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domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Os Vencedores do Globo de Ouro 2024


 Neste domingo, dia 7 de janeiro de 2024, tivemos a entrega dos Golden Globe, dando o ponta-pé inicial na sempre aguardada temporada de premiações. Vamos então aos agraciados nas categorias de cinema:

MELHOR FILME DE DRAMA

Oppenheimer

MELHOR DIREÇÃO

Christopher Nolan (Oppenheimer)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Cillian Murphy (Oppenheimer)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

O épico político, cerebral e autoral de Christoper Nolan sobre o Pai da Bomba Atômica sagrou-se como o grande vencedor da noite. Certamente, um filme com tais características (roteiro extremamente denso, formato narrativo desafiador e mais de três horas de duração) e que ainda conseguiu –graças a uma campanha viral (o “Barbieheimer”) bastante bem-sucedida –ultrapassar um bilhão nas bilheterias haveria de ser reconhecido e enaltecido. Nessa conjuntura, os fãs podem começar a ficar ávidos para verem a possível consagração de Nolan (podendo enfim levar um Oscar por uma obra que atende as demandas convencionais da Academia) e o reconhecimento de Robert Downey Jr, como ator coadjuvante.

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Paul Giamatti (The Holdovers)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

Ao que parece, o reconhecimento ao grande trabalho de Martin Scorsese vai se restringir às indicações e à premiação de Lilly Gladstone –uma pena, embora a premiação tenha mirado mesmo num dos mais inabaláveis quesitos do filme; a interpretação dela é, de fato, estupenda!

Surgindo como um inesperado azarão, “The Holdovers” –ou “Os Rejeitados” –de Alexander Payne levou os prêmios de Melhor Ator Cômico (para um simpaticíssimo Paul Giamati, colaborador de Payne em “Sideways-Entre Umas e Outras”) e Melhor Atriz Coadjuvante para a ótima Da’Vine Joy Randolph. Se e temporada de prêmios não trouxer nenhuma outra surpresa, dá pra ver todos chegando com certa tranquilidade ao Oscar (e, pelo menos Lilly e Da’Vine, como favoritas!).

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Emma Stone (Pobres Criaturas)

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Pobres Criaturas

Também o Golden Globe confirmou um favoritismo que vinha se reforçando nas últimas semanas, a da sempre querida Emma Stone como Melhor Atriz Cômica, o que auxiliou o próprio filme onde ela está, o convicto e estranho “Pobres Criaturas”, ainda inédito no Brasil, a ganhar o prêmio de Melhor Filme de Comédia. Não é certeza que esse favoritismo de Emma se mantenha nos próximos prêmios –ao contrário do Golden Globe, ela disputará diretamente com as fortes candidatas em Atriz Dramática também, o que torna as coisas mais difíceis –mas, não há dúvidas de que o filme de Yorgos Lanthimos se beneficia de um burburinho crescente.

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

MELHOR ROTEIRO

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Também inesperadas foram as vitórias de Haya Miyazaki e seu “The Boy and The Heron” –ao que tudo indica, aqui no Brasil “O Menino e A Garça” –quando todos imaginavam que o prêmio iria para “Homem-Aranha Através do Aranhaverso” (será que o Miyazaki ganhará mais um Oscar, depois de vinte anos? É a pergunta que não quer calar) e Justine Triet e seu “Anatomia de Uma Queda” levando os prêmios de Roteiro e Filme em Língua Não Inglesa, embora sejam essas mesmas duas categorias aquelas que menos costumam se repetir no Oscar. Ainda assim, uma obra que acaba de ganhar novas atenções de público e crítica.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Houveram os que comemoraram (rejeitando a coragem questionadora do projeto), e os que lamentaram (grande parte do público que o fez a grande bilheteria de 2023) o fato das 9 indicações de “Barbie” converterem-se em tão somente dois prêmios (o merecido Canção Original e o novo Conquista Cinematográfica e de Bilheteria, que ficou com a maior cara de prêmio de consolação). No entanto, a obra de Greta Gerwig não deve ser, deveras, subestimada nesta temporada; o Oscar virá, com suas categorias técnicas para referendá-lo –e os prêmios de Melhor Direção de Arte e Melhor Figurinos parecem ser quase certos!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2024


 Mal nos acostumamos com a ideia de que o frenesi de 2023 entrou em sua reta final, e já temos entre nós a lista dos indicados ao Globo de Ouro do ano que vem! O que já confirma algumas previsões para uma certa estatueta dourada; e aponta para algumas surpresas também. Eis, portanto, os indicados nas categorias de cinema:

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

The Boy and The Heron

Elementos

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Suzume

Wish

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Anatomia de uma Queda (França)

Folhas de Outono (Finlândia)

Io Capitano (Itália)

Vidas Passadas (Estados Unidos)

Society of the Snow (Espanha)

Zona de Interesse (Reino Unido/Estados Unidos)

MELHOR FILME DE DRAMA

Anatomia de Uma Queda

Assassinos da Lua das Flores

Maestro

Oppenheimer

Vidas Passadas

Zona de Interesse

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Air

American Fiction

Barbie

The Holdovers

Segredos de um Escândalo

Pobres Criaturas

A categoria de animação tem, em “Homem-Aranha Através do Aranhaverso”, seu maior favorito, com a boa repercussão de “Super Mario Bros” e o fascínio recente provocado por “Suzume” colocando-os logo atrás. Na categoria dos estrangeiros, curiosamente, dois filmes produzidos (e, portanto, representando) os EUA concorrem a Melhor Filme em Língua Não Inglesa, tratam-se de “Vidas Passadas”, produzido pela A4 e falado, em sua maior parte no idioma sul-coreano, e o britânico “Zona de Interesse”, dirigido por Jonathan Glazer (de “Sob A Pele”), cuja trama é toda falada em alemão. Além disso, esses dois e mais o francês “Anatomia de Uma Queda” concorrem também na categoria maior de Melhor Filme de Drama. Contudo, nessas categorias principais, apesar da presença intimidadora da grande obra de Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, quem reina supremo são “Oppenheimer” (em Drama, com 8 indicações) e “Barbie” (em Comédia e Musical, com 9, o recordista!), mostrando que a dobradinha nos cinemas ocorrida no meio do ano ainda está a fascinar público e crítica. Interessante será vermos para qual deles a predileção do Oscar irá pender, uma que vez que lá os filmes concorrerão todos numa só categoria.

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Bradley Cooper (Maestro)

Leonardo DiCaprio (Assassinos da Lua das Flores)

Colman Domingo (Rustin)

Barry Keoghan (Saltburn)

Cillian Murphy (Oppenheimer)

Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Annette Bening (NYAD)

Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

Sandra Hüller (Anatomia de uma Queda)

Greta Lee (Vidas Passadas)

Carey Mulligan (Maestro)

Cailee Spaeny (Priscilla)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Nicolas Cage (Dream Scenario)

Timothée Chalamet (Wonka)

Matt Damon (Air)

Paul Giamatti (The Holdovers)

Joaquin Phoenix (Beau Tem Medo)

Jeffrey Wright (American Fiction)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Fantasia Barrino (A Cor Púrpura)

Jennifer Lawrence (Que Horas Eu Te Pego?)

Natalie Portman (Segredos de um Escândalo)

Alma Pöysti (Folhas de Outono)

Margot Robbie (Barbie)

Emma Stone (Pobres Criaturas)

Entre os atores, até agora ninguém parece mais relacionado ao prêmio do que o irlandês Cillian Murphy, embora Cooper e Dicaprio tenham chances de crescer ao longo da temporada. Na categoria de intérprete cômico, em meio à nomes de grande estatura como o sempre amado pelo público Nicolas Cage, o ótimo Timothée Chalamet e os sempre competentes Paul Giamatti e Matt Damon, além de Joaquim Phoenix, surpreendentemente indicado pelo terror “Beau Tem Medo” (há quem lamente ele não concorrer em Ator Dramático por “Napoleão”, eu certamente não sou uma dessas pessoas), o favoritismo acabou indo para Jeffrey Wright por seu trabalho em “American Fiction”, premiado no Festival de Toronto e, recentemente, no People’s Choice Awards.

Entre as atrizes, muitos torcem por uma vitória da excelente Lily Gladstone na categoria de drama, ela que é uma das forças maiores do filme de Scorsese, a despeito da forte concorrência de Annette Bening; na categoria de comédia, podemos perceber que Jennifer Lawrence, nem fazendo uma comédia chula e vulgar consegue perder a predileção do público e da crítica (embora o seu filme também seja realmente bom), mas ela tem de enfrentar a franca favorita ao prêmio, Margot Robbie, a Barbie em pessoa!

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Willem Dafoe (Pobres Criaturas)

Robert de Niro (Assassinos da Lua das Flores)

Robert Downey Jr (Oppenheimer)

Ryan Gosling (Barbie)

Charles Melton (Segredos de um Escândalo)

Mark Ruffalo (Pobres Criaturas)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Emily Blunt (Oppenheimer)

Danielle Brooks (A Cor Púrpura)

Jodie Foster (NYAD)

Julianne Moore (Segredos de um Escândalo)

Rosamund Pike (Saltburn)

Da'vine Joy Randolph (The Holdovers)

MELHOR DIREÇÃO

Bradley Cooper (Maestro)

Greta Gerwig (Barbie)

Yorgos Lanthimos (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

MELHOR ROTEIRO

Greta Gerwig & Noah Baumbach (Barbie)

Tony McNamara (Pobres Criaturas)

Christopher Nolan (Oppenheimer)

Eric Roth & Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

Celine Song (Vidas Passadas)

Justine Triet & Arthur Harari (Anatomia de uma Queda)

Seria esta a grande chance de Robert Downey Jr. (inclusive para chegar ao Oscar como forte favorito)? É o que, até aqui, está parecendo. Entre as coadjuvantes mulheres, Jodie Foster parece destacar-se soberana, entretanto, os trabalhos de Julianne Moore e Da’Vine Joy Randolph (de “Cidade Perdida”) têm tempo para crescerem até a premiação.

Na categoria de diretores, temos a disputa que parece monopolizar as atenções entre Christopher Nolan e Greta Gerwig (com ligeira vantagem para Nolan em vista da natureza mais séria de seu filme), com Martin Scorsese correndo, por enquanto, por fora. É de se supor que a Imprensa Estrangeira compense, entre Nolan e Gerwig, aquele que perder em Direção com o prêmio de Roteiro.

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Jerskin Fendrix (Pobres Criaturas)

Ludwig Göransson (Oppenheimer)

Joe Hisaishi (The Boy and The Heron)

Mica Levi (Zona de Interesse)

Daniel Pemberton (Homem-Aranha Através do Aranhaverso)

Robbie Robertson (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"Addicted to Romance, Bruce Springsteen (She Came to Me)

"Dance the Night", Mark Ronson, Andrew Wyatt, Dua Lipa, Caroline Ailin (Barbie)

"I'm Just Ken", Mark Ronson, Andrew Wyatt (Barbie)

"Peaches", Jack Black, Aaron Horvath, Michael Jelenic, Eric Osmond, John Spiker (Super Mario Bros)

"Road to Freedom", Lenny Kravitz (Rustin)

"What Was I Made For", Billie Eilish O'Connell, Finneas O'Connell (Barbie)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Barbie

Guardiões da Galáxia Vol. 3

John Wick 4

Missão Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Oppenheimer

Homem-Aranha Através do Aranhaverso

Super Mario Bros

Taylor Swift: The Eras Tour

A categoria Conquista Cinematográfica e de Bilheteria é uma das duas novas categorias criadas pelo Globo de Ouro para esta nova edição –e franca favorita para deixar de existir já no ano que vem... –aparentemente feita para premiar o desempenho na bilheteria de projetos que levam o público às salas nesses tempos de streaming (o que justifica a presença, entre os indicados, do show de Taylor Swift). Nesse sentido, nenhum deles merece mais a ovação do que “Barbie”, a grande bilheteria de 2023.

A entrega dos prêmios e revelação dos ganhadores será realizada no domingo, dia 7 de janeiro de 2024.

domingo, 12 de novembro de 2023

Oppenheimer


 O cinema de Christopher Nolan sempre foi uma junção imprevista de gêneros comerciais. Ação e espionagem com thriller onírico em “A Origem”. Ficção científica em larga escala e drama familiar em “Interestelar”. Adaptação de histórias em quadrinhos com referência ao policial setentista em “Cavaleiro das Trevas”. Suspense rocambolesco com filme de época em “O Grande Truque”, e assim por diante. Há uma nova mescla em “Oppenheimer” e, na habilidade melindrosa e na insuspeita elegância com que tudo é feito, isso é um pouquinho mais difícil de ser dissecado.

Como sempre, no interesse irreprimível por seus personagens e suas trajetórias, Nolan distorce, torce e retorce o tempo a fim de acompanhar, justapor e refletir as várias etapas de suas vidas. “Como se resume toda uma vida?” é uma pergunta que surge, mais de uma vez, já na primeira parte de “Oppenheimer”. Nolan parece usar de seu filme para afirmar que tal feito não é virtualmente possível. Seu protagonista é J. Robert Oppenheimer (vivido com solidez metódica e competência instintiva por Cillian Murphy), o ‘pai da bomba atômica’. E quando o encontramos, Nolan o mostra contrapondo duas situações distintas no tempo. Em 1954, quando foi intimado a uma audiência de segurança pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), e logo depois, já na qualidade de pivô para uma audiência posterior no senado norte-americano, a fim de confirmar a neutralização de sua influência política, a envolver o Almirante Lewis Strauss (Robert Downey Jr., brilhante).

O Almirante Strauss, aliás, quando surge, quase sempre nos momentos fundamentais da segunda metade da trama, parece protagonizar um outro filme à parte –e não à toa, suas cenas são mostradas por Nolan em preto & branco, numa forma de diferenciar, seus segmentos dos demais, protagonizados por Oppenheimer. Ademais, essas duas sequências de audiência (a da AEC, em cores, e a do Senado, em preto & branco) são duas circunstâncias de julgamento, onde estão em pauta questões morais que só chegaram a pesar de verdade anos depois da gênese desconcertante da bomba atômica, e do poder destrutivo que ela, por fim, revelou ao mundo. Em algum momento, desse fluxo narrativo –que Nolan converte num turbilhão de informações tecnicamente pesadas até deliberadamente harmonizar seu ritmo, num esforço de acompanhar a mente inquieta de seu personagem –o filme começa a contar, de modo um pouco mais linear, a história de Oppenheimer: Estudante de Física Quântica na Europa, onde acompanhou com entusiasmo as palestras do cientista Niels Bohr (Kenneth Brannagh), em meados da década de 1920, Oppenheimer ficou conhecido por sua dedicação e tenacidade nos círculos acadêmicos da Alemanha e da Suíça antes de voltar aos EUA, na tentativa de levar as arrojadas pesquisas no campo quântico para as universidades norte-americanas. Em Berkeley, na Califórnia, ele conhece o Prof. Ernest Lawrence (Josh Hartnett), ao lecionar no Instituto de Tecnologia, época em que suas primeiras inclinações políticas de esquerda aparecem: Ele incentiva alunos e professores para a criação de um Sindicato que representasse a categoria, e envolve-se com a ativista do Partido Comunista Jean Tatlock (Florence Pugh) para depois casar-se com a ex-comunista Kitty Puening (Emily Blunt).

Em 1942, com a Segunda Guerra Mundial em curso, e com os norte-americanos alarmados com as pesquisas avançadas em fissão nuclear dos cientistas alemães, o governo dos EUA, representado pelo General Leslie Groves (Matt Damon) convida o Dr. Oppenheimer a liderar o Projeto Manhattan com a complicada missão de ultrapassar os esforços alemães e chegar na frente da corrida armamentista para construir a primeira bomba atômica. Para tanto, Oppenheimer faz exigências inusitadas aos militares: constrói toda uma cidadezinha do zero, com infraestrutura e tudo, no vale amplo e deserto de Los Álamos, para abrigar os vários departamentos de produção que ele iria administrar a fim de que as pesquisas quânticas avançassem sem os empecilhos da sempre –como a distância dos familiares, por exemplo –e (a exigência mais difícil para o Exército Norte-Americano), fazer vista grossa às tendências comunistas deste ou daquele cientista, tido por Oppenheimer como fundamental ao projeto. Sua equipe incluía o abnegado Edward Teller (o também diretor Ben Safdie), ferrenho defensor do desenvolvimento da bomba de hidrogênio, o cauteloso e criterioso Isidor Isaac Rabi (David Krumholtz, de “Roda Gigante”), o pesquisador Enrico Fermi (Danny Deferrari) e o atencioso David L. Hill (Rami Malek).

Nos anos tumultuados entre o desenvolvimento do projeto e a criação de fato da bomba, muitas coisas acontecem –os alemães são derrotados, restando somente a oposição bélica dos japoneses no Pacífico; o presidente Dwight Eisenhower, responsável pelo início do Projeto Manhattan, morre e é substituído por Harry S. Truman (vivido por Gary Oldman); e Jean Tatlock suicida-se na banheira de sua casa –contudo, no dia 16 de julho de 1945, os esforços de Oppenheimer e sua equipe numerosa culminam no Teste Trinity, realizado num campo deserto, nas proximidades de Alamogordo, provando a viabilidade da bomba atômica, e seu poder descomunal de destruição. Na sequência, as cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki são escolhidas para serem os alvos da bomba, encerrando, por fim, as hostilidades da Grande Guerra.

Entretanto, os transtornos de Oppenheimer estavam longe de terminar. Quando ele –movido por temores anteriores ao Projeto Manhattan, discutidos com o sensato Prof. Einstein (Tom Conti), de que a bomba atômica seria um perigo para o mundo caso não houvesse colaboração entre as nações –busca restringir novos avanços na pesquisa de energia nuclear para fins bélicos, ele logo deixa de ser uma celebridade para, aos olhos do governo, se tornar uma figura discordante com os preceitos da Guerra Fria contra União Soviética que então se precipitou no horizonte, o que o leva à audiência de segurança da AEC, cujos depoimentos e interrogatórios (todos posicionados como ganchos pontuais dos flashbacks do roteiro), visaram descobrir as relações comunistas mantidas por Oppenheimer.

Nesse manejo assombroso que executa de uma ampla, complexa e nada simples história real e no vocabulário tecnicamente complexo que seu roteiro abraça, Nolan uma vez mais realiza cinema de gente grande, desta vez, mesclando um resgate urgente e necessário de um registro histórico imprescindível com sua evidente paixão por expedientes de suspense; Ao alterar a cronologia dos eventos como são mostrados, ele transforma a última hora (das nada modestas três que o filme possui!) num verdadeiro thrilher de mistério, para então, ao fim, regressar à intimista reflexão com Albert Einstein, e deixar o público reflexivo com as sombrias (e muito reais) possibilidades da trajetória humana.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Tenet


 Existem meios distintos de se abordar “Tenet”: Para a maioria, ele é visto como o filme de Christopher Nolan que finalmente fracassou (tendo sido lançado nos cinemas em meio ao desafortunado cenário da pandemia de 2020) culminando num rumo inevitável pavimentado por sua ambição, pretensão e megalomania.

Entretanto, há algo de ranzinza, invejoso e até rancoroso nessa avaliação: “Tenet” padece de todas as características positivas e negativas do cinema de Nolan, mas é um gesto de deliberada má vontade não reconhecer o fascínio provocado por sua exuberância, nem o assombro acarretado pelo manejo espetacular de seu vasto aparato técnico.

É desafiador apreender “Tenet” numa mera sinopse ou explicação: Nolan ampara sua narrativa em percepções do cinema comercial, em arquétipos que nada mais são do que portais para um de seus mais imponderáveis projetos.

Se existem dois trabalhos pregressos de Nolan que assombram “Tenet” o tempo todo, eles provavelmente são “Amnésia” e “A Origem”: Do primeiro, Nolan pega seu insistente objetivo de inverter a percepção do tempo, e dessa inversão fazer a fonte de sua narrativa. Do segundo, ele extrai a estética, a roupagem, o estilo aventuresco de ação épica e global com traços de filme de espionagem, e possivelmente a intenção de repetir um fenômeno bastante singular entre público e crítica.

Os delírios de Nolan se iniciam numa já estupenda cena do que aparenta ser um atentado na Ópera de Kiev: Agentes interferem na ação de uma espécie de grupo terrorista, entre esses homens misteriosos está o protagonista anônimo vivido por John David Washington (de “Infiltrado Na Klan”). A missão –de resgatar um agente duplo cuja captura o atentado serviria para acobertar –dá errado e ele... morre?!

Talvez sim, talvez não; Ele acorda afirmando que “as pílulas suicidas não funcionaram”... mas, mesmo isso é uma informação incerta –o que poderia indicar que o filme todo pode ou não se passar num pós-morte! A partir daí, as coisas não facilitam. O sacrifício dele o qualifica para subir de nível no ofício de agente secreto que aparentemente desempenhava –instrução recebida numa breve aparição de Martin Donovan, ator que Nolan usou em “Insônia”. Ele –vamos chamá-lo de O Protagonista –é então designado para algo insólito: Um armamento de características improváveis é rastreado pela CIA; tratam-se de projéteis de balas que, ao invés de se chocarem contra um pedaço de muro, retrocedem (inclusive, revertendo também o dano feito ao concreto!). São peças e acessórios encontrados cuja radiação inverte seu fluxo do tempo, sua entropia. A teoria: Tais utensílios veem do futuro, com sua inversão do tempo realizada por alguma tecnologia, e são indícios de uma guerra –talvez, a Terceira Guerra Mundial! –que o Protagonista tem como missão impedir.

A pista dessa inusitada munição o leva à enigmática Priya (Dimple Kapacia), uma traficante internacional de armas na Índia, e depois, a Sator (Kenneth Branagh, espantosamente ameaçador), um perigoso traficante armamentista soviético de quem ele se aproxima por meio da torturada esposa dele, Kat (a interessantíssima Elizabeth Debicki, de “Guardiões da Galáxia-Vol. II”).

Contudo, tal descrição não chega nem perto de ilustrar a complexidade pulsante que predomina na narrativa, ou na trama fragmentada e mirabolante ou mesmo na execução densa e tecnicamente arrojada de “Tenet”: Christopher Nolan, como roteirista e como diretor, desenvolve um conceito onde não apenas as pistas e informações nunca bastam para esclarecer os acontecimentos intrincados por completo, como também, usa de expedientes presentes no próprio enredo para alterar o fluxo do tempo e dos acontecimentos.

Vamos ver se é possível explicar: Dentro de “Tenet” existem personagens que, irradiados por essa tecnologia, têm sua entropia alterada, e vivenciam o tempo em ordem oposta –assim, enquanto alguns personagens agem e fazem as coisas normalmente, outros, paralelos a eles, estão experimentando tudo em ordem invertida (e para eles é a realidade que transcorre de trás para frente!). Lá pelas tantas, na sucessão dessa trama já não muito simples de ser acompanhada, eis que os personagens do Protagonista, Kat e Neil (Robert Patinson, ótimo) usam dessa tecnologia e passam a vivenciar o tempo invertido; e todos os eventos do filme até então vão transcorrendo para eles ao inverso, passando por cenas do filme que testemunhamos desde o começo, até regressar em dias e chegar a situações que surgiram aqui e ali como flashbacks. Parece confuso? Sim, e é muito! É necessário força de vontade para compreender essa estripulia narrativa de Nolan, e quase nunca isso é possível, restando ao expectador somente desencanar e acompanhar o turbilhão de acontecimentos na esperança de que, se nós, como público, nos perdemos, ao menos Nolan, como realizador, não se perca.

Felizmente, ele retribui a atenção que dedicamos à essa sua obra até o final com uma construção primorosa de cenas onde se evidencia os valores elevadíssimos da direção de fotografia (a cargo do talentoso Hoyte Van Hoytema), da montagem prodigiosa de Jennifer Lame (editar todas aquelas sequências caóticas de ação, com trechos convencionais e invertidos e ainda torná-los inteligíveis, resultou num trabalho que isoladamente por ser chamado de obra-prima!) e dos nunca menos que assombrosos efeitos visuais.

Os críticos mais ferrenhos e sisudos insistem que Christopher Nolan, aqui, deu um salto demasiadamente avançado em direção à mescla de cinema cerebral, mas de propensões comerciais, com a qual ele vinha moldando suas obras. E isso pode, de fato, soar elitista, narcisista até, mas o cinema de Nolan não tem um pingo de comodismo nem de conformidade e esse é seu mérito mais salutar: Enxergar, mesmo em meio ao intoxicante ambiente de convencionalismo hollywoodiano, engrenagens pelas quais a luz refletida na tela pode ainda alcançar áreas inexploradas de nossas mentes e de nossos sonhos, e lá nos surpreender.

Ele às vezes se envaidece com o próprio arrojo, mas eu ainda aplaudo Christopher Nolan.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Grande Truque


 Projeto do diretor Christopher Nolan ensanduichado entre “Batman Begins” e “Batman-O Cavaleiro das Trevas”, este “O Grande Truque” pode ter sido encarado por ele como um respiro da imersão no universo de histórias em quadrinhos, imergindo, em contrapartida, nos meandros nebulosos e enigmáticos do mundo dos ilusionistas.

Curiosamente, na mesma época, outro trabalho brilhante, “O Ilusionista”, de Neil Burger, com Edward Norton, também dividiu com ele o mesmo tema, os louros da crítica e algum sucesso de bilheteria. Na comparação com a aventura mais singela estrelada por Edward Norton, “O Grande Truque” é logística e narrativamente ambicioso lançando mão de muitas aspirações cerebrais que Nolan só iria amplificar em obras futuras, transformando em seu grande diferencial, como realizador, esse esforço em conciliar, em blockbusters nada discretos, essa predisposição autoral e até intelectual com narrativas escapistas para as massas.

Muitos podem dizer que “O Grande Truque” é desafiador até demais para as percepções do público: Pra começar, há um esforço claro de Nolan e dos atores Hugh Jackman e Christian Bale em tornar ambígua a disputa implacável e incessante entre os mágicos ilusionistas Robert Angier e Alfred Borden. À despeito dessa disputa –mote central do filme –envolver os atores que viviam então Wolverine e Batman nas telas (e de ser esse embate uma clara referência aos olhos do público), não há distinção de bem e mal esboçada nas caracterizações; um elemento corajoso, mas que pode desanimar uma parte considerável da audiência.

Angier é frívolo, amargurado e rancoroso. Borden é arrogante, presunçoso e esnobe. São personagens construídos não para cativar de pronto o público, mas para enfatizar a ele suas características humanas e, não raro, reprováveis: Em ambos jaz uma obsessão injustificada de superar as realizações do outro.

Para cada truque de mágica que Angier elabora, Borden já tem um novo para arrebatar o público e lhe roubar alguns expectadores em plena Londres do Século XIX. Entretanto, sabemos que algo deu tremendamente errado: O filme já se inicia com Borden na cadeia por um crime estarrecedor. Os propósitos que levaram a esse crime são então esmiuçados num flashback –recurso que a narrativa de Nolan usa até levar o público a perder o fio da meada –e dizem respeito aos truques de mágica que, encenados noite após noite nos palcos londrinos, serviram de duelo entre dois homens dispostos a serem insuperáveis em seu ofício.

Levando o conceito de disputa às últimas consequências, Nolan arremessa seus protagonistas num empate que ganha circunstâncias cada vez mais fantasiosas e imprevisíveis –e, portanto, trágicas.

Há, no cinema de Christopher Nolan, esse inusitado resgate de temas masculinos por meio de um prisma onde gêneros improváveis são investigados. Disso se alimenta sua filmografia, incluindo a aclamada “Trilogia do Cavaleiro das Trevas”: Temos o temor do esquecimento (“Amnésia”), ou da dissolução do legado (“Interestelar”) e da imponderabilidade dos anseios (“A Origem”); em “O Grande Truque” está em pauta o medo da derrota perante um adversário, a tornar bastante humana a percepção de um filme todo incomum.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Dunkirk

Christopher Nolan, ao realizar seu primeiro filme de guerra, procurou ser inesperado; ele foi na contramão do que se pressupõe ser um dos paradigmas do cinema bélico e amparou sua obra –veja só –no silêncio: “Dunkirk” prescinde (ou, pelo menos, busca prescindir) de diálogos e efeitos sonoros mais barulhentos para trilhar uma narrativa que quase remete ao cinema mudo.
Tudo gira em torno dos acontecimentos na cidade francesa de Dunkirk –ou Dunquerque, conforme o texto –na qual um contingente considerável de soldados ingleses, franceses e belgas foi encurralado pelas forças alemãs em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial; e mais de um ano antes do ingresso dos EUA no conflito.
De 26 de maio a 4 de junho daquele ano, os soldados desarmados, desmotivados, sem recursos e sem suprimentos foram deixados a mercê dos bombardeios inimigos naquela praia cuja travessia do Canal da Mancha era a única coisa que os separava de sua Inglaterra natal.
Desse episódio dramático –e pouco explorado pelo cinema –Nolan extraí as peças que encaixadas irão compor sua narrativa.
Uma delas acompanha um soldado inglês (o jovem Fionn Whitehead) que, na seqüência inicial –silenciosa, como muitas deste filme –acaba sendo o único sobrevivente de um grupo que a duras penas conseguiu chegar ao trecho da praia, ainda sob domínio dos franceses. Ele protagonizará –ao lado de outros personagens que aparecerão como o oficial inglês vivido por Kenneth Brannagh –a árdua e penosa semana que eles passarão ali, até que algum milagroso indício de ajuda apareça.
Em outro lugar, a narrativa de Nolan irá se deter –desta vez durante um dia –no esforço dos ocupantes de um barco pesqueiro, seu dono (Mark Rylance, de “Ponte de Espiões”), seu filho (Tom Glynn Carney) e um amigo (Barry Keoghan) para irem, por conta própria, cruzar o Canal da Mancha e resgatar os desamparados soldados.
A terceira peça do quebra-cabeças é a seqüência estrelada por Tom Hardy no papel de um dos pilotos de caça britânico. Ao longo de uma hora, o filme registra os esforços dele em tentar proteger os barcos e os soldados em terra e mar da sanha impiedosa dos bombardeios alemães, ávidos por tantos alvos fáceis à sua disposição.
Dirigindo com primor inquestionável –e, não raro, exaurindo o expectador com a tensão extenuante que consegue criar –Christopher Nolan contrapõe essas três linhas narrativas (a semana toda do jovem soldado; o dia inteiro dos tripulantes do barco; toda a hora do piloto de avião) e com elas instiga e desafia o expectador a encontrar o momento e a maneira com que elas haverão de se encontrar (e elas realmente se encontram). Fundamental para o enlace hábil de todas essas pontas soltas –bem como da impressão que almeja suscitar por cada uma delas –é a trilha sonora de Hans Zimmer, tão mais fundamental, válida e inestimável quando estamos falando de um filme com falas reduzidas ao mínimo necessário.
Há uma incongruência no resultado incomum que Nolan sempre costuma obter ao trabalhar certas emoções. Em “Dunkirk” ela surge em dois extremos: A euforia emocionante e vívida ao constatar o esforço do cidadão comum quando incontáveis moradores arriscam suas vidas para salvar, a bordo de barcos de passeio e outros meios marítimos civis, a vida de milhares de jovens soldados, e a decepção profunda acompanhada de uma amarga tristeza ao perceber que este é um caso isolado de solidariedade em meio à uma guerra gigantesca, sangrenta e desumana.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Indicados Ao Oscar 2018

E eis que saíram então os indicados ao Oscar 2018. Vamos a eles:

Melhor Filme
Me Chame Pelo Seu Nome
O Destino de Uma Nação
Dunkirk
Corra! 

Lady Bird – É Hora de Voar
Trama Fantasma
The Post – A Guerra Secreta
A Forma da Água
Três Anúncios Para Um Crime

Melhor Diretor
Christopher Nolan, por “Dunkirk”
Greta Gerwig, por “Lady Bird – É Hora de Voar”
Jordan Peele, por “Corra!”
Guillermo Del Toro, por “A Forma da Água”
Paul Thomas Anderson, por “Trama Fantasma”

A vitória no Globo de Ouro faz de “Três Anúncios Para Um Crime” o mais forte dos indicados, embora “A Forma da Água” se destaque no número de indicações (13 no total). Como costuma acontecer, devem ser esses dois títulos que irão polarizar as apostas. Curioso é a ausência de “Três Anúncios...” na categoria de Melhor Diretor –o quê pode fazer dele, se ganhar, o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme sem ser indicado a categoria de Diretor desde “Argo”.
Nesse sentido, o caminho está livre para Guillermo Del Toro, ainda que haja tempo para todos os outros indicados ganharem mais força, sobretudo, Christopher Nolan e Greta Gerwig.

Melhor Atriz
Sally Hawkins, por “A Forma da Água”
Frances McDormand, por “Três Anúncios Para Um Crime”
Margot Robbie, por “Eu, Tonya”
Saoirse Ronan, por “Lady Bird – É  Hora de Voar”
Meryl Streep, por “The Post – A Guerra Secreta”

E aí está Meryl Streep outra vez. Tudo bem que tirando o lugar de muitas atrizes que entregaram trabalhos talvez até superiores ao dela, como Emma Stone ou Jessica Chastain. Mas, é muito bom ver que Margot Robbie foi lembrada pelo que é, até então, seu melhor trabalho. Sally Hawkins pode surpreender, entretanto, a briga ficará mesmo entre a veterana Frances McDormand –já vencedora da estatueta por “Fargo”, em 1998 –e a jovem Saoirse Ronan. A primeira até tem um certo favoritismo, mas é pela segunda que estou torcendo.

Melhor Ator
Timothée Chalamet, por “Me Chame Pelo Seu Nome”
Daniel Day-Lewis, por “Trama Fantasma”
Daniel Kaluuya, por “Corra!”
Gary Oldman, por “O Destino de Uma Nação”
Denzel Washington, por “Roman J. Israel, Esq.”

Espero que tenha chegado mesmo a hora de Gary Oldman. Dentre tantos atores consagrados, ele é um daqueles casos absurdos que nunca levou um Oscar –até mesmo indicação ele possuía apenas uma, por “O EspiãoQue Sabia Demais”.
E já que deixaram James Franco e sua impecável caracterização de Tommy Wiseau de fora dos indicados, é justo dizer que Oldman é, de longe, o maior merecedor do prêmio.

Melhor Roteiro Adaptado
Me Chame Pelo Seu Nome
Artista do Desastre
A Grande Jogada
Logan
Mudbound

Melhor Roteiro Original
Doentes de Amor
Corra!
A Forma da Água
Lady Bird – É Hora de Voar
Três Anúncios Para Um Crime

O público ficou maravilhado com a indicação de “Logan” para Roteiro Adaptado, embora essa seja uma tática comum da Academia –reconhecer um grande filme fora dos padrões tradicionalistas do prêmio com uma indicação menor –e ele não tem muitas chances concorrendo com francos favoritos como “A Grande Jogada” e, em especial, “Me Chame Pelo Seu Nome”.
O prêmio de Roteiro Original deve reprisar a disputa da categoria de Melhor Atriz ficando entre “Lady Bird” e “Três Anúncios Para Um Crime”.

Melhor Ator Coadjuvante
Willem Dafoe, por “Projeto Flórida”
Woody Harrelson, por “Três Anúncios Para Um Crime”
Richard Jenkins, por “A Forma da Água”
Sam Rockwell, por “Três Anúncios Para Um Crime”
Christopher Plummer, por “Todo o Dinheiro do Mundo”

Melhor Atriz Coadjuvante
Mary J. Blige, por “Mudbound”
Allison Janney, por “Eu, Tonya”
Lesly Manville, por “Trem Fantasma”
Laurie Metcalf, por “Lady Bird – É Hora de Voar”
Octavia Spencer, por “A Forma da Água”

Eis que Richard Jenkins abocanhou uma indicação quando muitos esperavam seu colega de elenco, Michael Shannon. De qualquer maneira, o prêmio está quase nas mãos de Sam Rockwell, favoritíssimo, embora os belíssimos trabalhos de Willem Dafoe e até de seu parceiro Woody Harrelson, no mesmo filme não devam ser subestimados.
Entre as atrizes, dificilmente o Oscar escapará das mãos da competente Allison Janney, no único prêmio pelo qual “Eu, Tonya” é, de fato, o favorito.

Melhor Filme Estrangeiro
Uma Mulher Fantástica (Chile)
O Insulto (Líbano)
Loveless (Rússia)
On Body and Soul (Hungria)
The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)

Muitos torcem pela surpreendente qualidade do chileno “Uma Mulher Fantástica”, mas “The Square” vem forte com a premiada campanha no Festival de Cannes –talvez, seja sua grande chance já que o filme que o derrotou no Globo de Ouro, “In The Pieces” não está indicado.

Melhor Longa de Animação
O Poderoso Chefinho
Viva – A Vida é uma Festa
O Touro Ferdinando
Com Amor, Van Gogh
The Breadwinner

Os trabalhos em animação de 2017 não foram tão altíssima qualidade a julgar pela presença de obras que dividiram a crítica como “O Poderoso Chefinho” e “O Touro Ferdinando”.
Contudo, houve espaço para o adulto e quase experimental “Com Amor, Van Gogh” e para aquela que deve ser francamente a grande animação do ano, “Viva-A Vida É Uma Festa”.

Melhor Edição
Dunkirk
Eu, Tonya
A Forma da Água
Três Anúncios Para Um Crime

Melhor Design de Produção
A Bela e a Fera
Blade Runner 2049
O Destino de uma Nação
Dunkirk
A Forma da Água

Melhor Fotografia
Blade Runner 2049
O Destino de uma Nação
Dunkirk
Mudbound
A Forma da Água

Melhor Figurino
A Bela e a Fera
O Destino de uma Nação
Trama Fantasma
A Forma da Água
Victória e Abdul

Melhor Maquiagem e Cabelo
O Destino de Uma Nação
Extraordinário
Victória e Abdul

Melhores Efeitos Visuais
Star Wars – Os Últimos Jedi
Blade Runner 2049
Guardiões da Galáxia Vol. 2
Kong – A Ilha da Caveira
Planeta dos Macacos – A Guerra

A predominância de “Blade Runner 2049” nas categorias técnicas já era uma coisa esperada, uma compensação por sua injusta ausência entre os indicados principais.
Na categoria de Efeitos Visuais, ele deve bater de frente com o novo “Star Wars”, embora tenha sido hábito da Academia, nos últimos anos, surpreender com suas escolhas (vide o inesperado “Ex-Machina” derrotar o próprio “Star Wars-O Despertar da Força” e “Mad Max-Estrada da Fúria”), o quê abre margem para o ótimo “Planeta dos Macacos-A Guerra” surpreender.

Melhor Mixagem de Som
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

Melhor Edição de Som
Em Ritmo de Fuga
Blade Runner 2049
Dunkirk
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi

Talvez seja a primeira vez que, nas duas categorias de sonoplastia, a Academia ousa repetir exatamente os mesmos indicados –se o mesmo ocorrerá com o vencedor é a grande pergunta. Sabe-se lá quais critérios que os membros votantes usam para discernir o que é Mixagem e o que é Edição de Som...

Melhor Curta de Animação
Dear Basketball
Garden Park
Lou
Negative Space
Revolting Rhymes

Melhor Curta
Dekalb Elementary
The 11 o’clock
My Nephew Emmett
The silent Child
Waty Wote/All of us

Melhor Canção Original
“Remember Me” – Viva – A Vida é Uma Festa
“This is Me” – O Rei do Show
Mighty River” – Mudbound
“Mystery of Love” – Me Chame Pelo Seu Nome
“Stand Up for Something” – Marshall

Melhor Trilha Sonora
Dunkirk
Trem Fantasma
A Forma da Água
Star Wars – Os Últimos Jedi
Três Anúncios Para Um Crime

A Canção será uma disputa entre “Viva” –até então o favorito –e “O Rei do Show” –que surpreendeu derrotando-o no Globo de Ouro –como essa é a única indicação recebida pelo filme com Hugh Jackman (antes cotado até para as nomeações principais) este pode acabar sendo um premio de consolação.
Já na Trilha Sonora, os concorrentes mais fortes são “Dunkirk” –com um trabalho de Hans Zimmer essencial à narrativa do filme –e a belíssima partitura de Alexander Desplat para “A Forma da Água” –ele já ganhou o Globo de Ouro.

Melhor Documentário
Abacus: Small Enough to Jail
Faces Places
Icarus
Last Men in Aleppo
Strong Island

Melhor Documentário de Curta
Edith+Eddie
Heaven is a Traffic Jam on the 405
Heroin(e)
Kayayo: The Living Shopping Baskets
Knife Skills
Traffic Stop

A entrega dos prêmios será dia 4 de março.