Inspirado no mesmo conto de Hans Cristian Handersen que deu origem à “Frozen”, dos Estúdios Disney, este "La Tour de Glace", de Lucile Hadzihalilovic, ao contrário daquela animação de imenso sucesso, não é destinado às crianças, nem tampouco ao grande público; somente expectadores de paladar muito específico, e cinéfilos em geral, conseguirão assimilar a mescla peculiar entre introspecção, alegoria artística e sondagem psicológica que a narrativa da francesa Lucile Hadzihalilovic constrói do começo ao fim. Todo esse radicalismo foi, ao menos, reconhecido no Festival de Berlim 2025, de onde "La Tour de Glace" saiu com a honraria do Urso de Ouro de Contribuição Artística.
Moradora de um orfanato no alto de montanhas cobertas de
neve, a solitária adolescente Jeanne (Clara Pacino) um dia resolve partir para
as cidades maiores sem muita perspectiva do que lá irá encontrar. Após uma
inóspita e gelada peregrinação, ela se descobre sem ter onde ficar e invade um
prédio qualquer do centro a fim de passar a noite.
Entretanto, o tal prédio parece abrigar as dependências de um
estúdio cinematográfico, e os cenários erguidos servem para as filmagens, dia e
noite, de um filme inspirada no conto “A Rainha da Neve”. Nele, o diretor do
filme é interpretado – veja só! – pelo próprio diretor de cinema, na vida real,
Gaspar Noé, realizador do exasperante “Irreversível”.
A atriz principal do filme vem a ser a estrela de cinema
Cristina, interpretada por Marion Cotillard, acometida de constantes crises de
estrelismo que deixam os membros da produção em estado de alerta sempre que
está por perto. Conseguindo se fazer passar por mais um dos tantos integrantes
da figuração, Jeanne, talvez por sua juventude, chama a atenção de Cristina.
Há uma simbiose estranha, até tóxica, que surge entre as duas
protagonistas a partir de certo ponto que conduz a relação incomum que elas
mantêm, uma espécie de jogo sexual velado que inclui tênues sugestões de
lesbianismo. Para Cristina, afinal, Jeanne é um espelho, no qual ela consegue
enxergar uma imagem da jovialidade que ela, amargurada, não vê mais em si
mesma. Já, Jeanne, arrebatada por seu alvo dessa atenção, deixa-se levar por
esse papel, fazendo os caprichos de Cristina.
É, no entanto, inevitável o momento em que essa situação irá
se tornar insustentável.

Nenhum comentário:
Postar um comentário