domingo, 5 de julho de 2026

Supergirl


 Superman”, de James Gunn, foi a primeira incursão cinematográfica dentro desse novo universo compartilhado da DC Comics no cinema, ainda almejando levar todo o seu universo de personagens dos quadrinhos para a telona, após a tentativa claudicante de Zack Snyder. Agora, presenciamos a chegada do segundo longa-metragem dessa empreitada, este “Supergirl” – cuja protagonista, interpretada por Milly Alcock, já havia dado as caras, antecipando este projeto, numa cena pós-créditos de “Superman”.

Como era de se presumir, algumas pressões de ordem artística e mercadológica pairavam sobre a produção: A primeira delas, adaptar com pomba e circunstância a graphic novel “Supergirl-Woman Of Tomorrow”, de Tom King, um elogiadíssimo arco de histórias da personagem que serviu de fonte para o roteiro. As outras obrigações do filme eram introduzir ao público leigo (sem conhecimento dos quadrinhos) essa nova personagem tendo em vista a possível comparação com as versões anteriores (a primeira, no filme B de 1984, vivida no cinema por Helen Slater; as versões de séries de TV, tendo Laura Vandervoort personificado ela em “Smallville” e Melissa Benoist vivido a personagem numa série própria do Warner Channell de 2015 a 2021; e a última versão para cinema, do Snyderverse, interpretada por Sasha Calle, no irregular “Flash”), e ser, no fim das contas, um sucesso de bilheteria e um  filme bom de fato – objetivos que, na opinião de muitos, o filme inicial de James Gunn não chegou a cumprir totalmente.

Ao encontrarmos Kara Zor-El (Milly Alcock, entregando um bom e dedicado trabalho), prima do Superman, ela está junto de seu cachorro Krypto, comemorando seu aniversário num outro planeta, irradiado por sol vermelho – lá, portanto, seu metabolismo kryptoniano não apresenta os mesmos assombrosos poderes de quando está num planeta de sol amarelo como a Terra, lá ela pode beber e usufruir dos efeitos do álcool (!?!).

É nessa situação que ela cruza-se com Ruthie (Eve Ridley), sobrevivente de uma família de ferreiros espaciais dizimada pelo perverso Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts, num vilão irritante e completamente subaproveitado). Num argumento que remete muito à “Bravura Indômita”, Ruthie quer vingança, mas sabe que sua juventude e inexperiência a tornam um desafio irrisório para o seu inimigo. Naquele bar interplanetário (a exemplo dos bares habituais da saga “Star Wars”), portanto, ela está à procura de alguém que compre sua causa e a ajude a eliminar Krem.

Num primeiro momento, não é essa a intenção de Kara – como toda protagonista que se pretende descolada, ela não aceita se envolver, evitando encrenca – mas, o objetivo se torna pessoal depois que Krem e seus ‘bandoleiros do espaço’ roubam sua nave e, o pior, alvejam seu cachorro com uma flecha envenenada, cujo antídoto só ele possui. A motivação – emprestada sem qualquer disfarce de “John Wick” – dá, assim, o pontapé à narrativa e toda uma jornada espacial (a lembrar, por sua vez, um road movie) que se desenrola a partir daí com o roteiro truncado de Ana Nogueira e a direção de Craig Gillespie (do ótimo “Eu, Tonya”) fazendo o possível (e falhando) em dar ao filme alguma originalidade – isso porque a cada momento, “Supergirl” evoca uma narrativa já conhecida, e que funcionou muito melhor antes; e os exemplos são todos os filmes já citados.

Nem mesmo acréscimos que poderiam dar algum fôlego à trama (como o Lobo, vivido por Jason Momoa, deixando para trás “Aquaman” com este novo personagem) ou que poderiam aprofundar a protagonista e sua jornada (como a revelação de sua origem, extraída da graphic novel, mais sombria e distinta que a de seu primo) ajudam a tornar o resultado palatável, uma vez que as escolhas, em sua maioria soam aleatórias e sem razão de ser – uma pena: Não só a composição acertada de Milly Alcock merecia um filme muito melhor para estrelar, como também o material-base dos quadrinhos era uma história vibrante, excelente e pronta para ser adaptada fielmente, sem necessidades de alterações equivocadas.

Com um roteiro repleto de incongruências (e contradições nas quais as personagens entram a todo o momento), “Supergirl” parece evidenciar de forma cristalina as intervenções de produtores no seu resultado final: O diretor Gillespie, notoriamente um realizador bastante competente, não  parece ter tido pleno controle sobre o projeto e muito do que vemos remete nitidamente ao trabalho sintomático do produtor (e Todo-Poderoso da DC Comics atualmente) James Gunn que impõe o estilo com o qual construiu “Guardiões da Galáxia” para a Marvel Studios.

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