sábado, 22 de agosto de 2026

O Ato Final


 O realizador polonês Jerzy Skolimowski foi roteirista de Roman Polanski em “Faca Na Água”, logo, podemos presumir que ele estava em meio ao grupo de autores que ajudou a configurar um cinema polonês carregado de peculiaridades como pôde ser conferido nas obras dos anos 1960 e 70. Lançado em 1970, “O Ato Final” – ou “Deep End” – é seu primeiro trabalho em língua inglesa (uma co-produção entre Inglaterra, Polônia e Alemanha), e foi inspirado, segundo consta, numa matéria jornalística que Skolimowski leu. Nela, uma mulher havia sido assassinada por um jovem. Os motivos seguiam sendo nebulosos. A partir dessa dúvida, Jerzy Skolimowski elaborou um conto obsessivo sobre paixão, descontrole gradual, sensualidade e fatalismo que captura um certo espírito de excentricidade na Swinging London daqueles tempos.

Com quinze anos de idade, o jovem Mike (John Moulder-Brown, de “O Circo dos Vampiros”) conhece Suzan (a absolutamente tentadora Jane Asher, de “A Orgia da Morte”), dez anos mais velha que ele. Mike acaba indo trabalhar no clube londrino Newford Baths, dotado de sauna e piscina. Suzan é sua supervisora. Ela ensina todos os procedimentos necessários para sua ocupação, como a limpeza dos banheiros e demais locais da casa de banho, a forma como abordar os clientes e até mesmo as manhas para extrair deles as almejadas gorjetas.

Jovem, introspectivo e inseguro, Mike é afetado pelo comportamento sexual de todos em geral, e de Suzan em particular – há algo de libertino no modo como o filme leva todos os personagens a se enxergarem em condições mais íntimas. Ele confunde a camaradagem de Suzan com flerte – ela até mesmo comenta sobre o sucesso que ele, jovem e bonito, provavelmente fará entre as pessoas – e essa interação inebriante pontuada por algumas observações sexuais extravasam as impressões do rapaz.

Com efeito, Suzan torna-se para ele uma obsessão. No entanto, Suzan possui uma vida sexual aberta – namora o displicente Chris (Christopher Sandford, do cult “Morra Gritando, Marianne”), mas mantém outros homens como amantes, incluindo alguns que frequentam as dependências do clube. Essas circunstâncias, somadas à uma dinâmica de atração entre os dois que nunca se resolve, aos poucos, levarão ela e Mike a um desenlace trágico.

O lendário diretor David Lynch já havia dito que, dentre todas as produções cinematográficas realizadas em cores (Lynch era muito mais adepto de assistir obras em preto & branco) era simplesmente esse curioso e imprevisto conto de dissolução moral que ele mais apreciava – pela maneira inventiva com que ele emprega o uso na cor na narrativa (em especial, a cor vermelha que ressalta a urgência de diversos momentos-chave), pelo inteligente trabalho realizado na direção de arte e pela sugestão subliminar incomum presentes nas ousadas cenas de nudez e sexo.

Fazendo um discreto desempenho numa época em que o cinema mundial aflorou com obras de forte impacto nas telas (foi o ano de “O Pássaro das Plumas de Cristal”, de Dario Argento; de “El Topo”, de Alejandro Jodorowsky; e de “Tristana-Uma Paixão Mórbida”, de Luis Buñuel;), este trabalho de Jerzy Skolimowski não tardou a ganhar ares cult com seus apreciadores nos anos posteriores, chegando a ser aclamado como um dos  melhores filmes da década. De fato, há algo de brilhante na forma com que sua narrativa surreal, onírica até, elabora um comentário ácido, ainda que irredutível e inevitável sobre relações humanas que se perdem na imponderabilidade das atitudes de almas fragmentadas.

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