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terça-feira, 7 de maio de 2024

Sr. & Sra. Smith


 O filme de ação de Doug Liman –planejado e pensado como tantos outros conceitos cinematográficos onde dois astros de grande apelo popular são colocados juntos em cena –por pouco não ficou à sombra de todos os burburinhos que suscitou: Foi durante a produção deste filme que os astros Brad Pitt e Angelina Jolie se conheceram, engataram um romance e se casaram.

Para a sorte dos produtores, o resultado final, independente das prioridades dos tablóides, foi um filme hábil, satisfatório e prazeroso de se ver, hoje com certeza convertido em clássico aos olhos de toda uma geração de cinéfilos –recentemente, ele ganhou uma nova versão, desta vez em minissérie, estrelada por Donald Glover.

Casados à cinco ou seis anos (eles não entram muito em concordância ao relatar sua história ao conselheiro matrimonial...), John e Jane Smith (Brad e Angelina, partilhando de uma química que realmente é um dos elementos explosivos do filme) enfrentam um ligeiro desgaste no relacionamento –eles ainda amam um ao outro, mas a rotina e as pequenas irritações diárias criaram um abismo entre eles que fica cada dia maior. No entanto, um detalhe tornará as coisas muito mais... digamos, complicadas: Ambos são (sem que o outro saiba) verdadeiras celebridades no ramo profissional que mantêm em segredo, o de assassinos de aluguel.

Em função da rivalidade das empresas que os contratam, eles acabam eventualmente sendo requisitados para matar um ao outro. Descobrindo aos poucos esse mistério –e o fato de que, à reboque dessas revelações, todo o casamento deles é, enfim, uma mentira –John e Jane se veem não somente diante do dilema de escolher entre a profissão e o coração (sem muita certeza se o cônjuge com quem casaram haverá de fazer a mesma escolha), mas também da necessidade de encontrar um meio imprevisto de salvar a própria pele. E, nessa esteira, o diretor Doug Liman explora o humor (muito por conta do timing brilhante de Brad Pitt) numa sucessão de cenas bem realizadas de ação ao mesmo tempo em que usa desse mote para questionar muitas idiossincrasias da relação a dois.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Eternos


 Diferente do que aconteceu com “Viúva Negra”, pode-se dizer que “Eternos”, também da Marvel Studios, relativamente beneficiou-se do atraso de um ano de seu lançamento nos cinemas em decorrência da pandemia: Em 2020 (data inicial de seu lançamento), a diretora Chloe Zhao era uma ousada aposta da parte da Marvel –uma cineasta pouco conhecida, incumbida de retratar um aspecto cósmico e pouco conhecido dos não aficcionados por quadrinhos do Universo Cinematográfico da Marvel; aspecto cósmico este que tinha sido vislumbrado tão somente em “Guardiões da Galáxia”, de James Gunn, e, vá lá, em breves relances de “Thor-Ragnarok”, de Taika Waititi, e “Capitã Marvel”, de Anna Boden e Ryan Fleck. Acontece que ao longo do ano de 2021, a diretora Chloe Zhao deixou de ser uma incógnita para se tornar uma alta expectativa, depois de conquistar o Oscar 2021 (sobretudo, o de Melhor Direção, o segundo conferido a uma mulher na História do prêmio) por “Nomadland”.

É inevitável notar o contraste gritante de estética, estilo e conceito básico entre esse premiado filme independente de Chloe Zhao e a fórmula estabelecida pela Marvel Studios que engendrou grandes sucessos de bilheterias e, na maioria esmagadora das vezes, ótimas produções.

Chloe Zhao e seu “Eternos” vem justamente para rebater uma das críticas mais contumazes dirigida às obras de Marvel: A de que, na manutenção segura e bem-sucedida dos paradigmas comerciais definidos desde seu início, eles não têm espaço para realizações mais autorais, dotados de alguma personalidade. É irônico, portanto (e indicativo da inconveniência de parte do público), que muitas das reclamações sofridas por “Eternos” seja justamente a de ser um corpo diferente do que se espera, em geral, da Marvel Studios...

“Eternos” já começa ostentando ambição irrestrita ao incumbir-se das origens cósmicas do próprio universo e do planeta Terra –bem à moda dos quadrinhos: Divindades conhecidas como Celestiais criaram toda a vida, mas, acima de tudo, criaram os Deviantes e os Eternos. Enquanto os Deviantes eram seres monstruosos (predadores, como é explicado no prólogo), os Eternos eram seres poderosos e imortais, deixados na Terra com o intuito de ajudar na evolução de raça humana e protegê-la da ameaça dos Deviantes. E só –no caso de qualquer outra eventual ameaça (como Thanos que dizimou metade da vida em “Vingadores-Guerra Infinita”), os Eternos estariam assim terminantemente proibidos de interferir; e assim, a Marvel explica, meio de qualquer jeito, do porque de seres tão poderosos estarem no mundo desde o início dos tempos, e sua presença passar totalmente despercebida em acontecimentos épicos que se sucederam ao longo dos vinte e tantos filmes do Universo Marvel desde que ele foi oficialmente iniciado em “Homem de Ferro”.

E esses tais seres tão poderosos veem a ser a líder dos Eternos, Ajak (Salma Hayek); a feiticeira elemental Sersi (Gemma Chan, também presente do elenco de “Capitã Marvel”, mas desempenhando outro papel); o poderosíssimo Ikaris (Richard Madden, de “Rocketman”), quase uma espécie de ‘Superman da Marvel’ –com quem, aliás, é comparado, num momento bem descontraído –a velocista e surda-muda Makkari (a ótima Lauren Ridloff); a habilidosa guerreira Thena (Angelina Jolie); o robusto e bondoso Gilgamesh (Don Lee, do sensacional “Invasão Zumbi”); o controlador de mentes Druig (Barry Keoghan, de “O Sacrifício do Cervo Sagrado”); a geradora de ilusões eternamente presa num corpo de criança Sprite (Lia McHugh); o divertido e sarcástico Kingo (Kumail Nanjiani) e o criador de artefatos Phastos (Brian Tyree Henri).

São dez protagonistas bastante diversos, interessantes e heterogêneos. E essa variedade é um dos trunfos do filme, ao mesmo tempo, em que é seu calcanhar de Aquiles: Embora sejam (salvo raras exceções) personagens interessantes, vivenciados por um bom elenco (salvo raras exceções...) e reúnam, em si, características de inclusão e diversidade que certamente estavam nos planos da Marvel durante a gênese deste projeto, nem todos têm o desenvolvimento que mereciam (também pudera, são DEZ protagonistas!), e por vezes, o enredo privilegia e enfatiza os mais desinteressantes (caso do enfadonho Ikaris e da insossa Sersi), enquanto desperdiça aqueles que se sobressaem com carisma genuíno (caso do surpreendente Druig, da interessantíssima Makkaris ou do hilário Kingo).

O ponto de partida da trama de Eternos, ainda que este filme, de modo geral, se mostre de natureza mais independente dos demais projetos da Marvel, tem relação com os eventos mostrados em “Vingadores-Ultimato”: A medida que a narrativa se alterna entre a passagem de milênios, enquanto os Eternos presenciam, não sem uma certa amargura, a evolução da Humanidade rumo às guerras e à intolerância, descobrimos que o estalar de dedos de Thanos e a posterior recuperação dos desaparecidos gerou um fenômeno diretamente ligado aos Eternos. Os Deviantes, outrora extintos, reapareceram novamente e um celestial prestes à nascer de dentro do próprio planeta Terra graças à energia demanda pelas jóias do infinito pode exterminar todo o planeta.

Sersi, Sprite e Ikaris –que, depois de uma brusca separação séculos atrás, passaram a viver solitários entre os humanos –devem então reunir todos os Eternos outra vez com o intuito de deter o fim do mundo iminente. Entretanto, tais ameaças à vida na Terra podem, agora, representar um desafio até mesmo para seres de poder quase onipotente como os Eternos.

Sem revelar muito das surpresas –pois, apesar do escrutínio usual do público para com blockbusters como este, “Eternos” preserva algumas –o filme de Chloe Zhao maneja bem as habilidades diferenciadas de seus personagens, construindo uma trama que avança, num ritmo bem conduzido, para frente  (o destino vindouro dos Eternos, somado a algumas reviravoltas) e para trás (os flashbacks que elucidam sua relação com a raça humana, as particularidades que cada um passa a desenvolver, para o bem e para o mal) e prepara o terreno para um desfecho apropriadamente apoteótico, profuso em efeitos digitais.

Como diretora, de fato, Chloe Zhao traz uma nova percepção às obras da Marvel; seu estilo se faz notar no manuseio da luz e na sua preferência por cenas externas, além de uma construção sólida e confiante da dramaturgia que envolve os personagens. No entanto, “Eternos” não atinge os tópicos hiperlativos com os quais a Marvel Studios acostumou seu público; não tem a inventividade cativante de “Guardiões da Galáxia”, nem a elevada voltagem aventuresca de “Guerra Infinita” e “Ultimato”; e muito menos a construção cinematográfica certeira de “Pantera Negra”. Chloe Zhao é uma ótima diretora e obtém bons resultados em todos os quesitos em que se presta, mas seus personagens não têm, nem de longe, o apelo de público dos personagens mas icônicos da Marvel Studios (a ponto de uma rápida aparição-surpresa, numa das cenas pós-crédito, conseguir eclipsar, de longe, toda a presença extensa e numerosa do elenco principal), e o filme que surge dessa incomum miscelânea (ainda que certamente válida em sua tentativa de ousar) acaba sendo de saldo irregular.

segunda-feira, 14 de junho de 2021

À Beira-Mar


 Astros de renome internacional, Angelina Jolie e Brad Pitt afirmaram ter realizado “À Beira-Mar” por tratar-se do tipo de projeto que adoram participar, mas para o qual, na qualidade de celebridades do primeiro escalão hollywoodiano, nunca são chamados: Filmes de arte pequenos, singelos, amparados no intimismo e na composição sempre silenciosa e intuitiva de seu elenco.

Talvez por isso, não pareça ser por acaso que imediatamente “À Beira-Mar” remete, visual e dramaticamente, aos trabalhos do francês Eric Rohmer, nos quais pequenos detalhes do dia-a-dia ganham o centro da narrativa.

Assumindo as função de roteirista, diretora, produtora e atriz principal, Angelina Jolie é Vanessa, esposa do escritor Roland (Pitt), ao lado do qual chega à uma pequena estância balneária da França da década de 1970. Lá, eles instalam-se no pitoresco hotel regional, e imediatamente dão início a uma modorrenta rotina: Ele sai todos os dias, embriagando-se no bar local, dirigido pelo calejado e paternal Michel (o ótimo Niels Arestrup); ela fica no quarto ou dá ocasionais passeios, incapaz de extrair disso qualquer ânimo para viver. Nem Roland encontra, nessa inércia, qualquer inspiração para a escrita, nem o casamento dos dois ameaça deslocar-se da crise na qual afunda.

É uma trama que à princípio parece tirar certo proveito da química entre Jolie e Pitt (então, casados na vida real), enquanto conta uma elíptica história sobre um amor chegando numa difícil fase outonal, ao mesmo tempo em que a roteirista Jolie tira proveito de uma espécie de protagonista muito interessante e promissor aos olhos dos contadores de história: O escritor que se põe num certo lugar à espera de sua inspiração (como visto em diversos filmes, desde “Pergunte Ao Pó”, até “A Escolha deSofia”, passando por “Swimming Pool-À Beira da Piscina” e “Barton Fink-Delírios de Hollywood”).

Entretanto, o filme só ganha mais cores, e algum propósito de fato, quando entra em cena um outro casal, a ocupar o quarto ao lado onde os protagonistas estão hospedados. Recém-casados, os jovens e ardentes Lea (Melanie Laurent) e François (Melvin Poupaud, ator, não por acaso, de “Conto de Verão”, de Eric Rohmer) transam toda a hora –como bem percebem Vanessa e Roland, a observá-los por um indiscreto buraco na parede.

Esse exercício de voyeurismo reaproxima Roland e Vanessa, e elucida as razões pelas quais ela arrasta seu casamento para uma escuridão de distanciamento sentimental e falta de comunicação, ao mesmo tempo que revela suas ambíguas intenções para com a amizade que constroem com aqueles jovens.

Cheio de intenções bastante salutares no que tange às predisposições dramáticas que assume, e certamente válido no traquejo interpretativo que evidencia em Angelina Jolie e principalmente em Brad Pitt (cujo estrelato realmente impede de vivenciarem papéis mais arrojados do ponto de vista da atuação), “À Beira-Mar” é uma obra feita deliberadamente para ir contra a corrente do que se supõe comercial, a despeito de trazer dois dos maiores astros no cinema atual à sua frente.

É um drama sobre crise matrimonial, sobre neuroses ocultas nas sombras do silêncio, logo transfigurado num discreto jogo velado de seduções omissas que demoram um bocado para revelar algo de mais intenso ao público –e essa baixa voltagem também me parece algo proposital –falta, contudo, à diretora Jolie um senso maior de drama e, talvez, um pouco mais de confiança no material que produziu: Na direção absolutamente atenta aos minimalismos estéticos, ela imprime ao seu trabalho uma beleza tão extrema –seja no figurino, na direção de arte, nos ângulos de câmera e na iluminação –que por vezes o esmaga.

sábado, 18 de abril de 2020

O Turista

A celebrada parceria entre Johnny Depp e Angelina Jolie não chega a explodir em cena nesta refilmagem do francês "Anthony Zimmer-A Caçada", que tinha a seu favor, além da beleza da francesa Sophie Marceau, a naturalidade que normalmente a obra original tem em comparação à estrutura invariavelmente engessada de sua refilmagem.
A história é seguida à risca. Nela, um professor norte-americano (vivido com a perplexidade minimalista de sempre por Johnny Depp), em viagem pela Europa, é colhido numa trama mirabolante: Vigiada de perto pela Interpol, mulher sedutora ao estilo femme fatale (vivida com a auto-consciência de sua própria persona por Angelina Jolie), deve desviar a atenção das autoridades da nova identidade de seu marido criminoso, que fez uma cirurgia plástica e tem, segundo consta, um novo rosto que ninguém conhece.
Para tanto, ela seduz o tal professor de modos a fazê-lo parecer o próprio homem procurado aos olhos dos policiais. Em visita turística à cidade de Veneza (que substitui com pompa e circunstância a ambientação européia mais aleatória do filme original) pobre homem terá muitas dores de cabeça, ainda que a atração por ela talvez seja grande o suficiente para ele manter propositadamente o embuste.
O diretor alemão Florian Henckel Von Donnersmarck (do oscarizado “A Vida dos Outros”) parece ligeiramente consciente do lapso inevitável de sua narrativa: Calcada em sucessivas reviravoltas (que já soavam mirabolantes do filme francês!), a produção hollywoodiana encontra dificuldade em trabalhar essas expectativas, sobretudo, diante do fato de que, no outro filme, tais revelações foram sendo acrescentadas na trama ao sabor dos improvisos e da realização, enquanto que aqui baseia-se somente no filme já feito, para dele extrair uma obra norte-americana.
A velha preguiça de ler legendas...
A direção assim opta pelo incremento do visual, das imagens de cartão-postal (é, afinal, Veneza!), dos valores de produção e da ênfase em seu casal protagonista estelar, afastando-se bastante do tom despretensioso do filme anterior.
É, assim, uma oportunidade para conferir as diferenças abissais que podem acometer dois projetos inspirados praticamente na mesma premissa, mas, tratados de forma completamente distinta.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A Lenda de Beowulf

Depois do passo inicial dado pelo diretor Robert Zemeckis na confecção de um longa-metragem totalmente gerado a partir da tecnologia da captura de performance (resultando no natalino “O Expresso Polar”), o seu projeto seguinte nessa mesma esteira pareceu bem mais ambicioso: Elaborar o que seria a tradução cinematográfica definitiva para o poema épico sobre a lenda de Beowulf e Grendel –já adaptada em inúmeros filmes obscuros e, em geral, de qualidade B.
Soava promissor: Quais maluquices Zemeckis não seria capaz de engendrar na história uma vez que a captura de performance (como “Expresso Polar” deixou bem claro) prescindia de qualquer limitação humana?
Para amplificar ainda mais a expectativa do público, os roteiristas do projeto eram o quadrinista Neil Gaiman e o premiado Roger Avary (de nada menos que “Pulp Fiction-Tempo de Violência” e “Regras da Atração”).
Beowulf (vivido por Ray Winstone, com sua versão digital consideravelmente rejuvenescida) é um cavaleiro que singra a Europa do Século VIII no objetivo de criar uma fama quase mitológica para si mesmo, difundindo suas próprias histórias (algumas providencialmente exageradas de como venceu diversos monstros).
Nessa espécie de busca, Beowulf chega onde parece ser o objetivo para o qual foi talhado: Na Ilha de Sjaelland, próxima à cidade de Roskilde, na Dinamarca, ele tem conhecimento do temor experimentado pelo rei Hrothgar (Anthony Hopkins) e seu povoado, afrontados quase todas as noites por um monstro implacável conhecido como Grendel –no registro de inesperada humanização promovido pela percepção desigual dos roteiristas, Grendel, no entanto, não prima por ser ameaçador: Em seus momentos solitários, ele é mostrado padecendo de uma dor insuportável uma vez que sua sensível audição o torna selvagem ao menor barulho de festejos do local.
Quando o embate tão acalentado pela narrativa entre o cavaleiro e o monstro por fim acontece –pouco antes da primeira metade se encerrar –não é exatamente por Beowulf que o expectador torce; as opções estilísticas com as quais a trama é contada tanto enfatizam a vaidade arrogante e presunçosa de Beowulf como as características humanamente sofredoras de Grendel (que a propósito é interpretado com todos os cacoetes histriônicos por Crispin Glover).
Mortalmente dilacerado em sua luta com Beowulf, Grendel busca refúgio nas cavernas longíquas que lhe servem de casa, onde uma criatura de poder e maldade milenar responde a ele como sua mãe.
Depois que ele morre, a represália dela é macabra: Na noite em que os aldeões comemoram a destruição de Grendel, vários de seus moradores amanhecem trucidados e enforcados no salão de festas local.
Com o trono de Sjaelland como prêmio, e tendo a relíquia conhecida como Chifre de Ouro como garantia disso, Beowulf encara sozinho a erma jornada até a morada de Grendel disposto a dar cabo em definitivo de sua lendária mãe. Porém, o cavaleiro tem uma inesperada surpresa: A mãe de Grendel (chame-mos-na de Criatura) não é exatamente um monstro, ou um demônio, ou qualquer ser tenebroso que ele estivesse esperando; a Criatura se revela um ser sobrenatural, sim, e certamente perigoso, porém, nas formas sedutoras da atriz Angelina Jolie –que a captura de performance recria com perfeição facial e corporal em cena (inclusive com direito a uma reveladora nudez!).
 Ela seduz Beowulf fazendo com ele um acordo; ele lhe dá um filho (em troca de Grendel, aquele que dela tirou) assim como o Chifre de Ouro, e ela, por meio de seus poderes dá a ele força e vitalidade eternas –o que deixa subentendido que a Criatura outrora fez o mesmo acordo com o rei Hrothgar, e que Grendel seria então seu filho.
Os anos se passam com Beowulf, após o suicídio de Hrothgar, ocupando o posto de rei e desposando a mulher dele, a rainha Wealtheow (Robin Wright). Todavia, se antes Beowulf tinha contentamento e sede de vida, agora, ele ostenta um semblante amargo, resignado; se antes (quando Hrothgar ainda era o rei), seu desejo por Wealtheow era ardente, agora, a presença dela o constrange, em grande parte, porque Wealtheow dirige a ele o mesmo olhar de decepção que antes dirigia à Hrothgar.
Quando um jovem cavaleiro, quase inadvertidamente, encontra e rouba o Chifre de Ouro da caverna da Criatura, ela e Beowulf novamente entram em rota de colisão; afinal, com a relíquia roubada –e entregue nas mãos de Beowulf –a trégua está também rompida, e por conta disso, Beowulf terá de enfrentar o seu próprio filho com a Criatura (um transmorfo capaz de assumir a forma de dragão) a fim de proteger seu reino.
Essas tintas adultas que conferem um teor sombrio e fatalista à “Lenda de Beowulf” infelizmente não se refletem em acréscimos qualitativos ao resultado final; a sensação mais imediatamente perceptível é a do tremendo prejuízo que isso acarreta à empatia do protagonista e de sua conexão com o público –e está aí, o pequeno detalhe que compromete toda a bela carpintaria narrativa e o impecável aparato técnico e visual do filme: Todas as suas qualidades estão a serviço de um herói que não consegue despertar simpatia no expectador.
Comentários em torno do fato da captura de performance ser uma tecnologia que rapidamente se torna ultrapassada são assim redundantes (nesse sentido “O Expresso Polar” envelheceu, mas não perdeu seu encanto); seu grande pecado é justamente falhar na ausência de calor humano.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Os Vencedores do Oscar 2000

O novo século chegou com uma safra de produções que prometia uma renovação do cinema norte-americano, entretanto, títulos como “Clube da Luta”, “Quero Ser John Malkovich”, “Magnólia”, “Rushmore-Três ÉDemais” e “Matrix” pareciam ser desafiadores demais para o padrão tradicionalista do Oscar, que acabou lembrando todas essas grandes obras apenas com uma ou outra indicação –à exceção, claro, de “Matrix”, que fez uma bela campanha nas categorias técnicas ofuscando “Star Wars-Episódio 1-A AmeaçaFantasma”.
Ao menos, essa ousadia se refletiu ainda que de forma tímida entre os indicados a Melhor Filme com o questionamento de “BelezaAmericana” (o grande vencedor), a denúncia e a urgência de “O Informante” a revelação autoral de M. Night Shyamalan em “O Sexto Sentido", o peso dramático da pena de morte em “À Espera de Um Milagre”, e a bela metáfora do aborto em “Regras da Vida” –aliás, Michael Caine, que por esse filme venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, fez o mais belo e emocionante discurso que me lembro de ter visto na história do prêmio!

MELHOR FILME
"Beleza Americana"

MELHOR DIREÇÃO
"Beleza Americana", Sam Mendes

MELHOR ATRIZ
Hilary Swank, "Meninos Não Choram"

MELHOR ATOR
Kevin Spacey, "Beleza Americana"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Angelina Jolie, "Garota, Interrompida"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Michael Caine, "Regras da Vida"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Beleza Americana"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"One Day In September"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"King Gimp"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Tudo Sobre Minha Mãe" (Espanha)

MELHORES EFEITOS SONOROS
"Matrix"

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Matrix"

MELHOR MAQUIAGEM
"Topsy Turvy-O Espetáculo"

MELHOR FIGURINO
"Topsy Turvy-O Espetáculo"

MELHOR SOM
"Matrix"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

MELHOR TRILHA SONORA
“O Violino Vermelho"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"You’ll Be In My Heart", de "Tarzan"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Beleza Americana"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Regras da Vida"

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"The Old Man and The Sea"

MELHOR MONTAGEM
"Matrix"

MELHOR CURTA-METRAGEM

"My Mother Dreams the Satan’s Disciples in New York”

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A Troca

Em sua trajetória como diretor de cinema, o astro Clint Eastwood fez pelo menos duas obras de grandeza inquestionável. Um, certamente, é o seu monumental faroeste, “Os Imperdoáveis”, e o outro, provavelmente, é este estupendo “A Troca”.
Baseado na história real de Christine Collins.
Nos anos 1920, ela, uma funcionária pública e mãe solteira (Angelina Jolie, impecável) tem seu filho de nove anos dado como desaparecido. Cinco meses depois, após buscas infrutíferas e críticas constantes a sua ineficiência, a polícia de Los Angeles lhe entrega um menino, afirmando ser o filho que ela perdera. Mas a mãe está plenamente convicta de que aquele não é seu filho, e desespera-se ao perceber que as buscas foram encerradas.
Numa situação em que pode constranger e comprometer a atuação da polícia, os membros da força resolvem calá-la internando-a em uma clínica psiquiátrica, alegando insanidade. Mas nem mesmo isso poderá calar sua voz aflita.
Pouco a pouco, este grande trabalho na direção de Clint Eastwood vai deixando de ser aquilo que aparentava no princípio (um suspense dramático sobre uma criança desaparecida) e envereda por uma história salutar e transformadora (e ainda espantosamente real!), por meio da qual os esforços e convicções de uma mulher foram capazes de operar mudanças em toda uma sociedade. Para tanto, é providencial e notável a participação de John Malkovich (num personagem que ganha força e expressão no segundo terço de filme). Notável também é a maneira que Eastwood, em sua direção sempre serena e requintada, enfatiza os elementos macabros inerentes à trama –e, num determinado momento, os registros de psicopatia a que chegam as ramificações da trama (envolvendo até mesmo crianças!) são, de fato, chocantes. Um filme dramático, humano, cru, e no entanto, dos mais recompensadores do cinema.

sábado, 16 de janeiro de 2016

O Procurado

É a um cinema comercial de ação desenfreada a que “O Procurado” se presta. Mas é também um novo prisma sobre esse mesmo cinema que o diretor Timur Bekmanbetov almeja levar à tela. 
Há inúmeras camadas a serem refletidas e removidas em “O Procurado”, o que já o eleva como um filme muito mais significativo que aparenta ser. 
Temos o protagonista que desperta de uma vida de inércia para uma nova existência (“Matrix”), o questionamento existencial que impulsiona a inquietação, e a insatisfação de toda uma geração (“Clube da Luta”), o aprimoramento físico e intelectual a níveis sobrehumanos como forma de exteriorizar a transformação da própria personalidade (“O Ultimato Bourne”). 
Havia algo de claudicante nos filmes realizados por Timur Bekmanbetov na Rússia, “Guardiões do Dia” e “Guardiões da Noite”, mas parece que a identidade visual de Bekmanbetov caiu como uma luva em “O Procurado”. 
Adaptação de uma série de histórias em quadrinhos independentes escritas por Mark Millar, é um projeto que mostra em boa luz as qualidades de Bekmanbetov como diretor: sua criatividade e sua habilidade na composição de cenas (sobretudo, de ação) que primam pelo equilíbrio de situações inacreditáveis. Uma bela demonstração de espirituosidade, na mescla apurada de humor e inteligência com que conta a história do jovem alienado que descobre ser filho do maior assassino de todos os tempos. Essa abordagem inspirada, em muito se deve à esperta escolha do ótimo James MacAvoy como protagonista. Ator inglês, de filmes mais densos e cadenciados, sua presença desigual rima com a escalação de Keanu Reeves como Neo em “Matrix”, assim como seus recursos dramáticos são bem empregados ao mostrar a evolução de seu personagem. À apoiá-lo temos uma vibrante Angelina Jolie e a voz firme de Morgan Freeman.