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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Tenet


 Existem meios distintos de se abordar “Tenet”: Para a maioria, ele é visto como o filme de Christopher Nolan que finalmente fracassou (tendo sido lançado nos cinemas em meio ao desafortunado cenário da pandemia de 2020) culminando num rumo inevitável pavimentado por sua ambição, pretensão e megalomania.

Entretanto, há algo de ranzinza, invejoso e até rancoroso nessa avaliação: “Tenet” padece de todas as características positivas e negativas do cinema de Nolan, mas é um gesto de deliberada má vontade não reconhecer o fascínio provocado por sua exuberância, nem o assombro acarretado pelo manejo espetacular de seu vasto aparato técnico.

É desafiador apreender “Tenet” numa mera sinopse ou explicação: Nolan ampara sua narrativa em percepções do cinema comercial, em arquétipos que nada mais são do que portais para um de seus mais imponderáveis projetos.

Se existem dois trabalhos pregressos de Nolan que assombram “Tenet” o tempo todo, eles provavelmente são “Amnésia” e “A Origem”: Do primeiro, Nolan pega seu insistente objetivo de inverter a percepção do tempo, e dessa inversão fazer a fonte de sua narrativa. Do segundo, ele extrai a estética, a roupagem, o estilo aventuresco de ação épica e global com traços de filme de espionagem, e possivelmente a intenção de repetir um fenômeno bastante singular entre público e crítica.

Os delírios de Nolan se iniciam numa já estupenda cena do que aparenta ser um atentado na Ópera de Kiev: Agentes interferem na ação de uma espécie de grupo terrorista, entre esses homens misteriosos está o protagonista anônimo vivido por John David Washington (de “Infiltrado Na Klan”). A missão –de resgatar um agente duplo cuja captura o atentado serviria para acobertar –dá errado e ele... morre?!

Talvez sim, talvez não; Ele acorda afirmando que “as pílulas suicidas não funcionaram”... mas, mesmo isso é uma informação incerta –o que poderia indicar que o filme todo pode ou não se passar num pós-morte! A partir daí, as coisas não facilitam. O sacrifício dele o qualifica para subir de nível no ofício de agente secreto que aparentemente desempenhava –instrução recebida numa breve aparição de Martin Donovan, ator que Nolan usou em “Insônia”. Ele –vamos chamá-lo de O Protagonista –é então designado para algo insólito: Um armamento de características improváveis é rastreado pela CIA; tratam-se de projéteis de balas que, ao invés de se chocarem contra um pedaço de muro, retrocedem (inclusive, revertendo também o dano feito ao concreto!). São peças e acessórios encontrados cuja radiação inverte seu fluxo do tempo, sua entropia. A teoria: Tais utensílios veem do futuro, com sua inversão do tempo realizada por alguma tecnologia, e são indícios de uma guerra –talvez, a Terceira Guerra Mundial! –que o Protagonista tem como missão impedir.

A pista dessa inusitada munição o leva à enigmática Priya (Dimple Kapacia), uma traficante internacional de armas na Índia, e depois, a Sator (Kenneth Branagh, espantosamente ameaçador), um perigoso traficante armamentista soviético de quem ele se aproxima por meio da torturada esposa dele, Kat (a interessantíssima Elizabeth Debicki, de “Guardiões da Galáxia-Vol. II”).

Contudo, tal descrição não chega nem perto de ilustrar a complexidade pulsante que predomina na narrativa, ou na trama fragmentada e mirabolante ou mesmo na execução densa e tecnicamente arrojada de “Tenet”: Christopher Nolan, como roteirista e como diretor, desenvolve um conceito onde não apenas as pistas e informações nunca bastam para esclarecer os acontecimentos intrincados por completo, como também, usa de expedientes presentes no próprio enredo para alterar o fluxo do tempo e dos acontecimentos.

Vamos ver se é possível explicar: Dentro de “Tenet” existem personagens que, irradiados por essa tecnologia, têm sua entropia alterada, e vivenciam o tempo em ordem oposta –assim, enquanto alguns personagens agem e fazem as coisas normalmente, outros, paralelos a eles, estão experimentando tudo em ordem invertida (e para eles é a realidade que transcorre de trás para frente!). Lá pelas tantas, na sucessão dessa trama já não muito simples de ser acompanhada, eis que os personagens do Protagonista, Kat e Neil (Robert Patinson, ótimo) usam dessa tecnologia e passam a vivenciar o tempo invertido; e todos os eventos do filme até então vão transcorrendo para eles ao inverso, passando por cenas do filme que testemunhamos desde o começo, até regressar em dias e chegar a situações que surgiram aqui e ali como flashbacks. Parece confuso? Sim, e é muito! É necessário força de vontade para compreender essa estripulia narrativa de Nolan, e quase nunca isso é possível, restando ao expectador somente desencanar e acompanhar o turbilhão de acontecimentos na esperança de que, se nós, como público, nos perdemos, ao menos Nolan, como realizador, não se perca.

Felizmente, ele retribui a atenção que dedicamos à essa sua obra até o final com uma construção primorosa de cenas onde se evidencia os valores elevadíssimos da direção de fotografia (a cargo do talentoso Hoyte Van Hoytema), da montagem prodigiosa de Jennifer Lame (editar todas aquelas sequências caóticas de ação, com trechos convencionais e invertidos e ainda torná-los inteligíveis, resultou num trabalho que isoladamente por ser chamado de obra-prima!) e dos nunca menos que assombrosos efeitos visuais.

Os críticos mais ferrenhos e sisudos insistem que Christopher Nolan, aqui, deu um salto demasiadamente avançado em direção à mescla de cinema cerebral, mas de propensões comerciais, com a qual ele vinha moldando suas obras. E isso pode, de fato, soar elitista, narcisista até, mas o cinema de Nolan não tem um pingo de comodismo nem de conformidade e esse é seu mérito mais salutar: Enxergar, mesmo em meio ao intoxicante ambiente de convencionalismo hollywoodiano, engrenagens pelas quais a luz refletida na tela pode ainda alcançar áreas inexploradas de nossas mentes e de nossos sonhos, e lá nos surpreender.

Ele às vezes se envaidece com o próprio arrojo, mas eu ainda aplaudo Christopher Nolan.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Grande Truque


 Projeto do diretor Christopher Nolan ensanduichado entre “Batman Begins” e “Batman-O Cavaleiro das Trevas”, este “O Grande Truque” pode ter sido encarado por ele como um respiro da imersão no universo de histórias em quadrinhos, imergindo, em contrapartida, nos meandros nebulosos e enigmáticos do mundo dos ilusionistas.

Curiosamente, na mesma época, outro trabalho brilhante, “O Ilusionista”, de Neil Burger, com Edward Norton, também dividiu com ele o mesmo tema, os louros da crítica e algum sucesso de bilheteria. Na comparação com a aventura mais singela estrelada por Edward Norton, “O Grande Truque” é logística e narrativamente ambicioso lançando mão de muitas aspirações cerebrais que Nolan só iria amplificar em obras futuras, transformando em seu grande diferencial, como realizador, esse esforço em conciliar, em blockbusters nada discretos, essa predisposição autoral e até intelectual com narrativas escapistas para as massas.

Muitos podem dizer que “O Grande Truque” é desafiador até demais para as percepções do público: Pra começar, há um esforço claro de Nolan e dos atores Hugh Jackman e Christian Bale em tornar ambígua a disputa implacável e incessante entre os mágicos ilusionistas Robert Angier e Alfred Borden. À despeito dessa disputa –mote central do filme –envolver os atores que viviam então Wolverine e Batman nas telas (e de ser esse embate uma clara referência aos olhos do público), não há distinção de bem e mal esboçada nas caracterizações; um elemento corajoso, mas que pode desanimar uma parte considerável da audiência.

Angier é frívolo, amargurado e rancoroso. Borden é arrogante, presunçoso e esnobe. São personagens construídos não para cativar de pronto o público, mas para enfatizar a ele suas características humanas e, não raro, reprováveis: Em ambos jaz uma obsessão injustificada de superar as realizações do outro.

Para cada truque de mágica que Angier elabora, Borden já tem um novo para arrebatar o público e lhe roubar alguns expectadores em plena Londres do Século XIX. Entretanto, sabemos que algo deu tremendamente errado: O filme já se inicia com Borden na cadeia por um crime estarrecedor. Os propósitos que levaram a esse crime são então esmiuçados num flashback –recurso que a narrativa de Nolan usa até levar o público a perder o fio da meada –e dizem respeito aos truques de mágica que, encenados noite após noite nos palcos londrinos, serviram de duelo entre dois homens dispostos a serem insuperáveis em seu ofício.

Levando o conceito de disputa às últimas consequências, Nolan arremessa seus protagonistas num empate que ganha circunstâncias cada vez mais fantasiosas e imprevisíveis –e, portanto, trágicas.

Há, no cinema de Christopher Nolan, esse inusitado resgate de temas masculinos por meio de um prisma onde gêneros improváveis são investigados. Disso se alimenta sua filmografia, incluindo a aclamada “Trilogia do Cavaleiro das Trevas”: Temos o temor do esquecimento (“Amnésia”), ou da dissolução do legado (“Interestelar”) e da imponderabilidade dos anseios (“A Origem”); em “O Grande Truque” está em pauta o medo da derrota perante um adversário, a tornar bastante humana a percepção de um filme todo incomum.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Mona Lisa

Neil Jordan era escritor antes de iniciar sua carreira como diretor de cinema em “Angel”, de 1981. Essa faceta de criador literário ele exercita em “Mona Lisa” ao estabelecer um paralelo o tempo todo pertinente entre a própria trama e as conversas dos dois amigos, Bob Hoskins, o protagonista, e Robbie Coltrane (de “Harry Potter”) que vive seu melhor amigo, um leitor inveterado de romances pulp e também aspirante a escritor –as tramas que ele engenha (e que se confundem com os livros que ele lê) refletem arquétipos que surgem e se transfiguram a medida que os personagens com os quais nos deparamos em “Mona Lisa” vivenciam seus próprios arcos dramáticos.
A começar por George, um ex-presidiário irritadiço e temperamental que, na atuação primordial de Bob Hoskins, se converte num personagem pelo qual a plateia alimenta empatia genuína.
Sem família (a ex-mulher sequer consegue olha-lo na cara e não deseja que se aproxime da filha), e tendo como único amigo Thomas (Coltrane), George arruma emprego com Mortwell (Michael Caine), o figurão parcialmente responsável por sua prisão.
Sua tarefa é servir de motorista para a exótica Simone (Cathy Tyson, atriz oriunda do teatro estreando em cinema, mesmo depois fez poucos filmes como “A Maldição dos Mortos-Vivos” e “O Padre”).
Ainda que violento, intempestivo e exalando a truculência das ruas (características que inicialmente comprometem sua atuação sutil como motorista discreto), George é um tanto ingênuo; ele demora até perceber que a função de Simone é como garota de programa de luxo –ele a leva e traz para hotéis cinco estrelas e mansões luxuosas onde encontra seus clientes, e ocasionalmente a protege dos contratempos.
Por sua incompatibilidade aparente, são normais e exasperados os atritos que ambos no início experimentam: George porque é tão desleixado quando rude, e sabe disso; Simone porque age como uma dama da sociedade, e manter essas aparências faz parte de seu negócio.
Mas, Simone tem seus negócios pendentes: Toda noite, ela pede a George para dirigir por King’s Cross, bairro londrino de assídua atividade noturna e pólo de prostituição do mais baixo nível.
Lá, Simone procura por algo ou por alguém.
A medida que o relacionamento entre ela e George se metamorfoseia do choque para o entendimento (e até para a ternura), ele descobre: Ela está atrás de Cathy, uma estimada companheira de programa de quem ela se perdeu quando conseguiu levar seu padrão de vida profissional.
Cada vez mais envolvido por Simone, e portanto, ávido por agradá-la, George passa a procurar por Cathy em meio aos deploráveis subúrbios londrinos, chegando a conhecer a instável May (Sammi Davis, de “Esperança & Glória” e “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada”).
Na habilidade que demonstra, Neil Jordan trabalha com excelência um material que poderia soar raso nas mãos de outro diretor, entretanto, com ele, são fascinantes as imbricações peculiares de seus personagens que levam a diferentes concepções e rumos de sua premissa. Seu talento encontra uma forma de tornar notável o banal.
É mais do que necessário ressaltar também o brilho singular de Bob Hoskins numa das mais excepcionais composições de sua carreira.
Emoldurado pela música de Nat King Cole, “Mona Lisa” –cujo romantismo não apenas embala diversos momentos do filme como também o batiza –esta obra admirável de Jordan se revela uma história romântica, adulta, fascinante e humana.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A Feiticeira

Durante muito tempo, o público e os estúdios acarinharam um projeto de uma versão cinematográfica para o cultuado seriado “A Feiticeira” –ideia ainda mais promissora quando se tem no elenco uma atriz tão competente e adequada ao papel tornado icônico por Elizabeth Montgomery como a estrela Nicole Kidman.
Haviam outros elementos mais a favor do filme: Não só a protagonista, como também o restante do elenco era perfeito; Will Ferrell ocupando o lugar que seria de Dick York e Dick Sargent, os atores que se revezaram no papel de par da feiticeira ao longo das temporadas da série; e Shirley MacLane, como a mãe dela, também dotada de magia –além das presenças de Michael Caine, Steve Carell, Jason Schwartzman, e outros. Para completar, a realizadora escolhida para o projeto (Nora Ephron, sucesso de bilheterias com as comédias românticas “Sintonia de Amor” e “Mensagem Para Você”) teve uma ideia até que bastante esperta para a transposição para cinema –no contexto em que o filme se passa, “A Feiticeira”, a série, existe realmente no mundo real. E é de interesse às redes de televisão que seja feito um revival com novos atores. Logo, a ganância de agentes e produtores dá novo rumo ao projeto; a ideia é fazer dele um veículo para o esnobe e arrogante astro Jack Wyatt (que o humor peculiar de Will Ferrell transforma num bufão egocêntrico, megalomaníaco e irreal).
As audições em busca de uma intérprete para o desafiador papel de feiticeira começam e logo esbarram na doce e ingênua Isabel (cujos trejeitos, Nicole Kidman, sempre compenetrada, consegue igualar à perfeição com os de Elizabeth Montgomery).
Entretanto, Jack e todos os demais à sua volta estão por demais preocupados em enaltecer o astro que não notam um detalhe inusitado –que Isabel é, realmente, uma feiticeira (!), daí seu encaixe tremendamente intuitivo com a personagem (!).
Fascinada com o ator famoso que Jack é, ela aceita o papel na série, tornando-se uma espécie de escada para ele. Contudo, os meses de convívio com seu insuportável narcisismo irritam de tal maneira Isabel que ela não tarda a usar de seus poderes para dar a ele o troco.
E entre uma rusga e outra, não só Jack descobre a verdade acerca de Isabel, como também encontra um sentimento novo, de interesse por outro alguém que não ele próprio.
Com uma premissa que, em si, rumava na direção daquilo em que Nora Ephron é especialista –uma comédia romântica –era de se presumir que, com tal elenco, e com uma ideia tão promissora, “A Feiticeira” resultasse, senão notável, ao menos, gracioso, divertido e encantador (características que bastam para comédias românticas se tornarem fenômenos de bilheteria), todavia, não é bem isso que ocorre.
Repetitivo em muitos cacoetes que entregou com mais brilho no passado, Will Ferrell tem um desempenho que lembra muito seu machista e narcisista personagem em “O Âncora-A Lenda de Ron Borgondy”, e sem um roteiro inteligente para contextualizá-lo, ele soa como tudo aquilo que é de fato: Um personagem desprezível, mimado e grosseiro cujas manhas desmesuradas não têm qualquer graça.
A própria Nicole Kidman, habituada a personagens densas e desafiadoras, parece um pouco apagada aqui, numa protagonista excessivamente inocente, romântica e banal, mesmo a ligeira mudança que ela experimenta no decorrer do filme pouco acrescenta no sentido de oportunidades para a atriz se impor.
No final das contas, a interessante premissa de metalinguagem que dava o ponto de partida para esta versão cinematográfica de “A Feiticeira” acabava levando a um equívoco que condenou todo o filme: Ao reafirmar a série como um produto de ficção (e não a fantasia cativante que capturou a atenção do público), a trama seguiu em direções completamente distintas daquelas que faziam o divertimento dos episódios da série.
Um grande desperdício.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Fuga Para A Vitória


O clássico “Fugindo do Inferno” fez escola. Dos tantos filmes que aproveitaram o mesmo mote sobre um grupo de prisioneiros na Segunda Guerra Mundial tentando um plano audacioso para escapar de um campo de concentração, “Fuga Para A Vitória”, de John Huston, destaca-se por um elenco heterogêneo e estelar (o norte-americano Sylvester Stallone, o inglês Michael Caine, o sueco Max Von Sydow, o craque brasileiro Pelé, além de outros inúmeros jogadores famosos da época), e pela sua bem-humorada mistura de suspense de guerra e filme desportivo.
Outrora um jogador de futebol, o oficial nazista Karl von Steiner (Max Von Sydow) reconhece, entre os prisioneiros britânicos de um dos campos de concentração na Europa, o também famoso jogador John Colby (Michael Caine, que também havia feito com o diretor Huston “O Homem Que Queria Ser Rei”), surgindo a partir daí uma ideia improvável: Reunir os jogadores eventualmente tornados soldados –e que se encontram prisioneiros dos alemães –para disputar uma partida de futebol contra a seleção alemã.
A empreitada ganha inesperada força quando a cúpula alemã enxerga nela uma oportunidade de demonstrar a superioridade ariana perante o mundo; chegando até mesmo a programar o jogo para ocorrer num estádio em plena França ocupada.
Paralelamente, sem que o próprio Colby se dê conta disso –pelo menos, até o último instante –alguns de seus colegas, como o intrépido Hatch (Stallone), escalado como goleiro, estão planejando uma fuga pelos subterrâneos de Paris, cujos túneis passam exatamente embaixo do estádio e podem ser usados pelos jogadores durante o intervalo do primeiro tempo da partida.
Todavia, durante o jogo –que ocupa o climático terceiro ato do filme –os alemães levam injusta vantagem tendo a arbitragem a seu favor, insuflando a indignação do time de Colby a ponto deles se recusarem a aproveitar a oportunidade de fugir: Eles querem mesmo é voltar para o campo e provar aos alemães e ao mundo que podem vencer a disputa na raça.
Divertido e agradável, sobretudo, pela maneira inventiva com que entrelaça os temas da Segunda Guerra Mundial com as características e minúcias do futebol, “Fuga Para A Vitória” vale também pela união curiosa em cena de atores de perfil tão distinto quando Caine e Stallone, além da participação de Pelé, falando um inglês meio macarrônico, mas adequado aos propósitos de seu personagem.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Harry Brown


No primeiro “Desejo de Matar” (estrelado por Charles Bronson), já era enfatizada a ironia no fato de um cidadão comum se voltar contra a bandidagem ao trilhar o árduo caminho da justiça pelas próprias mãos.
Em “Harry Brown” (cuja Premissa, a rigor, é a mesma), essa ironia é potencializada e cristalizada em detalhes ainda mais pertinentes (a vulnerabilidade ainda mais acentuada e significativa do protagonista, por exemplo) além do sempre bem-vindo acréscimo do auto-depreciativo humor inglês –embora o filme seja criteriosamente econômico nesse aspecto.
Veterano combatente, desejoso de tranquilidade desde que um derrame confinou a esposa numa cama de hospital, o idoso Harry Brown (Michael Caine, magistral como de hábito) mora numa periferia londrina povoada pela mais intratável espécie de delinquentes juvenis –e a caracterização petulante e agressiva desses jovens é radical a ponto de remeter as raízes incontroláveis do punk rock inglês.
Quando seu melhor amigo (interpretado por David Bradley, conhecido como o zelador da Saga “Harry Potter”) e sua esposa morrem com poucos dias de diferença (ele, devido a um brutal ataque de gangues locais), algo dentro de Harry parece liberar seu implacável instinto justiceiro: Não obstante as limitações físicas óbvias e aparentes, ele irá mover uma vingança metódica e irreprimível contra os criminosos de sua vizinhança.
Ele inicia sua cruzada dando cabo de dois ameaçadores traficantes da região (um deles interpretado por Sean Harris, vilão de “Missão Impossível-Nação Secreta”) para então valer-se de seu arsenal –e em meio à todas as cenas tensas e explosivas que se seguem, o diretor Daniel Barber não deixa de salientar a fragilidade de seu protagonista.
Paralelo a isso, uma engajada investigadora (Emily Mortimer) começa a reunir indícios sobre a matança indiscriminada de bandidos que, a despeito da incredulidade de seus superiores, começam a apontar para o inocente velhinho sujeito a ataques de enfisema.
Competente e envolvente, curiosamente irônico para com as expectativas de seu próprio público e bastante notável justamente por isso, “Harry Brown” tem o mérito não só de ser um dos mais sensacionais e válidos estudos sobre a justiça com as próprias mãos, como também de colocar no centro do espetáculo um ator fenomenal do calibre de Michael Caine, normalmente desperdiçado em participações coadjuvantes.

sábado, 31 de março de 2018

Os Vencedores do Oscar 1987

A consagração de Oliver Stone por sua ácida, exaustiva e primorosa reconstituição das experiências pessoais passadas no Vietnam; alguns dos grandes trabalhos do ano que podiam lhe fazer frente nem estavam mesmo na competição da categoria principal, como “A Mosca”, de David Cronenberg (prêmio só de Maquiagem); “Aliens-O Resgate”, de James Cameron (duas estatuetas técnicas), e “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.
Ainda restou espaço para um tardio reconhecimento ao grande Paul Newman com um Oscar de Melhor Ator que deveria ter vindo bem antes e a surpreendente vitória, como Melhor Atriz, de Marlee Matlin –surda-muda na vida real que interpreta uma personagem com a mesma deficiência no filme “Os Filhos do Silêncio”.
Entre os coadjuvantes, uma dobradinha de um dos grandes trabalhos de Woody Allen: Michael Caine e Dianne Wiest, ambos por “Hannah e Suas Irmãs”.

MELHOR FILME

MELHOR DIREÇÃO
"Platoon", Oliver Stone

MELHOR ATRIZ
Marlee Matlin, "Os Filhos do Silêncio"

MELHOR ATOR
Paul Newman, "A Cor do Dinheiro"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dianne Wiest, "Hannah e Suas Irmãs"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Michael Caine, "Hannah e Suas Irmãs"

MELHOR FOTOGRAFIA

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Ataque" (Holanda)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Aliens-O Resgate"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Aliens-O Resgate"

MELHOR MAQUIAGEM
"A Mosca"

MELHOR FIGURINO
"Uma Janela Para O Amor"

MELHOR SOM
"Platoon"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Uma Janela Para O Amor"

MELHOR TRILHA SONORA
“Por Volta da Meia-Noite"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Take My Breath Away", de "Top Gun"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Hannah e Suas Irmãs"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Uma Janela Para O Amor"

MELHOR MONTAGEM
"Platoon"

sábado, 30 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2000

O novo século chegou com uma safra de produções que prometia uma renovação do cinema norte-americano, entretanto, títulos como “Clube da Luta”, “Quero Ser John Malkovich”, “Magnólia”, “Rushmore-Três ÉDemais” e “Matrix” pareciam ser desafiadores demais para o padrão tradicionalista do Oscar, que acabou lembrando todas essas grandes obras apenas com uma ou outra indicação –à exceção, claro, de “Matrix”, que fez uma bela campanha nas categorias técnicas ofuscando “Star Wars-Episódio 1-A AmeaçaFantasma”.
Ao menos, essa ousadia se refletiu ainda que de forma tímida entre os indicados a Melhor Filme com o questionamento de “BelezaAmericana” (o grande vencedor), a denúncia e a urgência de “O Informante” a revelação autoral de M. Night Shyamalan em “O Sexto Sentido", o peso dramático da pena de morte em “À Espera de Um Milagre”, e a bela metáfora do aborto em “Regras da Vida” –aliás, Michael Caine, que por esse filme venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, fez o mais belo e emocionante discurso que me lembro de ter visto na história do prêmio!

MELHOR FILME
"Beleza Americana"

MELHOR DIREÇÃO
"Beleza Americana", Sam Mendes

MELHOR ATRIZ
Hilary Swank, "Meninos Não Choram"

MELHOR ATOR
Kevin Spacey, "Beleza Americana"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Angelina Jolie, "Garota, Interrompida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Michael Caine, "Regras da Vida"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Beleza Americana"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"One Day In September"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"King Gimp"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Tudo Sobre Minha Mãe" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Matrix"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Matrix"

MELHOR MAQUIAGEM
"Topsy Turvy-O Espetáculo"

MELHOR FIGURINO
"Topsy Turvy-O Espetáculo"

MELHOR SOM
"Matrix"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

MELHOR TRILHA SONORA
“O Violino Vermelho"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"You’ll Be In My Heart", de "Tarzan"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Beleza Americana"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Regras da Vida"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Old Man and The Sea"

MELHOR MONTAGEM
"Matrix"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"My Mother Dreams the Satan’s Disciples in New York”

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Kingsman - Serviço Secreto

Em “X-Men Primeira Classe” já era possível perceber o imenso apreço do diretor Matthew Vaughn pelos filmes antigos de 007, em especial os realizados nos anos 1960.
Com “Kingsman”, a adaptação de mais uma história em quadrinhos (escrita por Mark Millar, que também escreveu “Kick Ass” outro sucesso de Vaughn), ele conseguiu finalmente realizar um filme de aventura e espionagem de fato. E é com a empolgação genuína de alguém que tem um sonho realizado que Vaughn narra a surpreendente e divertida história de Eggsy (o ótimo e carismático Taron Egerton) um jovem nascido no subúrbio de Londres –e, como tal, dotado de todos os maneirismos, vestimentas e aspectos rudes que definem moradores dessas regiões.
Durante uma das muitas encrencas em que costuma se meter ao lado dos amigos inconseqüentes, Eggsy vai preso e, por um acaso, toma conta com Harry Hart (Colin Firth saindo-se magnificamente bem seu primeiro filme de ação) que, disposto a honrar uma dívida, resolve apadrinhar Eggsy e lhe faz uma revelação: A de que seu pai, morto quando ainda era criança, pertenceu na realidade a uma ordem ultra-secreta de espiões treinados chamada Kingsman.
Orientado por Harry –cujo codinome é Galahad –e disposto a seguir os passos do pai, Eggsy inicia seu árduo treinamento seletivo, ao mesmo tempo em que surge um curioso vilão megalomaníaco (Samuel L. Jackson, numa composição hilária e inspirada) pondo em prática um plano mirabolante que ameaça a humanidade e desafia os agentes da Kingsman.
A direção de Mathew Vaughn demonstra o mesmo senso impecável de ritmo que ele ostentou em "Kick Ass" e "X-Men Primeira Classe" realizando uma saborosa e eletrizante homenagem aos filmes antigos de espionagem que jamais exagera em sua reverência: É, na realidade, um produto vibrante e moderno, agregando com habilidade e naturalidade elementos emergentes do cinema contemporâneo (como ultra-violência, incorreção política e peculiaridades narrativas mais modernas) à uma premissa característica dos filmes de James Bond –funcionando quase como uma aula de como fazer um 007 divertido, fidedigno e com qualidade.

domingo, 11 de junho de 2017

Uma Intriga Internacional

Não confundir, por favor, este thriller de espionagem melindroso e algo cafona com a obra-prima, “Intriga Internacional”, de Alfred Htichcock (que, aliás, não tem artigo no título!).
Sigourney Weaver –que nos anos 1980 era um verdadeiro mulherão –interpreta uma prostituta de luxo, de uma categoria bastante específica: Ela não lembra, em nada, uma garota de programa, o que lhe permite conciliar a vida dupla de funcionária pública altamente qualificada e prostituta, numa espécie de “A Bela da Tarde” versão espionagem.
O seu apelo erótico também funciona de forma distinta ao usual das damas de companhia: Ela se vale de sua inteligência e seu vocabulário sofisticado, o que faz dela uma acompanhante perfeita para as festas cheias de classe onde os diplomatas que lá usarem de seus serviços poderão valer-se de seu aspecto intelectual para manter as aparências.
Freqüentando tais ambientes, não demora para que esse acesso facilitado que a Dra. Lauren Slaughter, sua personagem, tenha à informações cruciais desperte o interesse de pessoas dispostas a obter esses segredos –isso a leva a ser recrutada por Sam Bulbeck (Michael Caine, num papel estilo galã maduro) com quem passa a nutrir uma afeição crescente, enquanto caminham juntos na elucidação de uma conspiração contra missão secreta dele: Mediar um acordo pacífico entre grupos opositores do Oriente Médio.
Embora esse roteiro acabe adequadamente se valendo de inúmeras armadilhas que a história apresenta em forma de guinadas pontuais, o diretor Bob Swain, muito adepto de uma roupagem que remete os thrillers de espionagem europeus, de um ponto em diante parece se satisfazer com o fato de seu filme entregar como diferencial a nudez de Sigourney Weaver, que neste filme soa ligeiramente deslocada, o quê interfere no sex-appeal que sua personagem deveria, mas não consegue, ostentar.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

O Americano Tranquilo

Vietnã. 1950. Ainda sobre a névoa de estranheza da situação política do país, cercado pelos recursos bélicos soviéticos enquanto sofrem uma pressão da diplomacia francesa, um veterano e meio que acomodado jornalista inglês (Michael Caine, extraordinário) conhece um jovem americano (Brendan Fraser, adequado ao papel). O rapaz não esconde a atração pela linda amante vietmanita do jornalista, e lhe toma a amada, prometendo o matrimônio que o inglês (já casado) não pode lhe oferecer.
Com o passar do tempo, e conforme vão se acirrando as tensões políticas, a situação dos personagens vai se transformando ficando claro o estrago notável criado pelo americano tão cheio de boas intenções.
É, portanto, uma postura narrativa de natureza tão clara quanto alegórica a que assume o diretor Phillip Noyce nesta adaptação de um romance de Graham Greene que sinalizava uma mudança em sua carreira, nos moldes da evolução promovida por “Los Angeles-Cidade Proibida” na carreira de Curtis Hanson: Um diretor de filmes competentes ainda que medianos (e neste caso bastante voltados para o gênero de ação) dando um salto de sofisticação com um projeto de elevada qualidade.
Não chegou a tanto, embora este filme contenha sim, um apanhado de méritos: Brendan Fraser não está nada mal, mas Michael Caine beira a genialidade na sua apurada interpretação neste curioso e incomum suspense de guerra.
Fraser representa assim a intervenção norte-americana na Vietnam e, num recurso que o diretor insiste em manter sempre, a bela e passiva Phuong (Do Thi Hai Yeng, de uma esplendorosa beleza oriental), é o Vietnam, que testemunha continuamente seu destino ser debatido, decidido e escolhido por outrem.
Uma alegoria política, ora sutil e inspirada, ora propensa a alguns exageros técnicos, mas sempre bem conduzida e elegante. Uma boa pedida.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vestida Para Matar

No auge de sua fase referencial a Alfred Hitchcock, Brian De Palma cria uma variação fascinante de "Psicose", aonde assim como na obra do mestre do suspense, aquela que em principio parecia ser a protagonista (Angie Dickinson, loira e insinuante como as personagens de Hitchcock) aos olhos da platéia, é descartada numa cena brutal de morte e que confere também uma das reviravoltas do filme. Há, lógico, inúmeras outras cenas igualmente sensacionais construídas pelo esteta De Palma e que remetem diretamente Hitchcock, mas muitas delas (sobretudo a audaciosa revelação final do plot) são surpresas que precisam ser preservadas no filme.
Mulher adúltera (Dickinson) é morta logo após dormir com o amante em prédio de luxo. A única testemunha do crime (Nancy Allen, casada com De Palma na época), uma jovem prostituta passa a ser perseguida pela pessoa que supostamente cometeu o assassinato, iniciando ao lado do marido da vítima, um jogo de gato e rato.
Beneficiando-se de uma possibilidade de ousadia maior do que dispunha o mestre Hitchcock em sua época (ele só pôde transgredir um pouco mais no ótimo “Frenesi” realizado já nos anos 1970), De Palma amplia os conceitos de ambivalência sexual aliada ao suspense e à psicopatia que já pairavam sobre os temas de “Psicose”, mas os reveste aqui com uma narrativa ainda mais contundente e aprimorada nos meandros técnicos que regem as cenas, e que conferem, graças ao domínio do diretor, uma atmosfera de cortar a respiração.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Origem

E chegou então a hora de falar sobre o filme que virou um fenômeno no ano de 2011, e que na opinião de muitos é o único capaz de rivalizar com “Batman-O Cavaleiro das Trevas” como melhor filme da filmografia de Christopher Nolan.
“A Origem” guarda mesmo elementos de sobra para manter seu fascínio perene. A começar pelo notável (e, em princípio, intrigante) personagem de Leonardo Dicaprio, o torturado Dom Cobb, um ladrão de sonhos!
Sua especialidade é infiltrar-se na mente de certas pessoas enquanto dormem (através de uma tecnologia nunca, de fato, detalhada pela narrativa), e dentro de seus sonhos, roubar-lhes segredos e informações valiosas –e aí, mais do que o processo fantástico pelo qual se dá a ida para o mundo dos sonhos, é no rigoroso conjunto de fatores, regras, condições e pequenos detalhes que está o verdadeiro ponto de interesse da narrativa de Nolan.
Uma vez dentro dos sonhos existe toda uma cadeia de importâncias a ser respeitada e seguida: Se morrer no sonho, a pessoa desperta. O subconsciente pode oferecer perigo para o sonhador e seus “turistas”. Há uma forma específica de saber se você está sonhando ou não (e isso diz respeito aos “totens”). O tempo, no sonho, corresponde a um período muito breve na nossa realidade.
Tal arte, aparentemente, Dom Cobb domina como poucos.
Entretanto, em sua vida desperta Cobb é um homem torturado, afastado de seus filhos (que moram com o avô interpretado por Michael Caine) e injustamente acusado da morte da mulher que ama (Marion Cotillard, uma femme fatale extraordinária, que surge nos seus sonhos como um elemento tão sensacional quanto desestabilizador).
É quando surge então um milionário chamado Saito (o brilhante Ken Watanabe, com um personagem tão essencial à trama quanto Dicaprio), com uma proposta irrecusável: ter seu nome inocentado em troca de uma última missão. Só que desta vez, ao invés de tirar informações, ele deve inserir uma idéia numa determinada mente, o quê é muito mais difícil, talvez impossível.
Cobb monta uma nova equipe para essa arriscada tarefa –Arthur, seu braço direito, vivido por Joseph Gordon-Levitt, um “falsificador” (capaz de personificar diferentes personagens dentro do sonho) interpretado por Tom Hardy, um “arquiteto” (aquele que constrói o elaborado cenário dentro do qual o sonho irá se passar) na pele da jovem Ellen Page (de “Juno”), e um “químico” (que administra os efeitos do sedativo que fará a vítima dormir), vivido por Dileep Rao –afinal a mente humana (incluindo a do próprio Cobb) é um lugar desconhecido e cheio de armadilhas e a "inserção" requer um plano complexo.
É patente, como se pode perceber, que Nolan gosta de mesclar gênero que ele tem por inspiração –os filmes de assalto popularizados nos anos 1960, neste caso –e à eles conceder uma roupagem fantástica e, não raro, mirabolante. As influências cinematográficas de Nolan surgem quanto não se espera: Imagina-se que ele vá fazer alusão a algum grande diretor, ou grande filme, que tenha por base o mundo dos sonhos, como David Lynch, mas essas relações só aparecem por acaso; “A Origem”, em sua concepção desconcertante, busca remeter a obras como “O Golpe de John Anderson” (na sua estrutura de filme de assalto), ou “007 Na Mira dos Assassinos” (na forte referência que envolve cenas de ação na neve). Nota-se então o gênero a que “A Origem” quer realmente pertencer e aprimorar: A ação.
E a direção de Nolan dedica minucioso aparato de técnica e inventividade a fim de moldar cenas de ação singulares: Sendo a luta em gravidade zero provavelmente seu exemplo mais exuberante.
É o desfecho, contudo, que garante ao filme sua permanência na memória: Quando Cobb, redimido e prestes a reaver os filhos, tenta usar seu próprio “totem” (um pequeno peão que gira indefinidamente quanto é sonho, e para logicamente de girar quando é realidade), a fim de garantir se o que está se passando é real ou não. As crianças o chamam, e ele por fim ignora o peão que roda sem parar. A câmera de Nolan permite que seu protagonista vá embora, fixando-se no peão (e na expectativa de que ele logo caia), mas desafia o expectador, encerrando o filme antes de qualquer resposta.
Está aí o fator que fez de “A Origem” um dos filmes mais discutidos de 2011.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Contos Proibidos do Marquês de Sade

A trajetória do diretor Phillip Kaufman é irregular, em grande parte porque ele atua como produtor e roteirista, deixando imensos intervalos de tempo entre seus trabalhos.
E quando alguns deles –como o policial “Sol Nascente”, com Sean Connery –não chamam muita atenção, a tendência do público esquecer seu nome se reforça ainda mais.
Talvez, por isso não tenha havido muita celeuma quando, no ano 2000, este trabalho do mesmo diretor do erótico e magnífico “A Insustentável Leveza do Ser” foi lançado, mesmo que abordasse um tema –os últimos e tumultuados dias do famigerado Marquês de Sade (não uma biografia, vejam bem) –que tinha muito potencial para trazer a mesma receita de requinte, erotismo e insuspeito valor cinematográfico de sua excepcional adaptação do livro de Milan Kundera.
Entretanto, o público, como bem se sabe, tem memória curta.
Século XVIII. Trancafiado num sanatório da França, o tão célebre quanto libidinoso Marquês de Sade (Geoffrey Rush, ainda na ressaca por seu Oscar de Melhor Ator por “Shine-Brilhante”, em 1996) não se encontra, de forma alguma, sob controle. Seus contos imorais ganham facilmente a liberdade das ruas, e mesmo dentro das dependências do lugar, sua presença chega a alterar alguns personagens, como o jovem e racional padre (Joaquim Phoenix) que volta e meia se vê dividido entre a fé e o desejo pela bela camareira do sanatório (Kate Winslet, jovem, linda e ainda na ressaca pelo sucesso avassalador de “Titanic”), esta por sua vez, cai ocasionalmente nos gracejos do Marquês.
As coisas tornam-se tensas quando entra em cena um novo diretor (Michael Caine, realmente ameaçador) designado para por ordem no lugar usando métodos brutais e opressores.
Longe de igualar o brilhantismo de “Insustentável Leveza...”, Kaufman fez um filme elegante e requintado cuja vulcânica interpretação de Geoffrey Rush, como Marquês de Sade, é muito bem escorada pelo competente elenco, sobretudo, Kate Winslet e o grande Michel Caine.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Regras da Vida

Dentre os indicados ao Oscar de Melhor Filme em 1999, não havia muito o que se discutir diante do favoritismo de “Beleza Americana”, contudo, um filme pequeno, singelo e essencialmente emocionante destacou-se, levando o Oscar de Melhor Roteiro Original para John Irving, autor do próprio romance no qual se baseava.
De fato, através das mais diversas perspectivas em que se enxerga a trama, o script de “Regras da Vida” é, por vezes, seu elemento mais admirável.
Porém, há muitos outros mais.
Quando o filme se inicia, somos apresentados à Homer Wells (Tobey Laguire), um jovem que cresceu em um orfanato do Maine, nos anos 1940. Enquanto via as demais crianças crescerem e partirem, ele ficou lá como discípulo do médico-chefe do orfanato (Michael Caine), cirurgião que além de zelar pelos orfãos realizava abortos ilegais aos que precisavam.
Essa ótima e prazerosa primeira parte, onde conhecemos em minúcia o personagem principal, também deixa claro suas posturas morais, ao mesmo tempo em que já revela a ambigüidade brilhante do personagem de Michael Caine: Um médico que pratica abortos e que (tal qual o autor do roteiro) defende sua realização, quando necessário. Todavia, ele é também o homem responsável por dar uma vida mais digna a inúmeras crianças de seu orfanato.
É com essa dualidade, presente ao longo do filme todo, que Irving transforma seu filme quase em um tratado político que discute as necessidades obscuras da prática do aborto.
A sacada verdadeiramente genial do filme é levantar essa discussão sem, no entanto, materializar um filme escandaloso ou polêmico; na verdade, fazendo com que muitos expectadores nem percebam que é sobre o aborto que, em essência, o filme fala.
Dito isso, é até fácil perceber o conteúdo até metafórico que envolve sua trama: Um belo dia chega ao orfanato um jovem casal procurando pelos serviços do doutor (a bela Charlize Theron e Paul Rudd), e Homer aproveita a oportunidade para viajar pelo mundo, ser senhor do próprio destino.
Mas, a vida, como ele irá descobrir tem suas idas e vindas, e é preciso aprender a viver conforme suas regras.
Homer é, portanto, uma pessoa que se coloca contrária ao aborto, mas precisa rever essa postura não só literalmente (quando a vida lhe confronta com algumas surpresas), como também metaforicamente (quando ele queima as “regras da casa da cidreira” –tradução do título original do filme, à propósito –sugerindo um rompimento para com as regras vigentes das convenções).
O profundo entendimento dessa questão responde belo grande brilho deste belíssimo drama de época do diretor sueco Lasse Hallstrom (de "Minha Vida de Cachorro"), provavelmente seu melhor trabalho desde que fora filmar nos EUA. Sensível trabalho do jovem Tobey Maguire (e que lhe valeu, segundo consta, a escalação para ser Peter Parker em “Homem-Aranha”, de Sam Raimi) e estupenda interpretação do veterano Michael Caine, pela qual ele venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1999.