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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Morra, Amor


 A casa para onde o casal Jackson e Grace (Robert Pattinson e Jennifer Lawrence, ótimos) vão morar foi onde o tio dele outrora se matou. E esse elemento, o do fatalismo inerente, será um dado que irá perpassar toda a trajetória dessa vida a dois investigada com olhar aguçado pela diretora Lynne Ramsay.

Conhecedores do cinema dessa cineasta escocesa sabem que ela não se interessa por realidades felizes ou idealizadas, sabem que a autenticidade de seus personagens se revela aos poucos, gradativamente desfraldando celeumas profundas, algumas inapeláveis. E não deixa de ser algo exatamente assim que ela investiga aqui, contando desta vez com o inestimável talento da estrela Jennifer Lawrence, num papel que guarda inúmeros ecos do mesmo desempenho que ela entregou no filme “Mãe!” – como lá, temos aqui uma jovem confrontada com as difíceis e imprevistas facetas da maternidade, ao mesmo tempo que afastada de todos ao morar num local longínquo. Pois, uma vez instalados na casa – que à propósito, trata-se de uma casa isolada numa área rural de Montana – Jackson e Grace acabam tendo um filho que nasce uns meses depois, ao qual o jovem casal se decide por não dar ainda nome nenhum. Contudo, Grace aos poucos vai experimentando a negligência do marido à medida que ele se afasta cada vez mais sob a justificativa do trabalho. São pequenos, mas pertinentes, os indícios que Lynne Ramsay planta, aqui e ali, de seu distanciamento (a sequência do telefonema em que Grace percebe, pelos sons diegéticos, que ele se encontra em uma lanchonete) e de sua infidelidade (as caixas com preservativos, de existência injustificada, que ela encontra sucessivamente dentro do carro) – e é necessário também mencionar o trabalho sólido e perspicaz de Robert Pattinson numa composição despida de qualquer vaidade.

Todos esses pequenos percalços e atribulações fazem com que Grace comece a se dar conta de que ser esposa e mãe demanda alguns sentimentos de vazio, solidão e desamparo com os quais ela não estava preparada para lidar.

O isolamento – pelo menos, na ótica não muito circunspecta de Jackson – serviria para Grace, uma aspirante a romancista, escrever seu próximo livro, entretanto, o ímpeto para escrever jamais vem, substituído, em vez disso, por uma perda gradual de sua própria identidade, por um vazio que a consome nos dias e noites que se seguem.

O cinema moderno tem sido contumaz num objetivo resgate das celeumas intimistas de uma depressão pós-parto acometida às mulheres em obras mais recentes como “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” ou “Pieces Of A Woman”. A fim de executar uma sondagem de aspectos similares, Lynne Ramsay, neste seu “Die, My Love”, lança mão de circunstâncias peculiares, tão alarmantes quanto mundanas (o ambiente familiar e social onde Grace e Jackson vivem não dá muita margem para a compreensão da condição dela, sendo que os coadjuvantes mais recorrentes são sempre a mãe e o pai dele, vividos por Sissy Spacek e Nick Nolte, respectivamente), de situações incertas onde o cinema permeia aquela fronteira ambivalente entre sonho e realidade, delírio e lucidez (as sequências nebulosas e enigmáticas onde vemos um motoqueiro – a lembrar um intrigante personagem do cult “Mal do Século” – vivido por Lakeith Stanfield, de “Corra!”, rodeando e cercando a casa de Grace e, mais tarde, convertendo-se numa espécie de amante dela!), e de observações de ordem alegórica (o incêndio a consumir a floresta que circunda a fazenda, mostrado no início do filme e retomado já na sua cena final).

O som e a música contribuem muito para essa desestabilização dos sentidos, num reflexo do estado interior da protagonista e sua luta conta fantasmas internos – o latido de um cachorro comprado por Jackson que, ao longo dos dias, inferniza Grace sem parar; os acordes repentinos de trilha sonora, nem sempre adequada, que irrompem nas cenas apenas para remover o público de qualquer sensação de conforto.

Há um momento, quase inebriante, já perto do desfecho, em que Ramsay chega a sinalizar com a possibilidade de uma final ameno e feliz, um instante onde o amor parece capaz de prevalecer – é quando o casal, a despeito de suas crises, entoa uma mesma música que toca no rádio do carro. Poderia ser até o final do filme, e nele, os talentos de Jennifer e Robert realmente conseguem tirar leite de pedra e emocionar o expectador, mas, Ramsay (como atestam seus trabalhos contundentes e irrefreáveis) não é adepta de finais felizes abruptos. Ela conduz seu filme à já citada sequência do incêndio, justamente para que seu impacto nos faça entender que ela não está, nem de longe, brincando com coisa tão séria.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2024


 Mal nos acostumamos com a ideia de que o frenesi de 2023 entrou em sua reta final, e já temos entre nós a lista dos indicados ao Globo de Ouro do ano que vem! O que já confirma algumas previsões para uma certa estatueta dourada; e aponta para algumas surpresas também. Eis, portanto, os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

Elementos

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Suzume

Wish

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Folhas de Outono (Finlândia)

Io Capitano (Itália)

Vidas Passadas (Estados Unidos)

Society of the Snow (Espanha)

Zona de Interesse (Reino Unido/Estados Unidos)

MELHOR FILME DE DRAMA

Anatomia de Uma Queda

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Zona de Interesse

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Air

American Fiction

Barbie

The Holdovers

Segredos de um Escândalo

Pobres Criaturas

A categoria de animação tem, em “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, seu maior favorito, com a boa repercussão de “Super Mario Bros” e o fascínio recente provocado por “Suzume” colocando-os logo atrás. Na categoria dos estrangeiros, curiosamente, dois filmes produzidos (e, portanto, representando) os EUA concorrem a Melhor Filme em Língua Não Inglesa, tratam-se de “Vidas Passadas”, produzido pela A4 e falado, em sua maior parte no idioma sul-coreano, e o britânico “Zona de Interesse”, dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), cuja trama é toda falada em alemão. Além disso, esses dois e mais o francês “Anatomia de Uma Queda” concorrem também na categoria maior de Melhor Filme de Drama. Contudo, nessas categorias principais, apesar da presença intimidadora da grande obra de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, quem reina supremo são “Oppenheimer” (em Drama, com 8 indicações) e “Barbie” (em Comédia e Musical, com 9, o recordista!), mostrando que a dobradinha nos cinemas ocorrida no meio do ano ainda está a fascinar público e crítica. Interessante será vermos para qual deles a predileção do Oscar irá pender, uma que vez que lá os filmes concorrerão todos numa só categoria.

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Bradley Cooper (Maestro)

Leonardo DiCaprio (Assassinos da Lua das Flores)

Colman Domingo (Rustin)

Barry Keoghan (Saltburn)

Cillian Murphy (Oppenheimer)

Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Annette Bening (NYAD)

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)

Greta Lee (Vidas Passadas)

Carey Mulligan (Maestro)

Cailee Spaeny (Priscilla)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Nicolas Cage (Dream Scenario)

Timothée Chalamet (Wonka)

Matt Damon (Air)

Paul Giamatti (The Holdovers)

Joaquin Phoenix (Beau Tem Medo)

Jeffrey Wright (American Fiction)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Fantasia Barrino (A Cor Púrpura)

Jennifer Lawrence (Que Horas Eu Te Pego?)

Natalie Portman (Segredos de um Escândalo)

Alma Pöysti (Folhas de Outono)

Margot Robbie (Barbie)

Emma Stone (Pobres Criaturas)

Entre os atores, até agora ninguém parece mais relacionado ao prêmio do que o irlandês Cillian Murphy, embora Cooper e Dicaprio tenham chances de crescer ao longo da temporada. Na categoria de intérprete cômico, em meio à nomes de grande estatura como o sempre amado pelo público Nicolas Cage, o ótimo Timothée Chalamet e os sempre competentes Paul Giamatti e Matt Damon, além de Joaquim Phoenix, surpreendentemente indicado pelo terror “Beau Tem Medo” (há quem lamente ele não concorrer em Ator Dramático por “Napoleão”, eu certamente não sou uma dessas pessoas), o favoritismo acabou indo para Jeffrey Wright por seu trabalho em “American Fiction”, premiado no Festival de Toronto e, recentemente, no People’s Choice Awards.

Entre as atrizes, muitos torcem por uma vitória da excelente Lily Gladstone na categoria de drama, ela que é uma das forças maiores do filme de Scorsese, a despeito da forte concorrência de Annette Bening; na categoria de comédia, podemos perceber que Jennifer Lawrence, nem fazendo uma comédia chula e vulgar consegue perder a predileção do público e da crítica (embora o seu filme também seja realmente bom), mas ela tem de enfrentar a franca favorita ao prêmio, Margot Robbie, a Barbie em pessoa!

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (Pobres Criaturas)

Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

Ryan Gosling (Barbie)

Charles Melton (Segredos de um Escândalo)

Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt (Oppenheimer)

Danielle Brooks (A Cor Púrpura)

Jodie Foster (NYAD)

Julianne Moore (Segredos de um Escândalo)

Rosamund Pike (Saltburn)

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

MELHOR DIREÇÃO

Bradley Cooper (Maestro)

Greta Gerwig (Barbie)

Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

MELHOR ROTEIRO

Greta Gerwig & Noah Baumbach (Barbie)

Tony McNamara (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Eric Roth & Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

Seria esta a grande chance de Robert Downey Jr. (inclusive para chegar ao Oscar como forte favorito)? É o que, até aqui, está parecendo. Entre as coadjuvantes mulheres, Jodie Foster parece destacar-se soberana, entretanto, os trabalhos de Julianne Moore e Da’Vine Joy Randolph (de “Cidade Perdida”) têm tempo para crescerem até a premiação.

Na categoria de diretores, temos a disputa que parece monopolizar as atenções entre Christopher Nolan e Greta Gerwig (com ligeira vantagem para Nolan em vista da natureza mais séria de seu filme), com Martin Scorsese correndo, por enquanto, por fora. É de se supor que a Imprensa Estrangeira compense, entre Nolan e Gerwig, aquele que perder em Direção com o prêmio de Roteiro.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Jerskin Fendrix (Pobres Criaturas)

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

Joe Hisaishi (The Boy and The Heron)

Mica Levi (Zona de Interesse)

Daniel Pemberton (Homem-Aranha Através do Aranhaverso)

Robbie Robertson (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Addicted to Romance, Bruce Springsteen (She Came to Me)

"Dance the Night", Mark Ronson, Andrew Wyatt, Dua Lipa, Caroline Ailin (Barbie)

"I'm Just Ken", Mark Ronson, Andrew Wyatt (Barbie)

"Peaches", Jack Black, Aaron Horvath, Michael Jelenic, Eric Osmond, John Spiker (Super Mario Bros)

"Road to Freedom", Lenny Kravitz (Rustin)

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Guardiões da Galáxia Vol. 3

John Wick 4

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Oppenheimer

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Taylor Swift: The Eras Tour

A categoria Conquista Cinematográfica e de Bilheteria é uma das duas novas categorias criadas pelo Globo de Ouro para esta nova edição –e franca favorita para deixar de existir já no ano que vem... –aparentemente feita para premiar o desempenho na bilheteria de projetos que levam o público às salas nesses tempos de streaming (o que justifica a presença, entre os indicados, do show de Taylor Swift). Nesse sentido, nenhum deles merece mais a ovação do que “Barbie”, a grande bilheteria de 2023.

A entrega dos prêmios e revelação dos ganhadores será realizada no domingo, dia 7 de janeiro de 2024.

domingo, 13 de agosto de 2023

Que Horas Eu Te Pego?


 Maddie Barker (Jennifer Lawrence) vive uma situação periclitante: Depende de seu carro para juntar grana o suficiente trabalhando como uber –pois o rendimento no outro emprego, como garçonete, não basta –a fim de obter dinheiro para pagar a hipoteca da casa onde viveu com a mãe a vida toda. E a qual está ameaçada de perder. Mas, por uma série de razões referentes à constante irresponsabilidade de Maddie, seu carro foi rebocado –e não será, tão logo, devolvido. A saída é, como nas comédias adolescentes dos anos 2000 às quais este filme busca fazer alusão, inusitada: Atender a um pedido no jornal onde um casal de milionários requisita uma moça de 20 e poucos anos (Maddie tem 30, mas é bonita e convence bem) para namorar seu tímido e introspectivo filho de 18, para que ele vá para a faculdade munido de um pouco mais de experiência e auto-confiança.

“No Hard Feelings” parece –e, de fato, é –uma daquelas comédias besteirol que infestaram o cinema a partir da década de 1980, mas que, devido à uma série de mudanças comportamentais específicas nos últimos anos (como a ascensão do politicamente correto, por exemplo) deixaram de serem feitas. E, por isso mesmo, soa quase como um alívio e uma grata satisfação poder conferí-la hoje, no circuito comercial, abarrotado de aventuras e superproduções derivadas de franquias específicas; ou feitas com a intenção de virarem franquias específicas.

Convertida numa celebridade mundial –e arremessada no centro do turbilhão de badalação midiático do showbuziness –devido à participação em sagas como “Jogos Vorazes” e “X-Men”, a estrela Jennifer Lawrence já vinha, em algumas entrevistas, deixando clara uma perplexidade descontente com esse caminho que sua carreira cinematográfica havia tomado. Agora, após tirar o intervalo de um ano sabático, casar-se e ter um filho, ela trocou de agente disposta a dar um rumo novo à sua carreira. Ela integrou o vasto elenco do curioso “Não Olhe Para Cima”, protagonizou o elogiado e singelo drama “Causeway” e, logo em seguida, dedicou-se (inclusive como produtora) a este corpo inesperado e estranho na seara de realizações atuais hollywoodianas: Tivesse sido lançado à dez ou vinte anos atrás, “No Hard Feelings” seria só mais uma dentre tantas produções no mercado. Hoje, ele representa, solitariamente, um gênero do qual o público tem, quando muito, certa lembrança: As comédias popularescas, declaradamente chulas e sem muito pudor em ofender com seu humor nada inocente, tais como “A Vingança dos Nerds”, “A Última Festa de Solteiro” ou “O Último Americano Virgem”.

Entretanto, “No Hard Feelings” não é apenas consciente de sua singularidade; é também um ótimo trabalho: Dirigido e escrito por Gene Stupnitsky, o filme tem piadas divertidas de verdade, uma trama que, se não é um primor de execução e planejamento, se constrói desviando com desenvoltura expedientes mais óbvios (o romance entre os protagonistas termina sendo menos relevante do que outras questões), e seus personagens são carismáticos e interessantes o suficiente para capturar a atenção do expectador do início ao fim.

Após firmar negócio com os pais do moleque –vividos por Mathew Broderick e Laura Benanti –em troca de um carro com o qual possa retomar suas atividades de uber, Maddie parte para cima disposta a enredar, namorar e, ao fim, tirar a virgindade do jovem Percy (Andrew Barth Feldman, uma presença muito mais sólida e competente do que se podia imaginar). Contudo, como bem foi antecipado pelos pais, Percy é um jovem respeitador e contido –a despeito da beleza e exuberância de Maddie (características que, na divertidíssima atuação de Jennifer Lawrence, atraem muitas confusões para o lado da personagem), Percy não deseja logo partir para os finalmentes; ele quer conhecê-la, antes de irem para a cama, numa manobra que promove uma curiosa inversão de valores em relação à “No Hard Feelings” e as demais comédias adolescentes que ele alude: Desta vez é o rapaz (e não a garota) quem exige uma conexão emocional, para além do interlúdio físico.

Impaciente, mas disposta a colaborar, Maddie concorda, o que, nos dias que se seguem, à medida que vão dando prosseguimento à um namorico, vai rendendo uma série de situações hilárias e constrangedoras entre os dois: Como a ida noturna à praia, palco da cena mais antológica e comentada do filme (quando, ao convencê-lo a nadarem nus no mar, Maddie vê desocupados roubando suas roupas e sai de dentro da água, a exibir corajosa e despudoradamente a nudez frontal completa da estrela Jennifer Lawrence, e entra no braço, assim mesmo, sem roupa nenhuma, com três adolescentes!); a chegada a uma festa universitária, onde os dois promovem a maior confusão, inclusive brigando com o proprietário da casa (!); ou o passeio junto do enciumado ex-babá dele (que, sim, vem a ser um homem e não uma mulher!!), e vários outros momentos.

Assim, “No Hard Feelings” no sentimento de júbilo que provoca no público ao proporcionar o êxtase de um gênero que se presumia esquecido, remete todas as boas impressões de uma época em que se faziam filmes mais ácidos e inconsequentes, sem, no entanto, esquecer de seu compromisso com as posturas da atualidade –a despeito de toda a picardia, a personagem de Maddie segue de ponta à ponta, empoderada e forte, mostrando que mesmo comédias desse nicho são capazes de deixar o machismo de lado quando feitas com habilidade.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Serena


 Iminente milionário da indústria madeireira do centro-oeste norte americano dos anos 1930, George Pempleton (Bradley Cooper) conhece a impetuosa Serena (Jennifer Lawrence), com quem não tarda a casar-se, numa daquelas situações comuns aos matrimônios orquestrados antigamente. Serena revela-se um achado: Não só é linda e sem frescuras, com também é perspicaz e implacável no gerenciamento dos negócios do marido. Quando uma tragédia abate-se sobre o casal, porém (ela perde o bebê que trazia na barriga e a capacidade de ter filhos), Serena também revela outra característica: a psicose. E seu alvo passa a ser justamente o filho bastardo que seu marido tivera, anos antes, com uma humilde empregada. Estreando no cinema americano, a diretora Suzanne Blier, vinda do elogiado “Brothers” e do oscarizado “Em Um Mundo Melhor”, não consegue fazer jus a seus trabalhos realizados em sua Dinamarca natal e comete uma série de más escolhas que minam a qualidade de seu filme e da atuação de Jennifer Lawrence.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Algumas previsões para o Oscar 2022...

 No dia 8 de fevereiro de 2022 serão anunciados os indicados aos Oscar, e no dia 27 de março, dentre esses indicados, serão anunciados, por fim, os vencedores, as obras nomeadas pela Academia de Artes Cinematográficas como as melhores do ano. Sendo assim, é justo afirmar que, neste presente momento em que você lê estas linhas, a temporada de prêmios já se iniciou. Como na temporada anterior, as circunstâncias da pandemia tornam mais nebulosas as chances de palpites certeiros, com filmes podendo serem adiados e/ou lançados a qualquer momento –inclusive nas plataformas de streaming, de onde obras muito premiadas dos últimos anos andaram saindo. A imprevisibilidade dessas novas condições torna mais desafiador apontar prováveis eleitos e favoritos reais, mas, vamos tentar.


 A Crônica Francesa

Cada nova obra de Wes Anderson é um deleite. Diretor desigual, de um estilo que se aprimora a cada projeto, ele acrescenta, neste “A Crônica Francesa” um tom engajado e reflexivo ao primor narrativo de sempre e à excelência técnica que seus filmes já costumam oferecer. O elenco extenso e estelar é um convite à premiações, e dificilmente a Academia deixará este filme passar despercebido.


 Não Olhe Para Cima

A maior produção da Netflix até então, “Não Olhe Para Cima” é extraordinariamente ambicioso: Além de colocar encabeçando seu fenomenal elenco a dupla Leonardo Dicaprio e Jennifer Lawrence (provavelmente os dois maiores astros da atualidade), o filme tem direção e roteiro do aclamado Adam McKay, autor de dois filmes audazes, perspicazes e inteligentes que causaram rebuliço nos últimos anos, “A Grande Aposta” e “Vice”. Não obstante, as primeira críticas apontam uma obra brilhantemente equilibrada entre a sátira política e a competência cinematográfica, um “Dr. Fantástico” dos novos tempos.


 Amor Sublime Amor

O simples fato de ser um filme de Steven Spielberg já lança imediata luz sobre este projeto, agendado para estrear no fim do ano passado, mas adiado em um ano, assim como tantos outros. No entanto, “Amor, Sublime Amor” é também a audaz refilmagem de um filme, em princípio, impossível de se refilmar: O clássico tido como intocável de 1961, dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, ganhador de nada menos do que 10 prêmios Oscar! Ao mesmo tempo, Spielberg realiza aqui um sonho: O de enfim dirigir um filme musical; desejo que ele só chegou perto de realizar na cena de abertura de “Indiana Jones e O Templo da Perdição”. Não apenas o nome de um dos maiores diretores de cinema da atualidade (senão O maior) destaca este filme, como o fato de que todos os trabalhos de Spielberg recebem grande atenção no Oscar –e, com efeito, são obras excelentes.


 Duna-Primeira Parte

O clássico literário “Duna”, de Frank Herbert, transcorreu um longo e tortuoso caminho até ganhar uma adaptação digna e satisfatória para cinema. “Duna”, de Denis Vileneuve –que se incumbe de transpor a primeira parte do livro para as telas –segue percalços muito semelhantes à “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, de Peter Jackson, passando inclusive pelo belo desempenho de bilheteria e pela aclamação praticamente unânime da crítica. Além disso, a Academia adora quando Vileneuve se aventura com êxito no terreno da ficção científica, vide o reconhecimento caloroso dado à seus projetos anteriores, “A Chegada” e “Blade Runner 2019”.


 Spencer

O diretor chileno, Pablo Larraín, parece ter se especializado em grandes biografias de figuras fundamentais do Século XX. Ele já havia colecionado elogios tremendos por seu excelente “Jackie”, e tudo indica que repetirá a dose com “Spencer” –e, de quebra, ainda pode obter a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Kristen Stewart –que desvenda a intimidade da icônica Princesa Diana.


 Casa
Gucci

Outro diretor cujos trabalhos, adentrem o gênero que adentrarem, frequentemente monopolizam as atenções da Academia é Ridley Scott. Aqui, ele abandona os épicos de praxe para focar numa trama que remonta a história real do assassinato de um herdeiro da grife Gucci por sua ex-esposa, Patrizia Reggiani. Como a maioria dos filmes com fortes predisposições para competir ao Oscar, este tem um elenco estelar escolhido à dedo: Lady Gaga (uma atriz consumada após o sucesso de “Nasce Uma Estrela”), Adam Driver, Jared Leto, Al Pacino, Jeremy irons e Salma Hayek.


 The Tragedy Of
Macbeth

Vinte e um anos depois dos Irmãos Coen terem realizado “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, adaptando a obra de James Joyce, “Ulisses” para uma pitoresca ambientação norte-americana, eles, de certa forma, tentam algo parecido com “The Tragedy Of Macbeth”, dando sua visão ímpar, incomum e certamente magistral para a conhecida tragédia criada por William Shakespeare, contando com o magnífico par central interpretado por Denzel Washington e Frances McDormand –ela, esposa de Joel Coen, um dos diretores, e vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Nomadland” na última premiação.


 Cry
Macho

Já de avançada idade, cada novo filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood parece soar como sua despedida, seu testamento. Assim pareceu ser o elogiado “A Mula”, e assim parece “Cry Macho” que, sob muitos aspectos lança uma circunspecta luz analítica sobre as facetas humanas da persona à qual o próprio Clint Eastwood foi muito relacionado em toda sua carreira. Não deixa de ser uma proposta que remete ao elogiado “Os Imperdoáveis” que deu a ele o Oscar 1992 de Melhor Filme.


 Noite Passada Em Soho

O diretor Edgar Wright é um dos mais originais e brilhantes estetas a surgir no cinema nos últimos anos. Trabalhos como “Todo Mundo Quase Morto”, “Scott Pilgrim Contra O Mundo” ou “Em Ritmo de Fuga” proporcionam experiências cinematográficas plenas e inquestionáveis  e uma sintonia fora do comum com o que há de mais arrojado na cultura pop. Há tempos pedindo por um reconhecimento, Wright entrega agora uma obra vibrante, desafiadora  e surpreendente ao acessar ecos subconscientes do elogiado cinema da década de 1970 –como o ‘giallo’ e o Novo Cinema Britânico –e ainda traz duas protagonistas maravilhosas: Thomasin McKensie (de “Jojo Rabbit”) e Anya Taylor-Joy (de “O Gambito da Rainha”).

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

X-Men Fênix Negra


 “Fênix Negra” é, em vários aspectos, o fim de uma era: É o fim dos X-Men como eles foram conhecidos até aqui no âmbito cinematográfico, ou pelo menos, o fim da reinvenção promovida em 2011 por “X-Men Primeira Classe”. É também, a produção que marca a última realização dos Estúdios Fox em torno desses personagens que até então a produtora possuía –as negociações que levaram a Disney a adquirir todo o espólio intelectual da Fox e terminaram levando os direitos dos mutantes de volta para a Marvel Studios estavam em curso enquanto “X-Men Fênix Negra” se achava em produção.

Como resultado, este trabalho –o trabalho de estréia, como diretor, do roteirista mais prolífico desta franquia, Simon Kinberg –já veio prejudicado por uma expectativa bastante negativa, e pelo demérito de abordar uma mitologia já, digamos, moribunda: Os personagens de qualquer modo sofreriam um novo reboot no novo estúdio, e até mesmo Hugh Jackman, o representante maior dessa fase dos mutantes em seu auge, já havia se despedido de seu personagem, Wolverine, em “Logan”.

O fato do filme desagradar público e crítica foi somente a cereja no topo desse bolo pra lá de indigesto que muitos foram obrigados a engolir. Mas, por trás de todos esses revezes tremendamente desfavoráveis, a pergunta crucial que fica é: O filme, afinal, é ruim de fato?

Para muitos é um despropósito discutir esses méritos, visto que quando chegou aos cinemas, “Fênix Negra”, por todas as razões já citadas, tinha perdido sua relevância. Entretanto, a verdade é que não... o filme de Simon Kinberg não é tão ruim assim, não!

Também passa longe de igualar a qualidade pulsante de “Primeira Classe”, o melhor filme de toda franquia, ou mesmo a maestria sempre austera de “Dias de Um Futuro Esquecido”, que manteve um nível considerável de qualidade, mas certamente evita muitos dos equívocos estapafúrdios presentes em “Apocalypse”, por exemplo.

Na pior das hipóteses, o roteiro (também escrito por Kinberg) trabalha os elementos com absoluta desenvoltura e familiaridade –tão habituado ele está com o material envolvendo os mutantes que seu manejo é algo que ele faz com serenidade.

No prólogo, temos uma bem-feita cena de acidente, onde uma ainda jovem Jean Grey perde os pais durante um uso inadvertido de seus poderes (cena esta que contradiz algumas circunstâncias nas quais essa mesma personagem foi introduzida no filme anterior, “Apocalypse”). Corta para a atualidade –ou os anos 1980 ou 90 na cronologia incerta da série... –quando Jean (agora interpretada pela gatíssima Sophie Turner, de “Game Of Thrones”) é uma das alunas da Escola Charles Xavier Para Jovens Super-Dotados, e integra, ao lado de Mística (Jennifer Lawrence), Ciclope, seu namorado (Tye Sheridan), Mercúrio (Evan Peters), Noturno (Kodi Smith-McPhee), Tempestade (Alexandra Ship) e Fera (Nicholas Hoult), o grupo conhecido como X-Men, uma espécie de equipe composta de mutantes, disponibilizados por Charles Xavier (James McAvoy), durante as mais variadas emergências a fim de preservar uma boa imagem do povo mutante perante as pessoas normais.

Numa ocasião surge, portanto, uma emergência mais complicada que o habitual: Um ônibus espacial sofre uma avaria e fica à deriva no espaço à mercê do que parece ser uma tempestade de energia solar. À bordo de seu avançado avião high-tech, o Pássaro Negro, os X-Men partem para o salvamento, e quando as coisas se complicam de verdade, os poderes de Jean se revelam fundamentais: Ele consegue proteger a todos, mas é assolada pela estranha radiação que dela parece se apoderar.

Jean, no entanto, sobrevive. Mas, ao voltar para a Terra, uma energia perigosa e imprevisível começa a se apoderar de sua vontade, potencializando e amplificando seus poderes (a telepatia dela sobrepuja a do Prof. Xavier) e ressaltando seus sentimentos negativos em relação à rejeição e ao abandono. Com isso, Jean volta-se contra Xavier e os X-Men e, no processo, descobre-se poderosa o bastante para superar a todos .

Ao mesmo tempo, criaturas alienígenas descem à Terra em busca de Jean, ou melhor, em busca do poder que ela absorveu –e que, em todo universo, parece ser a única criatura capaz de suportá-lo. Liderando esses seres estranhos e muito pouco esboçados ao longo do filme está Vuk, que assume com obviedades o papel de vilã da história (e para a qual a normalmente competente Jessica Chastain entrega uma atuação fria, caricata e apática).

No meio desse entrave, Eric, ou melhor Magneto (Michael Fassbender), assume uma posição mais ambígua: Embora tenha superado seu antagonismo com Charles Xavier –cuja relação oscilava em amizade e rivalidade ao longo dos filmes –ele não concorda de todo com sua postura, embora também não tenha intenção de aliar-se à Vuk e suas inclinações genocidas.

Com essa premissa e com seus ricos personagens justapostos, o roteiro de Kinberg faz o que sempre foi feito em toda franquia; explora suas dinâmicas humanas, ao mesmo tempo em que nunca perde o foco de suas habilidades sobrehumanas. E uma de suas notáveis qualidades é não perder-se em meio à tanta diversidade: Muitas são as cenas, sobretudo, em sua segunda metade, onde vários personagens com poderes diversos estão em conflito, e todos são empregados, de modo geral, com intensidade, coerência e coesão. Pode não parecer nada, mas essa é uma falha muito fácil de se cometer ao se orquestrar um filme sobre super-humanos com tantos poderes distintos entre si. E nela, “Fênix Negra” não cai.

Os maiores problemas que afligem o filme de Simon Kinberg são, na verdade, dois: O primeiro, o fato de Kinberg ter tanta inexperiência como diretor; Nas mãos dele, cenas que tinham tudo para serem antológicas, perdem seu potencial por pequenos detalhes irrisórios, e às vezes, por um tratamento involuntariamente displicente. E, meu Deus, que direção de atores péssima! –ele consegue desperdiçar talentos incontestes como os de Lawrence, McAvoy, Fassbender e Chastain!!

O segundo é o evidente fato dele aqui tentar adaptar o mais famoso dentre todos os arcos narrativos dos X-Men nos quadrinhos, a “Saga da Fênix” –já aproveitada, também sem sucesso, no irregular “X-Men O Confronto Final” –listada, por muitos, entre as melhores HQs de todos os tempos. Se, pelo menos, “Fênix Negra” se sai melhor do que “O Confronto Final” no cômputo geral, ele se obriga a abandonar aspectos empregados naquele filme, e constrói uma pálida versão de elementos que nos quadrinhos eram exuberantes e intensos, resultando assistível, ainda que imperfeito.