Num diálogo em “Onda Nova”, de 1983, os diretores José Antonio Garcia e Ícaro Martins antecipam a trama deste trabalho realizado um ano depois: A personagem de Regina Casé, uma atriz, reflete sobre o desconforto que experimenta por dublar uma outra atriz, já falecida.
Pois eis que é exatamente este o enredo com o
qual “A Estrela Nua” se desenvolve: Na sua trama algo fragmentada –herança cada
vez mais explícita que os jovens diretores Garcia e Martins aproveitaram de seu
ídolo Jean Luc Goddard –o filme acompanha Glória (Carla Camurati, protagonista
de todos os filmes da trilogia que esta obra encerra), uma jovem e despachada
atriz paulistana que aceita o convite de Ismael (Ricardo Petráglia) para ajudar
em seu filme.
Ismael dirigiu, outrora, uma obra no qual sua
atriz principal (vivida por Cristina Aché) morreu tragicamente e, como é de
praxe numa produção audiovisual (sobretudo dos anos 1980) a captação de som foi
imperfeita, o que exige eventualmente uma dublagem em estúdio de todos os
diálogos do elenco. Glória é assim chamada para dublar a voz da atriz falecida
e assim “salvar o filme”.
No entanto, a conexão emocional com a
personagem e com a própria intérprete morta expõe algumas das fragilidades
psicológicas que Glória traz consigo, potencializadas ainda mais pela relação
ora conflitante, ora amistosa, ora passional com os demais membros do elenco
(cuja lembrança recorrente da colega evoca sentimentos de melancolia) e com o
próprio Ismael.
Na comparação com o despojado “Onda Nova” e com
o voyeurístico “O Olho Mágico do Amor”, “A Estrela Nua” revela-se o mais
autoral e audacioso –diferente das duas produções anteriores, não existe aqui,
uma preocupação maior em criar um eixo narrativo em torno do qual a trama possa
girar. O resultado disso são situações sistemáticas, episódicas e
ocasionalmente surreais que acompanham os encontros desse grupo no qual Glória
cai praticamente de paraquedas. São momentos descontraídos em cafés (bem ao
estilo paulistano), em festas, em apartamentos ou no estúdio de dublagem que
acabam expondo sua circunstância sistemática na qual Glória é sempre comparada
à Ângela, aquela que ela substitui. Não apenas isso, o filme de José Antonio
Garcia e Ícaro Martins, visto hoje, serve como uma observação curiosa do quão
alarmante eram certas posturas sociais naquela época tidas por bastante
corriqueiras, mas hoje questionáveis, principalmente o comportamento machista
–o histrionismo ocasional do elenco também enfatiza negativamente essas impressões...

Nenhum comentário:
Postar um comentário