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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Uma Batalha Após A Outra


 Tal como “Vício Inerente”, este novo projeto do diretor Paul Thomas Anderson é baseado num livro de Thomas Pynchon, o romance “Vineland”. Se a obra anterior era voltada para uma narrativa de mistério e de idas e vindas ao sabor de muitos delírios psicodélicos, aqui reflete-se sobre a paranóia e as consequências morais de se dedicar integralmente (e cegamente) a uma causa.

A distopia na qual Anderson ambienta seu filme coloca um grupo organizado de resistência, intitulado French 75, em busca de uma revolução em plenos EUA mais xenófobos do que nunca –uma clara alusão à América de Trump ainda que o olhar de Anderson não se furte de mostrar também os revolucionários como partidários de uma causa que facilmente resvala para o terrorismo. Não interesse, deveras, ao diretor dizer quem está certo ou errado; interessa, sim, contemplar os personagens desiguais e intrigantes que desse caldo emergiram.

Entre eles, está Ghetto Pat (Leonardo Dicaprio, excelente), um especialista em explosivos e traquitanas tecnológicas que adere à causa por razões um tanto prosaicas, e por razões prosaicas haverá também de abandoná-la, mais a frente. Ele se envolve com a belíssima Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor, vibrante), uma revolucionária afro-descendente selvagem e indomada. Em algum ponto, entre as noites de atentados planejados e os discursos inflamados, Perfidia engravida –e não tarda a ressentir-se do papel convencional de mãe que a situação lhe impôs.

No entanto, Perfidia, numa manobra carregada de ambiguidade do filme, envolveu-se também com o militar Steven J. Lockjaw (Sean Penn, também excelente, como aliás estão excelentes todos os integrantes deste elenco), um violento inimigo do outro lado do conflito –e, por isso mesmo, um amante de possibilidades ainda mais excitantes e transgressoras para Perfidia.

Tanto Ghetto Pat quanto Lockjaw correm, portanto, o risco de serem pais da filha de Perfidia. Ghetto Pat a cria com amor, e não pestaneja em deixar a French 75 tão logo as circunstâncias se tornem ameaçadoras para sua família. Contudo, algo ainda pior acontece: Durante uma operação, Perfidia é capturada e, favorecida pelo amante Lockjaw por baixo dos panos, acaba delatando boa parte de seus companheiros, obrigando Ghetto Pat à fugir com sua filha, e assumir uma outra identidade.

Dezesseis anos depois, Ghetto Pat agora com o nome de Bob Fergunson cria a filha adolescente Willa (Chase Infiniti, fantástica) na cidade de Baktan Cross, uma cidade santuário que flexibiliza as leis de imigração nas proximidades da fronteira com o México. Tudo segue com tranquilidade até que Lockjaw, agora sob a patente de coronel, obtêm a sonhada chance de ingressar num restrito clube de supremacistas brancos, os Aventureiros Natalinos. No entanto, as regras do clube são severas e segregacionistas –não são toleradas interações com pessoas de outra raça.

A fim de conquistar a chance de ser um dos Aventureiros Natalinos, o Coronel Lockjaw precisa varrer para debaixo do tapete todos os indícios do caso que teve com Perfídia no passado (ela que, por sinal, fugiu do programa de proteção à testemunha e nunca mais foi vista), o que inclui a possibilidade dele ser pai de Willa.

Sob esses pretextos um tanto torpes –e justificados oficialmente por outros mais torpes ainda! –o Coronel move um destacamento de soldados de elite para Baktan Cross, a fim de matar Bob Fergunson e capturar Willa tão logo obtêm a informação do paradeiro deles e da identidade que assumiram.

O que se segue, na sequência, é um filme brilhante, magistralmente equilibrado entre um fino senso de humor (repare na sensacional trilha sonora, a cargo de Jonny Greenwood, do “Radiohead”, que comenta ora com sarcasmo, ora com urgência cada uma das cenas), um afiado drama humano sobre os desdobramentos práticos de uma oposição ao sistema e uma costura fina da trajetória de personagens construídos e interpretados com primazia, uma produção digna de um dos mais habilidosos diretores da atualidade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Algumas Previsões Para O Oscar 2026

 


Die, My Love

O filme que reúne os astros Jennifer Lawrence e Robert Pattinson encontra-os num momento bastante aclamado de suas carreiras; diferente de quando foram lançados ao estrelato (ela, com “Jogos Vorazes”; ele, com “Crepúsculo”), e dirigidos pela sempre autoral Lynne Ramsay. “Die, My Love” chega com chances fortíssimas de emplacar mais uma indicação de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence e possibilitar a melhor recepção da Academia de Artes Cinematográficas, até então, para um filme de Ramsay.


O Agente Secreto

Desde antes de sua estréia, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, vinha sendo cotado para repetir com pompa e circunstância a mesma campanha belíssima feita pelo premiado “Ainda Estou Aqui” no ano passado, agora, com indições para Wagner Moura, de Melhor Ator, e novamente Melhor Filme Internacional, e até quem sabe algumas outras categorias: Muitos são os críticos apontando este como o melhor trabalho de Mendonça Filho, o quê, vindo do realizador de “Bacurau”, não é pouco!


Avatar-Fogo e Cinzas

O primeiro “Avatar”, lá de 2009, é visto hoje como um divisor de águas no cinema hollywoodiano; sua continuação, “O Caminho da Água”, pode até não ter repetido a mesma extensão de êxito, mas foi um fenômeno de bilheteria, concorreu ao Oscar de Melhor Filme e ainda saiu da cerimônia com o prêmio de Melhores Efeitos Visuais. O trailer (empolgante, diga-se) desta terceira parte promete, no mínimo, uma produção superior ao último filme.


Frankenstein

Contando pouco tempo de seu lançamento em cinema e streaming (o filme é da Netflix), a nova e suntuosa versão do diretor Guilhermo Del Toro para a obra imortal de Mary Shelley está perfeitamente posicionada para ser lembrada na cerimônia do Oscar no ano que vem. E muitos têm sido aqueles que enalteceram a realização de Del Toro como a melhor adaptação do clássico literário até hoje! –lembrando que, entre outras versões, houve até uma de Kenneth Branagh com Robert De Niro.


Pecadores

Talvez, a grande obra-prima entre os exemplares da nova vertente do terror norte-americano, “Pecadores”, de Ryan Coogler, surpreendeu o público e a crítica com uma trama que, enquanto capturava uma apaixonada referência à “Um Drink No Inferno”, de Robert Rodriguez, abordava a questão racial e a influência poderosa da música negra num espetáculo cinematográfico belo, impressionante e sangrento.


F1-O Filme

O excelente filme com Brad Pitt e dirigido por Joseph Kosinski chegou até mesmo a ser relançado nos cinemas no segundo semestre deste ano visando uma chance entre os indicados ao Oscar. As possibilidades entre as categorias principais estão diminuindo (à medida que concorrentes mais fortes e substanciais começam a ser lançados no circuito), mas a esperança ainda paira no ar –e a presença em muitas categorias técnicas é quase uma barbada visto sua incontestável competência.


Uma Batalha Após A Outra

Paul Thomas Anderson recrutou Leonardo Dicaprio para realizar um dos filmes mais ágeis e dinâmicos de sua consagrada carreira. Adaptado de um livro de Thomas Pinchon (assim como foi “Vício Inerente”), Anderson entrega uma produção sofisticada, carregada de reflexões pertinentes e atuais, concebida com apuro visual e narrativo à toda prova e adornada de brilhantes atuações. O olhar dos críticos, do público e da Academia repousa, atento, sobre ele.


Wicked-Parte 2

A “Parte 1” encantou público e crítica, chegando na última cerimônia do Oscar (de onde saiu com duas estatuetas) exigindo respeito. Esta segunda e última parte (sobretudo, depois do lançamento de seu trailer apoteótico) eleva ainda mais as apostas. Agora, retornamos ao mundo de “O Mágico de Oz” pouco antes dos eventos narrados no clássico; contudo, desta vez, a trajetória dúbia e intrigante de Elphaba e Glinda vai adentrar os acontecimentos do filme de 1939 e, por fim, se encerrar.


Bugonia

O diretor grego Yorgos Lanthimos, a despeito de seu estilo corrosivo, único e pouco usual, parece ter caído nas graças de Academia que terminou indicando (e, em alguns casos, até premiando!) a maioria de seus últimos trabalhos em categorias bastante expressivas. Sua nova audácia “Bugonia”, já desponta como um dos favoritos à estatueta dourada e à outros prêmios da temporada com a atenção voltada, especialmente, para as atuações de Emma Stone e Jesse Plemmons, intérpretes prediletos de Lanthimos.


Coração de Lutador

Dwayne ‘The Rock’ Johnson concorrendo ao Oscar de Melhor Ator? É o que muitos estão se perguntando e contemplando a possibilidade de se tornar verdade. Dirigido por Ben Safdie (diretor de “Jóias Brutas” e ator em “Oppenheimer”) e baseado na vida do lendário lutador Mark Kerr, o filme parece uma tentativa de The Rock em dar um novo rumo à sua carreira já pontuada por vários sucessos de bilheteria. Para alguns especialistas a bilheteria abaixo do esperado pode ter esfriado suas chances, mas, para outros, o filme ainda tem possibilidades reais de chegar aos indicados principais.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Assassinos da Lua das Flores


 Obra gigantesca de Martin Scorsese, este épico investigativo e intimista sobre a degradação moral joga luz sobre um fato histórico não muito difundido, mas dos poucos a elucidar com nitidez cristalina a predisposição aterradora para a perversidade escondida no coração da América.

Início da década de 1920. As terras pertencentes aos nativos norte-americanos Osage têm petróleo, o que faz de muitos deles, algumas das pessoas mais ricas dos EUA de então. Entretanto, os Osage não possuem a sanha gananciosa do capitalismo, o que os torna alvo da mesquinharia e dos interesses ambíguos de muitos homens brancos aproveitadores. No Condado de Osage, no estado do Oklahoma, um pólo de crescimento que agrega as duas culturas e, aos poucos, se torna palco das intrigas, um massacre lento, gradual e despercebido se sucede ao longo dos anos –os homens brancos não mais hostilizam abertamente os indígenas como no Velho Oeste poucos anos antes, agora eles querem lhes tomar o patrimônio por meio de esquemas escusos embasados pela Lei. Alguns casam-se com as mulheres de determinada família e, pouco a pouco, orquestram a morte de todos os membros (!) para ficarem com o vasto espólio financeiro pela lei de sucessão. As mortes (algumas, forjadas como suicídios; outras, nem mesmo isso) devido ao fato de ocorrerem com pessoas nativas não recebem qualquer atenção das coniventes autoridades locais.

É nessa circunstância que chega ao condado o ex-combatente Ernest Burkhart (Leonardo Dicaprio), vindo das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, sobrinho do todo-poderoso local Will Hale (Robert De Niro). Inicialmente trabalhando como motorista, Ernest, sob orientação arguta do próprio tio, se aproxima e se casa com a jovem Mollie (a extraordinária Lily Gladstone), herdeira de uma das muitas fortunas do lugar. Mollie tem uma família numerosa –a mãe e várias irmãs –mas, não tarda a cair nas malhas insidiosas das tramóias de Wiil Hale e se tornar, com o tempo, a única restante da família (!), o que torna portanto, Ernest, o herdeiro de sua riqueza.

Não passa despercebido, ao diretor Scorsese, a curiosidade em torno do fato de que esse relato histórico assim descortinado, é um tanto quanto desconhecido do grande público, ciente do quão tal elemento traz de lastimável à História Norte-Americana; ele evidencia esse traço de vergonha, ao agregar aspectos inesperadamente patéticos na dinâmica de seus personagens principais a despeito de toda densidade e dramaticidade predominante, sobretudo, a relação de subserviência, fidelidade injustificada e dissimulação gaiata entre Ernest e Will –e nesse sentido, são primordiais as composições de Dicaprio e De Niro na ênfase humanamente errádica de seus pouco escrupulosos personagens; o que evoca, em “Assassinos da Lua das Flores”, uma narrativa que sintetiza a um só tempo “Sangue Negro” e “O Poderoso Chefão”.

O terço final do filme mostra a chegada, um tanto tardia, do FBI à Osage, enviados para lá devido a um apelo da aflita Mollie na própria corte do senado, em Washington, ao presidente em pessoa. Representado pelo personagem do ótimo Jesse Plemons (de “Ataque dos Cães”), o FBI –num dos primeiros casos verdadeiramente bombásticos de sua recente criação –se depara com os absurdos alarmantes que cercaram as centenas de homicídios perpetrados contra dos Osage. E quando “Assassinos da Lua das Flores” se converte num filme de tribunal, já em sua reta final, somos confrontados com detalhes ainda mais assombrosos e desconcertantes das práticas criminosas empregadas em Osage, à medida que o protagonismo de Ernest vai se reforçando, fazendo dele, testemunha-chave para condenação (ou absolvição) dos culpados.

Como em “O Irlandês”, Martin Scorsese elabora aqui um vasto tratado ético e cinematográfico amparado justamente no formato monumental de sua realização (as três horas de duração são ultrapassadas com relativa facilidade), e almeja através daí uma experiência sensorial de acomodação e detalhamento para o expectador que muito pouco se reflete , em ritmo e lógica, ao que é feito hoje em termos de cinema comercial.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Conflitos Internos / Os Infiltrados


 Conflitos Internos

Extremamente prestigiado em Hong Kong, o diretor Andrew Lau é um hábil manejador de tramas prolixas, capaz de ressaltar suas arestas de originalidade em meio à gêneros e conceitos dos quais público e crítica tendem a subestimar.

Uma de suas obras mais aclamadas –pelo menos, no Oriente, onde obteve largo sucesso –“Conflitos Internos”, o qual ele co-dirigiu em colaboração com Alan Mak no ano de 2002, não somente é um brilhante thriller policial e, a sua maneira, uma evocação apaixonada dos meandros complexos e fascinantes com os quais Francis Ford Copolla forjou a mitologia de seu “O Poderoso Chefão” como também é o imprevisto estopim (até para seus realizadores!) de uma bem-sucedida trilogia.

Neste primeiro filme, testemunhamos, em meio ao submundo criminal de Hong Kong, as trajetórias de um criminoso e de um policial, interpretados por Andy Lau (não confundir com o diretor de quem ele é quase homônimo!) e Tony Leung, respectivamente, que em paralelo se infiltram entre seus próprios inimigos. Ambos acabam ganhando a confiança nas suas áreas. Ironicamente, o policial disfarçado de bandido torna-se um dos homens de confiança do chefe da quadrilha quando surge a suspeita de que há um espião entre eles. Ao mesmo tempo, o gangster infiltrado na polícia integra uma equipe justamente para descobrir quem está entregando informações aos bandidos. Pouco a pouco, os dois estão prestes a desmascarar um ao outro.

Andrew Lau e Alan Mak trabalham maravilhosamente bem a circunstância de suspense do filme, cuja impecável atmosfera nos faz desconfiar de cada movimento, de cada olhar mal-disfarçado; é um mundo de suspeitas onde ninguém pode confiar em ninguém, e cada ato parece supervisionado por inimigos ávidos por ter alguém a quem desmascarar.

Como em toda trama de intriga, Lau e Mak justapõem os antagonistas deixando bem clara a forma preocupante com que estão inseridos entre as fileiras inimigas –mas, somente isso fica cristalino; tudo o mais (alianças, motivações, lealdades) é deixado brilhantemente ambíguo, de forma a potencializar sua tensão, que acaba coroada com um final impiedoso do qual o viés shakesperiano embutido em sua premissa converge a um eco ensurdecedor.

O segundo filme da trilogia (realizado em decorrência de seu inesperado sucesso de público, visto que esta é, evidentemente, uma história planejada com começo, meio e fim) trata-se de uma espécie de prequel que esmiuça com mais detalhes o passado dos dois personagens principais, enquanto que o terceiro termina sendo, de fato, a continuação, mostrando os desdobramentos e consequências do desfecho do primeiro filme.


Os Infiltrados

Como costuma ocorrer a um filme estrangeiro de insuspeita qualidade a destacar-se entre as milhares de obras produzidas pelo mundo ano a ano, “Conflitos Internos” –ao menos, a primeira e, de certa forma, a segunda parte –acabou sendo refilmado em 2006. E não uma refilmagem qualquer: “Os Infiltrados” ganhou direção de ninguém menos que Martin Scorsese (recém-saído de seu suntuoso épico “O Aviador”) e foi estrelado por Leonardo Dicaprio ao lado de Matt Damon, o elenco conta ainda com Jack Nicholson numa de suas últimas participações num longa-metragem antes da aposentadoria.

A trama, ainda que roteirizada pelo conceituado William Monahan (de “Cruzada”), replica a de “Conflitos Internos” com constrangedora proximidade: Um policial (Dicaprio) infiltra-se na máfia de Massachussets, em Boston, enquanto paralelamente, um espião da máfia (Damon) é plantado na força policial. Os anos se passam e cada um dos respectivos infiltrados adquire confiança em sua corporação até a descoberta de que ambas as partes possuem um espião. A trama acompanha então a nervosa investigação (e consequente duelo) para que um consiga desmascarar o outro.

Como costuma acometer nas refilmagens promovidas pelos norte-americanos, a despeito da qualidade um tanto desafiadora do material que tentam refilmar, os realizadores se esforçam bastante para incrementar os elementos já presentes no filme original; e aqui, o roteiro de William Monahan é desonestamente astuto ao aproveitar muito da trama, não apenas do primeiro, como também do segundo filme: Ao valer-se do original e de sua prequel, os realizadores de “Infiltrados” têm a chance de moldar uma obra mais robusta, com mais elementos dramáticos a oferecer diante do enxuto “Conflitos Internos” –além da presença inédita do personagem de Mark Whalberg, inexistente no original, que acrescenta um elemento mais contundente ao desfecho, ainda que algo questionável –e, embora este seja de fato um filme menor dentro de sua formidável filmografia, um filme dirigido por Martin Scorsese ainda É dirigido por Martin Scorsese: A mitologia de toda a criminalidade de Boston concebida para o filme é rica e notável em seu detalhamento, e o diretor não somente equilibra atuações de forma a todos soarem impecáveis (Jack Nicholson, nitidamente substituindo uma presença que seria regularmente de Robert De Niro, não acaba roubando a cena de ninguém como inicialmente poderíamos presumir) como também evoca um sem-fim de referências cinematográficas vastas –que vão de cortes abruptos e imprevisíveis decalcados de Glauber Rocha à sutis manobras narrativas extraídas de antigos filmes noir –regendo o que pode ser chamada de uma sinfonia de violência e psicologia.

Ainda que tímido diante de tantas obras maiúsculas que Scorsese entregou antes e depois (e certamente inferior, mesmo que com todos os seus esforços, à produção original na qual foi inspirado) coube a este pequeno épico policial a honra de ser a produção pela qual Martin Scorsese finalmente recebeu seu Oscar de Melhor Diretor. Ele traz a fúria narrativa e a costumeira maestria que um mestre como Scorsese consegue criar, mas, não tenha dúvidas, é bastante simplório na comparação com muitos de seus trabalhos.

Em tempo, no ano de 2009, houve mais uma refilmagem de “Confiltos Internos”, desta vez, realizada na Coréia do Sul (uma indústria cinematográfica a qual nunca se deve subestimar), com o título inglês de “City of Dammation”, dirigida por Dong Won Kim e concebida numa variação –pasmém –de comédia!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Não Olhe Para Cima


 Há quem se pergunte se ainda há espaço para a inteligência no atual cinema comercial moderno. Na ânsia por encontrar uma resposta positiva, o diretor e roteirista Adam McKay se firmou nos últimos anos como um autor singular, capaz de capturar complexidade, loquacidade, atualidade e urgência num caldeirão bem-humorado e contundente em refletir os percalços do mundo real. Dessa predisposição surgiu o clássico moderno “A Grande Aposta”, o engajado “Vice” e este “Não Olhe Para Cima”.

Anunciado como a maior superprodução bancada pela Netflix até então –e tal ambição se reflete em cena com os nomes estupendos que abarrotam seu elenco estelar –o filme de McKay era, em si, uma alegoria crítica ao descaso ostentado por alguns líderes mundiais ao aquecimento global. Porém, sua produção –iniciada nos últimos meses de 2019 –precisou ser interrompida com a chegada da pandemia de 2020, sendo retomada em 2021, deixando o filme pronto para ser lançado nos últimos meses desse ano. Essas circunstâncias, é correto afirmar, modificaram de tal forma a percepção de público e crítica do filme que “Não Olhe Para Cima” se tornou algo que, em princípio, nem seu realizador previa: Uma observação pertinente, ácida e implacável das facetas mesquinhas e calculistas do negacionismo, e também, uma horripilante constatação de todas as celeumas que empurram a humanidade rumo ao seu fim.

A começar essa narrativa hilariamente angustiante, temos a jovem Dra. Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) cuja descoberta, de um cometa em rota de colisão com a Terra é compartilhada com seu professor, o Dr. Randall Mindy (Leonardo Dicaprio). Seguindo o raciocínio lógico, Randall e Kate tentam avisar as autoridades desse perigo à raça humana, entretanto, raciocínio lógico é algo que, deveras, não faz parte da cartilha de quase nenhum dos outros personagens que orbitam seus protagonistas e –o que é pior! –alguns deles habitando esferas políticas de fundamental liderança mundial. Como é o caso da presidente Janie Orlean, vivida por Meryl Streep, numa clara alusão à Donald Trump.

É desconcertante toda a sequência em que Randall e Kate tentam, à duras penas, uma audiência na Casa Branca, e são recebidos com descrédito estarrecedor e indulgência alarmante pela Chefe de Estado e seu filho, Jason (Jonah Hill que personifica bem as facetas mais assombrosamente amorais e revoltantes do nepotismo). Em suma, eis o mote em torno do qual “Não Olhe Para Cima” gira: O fato de que, mesmo estando o fim do mundo e seus indícios escancarados à sua frente, muitas são as pessoas que escolhem não crer em sua existência. Trata-se de McKay, como o genuíno autor que é, se voltando para um fenômeno bastante inusitado e preocupante nos tempos digitais de hoje; a pós-verdade –as pessoas já não ligam mais para a verdade, para os fatos e as informações, elas preferem escolher a narrativa que mais lhes agrada, com a qual mais simpatizam, e a defendem com unhas e dentes.

É assim que Randall e Kate, com a ajuda do Dr. Oglethorpe (Rob Morgan, de “Confronto No Pavilhão 99”), conseguem pouco mais que tornarem-se memes na internet (!), após tentarem, em vão, alertar a população por meio do alienado e midiático programa de TV apresentado pelos histriônicos apresentadores vividos por Tyler Perry e Cate Blanchett. A verdade só começa a ser aceita –talvez, um tanto quanto tarde demais –quando as eleições vindouras apontam um prognóstico pessimista para a reeleição de Orlean, o que a obriga, junto de todos os seus senadores e conselheiros, a recorrer a uma manobra populista, financiando uma missão para desviar a rota do cometa. E mesmo aí, no que aparenta ser o rumo natural de todo o filme-catástrofe ao estilo “Armageddon” –o que enganosamente a obra de McKay parece ser –“Não Olhe Para Cima” continua subvertendo: Surge o empresário, inovador e avoado Peter Isherwell (Mark Rylance, hábil em personagens que despertam certa injúria no público) que, na qualidade de financiador principal da campanha (leia-se, manda nela mais que a própria presidente), tem a ideia de jerico de desistir da tentativa de destruir o cometa e, ao invés disso, aproveitar o vasto contingente mineral que é a sua constituição, para com aquilo ter um estoque infinito de matéria-prima para confeccionar seus celulares.

São inúmeros os absurdos que “Não Olhe Para Cima” enfileira, um após o outro, dentro do contexto que se propõe, e eles só não espantam mais do que o fato de que, em grande medida, tudo reflete, e com bastante exatidão, ideologias em voga nos tempos polarizados de hoje. A alfinetada ao conservadorismo, à extrema-direita e ao escrutínio midiático culturalmente questionável é bastante evidente –e certamente Mckay valeu-se do intervalo forçado da pandemia para aproximar seu roteiro ainda mais da deplorável condição política da atualidade –mas, “Não Olhe Para Cima” se propõe a uma reflexão muito mais relevante e válida: Do quanto se perdeu, em compreensão e empatia, nas nossas relações humanas com a chegada de ferramentas digitais que só fizeram nos alienar ainda mais enquanto sociedade.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Algumas previsões para o Oscar 2022...

 No dia 8 de fevereiro de 2022 serão anunciados os indicados aos Oscar, e no dia 27 de março, dentre esses indicados, serão anunciados, por fim, os vencedores, as obras nomeadas pela Academia de Artes Cinematográficas como as melhores do ano. Sendo assim, é justo afirmar que, neste presente momento em que você lê estas linhas, a temporada de prêmios já se iniciou. Como na temporada anterior, as circunstâncias da pandemia tornam mais nebulosas as chances de palpites certeiros, com filmes podendo serem adiados e/ou lançados a qualquer momento –inclusive nas plataformas de streaming, de onde obras muito premiadas dos últimos anos andaram saindo. A imprevisibilidade dessas novas condições torna mais desafiador apontar prováveis eleitos e favoritos reais, mas, vamos tentar.


 A Crônica Francesa

Cada nova obra de Wes Anderson é um deleite. Diretor desigual, de um estilo que se aprimora a cada projeto, ele acrescenta, neste “A Crônica Francesa” um tom engajado e reflexivo ao primor narrativo de sempre e à excelência técnica que seus filmes já costumam oferecer. O elenco extenso e estelar é um convite à premiações, e dificilmente a Academia deixará este filme passar despercebido.


 Não Olhe Para Cima

A maior produção da Netflix até então, “Não Olhe Para Cima” é extraordinariamente ambicioso: Além de colocar encabeçando seu fenomenal elenco a dupla Leonardo Dicaprio e Jennifer Lawrence (provavelmente os dois maiores astros da atualidade), o filme tem direção e roteiro do aclamado Adam McKay, autor de dois filmes audazes, perspicazes e inteligentes que causaram rebuliço nos últimos anos, “A Grande Aposta” e “Vice”. Não obstante, as primeira críticas apontam uma obra brilhantemente equilibrada entre a sátira política e a competência cinematográfica, um “Dr. Fantástico” dos novos tempos.


 Amor Sublime Amor

O simples fato de ser um filme de Steven Spielberg já lança imediata luz sobre este projeto, agendado para estrear no fim do ano passado, mas adiado em um ano, assim como tantos outros. No entanto, “Amor, Sublime Amor” é também a audaz refilmagem de um filme, em princípio, impossível de se refilmar: O clássico tido como intocável de 1961, dirigido por Robert Wise e Jerome Robbins, ganhador de nada menos do que 10 prêmios Oscar! Ao mesmo tempo, Spielberg realiza aqui um sonho: O de enfim dirigir um filme musical; desejo que ele só chegou perto de realizar na cena de abertura de “Indiana Jones e O Templo da Perdição”. Não apenas o nome de um dos maiores diretores de cinema da atualidade (senão O maior) destaca este filme, como o fato de que todos os trabalhos de Spielberg recebem grande atenção no Oscar –e, com efeito, são obras excelentes.


 Duna-Primeira Parte

O clássico literário “Duna”, de Frank Herbert, transcorreu um longo e tortuoso caminho até ganhar uma adaptação digna e satisfatória para cinema. “Duna”, de Denis Vileneuve –que se incumbe de transpor a primeira parte do livro para as telas –segue percalços muito semelhantes à “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”, de Peter Jackson, passando inclusive pelo belo desempenho de bilheteria e pela aclamação praticamente unânime da crítica. Além disso, a Academia adora quando Vileneuve se aventura com êxito no terreno da ficção científica, vide o reconhecimento caloroso dado à seus projetos anteriores, “A Chegada” e “Blade Runner 2019”.


 Spencer

O diretor chileno, Pablo Larraín, parece ter se especializado em grandes biografias de figuras fundamentais do Século XX. Ele já havia colecionado elogios tremendos por seu excelente “Jackie”, e tudo indica que repetirá a dose com “Spencer” –e, de quebra, ainda pode obter a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz para Kristen Stewart –que desvenda a intimidade da icônica Princesa Diana.


 Casa
Gucci

Outro diretor cujos trabalhos, adentrem o gênero que adentrarem, frequentemente monopolizam as atenções da Academia é Ridley Scott. Aqui, ele abandona os épicos de praxe para focar numa trama que remonta a história real do assassinato de um herdeiro da grife Gucci por sua ex-esposa, Patrizia Reggiani. Como a maioria dos filmes com fortes predisposições para competir ao Oscar, este tem um elenco estelar escolhido à dedo: Lady Gaga (uma atriz consumada após o sucesso de “Nasce Uma Estrela”), Adam Driver, Jared Leto, Al Pacino, Jeremy irons e Salma Hayek.


 The Tragedy Of
Macbeth

Vinte e um anos depois dos Irmãos Coen terem realizado “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, adaptando a obra de James Joyce, “Ulisses” para uma pitoresca ambientação norte-americana, eles, de certa forma, tentam algo parecido com “The Tragedy Of Macbeth”, dando sua visão ímpar, incomum e certamente magistral para a conhecida tragédia criada por William Shakespeare, contando com o magnífico par central interpretado por Denzel Washington e Frances McDormand –ela, esposa de Joel Coen, um dos diretores, e vencedora do Oscar de Melhor Atriz por “Nomadland” na última premiação.


 Cry
Macho

Já de avançada idade, cada novo filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood parece soar como sua despedida, seu testamento. Assim pareceu ser o elogiado “A Mula”, e assim parece “Cry Macho” que, sob muitos aspectos lança uma circunspecta luz analítica sobre as facetas humanas da persona à qual o próprio Clint Eastwood foi muito relacionado em toda sua carreira. Não deixa de ser uma proposta que remete ao elogiado “Os Imperdoáveis” que deu a ele o Oscar 1992 de Melhor Filme.


 Noite Passada Em Soho

O diretor Edgar Wright é um dos mais originais e brilhantes estetas a surgir no cinema nos últimos anos. Trabalhos como “Todo Mundo Quase Morto”, “Scott Pilgrim Contra O Mundo” ou “Em Ritmo de Fuga” proporcionam experiências cinematográficas plenas e inquestionáveis  e uma sintonia fora do comum com o que há de mais arrojado na cultura pop. Há tempos pedindo por um reconhecimento, Wright entrega agora uma obra vibrante, desafiadora  e surpreendente ao acessar ecos subconscientes do elogiado cinema da década de 1970 –como o ‘giallo’ e o Novo Cinema Britânico –e ainda traz duas protagonistas maravilhosas: Thomasin McKensie (de “Jojo Rabbit”) e Anya Taylor-Joy (de “O Gambito da Rainha”).

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A Praia

 


Já na transição da década de 1990 para a década de 2000, a virada do milênio, a carreira de Leonardo Dicaprio sofria a chamada ‘ressaca de “Titanic”’: Parecia improvável que qualquer coisa que ele fizesse a partir dali fosse tão igualmente retumbante, e bem-sucedida quanto o épico estrondoso e megalomaníaco de James Cameron. E, com efeito, seus projetos seguintes foram redundantes (“Eclipse de Uma Paixão”, realizado três anos antes de “Titanic”, mas lançado logo depois), pouco vistos (“Celebridades”, de Woody Allen) ou simplesmente ruins mesmo (“O Homem da Máscara de Ferro”). Parecia que Dicaprio mergulharia naquela típica armadilha onde um bom ator, tornado astro por um único grande sucesso, não conseguiria igualar o mesmo feito, afundando em realizações banais.

O que acabou resguardando a responsabilidade de ser a prova de fogo –se ele era uma promessa vazia ou um astro de talento e magnetismo real –para este “A Praia”, de Danny Boyle.

Por sua vez, a situação do diretor escocês Boyle era um pouco distinta: Ele vinha de dois projetos elogiadíssimos feitos em sua Escócia-natal que pegaram o mundo de assalto (o suspense “Cova Rasa” e o hoje muito cultuado “Trainspotting-Sem Limites”) e de uma produção de bem menos repercussão (a comédia romântica de humor negro “Por Uma Vida Menos Ordinária”); em todos os três casos, Boyle reunia uma espécie de ‘família cinematográfica’, onde repetia o mesmo roteirista (John Hodge), o mesmo produtor (Andrew Macdonald) e o mesmo ator principal (Ewan McGregor).

“A Praia” era sua estréia numa produção inteiramente hollywoodiana e, se manteve todos aqueles nomes atrás das câmeras, à frente delas, ele substituiu McGregor por Dicaprio –possivelmente para acatar uma imposição do estúdio que financiou o projeto, a Fox.

Dicaprio vive Richard, um mochileiro americano perambulando pela Tailândia, e acumulando instigantes experiências de vida. Richard, contudo, não é nenhum santo –e essas características ambíguas do personagem (como dissimulação, covardia e certa ausência de escrúpulos), além de serem essenciais aos rumos que a trama vai tomando, são recebidas e incorporadas com palpável satisfação pelo astro Dicaprio, ávido por enfim interpretar um protagonista que foge às definições de bom moço.

Pernoitando num albergue caindo aos pedaços, Richard conhece seus vizinhos de quarto: Do lado direito, o casal de franceses Françoise (a gatinha Virginie Ledoyen, de “Adeus, Minha Rainha”) e Etienne (Guillaume Canet), mochileiros como ele; do lado esquerdo, o desajustado, psicótico e atormentado Daffy (Robert Carlyle).

É Daffy quem, pouco antes de suicidar-se (!), deixa com Richard um mapa que, segundo ele, conduz a uma verdadeira lenda urbana: Uma praia paradisíaca com plantações abundantes de cannabis, de onde os afortunados turistas que encontram sua trilha não têm mais vontade de sair. Convidando Françoise e Etienne para ir com ele –e já cheio de segundas intenções para cima da moça –Richard segue pelo caminho mostrado no mapa; não sem antes passar uma cópia dele para uns camaradas maconheiros com quem confraternizou na véspera.

Após uma árdua travessia no mar, e uma alucinada perseguição na própria ilha, os três encontram a tão alardeada praia, e descobrem que lá vive uma comunidade alternativa liderada pela aparentemente sábia Sal (Tilda Swinton) cujos integrantes pouco interesse têm em visitar o mundo exterior. Richard, Françoise e Etienne são recebidos por eles e, durante algum tempo, sentem-se vivendo num paraíso.

Isso até os transtornos (alguns dos quais plantados pelo próprio Richard) virem bater-lhes à porta: Ele realiza seus desejos e separa Françoise de Etienne passando a namorar a francesinha; e ainda consegue escapar de um ataque de tubarão, embora dias depois, um colega da comunidade não tenha a mesma sorte, e o sofrimento dele (sem remédios por perto para proporcionar sua cura e aliviar sua dor) desafia a manutenção de todo o clima feliz do lugar. Entretanto, o pior mesmo é quando os tais maconheiros mencionados acima resolvem aparecer no lugar –no qual rege a lei irrevogável de que ninguém deve revelar seu segredo.

Assim, as travessuras e presepadas de Richard acabam colocando toda a comunidade na mira dos traficantes responsáveis pela vasta plantação de maconha do lugar; com quem até então mantinham uma certa trégua.

Baseado num romance de Alex Garland –que, a partir deste filme, passou a ser um roteirista regular de muitas ótimas obras de Boyle daqui para frente –“A Praia” é o tipo de filme que pode enganar expectadores desavisados numa primeira impressão: Seu visual de cartão-postal (assim como a presença de Dicaprio) podem sugerir um mero veículo comercial para um astro jovem e estabelecido, mas na verdade, Boyle faz deste um filme palpitante, equilibrando facetas de suspense, aventura e intriga num ambiente bastante inusitado, construindo uma narrativa absolutamente inspirada e inquieta (um diretor menos capaz certamente teria transformado o material em algo convencional e genérico) e proporcionando a Leonardo Dicaprio uma chance para revelar-se um ator talentoso, seguro e versátil para muito além do grande sucesso pelo qual era reconhecido.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Em Hollywood

Representa uma espécie de marco temático na carreira de Quentin Tarantino o épico de guerra “Bastardos Inglórios”: Ele não somente era um passo além nas tramas atrevidas e rocambolescas que ele urgia, como também representou uma prova cabal perante a indústria da qualidade de seu realizador, tão emaranhado em projetos anteriores que resgatavam a essência dos filmes B (“Kill Bill Vol. 1 e 2”, “A Prova de Morte” do “Projeto Grindhouse”) que muitos começavam a achar que eram filmes B que Tarantino passaria então a fazer.
Ao conceber aquele que promete ser um de seus últimos trabalhos antes de sua aposentadoria (ele afirma que irá parar em dez longa-metragens), Tarantino realiza aqui um compêndio de sua paixão e de sua compreensão de cinema amparado numa estrutura que, seja em sua minúcia ou em sua amplitude, remete à “Bastardos Inglórios”.
Situado no ano de 1969, “Era Uma Vez... Em Hollywood” já denota certa desconstrução daquilo que Tarantino habituou o público ao exibir um trabalho de absoluta clareza e nitidez em sua direção de fotografia (a cargo de Robert Richardson) –não é intenção dele, desta vez, recriar a impressão dos filmes feitos naquele período, como ele o fez com os filtros empoirados e envelhecidos de “A Prova de Morte”; aqui, Tarantino quer recriar a impressão de se estar naquele período, a acompanhar lado a lado a trajetória de seus três maravilhosos protagonistas, o ator Rick Dalton (Leonardo Dicaprio), o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e a atriz Sharon Tate (Margot Robie).
Rick foi astro de uma série televisiva de faroeste –e, desde então, seu dublê, Cliff trabalha como seu braço direito e ‘faz tudo’, inclusive como seu motorista –entretanto, ele apostou tudo numa tentativa de emplacar como astro de cinema. Algo que, num diálogo ocorrido em uma das primeiras cenas, o diretor vivido por Al Pacino deixará bem claro que está cada vez mais longe de acontecer: Como no estupendo diálogo inicial entre o Coronel Hans Landa e o fazendeiro francês em “Bastardos...”, o diálogo entre Pacino e Dicaprio começa amistoso, cheio de frivolidade, contudo, mestre da escrita que é, Tarantino usa os elementos da dinâmica para distorcer sua condução e transformar a gentileza em crueldade (sem, no entanto, fazer parecer que deixou de ser gentileza).
Para Rick Dalton, o fracasso sinaliza com os papéis de vilões a que ele parece restringido e às oportunidades, que ele considera pouco lisonjeiras, para fazer faroestes na Itália (com Sergio Corbucci!).
Nesse ínterim, Cliff acompanha o amigo, pairando com a máxima descontração possível sobre os dramas do showbuziness, sem deixar de ser ocasionalmente afetado por um ou outro: Apesar da atitude boa praça, corre o boato de Cliff ter assassinado a própria esposa (trecho que Tarantino revela num audacioso flashback dentro de um flashback), e também a famigerada história do arranca-rabo que ele arranjou com Bruce Lee em pessoa (vivido de forma assoberbadamente caricatural por Mike Moh).
Já, Sharon Tate –a única personagem real dentre os protagonistas –é um caso à parte. Ela tem pouco diálogos, e mesmo sua presença nos planos de câmera é rápida demais para podermos contemplar o suficente a adequação inebriante de Margot Robie ao papel (que, diga-se de passagem, está fabulosa). Ela paira, etérea, pelas cenas do filme como se tivesse vida demais para todo aquele restante de intriga urbana que Tarantino materializa. Sua cena mais longa é também uma das mais memoráveis do filme: Quando ela entra num cinema exibindo “Matt Helm Contra A Arma Secreta” não para ver o filme, mas para se deliciar anonimamente com as reações do público à sua participação.
“Era Uma Vez... Em Hollywood” é assim uma amostra notável desse gênio que manipula as engrenagens da narrativa cinematográfica como poucos, contudo, Tarantino não está só em sua excelência. Após ganhar um merecidíssimo Oscar de Melhor Ator por “O Regresso”, Dicaprio prova que nem por isso deixou de ser formidável –seu Rick Dalton é engraçado, passional e vulnerável, equilibrando facetas tão bem trabalhadas e estudadas como os cacoetes de quando se vê constrangido ou as inseguranças de quando se vê testado.
 Também ele sensacional (ainda que num personagem não tão complexo), Brad Pitt reina supremo em pelo menos duas das melhores cenas de todo o longa (talvez, duas das melhores cenas do ano!): A primeira, quando uma carona nada inocente a uma hippie ninfeta o leva até uma comunidade alternativa gerenciada por ninguém menos que Charles Mason. O suspense que Tarantino impõe nessa sequência é de uma execução genial no entendimento absoluto dos códigos que dilatam e comprimem a narrativa.
A segunda, se dá já no retumbante trecho final do filme, e é preciso –por conta dela –lembrar que, talvez, aqueles expectadores que entrarem no cinema ignorantes da história real envolvendo a atriz Sharon Tate e seu marido, o diretor Roman Polanski, podem não ficar tão impactados com o clímax, ou nem tampouco, entender a desconfiguração de realidade que o filme promove: Como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino não resiste, nessa parte final, à tentação de reescrever a história. E ele o faz com tal convicção raivosa que transforma essa cena em uma catarse.
Este é um filme de detalhes que parecem aleatórios em primeira mão, mas que haverão de se mostrar –sobretudo nesse desfecho magistral –serem estratégias plantadas com astúcia quando tudo se fundir num só empuxo narrativo.
Deixem eu deslumbrar-me com “Era Uma Vez... Em Hollywood”, porque ele é um filme deslumbrante.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador


Uma prova do quão tardio foi o Oscar de Melhor Ator vencido por Leonardo Dicaprio por “O Regresso” é sua atuação neste “Gilbert Grape-Aprendiz de Sonhador” que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, como Melhor Ator Coadjuvante, aos quatorze anos –um trabalho surpreendente e inquestionavelmente digno do prêmio.
No papel do personagem-título, por sua vez, Johnny depp ostenta aquele carisma alternativo que fez dele um astro tão incomum nos anos 1990.
Gilbert vive numa cidadezinha chamada Endora capturada numa percepção tão intrínseca dos pormenores americanos que chega a surpreender o fato de que este é só o segundo filme feito pelo diretor sueco Lasse Halstrom nos EUA (o primeiro foi “Meu Querido Intruso”).
A família de Gilbert é uma coleção de figuras tão bizarras quanto deprimentes: Além de Arnie (Dicaprio) seu irmão deficiente mental, há também sua mãe (a inacreditável e comovente Darlene Cates) que uma série de desilusões transformou numa mulher tão obesa que sequer consegue (ou quer...) sair de dentro de casa. Sua irmã mais velha (Mary Kate Schellhardt) vive para cozinhar indefinidamente para ela, e sua irmã mais nova (Laura Harrington), na agressividade hormonal da adolescência, encena todos os clichês da apatia.
Gilbert tem relativa consciência de estar cercado por mediocridade por todos os lados, e disso não consegue escapar. Tem um caso desengonçado e nada frutífero com uma mulher casada (Mary Steenburgen, surpreendentemente sensual) e seus dois amigos (John C. Reilly e Crispin Glover) sonham cada qual em obter trabalho em uma rede de fast-food (melhor isso que os serviços redundantes a disposição) e com novas mortes entre os cidadãos (esse é funcionário na única e desolada funerária local).
O contraponto a essa falta de perspectiva do protagonista parece ser o relacionamento que aos poucos ele constrói com uma jovem forasteira (Juliette Lewis) que surge na cidade.
Mesmo isso, contudo, tem seus dias contados –seu romance só irá durar até que a avó dela encontre a peça defeituosa que fez seu trailer enguiçar para então seguir viagem.
“Gilbert Grape” nesse leque de frivolidade da vida contidiana fala sobre impressões tão universais quanto singulares; contrapõe a vergonha de Gilbert pela figura folclórica da mãe com seus esforços –quase convertidos em sacrifício –para ser um bom filho; e observa sua perplexidade contida pelo cenário idílico que o aprisiona.
Tão dispersas e volúveis parecem as temáticas do filme que se torna difícil palpitar sobre o quê Halstrom quer falar com exatidão; ele captura a rotina e os pequenos dramas familiares de Gilbert enumerando-os numa narrativa sedutora apesar de aparentar não levá-la a algum lugar –ainda que seu desfecho tenha uma concisão que amarra maravilhosamente bem os aspectos de sua premissa.
Ainda assim, é essa característica –a de ser notável, interessante e envolvente mesmo diante de imensa banalidade que ocupa seu cerne –o grande mérito deste filme.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Aviador

Dentre as colaborações entre o diretor Martin Scorsese e o astro Leonardo Dicaprio, os melhores trabalhos são certamente “O Lobo de Wall Street” e este “O Aviador”, a despeito de Scorsese ter levado o Oscar por “Os Infiltrados”.
Durante muito tempo, o cinema americano cortejou uma biografia do multi-milionário Howard Hughes (ele apareceu em especialíssimas participações em “Melvin & Howard”, vivido por Jason Robards, em “Tucker-Um Homem e Seu Sonho”, de Francis Ford Coppola, interpretado por Dean Stockwell, e até mesmo na fantasia “Rocketeer”, vivido por Terry O’ Quinn, o Locke da série “Lost”): Houveram projetos acalentados por cineastas como Bryan Singer e Christopher Nolan e a presença de astros como Jim Carrey, além do diretor Michael Mann que quase dirigiu este filme (aqui ele é produtor), mas quis o destino que fosse mesmo Scorsese quem viesse a materializar tal história.
Herdeiro de uma fortuna milionária cujas lendas em torno de seu nome giravam tanto sobre seu pioneirismo quanto suas excentricidades, o jovem Howard (Dicaprio, realmente primoroso) dedicou boa parte de sua fortuna na criação de aeronaves primorosas, e namorou várias estrelas de cinema incluindo Katherine Hepburn.
Dessa forma, Scorsese muito sabiamente dedica uma abordagem narrativa distinta para cada etapa da vida de Hugues.
No princípio, ele é uma celebridade. Sua aproximação com o cinema (quando produziu filmes como "Hell's Angels" e "O Proscrito") quase coloca-o como uma espécie de Orson Welles, na incontingência de seu ímpeto criativo.
A medida que o filme avança, novas facetas se revelam e “O Aviador” muda, também ele, de gênero: O romance cheio de intransigência e graça com Katherine Hepburn (a espetacular Cate Blanchett), onde flagramos atores famosos da época vividos por atores famosos da atualidade –Jude Law como Eroll Flynn, Gwen Stefani como  Jean Harlow, Kate Beckinsale como Ava Gardner, etc; as peripécias conspiratórias travadas com políticos perniciosos do congresso (representados pelo personagem de Alec Baldwin); e as experiências cada vez mais audaciosas com suas máquinas voadoras, o quê o leva à um acidente terrível (registrado com fulgor cinematográfico ímpar). Após esse trecho, Scorsese dedica-se à transformação de Hugues no ser recluso e misterioso que fomentou a maior parte de sua lenda –uma caricatura de si mesmo com absurdo comportamento hipocondríaco e uma série de transtornos obsessivos compulsivos.
Há, por isso mesmo, um grande mérito na atuação de Leonardo Dicario e na maneira coerente com que ele consegue pairar por todas as fases radicais –e que renderiam, não tenha dúvida, pelos menos um filme cada! –nesta superprodução de alto nível viabilizada certamente não somente pelo nome de Scorsese, mas pela presença do próprio Dicaprio.
“O Aviador” surgiu como um franco favorito no Oscar 2004 (cujas principais estatuetas ele perdeu para o magnífico "Menina de Ouro"), entretanto, apesar da inquestionável qualidade com que tudo é realizado, falta nele aquela euforia artística que caracteriza algumas das melhores obras de Scorsese.
Antes que me esqueça: Assim como Dicaprio, Cate Blanchet entrega uma interpretação de meticulosa precisão no papel complicado e desafiador da estrela Katherine Heburn –uma tarefa que a atriz australiana encara com competência e exuberância, reconhecida com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Gangues de Nova York

A primeira colaboração entre Leonardo Dicaprio e Martin Scorsese marcou um período em que o astro começava enfim a deixar a sombra do sucesso esmagador de “Titanic” para trás e construía uma bela carreira –no mesmo ano, ele lançou o excelente “Prenda-Me Se For Capaz”, de Steven Spielberg.
Na filmografia de Scorsese, por sua vez, “Gangues de Nova York” dialoga com “A Época da Inocência”, por se ambientarem na mesma metrópole e no mesmo período de tempo (o Século 19), embora pareçam tratar de assuntos e temas de radical diferenciação –e a presença de Daniel Day-Lewis no elenco de ambas as produções não deve, por isso mesmo, ser tratada como coincidência.
Este foi um projeto longamente acalentado por Scorsese –as primeiras tentativas de viabilizá-lo datam do fim da década de 1970! –talvez, por refletir com pertinência os seus interesses como contador de histórias.
Como é inerente ao seu vigor, Scorsese observa o submundo corrupto da cidade de Nova York, ainda em estado transitório do quê viria a ser –uma cidade entrecortada pelos fortes contrastes culturais trazidos por imigrantes das mais diversas partes do mundo. É para lá que vai o jovem Amsterdam Vallom (Dicaprio, cada vez mais evoluído como ator), com a obscura intenção de vingar a morte de seu pai pelas mãos de Bill The Butcher, o atual líder da estrutura de poder vigente.
E a cena de batalha que responde como prólogo do filme, quando Bill mata o pai de Vallom (vivido por Liam Neeson) é, já ela, de um registro arrepiante e sem concessões da brutalidade como só um mestre é capaz de fazê-lo.
Bill (interpretado com preciosismo invulgar por Day-Lewis) é um personagem intrigante: É a essência do mal, e nada em seu comportamento psicótico esconde isso, mas nutre um senso de honra –assim como um afeto aos que lhe são próximos e confiáveis –que lhe confere inesperada humanidade: Ele realiza, por exemplo, uma cerimônia anual, em homenagem ao seu inimigo assassinado, o pai de Amsterdam Vallom. O próprio Vallom, por sua vez, durante algum tempo, cai em suas graças, virando seu braço-direito.
Bill ganha também, de Scorsese e do ator que o interpreta, uma caracterização algo destoante, um aspecto que o torna sempre uma figura intrusiva em cada uma das imagens em que aparece: Essa sensação é passada nos detalhes meticulosamente escolhidos em seu figurino (as opções de cores evidenciam tanto a falta de conhecimento do personagem em como se vestir adequadamente, como sua não declarada intenção de pertencer à uma classe mais alta que não é a sua), no movimento brilhantemente estudado de Day-Lewis (que para variar emprega uma técnica bem equilibrada e apropriadamente espalhafatosa em sua atuação), e até em detalhes que poderiam soar cartunescos numa outra composição (como a íris artificial num dos olhos de Bill).
São todos esforços conscientes e inteligentes que só fazem bem à história: Por conta deles, em nenhum momento essa humanização de Bill tira o foco (e a expectativa, ou até torcida) do expectador para o cerne da narrativa: A vingança de Amsterdam Vallom.
Para levar a cabo essa vingança, entretanto, Vallom compreende que terá de envolver-se com os mecanismos políticos e sociais dessa cidade ebuliente que cresce a partir dos imigrantes que recebe em quantidade maciça nos seus portos.
É assim que, na medida em que conta a história do embate brutal entre dois homens em níveis que vão se estreitando do cordial e político até o físico e nada civilizado, Scorsese reflete sobre a mentalidade intrinsecamente animalesca daqueles audazes pioneiros que moldaram a América, sobretudo, uma de suas mais emblemáticas cidades, Nova York. Na abordagem grandiosa que seu épico vigoroso busca fazer, e na complexidade loquaz e ramificada do trecho histórico que relata, o diretor acaba inferindo por momentos que oscilam em impressão na condução de seu trabalho, ora confuso, ora eletrizante, mas ele jamais deixa que se perca uma apurada visão artística sobre todas as facetas que se dispõe a observar e, mais do que isso, jamais perde o foco da analogia essencial que, no fim das contas, seu filme procura estabelecer, como bem mostra a cena final onde o diretor avança no tempo para evidenciar as torres gêmeas do World Trade Center em seu enquadramento: Era então o ano de 2002, e o 11 de Setembro ainda era uma ferida aberta pedindo por tratamento (ainda que ele fosse existencial).