Mostrando postagens com marcador Renato Aragão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Renato Aragão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Uma Escola Atrapalhada


 Durante a década de 1980, como já foi falado em outras ocasiões, os Trapalhões –formados por Didi (Renato Aragão), Dedé, Mussum e Zacarias –reinavam nas bilheterias nacionais. Seus filmes, feitos para toda a família, levavam multidões aos cinemas e essa tradição se manteve por muito tempo com praticamente uma produção lançada a cada ano. Entretanto, no final daquela década as coisas começaram a mudar; novos nomes emergentes do showbuziness brasileiro (com destaque para Xuxa, Gugu Liberato ou o Grupo Dominó...) passaram a dar as caras nos filmes dos Trapalhões, em princípio, como coadjuvantes de luxo, porém, mais e mais influentes e relevantes na trama a ponto de, em certo momento, suplantarem a importância do próprio quarteto, supostamente protagonista. O auge –ou seria, o cúmulo? –dessa circunstância chegou em “Uma Escola Atrapalhada”, filme lançado em 1990, que em alguns casos gerou indignação na plateia: Os expectadores que foram ao cinema conferir o filme na esperança de ver seus amados Trapalhões como personagens principais (afinal de contas, o adjetivo “atrapalhada” em seu título leva à essa constatação) se depararam com um filme sobre os jovens estudantes de uma escola carioca, às voltas com seus amores, rixas e contratempos diretamente relacionados à escola que frequentam –em suma, quase um embrião oitentista do que viria a ser, quase uma década depois, a novela juvenil “Malhação”.

Dos Trapalhões, contudo, há bem pouco: Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, como veremos mais a frente, são reduzidos aos usuais ‘alívios cômicos’ da obra tal é sua insignificância junto ao enredo.

E quem são os protagonistas? Bem, “Uma Escola Atrapalhada” não traz Xuxa, não traz Gugu Liberato (bem, traz, mas numa breve aparição), não traz o Grupo Dominó (em vez dele, é o Grupo Polegar...). O grupo de jovens estudantes que ocupam a maior parte do tempo da narrativa são vividos por jovens celebridades em ascensão daquele período. Em especial, Angélica –no papel de Tami –que era, então, a mais relevante ‘competidora’ de Xuxa como a mais amada apresentadora infantil do Brasil; e o cantor Supla –no papel de Carlão –cujo atitude parte rock’n roll, parte sufista calhorda, parte bad boy devia fazer a cabeça das meninas. Os dois são o casalzinho protagonista do filme dirigido à duras penas por Antonio Del Rangel (de “O Trapalhão Na Arca de Noé”). E quanto constatamos, de pronto, a incapacidade profunda que os dois têm para atuar, já concluímos o suplício que “Uma Escola Atrapalhada” será...

Tami é uma garota recém-chegada à nova escola do Rio de Janeiro e, por conta disso, seu mistério gera interesse e falatórios pelas dependências do lugar, antro povoado de alunos mimados, filhos de pais ricos, ávidos por posarem como rebeldes. Carlão é o típico exemplar disso: Imaturo, birrento, trajado em roupas estapafúrdias (até mesmo para os padrões dos anos 1980!), ele é irritante, apático e grosseiro –características que, devido ao fato de definirem o protagonista do filme, colocam tudo a perder. E além disso, somos obrigados a testemunhar um ‘pseudo-clipe’ estrelado por ele, besuntado em óleo (!?!).

O roteiro também em nada ajuda: Segue a velha fórmula na qual o casalzinho se estranha em disputas sexistas até o fim, quando descobrem, de forma bem maniqueísta, que se amam –num desfecho romântico completamente destituído de química e envolvimento.

O restante do filme mostra basicamente o dia-a-dia na escola, com antagonistas criados com a maior afetação do mundo (a caricatura de ditador militar construída por Ewerton De Castro), e as intrigas adolescentes entre os alunos (onde se sobressai a participação de alguns dos membros do Polegar, além do vilãozinho vivido por Selton Mello).

Ah, sim, e quanto aos Trapalhões? Eles sequer surgem juntos na mesma cena –na realidade, isso acontece num único trecho do filme! Enquanto Didi repete o mesmo personagem de sempre –o cearense pau-pra-toda-obra e amigo de todo mundo –enamorado de uma bela professora (Cristina Prochaska) que, por sua vez, ama o professor de educação física (Marcelo Picchi). Mussum interpreta Mago Mumu, uma espécie de cartomante (?!) que trabalha nas redondezas da escola (em alguns momentos, parece que ele o faz DENTRO da escola!!), e Dedé e Zacarias vivem dois agentes anti-bombas (ou algo bem esdrúxulo parecido com isso...) que surgem na história quando a escola sofre um alerta de atentado à bomba (!) –na sequência, eles protagonizam cenas cômicas bem infantilizadas (e sem graça alguma) onde, ao invés de fazerem adequadamente seu trabalho, eles são zoados pelos alunos inconsequentes do lugar.

Realizado com nítidas e presunçosas intenções mercadológicas –e quando isso acontece, o resultado artisticamente nunca é bom –“Uma Escola Atrapalhada” refletia a preocupação dos Trapalhões em perder seu forte apelo de público: Suas produções datadas dos três últimos anos da década de 1980 tinham atraído tão somente o público infantil aos cinemas. Mirando num público mais adolescente, eles tiveram a ideia de experimentar colocando, pela primeira vez, as participações especiais de suas obras no foco principal, imaginando que tal manobra despertaria um interesse súbito. O resultado é que, não apenas “Uma Escola Atrapalhada” trata-se de um dos piores filmes brasileiros já concebidos (praticamente relapso em tudo que se propõe, seja na atuação mambembe de seu elenco, na falta completa de noção de seu roteiro, ou no caos absoluto que contamina sua direção) como também perdeu-se a chance de fazer uma obra válida neste que é o último encontro em cena de cinema registrado do famoso quarteto de humoristas –Zacarias viria a falecer ainda durante a pós-produção do filme (a quem é dedicado).

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Os Vagabundos Trapalhões


 Em 1982, um ano depois daquele que é considerado seu grande trabalho em cinema (o contagiante “Os SaltimbancosTrapalhões”), a trupe formada por Renato Aragão, Dedé, Mussum e Zacarias trouxe de volta o roteirista Gilvan Pereira e o diretor J.B. Tanko para a realização de mais uma obra nos moldes daquela gloriosa fase onde não só eram verdadeiros gigantes das bilheterias nacionais, como também podiam vislumbrar o sonho de fazer cinema de cada vez mais alta qualidade. Se esse intento não é atingido em sua plenitude, ao menos, há disposição de sobra em “Os Vagabundos Trapalhões” para tanto.

Poucos dentre o público haverão de saber disso, mas, “Os Vagabundos Trapalhões” é, na realidade, uma continuação (!): Em 1969 (quando sequer o grupo Os Trapalhões estava estabelecido), Renato Aragão havia estrelado seu primeiro filme como protagonista, “Bonga-O Vagabundo”, no qual interpretava um morador de rua atrapalhado e de bom coração, concebido com elementos chaplinianos e que serviu de experimento para a posterior criação do personagem Didi Mocó, com o qual veio a fazer sucesso na TV e no cinema.

Pois, nesta obra de 1982, Renato Aragão volta a interpretar Bonga (é notável uma certa fidelidade visual da parte do figurino do personagem), desta vez, cercado por todas as características já habituais dos filmes dos Trapalhões –inclusive, tendo Dedé, Mussum e Zacarias como coadjuvantes.

Na trama, Bonga e a trupe que lhe cerca (incluindo aí uma espécie de “noiva” dele, vivida por uma jovem e bonita Louise Cardoso, de “Matou A Família e Foi Ao Cinema”) são, todos, mendigos moradores de uma caverna (!). Na cena inicial, eles observam os atropelos e neuroses de uma cidade grande e seus moradores estressados e assalariados, num inocente alívio por não serem como eles.

Os quatros estão numa cruzada cujos objetivos, uma vez postos em palavras, soam um bocado implausíveis: A caverna onde vivem está sempre abarrotada de menores de rua. Assim sendo, Bonga protela o momento de enfim casar-se com Loló (a personagem de Louise Cardoso) até que todas aquelas crianças tenham ganhado um lar adequado. Para tanto, como é visto nos no início, todos eles lançam mão de diversos estratagemas questionáveis aos dias de hoje (como atropelamentos simulados) para fazer com que algumas daquelas crianças sejam adotadas.

Entretanto, quanto mais esses vagabundos trapalhões criam situações para as crianças ganharem um lar, mais dessas mesmas crianças aparecem, dia após dia, em sua caverna –o roteiro do filme se baseia nas altas estatísticas, alarmantes já naqueles tempos, de crianças abandonadas nas ruas de São Paulo.

É quando surge então, o garoto Pedrinho (Fábio Villa Verde), no início, uma criança aparentemente como todas as outras, afirmando que estava esperando pelo “Batman” (?!). Entretanto, Pedrinho não é uma criança pobre como as demais: Filho do empresário Ricardo (Edson Celulari), que mal tem tempo para vê-lo, Pedrinho sofre de tal negligência paterna que prefere fugir da mansão onde mora e viver numa caverna, sonhando com super-heróis que venham fazer por ele o que seu pai não faz.

Sem uma história muito clara para ser contada –o filme de Tanko se resume ao humor físico e à muita correria definindo grande parte de suas cenas –“Os Vagabundos Trapalhões” se mantém mais a partir das dinâmicas entre os personagens que vão surgindo, e pelo fato gradual de que todos estão entrelaçados uns aos outros, ainda que nem sempre a narrativa entregue essas revelações no momento mais adequado. Há, por exemplo, a jovem e bela Prof. Juliana (Denise Dumont, maravilhosa), que aparece à procura de Pedrinho, e desperta ciúmes em Loló na medida em que realiza alguns flertes pueris com Bonga (os quais revelam um aspecto cafajeste e despercebido dele), quando na verdade está enamorada mesmo de Ricardo.

Há ainda um esnobe almofadinha pretendente de Juliana –dono de uma discoteca onde os Trapalhões promovem, em dado momento, uma grande confusão –personagem este plantado para ser o mero ‘vilãozinho da vez’, cujos capangas proporcionam o providencial clímax do desfecho, onde Pedrinho é sequestrado por eles em busca da recompensa, e então todos os personagens principais se encontram –é quando então, temos a revelação de que Ricardo é, na realidade, filho de Bonga (!), e este é, portanto, dono de toda sua fortuna (!!).

O porque de Bonga renegar estranhamente sua riqueza e seu filho nunca é devidamente esclarecido –e suponho ter relação com algumas referências cinematográficas de Renato Aragão, como “O Garoto”, de Chaplin, e “A Nós A Liberdade”, além de talvez ser algo que remete à própria trama de “Bonga-O Vagabundo”, do qual, admito, não lembro muita coisa... (o que me recordo é que há, sim, o personagem de um menino chamado Ricardo que talvez seja o mesmo vivido aqui por Celulari)

Ao fim, após algumas amarrações imperfeitas dos arcos dramáticos de todos os personagens, vemos então Bonga, ao lado de sua leal companheira Loló, seguindo solitários (e deliberadamente pobres!) pela estrada, numa sensação de missão cumprida –o que não impede a narrativa de valer-se de uma convencional trilha de piano melodramática. É um final que vem de encontro ao processo criativo dos Trapalhões em geral e de Renato Aragão em particular, sobretudo, naquele período em que miravam um cinema mais qualitativo e melhor, no entanto, observado hoje, esse encerramento idealmente romantizado não justifica plenamente suas circunstâncias (afinal, Bonga optou pela pobreza sem justificativa, abandonando filho e neto, e condenando a noiva à essas privações sem sequer oferecer uma razão) soando mais como uma descabida massagem de ego para Renato Aragão.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Os Trapalhões No Auto da Compadecida


 Prova do empenho dos Trapalhões em querer fazerem-se cinematograficamente relevantes, em determinado ponto de sua trajetória (1987, no caso), foi este projeto onde adaptavam ao seu próprio jeito e estilo a celebrada peça de Ariano Suassuna –já adaptada anteriormente para o cinema em 1969 por George Jonas (com Armando Bógus, Antônio Fagundes e Regina Duarte).

Dessa maneira –e orientados por uma verve um pouco mais séria que contrasta com seu humor pueril –os Trapalhões surgiam distribuídos em papéis pontuais da trama, como foi feito em “Os Trapalhões e O Mágico de Orós”, três anos antes com muito mais zelo na manutenção de sua trama: Renato Aragão é, óbvio, o protagonista João Grilo, de lábia afiada e raciocínio ligeiro para enganar os outros a sua volta; Dedé Santana (talvez, o integrante do grupo que sempre mais dedicou-se à atuação) surge como Chicó, o ingênuo parceiro de João Grilo em suas armações; Zacarias aparece na pele do padeiro local, marido muquirana de uma esposa adúltera (Claudia Gimenez); por sua vez, Mussum (aqui, num surpreendente registro austero), que evidentemente se incumbe do papel de Jesus, tem essa participação aumentada no roteiro através da manobra na qual, devidamente disfarçado numa identidade negra, Jesus já acompanhava a história desde o começo, como o humilde frade a serviço do bispo (Renato Consorte).

Tudo começa quando a mulher do padeiro, inconsolada com o estado desenganado de seu cão de estimação, recorre aos retirantes João Grilo e Chicó para que convençam o padre (Emmanuel Cavalcanti) e o sacristão (Sandro Solviatti) a lhe benzer o cachorro.

Diante da inevitável resposta negativa, João Grilo e Chicó inventam das suas: Contam que o cachorro na verdade pertence ao temido coronel da região (Raul Cortez) e, mais tarde, quando são descobertos, surgem com a conversa de que o dito cachorro deixou um generoso testamento que beneficiava a Igreja.

Simplificadas a ponto de se tornarem quase banais, as sub-tramas que compunham a graça do texto de Suassuna (que incluem também o trecho do gato que bota dinheiro), passam quase como piadas de rodapé pela encenação algo caótica do filme –dirigido por Roberto Farias –uma narrativa circense que remete ao despojamento de outros filmes dos Trapalhões, mas mostra-se pouca harmoniosa nesta realização.

O terço final é mais fiel ao texto original, quando a cidade recebe uma invasão de cangaceiros liderados pelo impiedoso Severino (o ótimo José Dumont), e a maioria desses personagens encontra a morte –inclusive João Grilo e, por conta de um golpe deste, o próprio Severino!

Vão assim todos parar numa espécie de julgamento celestial à moda de cordel, onde o Jesus negro personificado por Mussum ouvirá as acusações da parte do Capeta (Raul Cortez, novamente) e eles terão suas sentenças intercedidas pela benevolente Nsa. Senhora (Betty Gofman).

Rasteiro em sua tentativa de profundidade e prejudicado justamente em seu ponto forte (o humor) pela atmosfera respeitosa que predomina no projeto, “Os Trapalhões No Auto da Compadecida” não está entre as melhores realizações do quarteto por vários fatores que o levaram ironicamente a diferenciar-se das suas demais produções –e talvez tenha sido isso que levou eles, em seu projeto seguinte, “Os Fantasmas Trapalhões”, a adotar uma série de concessões mercadológicas que com o tempo minaram a qualidade de seus filmes. Há certo mérito na postura que norteou “Os Trapalhões No Auto da Compadecida” e na intenção de não ficar numa zona de conforto, mas é pena isso não ter resultado num belo e válido filme, algo que fica evidente para as plateias de hoje de maneira muito mais contundente que para as plateias da época ao compará-lo com a maravilhosa versão contemporânea de Guel Arraes (lançada no ano 2000), essa sim uma obra genial em termos artísticos, narrativos e dramáticos, que captura toda a beleza, melodia e autenticidade moral embutidas no texto de Ariano Suassuna.

terça-feira, 16 de junho de 2020

O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão

Em 1977, o quarteto conhecido como “Os Trapalhões” ainda não estava formado, daí o fato de vermos, neste filme, apenas três deles: Didi, Dedé e Mussum.
Além disso, o hábito contumaz deles interpretarem personagens que levavam sempre esses mesmos nomes ainda não aparecia aqui; em vez disso, o que vemos são os humoristas fazendo um mínimo esforço onde vivem diferentes personagens. Didi, ou Renato Aragão, é Pilo, Dedé Santana é Duka, enquanto que Mussum é Fumaça –também eles não interpretam os mesmos malandros medrosos de praxe; há relativa valentia que os três demonstram numa ou noutra ocasião. Prova de que, neste exemplar, a fórmula de tipos e circunstâncias nos papéis que os tornariam famosos ainda estava em criação.
Certamente, ao lado do diretor J.B. Tanko, muito disso começou a ser elaborado aqui, sobretudo, no que diz respeito à sinergia cômica entre Aragão e seus companheiros (os filmes anteriores mostram, quando muito, Didi trilhando meios de brilhar sozinho).
Grande entusiasta de filmagens em locação e, se possível, capturando em filme a autenticidade das pessoas reais –predisposições herdadas da Europa, de onde migrou –Tanko coloca seus ‘trapalhões’, na primeira cena, no meio do povaréu de uma feira livre, esbaldando-se numa espécie de caos genuíno que registra.
Numa briga –encenada até com considerável violência –Didi e Dedé, ou melhor, Pilo e Duka se pegam aos socos. Logo, porém, notamos que é tudo dissimulado: Fumaça, em meio aos afoitos expectadores da luta, começa a fazer apostas em dinheiro. Quando o valor se torna favorável para um dos lados, ele sopra no ouvido de Pilo que então dá um fim à briga.
Assim, eles levam uma bolada de grana às custas da luta que encenaram, e têm dinheiro para comer. Durante a cena, não passa despercebida à Pilo a beleza de uma jovem que os observava ali por perto.
Tal jovem é Glorinha (Monique Lafond, de filmes como “Eu” e o clássico erótico “Gisele”) e, mais tarde, ela própria vem a procurar pelo auxílio do quarteto: Seu pai arqueólogo (Carlos Kurt, figurinha fácil nos filmes dos Trapalhões) desapareceu durante uma expedição atrás das tais Minas do Rei Salomão, e agora ela busca por ele. Ao grupo junta-se o galã da vez –pois quase todo filme dos Trapalhões tem um –Alberto (Francisco Di Franco) que forma, com Pilo e Glorinha, um pra lá de desajeitado triângulo amoroso; porque as rusgas entre os dois oscilam entre o banal e o imaturo; porque apesar de bela, Monique Lafond interpreta no piloto automático, e porque, diferente de “Os Saltimbancos Trapalhões”, o diretor Tanko não dá a esse aspecto qualquer importância.
Aliás, importância, no sentido de aprofundamento, a direção não dá à coisa alguma: Até mesmo o mote que serve de gatilho à trama principal do filme, por razões óbvias, acaba sendo deveras vago; afinal, se o pai de Glorinha desapareceu no rastro das Minas do Rei Salomão (aquelas mostradas do livro de H. Rider Haggard, e num sem-fim de adaptações cinematográficas), então, seria de se presumir que isso tivesse se dado na África do Sul.
No filme, nada fica muito claro, mas a julgar pela pouca noção geográfica que o filme nos dá, os protagonistas saem de Itapemirim (!) para alguma floresta na região, se perdem e se separam quando são emboscados por um bando de ciganos (!), todos interessados em surrupiar o medalhão que Glorinha traz consigo –única pista do paradeiro do pai –e depois acabam indo parar num deserto, onde cruzam com um certo Paxá (o hoje pouco lembrado comediante Carvalhinho) e sua criadagem, além de uma bruxa malvada (Vera Setta) e seu aliado, um velho feiticeiro, ou algo assim... (Wilson Grey). Ambos são figuras que vem corroborar os elementos cada vez mais infantilizados desta produção à medida que ela se vê destituída de recursos para concretizar algumas das pretensões inicialmente sugeridas no roteiro.
Após uma sucessão de bagunçados encontros e desencontros, de embates contra os ciganos, e de trapalhadas jogadas aleatoriamente na narrativa, a trupe chega a uma tribo onde finalmente encontram o pai de Glorinha capturado. E outras bagunças e trapalhadas aleatórias novamente se sucedem –há certo apreço do diretor Tanko em capturar esse tumulto tão autêntico em filme, ainda que pouco resulte de realmente interessante nisso.
O clímax de “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão”, mostra Pilo e Alberto salvando seus companheiros dos índios tocando um trator com escavadeira sobre suas casas, numa sequência que certamente não seria feita hoje em função do politicamente correto.
Não que hajam manifestações de ousadia neste filme, ele é só sem noção mesmo...
No desfecho, como se tornou comum em várias produções dos Trapalhões, a mocinha que o personagem de Renato Aragão passou todo o filme a cobiçar acaba trocando-o pelo galã, todavia, uma intervenção de boa sorte vem logo em seguida: Ele cai com seu cachorro num buraco do chão (isso depois do velho arqueólogo lhes garantir que não existia qualquer mina por perto) e eis que ele se descobre em meio aos tesouros do Rei Salomão!
No cômputo geral dos filmes dos Trapalhões, “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” ensaia algumas de suas excelências (a direção de J.B. Tanko que só fez melhorar nos filmes seguintes; e diversos lances de humor realmente inspirados) e já apresenta alguns de seus lapsos (a gradual infantilização que banaliza o roteiro e o compromete a partir da segunda metade), mas, de modo geral, é um entretenimento até hoje agradável.

domingo, 7 de junho de 2020

Cinderelo Trapalhão

Desde os anos 1960, Os Trapalhões entregavam obras cinematográficas com relativa frequência e considerável êxito. Demorou muitos exemplares, contudo, para que a fórmula do sucesso e, sobretudo, a formação clássica do grupo estivesse completamente constituída: Embora seja o décimo filme dentro de seus moldes, “Cinderelo Trapalhão” é tão somente o segundo no qual toda a grupe é reunida em toda sua glória –entretanto, não restam dúvidas de que seja o primeiro onde a mistura finalmente funciona; o projeto anterior, que registra a primeira reunião em cinema de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, é o pavoroso e tosco “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas”.
Lançado em 1979, “Cinderelo Trapalhão”, como o próprio título já deixa claro, versa sobre o clássico conto de fadas de “Cinderela”, e é bastante divertido acompanhar a forma como o roteiro (escrito por Renato Aragão, Carlos Alberto de Nóbrega, Gilberto Garcia e Wilson Vaz) e a direção (a cargo de Adriano Stuart) integram os elementos que compõem a história famosa ao estilo de humor malandro e pastelão do quarteto.
É Didi, ou melhor, Renato Aragão, quem interpreta o personagem-título Cinderelo, um rapaz pobre, sujo e atrapalhado, enjeitado até mesmo pelos amigos com os quais anda, os altivos cavaleiros Dedé, Mussum e Zacarias –que aqui interpretam protagonistas valentes e bons de briga, num contraste com os covardes desastrados que normalmente vivem nos demais filmes.
O vilão da trama, um certo Coronel Dourado (Francisco Dantas), é proprietário de amplas terras na cidadezinha local –como bem esclarece a narrativa em off no início, já evocando uma paródia de contos de fadas –mas, isso não lhe basta. As terras que ele de fato deseja, e que suspeita conterem petróleo, foram deixadas por seu falecido proprietário como herança para uma família pobre que só quer construir uma igreja no local.
Tal família, composta por Davi (o galã Paulo Ramos), seu irmão Paulo (Maurício do Valle), e mais uma meia dúzia de figurantes sem expressão –incluindo uma ainda jovem Christina Rocha, hoje mais conhecida como apresentadora do infame programa “Casos de Família”, do SBT –quando chegam ao lugar são hostilizados pelos capangas do Coronel, que pretende passar por cima de qualquer direito ou lei e tomar a propriedade para si.
Não há, como se pode perceber, qualquer sutileza no retrato dos maus opressores e dos bons oprimidos.
A família de Davi, assim, precisa pedir ajuda aos valentões locais, Dedé, Mussum e Zacarias, que aceitam a tarefa em troca de um pedaço de terra para morar –já Didi, isto é, Cinderelo, precisa provar alguma valentia para então ser aceito entre os supostos heróis.
Dessa forma, Cinderelo desafia um touro durante uma hilária tourada (numa alusão à Cantinflas) para, logo depois, se infiltrar na fazenda do Coronel promovendo as bagunças de praxe que sempre caracterizaram o humor de Renato Aragão, onde ele é o personagem humilde que prevalece sobre os fortões enferruscados valendo-se de ingênua malandragem –uma de suas vítimas prediletas (neste filme, em outros, e até em seu programa televisivo) é o ator Carlos Kurt, intérprete de Souza, o líder dos capangas.
Assim, Cinderelo e os outros organizam um plano para tirar do Coronel seu arsenal de armas, justamente o que garante a ele e a seus homens o controle da região: Primeiro, tentam colocar todos para dormir durante uma festa onde põem sonífero no refresco –o que dá errado!
Depois, num plano mais elaborado e já com a cumplicidade da sobrinha do Coronel, Ivete (a gatinha Sílvia Salgado), resolvem disfarçar Cinderelo como um príncipe do oriente, interessado em casar-se com Ivete –uma espécie de sonho do Coronel. Assim, durante a cerimônia, todos estariam distraídos o suficiente para que o restante do grupo levasse as armas.
Ironicamente, um príncipe de verdade (Hélio Souto) entra em contato dizendo que chegará à cidade ao meio-dia para desposar Ivete, complicando os planos dos protagonistas. Repare na cara de pau da analogia do filme: Cinderela tinha de partir do baile à meia-noite quando a magia acabaria; o Cinderelo de Renato Aragão tem de fazer todo seu embuste com a hora-limite sendo meio-dia, antes que o príncipe real apareça para frustrar seus planos.
Também o detalhe do sapatinho de cristal não foi esquecido: Só que, desta vez, é uma botina (!) que o falso príncipe deixa para trás em sua bagunçada fuga. E, portanto, será a botina que os capangas do vilão irão experimentar em todos os homens da localidade até encontrar seu culpado.
Bastante engraçado, desde que o expectador leve em conta o humor deliberadamente ingênuo, e os elementos provincianos de sua época e sua ambientação, “Cinderelo Trapalhão” já apresentava algumas características que seriam inerentes aos filmes do quarteto nos anos 1980 e 90, e que levariam a um certo desgaste, especialmente, no que tange ao controle criativo cada vez mais opressor de Renato Aragão, refletido numa ênfase de importância em seu personagem junto à narrativa em detrimento dos demais trapalhões –que com frequência eram até mais engraçados do que ele! No entanto, “Cinderelo Trapalhão” é também um trabalho dotado de graça plena e genuína, um ritmo admirável despido de sequências musicais que embotariam outras realizações deles no futuro e cheio de piadas saborosas que ainda hoje rendem boas risadas, como a cena em que Dedé, Mussum e Zacarias praticam tiro ao alvo em garrafas enquanto Cinderelo lhes presta um auxílio acertando-as com um estilingue; a guerra de tortas na qual se transforma a cena do casamento frustrado, e muitas outras.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Os Trapalhões e O Mágico de Oróz

Eis uma versão brejeira, mambembe e abrasileirada de “O Mágico de Oz”, na qual os personagens de L. Frank Baum, inseridos em um contexto de “filme de cangaceiro” ganham as caras conhecidas dos Trapalhões, o quê promove curiosas alterações no roteiro.
Não apenas isso, o filme dirigido em colaboração por Victor Lustosa e o próprio Dedé Santana está seguramente entre as melhores obras cinematográficas do quarteto graças a uma série de notáveis predicados.
Reunidos após uma breve, porém, traumática separação na qual seguiram por caminhos distintos –Renato Aragão foi fazer “O Trapalhão Na Arca de Noé” e Dedé, Mussum e Zacarias fundaram sua própria produtora, a Demuza, e fizeram “Atrapalhando A Suate” –os quatro trapalhões surgem aqui depositados em papéis específicos e pontuais –e, ouso dizer, escolhidos com zelo e cuidado.
Após um prólogo de seriedade inesperada para os padrões dos Trapalhões, onde um narrador registra, auxiliado por fotos reais, as aflições sociais do povo nordestino, Didi (Renato Aragão, óbvio) aparece junto de companheiros diferentes –embora igualmente engraçados! –tratam-se de Soró (o saudoso Arnaud Rodrigues) e Tatu (José Dumont, de “Brincando Nos Campos do Senhor”), junto dos quais tenta caçar um urubu (!): Sendo arremessado por um estilingue gigante –e já aí, nos é mostrado o aparato de efeitos visuais que a produção emprega com modéstia bem mais incontida que nos demais filmes dos Trapalhões.
Na sequência de sua busca por água, Didi, Soró e Tatu encontram um a um dos outros protagonistas: Espantalho (vivido por Zacarias) eles acham numa plantação já exaurida pela seca; e junto deles, encontram também um grupo musical perfomático representando corvos, liderados por um dançante Tony Tornado.
O Homem de Lata (personificado por Mussum) eles encontram logo depois, num depósito de aguardente (!), e por fim, o Leão Covarde (interpretado por Dedé Santana) é um delegado relutante na cidade de Oróz, onde toda essa trupe vai parar.
A cidade também padece pela falta de água, e tem de se sujeitar aos mandos e desmandos do Coronel (Maurício do Valle, ator de vários filmes de Glauber Rocha), proprietário do único rio a correr pela região. O Coronel deseja mandar na cidade (o que, na prática, consegue) e, acima de tudo, cobiça o coração da bela professorinha (Xuxa Meneghel, antes de ficar famosa), embora ela ironicamente prefira o delegado Leão (chega a ser estranho vermos Xuxa aos beijos e abraços com Dedé, tendo nos acostumado a vê-la nessa situação com Didi em filmes subsequentes).
Quando todo o pessoal é preso por tentar roubar pão –sensacional é a cena do julgamento em praça pública, cantada e entoada num ritmo de cordel com a participação de Jofre Soares (de “A Guerra dos Pelados”) como o honorável juiz –a sentença acaba vindo na forma de uma missão: Didi, o Espantalho, o Homem de Lata e o delegado Leão devem partir pelo sertão à procura de água, enquanto Soró e Tatu amargam dentro da cadeia.
Assim, uma vez reunidos, o quarteto empreende uma jornada que os leva através das terras do Coronel, e além. Após um encontro com um certo Beato do Deserto (Dino Santana, irmão de Dedé), eles descobrem a caverna do lendário Mágico de Oróz (Dary Reis) que lhes dá alguns enigmas por meio dos quais encontrarão água. Ele lhes concede também um osso de propriedades mágicas –oportunidade para uma bela, ainda que desajeitada, referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço”.
Dessa forma, os Trapalhões acabam indo para o Rio de Janeiro, passando pela Ponte Rio-Niterói, pelo Maracanã até culminar no Cristo Redentor. Sua longa e mágica viagem termina os levando de volta à cidade de Oróz, onde o fracasso lhes deixa à míngua, amarrados numa espécie de roda da tortura.
Em meio à uma prece poética, todos eles descobrem que já tinham, afinal, as qualidades que passaram o filme almejando –o Espantalho possuía cérebro; o Homem de Lata tinha, sim, coração; e o Leão Covarde tinha lá a sua coragem –e conseguem fazer com que a tão sonhada água caia dos céus em forma de chuva.
Feito de genuína inspiração e talento, e despido das participações especiais de famosos que acabaram soterrando a autenticidade dos filmes dos Trapalhões (o papel de Xuxa aqui não apenas faz sentido junto ao enredo, como dura só o necessário), “Os Trapalhões e O Mágico de Oróz” fica lado a lado com o clássico “Saltimbancos Trapalhões” no que diz respeito ao que eles entregaram de melhor em suas aventuras nas telas de cinema.

sábado, 9 de maio de 2020

Os Fantasmas Trapalhões

Houve um tempo em que os Trapalhões eram verdadeiros sucessos de bilheteria, e isso muito se dava pela forma carismática com que eles captavam algumas predileções do público e as contextualizavam em histórias protagonizadas por eles próprios.
Dirigido por J.B. Tanko, realizador de alguns dos melhores títulos da filmografia deles, este “Os Fantasmas Trapalhões” trazia duas intenções criativas que não se harmonizavam com perfeição, embora o público tenha comparecido em massa aos cinemas: De um lado, da parte do diretor Tanko, que desejava fazer desta uma paródia esperta e referencial aos filmes de terror (algo realmente inédito até então na filmografia dos Trapalhões) em especial às produções da Hammer e aos filmes B de Jess Franco –cujas tomadas de castelos soturnos e de ambientação barroca, guardadas as proporções, fazem, de fato, lembrar um pouco aquelas obras; de outro lado, da parte de Renato Aragão (que além de interpretar Didi também era produtor e co-roteirista), ancorar uma produção não somente no carisma dos quatro personagens –Didi, Dedé, Mussum e Zacarias que já carregavam os filmes há tempos nas costas –mas, também valer-se de outras célebres presenças de astros do show buziness brasileiro de então. No caso aqui, temos o falecido apresentador Gugu Liberato, tão importante na trama quanto os quatro (e atuando em piloto automático) e uma breve (e constrangedora) participação do grupo Dominó.
Quando o filme começa encontramos o famoso quarteto numa beira de estrada tentando vender itens de artesanato numa barraquinha ao personagem, aparentemente de passagem, de Gugu Liberato –que para não fugir muito do óbvio chama-se, no filme, de Augusto.
As trapalhadas usuais são interrompidas quando surgem dois carros em perseguição: Num deles, perseguido pelo outro, está Wilson Grey, famoso ator de clássicos do ‘terrir’ brasileiro (categoria à qual esta comédia, se não tem pretensão de se incluir, ao menos, tenta homenagear). Ele é Giovanni, um italiano que, já prestes a morrer, admite ter roubado milhões de dólares e escondido num castelo. Ele conta à Augusto e aos Trapalhões que um banco lhes entregará uma justa recompensa se eles devolverem o dinheiro.
É assim, por meio da mais precária das justificativas, que o grupo segue até a cidade onde fica o tal castelo, seguidos de perto pelos mafiosos que perseguiam o velho –cujos propósitos dentro da trama jamais ficam esclarecidos.
No Albergue Gato Preto, eles se informam do básico –que o castelo é, claro, assombrado –e conhecem as duas belas atendentes locais, Leila (a linda Bia Seidl, de “Eu”) e Rute (a voluptuosa Carla Daniel). A primeira se engraça com Augusto, a segunda com Didi.
Entre uma galhofa e outra, descobrimos que Augusto é um delegado, e que Rute fez uma espécie de aliança com os sorrateiros e ardilosos mafiosos para informá-los da situação beneficiando-se de sua relação com Didi.
No castelo, eles encontram o mordomo Faustino (Claudioney Penedo), talvez, o mais expressivo vilão do filme –cujo nome, inclusive, faz uma referência à “Fausto”, o clássico autor de um pacto com as forças do mal –embora, num filme dos Trapalhões isso não queira dizer muito.
Interessado no dinheiro –que durante anos procurou sem sucesso –Faustino reluta em aceitar a presença dos cinco protagonistas no castelo, no entanto, Augusto (que desta vez se diz arquiteto!) o convence a deixa-los ficar.
Inspecionando o lugar, ele descobrem Nicolas (Paulo Porto), fantasma do irmão do velho Giovanni, que lhes servirá como uma espécie de guia espiritual, ou coisa que o valha, aparecendo neste ou naquele momento para fornecer uma contribuição às vezes bem pífia para a narrativa.
A partir daqui, jamais fica claro quanto tempo ou em quais circunstâncias se dá a permanência deles ali: O que se segue são situações que exploram o humor pueril do quarteto, num filme cada vez mais ciente de que seu público infantil apreciaria o resultado de qualquer maneira, fosse ele bom ou ruim.
Didi, por exemplo, tem uma atrapalhada disputa com uma escada que fantasmas invisíveis insistem em lhe tirar sempre que vai fazer uso dela –um humor quase chapliniano do qual ele beneficiou-se, empregando ao longo de toda carreira. Já, Mussum, prontamente indo para a adega em busca de algo para beber se encontra com aparições fantasmagóricas que são ninguém menos que o grupo Dominó –e tome aí mais uma sequência musical (o filme tem várias!). Zacarias, num contato com as assombrações, tem os cabelos de sua peruca todos esbranquiçados (!). E Dedé tem um violento embate com outros espíritos;
Já, Augusto encontra um quadro onde está a imagem de Leila; em algum momento, essa imagem cria vida (!) e ela lhe conta que está para sempre presa naquele quadro numa história pra lá de mal explicada (O que ela fazia no albergue então? Quem a prendeu? Ela está viva ou está morta?).
Toda a informação que o filme fornece é que Leila só será libertada por um ‘grande amor’ –e com isso já deduzimos todo o arco narrativo dela e de Augusto...
Noutra cena, um grupo de supostos fantasmas –liderados por um pastiche de Frankenstein (!) –faz uma reunião para, junto do mordomo Faustino, elaborar um meio de eliminar os Trapalhões; são antagonistas que jamais dizem a que vieram, e mal servem de mote para uma ou duas piadas.
O corpo central de “Os Fantasmas Trapalhões” se compõem assim de esquetes ingênuos e inofensivos, onde vemos os Trapalhões mais às voltas com seu próprio e divertido medo do que com fantasmas assustadores de fato. O desenlace, que traz por obrigação um desfecho para a premissa assim esboçada, faz com que os tais mafiosos conduzam toda uma quadrilha para o castelo a fim de confrontar os heróis –e mesmo o porque disso é nebuloso...
Seguem-se cenas de enfrentamento gaiato e jocoso que lembram alguns momentos da série italiana “Trinity”. Nesse meio tempo, Augusto é alvejado e, com seu espírito abandonando seu corpo, supõe-se que ele partiria para o além, agora possibilitado de consumar seu romance com a amada Leila, entretanto, os Trapalhões armam uma choradeira que leva Nicolas (subitamente embevecido do dom de ressuscitar!) a trazê-lo de volta.
E tudo então se resolve, sem muito se resolver: Os bandidos que tomaram uma surra –graças à intervenção divina do grupo Dominó (!) –ficam lá largados pelos cantos (incluindo, o infeliz Faustino); a relação dúbia de Rute com os vilões nunca é esclarecida ou justificada (e ela simplesmente parte com Didi como se nada tivesse acontecido); e nunca ficamos sabendo quem ou o que Leila era (agora, tornada uma mulher normal outra vez, ela se enrabicha de Augusto e está de bom tamanho); e o dinheiro acaba não sendo encontrado (salvo a cena final que revela seu esconderijo no último momento).
Garantindo um fluxo narrativo competente graças à sua perícia e experiência, o diretor J.B. Tanko, no seu último trabalho, realizada um dos primeiros exemplares onde os Trapalhões começavam a negligenciar a qualidade de suas produções em prol de uma abrangência de público cada vez maior. Leia-se: Filmes absolutamente amenos, sem conflitos mais contundentes, sem dramaturgia mais aprofundada e sem nada ofensivos, nem que para isso os valores enquanto cinema fossem sacrificados.
Pode-se dizer que foi essa tendência, empregada numa fórmula cada vez mais evidente (e, mais tarde, sem um J.B. Tanko que lhe desse um devido melhoramento), que levou os Trapalhões a uma derrocada qualitativa nos cinemas.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Os Trapalhões Na Serra Pelada

O estilo de J.B. Tanko –provavelmente o melhor diretor a passar pelo crivo de filmes feitos pelos Trapalhões nos anos 1980 –prima pela busca por um certo realismo regional, no qual imerge a encenação à realidade presente, obtendo não raro um resultado encantador (como a interação do elenco de “Saltimbancos Trapalhões” com pessoas da platéia).
Ao contrário da produção de 2013, “Serra Pelada”, de Heitor Dhalia, em cujos ombros repousa um certo mérito pela reconstituição esmerada, o filme de Tanko, em 1982, capturou as cenas do formigueiro humano da Serra Pelada onde tudo aquilo realmente aconteceu e no período em que aquilo realmente aconteceu, permitindo ao filme, apesar de suas aspirações comerciais mais singelas, o privilégio de registrar, em estado bruto, um acontecimento.
E Tanko se mostra consciente disso ao registrar essa realidade com imodestas panorâmicas de câmera que acompanham –em primeiro plano –os protagonistas de seu filme infiltrados entre legiões intermináveis de mineradores. Uma imagem que não faz feio em comparação com cenas envolvendo centenas de figurantes em qualquer épico antigo hollywoodiano.
Neste filme, os quatro humoristas, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, vivem personagens distintos daqueles pelos quais ficaram conhecidos –um hábito que eles foram abandonando filme a filme, optando pelo conforto e a facilidade de independente da trama continuarem sendo eles mesmos.
Sendo assim, eles são Curió (Didi, ou Renato Aragão), Boroca (Dedé), Melexete (Mussum) e Bateia (Zacarias), quatro amigos sem eira nem beira que chegam à Serra Pelada alimentados, como tantos, pelo sonho da riqueza instantânea.
Encontram, em vez disso, a dura realidade da exploração: Aliciados pelos capangas do coronel local, eles devem a eles 30% de tudo que encontrarem, além da obrigação que venderem exclusivamente para eles todo o restante, pelo preço que eles determinarem; e que dificilmente haverá de cobrir suas despesas com comida (!).
A saída para os Trapalhões é a galhofa: Ao acharem, por acaso, um veio abundante de ouro, os quatro põem o pé na estrada junto de sua carga antes que sejam roubados.
Não adianta: Na primeira parada, num boteco das redondezas, eles são surrupiados!
Sem o ouro com o qual pagariam a festança que promoveram, resta aos Trapalhões lavar louça e trabalhar no local por tempo indeterminado.
E aí o filme de Tanko abandona um pouco a trama que parecia querer abraçar no início para evocar algo mais trivial aos Trapalhões: Eles são envolvidos numa disputa territorial envolvendo o insípido vilão da vez contra um fazendeiro mais benevolente e seu filho altivo e destemido, vivido por Gracindo Júnior, ao lado de quem os Trapalhões resolvem ficar.
Nessa deixa, o diretor Tanko –cuja narrativa se mostra visivelmente menos entusiasmada do que no início –aproveita para fazer ótimas referências às convenções do faroeste.
O enaltecimento desmedido ao Exército Militar feito pelo roteiro no trecho final se deve à intervenção do Conselho de Segurança Nacional, visto que só liberaram o filme e algumas das cenas gravadas na Serra Pelada sob tais condições.
Embora não tenha o ritmo normalmente irrequieto das produções anteriores do quarteto, “Os Trapalhões Na Serra Pelada” é uma realização admirável por seu senso de oportunidade e improviso ao colocar o humor chapliniano dos Trapalhões naquele contexto bem brasileiro visto em sua primeira meia hora.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O Cangaceiro Trapalhão


Realizado logo depois de “Os Trapalhões Na Serra Pelada”, este “O Cangaceiro Trapalhão” conta com a direção de Daniel Filho que, se não tem a competência habitual de J.B. Tanko ao menos é superior ao convencionalismo que contamina o trabalho de Adriano Stuart.
Na trama, Renato Aragão é Severino, um humilde e destrambelhado pastor de cabras do nordeste. Num tom e num ritmo remetentes aos faroestes antigos (e, ao contrário dos italianos, o cinema brasileiro perdeu a chance de criar todo um sub-gênero baseado no cangaço que se espelhasse nos faroestes) a sequência inicial elabora um tiroteio numa cidadezinha desolada onde o bando de Lampião e Maria Bonita (Nelson Xavier e Tânia Alvez, escolhas absolutamente perfeitas) se defronta com as precárias forças policiais locais –e, para tanto, caracterizadas com sofreguidão.
Inúmeras coisas acontecem, denotando a perícia de Daniel Filho na condução: Sobretudo, os quatro trapalhões têm seus destinos entrelaçados (além de Didi, isto é, Severino, Dedé, aqui chamado Gavião, é um dos cangaceiros a serviço de Lampião, enquanto Mussum e Zacarias são prisioneiros da cadeia local que fogem aproveitando a confusão). Eles acabam numa carroça onde está sendo transportado o objeto da cobiça de Lampião, uma caixa metálica aparentemente mágica, cujas origens nunca são esclarecidas e que representa um dos poucos elementos místicos na trama –e, por incrível que possa parecer, ausentes do enredo durante a maior parte do tempo.
O filme se ocupa mesmo de registrar a galhofa absurda –e, sejamos honestos, deliciosa! –de ver o famoso quarteto às voltas com uma figura tão severa e compenetrada quanto Lampião (e a atuação do sempre maravilhoso Nelson Xavier compreende tal dinâmica de modo preciso): Uma vez aceitos no bando, Lampião não tarda a descobrir uma peculiaridade; que Severino, ao colocar óculos, é quase um sósia seu.
O plano, portanto, está montado: Enquanto se ocupa do mistério até bem redundante da caixa mágica, Lampião deixa Severino trajado com suas mesmas vestes a fim de confundir os policiais em seu encalço, algo como um “Kagemusha” nordestino –e esse recurso não é assim tão incomum na filmografia dos Trapalhões.
Severino acaba assim numa cidade onde quase é encurralado por policiais em uma cilada, escapando por pouco graças à boa vontade da jovem Aninha (Regina Duarte, no auge de sua fase “namoradinha do Brasil”), com quem mais tarde se junta à procura de água e da filha de Lampião, enquanto os outros três tornam a se reencontrar com os cangaceiros.
Ao lado de Aninha e da menina, Severino encontra o que parece ser uma espécie de feiticeira do sertão (a deslumbrante Bruna Lombardi), cuja presença abre as portas para elementos mágicos e efeitos visuais hoje ultrapassados, mas eficientes e admiráveis. Ela até se oferece para Severino acarretando um acesso de ciúmes de Aninha, o que leva ele a optar pela jovem e continuar sua busca por água que, nas instruções da feiticeira, estaria na “montanha em forma de galinha choca”!
Eventualmente, os Trapalhões voltam a se reunir e o bando de Lampião volta a aparecer. Satisfeito com a filha devolvida, Lampião –que, diga-se, nunca é chamado por esse nome –agradece deixando que o quarteto parta em paz e lhes entregando, já desinteressado, a tal caixa mágica.
É então que, numa ponta relâmpago de Tarcísio Meira (entrando mudo e saindo calado), Aninha encontra seu príncipe encantado e abandona Severino que –numa jogada narrativa constante nos filmes dos Trapalhões e que faz ainda uma mambembe referência à "Casablanca" –abre mão do amor dela (se era para ser assim, porque ela não deixou que ele ficasse com a feiticeira de Bruna Lombardi?!).
No desfecho algo previsível, a caixa revela aos Trapalhões o segredo para fazer com que a ‘montanha em forma de galinha choca’ bote gigantescos ovos de ouro, tornando-os milionários.
Divertidamente lúdico, descompromissado e fluido, “O Cangaceiro Trapalhão” é uma obra saborosa que ombreia os melhores títulos protagonizados no cinema pelo famoso quarteto.

sábado, 1 de abril de 2017

Robin Hood no cinema



Os mais distintos personagens e personalidades já povoaram as obras de cinema desde que a sétima arte foi concebida e adquiriu seu status de entretenimento popular. Drácula. Sherlock Holmes. Jesus Cristo. Entre eles, certamente está também o galante fora-da-lei que vive para atazanar a vida do xerife de Nothingham e maneja arco e flecha como ninguém.
As diferentes personificações de suas aventuras vão do humor assumido à mais comercial das aventuras, da descontração ao compromisso sério e respeitoso com a lenda, passando por reinvenções que visitam os mais diferentes gêneros e propostas.
Aqui, alguns deles:
As Aventuras de Robin Hood (1938)
Inicialmente dirigido por Willian Keighley, mas depois substituído por Michael Curtiz (de “Casablanca”) sob pretexto de que as cenas de ação, sem um realizador experiente, careciam de brilho, este clássico do capa & espada conta a história do fora-da-lei Robin de Locsley (um vistoso e fotogênico Errol Flynn, por muito tempo o grande astro desse gênero) que, escondido na floresta de Sherwood, roubava dos ricos para dar aos pobres desafiando assim o xerife de Nothingham, e ajudando os oprimidos camponeses, durante um período de opressão em que o perverso Rei João substituiu Ricardo Coração de Leão quando este havia partido para lutar nas Cruzadas em Jerusalém.
O conto de Walter Scott ganha aquela que, na opinião de muitos puristas, é sua versão definitiva, ganhadora do Oscar de Melhor Trilha Sonora.

Robin Hood-O Invencível (1960)
Longe de seu habitat natural –os filmes de terror dos estúdios Hammer –o diretor Terence Fisher trouxe a tiracolo um de seus astros recorrentes (Peter Cushing), e fez uma versão muita particular da lenda, concebendo uma trama que desvia-se dos acontecimentos mais conhecidos que cercam os personagens.
Nesta produção curiosa, Robin é interpretado com uma ponta de astúcia e ambigüidade –oriundas da formação artística do diretor Fisher, certamente –por Richard Greene, e trás consigo uma Lady Marian surpreendente num registro muito mais sensual do que pudico, personificada por Sarah Branch.

Robin Hood (1973)
Durante muito tempo tido como uma das referências da clássica história, o desenho da Disney –no qual Robin Hood ganha as formas e expressões ladinas de uma raposa –pode até frustrar quem espera por uma animação no patamar de qualidade do estúdio: A Disney enfrentava na época um período de reestruturação interna que prejudicou bastante o resultado final.
Robin Hood é um fora-da-lei que vive a perturbar as autoridades de Nothingham, sobretudo seu xerife, em função de sua luta para "roubar os ricos e dar aos pobres". Seu charme ousado e galante conquista inclusive o coração de Lady Marion, e a ira do Rei João. Lembrado sempre como um dos mais insatisfatórios desenhos da Disney, provavelmente por ter sido produzido num período em que os estúdios passavam por uma transformação profissional, logística e conceitual, é de fato, equivocado, na decisão de transformar a história de Robin Hood num emaranhado de cenas cômicas e dispersas que não dão unidade alguma à história e, sobretudo, ao colocar animais interpretando personagens humanos.

Robin Hood-O Trapalhão da Floresta (1974)
Pouco depois à animação da Disney, foi a vez dos Trapalhões lançarem a sua própria versão da lenda. No entanto, os Trapalhões, como eles passaram a ser conhecidos, não haviam sido formados ainda naquele ano de 1974 –os integrantes que vemos aqui se resumem a Didi (Renato Aragão, que neste filme leva o nome de Zé Grilo) e Dedé Santana (chamado aqui de Willian), e próprio humor feito por eles aqui não é tão inofensivo e dirigido às crianças como, aos poucos passou a ser feito, mas a história, em sua tentativa algo satírica de transpor a lenda de Robin Hood para o contexto brasileiro –inclusive com um sutil subtexto a falar sobre os latifundiários e sua opressão ao proletariado –revela-se tão notável quanto curiosa, responsabilidade certamente da condução do diretor J.B. Tanko, realizador dos melhores filmes dos Trapalhões.
Na trama, Rei João é João Climério e Ricardo Coração de Leão é seu meio-irmão Ricardo que vai fazer um safári na África (!), deixando sua fazenda à mercê dos ditames tirânicos do vilão.
O grupo de foras-da-lei é, assim, um bando de aldeões que resolve perturbar o fazendeiro e seus capangas, lembrando um pouco o movimento sem terra –ainda que muito de suas caracterizações pareçam remeter à Revolta dos Farroupilhas.
Robin Hood (interpretado pelo galã Mário Cardoso que também participou de “Os Saltimbancos Trapalhões”) sofre um ferimento e, enquanto se recupera, é substituído em suas peripécias –no melhor estilo “Kagemusha”, de Akira Kurosawa!! –pelo personagem de Renato Aragão que, como sempre, apronta poucas e boas.
Décadas mais tarde, em 1990, Renato Aragão e seus companheiros (já compondo o grupo consagrado dos Trapalhões) voltaram a trabalhar numa nova trama envolvendo o personagem em “O Mistério de Robin Hood”, mas sem qualquer relação de história ou de essência com a lenda clássica –sem falar que era uma porcaria!

Robin & Marian (1976)
Eis que o diretor Richard Lester –normalmente um operário padrão dos estúdios tendo entregado ao longo da carreira inúmeras obras de encomenda, ainda que de qualidade, como “A Vingança de Milady”, “Viagem Fantástica” e até mesmo “Superman 3” –realiza um de seus melhores trabalhos.
Sua visão sobre a lenda ousa imaginar Robin Hood e sua trupe de coadjuvantes, não no início, como normalmente o cinema faz, enaltecendo a juventude, mas no seu apogeu.
Quando a história começa, já contam duas décadas dos famosos feitos de Robin, agora tornado um valoroso guerreiro de confiança de Ricardo Coração de Leão –e, por conta de qual mérito, todo esse tempo transcorrido, ele passou lutando nas Cruzadas (o quê a história contada fez parecer ser uma obsessão para Coração de Leão).
Com a morte do Rei Ricardo, Robin regressa para a Inglaterra almejando enfim uma vida de paz, mas as intrigas de seus arquiinimigos, o Xerife de Nothingham e o Rei João, não cessaram, e ele se vê obrigado a reunir o antigo bando de foras-da-lei em Sherwood, bem como retomar a relação com Lady Marian, que ficou todo esse tempo em um convento.
Veteranos de talento a toda à prova surgem assim interpretando os personagens já num momento crepuscular como Sean Connery (Robin Hood), Audrey Hepburn (Lady Marian), Nicol Willianson (Pequeno John), Ronnie Barker (Frei Tuck), Robert Shaw (o xerife de Nothinghan), Ian Holm (Rei João) e Richard Harris (Ricardo Coração de Leão), contribuindo para fazer desta uma das mais desiguais e primorosas versões do conto de Walter Scott.

Robin Hood-O Príncipe dos Ladrões (1991)
Talvez o mais famoso dentre todos os filmes, muito por conta do enorme prestígio junto ao público que o astro Kevin Costner (recém-saído do oscarizado “Dança Com Lobos”) gozava à época. Ele e o diretor Kevin Reynolds tiveram uma longa e oscilante colaboração ao longo dos anos entregando trabalhos como o juvenil e divertido “Fandango”, o catastrófico “Waterworld-O Segredo das Águas” e a aclamada minissérie “Hatfields & McCoys”.
A trama vivenciada por Robin Hood aqui já era um indicativo das reinvenções nem sempre inspiradas que histórias clássicas como esta viriam a sofrer no futuro, nas mãos de produtores de Hollywood.
Neste filme, por exemplo, Robin Hood encontra os foras-da-lei de Sherwood já como um bando completo –nas outras versões, é o próprio Robin quem monta o grupo –o romance com Lady Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio, uma das jovens atrizes em alta na época) tem elementos modernos de implicância, relutância e sensualidade; o vilão (Alan Rickman, divertido e caricato) não poderia ser mais pueril; o personagem inédito de Morgan Freeman (um mouro), de suma importância à trama, foi introduzido como forma de ilustrar esse objetivo de reinvenção (além de antecipar um processo de representatividade que hoje é via de regra entre filmes de estúdio); e as cenas com arco e flecha são turbinadas por efeitos visuais que especulam enquadramentos antes impossíveis.
Curiosidade: Sean Connery aparece aqui (numa ponta ao final) como Ricardo Coração de Leão, pelo que, à época, foi um cachê recorde por uma participação tão pequena.

Robin Hood-O Herói dos Ladrões (1991)
Este filme muito mais obscuro, além de ter a má sorte de ser lançado no mesmo ano do retumbante sucesso estrelado por Kevin Costner, também era prejudicado pelo fato de trazer uma série de escolhas equivocadas, a começar pela presença de Patrick Bergin como o Robin Hood mais desprovido de carisma da história (seu filme mais famoso é “Dormindo Com O Inimigo” onde ele faz o marido violento de Julia Roberts, e ele de fato serve mais para fazer vilões mesmo...).
Como se não bastasse, o diretor John Irvin se mostra pouco empolgado nas cenas de ação que quando não se desenrolam de maneira formulaica e mecânica apresentam uma sucessão de incoerências. Se há algum detalhe digno realmente de nota é uma jovem e sensual Uma Thurman interpretando uma Lady Marian carregada de presença e magnetismo.

A Louca! Louca História de Robin Hood (1993)
Inevitavelmente uma paródia. Entretanto, assinada por um dos grandes comediantes americanos dos anos 1970 e 80, o veterano Mel Brooks, mas que já mostrava sinais de cansaço nos anos 1990.
O galã Cary Elwes (de “Tempo de Glória” e que fez algum sucesso como uma versão moderna de Errol Flynn na fantasia “A Princesa Prometida”) é o Robin Hood nesta reencenação cômica e musical (!) da lenda –certamente, pegando carona do imenso êxito da produção com Kevin Costner, lançada anos antes –onde pouco se consegue achar de relevância: Mesmo as piadas parecem não ter maiores propósitos junto à narrativa, o quê é no mínimo frustrante quando se pensa que este é um filme do cara que fez “Banzé No Oeste” ou “Primavera Para Hitler”.
Para se ter uma idéia, este Robin Hood cômico é tão insípido que fica a dever (e muito!) à versão debochada e maliciosa do personagem que aparece, por brevíssimos minutos, na animação “Shrek”, de 2001.

Robin Hood (2009)
Já quase no fim da década de 2000, o diretor Ridley Scott e o astro Russell Crowe, vindos de uma longa e produtiva parceria (mas, cujo maior êxito foi indiscutivelmente “Gladiador”) resolveram revisitar a lenda a fim de conceber um projeto que, em suas tintas épicas e em sua ambientação medieval, resgatasse as mesmas características de seu grande sucesso.
O resultado foi uma reinterpretação bastante audaciosa da lenda que, além de tudo, almejava não apenas dar um inédito subtexto de realismo histórico, mas que também nascia com um esqueleto de saga: Este teria sido só o primeiro capítulo, firmando-se como uma espécie de “origem” de Robin Hood e não uma versão moderna de suas famosas aventuras –essas teriam vindo numa eventual continuação, se o filme tivesse feito sucesso suficiente de público.
Não fez.
Durante a incursão do Rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, em Jerusalém, no Século 12, um grupo de seus arqueiros, liderados por Robin Longstride (Crowe, já um bocado velho para interpretar um herói no princípio de sua jornada), abandona as trincheiras na França, para retornar a sua terra natal. No caminho, Ricardo é morto, e os arqueiros se vêem no meio de uma conspiração para minar a coroa inglesa, agora sob o comando do irascível Rei João (Oscar Isaacs, muito mais jovem do que as versões anteriores). Levado pelas circunstâncias, Robin assume a identidade do cavaleiro morto, Robert Loxley, e assim apresenta-se no palácio real e, mais tarde, ao pai e à esposa do verdadeiro Loxley, em Notthinghan, onde vai a fim de devolver a espada do filho ao pai –neste filme, Lady Marian (interpretada pela sempre eficiente Cate Blanchett) não é filha do Rei João, numa das inúmeras licenças poéticas que se acotovelam no roteiro excessivamente rocambolesco e cheio de desdobramentos de Brian Helgeland (co-roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida”).
Mas o Rei João, em parte influenciado pelo traiçoeiro Godfrey (Mark Strong), colocará toda a Inglaterra ante uma invasão de tropas francesas, obrigando Robin a tornar-se líder de um bando de foras-da-lei.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Os Trapalhões Na Guerra dos Planetas

Vejamos, tudo começa em uma perseguição de carro na qual as razões nunca ficam muito claras (minto: Em um diálogo, Dedé comenta com Didi que ele “mexeu com a mulher errada”), e onde a noção periclitante –para dizer o mínimo –de ritmo e montagem da direção de Adriano Stuart já fica mais que evidente.
Mais até do que simplesmente ruim, a incapacidade de encontrar um tom harmônico no resultado torna tudo até perturbador: As cenas, em especial as de ação, sucedem-se num clima tão mambembe e equivocado que excedem sua duração razoável e parecem mais prolongamentos surreais de um pesadelo.
Ah, sim, a história: Após serem perseguidos, os Trapalhões são abordados, no meio do mato e sem mais nem menos, por uma espécie de galã do espaço sideral (Pedro Aguinaga) que lhes pede ajuda (por que ele pede ajuda a eles, ao invés de algum terráqueo mais capaz do que os quatro trapalhões é um mistério que se mantém para além do filme...). Segundo ele (uma versão rasteira, fuleira e afetada de Luke Skywalker), seu planeta é assolado pelo julgo de um vilão intergaláctico (uma versão rasteira, fuleira e afetada de Darth Vader) que deseja parte de um computador que ele detém –ou algo assim...
Essa deixa tênue conduz assim o famoso quarteto de comediantes televisivos (e aqui em sua primeira e infelizmente pouco auspiciosa união em cinema, já que Mauro Gonçalves, o Zacarias, tinha acabado de unir-se ao grupo na época –eles teriam outras chances, no futuro para fazer filmes bem melhores) em direção ao que provavelmente deve ser uma das mais precárias, incompreensíveis e vexaminosas tentativas de pegar carona no retumbante sucesso de então deflagrado por “Star Wars”.
Reza a lenda que o filme dos Trapalhões só não consegue ser pior do que o ultrajante, sem noção e terrivelmente tosco “Star Wars Turco”, um filme lendário de tão mal feito.
Não significa que ele não tenta: Efeitos especiais de fundo de quintal, história rasteira, roteiro rudimentar, direção precária, tudo isso resulta num apanhado de circunstâncias técnicas que tornaram o filme tão incoerente quanto estranho, singular em sua ruindade.