Quando começamos a achar que não se faz mais cinema assim (dotado de uma percepção artística toda lenta, introspectiva, melancólica), vem a própria Netflix (a mais popular dentre todas as plataformas de streaming) e lança “Sonhos de Trem” –ou “Train Dreams” no original –adaptação de um livro escrito por Denis Johnson em 2011, e carregado com ecos do cinema de Terence Malick (“Cinzas No Paraíso”, “Além da Linha Vermelha”, “Árvore da Vida”), contemplativo, abstrato, muito mais inclinado à reflexão do que à ação.
"Sonhos de Trem" é a história de
Robert Grainier (Joel Edgerton, irrepreensível) e, desde o início, o narrador
(voz do ator Will Patton) nos informa que Grainier viveu até os 80 anos.
Filhos de pais que jamais chegou a conhecer,
ele chega em Bonners Ferry, estado de Idaho, ainda criança e, desde cedo,
desenvolve uma personalidade calada, introvertida, sempre dedicado ao cotidiano
braçal das ocupações daquele fim do Século XIX início do Século XX.
Adulto, Grainier passa a trabalhar como
lenhador, derrubando árvores por todo o país, muitas vezes para a construção de
estradas de ferro, situação que o deixa sempre próximo do universo ferroviário
norte-americano, e em contato com outros madeireiros, operários braçais que vem
e vão ao longo dos anos, também eles com suas peculiares histórias.
Desse segmento, aqueles que se sobressaem na
narrativa certamente são o chinês (Alfred Hsing, de “Jogador Nº1”) abruptamente
descartados dos serviços junto a ferrovia por ser um imigrante ilegal (uma
visão que passa a atormentar Grainier o resto da vida); o homem religioso e
falastrão (Paul Schneider, de “A Garota Ideal”) inesperadamente morto por a
tiros por um homem negro em busca de uma vingança pessoal; e o operário
veterano vivido por William H. Macy, um curioso contador de histórias que se
torna seu amigo e que parte de forma trágica.
Há também uma expressiva participação, já na
segunda metade da atriz Kerry Condon (de “Banshees de Inisherin” e “F1”).
O cerne de sua trama, contudo, é a relação com
Gladys (Felicity Jones), jovem por quem ele se apaixona, com quem casa e, logo
depois, decide construir uma cabana na floresta à beira de um rio. Os anos não
tardam a passar. Eles têm uma filha, a pequena Kate, e para sustentar sua
família, Grainier passa a trabalhar temporadas inteiras bem longe do lar,
cortando madeira nos mais diferentes recôncavos do país.
Seus retornos para casa são poéticos e
carregados de felicidade, mas a falta de dinheiro sempre o obriga a voltar. E é
justamente num desses retornos que ele é surpreendido por um terrível incêndio
acometido na floresta onde moram, fazendo com que Gladys e Kate fiquem
desaparecidas.
Seus 80 anos de vida não são definidos por
acontecimentos extraordinários, muito pelo contrário, Robert Grainier não
poderia ser um indivíduo mais comum. Ainda assim, essa trajetória de vida assim
registrada não deixa de acompanhar de perto as notáveis transformações
testemunhadas por esse mesmo homem comum durante os EUA da primeira metade do
Século XX: “Train Dreams” vai até a segunda metade dos anos 1960, acompanhando
nesse processo a modernização do sistema de transporte ferroviário
norte-americano (mostrado sem qualquer viés didático) e chegando inclusive a
trazer as notícias sobre a ida do Homem ao espaço.
Lançado originalmente no Festival de Sundance
de 2025, onde o trabalho do diretor Clint Bentley e a atuação de Edgerton
saíram aclamados pelos críticos, “Train Dreams” é uma obra cuja narrativa
definida pela contemplação mantém sempre em foco a relação do Homem com a
Natureza, não à toa, suas imagens deslumbrantes desde a primeira cena são o ponto
forte: A direção de fotografia, concebida na janela de aspecto 1,46:1, é
assinada pelo brasileiro Adolpho Veloso (de “Tungstênio” e ‘Rodantes”).

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