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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Homem-Aranha - Um Novo Dia


 Em “A Brand New Day”, vemos  finalmente Peter Parker lidando com as complicadas circunstâncias nas quais foi colocado ao fim de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”: Desprovido de todo o repertório de utensílios e facilitadores tecnológicos que vinham lhe acompanhando desde “De Volta Ao Lar” – o que, na opinião de alguns fãs, não tinha muito a ver com o personagem – apagado da memória do mundo inteiro (graças a um feitiço do Dr. Estranho), incluindo seus entes mais próximos, a namoradinha M.J. (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon), e tirado tragicamente da companhia de sua Tia May (Marisa Tomei). Em suma, completamente sozinho.

Hábil diretor de contos centrados na melancolia e em sentimentos menos falados e mais interiorizados (como atestam obras como “Temporário 12” e “O Castelo de Vidro”), Destin Daniel Cretton demonstrou alguma desenvoltura visual com a elaboração de belas e fluídas cenas de ação em “Shang-Chi e A Lenda dos Dez Anéis”, sua estréia na Marvel Studios. Agora, com este “A Brand New Day”, ele ganha uma espécie de promoção e assume, no lugar de Jon Watts (diretor dos três longas anteriores do Homem-Aranha), um personagem de maior estatura dentro do MCU.

E o resultado corre o sério risco de ser o melhor filme protagonizado pelo Homem-Aranha de Tom Holland até o momento.

Vivendo mais como Homem-Aranha do que como Peter Parker, o herói, agora quase sem nenhum vínculo afetivo, passa seus dias enfrentando as constantes dificuldades que se abatem sobre a cidade de Nova York. Todavia, lá no íntimo, ele não consegue esquecer M.J. e Ned que seguiram em frente, morando juntos, estudando e, agora, prestes a se formarem. Essa angústia parece se manifestar na fisiologia de Peter: Ele é acometido de dores de cabeça e do que parecem ser mutações nas quais o lado aracnídeo de seu organismo começa a se manifestar de maneira monstruosa sobre sua persona humana.

É a fim de inibir as consequências mais imprevisíveis desse processo que Peter acaba procurando pelo Dr. Bruce Banner (Mark Rufallo), certamente um especialista em conter o monstro dentro de si (o Hulk, no caso).

Paralelamente a essas mudanças – mas, servindo de perfeito reflexo a elas a partir de um determinado ponto – está  o mistério que ocupa boa parte do enredo do filme: Uma entidade – que parece ‘possuir’ pessoas por toda a Nova York com o nebuloso objetivo de invadir a fortificada sede do Controle de Danos – está à solta e, enquanto nem Peter, nem a polícia, compreende seus propósitos e suas motivações, essa ameaça precisa ser parada.

Mais disposto a enfatizar os dilemas de jovem adulto do protagonista do que Jon Watts (que deu prioridade à euforia juvenil), Destin Daniel Cretton salienta com mais evidência e minúcia a evolução do personagem rumo a um Homem-Aranha muito mais condizente com seu retrato nos quadrinhos, o que, em si, já é suficiente para eleger este filme como um provável favorito dos fãs, no entanto, ele ainda não está completamente livre de lapsos, em especial, no que diz respeito à condição sócio-econômica do herói (nunca fica claro, afinal, do quê Peter Parker vive e em que trabalha, visto que só o vemos atuar como Homem-Aranha) ao staff do Controle de Danos (uma herança que ainda repercute de “Vingadores” e das tantas manobras a incluir laços com o Universo Marvel) e a premissa assim esboçada da mutação aracnídea – que parecia ser central no trailers, mas que, aqui, embora muito pertinente no princípio vai dando gradualmente lugar a um outro plot twist até por fim perder completamente sua importância.

Felizmente, “A Brand New Day” é aquele tipo de filme que os acertos compensam amplamente seus erros: A dinâmica entre Peter, M.J. e Ned enfim rende emoções genuínas depois de quatro filmes, e a participação do Justiceiro é uma oportunidade e tanto para conferirmos a química sem igual entre Jon Bernthal e Tom Holland. Contudo – sem revelar spoilers – o nome que, aqui, aponta de forma promissora para o futuro da Marvel nos cinemas é a jovem Sadie Sink, compondo com excelência uma personagem cuja identidade foi aguardada às sete chaves até o lançamento do filme nos cinemas e que representa uma das tantas gratas surpresas da produção – e que, ao fim, deixa o público com um entusiasmado gostinho de quero mais.

domingo, 2 de agosto de 2026

A Odisseia


 O que fazer após a consagração? Essa dúvida talvez tenha passado na mente de Christopher Nolan após ele ter arrebatado o Oscar de Melhor Filme na cerimônia de 2024 com “Oppenheimer”, e a resposta que ele encontrou foi... voltar ao início de tudo!

Como contador de histórias, Nolan sentiu que havia chegado a hora de tentar contar no cinema uma das mais antigas histórias da civilização, uma estrutura referencial para todas as jornadas arquetípicas que vieram depois – “A Odisseia”.

O próprio cinema de Christopher Nolan deve muito a esse poema ancestral de Homero: Lá estão as idas e vindas temporais (por meio de memórias sistematicamente resgatadas) que dão à narrativa um sedutor formato não linear, tal e qual Nolan fez em “Amnésia”, em “Tenet” e outras obras mais. “A Odisseia” é, em si, um modelo que sempre exerceu forte impacto sobre ele enquanto cineasta.

Logo, diante da sensação de ter chegado ao topo, Nolan se viu na necessidade de regressar (assim como Odisseu) ao ponto em que sua verve como contador de histórias floresceu. Regressar à Odisseia.

Não que não houvessem tentado adaptá-la (e muito) antes: Além de um sem-fim de tentativas de adaptação em formato longa-metragem ou minissérie (a maioria delas ostentando valores característicos de Filme B), “A Odisseia” é também a fonte e a influência para diversas outras variações narrativas no cinema como “E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?”, dos Irmãos Coen, “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, e (há quem diga) “Interestelar”, do próprio Nolan.

Era hora de aventurar-se a adaptar a obra original de fato e tentar dar a ela uma roupagem cinematográfica definitiva. E o resultado, como costuma ser nos melhores trabalhos de Nolan é ambicioso, abrangente, épico e assombroso.

Antiguidade. Já conta mais de uma década dos feitos cantados aos quatro ventos durante a Guerra de Tróia vencida pelas forças de Agamenon (o também diretor Ben Safdie), todavia, Odisseu (Matt Damon), o rei de Ítaca e um dos homens de confiança de Agamenon naquele longo conflito ainda não retornou para casa, nem para o leito de sua devotada esposa Penelope (Anne Hathaway). Há quem diga que perdeu-se no mar. Há quem diga que morreu. Enquanto esse impasse não se resolve, e enquanto a esperança por seu retorno se mantém inabalável em Penelope, as dezenas (quase centenas) de pretendentes à mão dela e ao trono de Ítaca se amontoam no palácio esbanjando da hospitalidade grega, entre eles, o pérfido e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Em algum momento, Penelope haverá de terminar o sudário que passa os dias tecendo, e quando o fizer, será o momento em que terá por obrigação escolher um deles, a despeito da injúria de Telêmaco (Tom Holland), filho de Odisseu que, como a mãe, ainda nutre esperanças pelo retorno do pai. Um pai que ele não conheceu.

É, no entanto, a conturbada jornada de Odisseu em seu esforço para voltar para casa que ocupa todo o centro da narrativa de Nolan.

Finda a Guerra de Tróia (com o episódio do Cavalo de Tróia mostrado num segmento espetacular em flashback), Odisseu junta seus homens e prepara-se para a viagem em regresso à Ítaca, entretanto, uma série de contratempos acaba comprometendo seu retorno. Farto dos desmandos de Agamenon, ele segue por uma outra rota marítima que o leva à uma ilha habitada por um gigantesco ciclope das cavernas – na primeira das inúmeras cenas que provam a desenvoltura sem igual (e até então desconhecida e inexplorada) de Christopher Nolan para moldar sequências do mais puro terror.

Somente com o monstro derrotado, Odisseu e seus homens se dão conta de que, como a criatura mitológica que é, ele tem como pai uma das divindades (Poseidon, no caso) que, agora, se encontra enfurecido com Odisseu e haverá de dificultar sua volta para casa. E serão esses percalços, de exaspero inacreditável que acrescentarão mais dez anos ao regresso do Odisseu – que a guerra já havia afastado por uma década de Ítaca. O confronto com os gigantes, seguido do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton, ótima), a sombria sequência do reencontro com os combatentes da Guerra de Tróia, agora mortos, e a aparição de outras criaturas sobrenaturais dos mares como as sereias, o monstro que sucede o redemoinho de Poseidon e a deusa Calypso (Charlize Theron) que, em sua afeição por Odisseu, o aprisiona em sua ilha, destituído de suas lembranças, por sete longos anos.

Não há um único membro do elenco que, sob a batuta de Christopher Nolan, não esteja excelente, contudo, no campo das atuações primorosas é necessário chamar à frente Matt Damon, Tom Holland e Robert Pattinson, estupendos interpretando o trio que representa o cerne de todo o embate moral e emocional da trama – o homem em regresso ao lar em permanente conflito com as escolhas atrozes que a guerra lhe obrigou a fazer; o menino pressionado a virar homem a fim de preservar intacta a herança e a memória do pai; e o vil interesseiro oportunista a tentar valer-se de trapaça e perfídia a fim de prevalecer em vantagem sobre essas duas circunstâncias.

A obra de Homero é e sempre foi um fundamento em torno do qual os mais diversos enredos foram construídos ao longo dos séculos, Nolan recriou essa jornada monumental a partir de suas mais recentes adaptações e traduções, buscando a conciliação de uma linguagem moderna com os paradigmas inestimáveis que o poema original plantou na cultura literária do ocidente. Seu filme é uma recriação majestosa, vibrante e, em alguns momentos, até comovente do esforço de seu protagonista em se manter relevante e digno ante um mundo em transformação e suas imponderáveis provações – só o tempo dirá o quão contundente vai ser sua marca na História do Cinema, mas desde já “A Odisséia”, de Christopher Nolan, é um dos melhores e mais brilhantes filmes de 2026.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Euphoria - 3ª Temporada


 A terceira temporada de “Euphoria” chega dividida entre dois pólos extremos. Vamos lá: nesses quatro anos que separam o segundo e o terceiro ano de “Euphoria”, os estrelatos tanto de Zendaya, quanto de Sydney Sweeney, se consolidaram – a ponto de muitos acreditarem que provavelmente não seria viável realizar uma terceira temporada, visto a apertada e disputada agenda das duas; isso e mais a louvável indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante recebida por Jacob Elordi no início deste ano! Contudo, o realizador, Sam Levinson, não economizou esforços a fim de materializar este terceiro ano, possivelmente, desesperado por contornar o quanto antes o fracasso retumbante da tentativa em emplacar a série “The Idol”, estrelada por The Weeknd e repudiada por público e crítica.

São esses caminhos um tanto tortos que nos levam a este terceiro e último ano de “Euphoria” que já chega ostentando duas distinções contundentes em relação aos dois primeiros anos da série: A primeira delas, sai a ambientação estudantil – os personagens já não são mais jovens estudantes (até porque alguns deles, como Alexa Demie e Maude Apatow, já não convenceriam nesse papel), e sim indivíduos dando seus primeiros passos na vida adulta. A segunda é que, desta vez, “Euphoria” já não é mais uma série tão plural, e o expectador deve estar ciente disso (e abraçar isso!), caso contrário, é melhor nem começar os oito episódios: Duas personagens se sobressaem a todas as outras, e obviamente são elas a Rue de Zendaya (que convenhamos já era protagonista desde o começo) e a Cassie Howard de Sydney Sweeney (reflexo do incontornável status que ela foi adquirindo junto ao público); todos os demais personagens, mesmo aqueles que até gozavam de alguma relevância nas temporadas anteriores acabam relegados à condição de coadjuvantes – isso aqueles que chegam à aparecer, visto que a personagem de Barbie Ferreira (de importância sensivelmente reduzida do primeiro para o segundo ano), aqui nem mesmo dá as caras, e sequer é mencionada pelas demais, consequência, segundo dizem as más línguas, de um desentendimento com Levinson.

Quando reencontramos Rue Bennett (Zendaya, também produtora), passados alguns anos, ela já desvencilhou-se da convivência com a mãe e a irmã para mergulhar numa rotina de vida que, dadas as suas predisposições para o  vício e para a infração, começa a flertar perigosamente com o crime: Trabalhando como mula para alguns traficantes, ela resolve escapulir das garras de seus empregadores – que estão prestes a matá-la, injuriados com uma dívida que ela não consegue quitar – indo trabalhar justamente para o grande rival e inimigo  declarado deles, o perverso e ameaçador Alamo Brown (Adewale Akinnuoye-Agbaje, de “Pompeia”), uma espécie de barão do crime, proprietário de uma boate onde desfilam jovens garotas capturadas no fluxo do tráfico sexual e onde a droga que ele comercializa ilegalmente chega até os usuários. Mal escapando de uma encrenca para envolver-se em outra (elementos que agregam, aqui, mais humor do que drama ao núcleo da personagem), a trajetória de Rue acaba levando-a inadvertidamente ao jugo dos agentes de DEA, que transformam ela numa informante – o que, claro, aproxima ainda mais a personagem do perigo de morte.

Por sua vez, Cassie (Sydney, abusando de seu sex-appeal) casou-se com Nate (Jacob Elordi) com quem estabeleceu um tumultuado namoro na segunda temporada. Assim sendo, com ele devendo uma vultuosa quantia em dinheiro para agiotas russos (que lhe arrancam uns dedos do pé toda a vez que surgem para cobrar a dívida!), Cassie precisa ganhar dinheiro exponencialmente rápido a fim de salvar a vida do marido, e a melhor saída é envolver-se com o Onlyfans, plataforma digital para a qual ela pode produzir conteúdo adulto (e, no processo, a série entregar a sucessão de cenas picantes que todos os fãs querem ver de Sydney Sweeney) e ganhar dinheiro o mais rápido possível. A pessoa mais indicada para gerenciá-la nessa empreitada assumindo papel de empresária, até por seu afiado tino comercial, é Maddie Perez (Alexa Demie), outrora melhor amiga de Cassie e outrora namorada de Nate (!?!)

E é isso. Esses são basicamente os arcos narrativos principais desta temporada, em torno dos quais todos os outros personagens orbitam: Há, por exemplo, Lexi Howard (Maude Apatow), irmã de Cassie, que tornou-se assistente de uma produtora de Hollywood (produtora esta vivida por Sharon Stone, em participação bastante decorativa) que na primeira temporada tinha até mais importância que a irmã dentro da trama, mas que aqui é sua coadjuvante. Caso ainda mais contundente é o de Jules Vaughn (Hunter Shaffer), a amiga trans e interesse romântico de Rue que, nesta nova temporada, é escanteada a ponto de virar quase uma participação especial. O mais curioso é que a própria relação entre as duas estrelas na vida real (Zendaya e Sydney Sweeney) pareceu interferir nos rumos de “Euphoria”: Conduzindo carreiras que ganharam rumos bastante distintos (a de Zendaya pareceu mirar numa consagrada carreira de atriz séria e respeitada, enquanto que Sydney caiu nas graças do público através de filmes de apelo muito comercial e não se furtou de sucessivas polêmicas), as duas estrelas evitaram contato durante a realização da série, e isso se nota perfeitamente na narrativa – por vezes, esta terceira temporada de “Euphoria” parece tratar-se de duas obras distintas (a comédia tragicômica a envolver Rue, e a farsa tresloucada, sórdida e sexual estrelada por Cassie) entre as quais um ou outro personagem acaba transitando. Para se ter uma ideia, na totalidade de episódios da temporada inteira, mesmo que compartilhem basicamente dos mesmos coadjuvantes, Rue e Cassie se encontram na mesma cena uma única vez – e é um momento um bocado constrangedor!

Não tão pertinente, em termos artísticos ou temáticos, quando sua temporada inaugural, mas certamente ainda bastante saborosa de se assistir, esta terceira temporada de “Euphoria” encontra um arremate perfeitamente adequado no personagem do ótimo Colman Domingo, que ganha súbita importância no episódio final para conduzir o público ao desfecho.

É um encerramento curioso, anti-climático até, ainda que de acordo com o espírito inconformista que pareceu predominar na série como um todo – uma série que, podemos perceber, foi se moldando a partir das predisposições que se faziam possíveis.

Ao menos (e isso, para mim, é motivo de admiração), Sam Levinson soube que era hora de parar e deu um desenlace contundente, na medida do possível, para seus personagens; coisa que muita série que começou excelente não soube fazer...

domingo, 6 de abril de 2025

A História do Cinema Negro nos EUA


 Realizado pelo crítico, radialista, diretor e roteirista Elvis Mitchell, este documentário lançado pela Netflix é um registro abrangente e ocasionalmente pessoal do surgimento da blaxploitation no cinema norte-americano, cuja produção encontrou seu apogeu durante a prolífica década de 1970.

Em sua narração em off, Mitchell avalia as décadas pregressas do cinema hollywoodiano, analisando o estranho e anacrônico tratamento dado aos negros, com os valores, às vezes até bem-intencionados, transfigurados pelo preconceito institucionalizado (caso do clássico de 1915 “O Nascimento de Uma Nação”, da superprodução de 1939 “E O Vento Levou”, apontada hoje como uma problematização da relação entre escravos e senhores, e do infame “A Canção do Sul”), e as ofensivas caracterizações sofridas por toda essa comunidade nas primeiras décadas em que o cinema existiu no Século XX (com o absurdo de atores e atrizes caucasianos pintados para ‘interpretarem’ personagens afro-descendentes em inúmeras produções). Ele cita a estóica e pioneira tentativa do astro, ator e cantor Harry Belafonte, ainda nos anos 1950, de tentar assumir uma identidade de representatividade digna para sua comunidade em diversos projetos (tais como “O Diabo, A Carne e O Mundo” e “Homens Em Fúria”) –esforço que, em grande medida emperrou sua carreira –em oposição à Sidney Poitier (o primeiro ator negro a vencer o Oscar, em 1964), e sua receptividade junto à Hollywood, muitas vezes assumindo estereótipos; ainda assim, Poitier tornou-se um astro por meio de obras como “Uma Voz Nas Sombras” (aquele que lhe premiou com o Oscar), “Adivinhe Quem Vem Para Jantar”, “Ao Mestre Com Carinho”, “No Calor da Noite” e “Acorrentados”.

Entretanto, na iminência dos anos 1970, com o enfraquecimento do Código Hays (que estabelecia censura de idade aos filmes lançados em cinemas) e o despontar de um cinema mais autoral, voltado para as mazelas de cunho social, diretores alternativos e marginalizados na indústria encontraram um meio para equiparar suas produções de baixo orçamento com o apelo popular das produções de estúdio, nascendo assim o exploitation –um subgênero que definia os filmes que lançavam mão de cenas e situações com inadvertida dose de sexo e violência que os filmes de estúdio não tinham liberdade para exibir. Ao exploitation logo seguiu-se inúmeras variações que exploravam (daí o termo!) as vulgares possibilidades de um cinema sem amarras, é no blaxploitation que o documentário de Elvis Mitchell se concentra.

Ele começa citando o seminal “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George Romero, que em 1968, atreveu-se a lançar mão de um protagonista negro, em meio à coadjuvantes brancos, pela primeira vez impondo-se como um personagem forte, dotado de liderança, e sem qualquer vitimismo –o desfecho amargo, revoltante e absolutamente condizente com a realidade deste personagem ao final do filme deixou bem claro não apenas a visão desdenhosa dos brancos sobre os negros na sociedade, como também a indignação crescente, a exigir novas empreitadas rumo à um protagonismo negro que, só então, o cinema começava a descobrir.

O homem branco estava perdendo a transparência com a qual era visto como herói (e a sociedade, provavelmente, perdendo a ingenuidade com a qual comprava essa ideia) sendo retratado, nos filmes subsequentes, mais como um anti-herói. Dessa forma, surgiram as primeiras produções dentro do blaxploitation como o marcante “Rififi No Harlem”, de 1970, cuja inédita manobra mercadológica –de lançar a aclamada trilha sonora antes do longa-metragem –proporcionou uma insuspeita campanha de marketing que o tornou um sucesso de bilheteria. À ele seguiu-se, no ano seguinte, o ainda mais bem-sucedido “Shaft” (vencedor do Oscar de Melhor Canção Original) e o apoteótico “Sweet Sweetback Baadasssss Song”, de Melvin Van Peebles.

Estavam estabelecidas as bases que definiriam o blaxploitation pela próxima década, trazendo ao seu público, já em 1972, uma variação dos já prestigiados filmes destinados aos brancos –houveram obras como “Superfly” (uma versão de “O Poderoso Chefão”), “Blácula” (com o astro William Marshall numa versão afro do “Drácula” de Bela Lugosi) e “Um Por Deus, Outro Pelo Diabo” (uma versão de “Butch Cassidy & Sundance Kid”) que trazia uma parceria entre Harry Belafonte e Sidney Poitier, como aliás atestam o vastos depoimentos que o documentário traz, como Laurence Fishburne e Samuel L. Jackson, observando suas impressões daquele período (quando ainda eram bem jovens), e outras estrelas de ontem (como Vonetta McGee, Carol Speed e Whoopy Goldberg) e de hoje (como Zendaya), apontando a grande importância (na cerimônia do Oscar de 1973) das indicações, na categoria de Melhor Atriz, de Diana Ross (por “O Ocaso de Uma Estrela”) e de Cicely Tyson (por “Lágrimas de Esperança”), duas obras blaxploitation –a vencedora daquele ano foi Liza Minelli, por “Cabaret”.

O filme pontua o sucesso dos rostos mais icônicos desse movimento, como a maravilhosa Pam Grier, estrela de aproximadamente sete filmes entre 1973 e 1975, incluindo os sucessos “Coffy”, “Foxy Brown” e “Friday Foster” (este, uma pioneira adaptação cinematográfica de histórias em quadrinhos).

Houveram ainda obras como “The Mack”, ainda em 1973 (também aproveitando a manobra de lançar antecipadamente o álbum de sua trilha sonora, aqui assinada pela lendária gravadora Motown), “Cooley High” (uma variação de “Loucuras de Verão”), em 1975, e também a corrosiva animação para adultos “Coonskin”, de Ralph Bakshi, que unia animação convencional e rotoscopia formulada para traçar um painel satírico, caricato, social e sexual da forma deturpada com que os negros eram tratados e enxergados na sociedade e na indústria.

Em 1977, quando do lançamento de “Os Embalos de Sábado À Noite”, Mitchell observa como Hollywood já havia começado à incorporar o estilo, as caracterizações, a narrativa despojada e a linguagem da blaxploitation, realizando obras dentro dessas definições voltadas para o público caucasiano e estreladas por caucasianos –o astro John Travolta que, no retrato indicado ao Oscar de seu personagem, Tony Manero, agrega vários traços e posturas difundidos exclusivamente pelos magníficos protagonistas da blaxploitation como Ron O’ Neal, Isaac Hayes, Billy Dee Williams, Jim Brown e Richard Roundtree.

Entre algumas obras ainda pertinentes e até hoje referenciadas (como o extraordinariamente influente “O Matador de Ovelhas”, de Charles Burnett), o blaxploitation encontrou seu declínio no fim dos anos 1970, mais especificamente em 1978, com a suntuosa produção de “O Mágico Inesquecível”, de Sidney Lumet, uma versão do clássico “O Mágico de Oz” que trazia em seu elenco Diana Ross, Michael Jackson, Nipsey Russell e Richard Pryor, e acabou mostrando-se incapaz de recuperar, nas bilheterias, o seu gordo orçamento de 24 milhões de dólares. A chegada dos anos 1980, trouxe de volta à Hollywood, a percepção de que seus protagonistas brancos poderiam voltar a interpretar heróis, como “Rambo” (com Sylvester Stallone), “O Céu Pode Esperar” (com Warren Beatty) ou “Hopper” (com Burt Reynolds).

Valioso registro histórico e elaborado painel de um período, o documentário de Elvis Mitchell acima de tudo ressalta a imensa importância social e cultural no movimento da Blaxploitation e de como o cinema norte-americano como um todo deve, e muito, àquelas realizações e àqueles realizadores.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Rivais


 De ponta a ponta, “Challengers”, de Luca Guadagnino, é sobre uma disputa entre dois grandes amigos transformados em adversários. E o pivô dessa transformação é uma mulher. Amparado nesse enredo, o diretor Guadagnino explora cada uma das variações fascinantes dessa dinâmica, usando o universo esportivo em geral (e o tênis, em particular) como palco para essa competição de estilos e posturas, sentimentos e personalidades. O resultado –como sempre costuma acontecer quando um material promissor cai na mão de alguém talentoso –é brilhante.

os tenistas Art Donaldson (Mike Faist, de “Amor Sublime Amor”) e Patrick Sweig (Josh O’Connor, de “Lee”) eram amigos inseparáveis. Entretanto, no ano de 2019, ocasião do campeonato de New Rochelle, em Nova York, os dois não apenas estão em etapas distintas da vida profissional (Art, já contemplando uma aposentadoria, almeja ganhar o New Rochelle para encerrar sua carreira, aos olhos do público e de si mesmo, com alguma dignidade; Patrick, vindo de anos claudicantes a tentar sobreviver desse esporte, quer valer-se da situação para provar que ainda é capaz de ser um campeão), como também estão em lados opostos: Eles terminam um contra o outro na grande final. Durante a partida –cujos desdobramentos são basicamente o esqueleto narrativo de todo o longa-metragem –somos testemunhas de pontuais flashbacks (uns voltando décadas no tempo, outros meros dias ou semanas) que aprofundam essa ambígua relação, e até acrescentam informações surpreendentes no decorrer da disputa.

E a agente da maioria desses elementos-surpresas vem a ser Tashi Duncan (Zendaya, boa atriz, porém, incapaz de corresponder ao sex-appeal galopante exigido por sua personagem). É Tashi quem desperta, cerca de treze anos antes, o desejo sexual dos dois simultaneamente quando ainda eram amigos inseparáveis durante a adolescência, onde disputavam a chance de ascender no tênis em competições sistemáticas, enquanto ela gozava do status de estrela meteórica do esporte. É Tashi também que, na noite em que quase ocorre um interlúdio sexual entre os três, escancara para eles a atração homoerótica enrustida em sua amizade –o que começa a converte, logo depois, a dinâmica de irmandade entre Art e Patrick num cabo de guerra onde o troféu do vencedor é, a um só tempo, a vitória nas quadras e a própria Tashi. Num primeiro momento, é Patrick quem ganha, mais confiante e viril do que o vulenrável e sensível Art.

Há um momento, em que Tashi afirma que o tênis, o verdadeiro tênis, disputado pelos atletas que enxergam esse esporte como uma arte, é um relacionamento que se sucede dentro das quadras –e, de fato, numa cena mais afrente, Tashi e Patrick travam um diálogo no qual discutem a relação onde a direção de atores estabelece a cena como um partida de tênis –na qual cada um rebate a afirmação do outro com mais agressividade e estratégia, ávido por vencer: Serão, então, essas mesmas características, de Patrick, de um carisma altamente competitivo, em conflito com um lado controlador e manipulador da própria Tashi, que irão se colocar entre os dois –e abrir espaço para a aproximação de Art, sobretudo, depois que um acidente imprevisto encerrar em definitivo a trajetória de esportista de Tashi.

Conduzindo com extrema habilidade esse triângulo amoroso de notáveis ramificações pessoais e profissionais –nesse sentido, as atuações do trio central são tão vibrantes e cruciais quanto os efeitos visuais e o exercício de virtuosismo técnico que registra as cenas de embate nas quadras de tênis –o diretor Guadgnino cria uma síntese primorosa entre as engrenagens psicológicas do esporte e as reviravoltas sentimentais da vida pessoal.

domingo, 3 de março de 2024

DUNA - Segunda Parte


 Os grandes filmes, aqueles de qualidade mais inconteste são, normalmente, os mais difíceis de serem comentados. Como colocar em palavras todo o assombro proporcionado pela produção? Como honrar o mérito ímpar dos artistas envolvidos sem fazer parecer que aquilo é meramente um deslumbramento parcial? “Duna-Segunda Parte”, de Denis Villeneuve, vem confrontar críticos e expectadores com esse inusitado dilema.

Duna-Primeira Parte” foi um épico belo e avassalador e, embora tenha sido extremamente enaltecido pela crítica que atentou para as qualidades técnicas espetaculares da realização e para a bem-sucedida transposição para cinema de elementos antes tidos como intransponíveis do clássico literário de Frank Herbert, alguns chegaram a se queixar de sua narrativa dispersa, da natureza essencialmente introdutória dos arcos construídos ali e de uma esboçada complexidade que, em função de seu final em aberto, para alguns não levava à lugar nenhum. Pois, esta “Parte Dois” vem calar cada uma dessas reclamações ao compor junto com o primeiro longa-metragem uma experiência de ficção científica bela, impactante e intrincada como há muito as telas de cinema não recebiam.

Começando exatamente no ponto em que o filme anterior terminou, “Parte Dois” reencontra Paul (Timothée Chalamet) e Jessica Atreides (Rebecca Fergunson) quando acabaram de unir-se aos Fremen, os habitantes do desértico planeta Arrakis, após terem sido alvo de uma conspiração movida pelos obscuros e brutais inimigos da Casa Harkonnen, o que lhes tirou o controle outrora outorgado pelo Imperador Galáctico (Christopher Walken) de toda a manufatura de especiaria, o material mais precioso do universo, encontrado somente nas areias de Arrakis.

A traição contra os Atreides, não tardamos a descobrir, foi um golpe orquestrado nas sombras pelo próprio Imperador, disposto a por um fim à influência crescente e preocupante dos Atreides junto às poderosas casas de nobreza da galáxia. Entretanto, todos esses inimigos conspiradores têm a convicção de que agora, o problema dos Atreides foi neutralizado, crentes de que Paul e sua mãe foram mortos junto com seus aliados.

Na realidade, Paul se encontra sob a proteção do líder Fremen Stilgar (Javier Barden) que acredita fervorosamente que ele possa ser o Lisan Al Gaib, o messias das profecias de Arrakis plantadas séculos antes pelas feiticeiras Bene Gesserit que trará a liberdade ao povo Fremen e fará de Arrakis um paraíso verde. Embora disposto a integrar-se aos Fremen (tarefa que exige dele o audacioso feito de cavalgar um dos vermes na areia, os Shai-Hulud, naquela que é uma das grandes cenas do ano) e certamente interessado em aliar-se aos seus guerreiros para levar sua retaliação aos Harkonnen e ao Imperador no seu devido tempo, Paul  tem lá seus receios em aceitar em definitivo o papel messiânico no qual muitos já o enxergam, por outro lado, sua mãe, Jessica, convertida na Madre Superiora dos Fremen, tem grande interesse em alimentar esse culto e, com isso, segue rumo ao inóspito sul de Arrakis onde se escondem as tribos fundamentalistas que acatarão cegamente a concretização dessa profecia e constituirão um exército tão descomunal que prejudicará, em apoteóticas batalhas subsequentes, a exploração de especiaria a ponto de levar o Império e todas as grandes casas da galáxia à voltar suas atenções para Arrakis.

Ao mesmo tempo, a acompanhar essa progressão épica de eventos em larga escala –e mostrados com um brilhantismo e uma energia com a qual nenhum filme recente se equipara –temos também a trajetória íntima de Paul Atreides, um salvador relutante, temeroso em aceitar um papel de tamanha atribulação num contexto infinitamente maior que ele próprio. Esses arcos dramáticos, conduzidos com perícia inquestionável pelo diretor Villeneuve, ressaltam não apenas a precisão e a excelência na atuação de Timothée Chalamet, talvez a melhor de sua carreira, como também a magnífica construção dos personagens que o cercam; o ceticismo raivoso de Chani (Zendaya, ótima) contrabalanceado por seu vínculo sentimental cada vez mais forte com Paul; a truculenta figura paterna de Gurney (Josh Brolin); o antagonismo psicótico e imprevisível de Feyd-Rautha Harkonnen (Austin Butler, absolutamente sensacional); as maquinações sinistras e calculistas das Bene Gesserit (entre elas Charlotte Hampling, oriunda já do primeiro filme, e Lea Seydoux); e a atenciosa avaliação da Princesa Irulan (Florence Pugh), historiadora do Império, a acompanhar com sua narração em off todos esses eventos.

Para muito além das tentativas de se adaptar com pompa e circunstância o tomo cultuado de Frank Herbert –a presepada lamentável de David Lynch e Dino De Laurentis, em 1984; e a produção megalomaníaca, porém, jamais materializada em um filme real de Alejandro Jodorowsky –o que Denis Villeneuve entregou aqui foi uma obra sublime do mais puro cinema: Compondo agora as duas partes de um todo harmonioso, exuberante e impecável, a Primeira e Segunda Partes de “Duna” formam um épico de ficção científica inigualável destinado a encantar (com seu visual arrebatador e sua narrativa hipnótica) gerações e mais gerações de cinéfilos.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Euphoria - 2ª Temporada


 O segundo ano de “Euphoria” carrega ainda mais nas tintas tragicômicas já esboçadas por Sam Levinson na primeira temporada. De lá para cá, “Euphoria” converteu-se numa espécie de fenômeno de audiência, seus jovens astros e estrelas se tornaram célebres, seus personagens caíram no gosto popular e a série amedalhou inúmeros prêmios (inclusive o Emmy de Melhor Atriz em Série de TV para Zendaya, fazendo dela a mais jovem intérprete a conquistar a estatueta). Logo, havia muita expectativa em torno dos rumos que a nova temporada iria seguir e, num cômputo geral, pode-se dizer que “Euphoria” não decepcionou.

Tendo terminado a temporada anterior num rompimento com seu amor, Jules (Hunter Schafer), a viciada Rue (Zendaya) mergulha de cabeça nas drogas, o que a leva, nos primeiros episódios (num total de oito), a uma via crusis de degradação e deterioração ainda mais incisiva do que vimos anteriormente. Na festa que marca o início deste segundo ano na vida de todos os personagens, encontramos Rue entorpecida pelas drogas, conhecendo o terceiro personagem mais importante, por assim dizer, deste novo ano, o também drogado e também descolado Elliot (o ótimo Dominique Fike) que alimenta por Rue uma certa atração assim que bate os olhos nela. Entretanto, é com Jules –que conhece logo depois –que ele vem, de fato, a consumar uma relação. Assim, o roteiro de Sam Levinson termina por moldar um triângulo amoroso entre esses três personagens. Na complicada dinâmica de amor não declarado que estabeleceram entre si, Rue e Jules acabam introduzindo Elliot quase como um elemento facilitador, onde se tornam mais possíveis tanto suas expressões de carinho, como as fissuras que ameaçam separá-las –como na intervenção que Jules busca fazer ao descobrir que Rue não abandonou seu vício, tendo ela lhe garantido que tentaria ficar limpa.

Nesse sentido é curioso, e até estranho, o quanto Jules perde em relevância nesta temporada, e ela não é a única. Por outro lado, se há uma personagem que tem seu tempo de cena aumentado consideravelmente é Cassie Howard, vivida com convicção e alta voltagem pela belíssima Sydney Sweeney (ela também foi indicada ao Emmy, e a outros prêmios de Melhor Coadjuvante do Ano). Cassie tem seu arco dramático ampliado ao envolver-se com Nate Jacobs (Jacob Elordi), o mau-caráter e corrosivo ex-namorado de sua melhor amiga Maddy (Alexa Demie).

Segundo rumores, os atores Hunter Schafer e Jacob Elordi se desentenderam no set de “Euphoria”, o que teria levado o criador Sam Levinson a reescrever grande parte do roteiro da segunda temporada –na qual, segundo consta, quem começaria a namorar Nate em segredo seria Jules e não Cassie (e, diante dos rumos que a primeira temporada tomou, de fato, era essa direção que fazia mais sentido). No final, foi Sydney Sweeney quem se beneficiou com isso: A jovem atriz faz bom uso de seu tempo estendido de cena e dos rumos inesperados adquiridos por sua personagem entregando alguns dos melhores momentos da série (fora o imenso frisson entre os fãs causado por suas generosas cenas de nudez!). Do namoradinho anterior de Cassie, McKay (Angee Smith) não se ouve falar mais nada, salvo uma ponta apenas no primeiro episódio. Outra que quase desapareceu na série foi Barbie Ferreira. Ela teria tido algum desentendimento com o próprio Sam Levinson a respeito dos rumos de sua personagem, Kat Fernandez, e o resultado foi que, neste segundo ano, seu arco dramático se interrompe, convertendo-a numa mera coadjuvante de figuração. Para se ter uma ideia, até mesmo o seu namorado, o insosso Ethan (Austin Abrams), acaba tendo mais importância junto ao enredo do que ela!

Se houveram personagens drasticamente deixados de lado –além dos já citados, também a mãe e a irmã de Rue se restringem a pouquíssimos episódios –outros que ganharam mais ênfase são o pai de Nate (Eric Dane), dono de todo um episódio em flashback que ilustra melhor seu conflito com a própria homossexualidade, herdada pelo filho; a melhor amiga de Rue, Lexi (Maude Apatow) e o traficante boa-praça Fezco (Angus Cloud) que iniciam o ano ensaiando um tímido romance. É, por sinal, a confiança descoberta com essa nova relação que leva Lexi a encontrar suas predisposições teatrais e escrever uma peça escolar (inspirada, veja só, nela e em suas amigas, correspondendo a muitos acontecimentos vistos na série) que termina sendo encenada nos apoteóticos dois episódios finais.

Há um exagero na dramaturgia que evidencia a natureza caricatural de “Euphoria”, mas a qualidade, de um modo geral, persiste neste segundo ano.

domingo, 16 de abril de 2023

Euphoria - 1ª Temporada


 A cerca de duas décadas, algo mudou na TV norte-americana (e na TV mundial também, por que não): Séries, minisséries e telefilmes passaram a ostentar, cada vez mais, qualidade cinematográfica. Representativos dessa espécie de revolução foram os seminais “Band Of Brothers”, “Mad Men” e “The Sopranos” –e em grande medida, muito desse manancial de requinte artístico partiu da iniciativa da HBO, canal à cabo que, devido à exclusividade do formato, podia se dar ao luxo de trazer temas adultos contundentes e primorosamente bem-acabados em seus conteúdos. Na esteira desse arrojo vieram trabalhos de muita qualidade e outros canais que adotaram a mesma atitude. Claro que isso é notícia velha, e expectadores mais jovens já vivem convenientemente neste mundo onde obras cinematográficas não se restringem às salas de cinema e nem às durações em geral de cinema (entre duas e três horas). Mas, isso tudo é para contextualizar a circunstância na qual nasce uma obra como “Euphoria”.

Baseada numa série israelense homônima de 2012, “Euphoria” (lançada por sua vez em 2019) é a história de Rue Benneth (a sensacional Zendaya), garota nascida três dias após o 11 de setembro que, aos 17 anos, tem ciência de que a vida inteira almejou uma certa sensação que a livrasse de suas pressões emocionais. Tal sensação, ela só veio a experimentar quando, numa ocasião, recebeu uma dosagem de Valium em gotas no hospital –uma letargia que aliviava o peso da realidade. Desde então, na busca paulatina por esse efeito, Rue se torna uma viciada em drogas, e em algum momento, eventualmente sofre uma overdose –o que lhe manda para uma clínica de reabilitação. É o retorno de Rue junto ao seio familiar –que consiste de sua mãe (Nika Williams) e sua irmã mais nova (Storm Reid) –que marca o início de “Euphoria”. Ainda viciada, Rue esconde da mãe suas recaídas ao vício –subterfúgios que geram cenas ora divertidas, ora tensas –e, no percurso de sua narrativa em off, acabamos conhecendo outras personagens que orbitam no universo de Rue. E que ganham, também elas, seus próprios arcos dramáticos: Como a inicialmente tímida gordinha Kat (Barbie Ferreira) cuja descoberta da sexualidade a leva aos conteúdos sexualmente degenerados da internet; a inconstante Maddy (Alexa Demie) às voltas num relacionamento tóxico com o desprezível Nate (Jacob Elordi) que se equilibra entre paixão e agressão doméstica; a bela Cassie (a fantástica Sydney Sweeney) dona de uma aparência angelical que esconde tendências promíscuas às quais ela vai cedendo a medida que o namoro com o inseguro e imaturo McKay (Algee Smith) começa a se deteriorar; o jovem traficante Fezco (Angus Cloud) dividido entre as exigências criminosas de seu negócio e a intenção de preservar uma boa índole. Dentre todos, porém, quem ganha mais importância (ao menos, nesta primeira temporada) é Jules (Hunter Schafer) uma garota transexual, recém-chegada na escola que logo se torna melhor amiga de Rue, e com ela estabelece um relacionamento que flerta o tempo todo com o romance, a despeito de também começar uma relação virtual com outro garoto, sem ela saber que se trata do tóxico Nate.

O roteiro ágil e primoroso de Sam Levinson (também produtor executivo da série e diretor da maioria dos episódios) não economiza nas dinâmicas de natureza dramática a entremear inesperadamente cada um desses personagens –como o fato do pai de Nate (Eric Dane) ter feito sexo com Jules, o que denota seu homossexualismo enrustido que, aliás, ele compartilha com o próprio filho (!) –e, como se pode notar, “Euphoria” também não economiza no teor de escândalo.

Tabus são quebrados sistematicamente conforme a série aborda temas que a maioria das séries preferem evitar, como dependência química, sexo na adolescência, relações abusivas sejam elas virtuais ou não, e os infindáveis desvios morais e comportamentais aos quais os jovens de hoje se veem expostos. Tudo isso mostrado numa estética arrojada, pós-moderna (as cores são vibrantes e o tratamento visual é extremamente estilizado), gráfica e despida de qualquer pudor –para tanto, “Euphoria” deve chocar expectadores de paladar mais conservador, todavia, esse parece ser, de certa forma, seu objetivo: Na ausência de personagens corretos e de boa índole (com a possível exceção de Lexi, vivida por Maude Apatow), e no elenco absolutamente maravilhoso aqui reunido (no qual se destacam, com folga, as meninas), “Euphoria” praticamente desafia o público a gostar de suas incautas, ainda que fascinantes, protagonistas e exercer assim a hoje tão falada empatia.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Homem-Aranha - Sem Volta Para Casa


 Spoilers são um fenômeno curioso. Há quem odeie recebê-los, preferindo a surpresa de descobrir tudo o que o filme tem a oferecer... bem, durante o próprio filme! Há quem não se importe com eles. Há aqueles que têm tanto prazer em dar spoilers aos outros que o ato de assistir ao filme acaba sendo uma satisfação secundária; eles gostam mesmo é de poder, depois, contar os segredos do filme a quem ainda não o viu. No cinema moderno, com narrativas como as de M. Night Shyamalan e seus finais-surpresa e a acessibilidade de informação da internet, os spoilers se tornaram um perigo para quem almeja uma experiência cinematográfica absolutamente pura, despida de interferências.

No caso de “Homem-Aranha Sem Volta Para Casa”, aqueles expectadores que não forem conferir o filme em seus primeiros dias de exibição nos cinemas (na verdade, até mesmo eles!) correm o risco de receber uma avalanche de spoilers. Terceiro longa-metragem da trilogia solo do Homem-Aranha desde que ele passou a ser interpretado por Tom Holland e a integrar o Universo Marvel Cinematográfico –além da participação em outros filmes –“Sem Volta Para Casa” chega tão carregado de novidades espantosas e eletrizantes, tão repleto de momentos planejados com o objetivo de serem inesquecíveis e, ao mesmo tempo, tão sensacional e embriagante em seu ineditismo e empolgação que representa um desafio para qualquer um chegar  às salas sem saber nada sobre ele.

Iniciando arrojadamente na cena pós-créditos com a qual encerrou (sem muito encerrar...) a trama de “Homem-Aranha Longe de Casa”, “Sem Volta Para Casa” segue seu protagonista Homem-Aranha\Peter Parker (Tom Holland) no momento em que foi revelada, em cadeia nacional pelo próprio J. Jonah Jameson em pessoa (J.K. Simmons), a identidade secreta do herói. Sendo esta a terceira personificação do personagem nos cinemas (as anteriores foram vividas por Tobey Maguire e por Andrew Garfield), por vezes o diretor Jon Watts se viu obrigado a adaptar arcos narrativos diferenciados dos quadrinhos a fim de não se repetir. No primeiro (“De Volta Ao Lar”), sob forte referência dos longas de John Hugues, ele acompanhou a rotina escolar de Peter e sua fase no ensino médio, lutando para desvencilhar-se das obviedades de uma trama (já contada) de origem. No segundo (o já citado “Longe de Casa”), ele contou uma aventura descompromissada a girar em torno de férias na Europa. Nos dois casos, a Marvel Studios enfrentou críticas justamente por fugir das características que definiam o Homem-Aranha enquanto personagem e que o atrelavam em demasia à heróis como o Homem-de-Ferro tirando-lhe certa individualidade –a despeito da ótima atuação de Tom Holland.

“Sem Volta Para Casa” vem para rebater cada um desses protestos: Ele é tão original, tão ágil e incisivo, tão consciente dos elementos icônicos que manuseia que provavelmente não tardará a se sagrar como um dos melhores (ou O melhor) filmes em live-action do Homem-Aranha –e Tom Holland, seu intérprete mais consistente e definitivo.

O fio narrativo que conduz a esse enredo tão cheio de surpresas começa quando Peter, farto de ver seus amigos, M.J. (a cada vez mais maravilhosa Zendaya) e Ned (Jacob Batalon) sofrerem por terem contato com o Homem-Aranha, resolve procurar a intervenção mística do Doutor Estranho (Benedict Cumberbath) para que, com um feitiço, ele apague da memória de todo o mundo que Peter é o Homem-Aranha. Contudo, algo dá errado, e o feitiço mexe com o conceito que, encerrada a Saga de Thanos com o magnífico “Vingadores-Ultimato”, deve nortear a próxima saga a conectar os filmes da Marvel: O Multiverso –já abordado na minissérie “Loki”, da plataforma Disney Plus. Resumindo: Agora, os vilões vindos de outras realidades alternativas –como Dr. Octopus e Duende Verde, vividos magistralmente por Alfred Molina e Willen Dafoe dos mesmos filmes com Tobey Maguire –aparecem na realidade do Universo Marvel, complicando a vida do herói e ameaçando vidas. São um total de cinco (já vistos nos trailers): Além de Dr. Octopus e Duende, também o Electro (Jamie Foxx, num personagem melhor desenvolvido do que foi em “O Espetacular Homem-Aranha 2”), o Lagarto (Rhys Ifans) e o Homem-Areia (Thomas Aden Church).

A união de todas essas pontas soltas é indicativa do brilhantismo do trabalho de Jon Watts que –se não agradou a gregos e troianos nos dois filmes anteriores –conseguiu superar-se neste daqui, entregando um trabalho onde honra seu personagem extinguindo qualquer margem para questionamentos quanto a sua fidelidade aos quadrinhos, fazendo deste terceiro filme o arco final onde, em retrospecto, podemos enxergar esta como uma ‘trilogia de origem’ do personagem, ao mesmo tempo que o coloca numa nova, inesperada e possivelmente promissora trajetória de vida adulta, sem evitar, desta vez, os momentos mais sombrios que coloquem à prova justamente sua fibra moral como super-herói.

É tentador, para qualquer resenhista deste filme, revelar as surpresas arrebatadoras que “Sem Volta Para Casa” entrega praticamente o tempo todo durante suas nada modestas duas horas e meia de duração (algumas ombreiam os momentos antológicos de “Ultimato”), entretanto, seria um pecado: Sua experiência é tão vívida, tão assombrosamente sensorial, emocional e mágica que todos merecem a chance que conferi-la nos cinemas livres de spoilers. No que depender de mim, está feito, no entanto, meu conselho é: Corra para vê-lo (e maravilhar-se) o quanto antes!

domingo, 24 de outubro de 2021

DUNA - Primeira Parte


 In Denis Villeneuve we trust

Já era lendária a afirmação de que “Duna”, a obra-prima literária de Frank Herbert, tratava-se de um trabalho impossível de ser adaptado. As tentativas anteriores de transpô-lo para a linguagem cinematográfica (o filme de 1984 de David Lynch, a minissérie do ano 2000, além do projeto jamais concretizado por Alejandro Jodorowsky) soavam mais como confirmações da inviabilidade do material em ser vertido para outra narrativa do que realizações bem-sucedidas de fato.

Todavia, o canadense Denis Villeneuve, que desde sua estréia só fez brilhar em aclamadas produções, tomou para si a responsabilidade de fazer o impossível, depois de sagrar-se com duas espetaculares obras de ficção científica –o magistralmente intimista “A Chegada”, e a continuação audaciosamente superior ao cultuado original “Blade Runner 2049”. Para esta nova e, espera-se, definitiva versão, Villeneuve tomou emprestadas ideias mercadologicamente surgidas a partir da adaptação de “O Senhor dos Anéis”, por Peter Jackson, em 2001: Dividiu o tomo gigantesco de Frank Herbert em dois longa-metragens de generosa duração –a realização da Segunda Parte depende, portanto, do bom desemprenho de público e crítica da Primeira Parte.

“Duna” se passa no ano de 10161. O espaço é um palco de interesses políticos regidos por casas que disputam o poder tal e qual o mais brutal dos sistemas feudais. E o centro da maioria das disputas vem a ser o planeta Arrakis, lugar desértico que gera o produto conhecido como ‘especiaria’ –um pó obtido entre as areias de seus intermináveis desertos, com o qual as viagens interestelares se tornam possíveis.

Por décadas, o domínio e a extração da ‘especiaria’, bem como os atritos selvagens contra os habitantes de Arrakis, o povo do deserto conhecido como os Fremen, ficaram à cargo da Casa Harkonnen, comandada pelo hediondo, grotesco e pernicioso Barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgaard) e seu sobrinho Glossu Raban (Dave Bautista, no personagem que foi de Paul L. Smith na versão de David Lynch).

Numa decisão delegada pelo Imperador Galáctico –esta obra, como pode-se notar, foi uma das inspirações de George Lucas para “Star Wars” –o comando de Arrakis passa da Casa Harkonnen para a Casa Atreides.

É aí que entram em cena os protagonistas da trama: O Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs), sua esposa Jessica (a maravilhosa Rebecca Fergunson) e, sobretudo, seu filho, Paul (Timothée Chamalet). Sendo Jessica uma integrante das Bene Gesserit, uma casta de feiticeiras imbuídas do dom da premonição, ela e seus pares acreditam que Paul, por sua procedência e por outros indícios que se sucedem (como sonhos nos quais ele vislumbra um futuro bem provável e perigoso), possa ser um messias, esperado há tempos para mudar irreversivelmente a escala de poder.

Dentro do que se propôs, o diretor Villeneuve, só pra variar, realizou um trabalho simplesmente brilhante: Não apenas seu “Duna” ostenta qualidades cinematográficas inquestionáveis em sua grandiosidade (é recomendado que seja visto na maior tela possível tamanho é o deslumbre de seu escopo épico), como também é primorosamente minimalista em seus pequenos detalhes (como os olhos azuis dos Fremen, adquiridos através da exposição à ‘especiaria’) e hiperlativo nas influências que adota: “Duna” é, pois, tão sólido e imponente quanto “Lawrence da Arábia”, tão contundente e estilizado quanto “Kagemusha”, tão antológico e singular quanto “2001-Uma Odisséia No Espaço”.

Esta Primeira Parte fala sobre os fardos da predestinação, sobre os revezes imprevisíveis da ganância e as armadilhas cruéis do idealismo: Uma vez em Arrakis, O Duque Leto Atreides almeja o que seus antecessores jamais cogitaram; uma trégua de convívio e co-existência pacífica com os Fremen. E será justamente por suas nobres intenções que engrenagens insidiosas irão mover uma conspiração capitaneada pelos Harkonnen, algo que proporciona, já na segunda metade deste filme, cenas estupendas de batalha, filmadas por Villeneuve com uma sinergia e um senso de realismo que há algum tempo não surgia em uma obra de fantasia nas telas de cinema. Quem conhece remotamente a trama, seja pelo filme incoerente e corrido de David Lynch, seja pelo conhecimento do enredo do livro de Herbert, perceberá que Villeneuve encerra a narrativa quando a história se encontra na sua metade –ele aproveita esse tempo de tela para fazer tudo o que o filme de Lynch não conseguiu fazê-lo, seja estabelecer a profundidade das inúmeras motivações, seja para compor cenas inteiras do livro com o ritmo e atmosfera corretos assim definidos por Herbert. O resultado não somente é de um assombro que raras produções foram capazes de atingir nos últimos anos, como leva o público a um final em aberto tão instigante, empolgante e magnífico quanto foi o de “O Senhor dos Anéis-A Sociedade do Anel” e “O Império Contra-Ataca”.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Homem-Aranha - Longe de Casa

Apesar do jovem Tom Holland ser o intérprete que melhor reuniu as características de Peter Parker/Homem-Aranha no cinema, muitos foram os que torceram o nariz para a versão do personagem inserida no Universo Marvel Cinematográfico, sob a alegação de que ele foi descaracterizado, perdendo muito de sua essência ao ser atrelado ao Homem de Ferro de Tony Stark, o que deixou de lado certos elementos seus tidos por determinantes.
Há um pouco de razão nisso; e tais reclamações tendem a se intensificar ainda mais com este “Homem-Aranha Longe de Casa”.
Vindo de uma esteira de mais de vinte filmes, e dando continuidade a um dos mais impactantes dentre eles (o absolutamente espetacular “Vingadores-Ultimato”), o novo filme do Homem-Aranha padece de um problema semelhante ao que acarretou em “Homem de Ferro 2”: Os realizadores, conscientes de que sua narrativa particular integra todo um universo rico, vasto e compartilhado, por vezes se esquecem de focar em seu protagonista e em sua história afundando com frequência num mar de referências sobre acontecimentos que já se sucederam –ou que ainda haverão de se suceder.
É difícil, por exemplo, abordar “Longe de Casa” como uma narrativa independente –coisa que ele não é, e os críticos mais vorazes terão de aceitar o fato que daqui para frente será assim –ele se inicia meses após os acontecimentos de “Ultimato”, ou seja, depois de todas as pessoas dizimadas pelo estalar de dedos de Thanos (fenômeno nomeado aqui como ‘Blip’) serem novamente trazidas à vida –o que inclui o protagonista Peter Parker (Tom Holland, mais adequado ao papel do que nunca) e quase todo seu séquito de coadjuvantes; sua bela Tia May (Marisa Tomei), seu melhor amigo Ned (Jacob Batalon), seu interesse amoroso M.J. (Zendaya), seu rival Flash Thompson (Tony Revolori) e alguns outros.
Aqui, todo o núcleo estudantil daquele elenco arruma as malas para um tour pela Europa –o que confere ao filme as belas ambientações do Velho Continente como Veneza, Praga e Paris. Porém, é claro que os planos de Peter –de conseguir se declarar em grande estilo à garota que ama –serão frustrados por Nick Fury (Samuel L. jackson) que irá requisitar as habilidades de sua identidade super-heróica; um dos poucos disponíveis após as inúmeras baixas e desistências ocorridas em “Ultimato” (algumas delas mostradas em um clip intencionalmente dramático, mas involuntariamente cômico, visto no início).
Fury precisa do auxílio de Peter, ou melhor, do Homem-Aranha, porque gigantescas criaturas desconhecidas, os Elementais, apareceram no mundo criando caos e destruição. O único a se opor a elas vem a ser Quentin Beck (Jake Gyllehhaal, ótimo), segundo o próprio, um superherói vindo de uma realidade paralela ostentando poderes que fazem dele o único salvador à mão –Peter seria assim uma espécie de ajudante.
Até quase a metade de sua duração, “Longe de Casa” divide-se assim entre as tentativas algo atrapalhadas de Peter em ser um adolescente normal –tentando flertar com M.J., inventando estratagemas elaborados para encobrir sua vida dupla ou simplesmente buscando se desvencilhar das exigências de Fury –e seus esforços para conter a ameaça dos Elementais ao lado de Quentin Beck.
No entanto, não é surpresa para ninguém que tenha lido quadrinhos ou tenha um mínimo de conhecimento da mitologia do Homem-Aranha que Quentin Beck é, na verdade, o vilão ilusionista Mysterio –e essa revelação não tarda a ocorrer dando uma guinada até previsível, mas bastante interessante à trama; tão mais interessante pela maneira orgânica com que os roteiristas souberam enraiza-la no contexto do Universo Marvel dando, inclusive, ao Mysterio toda uma funcionalidade cinematográfica que chega a nos fazer perguntar por que esse antagonista não havia sido aproveitado antes.
Como pano de fundo, as paisagens européias de cartão-postal.
Há outro pano de fundo também: A ressonar como um dos empuxos morais e sentimentais da trama está o tempo todo a lembrança de que Tony Stark, o mentor de Peter Parker, não vive mais; e o peso (um tanto quanto grande para o jovem rapaz) de que é ele quem deve herdar agora esse legado.
Eis aí, portanto, um dos motivos para a maior grita dos fãs mais devotados do Aranha: A de que Tony Stark ocupa aqui o papel existencial que seria de direito e de fato do Tio Ben nesta nova versão do herói –o exemplo de sacrifício, heroísmo e responsabilidade que o empurra para frente e o motiva a continuar sendo o Homem-Aranha.
Da forma como é concebido, o filme paga um tributo desmedido ao herói tombado e, na opinião de alguns, descaracteriza seu protagonista real: “Longe de Casa” segue os tópicos narrativos dos dois primeiros filmes do Homem de Ferro (dirigidos por Jon Favreau que aliás tem aqui um papel também ele fundamental), com tamanha preservação de referências e analogias que Peter quase deixa de ser o Homem-Aranha para ser uma espécie de Homem de Ferro Jr.(!)
Quase. Porque uma série de elementos genuínos do herói ainda estão lá. Porque Tom Holland é encantador e inescapavelmente certeiro em sua personificação. E porque o diretor Jon Watts compreende aqui de maneira ainda melhor que em “Homem-Aranha De Volta Ao Lar” que aquilo que define o herói é sua condição perene e periclitante de um ser humano falho passível de se meter em enrascadas mais do que em escapar delas, e com todos esses atributos a lhe pesar ainda tenta salvar o dia e seus entes queridos.
A lição primordial –e à época inovadora –deixada pelo criador Stan Lee, que o Homem-Aranha incorpora como nenhum outro e que a Marvel Studios (mais que qualquer outra produtora) compreende como ninguém.

sábado, 8 de julho de 2017

Homem-Aranha - De Volta Ao Lar

Parece escapar à compreensão de alguns que o sucesso conquistado pela Marvel Studios com seu universo compartilhado ao longo de vários filmes não se deve somente pela excelência técnica (exercida, sobretudo, no quesito de efeitos visuais) ou pela competência artística: Ela se deve, acima de tudo, porque a Marvel tem o bom senso raro de compreender integralmente seus personagens.
Essa característica fica totalmente clara em “Homem-Aranha-De Volta Ao Lar” –obra cujo protagonista a Marvel agora tem em mãos devido à um acordo (e a uma espécie de clamor popular, também) com os estúdios da Sony.
A dica já é dada no princípio do filme, quando surge escrito na tela, “Um Filme de Peter Parker” –embora a intenção seja uma galhofa (como muitas que o personagem protagonizará), ali há algo de verdadeiro: Este filme é, sim, sobre Peter Parker. O Homem-Aranha, a identidade que ele assume para combater o crime, impulsionado pela obtenção de seus poderes de aranha e por um entusiasmo característico da juventude, é um detalhe que determina a narrativa, mas seu cerne emocional e moral é, o tempo todo, Peter Parker, interpretado com vivacidade e profundidade por Tom Holland que, desde sua participação em “Capitão América-Guerra Civil”, ganhou não só a honra de viver o personagem agora oficialmente inserido no Universo Marvel Cinematográfico (e neste filme, tal aspecto é empregado numa infinidade de detalhes saborosos), mas também o direito de ser considerado até então a melhor personificação em cinema do personagem –que me perdoem as esforçadas tentativas de Tobey Maguire e Andrew Garfield...
Morador de classe média do Queens, em Nova York e estudante do ensino médio, o novo membro apadrinhado por Tony Stark (Robert Downey Jr. sempre fazendo sua participação valer a pena) do grupo dos Vingadores, tem a peculiaridade de ser um adolescente de quinze anos. Talvez, seja por isso que, apesar de sua imensa ansiedade, Peter não receba, ao longo de meses, nenhum telefonema de seu novo tutor para alguma missão além daquela em “Guerra Civil”, onde ele foi apresentado; e as cenas iniciais, que mostram os eventos daquela produção vistos por outra ótica já são um show à parte, e uma indicação das mais inspiradas do humor genuíno e irresistível do qual este filme vem dotado.
As coisas se complicam para o Homem-Aranha quando, em sua patrulha habitual como “herói do subúrbio”, ele descobre o esquema de Adrian Toomes (Michael Keaton, sensacional) que, desde os eventos mostrados em “Os Vingadores”, vem obtendo clandestinamente tecnologia alienígena e vendendo-a no mercado negro. A despeito dos alertas de Tony Stark e de seu braço direito Happy Hogan (Jon Favreau, de perfeito timing cômico) para que não se meta em encrencas, Peter decide ir a fundo na tentativa de desmantelar essa quadrilha, mas as atribulações dessa vida de vigilante mascarado vão colidir com a já agitada e caótica vida adolescente e estudantil de Peter que precisa equilibrar um romance relutante –com a bela Liz Allan (Laura Harrier), uma das meninas mais populares da escola –a amizade com o divertido Ned (Jacob Batalon), que acaba descobrindo seu segredo, e seus esforços atrapalhados para tentar ocultar isso tudo de sua Tia May vivida por uma deliciosa Marisa Tomei.
E sobram assim oportunidades (nenhuma delas desperdiçada) para que “De Volta Ao Lar” faça magníficas referências aos filmes de John Hugues, essenciais retratos desse tipo de dramaturgia adolescente; e a seqüência que emula um dos momentos antológicos de “Curtindo A Vida Adoidado” é nada menos que genial!
Está aí, pois, na variedade de cores e perplexidades da rotina de Peter Parker a grande sacada que faz da Marvel –e do universo ao qual ela dá corpo –algo tão especial: Os mesmos elementos que fazem e que fizeram o fascínio perene de gerações inteiras de leitores se vêem preservados e transpostos com brilho na tela do cinema.
No caso de Homem-Aranha/Peter Parker, são as irônicas exigências da vida heróica que insistem em intervir em suas tentativas de ser feliz numa vida normal, e o filme magistralmente dirigido pelo jovem Jon Watts utiliza desses expedientes com habilidade seja em seu humor, seja em seu drama.
Em meio à isso tudo, ele ainda insere cenas prodigiosas de ação e uma admirável construção de praticamente todos os personagens –as revelações a respeito de Adrian Toomes no terço final do filme são notáveis e surpreendentes: Precisa mais para que este seja o melhor filme do Homem-Aranha realizado até hoje?

sábado, 12 de novembro de 2016

As Revelações Femininas de 2016

Já conta mais de um ano desde que falei das moças que brilharam em 2015, sendo assim, acho justo e necessário lembrar também as deste ano:

Ruth Negga –conhecida da TV, onde interpretou a enigmática “mulher de vestido de flores” no seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.” e, principalmente quando viveu Tulip O’ Hare na série “Preacher” que ela estrelou ao lado do namorado, o ator Dominic Cooper, esta bela e exótica morena colheu largos elogios da crítica quando o drama “Loving” estreou em Cannes. Desde então seu nome é um dos favoritos à concorrer ao Oscar, o que pode alçá-la à categoria de estrela nesta próxima temporada de premiações.

Zendaya –conhecida do público infanto-juvenil por estrelar um seriado do Disney Channel, esta bela jovem ainda não apareceu em nenhuma produção cinematográfica de ponta, mas quem aposta nela é, nada mais, nada menos, que a própria Marvel Studios: Segundo algumas fontes, pertence a ela o importantíssimo papel de Mary Jane Watson, em “Homem-Aranha De Volta Para Casa”, o vindouro e aguardado filme estrelado pelo Homem-Aranha de Tom Holland.
(Embora não hajam confirmações a esses respeito, uma vez que a Marvel Studios mantém um imenso e salutar segredo em torno de todos os aspectos dessa produção)
Mas, se isso se confirmar é um gesto admirável do estúdio ao trocar a etnia caucasiana da personagem (característica que predomina em personagens de quadrinhos e que é alvo de certa crítica) escalando uma atriz de descendência negra e que, mesmo assim, tem beleza de sobra para ser a melhor personificação da personagem nas telas de cinema.

Angourie Rice –esta bela jovem –também escalada para um papel no próximo filme do Homem-Aranha –já disse a que veio este ano mesmo: Ela interpreta a filha do detetive vivido por Ryan Gosling em “Dois Caras Legais”, e a crítica foi unânime em afirmar que ela rouba todas as cenas em que aparece. É preciso prestar atenção numa jovem atriz quando ela consegue tal façanha num filme estrelado pelos talentosos Gosling e Russel Crowe!

Gal Gadot –não tinha como faltar este nome na lista! Responsável pela personagem que talvez seja o único elemento a fazer o filme “Batman Vs Superman” funcionar plenamente, esta linda morena israelense não apenas calou de forma espetacular a boca dos críticos (que encheram a Internet com reclamações sobre o físico esbelto dela), provando-se perfeita para o papel de Mulher Maravilha, como também tornou-se a maior esperança –sobretudo, para os fãs –para se ver realmente um filme adaptado dos quadrinhos da DC Comics emplacar, com a produção solo da personagem.
O trailer já lançado é incrível, e a presença de Gal Gadot, sensacional.

Kate McKinnon –não se pode dizer que o remake feminino de “Caça-Fantasmas” tenha sido um sucesso estrondoso de público e crítica, mas pode se dizer sim que, dentre todos os elementos, ora controversos, ora espetaculares do filme, foi a participação de Kate que mais se destacou como um dos únicos fatores reconhecidamente bons.
O futuro, portanto, parece promissor para esta comediante revelada, como tantos e tantas, nos quadros do programa humorístico Saturday Night Live.