quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Estrela Nua


 Num diálogo em “Onda Nova”, de 1983, os diretores José Antonio Garcia e Ícaro Martins antecipam a trama deste trabalho realizado um ano depois: A personagem de Regina Casé, uma atriz, reflete sobre o desconforto que experimenta por dublar uma outra atriz, já falecida.

Pois eis que é exatamente este o enredo com o qual “A Estrela Nua” se desenvolve: Na sua trama algo fragmentada –herança cada vez mais explícita que os jovens diretores Garcia e Martins aproveitaram de seu ídolo Jean Luc Goddard –o filme acompanha Glória (Carla Camurati, protagonista de todos os filmes da trilogia que esta obra encerra), uma jovem e despachada atriz paulistana que aceita o convite de Ismael (Ricardo Petráglia) para ajudar em seu filme.

Ismael dirigiu, outrora, uma obra no qual sua atriz principal (vivida por Cristina Aché) morreu tragicamente e, como é de praxe numa produção audiovisual (sobretudo dos anos 1980) a captação de som foi imperfeita, o que exige eventualmente uma dublagem em estúdio de todos os diálogos do elenco. Glória é assim chamada para dublar a voz da atriz falecida e assim “salvar o filme”.

No entanto, a conexão emocional com a personagem e com a própria intérprete morta expõe algumas das fragilidades psicológicas que Glória traz consigo, potencializadas ainda mais pela relação ora conflitante, ora amistosa, ora passional com os demais membros do elenco (cuja lembrança recorrente da colega evoca sentimentos de melancolia) e com o próprio Ismael.

Na comparação com o despojado “Onda Nova” e com o voyeurístico “O Olho Mágico do Amor”, “A Estrela Nua” revela-se o mais autoral e audacioso –diferente das duas produções anteriores, não existe aqui, uma preocupação maior em criar um eixo narrativo em torno do qual a trama possa girar. O resultado disso são situações sistemáticas, episódicas e ocasionalmente surreais que acompanham os encontros desse grupo no qual Glória cai praticamente de paraquedas. São momentos descontraídos em cafés (bem ao estilo paulistano), em festas, em apartamentos ou no estúdio de dublagem que acabam expondo sua circunstância sistemática na qual Glória é sempre comparada à Ângela, aquela que ela substitui. Não apenas isso, o filme de José Antonio Garcia e Ícaro Martins, visto hoje, serve como uma observação curiosa do quão alarmante eram certas posturas sociais naquela época tidas por bastante corriqueiras, mas hoje questionáveis, principalmente o comportamento machista –o histrionismo ocasional do elenco também enfatiza negativamente essas impressões...

Usando desse gancho, o da personagem que se vê em constante justaposição à outra (já morta e por isso mesmo ‘santificada’ na visão dos demais) e acaba perdendo a própria identidade nesse processo, seja para uma certa dramaturgia, seja para agregar algum simbolismo à sua narrativa, o filme seguidamente intercala os momentos em que a jovem ainda era viva, transcorrendo junto de situações quase idênticas agora vividas por Glória. Há ali também um comentário de ordem sobrenatural que nunca é devidamente aprofundado.

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