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terça-feira, 16 de junho de 2026

Nas Montanhas dos Gorilas


 Calcada em cima da interpretação espetacular de Sigourney Weaver – pela qual ela foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática e indicada ao Oscar de Melhor atriz ao lado de Glenn Close (“Ligações Perigosas”), Melanie Griffith (por “Uma Secretária de Futuro”, filme que também contava com Sigourney no elenco, tendo sido indicada, naquele ano, também a Melhor Atriz Coadjuvante por este trabalho), Meryl Strep (“Um Grito na Escuridão”) e, a vencedora, Jodie Foster (“Acusados”) – este belo trabalho reconstitui com alguma pomba e circunstância –e uma imodesta tendência à romantização –a vida de Dian Fossey, estudiosa pioneira em primatologia, o estudo dos primatas em geral e dos gorilas em particular.

1965. Os gorilas são uma espécie em extinção e não há, num futuro imediato, esperança de reverter esse quadro desesperador. Durante uma palestra do Dr. Louis Leakey (Iain Cuthbertson), a professora Dian Fossey (Sigourney), até então com experiência apenas com crianças portadoras de deficiência, se apresenta voluntariamente disposta a embarcar para a África e realizar o tão almejado e difícil senso dos animais restantes, a fim de colher dados para saber quantos haviam restado – e quanto tempo ainda existiriam.

Enfrentando severos obstáculos num primeiro momento, (a região escolhida para a pesquisa na África do Sul, se encontrava imersa numa violenta guerra civil, impossibilitando a permanência dela por lá), ela e o fiel carregador Sembagare (John Omirah Miluwi) encontram o lugar ideal numa afastada e enevoada montanha em Ruanda, na qual uma vasta família de gorilas estabeleceu morada.

Obtendo uma gradual aproximação dos animais, Fossey não apenas consegue o dados para a pesquisa como faz espetaculares descobertas sobre a vida animal e se torna uma defensora ferrenha de suas vidas, chegando  a ser tomada como uma bruxa pelos nativos locais, os Batwa, que até então caçavam gorilas para vender suas mãos e suas cabeças como troféu para caçadores no mercado negro.

Ela se envolve com o fotógrafo da financiadora da pesquisa, a National Geographyc, Bob Campbell (Bryan Brown, de “Os Pássaros Feridos”) e com o passar dos anos ganha reconhecimento entre núcleos acadêmicos por todo o mundo, a ponto de arregimentar – através de acordos com políticos – um grupo de seguranças para o perímetro das montanhas, e até mesmo novos estudantes dispostos a tentar seguir seus passos.

No entanto, para Dian, tudo o que importa são os gorilas e sua preservação e sobrevivência, um sacrifício que, até o fim, ela se dispôs a levar à extremos.

O diretor Michael Apted – em geral, um desenvolto operário-padrão que nunca se preocupou com expressões mais autorais – se equilibra entre uma realização assombrada por convencionalismo (e nesse sentido, há aspectos do filme que envelheceram mal, bem como passagens inteiras que se revelam extremamente datadas) e momentos bastante inspirados (há impressionantes imagens que capturam a desmedida Sigourney Weaver se aproximando realmente dos imensos gorilas e recriando muitos momentos experimentados pela verdadeira Dian Fossey).

Hoje considerado um clássico, “Nas Montanhas dos Gorilas” teve cinco indicações ao Oscar: Além de Melhor Atriz (Sigourney com sua brilhante atuação é sem sombra de dúvida o grande suporte da produção), Melhor Roteiro Adaptado (entre outros pequenos detalhes notáveis, repare na sutil crítica ao hábito tabagista da protagonista que vai deteriorando sua saúde ao longo dos anos), Melhor Montagem (cujo vencedor foi “Uma Cilada Para Roger Rabbit”), Melhor Trilha Sonora (acima de tudo, um gesto de homenagem ao veterano Maurice Jarre, de produções como “A Filha de Ryan” e “A Missão”) e Melhor Mixagem de Som.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Todos Menos Você


 Numa época em que comédias românticas já não são uma constante no circuito comercial, “Todos Menos Você” parece exalar um estranho desconforto por pertencer a esse gênero outrora tão difundido –e olha que o diretor, Will Gluck, pode ser enxergado como um especialista tendo realizado “A Mentira” e “Amizade Colorida”.

A verdade é que as intenções deste projeto aparentam ser unir os elementos de gênero que tanto fizeram sucesso no passado (com obras simbólicas como “Quatro Casamentos e Um Funeral”) com aspectos sociais da atualidade, como a representatividade e o vocabulário idiossincrático da modernidade, e executar uma espécie de releitura de William Shakespeare para a nova geração, uma vez que o roteiro é vagamente inspirado na farsa romântica “Muito Barulho Por Nada” –todavia, muito pouco do texto, do subtexto ou da meticulosidade do Bardo se manteve na adaptação. O resultado é um filme bastante desajeitado, convicto em relação a certos valores românticos que podem soar antiquados ao público jovem, e insistente numa comédia hesitante, ora disposta a ousar, ora restrita ao inofensivo.

O casalzinho em potencial, Ben e Bea (Glenn Powell e Sydney Sweeney, em ótima sintonia), têm obviamente todos os motivos do mundo para se estranharem; assim que se conhecem, até experimentam uma química promissora juntos, mas uma sucessão de mal-entendidos deixa um gosto amargo em seu primeiro e único encontro. Alguns meses depois, porém, o destino conspira colocando-os numa mesma festa de casamento: A irmão de Bea, Halle (Hadley Robinson, de “Adoráveis Mulheres”), vai se casar com Claudia (Alexandra Shipp, de “X-Men Apocalypse”), cujo irmão, Pete (o rapper GaTa), vem a ser o melhor amigo de Ben. O casamento será na Austrália, lar da família de Claudia, e portanto, todos os convidados serão recepcionados na casa do pai da noiva (Bryan Brown), incluindo Ben e Bea.

Temendo que a indisposição entre os dois estrague o clima de comemoração geral, os demais convidados –agindo mais como coadjuvantes conscientes desse romance do que convidados de um casamento normal –tentam intervir, e a emenda sai muito pior que o soneto: Inicialmente, procuram fazê-los gostar um do outro, o que só piora as coisas, em seguida, providenciam a presença da ex-namorada de Ben, Margareth (a modelo Charlee Fraser), agora namorando um surfista desmiolado (Joe Davidson), e do ex-namorado de Bea, o ainda apaixonado Jonathan (Darren Barnet).

A fim de livrarem-se dessa espécie de marcação cerrada de todos os demais, Ben e Bea resolvem que irão fingir, de fato, se darem bem. Melhor: eles irão fingir que estão tendo um flerte durante das festividades de casamento, o que talvez A) proporcione a Ben uma chance de reatar com Margareth e B) convença Jonathan a largar de uma vez do pé de Bea.

É claro que, na cartilha um tanto quanto maniqueísta das comédias românticas (e aqui, o maniqueísmo, por razões inúmeras se mostra ainda mais evidente e inverossímil) esses arranjos e as situações nascidas a partir dele irão levar os dois jovens e belos protagonistas a perceber que, a despeitos de suas picuinhas, se amam de verdade.

Àqueles expectadores mais exigentes, menos interessados nos reflexos condicionados de um gênero popular como a comédia romântica, “Todos Menos Você” terá um apelo nada eficaz e servirá como um verdadeiro teste de paciência: As circunstâncias esboçadas no roteiro fogem demais da realidade para se deixar convencer por grande parte do enredo do filme, e o turbilhão de referências que a narrativa traz (toda a ambientação do casamento remete aos clássicos do gênero “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “Muito Bem Acompanhada” que, por sinal, têm ambos o ator Dermot Mulroney, que também faz parte do elenco aqui) pouco faz, no fim das contas, para torná-la atraente de fato para aqueles que não sejam os já aficcionados.

O que resta à “Todos Menos Você” é o encanto natural e genuíno exalado por Sydney Sweeney (também ela atuando como produtora executiva) e a revelação relativamente satisfatória de uma veia cômica no galã e candidato à astro Glenn Powell, de “Top Gun-Maverick” e “Estrelas Além do Tempo”.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Academia de Heróis

O prólogo é festivo: Assistimos a uma calorosa festa de despedida feita para o jovem recruta Bill (John Jarratt, de “Picnic Na Montanha Misteriosa”) por seus familiares –numa cena particularmente expressiva e interessante, ele faz um pedido ao cortar um bolo; suas intenções nada inocentes almejam uma chance de transar com uma bela moça entre os presentes. E para a sorte do protagonista, é com ela que ele estará se engraçando no momento seguinte.
Transcorrido antes dos créditos iniciais, esse início serve acima de tudo para contextualizar o protagonista como um jovem como qualquer outro, com anseios, temores e expectativas; serve também para demonstrar o entendimento pouco comum do diretor Tom Jeffrey dos impulsos humanos de seus personagens, e o talento para expressá-los por meio de sequências que passam longe do lugar comum.
Essa perícia se mostrará essencial para o filme que começa logo em seguida.
Um dentre inúmeros soldados australianos despachados para lutar no Vietnam, Bill passa assim a vivenciar a rotina de um acampamento militar erguido a céu aberto num ambiente que exaspera os homens nada habituados a ele –a piada mais recorrente deles, durante esse período é de que se pode ajustar as horas do relógio baseando-se nas chuvas diárias, que acometem o acampamento intensa e abruptamente.
Bill divide o tempo entre vários companheiros que arruma no regimento, mas os mais importantes na narrativa são o descontraído Rogers, vivido por Bryan Brown, e o niilista Harry, vivido por Graham Kennedy, cujas observações políticas e morais acerca do militarismo, da opinião pública sobre a guerra, e da própria condição dos soldados refletem amargamente sua desilusão.
Realizado em 1979, o filme de Tom Jeffrey não possuía maiores referências dentro da própria guerra que abordava –“Apocalypse Now” foi lançado naquele mesmo ano (embora haja aqui uma sequência de sonho incrivelmente semelhante à algumas cenas do trabalho de Coppola), enquanto que “Platoon” e “Nascido Para Matar” só seriam produzidos na década de 1980 –fazendo assim com que suas influências sejam melhor encontradas nas obras clássicas: Ao registrar o dia-a-dia dos soldados, Jefrey convida o expectador a estabelecer com eles uma afinidade muito particular, divertindo-se com seus gracejos, compactuando com suas pequenas alianças, solidarizando com seus dramas como fez em seus trabalhos o veterano diretor Samuel Fuller.
A guerra propriamente dita irrompe raramente nessa rotina militar, definida pelos vícios compartilhados entre amigos, por gentilezas descobertas no companheirismo, ou por rixas quase infantis em meio ao cotidiano, mas quando o faz é em sequências arrepiantes e vertiginosas, notáveis pelos sobressaltos abruptos que arranca.
E demonstrando uma aleatoriedade sangrenta da qual ninguém está à salvo –nem os coadjuvantes, nem os protagonistas.
O terço final se ocupa a fornecer uma espécie de desfecho específico a cada personagem, tratando todos eles com zelo e austeridade, restando ao fim, Bill e Harry.
Eles deixam o Vietnam sem os alardes característicos de narrativas bélicas mais ostensivas já perpetradas pelo cinema; um certo dia lhes chega o comunicado da baixa e então adeus!
 O brilho está todo nos detalhes: Ao deixar enfim para trás o campo que, por algum tempo lhes foi fonte de perplexidade, ócio e algum temor pela morte, os dois protagonistas se descobrem veteranos de guerra num mundo civilizado que a viu tão somente por noticiários.
As pessoas conseguem falar sobre esse assunto; Bill e Harry, não.
Para eles, o retorno para casa (ao som da belíssima canção “Leaving On A Jet Plane”, de John Denver) é uma constatação do quanto a temeridade da batalha os transformou –agora, contemplar uma bela vista na mais absoluta paz não lhes parece ser algo tão prolixo assim.
“Academia de Heróis” é um filmaço!

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Os Pássaros Feridos

Obra plenamente cinematográfica, “Os Pássaros Feridos” foi realizado em formato de minissérie e não de longa-metragem por uma razão bastante pontual: As duas ou três horas usuais de duração de um filme para cinema jamais dariam conta dos percalços registrados  no best-seller de Colleen McCullough. Tal empreitada exigia uma duração muito maior, capaz de abranger a percepção desigual de tempo e os numerosos eventos imprescindíveis presentes na história.
Não que não tenham tentado faze-lo: Por muito tempo, um projeto cinematográfico, protagonizado por Christopher Reeve e Jane Seymour (o mesmo par romântico do celebrado “Em Algum Lugar do Passado”) foi acalentado e planejado, sempre esbarrando na questão fundamental da trama espetacularmete ampla e detalhada que o livro tinha, incapaz de ser encapsulada com satisfação numa metragem convencional.
Conscientes disso, os produtores optaram por realizar uma minissérie, ou se preferir, um grande filme de oito horas de duração.
Dirigido com brilho e sensibilidade pelo canadense Daryl Duke, “Os Pássaros Feridos” começa, portanto, contando a história do padre inglês Ralph De Bricassart (Richard Chamberlain, memorável no papel) que, por seu temperamento pouco comum para um sacerdote religioso, é despachado para a paróquia de um vilarejo na Austrália, bem distante do pólo de interesses religiosos do Vaticano, onde se concentram suas ambições.
Lá, Ralph se torna amigo da mulher mais rica da região, a Sra. Mary Carson (a veterana Barbara Stanwyck, numa participação que logo se revela formidável), proprietária de uma fazenda de ovelhas.
Ralph também se afeiçoa à família Cleary cujo patriarca se torna capataz e os filhos, eficientes empregados da fazenda. Há também uma menina, a jovem Meggie que fica sob os cuidados do padre Ralph, responsabilizando-se por sua educação.
No roteiro brilhantemente atento às dinâmicas que se constroem nota-se um interesse pelas tensões que aparecem –e que, na sua maioria, têm a haver com o fato do padre Ralph ser um homem boa-pinta e bem apessoado que desperta a atenção das mulheres, inclusive da Sra. Carson. Ela também compreende as disfarçadas obsessões que Ralph traz dentro de si e que o fazem, em parte, inadequado à abnegação do sacerdócio. E no ressentimento do desejo por Ralph que, ela sabe, ele jamais corresponderá, a Sra. Carson, em seus últimos dias de vida, dá o golpe de misericórdia que representará o estopim de toda a trama: Sem filhos ou familiares próximos, presumia-se que ela deixaria sua imensa fortuna aos únicos merecedores de fato –à Meggie e sua família. Entretanto, em seu testamento Mary acrescenta uma cláusula desconcertante; a decisão acerca de sua fortuna ficará a cargo do padre Ralph. É ele quem decidirá se a cláusula será anulada e o testamento, como especificado, deixará toda a fortuna dela para os Cleary ou, do contrário, o próprio Ralph será o único a responder legalmente por toda a riqueza e propriedades da milionária.
Sabendo que ter uma fortuna como aquela em seu nome atrairá a atenção do Vaticano, Ralph mantém a cláusula de Mary, o que relega a família de Meggie à contínua vida de trabalho e subserviência, não obstante a generosidade que Ralph (agora seu novo patrão) demonstra com eles.
Os anos passam –e outros eventos, como a morte de um irmão de Meggie e a partida de outro, se sucedem –e Meggie se torna uma mulher belíssima (interpretada agora pela sensacional Rachel Ward) sem a menor intenção de esconder seus sentimentos pelo padre Ralph que, como estava em seus planos, é convidado a trabalhar no Vaticano junto do conceituado arcebispo Vittorio (o espetacular Christopher Plummer).
As esparsas visitas de Ralph à fazenda, entretanto, revelam o forte desejo reprimido que ele também tem por Meggie –“Os Pássaros Feridos” é, pois, sobre isso, o embate íntimo experimentado por Ralph e Meggie entre a atração do amor e a devoção à ideologia, forças tão opostas quanto igualmente poderosas.
O elemento particularmente notável de sua trama romântica é justamente a percepção da passagem inexorável do tempo, bem como a somatória implacável de circunstâncias adversas, revelando-se incapazes de tolher esse sentimento: Os anos se passam, Ralph escala consideravelmente a honorável hierarquia do Vaticano, e Meggie até mesmo tenta em vão procurar a felicidade nos braços de um marido, Luke (vivido por Bryan Brown que casou-se com Rachel na vida real), mas absolutamente nada faz com que o casal apaixonado esqueça um ao outro.
No clímax da história, Meggie retira-se numa pousada à beira-mar em busca de um pouco de paz da atribulação que transformou-se sua vida –após o casamento com Luke e dele ter uma filha, Meggie experimenta a negligência matrimonial na forma de abandono –e as circunstâncias enfim trabalham juntas para ela e Ralph lá se encontrarem. Ali ela engravida dele; e a real paternidade de seu filho, Dane (vivido na fase adulta por Philip Anglim), é um segredo que Meggie irá guardar até o último momento de sua dolorosa saga.
Embora cause certa irritação as indecisões do padre Ralph –decisões essas que, ainda assim, são essenciais aos rumos da trama –“Os Pássaros Feridos” é tão bem interpretado por seu elenco, tão brilhantemente concebido por sua equipe técnica (a belíssima trilha sonora, a cargo do talentoso Henry Mancini, de “A Pantera Cor-de-Rosa”, ganhou um Globo de Ouro), e tão cuidadosamente bem narrado e conduzido por seu diretor Daryl Duke que os eventuais lapsos que poderiam lhe prejudicar só lhe enfatizam os acertos.
É uma jornada poderosa, reflexiva, romântica e não raro melodramática que, a despeito do protagonismo de Ralph De Bricassart, não tarda a centralizar-se em Meggie, a personagem principal de fato e de direito, e sua trajetória de dor, abnegação, e oposição a Deus que ela enxerga, do início ao fim, como executor onipresente de todos os seus infortúnios, para então compreender, já no desfecho depois de muita água passada debaixo da ponte, o quão inexoráveis são os percalços atribulados da vida e o quão fundamental é o valor do perdão.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Um Cupido Caiu Do Céu


A ótima atriz Sally Hawkins é exótica demais para ser considerada bonita, mas ela exala um carisma e uma energia em cena tão palpáveis e vívidos que chegam a torná-la atraente –essa certamente é uma característica que torna surpreendente o oscarizado “A Forma da Água”. E certamente é também uma das poucas razões para se conferir este “Um Cupido Caiu Do Céu”, onde Sally vive uma das metades de uma premissa de comédia romântica e, embora não tenha a beleza convencional das rainhas desse sub-gênero (como Meg Ryan, Julia Roberts e Sandra Bullock), consegue ser a melhor coisa do filme.
Obedecendo cada clichê que se pode imaginar, o filme começa com o insosso protagonista Doug (Rhys Darby) levando um belo pé na bunda da então namorada, Susan (Faye Smythe, essa sim, uma atriz de beleza arrebatadora).
Passando por todos os estágios habituais e irritantes da fossa (e ainda tendo a audácia de fazer das icônicas músicas da banda Queen, uma espécie de trilha sonora disso tudo!), ele acaba surpreendido pela aparição de um pato (!) em sua casa –e mais surpreendente ainda é o quanto uma manobra como essa vai se tornar central para a trama do filme!
Desta vez, obedecendo cada clichê que se pode imaginar num filme com bichinhos fofinhos, Doug se apega ao pato –ao qual dá o nome de Pierre –a ponto de procurar especialistas para lhe dar um conselho acerca dele (um deles, vivido pelo veterano Bryan Brown, de “F/X-Assassinato Sem Morte”), e é aí que entra Sally Hawkins na história dando veracidade à única personagem minimamente plausível e que consegue escapar do caricato em todo o filme.
Ela é Holly, cujo trabalho é tratar dos pássaros em um zoológico.
A aparição do indulgente Doug coincide com os apelos de sua melhor amiga que insiste que ela já ficou solteira tempo demais.
E lá vão ela e Doug (que leva o pato à tiracolo para todo o lugar) sair e, na medida em que se aproximam afetivamente, experimentar os dilemas de um relacionamento que se forma: Ela tem um filho que, como toda criança, inicialmente implica com os namorados da mãe; ele tem lá seus momentos de recaída em relação à ex-namorada –que embora não valha um tostão reaparece para dar algum conflito à narrativa.
Não que ajude muito...
Dirigido de maneira frouxa, escrito com um economia de idéias que chega a ser ultrajante e povoado de personagens que aparecem, reaparecem e desaparecem sem ter o quê fazer, “Um Cupido Caiu No Céu” entra naquela peculiar lista de obras intragáveis que só são lembradas porque constam, por uma ironia do destino, no currículo de uma atriz com talento quando ela ainda tinha de encarar bobagens que não estavam à altura de sua capacidade.
Por sorte, se observarmos a filmografia de Sally Hawkins este caso é uma exceção.

sexta-feira, 30 de março de 2018

O Massagista

O diretor inglês Nicolas Roeg já esteve entre os grandes de sua geração, como atesta a espetacular seqüência de obras grandiosas e donas de um estilo refinado, poderoso e honesto que ele engendrou na década de 1970: “Walkabout-A Grande Caminhada”, “Inverno de Sangue Em Veneza” e “O Homem Que Caiu Na Terra”.
Nos anos 1980, sua relevância prosseguiu gradativamente se diluindo em desiludidos trabalhos no cinema comercial (“Malícia Atômica”, “A Convenção das Bruxas”, “Inferno Ou Paraíso”, “Track 29”) até quase minguar.
Nesta obra lançada nos anos 1990, há pouco o que relacionar aos grandiosos e primordiais trabalhos do início de sua filmografia, mas ainda se nota em sua postura um inconformismo para com as convenções de linguagem que norteiam o cinema comercial, ainda que esse questionamento, aqui, se expresse com alguma timidez.
“O Massagista” –ou “Full Body Massage” –é um drama intimista com elementos que poderiam soar teatrais não fosse o talento de Roeg, e não deixa de ser bastante irônico mencionar a timidez da parte de seu diretor quando ele propõe uma encenação tão despojada: A já madura atriz Mimi Rogers se expõe em cenas de nudez contundente neste filme rivalizando (apenas no que diz respeito à nudez mesmo) com o que a francesa Emmanuelle Beart fez em “A Bela Intrigante”.
Mimi é Nina, uma empresária de artes plásticas cuja solidão contumaz do dia-a-dia é contornada em sessões semanais de massagem relaxante.
Um contratempo, porém, impede seu massagista regular de comparecer à sessão e ele envia outro no lugar, o taciturno Fitch (Bryan Brown, ator australiano de “Breaker Morant”, “Nas Montanhas dos Gorilas” e “F/X-Assassinato Sem Morte”).
Fitch é metódico, objetivo e enérgico. Esse distanciamento inicial deixa Nina profundamente relutante em submeter-se às suas massagens e a entregar-se à intimidade de ter seu corpo nu tocado por um completo desconhecido.
Ao ceder ao pontual profissionalismo dele, Nina pouco a pouco se desnuda –literalmente e figurativamente –descobrindo assim uma inesperada compatibilidade.
É um exercício bastante incisivo de execução e estilo onde nota-se a apurada compreensão de personagens da parte do diretor Roeg; Nina e Fitch são almas solitárias, naquilo que julgam ser o limiar de uma vida sem relacionamentos. Para ambos, o toque físico proporcionado pela atividade da massagem –da parte dele como servidor e dela como cliente –possui, ainda assim, um breve instante de compensação no contato corporal que promove.
Mantendo sua câmera atenta a esse jogo de corpos (que é, de certa maneira, um jogo também de sedução), o diretor justapõe nos diálogos uma analogia que coloca a sessão de massagem também como uma terapia, na qual não apenas Nina, mas também Fitch irão se despir sentimentalmente um para o outro.
Longe de ser igualmente marcante como outros trabalhos já assinados por Roeg, “O Massagista” acima de tudo destaca a coragem de Mimi Rogers na sua entrega à personagem e às cenas despudoras que o filme exige dela.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Breaker Morant

O cinema australiano sempre teve a propriedade de abordar assuntos saturados por um viés peculiar que lhe atribuía originalidade.
Embora o drama de guerra “Breaker Morant” não deixe de ser um libelo anti-militarista nos moldes do poderoso “Glória Feita de Sangue”, de Stanley Kubrick (e, como ele, desperta uma insuspeita indignação diante dos fatos), ele cumpre seu papel no panorama cinematográfica da Austrália ao jogar luz em um episódio obscuro de um conflito mais obscuro ainda: A Segunda Guerra dos Bôeres, ocorrida entre colonizadores britânicos e imigrantes holandeses, na África do Sul, nos primórdios do Século XX.
Diretor de obras ecléticas como “A Força do Carinho”, “Conduzindo Miss Daisy” e “Hábito Negro”, o australiano Bruce Beresford guia com firmeza e convicção a história que relata um julgamento transcorrido em meio àquela guerra –e, por tratarem-se de soldados acusados de assassinar inimigos, isso já emoldura a situação com uma aura de absurdo.
Os réus em questão são três australianos servindo nas guarnições inglesas: O tenente Harry ‘Breaker’ Morant (Edward Woodward, de “O Homem de Palha”), o tenente Peter Handcock (Bryan Brown, de “F/X-Assassinato Sem Morte”, “Nas Montanhas dos Gorilas” e a clássica minissérie “Pássaros Feridos”) e o tenente George Ramsdale Witton (Lewis Fitz-Gerald), e sob eles pesa a acusação de terem executado sem necessidade prisioneiros Bôeres (como eram chamados os descendentes de holandeses que compunham as guerrilhas), além da nebulosa morte de um missionário alemão.
O caso resvala na flexibilidade e volatilidade das leis militares e no modo ambíguo como são, em geral, empregadas no campo de batalha: Os soldados tinham ordem para executar Bôeres que estivessem trajando fardas roubadas (o quê era o caso), mas a acusação argumenta que essa não é a natureza exata do regulamento.
Acima de tudo, essa era uma causa perdida: A despeito da ferocidade e iniciativa de seu advogado de defesa, o Major Thomas (Jack Thompson), o interesse por trás da sentença era político –a Junta Militar almejava um veredicto de culpado que representasse um gatilho para iniciar as negociações de paz, antes que a Alemanha encontrasse um pretexto para envolver-se no conflito, de olho nas ricas fontes de minério e diamante da África do Sul –justificando assim testemunhas compradas, a conivência das autoridades e até mesmo uma eventual torção no regulamento militar.
Apesar do freqüentemente nauseante discurso de que a perda daquelas vidas humanas justificava um bem maior, o diretor Beresford constrói seu filme com elegância e ciência das implicações morais nele embutidas. Sua observação mais brilhante surge da boca do próprio protagonista Morant. Ele conclui que o conflito que travavam –e pelo qual eram julgados –era o primeiro de um novo tipo de guerra, na qual os inimigos não vestiam uniformes, mas roupas civis, e os emboscavam, às vezes, de dentro de suas próprias casas. Uma verdade que poucos souberam perceber, mas que chegaria com força arrebatadora na segunda metade do Século XX, com a Guerra do Vietnam, e mais posteriormente, o atual terrorismo.

domingo, 19 de junho de 2016

Deuses do Egito

O cinemão comercial hollywoodiano continua insistindo numa forma de explorar o apelo de grande sucesso do game “God Of War”.
“Deuses do Egito” não deixa de ser uma tentativa na direção de criar um produto cinematográfico que explore esse filão, já que a trama do game é considerada (com razão) de difícil, e até desnecessária, adaptação para a linguagem cinematográfica.
O diretor Alex Proyas é um artesão essencialmente visual, relacionado, durante algum tempo, à filmes pouco usuais junto ao que se considerava um produto normal de estúdio. Para se ter uma idéia, ele realizou um dos meus filmes prediletos com a atriz Jennifer Connelly: O pouco conhecido e ainda menos falado “Cidade das Sombras” um misto estranho e charmoso de ficção científica, film noir e história de terror que, de certa forma, antecipou vários elementos empregados depois pelos Irmãos Wachowsky em “Matrix”. Ele também fez outro cult movie da década de 1990: “O Corvo”, cuja morte trágica do astro Brandon Lee durante as filmagens jogou uma mórbida atenção sobre a produção.
Outro trabalho seu de alguma relevância foi “Eu, Robô” com Will Smith.
Relevância, contudo, é algo que passa longe desta obra aqui, uma miscelânea que busca harmonizar diretrizes de executivos, pesquisas de público, uma série de fórmulas confiáveis de bilheteria e muitos efeitos especiais.
A história possui bastante semelhança com outro filme igualmente superficial lançado alguns anos atrás: “Imortais”, também ele tentando pegar carona no conceito de divindades antigas cujas lendas, remodeladas, estavam única e exclusivamente à serviço de um entretenimento acelerado feito para a geração Playstation. Uma aula de mitologia completamente distorcida, e da maneira mais esdrúxula.
As coisas não ficam muito melhores neste “Deuses do Egito”.
Numa era em que deuses e homens co-existiam com relativa paz, o vingativo Seth (Gerard Butler, num registro um pouco parecido com seu Leônidas, de “300” ainda que cheio de vilania e canastrice) interrompe bruscamente a coroação de Hórus (Nikolaj Coster-Waldau, de “Game of Thrones”), seu sobrinho e filho de seu irmão, Osíris (o sumido Bryan Brown, de “F/X-Assassinato Sem Morte”), o rei do Egito.
Seth quer o trono para ele, e não hesita em matar o próprio irmão, e arrancar os olhos de seu sobrinho, para aflição da amante deste, Hator, a deusa do amor (a linda Elodie Yung, que interpretou Elektra na série “Demolidor”). Mas a intervenção do ladrão de bom coração, Bek (o irritante Brenton Thwaites) irá reverter a sorte de Hórus: Ele recupera ao menos um dos seus olhos roubados, e parte para deter a sanha de poder de Seth, que pode levar, inadvertidamente, todo o mundo à destruição.
O emprego de efeitos visuais é, certamente, a grande estrela do filme, o quê não chega a ser surpresa seja pelo perfil do diretor, seja pela tendência sempre seguida por esse tipo de filme. O quê é surpresa é a lamentável falta de criatividade que Proyas demonstra aqui, sem dúvida, um serviço sob encomenda, no qual ele está longe da personalidade que conseguiu impor em seus outros bons trabalhos, evidenciando um afastamento do realizador mais autoral que ele foi algumas décadas atrás. Uma pena.