sábado, 22 de janeiro de 2022

Eternos


 Diferente do que aconteceu com “Viúva Negra”, pode-se dizer que “Eternos”, também da Marvel Studios, relativamente beneficiou-se do atraso de um ano de seu lançamento nos cinemas em decorrência da pandemia: Em 2020 (data inicial de seu lançamento), a diretora Chloe Zhao era uma ousada aposta da parte da Marvel –uma cineasta pouco conhecida, incumbida de retratar um aspecto cósmico e pouco conhecido dos não aficcionados por quadrinhos do Universo Cinematográfico da Marvel; aspecto cósmico este que tinha sido vislumbrado tão somente em “Guardiões da Galáxia”, de James Gunn, e, vá lá, em breves relances de “Thor-Ragnarok”, de Taika Waititi, e “Capitã Marvel”, de Anna Boden e Ryan Fleck. Acontece que ao longo do ano de 2021, a diretora Chloe Zhao deixou de ser uma incógnita para se tornar uma alta expectativa, depois de conquistar o Oscar 2021 (sobretudo, o de Melhor Direção, o segundo conferido a uma mulher na História do prêmio) por “Nomadland”.

É inevitável notar o contraste gritante de estética, estilo e conceito básico entre esse premiado filme independente de Chloe Zhao e a fórmula estabelecida pela Marvel Studios que engendrou grandes sucessos de bilheterias e, na maioria esmagadora das vezes, ótimas produções.

Chloe Zhao e seu “Eternos” vem justamente para rebater uma das críticas mais contumazes dirigida às obras de Marvel: A de que, na manutenção segura e bem-sucedida dos paradigmas comerciais definidos desde seu início, eles não têm espaço para realizações mais autorais, dotados de alguma personalidade. É irônico, portanto (e indicativo da inconveniência de parte do público), que muitas das reclamações sofridas por “Eternos” seja justamente a de ser um corpo diferente do que se espera, em geral, da Marvel Studios...

“Eternos” já começa ostentando ambição irrestrita ao incumbir-se das origens cósmicas do próprio universo e do planeta Terra –bem à moda dos quadrinhos: Divindades conhecidas como Celestiais criaram toda a vida, mas, acima de tudo, criaram os Deviantes e os Eternos. Enquanto os Deviantes eram seres monstruosos (predadores, como é explicado no prólogo), os Eternos eram seres poderosos e imortais, deixados na Terra com o intuito de ajudar na evolução de raça humana e protegê-la da ameaça dos Deviantes. E só –no caso de qualquer outra eventual ameaça (como Thanos que dizimou metade da vida em “Vingadores-Guerra Infinita”), os Eternos estariam assim terminantemente proibidos de interferir; e assim, a Marvel explica, meio de qualquer jeito, do porque de seres tão poderosos estarem no mundo desde o início dos tempos, e sua presença passar totalmente despercebida em acontecimentos épicos que se sucederam ao longo dos vinte e tantos filmes do Universo Marvel desde que ele foi oficialmente iniciado em “Homem de Ferro”.

E esses tais seres tão poderosos veem a ser a líder dos Eternos, Ajak (Salma Hayek); a feiticeira elemental Sersi (Gemma Chan, também presente do elenco de “Capitã Marvel”, mas desempenhando outro papel); o poderosíssimo Ikaris (Richard Madden, de “Rocketman”), quase uma espécie de ‘Superman da Marvel’ –com quem, aliás, é comparado, num momento bem descontraído –a velocista e surda-muda Makkari (a ótima Lauren Ridloff); a habilidosa guerreira Thena (Angelina Jolie); o robusto e bondoso Gilgamesh (Don Lee, do sensacional “Invasão Zumbi”); o controlador de mentes Druig (Barry Keoghan, de “O Sacrifício do Cervo Sagrado”); a geradora de ilusões eternamente presa num corpo de criança Sprite (Lia McHugh); o divertido e sarcástico Kingo (Kumail Nanjiani) e o criador de artefatos Phastos (Brian Tyree Henri).

São dez protagonistas bastante diversos, interessantes e heterogêneos. E essa variedade é um dos trunfos do filme, ao mesmo tempo, em que é seu calcanhar de Aquiles: Embora sejam (salvo raras exceções) personagens interessantes, vivenciados por um bom elenco (salvo raras exceções...) e reúnam, em si, características de inclusão e diversidade que certamente estavam nos planos da Marvel durante a gênese deste projeto, nem todos têm o desenvolvimento que mereciam (também pudera, são DEZ protagonistas!), e por vezes, o enredo privilegia e enfatiza os mais desinteressantes (caso do enfadonho Ikaris e da insossa Sersi), enquanto desperdiça aqueles que se sobressaem com carisma genuíno (caso do surpreendente Druig, da interessantíssima Makkaris ou do hilário Kingo).

O ponto de partida da trama de Eternos, ainda que este filme, de modo geral, se mostre de natureza mais independente dos demais projetos da Marvel, tem relação com os eventos mostrados em “Vingadores-Ultimato”: A medida que a narrativa se alterna entre a passagem de milênios, enquanto os Eternos presenciam, não sem uma certa amargura, a evolução da Humanidade rumo às guerras e à intolerância, descobrimos que o estalar de dedos de Thanos e a posterior recuperação dos desaparecidos gerou um fenômeno diretamente ligado aos Eternos. Os Deviantes, outrora extintos, reapareceram novamente e um celestial prestes à nascer de dentro do próprio planeta Terra graças à energia demanda pelas jóias do infinito pode exterminar todo o planeta.

Sersi, Sprite e Ikaris –que, depois de uma brusca separação séculos atrás, passaram a viver solitários entre os humanos –devem então reunir todos os Eternos outra vez com o intuito de deter o fim do mundo iminente. Entretanto, tais ameaças à vida na Terra podem, agora, representar um desafio até mesmo para seres de poder quase onipotente como os Eternos.

Sem revelar muito das surpresas –pois, apesar do escrutínio usual do público para com blockbusters como este, “Eternos” preserva algumas –o filme de Chloe Zhao maneja bem as habilidades diferenciadas de seus personagens, construindo uma trama que avança, num ritmo bem conduzido, para frente  (o destino vindouro dos Eternos, somado a algumas reviravoltas) e para trás (os flashbacks que elucidam sua relação com a raça humana, as particularidades que cada um passa a desenvolver, para o bem e para o mal) e prepara o terreno para um desfecho apropriadamente apoteótico, profuso em efeitos digitais.

Como diretora, de fato, Chloe Zhao traz uma nova percepção às obras da Marvel; seu estilo se faz notar no manuseio da luz e na sua preferência por cenas externas, além de uma construção sólida e confiante da dramaturgia que envolve os personagens. No entanto, “Eternos” não atinge os tópicos hiperlativos com os quais a Marvel Studios acostumou seu público; não tem a inventividade cativante de “Guardiões da Galáxia”, nem a elevada voltagem aventuresca de “Guerra Infinita” e “Ultimato”; e muito menos a construção cinematográfica certeira de “Pantera Negra”. Chloe Zhao é uma ótima diretora e obtém bons resultados em todos os quesitos em que se presta, mas seus personagens não têm, nem de longe, o apelo de público dos personagens mas icônicos da Marvel Studios (a ponto de uma rápida aparição-surpresa, numa das cenas pós-crédito, conseguir eclipsar, de longe, toda a presença extensa e numerosa do elenco principal), e o filme que surge dessa incomum miscelânea (ainda que certamente válida em sua tentativa de ousar) acaba sendo de saldo irregular.

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