Mostrando postagens com marcador Sydney Sweeney. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sydney Sweeney. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Euphoria - 3ª Temporada


 A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.

São esses caminhos um tanto tortos que nos levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais, consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.

Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya, também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições para o  vício e para a infração, começa a flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e inimigo  declarado deles, o perverso e ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro, aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.

Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos (que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!), Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível. A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie), outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)

E é isso. Esses são basicamente os arcos narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada, é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!

Não tão pertinente, em termos artísticos ou temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.

É um encerramento curioso, anti-climático até, ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir das predisposições que se faziam possíveis.

Ao menos (e isso, para mim, é motivo de admiração), Sam Levinson soube que era hora de parar e deu um desenlace contundente, na medida do possível, para seus personagens; coisa que muita série que começou excelente não soube fazer...

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A Empregada


 Usualmente um realizador de comédias (são dele o remake feminista “As Caça-Fantasmas”, “Missão Madrinha de Casamento” e “As Bem-Armadas” entre outros) Paul Feig se esforça aqui em busca de uma guinada comercial em sua carreira ao abraçar um projeto orientado pelo refinado gênero do suspense. Contudo, já em seus primeiros momentos, “The Housemaid” entrega uma série de lapsos que apontam o desconforto de seu diretor, como um descuidado (em alguns momentos até descabido!) desenho de som, e uma montagem indecisa que demora além do tempo habitual para encontrar o ritmo correto, acelerando demais a narrativa em alguns momentos e dilatando desnecessariamente certas passagens em outros.

Best-seller da escritora Freida McFadden, “The Housemail” era uma bem-sucedida série literária (agora, sinalizando o surgimento de uma bem-sucedida série cinematográfica) cujo enredo, se não era um primor de acabamento e dramaturgia, mostrava-se certeiro e envolvente no manejo dos plot-twists que se seguiam com revelações pontuais sobre seus interessantes personagens.

A protagonista é Millie Calloway, vivida pela belíssima Sydney Sweeney –e, no status de estrela em ascensão que evoca, Sydney surge como uma escolha apropriada e pontual, nem tanto por suas capacidades interpretativas (que ora satisfazem, ora deixam a desejar) mas, sim, pelo magnetismo imediato, pela instantânea empatia que ela, uma vez dentro da personagem, consegue despertar no público. E isso será muito importante como veremos a frente.

Millie precisa obter um emprego. Recém-saída da prisão (a despeito de ser jovem), ele precisa de um lugar para morar (até então, dorme dentro de seu carro em estacionamentos), de um emprego que sossegue a vigilância dos oficiais da condicional sobre seus passos e de dinheiro para se manter. Tudo isso parece vir num mesmo pacote quando ela presta uma entrevista de emprego à ricaça Nina Winchester (Amanda Seyried, menos carismática do que Sydney, mas bem mais competente como atriz, numa personagem desafiadora e cheia de camadas). Acontece que Nina está grávida (seu marido, afirma ela, ainda não sabe) e ela precisa imediatamente de uma empregada para dar conta de sua filha mais velha de 11 anos, Cecelia (Indiana Elle) e das atividades domésticas da mansão luxuosa onde moram.

Como empregada particular, Millie poderá morar dentro da casa, num quarto localizado no sótão e, embora haja certa suspeita no fato de Millie possuir credenciais demais para candidatar-se a uma vaga de empregada, Nina a quer o quanto antes.

Uma vez trabalhando para o casal –que, além de Nina inclui certamente também seu marido, Andrew (Brandon Sklenar, de “Drop-Ameaça Anônima”) –Millie vai descobrindo que o emprego, que aparentava ser um paraíso durante a entrevista, não é tão maravilhoso assim: Bipolar, Nina confronta Millie com situações complicadas, tentando incriminá-la de erros que não cometeu e tecendo uma ardilosa a aparentemente inexplicada teia de intrigas e acusações que só não comprometem ainda mais a situação de Millie graças à intervenção de Andrew.

Por conta dessa circunstância, pouco a pouco, Millie e Andrew vão estabelecendo uma proximidade que, diante da cada vez mais real possibilidade de um adultério assim consumado, pode desembocar em alguma tragédia. Contudo, na narrativa urgida pela escritora Freida McFadden, nada é o que parece ser. E é exatamente aí (nas informações omitidas ao expectador) que “The Housemaid” guarda seus trunfos.

Toda essa explicação à seguir, conterá spoilers (!): Nina não é o que parece ser, uma vez que, ao contrário da megera intratável que se mostrava durante todos os dois primeiros terços de filme, ela era na realidade uma vítima da situação, presa num casamento abusivo e tóxico, e portanto, desesperada para encontrar um meio de fuga. E tal meio, terminou sendo Millie.

Com efeito, Andrew também não é o príncipe encantado que parecia ser, revelando-se o vilão sádico, psicótico e abusador de fato.

Contudo, outra grande manobra da premissa de Freida McFadden é que a própria Millie, toda doce, desprotegida e indefesa, também não é o que  parece ser: As razões para ela ter sido presa (e encontrar-se, agora, em liberdade condicional) não reveladas antes, são elementos diretamente influentes no desfecho e no porque, agora, foi o perverso Andrew quem meteu-se com a pessoa errada –e é por isso que a escalação de Sydney Sweeney ajuda muito o filme nesse sentido: Uma vez que só saberemos de toda a verdade sobre Millie no momento quase clímax de sua reviravolta, tudo o que sabemos sobre ela é vago, ainda que seja essa a protagonista. No entanto, com Sydney Sweeney interpretando-a, Millie conquista o público já nos primeiros minutos. Mesmo que não saibamos quem ela é, ou o que ela fez, o encanto natural de Sydney faz todo o trabalho nos levando a torcer pela heroína que descobrimos, ao fim, ser bem diferente de quem supúnhamos ser.

“The Housemaid” pode ter falhas homéricas na direção, pode ter um roteiro equivocado e impreciso (as mudanças na adaptação particularmente reforçam o tom exagerado do filme), mas foi um acerto muito feliz na escalação de suas duas protagonistas: Enquanto Sydney é uma ótima presença emprestando magnetismo e simpatia genuínos à Millie; Amanda reforça a grande atriz que é interpretando uma personagem que também está interpretando na maior parte do tempo (e de forma deliberadamente histriônica ainda!) só revelando suas intenções mais humanas quando o filme já estiver em seu ápice.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Eccho Valley


Com o apelo de trazer duas belas e talentosas atrizes de diferentes gerações, "Eccho Valley" se sustenta com um roteiro tensos, equilibrado entre revelações bombásticas, amparado no trabalho de um elenco ora funcional, ora básico que, na medida do possível, entrega um filme válido ao expectador que souber conter suas expectativas.

Julianne Moore é Kate Garrett, personagem às voltas com um cotidiano amargo, a sair de um período depressivo –não muito tempo atrás, ela perdeu a companheira, alguém por quem abandonou o casamento com Richard (Kyle McLachlan). O fruto de tal casamento é a jovem Claire (Sydney Sweeney, jovem estrela em ascensão, num papel que aparenta ser protagonista, mas que se revela quase uma coadjuvante), garota problemática, envolvida com drogas e companhias nada confiáveis.

Enquanto passa seus dias na fazenda de cavalos Eccho Valey, localizada no sul da Pensilvânia, dando aulas de equitação, e mantida financeiramente por Richard com cada vez mais relutância, Kate testemunha Claire ir e vir de sua vida sem maiores explicações. Quando Claire precisa de dinheiro ela aparece. Quando precisa de um celular novo, ou de qualquer outra coisa também; na sequência, ela retorna para a vida desregrada de sempre.

Numa dessas ocasiões, ela é seguida por Ryan (Edmund Donovan), seu namorado traficante, e por Jackie (Doomhall Gleeson), o perigoso fornecedor de drogas dele.

Embora os problemas, juntos desses personagens, sinalizem à distância com sua chegada, para o público, e até mesmo para a própria Kate, ela não evita sua aproximação –porque Claire é sua filha, e o fato de amá-la a torna conivente para com todos os seus lapsos.

As coisas começam a se complicar de verdade quando Claire aparece numa noite completamente abalada, afirmando ter matado Ryan acidentalmente –e deixado seu cadáver envolto em plástico dentro do carro!

O diretor Michael Pearce consegue construir um clima de tensão relativamente satisfatório e intenso durante toda a duração do filme, sua grande conquista é manter o público alheio às pontuais guinadas narrativas que começam a se suceder na segunda metade (algumas delas, muito bem-vindas), todavia, “Eccho Valley” está anos-luz de ser uma obra perfeita: Embora conte com intérpretes funcionais e competentes na maior parte do tempo (além dos já citados, temos também Fiona Shaw, de “Harry Potter e A Pedra Filosofal”, num papel fundamental), os personagens são construídos com um rigor que lhe drena todo o magnetismo, levando o expectador, na maior parte das situações esboçadas, a irritar-se com suas falhas, os exemplos mais usuais e frequentes são, claro, as protagonistas, a mãe conivente, muitas vezes omissa e repetidamente passiva de Julianne Moore, e a filha problemática, dissimulada, manipuladora e vitimista de Sydney Sweeney –o carisma e o encanto natural das duas atrizes por muito pouco sobrevive à essa dura prova de fogo!

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Éden


 O diretor Ron Howard já experimentou a consagração com “Uma Mente Brilhante”, e o largo sucesso com “Código Da Vinci”, contudo, de uns anos pra cá, seu cinema tornou-se claudicante, oscilando entre uma técnica apurada, um profissionalismo nítido e um vazio de iniciativa, de inspiração que engessava seus trabalhos.

Embora seja uma obra relativamente interessante e pertinente (ainda mais inserida no panorama genérico atual do cinema norte-americano), “Éden” padece de alguns desses lapsos.

Baseado num fato real transcorrido no início do Século XX, “Éden” constrói uma narrativa a partir de indícios muitas vezes contraditórios em relação aos acontecimentos retratados. Na ânsia de concretizar os fatos sem assumir pontos de vistas unilaterais, o roteiro de Noah Pink, a partir de conceitos elaborados por ele e pelo diretor Ron Howard, oferece uma cadeia de acontecimentos que terminam não priorizando a postura, nem a índole de ninguém, o resultado é um filme onde pessoas torpes são ocasionalmente confrontadas com outras ainda piores, numa exposição algo involuntária da inerente maldade humana.

Após a Primeira Guerra Mundial, o médico e filósofo Friedrich Ritter (Jude Law) parte para a Ilha Floreana na distante região dos Galápagos, junto da colega Dore Strauch (Vanessa Kirby) a fim de se afastar da humanidade e de criar, ali, um conceito inédito de meio de vida, rompendo com as defasadas considerações sociais, e muito amparado no niilismo espartano de Friedrich Nietzsche. Todavia, uma fagulha de vaidade e de necessidade de ser enaltecido ainda queima dentro do Dr. Ritter, por isso, de tempos em tempos, nas visitas de algum navio errantes por aquelas águas longínquas, ele aproveita para enviar ao mundo exterior suas cartas, nas quais deposita sua retórica sobre essa nova forma alternativa de existência, que ele enxerga como um manifesto contra a tendência auto-destrutiva dos governos mundiais.

Com o tempo, suas cartas –publicadas em jornais e revistas da época –se tornam uma espécie de sensação, e o Dr. Ritter, um lenda em seu exotismo. Até que, no inverno de 1932, o exemplo de Ritter leva Heinz Wittmer (Daniel Brühl), sua esposa Margret (Sydney Sweeney) e seu filho (Jonathan Tittel), à Ilha de Floreana, a fim de partilhar dessa mesma vivência, esse rompimento com os grilhões de conveniência social.

O filho de Heinz sofre de tuberculose, então intratável, com péssimas perspectivas pela medicina da época, e a jovem esposa, Margret, está, ainda sem saber, grávida. Ao chegarem em Floreana, o Dr, Ritter e Dore, arredios, os recebem com inesperado desdém –a contundente utopia que eles planejavam ali não vinha atrelada à traquejo social, e nem tampouco era pensada para envolver outros além deles próprios.

Instalados, de início, numa das cavernas da região (!), Heinz e Margret vão se adaptando à duras penas, construindo uma casa e erguendo um lugar onde almejam, de fato, viver –esses percalços surgem registrados nas cartas que Marget, então com 23 anos, escreve e envia, de tempos em tempos para a mãe.

No entanto, algum tempo depois, chega em Floreana outra comitiva, aquela que, desta vez, realmente irá virar tudo de pernas pro ar: Os subalternos, criados e meros bajuladores da Baronesa Eloise Von Wagner de Bousquet (Ana De Armas, ligeiramente histriônica no retrato de uma das mais odiosas vilãs do cinema recente). Afirmando estar lá na ilha para a construção de um hotel exclusivo para turistas muito ricos, a Baronesa se instala, com seu séquito –entre os quais, o amante e capacho Lorenz (Felix Kammerer, de “Nada de Novo No Front”) e outro amante (!) e guarda-costas Phillipson (Toby Wallace) –numa interseção entre as moradas de Ritter e Dore, e de Heinz e Margret. Ela cria divergências –abre as correspondências de Ritter e tenta colocar a culpa em Heinz –protagoniza excessos e age com displicência –quando a comida que levou (e que consomem desordenadamente) acaba, envia seus lacaios para roubar de Heinz e Margret.

Não demora muito para que esse paraíso (que de paradisíaco, desde o começo, nunca teve nada!) se torne um inferno com os conflitos de ordem íntima criados por ela –na realidade, a própria Baronesa é, em si, um embuste: Uma golpista que singrou a Europa manipulando homens ricos com sua beleza, ela tenta sua última cartada ali, em Floreana, na tentativa de se estabelecer no que pode ser um empreendimento imobiliário legítimo, valendo-se de todos aqueles que sua lábia e sua capacidade de sedução arregimentarem em favor de seus interesses.

O que acontece, todavia, é um caldeirão de tensões que, eventualmente, irá explodir.

Um filme amargo que opõe a sobrevivência à convivência (como se fossem fatores opostos) e que parece refletir sobre o quanto as celeumas humanas, como a ganância e a cobiça, são incapazes de serem evitadas pelo homem, por mais que ele queira, “Éden” se ressente justamente dessa sua contundente postura moral –não há personagens íntegros ou incorruptíveis aos quais a narrativa possa se ancorar, e dessa forma assim ambígua eles são interpretados pelo (ótimo) elenco: Jude Law ostenta, carrancudo, uma desilusão que só o empurra cada vez mais para o antagonismo e a violência, afastando-o da paz e da transcendência inicialmente pretendida; Vanessa Kirby vive uma mulher de um discurso altivo acerca de suas escolhas, mas cujo olhar entrega a insatisfação que é incapaz de admitir; Daniel Brühl na segunda colaboração com Ron Howard (a primeira foi o excelente “Rush”) se mostra preciso no registro minimalista de seu personagem; e Sydney Sweeney, talvez, a grande surpresa do filme, oblitera as impressões de símbolo sexual que, em geral, a perseguem para entregar aqui uma interpretação introspectiva orientada por uma metamorfose sutil e, ao fim do filme, desconcertante.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

The White Lotus - 1ª Temporada


 Norte-americanos têm uma relação estranha com a comédia. Trata-se de um gênero trabalhado de forma muito peculiar, conforme o autor. Transformada numa série de antologia por conta de seu sucesso (o que converte estes sete primeiros episódios na primeira temporada, sendo já confirmada até a quarta, cada uma ambientada num local completamente diferente e com outro elenco), a minissérie “The White Lotus” e seu autor, o roteirista e diretor Mike White, fazem com que a comédia realizada aqui traga quantias abundantes de sutileza e um humor negro que, em seus melhores momentos, se revela refinado, tudo baseado num roteiro meticuloso na construção espirituosa de situações complexas, indicativas da dualidade moral humana, e amparado num elenco diversificado e talentoso.

A White Lotus do título, é o nome de um hotel resort que, ao menos, nesta primeira temporada, se localiza no Hawaí. A cena inicial se dá num aeroporto, onde o almofadinha Shane Patton (Jake Lacy, de “Armas Na Mesa”, num personagem feito sob medida para ser odioso) voltando do que ele afirma ser sua lua-de-mel aguarda o embarque de um caixão. Quem se encontra morto no caixão? Seria sua bela noiva Rachel (Alexandra Daddario)? Se não, por que ela não está com ele? Uma vez plantadas essas dúvidas, a série regressa uma semana no tempo, para mostrar a chegada dos personagens principais ao White Lotus: A Família Mossbacher composta pelo pai (Steve Zahn, de “Irresistível Paixão”), a mãe (Connie Britton, de “Nosso Tipo de Mulher”) e os filhos Quinn (Fred Henchinger, de “Gladiador II”) e Olivia (Sydney Sweeney, antes do estrelato e da série “Euphoria”), que levou a melhor amiga Paula (Brittany O’Grady); os recém-casados Shane e Rachel, já mencionados; e a viúva ricaça e sem-noção Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge, de “American Pie”). Cada um desses turistas americanos tem suas próprias mazelas pessoais –os Mossbacher disfarçam seu casamento em crise com atenção desmesurada às banalidades, enquanto que a filha Olivia estabelece com Paula uma dinâmica na qual tenta tomar (ou inferiorizar) tudo que ela tem, inclusive, o súbito relacionamento com Kai (Scott Kekumano), um dos empregados do hotel; Shane, no instante em que pisa no hotel, lança-se numa cruzada imatura para tentar obter, através de seu privilégio de menino rico, a suíte que bem desejar, enquanto mostra gradualmente à aflita Rachel a futilidade abissal de seu comportamento; enquanto que Tanya, ao levar as cinzas da mãe para serem jogadas no mar, vai arrebanhando para si vários funcionários do hotel (em especial, a solícita Belinda), convertidos em reféns de sua carência –e cada um ostenta também sua predisposição ao desmazelo social acarretado pelo hedonismo da classe alta. Os burgueses são imaturos, mimados e vazios, e por isso, sobra ao gerente do hotel, Armond (Murray Bartlett, o protagonista real da série), a tarefa nada lisonjeira de tentar administrar tantas vontades insaciáveis, tantos egos necessitados de paparicação.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Os Observadores - The Voyeurs


 Lançado em 2021 (não confundir com outro, de mesmo título nacional, lançado em 2024), “The Voyeurs”, é dirigido por Michael Mohan (que depois tornou a dirigir Sydney Sweeney no bem-sucedido “Imaculada”) com um emprego de rimas visuais que poucos diretores jovens exibem hoje em dia. “The Voyeurs” é, do começo ao fim, em toda sua totalidade, um exercício de voyeurismo, é sobre o ato de olhar. Um tipo de olhar capaz de interferir nas vidas alheias pelo simples ato da observação. Em torno dessa questão giram os elementos do roteiro, os arcos esboçados para os personagens –a protagonista e seus coadjuvantes –e a própria identidade visual da narrativa. De pronto, essas escolha conscientes e engajadas transformam “The voyeurs” num corpo distinto e válido entre obras mais desprezíveis, ainda que ele esteja, apesar de tudo, bem longe da perfeição.

Acompanhamos o casal formado pelos jovens Pippa (a bela Sydney Sweeney) e Thomas (Justice Smith, de “Jurassic World-Reino Ameaçado”) a tentar a vida numa fotogênica Londres. Eles alugam um belo apartamento e, em sua primeira noite, descobrem o exibicionismo dos vizinhos do outro lado da rua: Eles pouco se importam em fechar as cortinas e se deixam observar (ou simplesmente não se importam) mesmo enquanto estão fazendo sexo! A curiosidade masculina de Thomas o leva a se satisfazer com essa descoberta (inclusive, usando de tecnologia para, mais tarde, obter até mesmo o som dos interlúdios sexuais flagrados!), mas, é Pippa quem, de inicialmente acanhada com a circunstância vai ficando cada vez mais obcecada pelo ato compulsivo de espionar os aspectos sexuais do casamento alheio.

O filme de Michael Mohan mal engata as primeiras e inevitáveis referências à obra-prima “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, e seu roteiro, de narrativa ágil, já avança para novos estágios do suspense, atropelando com essa ansiedade, um pouco da lógica: Acometida de certa compaixão pela garota (vivida por Natasha Liu Bordizzo, de “Atentado Ao Hotel Taj Mahal”), Pippa almeja aproximar-se dela a fim de lhe relatar as sucessivas infidelidades que ela e Thomas observaram nos dias seguintes –o rapaz (vivido por Ben Hardy, o Arcanjo de “X-Men Apocalypse”) é fotógrafo, e sua ocupação o deixa sempre muito próximo de modelos que ele fotografa sem qualquer roupa para, na sequência, seduzir.

O filme de Michael Mohan no registro dos acontecimentos subsequentes não esconde suas intenções melindrosas: Há certa tensão sexual entre Pippa e a jovem vizinha (chamada Julia) que ela tenta ajudar, uma apelo ao erotismo subliminar evidenciado em inúmeros momentos aclimatados e fetichizados –quando Julia faz um exame ocular (!) com Pippa que, à propósito, é oftalmologista (tudo neste filme, de um jeito ou de outro, se relaciona com a questão do olhar); ou quando ambas, já amigas, visitam uma sauna e vão despindo suas roupas.

Ao longo deste enxuto conto de suspense, pelo menos, três reviravoltas aguardam pelo expectador, a medida que esse enredo se desenrola: A primeira surge na metade de sua duração e confere ao andamento uma atmosfera de tragédia que se reforça com os desdobramentos seguintes; a segunda, se dá já na aproximação de seu desfecho e exige um pouco da cumplicidade do público, tamanho é o seu nível de radicalismo, perversidade e –vá lá! –inverossimilhança; e a terceira é o fim propriamente dito, onde a manobra final (e um tanto brutal!) da heroína torna a centralizar na trama a questão do olhar e suas inúmeras e variadas aplicações.

O voyeurismo exercido por Michael Mohan, portanto, está por todo o lugar: Na proposta de sua narrativa insidiosa, seja ela na trajetória que pavimenta para seus personagens ou nas cenas convidativas que oferece ao público, na postura da protagonista e em sua incapacidade de se desvencilhar de encrencas que já acenam à distância, e na própria sugestão implícita de sua narrativa.

É natural que, em determinado momento –provavelmente, na cena mais aguardada do filme –o público acabe brindado com uma generosa cena de nudez de sua atriz principal, Sydney Sweeney, sem sombra de dúvidas, uma das poucas, senão a única, dentre as jovens atrizes famosas da atualidade, a encarar com desprendimento e auto-consciência papéis que a objetificam, e exploram seu corpo e sua beleza estonteante, embora ela ainda tenha o acréscimo de oferecer uma atuação bastante competente.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Imaculada


 Talvez, seja devido à ambientação na Itália –e o fato de grande parte dele ser falado em italiano –que “Imaculada”, desde o início, provoque a lembrança de obras oriundas do terror gótico italiano, algumas em especial realizadas por Mario Bava e Dario Argento. A trama e seu princípio básico até lembram bastante aqueles enredos macabros: Uma jovem vinda de longe chega para viver num local assolado por práticas e costumes que, ela descobrirá junto do público, são orientados por escolhas tétricas. Com essa premissa se materializaram clássicos do gênero como “Suspiria”, “Phenomena” e outros trabalhos um pouco mais obscuros.

Em “Imaculada”, a jovem vinda de longe é a freira norte-americana Irmã Cecilia (Sydney Sweeney, demonstrando considerável versatilidade ao assumir um papel que exige predicados diferentes daqueles que ela ostentou em outros papéis mais voltados para a sensualidade) que vem para a Itália, mais precisamente para o monastério Nossa Senhora das Dores, onde fará seus votos e passará a viver. Contudo, nós expectadores sabemos, desde o sinistro prólogo (onde uma moça tenta escapar de lá à noite e tem um desfecho apavorante) que algo terrível espreita pelos cantos escuros daquele lugar.

Ao longo da narrativa, a dicotomia entre as informações sugeridas nesse prólogo e a trajetória gradual de revelação da Irmã Cecilia irão intrigar o público, não necessariamente das melhores maneiras –durante a maior parte do tempo, não há uma relação coerente ou harmoniosa entre os acontecimentos iniciais e o filme que se segue depois deles, dando a impressão de que tudo são ideias aleatórias justapostas pelo roteiro. Conforme vão passando seus dias naquele lugar regido pelos preceitos de abnegação, onde as freiras mais jovens basicamente devem zelar pelo bem-estar de freiras idosas acometidas de insanidade e toda sorte de mazelas acarretadas pela idade avançada, a Irmã Cecilia se depara com as personalidades distintas que afloram em pequenos gestos: O rancor e a maldade enrustida da Irmã Mary (Simona Tabasco); a rebeldia e a camaradagem da Irmã Gwen (Benedeta Porcaroli); a onipresença sufocante da Madre Superiora (Dora Romano, de “Perfume-A História de Um Assassino”); a severidade ameaçadora do Cardeal Franco (Giorgio Colangeli); a prestatividade insistente e suspeita do Padre Tedeschi (Alvaro Morte, da festejada série “La Casa de Papel”); a omissão cheia de significados do médico local, o Dr. Gallo (Giampiero Judica, de “Todo O Dinheiro do Mundo”) e as aparições súbitas, no meio da madrugada, e algo fantasmagóricas de uma das internas (Betty Pedrazzi).

Após uma noite em que se perde em corredores tenebrosos e aparentemente secretos do lugar, seguido de visões assustadoras e de um desmaio, a Irmã Cecilia fica intrigada com sintomas estranhos que sua saúde começa a apresentar, e logo vem uma surpresa: Ela –virgem e intocada –está grávida! No entanto, apesar da novidade ser recebida entre as demais freiras como um milagre, é numa prisioneira do lugar que, nos dias que se seguem, a Irmã Cecilia parece se transformar: ela não pode sair para o mundo exterior, não pode trabalhar com as outras freiras e, mesmo seus apelos para ser consultada com um médico diferente nas cidades próximas (pois, a exemplo de realizações como “O Bebê de Rosemary”, seu organismo começa a ter reações um tanto estranhas e preocupantes em relação à essa gravidez), é ignorado. O que, logo, desperta nela a vontade de engendrar planos para escapar dali.

A direção de Michael Mohan (que já havia dirigido Sydney Sweeney no suspense “The Voyeurs”) não se equipara, em inventividade e originalidade, a nenhum dos mestres italianos a que, por ventura, seu filme faz referência –sua técnica, na verdade, ainda que consciente dos valores de fotografia e direção de arte enfatizados para a eficaz construção do clima, remete mais à atmosfera gélida dos filmes de terror recentes, também eles recorrentes na evocação de tópicos religiosos para gerar medo no público, à exemplo da franquia “A Freira”, “O Exorcista do Papa” e outros. Apesar disso –e do desperdício nos conceitos de todo um gênero que os italianos provaram ser promissor –“Imaculada” se impõe como uma bela obra de terror no circuito comercial de hoje pela solidez lúgubre de sua trama (a despeito de um ou outro lapso pelo caminho, os desdobramentos obedecem a uma escalação de horrores que prendem os olhos na tela) e pela credibilidade fornecida pelo elenco de apoio à sua ótima protagonista –são todos italianos de fato e não americanos interpretando com sotaque macarrônico. No final das contas, uma boa pedida.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Todos Menos Você


 Numa época em que comédias românticas já não são uma constante no circuito comercial, “Todos Menos Você” parece exalar um estranho desconforto por pertencer a esse gênero outrora tão difundido –e olha que o diretor, Will Gluck, pode ser enxergado como um especialista tendo realizado “A Mentira” e “Amizade Colorida”.

A verdade é que as intenções deste projeto aparentam ser unir os elementos de gênero que tanto fizeram sucesso no passado (com obras simbólicas como “Quatro Casamentos e Um Funeral”) com aspectos sociais da atualidade, como a representatividade e o vocabulário idiossincrático da modernidade, e executar uma espécie de releitura de William Shakespeare para a nova geração, uma vez que o roteiro é vagamente inspirado na farsa romântica “Muito Barulho Por Nada” –todavia, muito pouco do texto, do subtexto ou da meticulosidade do Bardo se manteve na adaptação. O resultado é um filme bastante desajeitado, convicto em relação a certos valores românticos que podem soar antiquados ao público jovem, e insistente numa comédia hesitante, ora disposta a ousar, ora restrita ao inofensivo.

O casalzinho em potencial, Ben e Bea (Glenn Powell e Sydney Sweeney, em ótima sintonia), têm obviamente todos os motivos do mundo para se estranharem; assim que se conhecem, até experimentam uma química promissora juntos, mas uma sucessão de mal-entendidos deixa um gosto amargo em seu primeiro e único encontro. Alguns meses depois, porém, o destino conspira colocando-os numa mesma festa de casamento: A irmão de Bea, Halle (Hadley Robinson, de “Adoráveis Mulheres”), vai se casar com Claudia (Alexandra Shipp, de “X-Men Apocalypse”), cujo irmão, Pete (o rapper GaTa), vem a ser o melhor amigo de Ben. O casamento será na Austrália, lar da família de Claudia, e portanto, todos os convidados serão recepcionados na casa do pai da noiva (Bryan Brown), incluindo Ben e Bea.

Temendo que a indisposição entre os dois estrague o clima de comemoração geral, os demais convidados –agindo mais como coadjuvantes conscientes desse romance do que convidados de um casamento normal –tentam intervir, e a emenda sai muito pior que o soneto: Inicialmente, procuram fazê-los gostar um do outro, o que só piora as coisas, em seguida, providenciam a presença da ex-namorada de Ben, Margareth (a modelo Charlee Fraser), agora namorando um surfista desmiolado (Joe Davidson), e do ex-namorado de Bea, o ainda apaixonado Jonathan (Darren Barnet).

A fim de livrarem-se dessa espécie de marcação cerrada de todos os demais, Ben e Bea resolvem que irão fingir, de fato, se darem bem. Melhor: eles irão fingir que estão tendo um flerte durante das festividades de casamento, o que talvez A) proporcione a Ben uma chance de reatar com Margareth e B) convença Jonathan a largar de uma vez do pé de Bea.

É claro que, na cartilha um tanto quanto maniqueísta das comédias românticas (e aqui, o maniqueísmo, por razões inúmeras se mostra ainda mais evidente e inverossímil) esses arranjos e as situações nascidas a partir dele irão levar os dois jovens e belos protagonistas a perceber que, a despeitos de suas picuinhas, se amam de verdade.

Àqueles expectadores mais exigentes, menos interessados nos reflexos condicionados de um gênero popular como a comédia romântica, “Todos Menos Você” terá um apelo nada eficaz e servirá como um verdadeiro teste de paciência: As circunstâncias esboçadas no roteiro fogem demais da realidade para se deixar convencer por grande parte do enredo do filme, e o turbilhão de referências que a narrativa traz (toda a ambientação do casamento remete aos clássicos do gênero “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “Muito Bem Acompanhada” que, por sinal, têm ambos o ator Dermot Mulroney, que também faz parte do elenco aqui) pouco faz, no fim das contas, para torná-la atraente de fato para aqueles que não sejam os já aficcionados.

O que resta à “Todos Menos Você” é o encanto natural e genuíno exalado por Sydney Sweeney (também ela atuando como produtora executiva) e a revelação relativamente satisfatória de uma veia cômica no galã e candidato à astro Glenn Powell, de “Top Gun-Maverick” e “Estrelas Além do Tempo”.

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Madame Teia


 Podendo ser considerado um derivado das tramas de “Homem-Aranha” –a personagem é uma coadjuvante relativamente recorrente em algumas histórias do aracnídeo nos quadrinhos, ainda que sua caracterização idosa diferencie da jovem mostrada aqui, e ainda que nunca fique exatamente claro à qual universo aracnídeo este filme pertence; se o de Andrew Garfield, se o atual, de Tom Holland, ou nenhum outro –“Madame Teia” é uma realização estranhamente curiosa. É um filme de super-heróis que não tem super-heróis e não fala sobre nenhum deles. É um filme cujos elementos já estão todos nos trailers que veicularam na internet alguns meses, e dos quais nem isso se apreende.

Muitos são os críticos de plantão –especializados ou não –a apontar o estranho paradoxo que é “Madame Teia”; um filme que não sabe sobre o que quer falar, e não fala sobre coisa alguma.

Poderia ser sobre sororidade –ou é essa, pelo menos, sua mais forte impressão, na reunião involuntária de todo um grupo de mulheres protagonistas em torno de um propósito meio incerto e inconstante –mas, o retrato de suas heroínas (se é que essa definição lhes cabe) não honra esse objetivo.

Poderia ser sobre a mitologia vasta que cerca o Homem-Aranha (gancho que a formidável animação “Homem-Aranha No Aranhaverso” e o longa-metragem “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa” provaram ser tão rentável quanto promissor), uma vez que a própria personagem Madame Teia, nos quadrinhos, é um ser dotado de poderes capazes de vislumbrar e gerenciar as muitas variantes alternativas do  multiverso, mas, ele desperdiça essa oportunidade investindo numa trama sobre lampejos do futuro e premonições que converte sua premissa numa insossa caçada de gato e rato. Ou nem isso...

Vivida pela atriz Dakota Johnson, a personagem principal, Cassandra Webb é uma paramédica de Nova York, em algum ponto do ano de 2003 –a data para a ambientação da trama foi escolhida, após muita indecisão dos produtores, para corresponder a um passado dos eventos supostamente ocasionados nos filmes de Tom Holland, para então, esse planejamento ser completamente descartado –acompanhada de seu grande amigo, Ben Parker (Adam Scott) –personagem essencial à origem do Homem-Aranha, mas, cuja presença aqui não é mais que um mero fan-service. Num salvamento de rotina, Cassandra acaba dentro de um carro que acidentalmente cai dentro do rio Hudson (!), o que a leva à ter o coração parado por alguns minutos. Tal acidente faz com que Cassandra aparentemente acesse poderes latentes que já deveriam existir dentro dela, desde os eventos ocorridos em seu parto (mostrados num prólogo ligeiramente mambembe na Amazônia) quando sua mãe faleceu. Tais poderes consistem, basicamente, de vislumbrar sem maior controle, alguns lampejos do futuro e, a medida que vai se conscientizando disso, aprender como alterá-lo para salvar vidas.

No mesmo prólogo amazonense (transcorrido em meados de 1973), encontramos o vilão da trama, Ezekiel Sims (Tahar Rahim) que encontra um espécime rara de aranha portadora de uma enzima capaz de proporcionar vitalidade sobrehumana ao usuário. No mesmo período em que Cassandra se descobre clarividente, o próprio Ezekiel surge agraciado com tais aprimoramentos (o que faz dele uma espécie de Homem-Aranha do mal, com um uniforme que parece um cosplay dos mais vergonhosos) e mais, com um dom (um tanto quanto inexplicado) de vislumbrar também ele o próprio futuro: Ezekiel sabe que, em algum momento do futuro, será morto por três heroínas uniformizadas, todas com poderes relacionados à aranhas. Seriam elas –à julgar, pelo menos, segundo a informação disponível dos quadrinhos –as Mulheres-Aranha Julia Carpenter (a maravilhosa Sydney Sweeney, aqui sem muitas oportunidades de revelar-se maravilhosa), Anya Corazon (Isabela Merced, de “Transformers-O Último Cavaleiro”) e Mattie Franklin (Celeste O’Connor, a mais irritante de todas) –e as cenas em que estão caracterizadas como heroínas que, presume-se, todo o público alvo do filme gostaria ver, correspondem às breves cenas vistas no trailer, ou seja, são segundos de cena que não empolgam ninguém!

Enfim, prosseguindo: No presente atual, aquelas três jovens, ainda adolescentes, não se tornaram as heroínas, e por isso o plano de Ezekiel Sims; rastreá-las e matá-las, antes que ganhem os poderes que levarão as três à matá-lo.

Nesse percurso, Cassandra Webb e suas habilidades recém-descobertas surgem como o salvamento para as três garotas –as personagens, portanto, aparecem neste filme, não como as personagens dos quadrinhos como são conhecidas, mas como três adolescentes no mais preguiçoso, redundante e clichê retrato adolescente que o cinema costuma fazer –e, dessa forma, com o trio reunido sem muitas explicações (pois o roteiro, atropelado e desanimado, não consegue elaborar circunstâncias mais plausíveis nas quais a trama possa avançar), as quatro protagonistas passam o filme tentando escapar de seus antagonista, até encontrar um meio de se livrar dele, e responder as inúmeras perguntas sem respostas que pairam no ar.

Detalhe: Numa manobra que enfatiza a grande incompreensão dos realizadores em relação ao público para o qual fizeram o filme, TODAS essas respostas ‘misteriosas’ são de conhecimento dos expectadores (só não são das protagonistas mesmo!), parte porque muitos já detém essas informações vindas dos quadrinhos, parte porque o próprio filme, em sua displicência, já as forneceu antes –isto é, o próprio suspense acerca de suas motivações ou objetivos é algo que o filme não é capaz de manter.

Roteirizado pela mesma equipe que perpetrou o mal-fadado “Morbius” –também ele uma aberração derivada de um coadjuvante dos quadrinhos do Aranha –e, por aí já se percebe a predisposição para a catástrofe que este filme já tinha, “Madame Teia” é dirigido por S.J. Clarkson (de quem dificilmente ouviremos falar novamente...) com tamanho equívoco em suas intenções que é desafiador tentar entender como tantas ideias estapafúrdias conseguiram chegar no produto final, e ao mesmo tempo, tantas possibilidades instigantes (todas elas disponíveis em mais de quarenta anos de histórias em quadrinhos que poderiam ser aproveitadas) acabaram sendo desperdiçadas.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

As Passageiras


 No sub-gênero de vampiros ao qual se insere, “As Passageiras” é um passatempo efusivo, razoável e eficiente enquanto dura. Sua trama expõe brechas de uma mitologia supostamente mais elaborada e mais complexa da qual só se aproveita o necessário. Contudo, para a manutenção de toda diversão, é recomendado que o expectador não eleve por demais suas expectativas –ele é bem feito, intrigante e envolvente, mas sua capacidade de ser memorável é quase nula; sua lembrança começa a se dissolver na mente tão logo ele acaba. E esta parece ser uma espécie de fórmula geral empregada pela Netflix: realizar filmes (e séries, por que não) extravagantes em seu visual, belos em sua roupagem modernosa e até menos instigantes em sua teoria, mas que no fim chafurdam na mesmice comercial, e se mostram convictos em se restringir a isso.

O jovem Benny (Jorge Lendeborg Jr., de “Bumblebee”) é o típico protagonista descuidado e bem-intencionado que cai de para-quedas em uma encrenca da qual nada tinha a ver: A fim de levantar uma grana, ele troca de lugar com o soturno irmão mais velho Jay (Raúl Castillo, um dos coadjuvantes no vasto elenco de “Entre Facas e Segredos”), e assume a ocupação provisória de motorista por uma noite. A tarefa aparenta ser simples: Levar uma dupla de garotas socialites numa série de festas, em lugares específicos de Los Angeles devidamente discriminados no GPS, até que a madrugada chegue.

No roteiro (escrito por Brent Dillon), até mesmo o momento em que as coisas se complicam ocorre na ocasião mais previsível: Logo na primeira festa, Benny descobre a real e perigosa procedência de suas duas passageiras –tanto a mais dócil Blaire (Debby Ryan, de –pasmem –“Radio Rebel”, da Disney), quanto a mais selvagem Zoe (Lucy Fry, de “Wolf Creek-Viagem Ao Inferno”) são, na verdade, vampiras! E sua missão é seguir aquele itinerário de festas, não em busca de divertimento, mas sim na intenção de exterminar os chefes de clãs vampiros da região que por lá estarão. (Entre algumas dessas aparições, certamente, se destaca a participação das belas e jovens Sydney Sweeney e Megan Fox, cuja cena corre o risco de lembrar a alguns expectadores como são as participações de pessoas com carisma real!) Tudo isso faz parte de um plano designado pelo mestre delas, Victor (Alfie Allen, de “De Volta Ao Jogo”), que pretende alterar a escala de poder entre os vampiros de Los Angeles e, obviamente, se colocar no topo. No meio desse fogo cruzado, descobrimos que Jay, o irmão de Benny, é na realidade, uma espécie de caçador de vampiros, o líder de uma gangue armada que, entre outras atividades, busca manter a atividade dos vampiros reclusa no território conhecido como Boyle Heights.

Ao longo da noite na qual acaba coagido por diversas circunstâncias a continuar sendo o motorista particular das duas vampiras –e cuja estrutura de enredo, não por acaso, remete ao excelente “Colateral”, de Michael Mann –Benny precisa encontrar um meio de escapar com vida diante da ameaça garantida que experimenta com Zoe (cegamente leal à Victor) e do laço de afetividade real que constrói com Blaire (uma vampira que, apesar de tudo, preserva certa humanidade).

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Euphoria - 2ª Temporada


 O segundo ano de “Euphoria” carrega ainda mais nas tintas tragicômicas já esboçadas por Sam Levinson na primeira temporada. De lá para cá, “Euphoria” converteu-se numa espécie de fenômeno de audiência, seus jovens astros e estrelas se tornaram célebres, seus personagens caíram no gosto popular e a série amedalhou inúmeros prêmios (inclusive o Emmy de Melhor Atriz em Série de TV para Zendaya, fazendo dela a mais jovem intérprete a conquistar a estatueta). Logo, havia muita expectativa em torno dos rumos que a nova temporada iria seguir e, num cômputo geral, pode-se dizer que “Euphoria” não decepcionou.

Tendo terminado a temporada anterior num rompimento com seu amor, Jules (Hunter Schafer), a viciada Rue (Zendaya) mergulha de cabeça nas drogas, o que a leva, nos primeiros episódios (num total de oito), a uma via crusis de degradação e deterioração ainda mais incisiva do que vimos anteriormente. Na festa que marca o início deste segundo ano na vida de todos os personagens, encontramos Rue entorpecida pelas drogas, conhecendo o terceiro personagem mais importante, por assim dizer, deste novo ano, o também drogado e também descolado Elliot (o ótimo Dominique Fike) que alimenta por Rue uma certa atração assim que bate os olhos nela. Entretanto, é com Jules –que conhece logo depois –que ele vem, de fato, a consumar uma relação. Assim, o roteiro de Sam Levinson termina por moldar um triângulo amoroso entre esses três personagens. Na complicada dinâmica de amor não declarado que estabeleceram entre si, Rue e Jules acabam introduzindo Elliot quase como um elemento facilitador, onde se tornam mais possíveis tanto suas expressões de carinho, como as fissuras que ameaçam separá-las –como na intervenção que Jules busca fazer ao descobrir que Rue não abandonou seu vício, tendo ela lhe garantido que tentaria ficar limpa.

Nesse sentido é curioso, e até estranho, o quanto Jules perde em relevância nesta temporada, e ela não é a única. Por outro lado, se há uma personagem que tem seu tempo de cena aumentado consideravelmente é Cassie Howard, vivida com convicção e alta voltagem pela belíssima Sydney Sweeney (ela também foi indicada ao Emmy, e a outros prêmios de Melhor Coadjuvante do Ano). Cassie tem seu arco dramático ampliado ao envolver-se com Nate Jacobs (Jacob Elordi), o mau-caráter e corrosivo ex-namorado de sua melhor amiga Maddy (Alexa Demie).

Segundo rumores, os atores Hunter Schafer e Jacob Elordi se desentenderam no set de “Euphoria”, o que teria levado o criador Sam Levinson a reescrever grande parte do roteiro da segunda temporada –na qual, segundo consta, quem começaria a namorar Nate em segredo seria Jules e não Cassie (e, diante dos rumos que a primeira temporada tomou, de fato, era essa direção que fazia mais sentido). No final, foi Sydney Sweeney quem se beneficiou com isso: A jovem atriz faz bom uso de seu tempo estendido de cena e dos rumos inesperados adquiridos por sua personagem entregando alguns dos melhores momentos da série (fora o imenso frisson entre os fãs causado por suas generosas cenas de nudez!). Do namoradinho anterior de Cassie, McKay (Angee Smith) não se ouve falar mais nada, salvo uma ponta apenas no primeiro episódio. Outra que quase desapareceu na série foi Barbie Ferreira. Ela teria tido algum desentendimento com o próprio Sam Levinson a respeito dos rumos de sua personagem, Kat Fernandez, e o resultado foi que, neste segundo ano, seu arco dramático se interrompe, convertendo-a numa mera coadjuvante de figuração. Para se ter uma ideia, até mesmo o seu namorado, o insosso Ethan (Austin Abrams), acaba tendo mais importância junto ao enredo do que ela!

Se houveram personagens drasticamente deixados de lado –além dos já citados, também a mãe e a irmã de Rue se restringem a pouquíssimos episódios –outros que ganharam mais ênfase são o pai de Nate (Eric Dane), dono de todo um episódio em flashback que ilustra melhor seu conflito com a própria homossexualidade, herdada pelo filho; a melhor amiga de Rue, Lexi (Maude Apatow) e o traficante boa-praça Fezco (Angus Cloud) que iniciam o ano ensaiando um tímido romance. É, por sinal, a confiança descoberta com essa nova relação que leva Lexi a encontrar suas predisposições teatrais e escrever uma peça escolar (inspirada, veja só, nela e em suas amigas, correspondendo a muitos acontecimentos vistos na série) que termina sendo encenada nos apoteóticos dois episódios finais.

Há um exagero na dramaturgia que evidencia a natureza caricatural de “Euphoria”, mas a qualidade, de um modo geral, persiste neste segundo ano.

domingo, 16 de abril de 2023

Euphoria - 1ª Temporada


 A cerca de duas décadas, algo mudou na TV norte-americana (e na TV mundial também, por que não): Séries, minisséries e telefilmes passaram a ostentar, cada vez mais, qualidade cinematográfica. Representativos dessa espécie de revolução foram os seminais “Band Of Brothers”, “Mad Men” e “The Sopranos” –e em grande medida, muito desse manancial de requinte artístico partiu da iniciativa da HBO, canal à cabo que, devido à exclusividade do formato, podia se dar ao luxo de trazer temas adultos contundentes e primorosamente bem-acabados em seus conteúdos. Na esteira desse arrojo vieram trabalhos de muita qualidade e outros canais que adotaram a mesma atitude. Claro que isso é notícia velha, e expectadores mais jovens já vivem convenientemente neste mundo onde obras cinematográficas não se restringem às salas de cinema e nem às durações em geral de cinema (entre duas e três horas). Mas, isso tudo é para contextualizar a circunstância na qual nasce uma obra como “Euphoria”.

Baseada numa série israelense homônima de 2012, “Euphoria” (lançada por sua vez em 2019) é a história de Rue Benneth (a sensacional Zendaya), garota nascida três dias após o 11 de setembro que, aos 17 anos, tem ciência de que a vida inteira almejou uma certa sensação que a livrasse de suas pressões emocionais. Tal sensação, ela só veio a experimentar quando, numa ocasião, recebeu uma dosagem de Valium em gotas no hospital –uma letargia que aliviava o peso da realidade. Desde então, na busca paulatina por esse efeito, Rue se torna uma viciada em drogas, e em algum momento, eventualmente sofre uma overdose –o que lhe manda para uma clínica de reabilitação. É o retorno de Rue junto ao seio familiar –que consiste de sua mãe (Nika Williams) e sua irmã mais nova (Storm Reid) –que marca o início de “Euphoria”. Ainda viciada, Rue esconde da mãe suas recaídas ao vício –subterfúgios que geram cenas ora divertidas, ora tensas –e, no percurso de sua narrativa em off, acabamos conhecendo outras personagens que orbitam no universo de Rue. E que ganham, também elas, seus próprios arcos dramáticos: Como a inicialmente tímida gordinha Kat (Barbie Ferreira) cuja descoberta da sexualidade a leva aos conteúdos sexualmente degenerados da internet; a inconstante Maddy (Alexa Demie) às voltas num relacionamento tóxico com o desprezível Nate (Jacob Elordi) que se equilibra entre paixão e agressão doméstica; a bela Cassie (a fantástica Sydney Sweeney) dona de uma aparência angelical que esconde tendências promíscuas às quais ela vai cedendo a medida que o namoro com o inseguro e imaturo McKay (Algee Smith) começa a se deteriorar; o jovem traficante Fezco (Angus Cloud) dividido entre as exigências criminosas de seu negócio e a intenção de preservar uma boa índole. Dentre todos, porém, quem ganha mais importância (ao menos, nesta primeira temporada) é Jules (Hunter Schafer) uma garota transexual, recém-chegada na escola que logo se torna melhor amiga de Rue, e com ela estabelece um relacionamento que flerta o tempo todo com o romance, a despeito de também começar uma relação virtual com outro garoto, sem ela saber que se trata do tóxico Nate.

O roteiro ágil e primoroso de Sam Levinson (também produtor executivo da série e diretor da maioria dos episódios) não economiza nas dinâmicas de natureza dramática a entremear inesperadamente cada um desses personagens –como o fato do pai de Nate (Eric Dane) ter feito sexo com Jules, o que denota seu homossexualismo enrustido que, aliás, ele compartilha com o próprio filho (!) –e, como se pode notar, “Euphoria” também não economiza no teor de escândalo.

Tabus são quebrados sistematicamente conforme a série aborda temas que a maioria das séries preferem evitar, como dependência química, sexo na adolescência, relações abusivas sejam elas virtuais ou não, e os infindáveis desvios morais e comportamentais aos quais os jovens de hoje se veem expostos. Tudo isso mostrado numa estética arrojada, pós-moderna (as cores são vibrantes e o tratamento visual é extremamente estilizado), gráfica e despida de qualquer pudor –para tanto, “Euphoria” deve chocar expectadores de paladar mais conservador, todavia, esse parece ser, de certa forma, seu objetivo: Na ausência de personagens corretos e de boa índole (com a possível exceção de Lexi, vivida por Maude Apatow), e no elenco absolutamente maravilhoso aqui reunido (no qual se destacam, com folga, as meninas), “Euphoria” praticamente desafia o público a gostar de suas incautas, ainda que fascinantes, protagonistas e exercer assim a hoje tão falada empatia.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Era Uma Vez... Em Hollywood

Representa uma espécie de marco temático na carreira de Quentin Tarantino o épico de guerra “Bastardos Inglórios”: Ele não somente era um passo além nas tramas atrevidas e rocambolescas que ele urgia, como também representou uma prova cabal perante a indústria da qualidade de seu realizador, tão emaranhado em projetos anteriores que resgatavam a essência dos filmes B (“Kill Bill Vol. 1 e 2”, “A Prova de Morte” do “Projeto Grindhouse”) que muitos começavam a achar que eram filmes B que Tarantino passaria então a fazer.
Ao conceber aquele que promete ser um de seus últimos trabalhos antes de sua aposentadoria (ele afirma que irá parar em dez longa-metragens), Tarantino realiza aqui um compêndio de sua paixão e de sua compreensão de cinema amparado numa estrutura que, seja em sua minúcia ou em sua amplitude, remete à “Bastardos Inglórios”.
Situado no ano de 1969, “Era Uma Vez... Em Hollywood” já denota certa desconstrução daquilo que Tarantino habituou o público ao exibir um trabalho de absoluta clareza e nitidez em sua direção de fotografia (a cargo de Robert Richardson) –não é intenção dele, desta vez, recriar a impressão dos filmes feitos naquele período, como ele o fez com os filtros empoirados e envelhecidos de “A Prova de Morte”; aqui, Tarantino quer recriar a impressão de se estar naquele período, a acompanhar lado a lado a trajetória de seus três maravilhosos protagonistas, o ator Rick Dalton (Leonardo Dicaprio), o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) e a atriz Sharon Tate (Margot Robie).
Rick foi astro de uma série televisiva de faroeste –e, desde então, seu dublê, Cliff trabalha como seu braço direito e ‘faz tudo’, inclusive como seu motorista –entretanto, ele apostou tudo numa tentativa de emplacar como astro de cinema. Algo que, num diálogo ocorrido em uma das primeiras cenas, o diretor vivido por Al Pacino deixará bem claro que está cada vez mais longe de acontecer: Como no estupendo diálogo inicial entre o Coronel Hans Landa e o fazendeiro francês em “Bastardos...”, o diálogo entre Pacino e Dicaprio começa amistoso, cheio de frivolidade, contudo, mestre da escrita que é, Tarantino usa os elementos da dinâmica para distorcer sua condução e transformar a gentileza em crueldade (sem, no entanto, fazer parecer que deixou de ser gentileza).
Para Rick Dalton, o fracasso sinaliza com os papéis de vilões a que ele parece restringido e às oportunidades, que ele considera pouco lisonjeiras, para fazer faroestes na Itália (com Sergio Corbucci!).
Nesse ínterim, Cliff acompanha o amigo, pairando com a máxima descontração possível sobre os dramas do showbuziness, sem deixar de ser ocasionalmente afetado por um ou outro: Apesar da atitude boa praça, corre o boato de Cliff ter assassinado a própria esposa (trecho que Tarantino revela num audacioso flashback dentro de um flashback), e também a famigerada história do arranca-rabo que ele arranjou com Bruce Lee em pessoa (vivido de forma assoberbadamente caricatural por Mike Moh).
Já, Sharon Tate –a única personagem real dentre os protagonistas –é um caso à parte. Ela tem pouco diálogos, e mesmo sua presença nos planos de câmera é rápida demais para podermos contemplar o suficente a adequação inebriante de Margot Robie ao papel (que, diga-se de passagem, está fabulosa). Ela paira, etérea, pelas cenas do filme como se tivesse vida demais para todo aquele restante de intriga urbana que Tarantino materializa. Sua cena mais longa é também uma das mais memoráveis do filme: Quando ela entra num cinema exibindo “Matt Helm Contra A Arma Secreta” não para ver o filme, mas para se deliciar anonimamente com as reações do público à sua participação.
“Era Uma Vez... Em Hollywood” é assim uma amostra notável desse gênio que manipula as engrenagens da narrativa cinematográfica como poucos, contudo, Tarantino não está só em sua excelência. Após ganhar um merecidíssimo Oscar de Melhor Ator por “O Regresso”, Dicaprio prova que nem por isso deixou de ser formidável –seu Rick Dalton é engraçado, passional e vulnerável, equilibrando facetas tão bem trabalhadas e estudadas como os cacoetes de quando se vê constrangido ou as inseguranças de quando se vê testado.
 Também ele sensacional (ainda que num personagem não tão complexo), Brad Pitt reina supremo em pelo menos duas das melhores cenas de todo o longa (talvez, duas das melhores cenas do ano!): A primeira, quando uma carona nada inocente a uma hippie ninfeta o leva até uma comunidade alternativa gerenciada por ninguém menos que Charles Mason. O suspense que Tarantino impõe nessa sequência é de uma execução genial no entendimento absoluto dos códigos que dilatam e comprimem a narrativa.
A segunda, se dá já no retumbante trecho final do filme, e é preciso –por conta dela –lembrar que, talvez, aqueles expectadores que entrarem no cinema ignorantes da história real envolvendo a atriz Sharon Tate e seu marido, o diretor Roman Polanski, podem não ficar tão impactados com o clímax, ou nem tampouco, entender a desconfiguração de realidade que o filme promove: Como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino não resiste, nessa parte final, à tentação de reescrever a história. E ele o faz com tal convicção raivosa que transforma essa cena em uma catarse.
Este é um filme de detalhes que parecem aleatórios em primeira mão, mas que haverão de se mostrar –sobretudo nesse desfecho magistral –serem estratégias plantadas com astúcia quando tudo se fundir num só empuxo narrativo.
Deixem eu deslumbrar-me com “Era Uma Vez... Em Hollywood”, porque ele é um filme deslumbrante.