quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Torre de Gelo


Inspirado no mesmo conto de Hans Cristian Handersen que deu origem à “Frozen”, dos Estúdios Disney, este "La Tour de Glace", de Lucile Hadzihalilovic, ao contrário daquela animação de imenso sucesso, não é destinado às crianças, nem tampouco ao grande público; somente expectadores de paladar muito específico, e cinéfilos em geral, conseguirão assimilar a mescla peculiar entre introspecção, alegoria artística e sondagem psicológica que a narrativa da francesa Lucile Hadzihalilovic constrói do começo ao fim. Todo esse radicalismo foi, ao menos, reconhecido no Festival de Berlim 2025, de onde "La Tour de Glace" saiu com a honraria do Urso de Ouro de Contribuição Artística.

Moradora de um orfanato no alto de montanhas cobertas de neve, a solitária adolescente Jeanne (Clara Pacino) um dia resolve partir para as cidades maiores sem muita perspectiva do que lá irá encontrar. Após uma inóspita e gelada peregrinação, ela se descobre sem ter onde ficar e invade um prédio qualquer do centro a fim de passar a noite.

Entretanto, o tal prédio parece abrigar as dependências de um estúdio cinematográfico, e os cenários erguidos servem para as filmagens, dia e noite, de um filme inspirada no conto “A Rainha da Neve”. Nele, o diretor do filme é interpretado – veja só! – pelo próprio diretor de cinema, na vida real, Gaspar Noé, realizador do exasperante “Irreversível”.

A atriz principal do filme vem a ser a estrela de cinema Cristina, interpretada por Marion Cotillard, acometida de constantes crises de estrelismo que deixam os membros da produção em estado de alerta sempre que está por perto. Conseguindo se fazer passar por mais um dos tantos integrantes da figuração, Jeanne, talvez por sua juventude, chama a atenção de Cristina.

Há uma simbiose estranha, até tóxica, que surge entre as duas protagonistas a partir de certo ponto que conduz a relação incomum que elas mantêm, uma espécie de jogo sexual velado que inclui tênues sugestões de lesbianismo. Para Cristina, afinal, Jeanne é um espelho, no qual ela consegue enxergar uma imagem da jovialidade que ela, amargurada, não vê mais em si mesma. Já, Jeanne, arrebatada por seu alvo dessa atenção, deixa-se levar por esse papel, fazendo os caprichos de Cristina.

É, no entanto, inevitável o momento em que essa situação irá se tornar insustentável.

Reflexo da imensa predisposição da atriz Marion Cotillard em abraçar projetos de insuspeita estranheza, “La Tour de Glace” é um trabalho contundente e artístico sem qualquer inclinação para o comercial, ainda que notável por sua beleza visual (a fotografia é de Jonathan Ricquebourg), seu ritmo é lento, contemplativo, elíptico e denso, e o papel reservado à Cotillard tem um viés vilanesco e parasitário que afastaria outras estrelas de cinema – fora uma espécie de crítica, ali embutida, ao próprio perfil egocêntrico e arrogante  das estrelas mais narcisistas.

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