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sábado, 4 de julho de 2026

Frankenstein


 A obra literária de Mary Shelley impregnou-se de maneira indissociável da cultura pop; não apenas a obra em si (com adaptações cinematográficas como a icônica versão da Universal com Boris Karloff, a rebuscada e romantizada produção “A Prometida”, com Sting, ou o inquieto “Frankenstein de Mary Shelley”, de Kenneth Branagh, se somando à dezenas, talvez centenas, já executadas) mas, até mesmo seu inusitado contexto –gira em torna justamente da gênese de sua premissa o incomum, brilhante e notável “Gothic”, de Ken Russell, sobre os eventos que levaram Lord Byron, Mary Shelley, seu noivo Percy e mais alguns outros a vivenciarem uma noite lisérgica de onde saiu a ideia do livro.

Eis que em 2025, uma nova adaptação, conduzida pelo diretor mexicano Guillermo Del Toro, ganhou a luz do dia. Se vai ser recebida ou não como a adaptação definitiva da obra só o futuro dirá (e a divisão de público e crítica entre os que amaram essa nova visão de Del Toro e aqueles que rejeitaram suas mudanças já não abre muita margem para isso), no entanto, não deixa de ser uma obra admirável exatamente pelo fato de não sairmos dela indiferentes.

Em primeiro lugar, porque Guillermo Del Toro sempre olhou com carinho e identificação os monstros que, ao longo de sua carreira, incumbiu-se de retratar – com suas lentes ele concebeu um tétrico filme de fantasmas onde são os vivos o grande mal a assombrar os inocentes (“A Espinha do Diabo”); uma fantasia onde as criaturas mais pavorosas e espantosas não rivalizavam, em perversidade, com os déspotas muito reais da Guerra Civil Espanhola (“O Labirinto do Fauno”); ou uma versão de “O Monstro da Lagoa Negra” onde o tal monstro é o personagem mais indefeso, vulnerável, cativante e romântico (!) em cena (“A Forma da Água”). Não chega a ser surpresa, portanto, que nesta versão de “Frankenstein”, imbuída de acachapante beleza visual, seja por vezes o próprio protagonista Victor Frankenstein (vivido com energia por Oscar Isaacs) quem se revela mais monstruoso do que sua criatura.

Dividido com bastante inteligência em duas partes bem distintas, o filme começa em 1857, quando a tripulação de uma embarcação dinamarquesa encalhada no gelo das calotas polares recebe um inesperado hóspede (prólogo preservado em pouquíssimas adaptações do livro): O moribundo e debilitado Dr. Victor Frankenstein.

Atrás dele, logo vem uma Criatura e sua fúria é tamanha que nem os tiros de armas de fogo da tripulação são capazes de rechaçar. Enquanto aguarda pelo inevitável no interior do navio, resta ao Dr. Frankenstein relatar ao Capitão Anderson (Lars Mikkelsen, irmão do ator Mads Mikkelsen) a sua história: Ainda bem jovem, Victor testemunhou sua mãe morrer no parto do irmão mais novo, William, restando a ele somente o autoritarismo e a exigência constante do pai (Charles Dance, de “Mank”) que cobrava  de Victor a excelência (em medicina) que nem ele era capaz de ostentar. Com o passar do tempo, a morte da mãe e a cobrança paterna moldaram o caráter de Victor –ele tornou-se obcecado em descobrir uma forma científica para contornar a morte em definitivo. Ainda que desacreditado por muitos de seus superiores, Victor chegou bem perto de tal intento: Um meio de devolver uma centelha de vida às partes mortas de um cadáver.

Sem a aprovação acadêmica, Victor obtêm recursos para suas experiências com financiamentos vindos do mercador Henrich Harlander (Christoph Watz) que vinha a ser tio de Elizabeth (Mia Goth), a noiva de seu irmão, William (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”).

Numa noite de tempestade, Victor consegue energia o suficiente para reanimar um corpo constituído de vários pedaços de cadáveres colhidos por ele em campos de batalha da Guerra da Criméia. A Criatura que surge a partir desse experimento (vivida por Jacob Elordi, da série “Euphoria”, entregando um belíssimo trabalho) é inocente e tão assustada quanto assustadora –e reflete de maneira incômoda a arrogância do próprio Dr. Frankenstein ao querer brincar de Deus.

Julgando que a experiência não saiu conforme planejava, e desejoso de apagar aquilo de sua vida, o Dr. Frankenstein tenta matar a Criatura e coloca fogo em todo seu laboratório. É nesse ponto que a segunda parte do filme (toda ela narrada pela própria Criatura!) se inicia: Sobrevivendo ao incêndio, a Criatura, ignorante de todo um mundo do lado de fora de seu cárcere, passa a errar através da floresta, testemunhando sofrimento e atrocidade até conseguir se refugiar no celeiro da cabana de uma família de montanheses. O patriarca já velho, cego e debilitado (David Bradley, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”) é deixado sozinho na cabana pelos filhos, que partem para uma temporada de caça em outra região da floresta. E assim, do convívio com o velho cego (que acredita ser ele um simples viajante) a Criatura irá adquirir algum conhecimento a partir dos livros que aprenderá a ler e das conversas com o cego.

É essa consciência –quando a tragédia tornar a procurá-lo –que fará com que a Criatura vá atrás de seu Criador, para cobrar dele uma última chance de encontrar algum pertencimento no mundo.

Narrado com paixão e perfeição técnica, este “Frankenstein” justifica plenamente o amor incondicional com o qual seu diretor lhe dedica: Muito do material extraído do livro original, Del Toro transforma em algo seu, fazendo desta uma obra bastante pessoal: Não apenas a Criatura recebe talvez o seu retrato mais humanizado e empático já feito, como a própria relação com Elizabeth (muito mais aprofundada do que, por exemplo, a atração que o Dr. Frankenstein nutre por ela) adquire fortes tonalidades de entendimento, afeto e aproximação, fazendo muito lembrar o viés a laA Bela e A Fera” que Del Toro também concebeu em seu “A Forma da Água”.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Cavaleiro da Lua


 Dentre a profusão de séries e minisséries que a Marvel Studios despejou no streaming do Disney Plus a partir de sua Fase 4, “Cavaleiro da Lua” é uma das poucas que não viu sua qualidade se dissipar na medida em que toda uma trama que poderia ser comportada num filme se estendeu (e se enrolou) por todo um seriado –a produção (concebida na maioria de seus seis episódios por Mohamed Biab, diretor, e Jeremy Slater, produtor) é enxuta, dinâmica, intrigante, felizmente despida de conexões muito comprometedoras com demais obras da Marvel (aspecto narrativo que, com o tempo, prejudicou a fluidez de muitos trabalhos) e soube manejar roteiro, direção e elenco de modos a enfatizar o protagonista como o grande personagem que ele é.

Superherói do segundo (talvez, terceiro!) escalão da Marvel nos quadrinhos, o Cavaleiro da Lua sempre foi visto pela maioria dos fãs como uma espécie de variação do Batman na Marvel –seu apelo visual, com capa, máscara e apetrechos de uso físico, realmente leva à essa constatação –no entanto, o enredo bastante funcional da série foca justamente naquilo que o personagem tem de mais original, e que faz dele um exemplar bastante relevante dos elementos muito humanos que a Marvel sempre buscou imprimir em suas criações: Seus transtornos mentais.

Steven Grant (Oscar Isaac) aparenta ser um cidadão londrino absolutamente normal, tem um trabalho medíocre vendendo bugigangas na ala egípcia do Museu de História de Londres, vive sendo achincalhado por sua patroa e mal é notado por seus colegas, entretanto, há algo de suspeito na rotina de Steven: Ele prende uma corrente na própria perna todas as noites antes de dormir, coloca uma fita aderente em sua porta e, assim mesmo, possui frequentes lapsos de tempo (esquece do que fez ao longo de dois dias, por exemplo). Quem acompanha os quadrinhos sabe da explicação (ainda que no primeiro episódio se faça algum suspense para fornecê-la): Steven tem uma outra personalidade chamada Marc Spector que trabalha, na realidade, como mercenário, em missões audaciosas mundo afora. Mais que isso; numa de suas missões, Marc, alvejado por tiros e à beira da morte, foi interpelado pelo deus egípcio Khonshu (voz do grande F. Murray Abrahams) que fez dele seu avatar na Terra –o que dá à Marc poderes que vêem com o traje místico do Cavaleiro da Lua, como força, resistência e habilidades de luta aprimoradas (o pacote básico do superherói)!

Embora do protagonista de fato seja Marc Spector, e não Steven Grant, é Steven quem detém o protagonismo nos primeiros episódios da série –Marc vai surgindo aos poucos, inclusive o mistério em torno da origem de seus poderes, assim como os elementos conhecidos dos quadrinhos que o circundam. À reboque de seu protagonismo veem outros personagens, como Layla (a bela May Calamawy), que revela-se a esposa de Marc (!) e forma com ele um casal dos mais complicados; e o vilão Arthur Harrow (Ethan Hawke, cada vez melhor), um fanático líder religioso cujos planos são despertar a Deusa Ammit, uma ferrenha oponente de Khonshu, cuja fúria homicida pode varrer a maior parte da vida no planeta.

O terceiro episódio traz o personagem Mogart (interpretado pelo francês Gaspard Ulliel, falecido pouco antes da estréia da série no Disney Plus, no início de 2022), um rico colecionador de antiguidades no Egito que oferece à Marc e Layla uma alternativa para encontrar o rastro de Ammit antes de Harrow.

Fazendo um marcante elo do personagem principal com a cultura e a mitologia egípcia –elemento trazido com entusiasmo por Mohamed Diab e sua esposa Sarah Goher, consultora de produção do projeto –“Cavaleiro da Lua” se revela um dos mais independentes e auto-contidos produtos a surgir na Marvel Studios em muito tempo (num primeiro momento, pode-se afirmar que praticamente não existem referências à outras obras da Marvel, como é comum em suas outras realizações), o que termina sendo um trunfo: Munido de um enredo eficaz e envolvente e de uma direção relativamente bem administrada, na gerência de cenas de ação e de efeitos visuais, “Cavaleiro da Lua” joga boa luz sobre um personagem desconhecido do grande público, dando-lhe chances de elevar-se ao status dos grandes figurões do estúdio.

Se depender do belíssimo trabalho do ator guatemalteco Oscar Isaac (um ótimo ator subaproveitado pela indústria cuja carreira ascendeu após marcar presença no magnífico “Inside Llewyn Davis-Balada de Um Homem Comum”) na composição despida de caricatura ou de afetação das inúmeras personas fragmentadas de sua psiquê, esse personagem ainda irá longe.

domingo, 18 de junho de 2023

Homem-Aranha Através do Aranhaverso


 Já de arrancada percebemos o grande acerto que foi os realizadores da animação “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” terem dado mais espaço à personagem Spider-Gwen (voz de Hailee Steinfeld). Vinda de uma realidade alternativa onde Peter Parker morreu –e quem terminou convertendo-se em Mulher-Aranha foi ela, Gwen Stacy –a Spider-Gwen (como passou a ser chamada pelos fãs) logo tornou-se favorita do público nos quadrinhos, tradição que se manteve ao aparecer nos cinemas em “Homem-Aranha No Aranhaverso”, que esta nova animação trata de continuar. Todavia, Gwen não é a única protagonista deste arrojado longa-metragem de animação –desde já, grande candidato ao Oscar da categoria no ano que vem –há também, Miles Morales (voz de Shameik Moore).

Transformado em Homem-Aranha após os contratempos que levaram à morte de Peter Parker em sua realidade, Miles vivenciou todo o arco narrativo de aprendizado e descoberta do herói no filme anterior –agora, ele está tentando ainda adaptar-se à nova vida, e às novas mudanças que não param de chegar: Os pais de Miles –o pai, recentemente promovido à capitão de polícia; a mãe, uma enfermeira que imigrou de Porto Rico –relutam em deixar que Miles explore todo seu potencial indo estudar numa faculdade em Nova Jersey, longe do Brooklyn, onde acreditam mantê-lo sempre por perto. Essa dramaturgia, até bastante importante para o filme e o personagem, não tem muito tempo para transcorrer quando uma inusitada ameaça se manifesta: Trata-se do Mancha (!?), cientista capaz de materializar buracos de teleporte aqui e ali, e que é um dos vilões mais subestimados e ridicularizados do Homem-Aranha nos quadrinhos. Contudo, a criatividade irreprimível dos diretores Joaquim dos Santos, Justin K. Thompson e Kemp Powers, e dos roteiristas Phil Lord, Christopher Miller e David Callaham transforma Mancha num contratempo que começa, sim, atrapalhado e desengonçado (ele mal consegue controlar os poderes que ganhou por puro acaso no clímax do filme anterior), no entanto, a medida que a narrativa desvenda uma amplitude maior de seus poderes, descobrimos, ao lado de Miles, uma periculosidade que pode acabar colocando em risco todo o Multiverso.

Na sequência desses acontecimentos, Miles reencontra Gwen, por quem teve uma queda durante sua breve interação no outro filme –sendo personagens vindos de universos distintos, não havia, para os dois, maiores esperanças de se verem uma outra vez, ainda assim, Gwen acaba aparecendo no quarto de Miles. As explicações são breves, mas pontuais: Gwen (como vemos no prólogo arrebatador deste filme) foi recrutada por Miguel O’Hara (voz de Oscar Isaac), um Homem-Aranha taciturno e autoritário vindo do ano de 2099, para compor um numeroso grupo formado por versões alternativas do Homem-Aranha vindo de várias partes do assim chamado Aranhaverso. A missão deles: Impedir que indivíduos desgarrados de suas realidades originais (pelos eventos mostrados no filme anterior) comprometam a existência dos vastos universos provocando a destruição de todos eles.

Dentro dessa curiosa lógica multiversal, Miles Morales ocupa uma posição inesperada; ao que tudo indica, nunca foi o destino dele se tornar um Homem-Aranha –tanto é que a aranha radioativa que mordeu-o, dando-lhe seus poderes, veio por acidente de uma outra realidade. Para Miguel O’Hara, Miles é, portanto, uma anomalia, das tantas que ele impôs a si próprio a missão de corrigir.

É curioso notar que, no empuxo proporcionado a seus muitos e notáveis personagens, “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” é um filme sobre paternidade: É sobre o Capitão Stacy, pai de Gwen, e sobre o seu dilema de perseguir a própria filha por não saber ser ela a vigilante mascarada Mulher-Aranha; é sobre o Capitão Morales que, como policial, tem a relutante ajuda no Homem-Aranha para lutar contra o crime, sem saber que ele é seu filho, Miles, cujos segredos dessa vida dupla, aos poucos vão minando a relação que tinham; e é também sobre o veterano e fora de forma Peter Parker (do filme original) que redescobriu sua satisfação para viver (e seguir sendo Homem-Aranha) ao se tornar pai da pequenina May Day e sobre o próprio Miguel O’Hara, alimentado e impulsionado pela amargura de ter perdido mulher e filho devido a um erro multiversal –e disposto a não deixar que esse mesmo erro se suceda com mais ninguém novamente.

É um primor que “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” traga tantos personagens e que, mesmo assim, todos encontrem um momento satisfatório de desenvolvimento que os fazem mais profundos do que inicialmente se presume que eles sejam, e mais notável ainda que esse desenvolvimento se dê por meio de um tema que parece conectar a todos eles numa única e emocionante unidade narrativa –a despeito de manter o mesmo jogo assombroso de cores (os estilos de animação distintos variam conforme os personagens de diferentes universos se apresentam), as mesmas cenas alucinantes de ação do original (ainda mais inquietas, estilizadas e vertiginosas) e a mesma cinematografia pulsante e original (inclusive, com um trilha sonora que oscila descontraidamente entre funk, soul, rap e hip hop), “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” surpreende o expectador ao revelar-se inesperadamente intimista –são as particularidades de ordem pessoal e os problemas emotivos, familiares e sentimentais de seus personagens, construídos com zelo e delicadeza fora do comum, que representam, de fato, o coração do filme, e o fazem ser assim tão especial.

Tão sublime e brilhante é esse trabalho que mal se percebe o tempo passar e o filme caminhar na direção de seu inevitável desfecho, que pega toda a plateia de surpresa ao não terminar coisa alguma: O encerramento deste “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” é tão abrupto e aberto que a sensação dos expectadores ao fim da sessão é uma ansiedade perplexa pela chegada da já anunciada terceira parte.

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Star Wars - Episódio 9 - A Ascensão Skywalker

Existe uma diferença estrutural na forma com que cada uma das três trilogias que agora integram a “Saga Star Wars” foi concebida: A primeira, e tida por unanimidade pelos fãs como a melhor, embora tenha saído da mente do criador George Lucas, foi executada por três diretores diferentes –o primeiro (“Uma Nova Esperança”), pelo próprio Lucas; o segundo (“O Império Contra-Ataca”) por Irvin Kershner; e o terceiro (“O Retorno de Jedi”) por Richard Marquand –a trilogia prólogo, por sua vez, foi inteiramente escrita e dirigida por George Lucas, então numa fase da vida e da carreira em que, do alto de sua fortuna pessoal e da aclamação mundial de “Star Wars” dentro da cultura pop, podia dar-se ao luxo de fazer o que bem entendesse –daí esses três filmes (“A Ameaça Fantasma”; “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) resultarem tão artisticamente canibais para com o próprio conceito da saga.
Assim, quando George Lucas vendeu sua propriedade intelectual (a Lucasfilm) para a Disney, iniciou-se uma nova trilogia com o empolgante episódio VII dirigido por J.J. Abrahams (“O Despertar da Força”) e o controverso, ainda que excelente, filme seguinte de autoria de Rian Johnson (“Os Últimos Jedi”). O que nos leva a este “A Ascensão Skywalker” no qual, pela primeira vez na saga, um diretor, J.J. Abrahams, regressa para capitanear um episódio sem ser o criador da saga em pessoa.
E não um episódio qualquer: “A Ascensão Skywalker” toma para si uma série de duras responsabilidades; quer encerrar toda trama iniciada nos primeiros filmes (hoje, clássicos); quer também dar um desfecho satisfatório (e, se possível, vibrante) para os novos personagens introduzidos a partir do episódio VII; e ainda por cima, ao longo da sucessão de eventos desta trama, contornar as decisões polêmicas tomadas no episódio anterior que terminaram por revelar o lado negro (terrivelmente imaturo e intolerante) de seus fãs.
O filme começa com a informação, já difundida nos trailers, de que o perverso Imperador Cheev Palpatine (Ian McDiarmid) de alguma maneira não morreu, ao contrário do que se supunha no final de “O Retorno de Jedi”.
Isso leva o lado do bem, a Resistência, e o lado do mal, a Primeira Ordem, a uma corrida para ver quem o encontra primeiro; a Resistência, para neutralizá-lo de uma vez por todas –tarefa que a Jedi em treinamento, Rey (Daisy Ridley, a formidável protagonista desta nova trilogia), tem dúvidas se possui poder o bastante para fazê-lo –e a Primeira Ordem, comandada agora por Kylo Ren (o excelente Adam Driver), para consolidar-se em definitivo como o Império do Mal que sempre foi, visto que tudo o que transcorreu até então teria assim sido um plano de Palpatine desde o começo; o que leva todos os personagens e as motivações que os impulsionam à fatídica Ordem Final que encerrará essa ‘guerra nas estrelas’ de uma vez por todas.
É sabido –até por ele próprio! –que J.J. Abrahams é um autor muito bom em iniciar histórias de modo promissor, mas não em terminá-las (como corroboram suas séries “Felicity”, “Alias-Codinome Perigo”, “Lost” e “Person Of Interess”) e isso fica evidente nas incertezas de sua narrativa, tão convicta, vigorosa e enxuta em “O Despertar da Força”, mas aqui mostrando-se pela primeira vez hesitante e insegura.
Certamente não foi uma tarefa simples esta da qual ele se incumbiu e, guardadas as vastas proporções da produção, o escopo megalomaníaco do roteiro e a complexidade nas diversas linhas narrativas, ele conseguiu entregar um trabalho maravilhoso, coerente até mesmo no aproveitamento da personagem Léia, de Carrie Fisher, que morreu muito antes do início desta produção, e que aparece em cena graças à várias cenas descartadas, reaproveitadas dos dois filmes anteriores. Contudo, os fãs (sempre exigentes), os críticos e os detratores irão dizer que, dentre os três capítulos desta nova trilogia, “A Ascensão Skywalker” é o mais fraco.
E eles têm um prato cheio em mãos: Dirão que o roteiro é pedante ao contrariar diversos fatos de “Os Últimos Jedi” apenas para agradar a audiência, que a introdução de Palpatine na premissa é descabida e pouquíssimo convincente servindo só para suprir a ausência de um antagonista realmente bom.
Mas, a verdade é que, na qualidade de encerramento oficial de uma saga que praticamente definiu o cinema comercial moderno, não havia nada que pudesse corresponder a toda a expectativa que assolou “A Ascensão Skywalker”. As multidões que certamente abarrotarão as salas de cinema, gostem do trabalho de J.J. Abrahams ou não, se encontram numa situação em que esperam algo mais que um simples filme.
E um filme é tudo que irão receber.
Um filme grandioso, frenético, emocionante, repleto de momentos espetaculares e, por que não, mágicos, mas, no fim das contas, só um filme.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Ex-Machina - Instinto Artificial

Como roteirista, Alex Garland já era conceituado –havia feito o script de “Extermínio” e outras obras de Danny Boyle –entretanto, a história é outra quando escritores se aventuram a contar uma história na função de diretores; tarefa que abrange muito mais do que o manejo competente das palavras.
Havia um rumor (anos depois confirmado) de que havia sido Garland o diretor de fato da ótima aventura de ficção científica “Dredd” –produção na qual ele é creditado somente como roteirista –portanto, as chances de provar seu talento chegaram mesmo com “Ex-Machina”.
E ele o faz com louvor.
Sua narrativa acompanha, em princípio, o jovem Caleb (Doomhal Gleeson), programador de computadores tipicamente solitário e introvertido que, nas cenas que abrem o filme, surge parabenizado por seus colegas: Caleb conquistou uma disputada vaga de visitante na longínqua propriedade de seu milionário empregador, o recluso e genial Nathan (Oscar Isaac).
Lá chegando –uma mansão hightech estranhamente situada num fim de mundo –Caleb percebe a apatia e a impaciência para com relações interpessoais que Nathan se força em disfarçar sem maiores sucessos.
Com efeito, ele quer Caleb lá por uma razão mais prática que a mera visitação.
Próximo da revolucionária criação do primeiro indivíduo com inteligência artificial, ele espera que Caleb realize para ele um Teste de Turing –um bateria de perguntas através das quais um ser humano (o entrevistador) descobre a natureza artificial de um computador (o entrevistado).
A diferença e ineditismo da situação é que Caleb sabe que Ava (Alicia Vikander, possivelmente a protagonista real do filme) é uma máquina; o primor na execução dela –e sobre muitos aspectos, a sua manutenção enquanto ser funcional e intacto –reside na chance dela convencer Caleb, em algum nível existencial, de que ela tem sentimentos e impressões de um ser humano.
Ao longo das sessões –que integram o filme como seus episódios –Ava vai revelando a Caleb informações que modificam a dinâmica da relação que ele mantém com ela e com Nathan. E tudo caminha para um desfecho imprevisto.
Herdeiro de pensadores maiores como Ray Bradbury ou Isaac Asimov acerca dos desdobramentos do futurismo em geral, e da criação da vida artificial pela mão imperfeita do homem em particular, Alex Garland usa da premissa básica deste notável conto sobre definições pessoais para mergulhar o expectador em uma miríade de reflexões que deixariam Stanley Kubrick orgulhoso: Ava revela-se um ser pensante e de percepções auto-suficientes a despeito de sua natureza tecnológica –e parte do fato consumado de ser vivo é tentar lutar pela própria vida; daí que, diante da conclusão de que pode ser descartada pelo instável Nathan em qualquer lapso de insatisfação, ela planeje então sua fuga. E em Caleb, ela enxerga os meios ideais para tal intento.
Há uma ironia no fato algo filosófico de ser o indivíduo mecânico, o mais humanizado dos três protagonistas: Caleb é tão introspectivo que quase desaparece em cena, enquanto que Nathan chafurda a própria genialidade em vícios que o tornam indiferente a tudo; é bastante interessante observar esses dois talentosos atores interpretando personagens inversamente distintos daqueles que eles mesmos vivem na nova trilogia “Star Wars”.
Resta ao fim, Ava, na atuação brilhantemente composta por Alicia Vikander –ela ganhou, no mesmo ano, o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “A Garota Dinamarquesa”, mas provavelmente merecia muito mais por este trabalho aqui.
Sem problema: “Ex-Machina” ao menos, saiu da cerimônia com o Oscar de Melhores Efeitos Visuais debaixo do braço, derrotando com sua sutileza inesperada e desconcertante, pesos-pesados como “Mad Max-Estrada da Fúria” e o próprio “Star Wars-O Despertar da Força”.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Aniquilação

Mais um grande trabalho do roteirista tornado diretor Alex Garland, uma vez mais discorrendo com brilho sobre um tema de ficção científica, a exemplo do que ele fez em sua obra anterior, “Ex-MachinaInstinto Artificial”.
“Aniquiliação” –que ao invés do cinema foi direto para o Netflix –estreita ainda mais as proximidades de sua realização com um cinema hermético, menos interessado na ação e na pirotecnia e mais em inquietações de ordem intima. E isso se nota, antes de tudo, na influência maior que este filme tem (e, com certeza, também o livro de onde foi adaptado) que é indisfarçavelmente “Stalker”, de Andrei Tarkovski.
Como naquela obra primorosa e desafiadora, surge na Terra um lugar cercado de mistério e de possibilidades frequentemente ilimitadas.
Se em “Stalker” esse lugar era ‘A Zona’ –personificada nos escombros de Chernobyl –em “Aniquilação”, tal região fica em algum lugar do litoral norte-americano onde um asteróide caiu, transformando desde então todo o ambiente. A região passou a ser designada como ‘Área X’ e a estranha e etérea nódoa que surgiu no lugar, chamada ‘O Brilho’, não deixa muitas dúvidas de que lá operam energias alienígenas.
Três anos depois, a ‘Área X’ continua um incômodo mistério para os cientistas da Terra.
A bióloga Lena (Natalie Portman, ótima) também nutre suas aflições relativas ao lugar, mas dizem respeito a outro detalhe: Seu marido, Kane (Oscar Isaacs) foi enviado para lá em uma operação militar a um ano, sem mandar notícias.
Quando Kane reaparece, todos os indícios que ele apresenta indicam que não é mais o mesmo –o tenso e nebuloso diálogo na mesa da cozinha já dá a referência-mor do filme com um close em um copo cheio de água (o elemento onipresente na encenação de “Stalker”).
Lena consegue tirar muito pouco dele: Logo, Kane está agonizando em um hospital militar, sofrendo de falência múltipla de órgãos.
O quê aconteceu a ele durante todo o tempo em que esteve na ‘Área X’? Por que ele foi, dentre todos, o único que voltou?
São as perguntas que a Dra. Ventress (Jennifer Jason Leight), ao lado de Lena, mais quer responder.
A narrativa de Garland (que leu o livro há muitos anos atrás, e não o releu para escrever o roteiro o quê dá ao filme uma atmosfera dúbia e inconclusa de sonho) já antecipa algumas perspectivas ao expectador: Quando o filme se inicia, Lena presta um depoimento a uma equipe de cientistas (entre eles, Benedict Wong, de “Doutor Estranho”); ela foi a única (assim como Kane) a regressar da ‘Área X’. Pressupõe-se assim que algo ocorreu às outras que, descobriremos mais à frente, integram uma equipe de cinco e são –além de Lena e a Dra. Ventress –as pesquisadoras Josie Radek (Tessa Thompson, de “Thor-Ragnarok”) e Cass Sheppard (Tuva Novotny), e a militar Anya Thorensen (Gina Rodriguez).
Desprovido da pressa e da urgência impaciente que impregna tantas outras produções norte-americanas, o filme acompanha, quase a adentrar seu segundo terço, o grupo de cinco mulheres invadir a ‘Área X’ e, nos dias estranhos que se seguem, testemunhar as conseqüências e os efeitos que o lugar passa a lhes infligir.
De início, o tempo transcorre de maneira imprevista. Mais a frente, a fauna do lugar começa a fornecer pistas mais contundentes (e preocupantes) de que uma força irreversível está operando naquele lugar; e, com efeito, ela se traduz em perigos que vão tragando-as uma a uma. Quando fica evidente um certo perigo, voltar ou prosseguir são alternativas que, dada a situação delas, não fazem muita diferença à suas perspectivas de sobrevivência.
Em “Stalker”, Tarkovski impõe uma reflexão de ordem metafísica esmagadoramente intimista em relação aos propósitos e desdobramentos do poder que se supõe existir lá, já em “Aniquilação”, o diretor Garland habilmente abre espaço aos efeitos visuais e a outros valores de produção para que se crie, com incontornável densidade, a sensação de se estar entrando num lugar de implicações imprevisíveis.
Mas, ele nunca esquece Tarkovski: Na atmosfera que se cria (e que se mantém até o fim) cujo estranhamento e a desolação quase sufocam o expectador, na umidade que ele reitera ocasionalmente e na decisão corajosa de jamais se render a um gênero fácil –ação, suspense ou mesmo terror –ele concebe uma obra feita para acompanhar o expectador, muito tempo depois que a trama tiver se acabado.

quinta-feira, 1 de março de 2018

As Duas Faces de Janeiro

Emanando uma nítida vontade de se provar, como todo o diretor iniciante, e uma imensa disposição em emular os grandes trabalhos de Alfred Hitchcock –em especial o maravilhoso “O Homem Que Sabia Demais” –o diretor Hossein Amini (mais lembrado como o roteirista de “Drive”) imprime desde o início uma atmosfera de desconfiança que seus personagens mal conseguem disfarçar por trás de sua estampa de casual casal norte-americano em viagem na cidade de Atenas, Grécia, em 1962.
Isso mesmo antes do acontecimento que detona o ponto de partida da premissa tirada do livro de Patrícia Highsmith (autora de “O Talentoso Ripley” e “Carol”): Chester e Colette MacFarland (Viggo Mortensen e Kirsten Dunst) aparentam ser meros turistas, e com isso chamam a atenção de Rydal (Oscar Isaac), um guia turístico, norte-americano como eles. Não falta a Rydal malandragem e flexibilidade moral para sobreviver tão longe de casa, e com inúmeras segundas intenções em mente ele se aproxima do casal.
Quando menos espera, porém, ele se descobre envolvido inadvertidamente nas encrencas de Chester que o seguiram até ali; um detetive particular, contratado por investidores indignados nos EUA, o confronta com suas dívidas a saldar, e Chester reage com violência, terminando com um cadáver em mãos e obrigando, ele e Colette a fugir junto de Rydal, que por puro acaso tomou conhecimento de tudo.
Acompanhando lentamente essa tentativa gaiata de fuga, o diretor Amini vislumbra uma ciranda de suspeitas e meias verdades. Chester não revela por inteiro toda a verdade para Colette, e o processo de manter as aparências diante da aflitiva situação o extenua; Rydal usa de subterfúgios para ficar por perto do casal e lucrar, além de manifestar um crescente interesse na mulher; já Colette dá corda à atração de Rydal, a despeito da impaciência crescente do marido, pois essa é sua maneira de manter algum controle numa situação em que pouco a pouco tudo começa a se descontrolar.
Dos três é Chester que irá se ressentir das circunstâncias desfavoráveis e sucumbir por primeiro ao desespero –registrado com a eficácia habitual do talentoso Viggo Mortensen.
Da tensão resultante, o diretor extrai o suspense que define seu filme e reitera a tragédia corrosiva que se abate na jornada deles. Fica longe de igualar qualquer obra de Hitchcock, mesmo as menores, mas resulta num entretenimento válido e sólido que recria até que bem a sensação que se tem ao ler um enxuto e elaborado conto pulp.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

sábado, 1 de abril de 2017

Robin Hood no cinema



Os mais distintos personagens e personalidades já povoaram as obras de cinema desde que a sétima arte foi concebida e adquiriu seu status de entretenimento popular. Drácula. Sherlock Holmes. Jesus Cristo. Entre eles, certamente está também o galante fora-da-lei que vive para atazanar a vida do xerife de Nothingham e maneja arco e flecha como ninguém.
As diferentes personificações de suas aventuras vão do humor assumido à mais comercial das aventuras, da descontração ao compromisso sério e respeitoso com a lenda, passando por reinvenções que visitam os mais diferentes gêneros e propostas.
Aqui, alguns deles:
As Aventuras de Robin Hood (1938)
Inicialmente dirigido por Willian Keighley, mas depois substituído por Michael Curtiz (de “Casablanca”) sob pretexto de que as cenas de ação, sem um realizador experiente, careciam de brilho, este clássico do capa & espada conta a história do fora-da-lei Robin de Locsley (um vistoso e fotogênico Errol Flynn, por muito tempo o grande astro desse gênero) que, escondido na floresta de Sherwood, roubava dos ricos para dar aos pobres desafiando assim o xerife de Nothingham, e ajudando os oprimidos camponeses, durante um período de opressão em que o perverso Rei João substituiu Ricardo Coração de Leão quando este havia partido para lutar nas Cruzadas em Jerusalém.
O conto de Walter Scott ganha aquela que, na opinião de muitos puristas, é sua versão definitiva, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Robin Hood-O Invencível (1960)
Longe de seu habitat natural –os filmes de terror dos estúdios Hammer –o diretor Terence Fisher trouxe a tiracolo um de seus astros recorrentes (Peter Cushing), e fez uma versão muita particular da lenda, concebendo uma trama que desvia-se dos acontecimentos mais conhecidos que cercam os personagens.
Nesta produção curiosa, Robin é interpretado com uma ponta de astúcia e ambigüidade –oriundas da formação artística do diretor Fisher, certamente –por Richard Greene, e trás consigo uma Lady Marian surpreendente num registro muito mais sensual do que pudico, personificada por Sarah Branch.

Robin Hood (1973)
Durante muito tempo tido como uma das referências da clássica história, o desenho da Disney –no qual Robin Hood ganha as formas e expressões ladinas de uma raposa –pode até frustrar quem espera por uma animação no patamar de qualidade do estúdio: A Disney enfrentava na época um período de reestruturação interna que prejudicou bastante o resultado final.
Robin Hood é um fora-da-lei que vive a perturbar as autoridades de Nothingham, sobretudo seu xerife, em função de sua luta para "roubar os ricos e dar aos pobres". Seu charme ousado e galante conquista inclusive o coração de Lady Marion, e a ira do Rei João. Lembrado sempre como um dos mais insatisfatórios desenhos da Disney, provavelmente por ter sido produzido num período em que os estúdios passavam por uma transformação profissional, logística e conceitual, é de fato, equivocado, na decisão de transformar a história de Robin Hood num emaranhado de cenas cômicas e dispersas que não dão unidade alguma à história e, sobretudo, ao colocar animais interpretando personagens humanos.

Robin Hood-O Trapalhão da Floresta (1974)
Pouco depois à animação da Disney, foi a vez dos Trapalhões lançarem a sua própria versão da lenda. No entanto, os Trapalhões, como eles passaram a ser conhecidos, não haviam sido formados ainda naquele ano de 1974 –os integrantes que vemos aqui se resumem a Didi (Renato Aragão, que neste filme leva o nome de Zé Grilo) e Dedé Santana (chamado aqui de Willian), e próprio humor feito por eles aqui não é tão inofensivo e dirigido às crianças como, aos poucos passou a ser feito, mas a história, em sua tentativa algo satírica de transpor a lenda de Robin Hood para o contexto brasileiro –inclusive com um sutil subtexto a falar sobre os latifundiários e sua opressão ao proletariado –revela-se tão notável quanto curiosa, responsabilidade certamente da condução do diretor J.B. Tanko, realizador dos melhores filmes dos Trapalhões.
Na trama, Rei João é João Climério e Ricardo Coração de Leão é seu meio-irmão Ricardo que vai fazer um safári na África (!), deixando sua fazenda à mercê dos ditames tirânicos do vilão.
O grupo de foras-da-lei é, assim, um bando de aldeões que resolve perturbar o fazendeiro e seus capangas, lembrando um pouco o movimento sem terra –ainda que muito de suas caracterizações pareçam remeter à Revolta dos Farroupilhas.
Robin Hood (interpretado pelo galã Mário Cardoso que também participou de “Os Saltimbancos Trapalhões”) sofre um ferimento e, enquanto se recupera, é substituído em suas peripécias –no melhor estilo “Kagemusha”, de Akira Kurosawa!! –pelo personagem de Renato Aragão que, como sempre, apronta poucas e boas.
Décadas mais tarde, em 1990, Renato Aragão e seus companheiros (já compondo o grupo consagrado dos Trapalhões) voltaram a trabalhar numa nova trama envolvendo o personagem em “O Mistério de Robin Hood”, mas sem qualquer relação de história ou de essência com a lenda clássica –sem falar que era uma porcaria!

Robin & Marian (1976)
Eis que o diretor Richard Lester –normalmente um operário padrão dos estúdios tendo entregado ao longo da carreira inúmeras obras de encomenda, ainda que de qualidade, como “A Vingança de Milady”, “Viagem Fantástica” e até mesmo “Superman 3” –realiza um de seus melhores trabalhos.
Sua visão sobre a lenda ousa imaginar Robin Hood e sua trupe de coadjuvantes, não no início, como normalmente o cinema faz, enaltecendo a juventude, mas no seu apogeu.
Quando a história começa, já contam duas décadas dos famosos feitos de Robin, agora tornado um valoroso guerreiro de confiança de Ricardo Coração de Leão –e, por conta de qual mérito, todo esse tempo transcorrido, ele passou lutando nas Cruzadas (o quê a história contada fez parecer ser uma obsessão para Coração de Leão).
Com a morte do Rei Ricardo, Robin regressa para a Inglaterra almejando enfim uma vida de paz, mas as intrigas de seus arquiinimigos, o Xerife de Nothingham e o Rei João, não cessaram, e ele se vê obrigado a reunir o antigo bando de foras-da-lei em Sherwood, bem como retomar a relação com Lady Marian, que ficou todo esse tempo em um convento.
Veteranos de talento a toda à prova surgem assim interpretando os personagens já num momento crepuscular como Sean Connery (Robin Hood), Audrey Hepburn (Lady Marian), Nicol Willianson (Pequeno John), Ronnie Barker (Frei Tuck), Robert Shaw (o xerife de Nothinghan), Ian Holm (Rei João) e Richard Harris (Ricardo Coração de Leão), contribuindo para fazer desta uma das mais desiguais e primorosas versões do conto de Walter Scott.

Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões (1991)
Talvez o mais famoso dentre todos os filmes, muito por conta do enorme prestígio junto ao público que o astro Kevin Costner (recém-saído do oscarizado “Dança Com Lobos”) gozava à época. Ele e o diretor Kevin Reynolds tiveram uma longa e oscilante colaboração ao longo dos anos entregando trabalhos como o juvenil e divertido “Fandango”, o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas” e a aclamada minissérie “Hatfields & McCoys”.
A trama vivenciada por Robin Hood aqui já era um indicativo das reinvenções nem sempre inspiradas que histórias clássicas como esta viriam a sofrer no futuro, nas mãos de produtores de Hollywood.
Neste filme, por exemplo, Robin Hood encontra os foras-da-lei de Sherwood já como um bando completo –nas outras versões, é o próprio Robin quem monta o grupo –o romance com Lady Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio, uma das jovens atrizes em alta na época) tem elementos modernos de implicância, relutância e sensualidade; o vilão (Alan Rickman, divertido e caricato) não poderia ser mais pueril; o personagem inédito de Morgan Freeman (um mouro), de suma importância à trama, foi introduzido como forma de ilustrar esse objetivo de reinvenção (além de antecipar um processo de representatividade que hoje é via de regra entre filmes de estúdio); e as cenas com arco e flecha são turbinadas por efeitos visuais que especulam enquadramentos antes impossíveis.
Curiosidade: Sean Connery aparece aqui (numa ponta ao final) como Ricardo Coração de Leão, pelo que, à época, foi um cachê recorde por uma participação tão pequena.

Robin Hood-O Herói dos Ladrões (1991)
Este filme muito mais obscuro, além de ter a má sorte de ser lançado no mesmo ano do retumbante sucesso estrelado por Kevin Costner, também era prejudicado pelo fato de trazer uma série de escolhas equivocadas, a começar pela presença de Patrick Bergin como o Robin Hood mais desprovido de carisma da história (seu filme mais famoso é “Dormindo Com O Inimigo” onde ele faz o marido violento de Julia Roberts, e ele de fato serve mais para fazer vilões mesmo...).
Como se não bastasse, o diretor John Irvin se mostra pouco empolgado nas cenas de ação que quando não se desenrolam de maneira formulaica e mecânica apresentam uma sucessão de incoerências. Se há algum detalhe digno realmente de nota é uma jovem e sensual Uma Thurman interpretando uma Lady Marian carregada de presença e magnetismo.

A Louca! Louca História de Robin Hood (1993)
Inevitavelmente uma paródia. Entretanto, assinada por um dos grandes comediantes americanos dos anos 1970 e 80, o veterano Mel Brooks, mas que já mostrava sinais de cansaço nos anos 1990.
O galã Cary Elwes (de “Tempo de Glória” e que fez algum sucesso como uma versão moderna de Errol Flynn na fantasia “A Princesa Prometida”) é o Robin Hood nesta reencenação cômica e musical (!) da lenda –certamente, pegando carona do imenso êxito da produção com Kevin Costner, lançada anos antes –onde pouco se consegue achar de relevância: Mesmo as piadas parecem não ter maiores propósitos junto à narrativa, o quê é no mínimo frustrante quando se pensa que este é um filme do cara que fez “Banzé No Oeste” ou “Primavera Para Hitler”.
Para se ter uma idéia, este Robin Hood cômico é tão insípido que fica a dever (e muito!) à versão debochada e maliciosa do personagem que aparece, por brevíssimos minutos, na animação “Shrek”, de 2001.

Robin Hood (2009)
Já quase no fim da década de 2000, o diretor Ridley Scott e o astro Russell Crowe, vindos de uma longa e produtiva parceria (mas, cujo maior êxito foi indiscutivelmente “Gladiador”) resolveram revisitar a lenda a fim de conceber um projeto que, em suas tintas épicas e em sua ambientação medieval, resgatasse as mesmas características de seu grande sucesso.
O resultado foi uma reinterpretação bastante audaciosa da lenda que, além de tudo, almejava não apenas dar um inédito subtexto de realismo histórico, mas que também nascia com um esqueleto de saga: Este teria sido só o primeiro capítulo, firmando-se como uma espécie de “origem” de Robin Hood e não uma versão moderna de suas famosas aventuras –essas teriam vindo numa eventual continuação, se o filme tivesse feito sucesso suficiente de público.
Não fez.
Durante a incursão do Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, em Jerusalém, no Século 12, um grupo de seus arqueiros, liderados por Robin Longstride (Crowe, já um bocado velho para interpretar um herói no princípio de sua jornada), abandona as trincheiras na França, para retornar a sua terra natal. No caminho, Ricardo é morto, e os arqueiros se vêem no meio de uma conspiração para minar a coroa inglesa, agora sob o comando do irascível Rei João (Oscar Isaacs, muito mais jovem do que as versões anteriores). Levado pelas circunstâncias, Robin assume a identidade do cavaleiro morto, Robert Loxley, e assim apresenta-se no palácio real e, mais tarde, ao pai e à esposa do verdadeiro Loxley, em Notthinghan, onde vai a fim de devolver a espada do filho ao pai –neste filme, Lady Marian (interpretada pela sempre eficiente Cate Blanchett) não é filha do Rei João, numa das inúmeras licenças poéticas que se acotovelam no roteiro excessivamente rocambolesco e cheio de desdobramentos de Brian Helgeland (co-roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida”).
Mas o Rei João, em parte influenciado pelo traiçoeiro Godfrey (Mark Strong), colocará toda a Inglaterra ante uma invasão de tropas francesas, obrigando Robin a tornar-se líder de um bando de foras-da-lei.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

X-Men Apocalypse

Uma cena emblemática: Os jovens saem de um cinema após uma sessão de “O Retorno de Jedi” –o filme-sensação do ano, então 1983 –e já estão a discorrer sobre sua qualidade.
“O melhor é ‘O Império Contra-Ataca’” comenta a garota chamada Jubileu.
“Tudo começou com o primeiro filme” diz Scott, o Ciclope (Ty Sheridan) “não haveriam continuações se não fosse o primeiro filme!”
Até que Jean Grey (Sophie Turner) faz uma afirmação categórica:
“Vamos, pelo menos, concordar que o último filme é o pior da trilogia!”
Talvez, uma piada interna da produção, talvez, um acaso carregado de sarcasmo, porém o quê a personagem diz se aplica ao filme no qual estão presentes, “X-Men Apocalypse”.
Dizer que ele é o mais fraco da trilogia iniciada em “Primeira Classe” (cuja austeridade e noção de ritmo do diretor Mathew Vaughn, permanecem a fazer dele o melhor dentre todos os filmes da série) e continuada em “Dias de Um Futuro Esquecido”, contudo, não é desmerecê-lo: “Apocalypse” ainda é um divertimento de qualidade, com interessantes predicados, o problema é que Bryan Singer se despiu de muitos elementos que davam equilíbrio ao conceito e tornavam os X-men tão singulares entre a infinidade de super-heróis que começam a abarrotar as salas de cinema.
Passaram-se dez anos desde os acontecimentos do filme anterior (parece ser uma espécie de tradição nessa nova versão dos mutantes que seus filmes se passem com uma década de intervalo entre um e outro, embora seu elenco principal não demonstre nenhum sinal de envelhecimento), e a Escola Para Jovens Superdotados do Prof. Charles Xavier recebe a cada dia novos alunos, como o novato Scott, que descobriu a pouco as rajadas devastadoras que saem sem controle de seus olhos, ou a instável Jean, cujo poder de telepatia e telecinese parece esconder uma ameaça maior dentro dela.
Dos antigos companheiros de Xavier, Raven, ou Mística (Jennifer Lawrence, catalizando parte das atenções da trama), se encontra pelo mundo, ajudando mutantes à sua própria maneira: É assim que ela chega até o jovem Kurt Wagner, ou Noturno (Kodi Smit-McPhee, tão bom quanto sua versão mais velha vista em “X-Men 2”), um teleportador de corpo azul.
Já, Eric, ou Magneto (Michael Fassbender, em uma bela interpretação) após os eventos pregressos, refugiou-se na Polônia onde buscou começar vida nova.
Todas essas trajetórias colidem quando um mutante ancestral, o milenar En Sabah Nur, ou Apocalypse (Oscar Isaac, cuja atuação esmerada não escapa ao tom canhestro desse tipo de personagem bidimensional), desperta no Oriente Médio, trazendo consigo sua determinada ânsia para varrer os humanos da face da terra.
Com uma habilidade que lhe é inerente, Bryan Singer, concebeu esse recomeço da série “X-Men”, antecipando e, por vezes, alterando os eventos da série original, não apenas enfatizando a pertinente questão do preconceito, mas atrelando a trama de cada filme à um evento histórico ocorrido em cada década respectiva; se em “Primeira Classe” havia o sensacional aproveitamento da crise dos mísseis de Cuba, e “Dias de Um Futuro Esquecido” foi hábil em utilizar como cerne narrativo o final da Guerra do Vietnam, a década de 1980, na qual se ambienta “Apocalypse” não possui nenhum acontecimento histórico importante a ser abordado; e esse é só um dos problemas enfrentados pelo filme.
Ao eleger, o onipotente e cartunesco Apocalypse como seu vilão principal, Singer também desproveu seu filme de um de seus mais encantadores trunfos: As motivações e ideologias, tão pertinentes e atuais, que norteiam seus personagens, inclusive seus vilões, o quê valorizava a trama e suscitava uma discussão sempre interessante.
Não há, porém, muito o que comentar sobre Apocalypse em si: Ele é um vilão somente. Quer a destruição, e cabe aos heróis aplacá-lo, o quê reduz o filme de Singer a um mero filme de ação onde os bons combatem os maus, e as áreas cinzas da personalidade dos adversários são deixadas de lado.
Claro que, mesmo no comando das cenas de ação, Singer continua um artesão de admirável apuro e requinte visual, embora seu uso de efeitos visuais (bastante imodesto na comparação com os enxutos filmes anteriores) fique excessivo na parte final, assim como seu exorbitante hábito de dilatar o tempo além da conta nos momentos de suspense (que já havia ficado provado em “Superman-O Retorno” ser um de seus defeitos).

Talvez, o grande problema de “Apocalypse” seja a condição na qual chega aos cinemas (como terceiro e mais simplório de uma trilogia na qual os dois capítulos anteriores, sobretudo o primeiro, foram magistrais), e também o timing com o qual isso se dá (depois de um mediano “Batman Vs Superman” e de um espetacular “Capitão América-Guerra Civil”, quando uma parte do público e boa parte da crítica já começa a falar sobre a defasagem de superheróis nas salas de cinema).