espécie de efeito-borboleta: A maioria dos membros da Liga da Justiça não parece existir nesse mundo, incluindo Superman, assim, aliado a uma versão sua daquela realidade (o ator Ezra Miller faz um incrível trabalho desempenhando com credibilidade duas versões distintas do mesmo personagem), Barry vai à Mansão Wayne tentar encontrar o Batman e, quem ele encontra, ao invés do personagem vivido por Ben Affleck, é o Bruce Wayne interpretado por Michael Keaton, o Batman de 1989, do filme que praticamente deu o estopim para as tentativas de adaptações de histórias em quadrinhos dos últimos trinta e quatro anos!

Ao tentarem juntos descobrir o paradeiro do Superman, os dois Flashs e o veterano Batman descobrem que, nesta nova realidade, quem terminou vindo para a Terra foi sua prima, Kara Jor-El (Sasha Calle, pouco aproveitada) que se encontra, por sua vez, presa na União Soviética como objeto de estudo daqueles militares.

Não há dúvidas de que, para os fãs mais crescidos e nostálgicos, a visão de Michael Keaton retomando seu papel de Batman é um deleite e tanto –ainda mais quando este ótimo ator vale-se de cada instante de filme para roubar completamente a cena e provar que guardadas algumas proporções e distinções, ele é, sim, um dos melhores intérpretes de Batman. No entanto, há um grave problema enfrentado por “Flash”, o filme, e que se reflete na pífia bilheteria que esta superprodução amargou: A despeito de um ou outro momento genuinamente divertido (e de ser, no cômputo geral, um bom filme) “Flash” não passa a sensação de euforia e entusiasmo que se esperaria de um trabalho com essa proposta –a Marvel Studios, valendo-se de mote muito semelhante em “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” levou plateias à vibrarem nas salas de cinema.

Em parte porque desde o primeiro momento de filme, estamos cientes de que “Flash” se passa num universo já moribundo; meses antes de seu lançamento, já sabíamos que a Warner havia contratado James Gunn para reformular todo o Universo DC, recomeçando tudo do zero com novos atores. Ou seja, “Flash”, de Andy Muschetti, representa então os estertores finais, o último suspiro de um mundo com seus minutos contados. Ter consciência disso tira toda a satisfação que, por ventura poderia existir em momentos descontraídos como os esforços a la Marty McFly de Barry Allen em refazer sua realidade como era antes (e não ajuda nada as cenas profusas de efeitos visuais serem adornadas por gráficos que parecem visivelmente mal acabados), nem nas aparições-surpresa que surgem na tela durante o clímax (e que poderiam ser o ponto alto do filme, mas não o são porque os realizadores não sabem explorar o potencial da mitologia que manejam com a mesma habilidade que a Marvel Studios) ou na cena pós-créditos, construída para ser divertida mas que, por razões óbvias, termina sendo completamente vazia. Não haverá uma continuidade em relação a qualquer coisa que se vê aqui, logo, não há qualquer peso nas consequências sugeridas no roteiro, para o bem e para o mal. E o filme de Andy Muschetti, a despeito de todas as suas boas intenções, não se sustenta sozinho para ser, no fim das contas, um projeto válido e digno, mesmo que mal-fadado.

domingo, 25 de junho de 2023

Liga da Justiça de Zack Snyder


 As turbulências do Universo DC nos cinemas já são conhecidas, e todos sabem que a maioria delas culminou no irregular “Liga da Justiça” de 2017 que, embora tivesse o nome de Zack Snyder em seus créditos, era fruto do trabalho de Joss Whedon, chamado pelos executivos da Warner Bros. para finalizar o vasto material deixado por Snyder antes de seu afastamento em decorrência do trágico suicídio da filha. Havia algumas intenções bem nítidas no recrutamento de Joss Whedon que, é bom lembrar, dirigiu também “Os Vingadores” para a Marvel Studios cerca de seis anos antes: Harmonizar as muitas ideias ainda inacabadas (algumas bastante ambiciosas) que Zack Snyder deixara para “Liga da Justiça”, e dar um aspecto mais, digamos, semelhante às obras da Marvel para as ainda tão lúgubres realizações da DC –público e crítica pareciam concordar que “Batman Vs Superman” padecia, entre tantas outras coisas, de um tom sombrio que por vezes exacerbava e soava inadequado a um filme de superheróis.

Entretanto, Joss Whedon não revelou-se a escolha ideal para a tarefa: Além de simplificar todo o material de Snyder a fim de acomodá-lo numa duração curta de mais apelo comercial (tirando assim toda a relevância de muitas cenas), Whedon acrescentou cenas que só introduziam piadinhas desnecessárias (um elemento da Marvel do qual a DC não precisava), deixando a clara e desconfortável diferença de estilo visual e narrativo entre ele e Snyder (transformando o filme numa colcha de retalhos) e finalizou todo o material com um desleixo ainda mais incômodo: Ficou famosa (ou seria infame?), por exemplo, a boca em CGI de Henry Cavill, acrescentada para apagar o bigode que ele deixara crescer para as filmagens de “Missão Impossível-Efeito Fallout”.

Então, veio a pandemia em 2020 e os índices baixos (ou seria melhor inexistentes?) de bilheterias cinematográficas fez os executivos do estúdio voltarem sua atenção para sua plataforma de streaming, o HBO Max, e para as redes sociais, onde ganhava força um movimento chamado #snydercut no qual fãs fizeram petições pedindo pelo lançamento da versão de Zack Snyder de “Liga da Justiça” certamente melhor do que a lançada no cinema em 2017 –até porque, seria difícil conseguir fazer algo pior...

Eis que, uma vez mais tendo acesso às cenas gravadas, e com todo o arsenal de efeitos computadorizados para finalizar o filme à sua maneira, Zack Snyder pôde enfim satisfazer seus fãs e entregar sua própria versão de “Liga da Justiça” a ostentar a nada modesta metragem de quatro horas de duração (!).

Após os eventos dramáticos de “Batman Vs Superman” –revistos sobre outro e estilizado ângulo nas cenas iniciais –um novo desafio aos heróis, Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) surge no horizonte: Sem o vasto poder de Superman para proteger a Terra, as preciosas ‘caixas maternas’ despertam sua energia, atraindo invasores alienígenas.

Outrora pivô de uma invasão alienígena ocorrida em tempos imemoriais, as ‘caixas maternas’ –divididas em três –ficaram na Terra, sob a proteção dos humanos, dos atlantes (o povo de Aquaman) e das amazonas (o povo de Diana, a Mulher-Maravilha). Agora, o conquistador tirânico Darkseid (Ray Porter) pretende recuperá-las e, para isso, envia seu mais poderoso lacaio, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds, um vilão muito mais elaborado esteticamente e melhor escrito do que no outro filme), desesperado por saciar a fome de conquista de seu senhor e assim, saldar a dívida que tem com ele, e voltar para seu mundo-natal.

A medida que se deparam com o poder incomensurável do Lobo da Estepe, Bruce Wayne (o Batman, caso alguém não saiba...) dá sequência ao seu plano de reunir os seres mais poderosos da Terra numa única equipe a fim de protegê-la. Com Diana ao seu lado –devidamente alertada do roubo da ‘caixa materna’ em poder das amazonas por sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) –ele vai atrás do atlante Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), do velocista Barry Allen, o Flash (Ezra Miller) e do indivíduo cibernético Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher), este, aliás, criado a partir de uma das ‘caixas maternas’.

No entanto, logo fica claro que, para fazer frente a esse poderoso inimigo, eles devem encontrar um meio de trazer de volta Kal-El, o Superman (Henry Cavill).

Para aqueles que viram o “Liga da Justiça” de Joss Whedon, este novo filme não terá uma trama das mais diferentes do que se viu naquele, ainda assim, devido ao tratamento muito mais épico e ambicioso planejado por Snyder, a sensação de acompanhar os mesmos acontecimentos é a de se assistir a um filme completamente novo. Muita coisa muda –sai completamente a abertura ao som de “Everybody Knows”, por exemplo –mas, curiosamente, muita coisa permanece a mesma nesta nova versão; consequência do fato claro de  que foi Snyder quem realmente filmou a maior parte de “Liga da Justiça”, a grande diferença foi que Joss Whedon enxugou, e muito o material, a fim de acomodá-lo em módicas duas horas, criando, aqui e ali, cenas que emendavam alguns blocos. Todavia, como é visível ao assistirmos as duas versões, Whedon prefere menções aos quadrinhos que remetem mais leveza, enquanto que Snyder enfatiza um certo peso dramático embutido naturalmente nessa mitologia. Preferir um ou outro é, deveras, uma questão de gosto, mas é bem nítido qual das duas versões é superior: Pela amplitude da trama preservada e concebida, a versão de Snyder é infinitamente mais concisa, satisfatória e coerente que o filme francamente falho de Whedon. As mesmas cenas, na concepção de Snyder, ganham uma duração maior, privilegiam mais a atmosfera e os pequenos detalhes (não somente a câmera lenta como muitos detratores quiseram alardear), aprofundam as relações e motivações de praticamente todos os personagens (alguns, como o Cyborg, são genuinamente melhorados) e conferem ao filme uma contundência que faz toda a diferença na última parte do filme, um clímax muito mais tenso, eficaz e vibrante.

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Conan - O Bárbaro

Parecia absurdo (e realmente era) que um filme memorável e bem-sucedido como “Conan-O Bárbaro”, de 1982, tivesse se restringido apenas a uma pífia continuação (“Conan-O Destruidor”, de 1984, além de “Guerreiro de Fogo”, um derivado muito do sem-vergonha...).
A indústria até tentou compensar esse lapso (tardiamente, é bem verdade) fazendo uma espécie de refilmagem em 2011. Melhor dizendo: Fazendo uma nova versão do personagem, extraído de uma série de quadrinhos da Marvel dos anos 1970, por sua vez, inspirados nos contos escritos na década de 1930, pelo autor Robert E. Howard.
De fato, o personagem Conan, o Bárbaro, é tão rico, marcante e antológico que é de se admirar a pouca atenção dada a ele na cultura pop recente.
Parecia que, em 2011, isso estava prestes a ser compensado. A produção tinha no comando o diretor especialista em videoclips, Marcus Nispel que, se havia feito um trabalho entre o medíocre e o constrangedor no reboot de “Sexta-Feira 13” e no épico “Desbravadores”, ao menos havia entregado algo minimamente interessante na nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica”.
No papel principal outra boa notícia: Fora escalado o samoano Jason Momoa (que então havia se destacado num papel menor na série “Game Of Thrones”) e, embora Conan fosse um personagem intrinsecamente relacionado à Arnold Schwarzenegger, as reações à escalação de Momoa foram bastante positivas pela adequação de sua fisionomia ao personagem, sobretudo, às suas caracterizações nos quadrinhos.
A expectativa, porém, é sempre uma faca de dois gumes, e o filme que Nispel entregou naquele ano não equiparava o que alguns fãs dele esperavam; compará-lo com a ótima realização de John Millis, de 1982, então, era uma covardia.
Numa variação até razoável do que está nas HQs, no filme original e do que é esboçado nos livros, a origem do personagem –que ocupa os primeiros vinte minutos –se dá pelo massacre de seu povo, os cimérios, perpetrado pelas tropas do maníaco Khalar Zym (o normalmente competente Stephen Lang, aqui afetado), grande vilão da trama que praticamente substitui, sem o mesmo peso dramático, o Thulsa Doom, de James Earl Jones, no filme de 82.
Conan, então um menino na ocasião, que inclusive teve o pai (Ron Perlman) assassinado –numa sequência feita para ser original, mas que resulta ridícula –passa o resto da vida em busca de vingança.
Anos depois (e já então personificado pela presença bastante impressionante de Jason Momoa), Conan finalmente encontra uma pista de Khalar Zym e parte em seu encalço; descobre assim que o vilão passou as últimas décadas dedicado a encontrar um artefato místico, algo que pode arremessar toda a Era Hiborana (o mundo imaginado por Robert E. Howard onde as aventuras de Conan se passam) num reino de trevas.
Para cada boa decisão tomada pelo filme, há um lapso que o compromete. Exemplo: Se foi bastante positivo manter-se mais fiel às características originais do personagem do que no filme de 82 –um bárbaro selvagem, porém, astuto e articulado na comparação ao guerreiro taciturno de Schwarzenegger –o filme de Nispel ao mesmo tempo comete equívocos grotescos e ginasianos ao coloca-lo em situações risíveis como o forçado enlace amoroso com a jovem indefesa Tamara (Rachel Nichols, interpretando sem um pingo de boa vontade).
Outro: Se por um lado a direção de Nispel capricha no quesito visual (uma de suas especialidades, vide seu currículo), incluindo o aproveitamento da tecnologia 3D (o sucesso “Avatar”, com o próprio Stephen Lang no elenco, havia pegado o mundo de assalto há apenas dois anos), por outro, seu roteiro é incapaz de conceber sequências tão extraordinariamente memoráveis como aquelas que o filme de 82 entrega simultaneamente –todas extraídas das HQs do personagem –o diálogo sobre o Enigma do Aço; a sequência da Grande Roda da Dor; a cena da crucificação e outras.
Além disso, na ânsia por sagrar-se um sucesso de bilheteria –e ser assim acessível a uma plateia de faixa etária o mais ampla possível –o filme padece de uma auto-censura que o despe de todas as singularidades do filme original, como sua audaciosa inclinação para a nudez, para uma sexualidade e uma sanguinolência que soavam (e ainda soam) incomuns nos filmes comerciais de aventura. Algumas cenas até embrincam nessa direção desvanecendo em clichês muito antes de algum resultado válido aparecer na tela.
O filme de 2011, tão promissor que era na oportunidade de recolocar nos cinemas um personagem que merecia e merece a evidência da qual desfrutam hoje ícones como James Bond ou Indiana Jones, padeceu perante um diretor que não soube manter a solidez narrativa de seu filme, e principalmente um roteiro que revelou incompetência absurda ao desperdiçar os conceitos e elementos riquíssimos que tinha a sua disposição.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aquaman

É comum acontecer de diretores oriundos exclusivamente de filmes de terror fazerem trabalhos espetaculares quando lidam com material hollywoodiano –foi assim, por exemplo, com “O Senhor dos Anéis” que ganhou do diretor Peter Jackson um tratamento que conciliou suas muitas facetas num todo primoroso graças à sua capacidade de enfatizar um insuspeito peso dramático.
Essa mesma percepção se repete em “Aquaman”, que o diretor James Wan, vindo dos bem-sucedidos “Invocação do Mal”, trata de eleger, com seu invulgar domínio narrativo, a melhor produção de um personagem da DC Comics até então, passando a frente do ótimo “Mulher Maravilha” e estabelecendo um belíssimo (e ocasionalmente elevado) padrão de qualidade para os claudicantes “Liga da Justiça”, “Batman Vs Superman” e afins.
Por sinal, fica claro na trama que o longa se passa depois dos eventos relatados em “Liga da Justiça” –onde o Aquaman foi de papel essencial –mas, uma breve menção é tudo que o diretor James Wan se presta a fazer; todo o restante do filme pertence ao seu protagonista e à fascinante mitologia que ele construiu com zelo e empenho em torno dele.
Arthur Curry (Jason Momoa, abraçando o protagonismo com um carisma inquestionável) pertence a dois mundos –por um lado, ele é filho da poderosa rainha Atlana (Nicole Kidman, fantástica), por outro, seu pai vem a ser o humilde faroleiro Thomas Curry (Temuera Morrison). Ambos se encontraram quando Atlana se feriu num combate e, à deriva, foi parar no litoral do chamado “mundo da superfície”. Do amor entre o terráqueo e a atlante, nasceu Arthur, um filho do qual ela teve de abrir mão para que os atlantes –sempre hostis e arredios para com o povo da superfície –não viessem atrás dele.
Arthur cresceu alheio e indiferente à sua herança atlante –usando seus poderes, como pudemos notar no filme da Liga da Justiça, para salvar pescadores aqui e ali –até que o guerreiro Vulko (Willen Dafoe), a pedido de Atlana, aparece para treiná-lo.
Assim, Arthur descobre que tem um irmão, Orm (Patrick Wilson, o ator-assinatura de James Wan) e que na sua ausência, é Orm quem subirá ao trono decretando uma guerra contra a superfície que terminará em prejuízo para ambos os lados.
É a belíssima Mera (Amber Heard, uma aparição aqui tanto quando em “All Boys Love Mandy Lane”, que a revelou) que aparece –depois de seu rápido encontro em “Liga da Justiça” –para lhe afirmar que o único meio de deter Orm é reclamando seu direito, como primogênito, ao trono.
Mas, a impulsividade Arthur o coloca em desvantagem contra Orm (e ainda quase lhe custa a própria vida): Para sobrepuja-lo de uma vez, Arthur deve assim encontrar o lendário tridente perdido do primeiro rei atlante.
Sensato, o diretor James Wan estrutura seu roteiro com base nos mais indiscutíveis e certeiros conceitos da jornada do herói, pontuando a partir de um determinado momento a busca por um artefato precioso quase como uma saga de “Indiana Jones” –há, portanto, em seu enredo, todas as reflexões necessárias a respeito de valor, legado, herança e responsabilidade, e ele amadurece seu personagem principal com base nessas características enquanto emoldura nele um filme de rara beleza épica a aportar nos cinemas: Não é exagero afirmar que as batalhas grandiloquentes que ocupam a tela no terço final ombreiam em refinamento e fulgor visual com as memoráveis sequencias de “O Senhor dos Anéis”!
É, pois, algo até irônico: Vítima constante de piadinhas acerca de sua relação com peixes e suas habilidades aquáticas em comparação com os desprendidos Superman e Batman, o atlante Aquaman ganha aqui um filme majestoso, invulgar e antológico que o põe anos-luz à frente das produções recentes daqueles outros heróis, e cuja excelência fará qualquer um engolir em seco ao tentar fazer alguma piadinha sobre ele no futuro.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça

Pode-se afirmar que foi um verdadeiro parto conseguir este filme da “Liga da Justiça”.
Há muito tempo esperado e alardeado –antes mesmo da realização bem-sucedida de “Os Vingadores” pela Marvel Studios, o quê já foi há cinco anos –o projeto enfrentou, entre outras coisas, um cancelamento provocado pela então greve dos roteiristas em 2007, quando o plano ainda era que fosse dirigido por George Miller e com um elenco totalmente diferente.
De lá para cá, muita coisa mudou.
A Marvel estabeleceu um formato para que um universo de narrativas e personagens dos quadrinhos fosse transposto para o cinema, e a DC Comics, sua rival, naturalmente procurou seguir esse caminho. A jornada, entretanto, foi tortuosa: Sem o humor e a descontração de sua concorrente, a DC buscou um ponto de partida para o seu próprio universo numa reformulação de Superman, seu mais icônico personagem (“O Homem de Aço”), em seguida deu continuidade com um filme até hoje controverso que não agradou a crítica (“Batman Vs Superman” do qual sob muitos aspectos, este filme é uma continuação direta), e uma produção equivocada e problemática (“Esquadrão Suicida”), para finalmente acertar com o filme solo de sua principal heroína (“Mulher Maravilha”).
Diretor de “Batman Vs Superman”, Zack Snyder era inicialmente o diretor deste projeto –e ele de fato responde por pelo menos uns 80 % do material que se assiste no filme –mas, devido à uma tragédia pessoal, desligou-se da produção, dando lugar para Joss Whedon (diretor de “Os Vingadores”) terminar o trabalho.
Algumas coisas ficam claras desde o início: Os realizadores têm consciência de seus erros e os corrigem paulatinamente aqui –o tom sombrio (e tido diversas vezes como inadequado) foi equilibrado, agora a DC compreende que superheróis são motivo de celebração e não de introspecção (há espaço até para piadinhas!); a trama já não se dispersa em subterfúgios banais ou motivações pretensiosas, o roteiro é objetivo e busca ir direto ao ponto (prerrogativa principal para que um filme com tantos protagonistas funcione corretamente).
Como foi visto ao fim de “Batman Vs Superman”, o mundo está de luto pela morte do Superman. Contudo, como foi também visto lá, ameaças muito maiores do que as mundanas começam a contemplar o planeta Terra: O poderoso alienígena Lobo da Estepe (voz do ator Ciaran Hinds, o quê não quer dizer muito...) vem para o nosso planeta atrás de três ‘caixas maternas’ aqui deixadas. Quando reunidas elas despertarão uma entidade de nome ‘unidade’ que consumirá todo o nosso mundo.
Identificando com antecedência o perigo, o vigilante Batman (Ben Affleck, tão esmerado quanto no filme anterior, porém, menos sisudo) põe então em prática o plano com o qual já flertava antes: O de reunir, ao lado da poderosa Diana Prince, a Mulher Maravilha (Gal Gadot, que consegue ser, com facilidade, uma das melhores coisas do filme), os poucos superpoderosos identificados do mundo, que no caso seriam Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa, da mal-fadada reformulação de “Conan-O Bárbaro”), Barry Allen, o Flash (o talentoso e divertido Ezra Miller) e Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher, o intérprete mais fraco do grupo).
Juntos, como a Liga da Justiça, eles buscarão se opor aos vilões que desejam a destruição. Não só eles, diga-se: Num daqueles casos tão óbvios que até uma criança de colo perceberia, é lógico que o Superman (vivido por Henry Cavill) haverá de ressuscitar para compor o time dos heróis no grande clímax –e apesar disso ser evidente, a narrativa parece tratar a manobra como um das grandes surpresas do roteiro!
No fim das contas, o aspecto que poderia prejudicar o filme –a substituição de diretor com as filmagens em andamento, e antes mesmo da pós-produção –acabou beneficiando-o: “Liga da Justiça” encontra uma harmonia agradável, fluida e plausível entre o estilo lúgubre, amargo até de Zack Snyder e o tom mais ameno, escapista e otimista do experiente Joss Whedon (que até mesmo já roteirizou histórias em quadrinhos).
Seus problemas acabam ficam assim à sombra de seus acertos, especialmente diante do fato de que, comparado ao inconstante “Batman Vs Superman”, este “Liga da Justiça” é um bem-vindo salto de equilíbrio e entendimento narrativo –ainda que ele fique um pouco aquém das qualidades do amplamente satisfatório “Mulher Maravilha”.
É bom saber que a DC Comics está no caminho certo.