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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

O Escândalo


 Se em princípio Jay Roach foi um realizador de comédias compromissadas tão somente com o objetivo de fazer rir (como atestam os hilariamente ácidos exemplares da série “Entrando Numa Fria”), aos poucos, filme após filme, ele conseguiu migrar para o cinema uma capacidade que já demonstrava em obras televisivas: Uma percepção desigual e afiada para registrar com urgência sublime e relevância maiúscula as arestas sociais e comportamentais de certos aspectos da modernidade na política norte-americana, como atestam os formidáveis “Virada de Jogo” (feito para TV) e “Trumbo” (lançado em cinema). Neste magnífico “Bombshell”, Roach mantêm suas câmeras aguçadas no panorama político da América (sua trama abrange o período das eleições presidenciais norte-americanas de 2015-16), ao mesmo tempo que joga luz sobre um tema cada vez mais necessário: A cultura do assédio.

Ainda no ano de 2015, a âncora Megyn Kelly (Charlize Theron, espetacular) foi escolhida pelo canal de notícias Fox News para mediar os debates presidenciais entre os pré-candidatos republicanos, entre eles, aquele que terminaria ganhando a preferência –e, no ano seguinte, as próprias eleições –Donald Trump. Embora ferrenha defensora dos ideais ultra-conservadores de direita, Megyn foi fiel ao perfil combativo com o qual era vista na mídia e confrontou Trump com perguntas incisivas sobre sua alardeada misoginia.

O episódio gerou um impasse delicado na Fox News: Ao mesmo tempo em que a rede jornalística representava um dos maiores apoios à candidatura republicana –e Megyn beneficiava-se de relativa confiança do todo-poderoso presidente do canal Roger Ailes (John Lithgow, sordidamente convertido por quilos de maquiagem) –a jornalista comprou uma briga informal contra o candidato que passou a retuitar em mídia nacional várias ofensas contra ela.

Essa transformação forçada de paradigmas de Megyn coincidiu com outro acontecimento, também ressonante, nos corredores da Fox News; transferida de um programa do horário nobre para outro na ingrata programação da tarde (por não suportar o sexismo predominante de seus colegas de cena), a apresentadora Gretchen Carlson (Nicole Kidman, ótima) abriu um processo por antigos abusos sexuais contra o próprio Roger Ailes tão logo é, por fim, demitida.

Hábil e astuta, Gretchen tinha algumas cartas na manga, como a previsível atitude de sua demissão por parte de seu patrão manipulador, mas contava com a aparição, logo após sua iniciativa, de outras mulheres que também foram assediadas. É Megyn, inesperadamente, uma delas, entretanto, ela estava longe de ser a única: Também ganha bastante espaço na narrativa a circunstância de Kayla Pospisil (Margot Robbie, em corajosa e brilhante atuação), jovem produtora em ascensão profissional dentro da Fox News que é coagida, naquela que é de longe a cena mais aflitiva de todo o filme, por Roger Ailes em pessoa à levantar sua saia até que sua calcinha fique visível. Dentre todas essas personagens, somente  a de Kayla não é precisamente real –trata-se de um amálgama de pelo menos duas dezenas de mulheres que prestaram depoimento ao roteirista do filme, Charles Randolph (de “A Grande Aposta”).

Impressionante, entre outras coisas, é também o retrato que o filme de Roach faz do clima que surge, logo em seguida, nos corredores da Fox News: Com seu presidente sendo acoado por questões imprevistas de natureza procedural, a rede move seus recursos tentando provar o contrário, que Ailes era respeitador e inofensivo (funcionárias são obrigadas a vestir uma camisa em apoio ao chefe processado e depoimentos positivos são exigidos de praticamente todas as mulheres da empresa), que provas para quaisquer acusações eram inexistentes (uma severa operação de pente-fino, inclusive com o uso de escutas telefônicas, é adotada), e que a ex-contratada do canal, Gretchen Carlson, não era alguém confiável (todo o arsenal midiático da Fox News é subitamente voltado contra a reputação pessoal e profissional dela).

Contudo, as trajetórias íntimas de cada uma dessas três protagonistas, Megyn, Kayla e Gretchen, haverá de expor os caminhos tortuosos por meio dos quais, felizmente, a verdade se fez prevalecer, levando Ailes, após uma avalanche repentina de inúmeras acusações de assédio, a ser demitido pelo próprio dono da corporação, o magnata Rupert Murdoch (uma ponta de Malcolm McDowell).

Realizado com um brilhantismo à toda prova, “Bombshell” parece confrontar o expectador com uma difícil questão: Por meio de quais engrenagens nocivas, uma série de mulheres empoderadas, em plena década de 2010, são levadas à compactuar com o abuso sexual? Parte efetiva e crucial de um movimento que chegou até tardiamente ao entretenimento (o de obras que registram e confrontam esse comportamento tóxico), o filme de Jay Roach oferece um panorama primorosamente cristalino e bem construído dessas circunstâncias, para deixar que a conclusão fique inteiramente à cargo do público.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Barbie


 Se haviam ressalvas que os cinéfilos do mundo inteiro alimentavam em relação à realização de um filme estrelado pela famosa boneca Barbie, elas foram todas dissipadas quando foi anunciada, como diretora e roteirista do projeto, a pra lá de talentosa Greta Gerwig. Em suas mãos, “Barbie” é, sim, sobre a boneca mais famosa do mundo (e traz, em tal papel, uma intérprete que não poderia ser mais perfeita, a fantástica australiana Margot Robbie), mas, é também sobre todas as consequências e ramificações, positivas e negativas, acarretadas por esse legado. É sobre a eterna dicotomia entre o amor idealizado e o amor como ele é. E é, afinal de contas, sobre nós, seres humanos, e nossa dificuldade de conciliar o que é diferente.

Numa referência à “2001-Uma Odisséia No Espaço” –que já denota os altíssimos padrões assumidos pelo filme de Greta Gerwig –somos introduzidos à história da boneca Barbie cujo surgimento mudou o modo de brincar de meninas do mundo todo. Mais que isso, mudou sua mentalidade: Outrora se restringindo ao papel de mãe de suas bonecas, as meninas tiveram em Barbie um exemplo de independência e empoderamento a ser seguido. Ou pelo menos, é essa impressão que passou a reger o mundo alternativo e ligeiramente alienado conhecido como Barbieland, no qual todas as variações até hoje criadas da boneca (bem como de seu namorado, Ken) existem de verdade. Barbieland é um mundo que segue as orientações conceituais do próprio brinquedo: As inúmeras Barbies não desfazem o formato empinado de seus pés, vivem em casas transparentes e cor-de-rosas, bebem em copos vazios e vão à praias onde o mar não lhes molha. É um mundo idealizado como numa brincadeira de criança –e a brilhante direção de arte, aliada aos audazes figurinos, captura essa ideia com propriedade imediatamente notável. Tal como na aparência, também há uma espécie de alienação nos sentimentos: Ken (Ryan Gosling, extraordinário) é salva-vidas, ainda que sua ideia da ocupação seja ficar impávido e supino na areia sem jamais pisar no mar, e seu namoro com a Barbie de Margot Robbie –pois todas as habitantes de Barbieland se chamam Barbie, assim como todos se chamam Ken, salvo a exceção do deslocado Alan (Michael Cera) –jamais sai do campo da teoria. Lá, todas as noites são festivas e todos os dias são os melhores de toda vida: Barbieland e seus nada realistas habitantes refletem, portanto, a maneira com que são brincados por todas as crianças do Mundo Real.

Contudo, em algum momento, algo inesperado começa a acontecer. Barbie é assolada por súbitos pensamentos a respeito da morte e, na sequência deles, surgem celulites e seus pés começam a assentar naturalmente ao chão (!). A resposta, vinda da espirituosa Barbie Estranha (Kate McKinnon), é até simples: Em algum lugar do Mundo Real, uma menina está brincando com a Barbie dessa forma assim, diferente, causando uma anomalia que interfere em Barbieland. À sua maneira descolada, Barbie resolve partir numa viagem rumo ao Mundo Real e tentar resolver as coisas com essa menina aparentemente desiludida –levando sem querer, Ken como clandestino.

É na retratação do Mundo Real, em oposição ao imaginário lúdico de Barbieland, que o filme de Greta Gerwig poderia encontrar seu ponto fraco, mas termina revelando sua mais audaciosa inspiração, aquela que faz de “Barbie” um filme que definitivamente deixa de ser infantil para abraçar reflexões que pouco a pouco vão ganhando profundidade, complexidade e emoção –e até mesmo um pouquinho de metalinguagem! Ao chegar em Los Angeles, Barbie encontra Sasha (Ariana Greenblatt, a pequena Gamorra de “Vingadores-Guerra Infinita”) e descobre que os valores outrora representados por ela como boneca, não foram tão salutares às gerações de meninas como ela acreditava. Ken, por outro lado, toma conhecimento das ideias norte-americanas sobre o Patriarcado e por meio delas reavalia sua relação de quase submissão sentimental com Barbie, bem como de seus pares –afinal, o personagem Ken, sempre viveu e existiu em função do protagonismo de Barbie.

Perseguida pelos executivos da Mattel (!) –liderados pelo sempre hilário Will Ferrell –que a querem de volta à Barbieland sem provocar transtornos no Mundo Real, Barbie conhece Gloria (America Ferrera, de “Quatro Amigas e Um Jeans Viajante”), mãe de Sasha, a pessoa que, com sua nostalgia provocada pelo crescimento da filha causou as mudanças lúgubres na protagonista. Todas regressam para Barbieland, para encontrar o mundo idealizado e perfeito de Barbie agora virado de pernas pro ar: Não mais disposto a se restringir ao redundante papel de namorado, Ken instaurou as ideias do Patriarcado em Barbieland, e agora, os Ken reinam absolutos como ‘machos dominantes’ enquanto as demais Barbies sofreram uma espécie de lavagem cerebral assumindo o papel de namoradinhas ostensivas.

É ironicamente o conhecimento do papel desafiador da mulher no Mundo Real trazido por Gloria que irá devolver as coisas aos seus devidos lugares. Ou ao menos, tentar.

Crianças pequenas, seduzidas pelo visual pueril, exuberante e predominantemente rosa, do filme de Greta Gerwig haverão de se surpreender e até se ressentir da gradual concepção adulta que o filme vai adquirindo a medida que avança –sem jamais deixar de ser divertido e apropriadamente caricatural (e de contar com diversas piadas de duplo sentido), o roteiro de “Barbie” (escrito à quatro mãos por Greta e seu marido Noah Baumbach) aborda temas como o empoderamento feminino, a emancipação da mulher, as ramificações tóxicas do machismo e do feminismo e o difícil equilíbrio entre valores morais e sentimentos arrebatadores para se revelar um filme profundo, carregado de ideias inesperadas justapostas de forma clara, corajosa e inteligente. No admirável arco narrativo que se constrói do início ao fim, “Barbie” engata sucessivamente marchas imprevistas de tensão, revolução e dramaticidade, nessa mesma ordem, que levam o público à novas impressões, culminando numa cena poderosamente emocionante –quando Barbie, assolada por todas as mudanças provocadas por e sobre ela –encontra o fantasma de Ruth Handler (Rhea Perlman), sua criadora, e decide reconhecer e aceitar, por fim, sua própria humanidade.

Por tudo que é, por suas diversas qualidades e suas instigantes ideias, por seus vastos acertos e suas imprevistas emoções não se deve subestimar este grande filme de Greta Gerwig.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Yesterday

Ser eternamente um cantor fracassado parece ser a sina de Jack Malik (vivido em toda glória de seu constrangimento proletário por Himesh Patel que canta e toda violão de verdade).
Os indícios desanimadores de que o sucesso nunca virá estão por toda parte –no subemprego que o aprisiona na mediocridade; na euforia inexistente de qualquer público em suas parcas e paupérrimas apresentações –somente Jack e sua entusiasmada (e pra lá de encantadora) empresária Ellie (a linda Lily James) não enxergam isso.
Ou melhor: Jack, nos desiludidos percalços mostrados no início do filme, já começa a enxergar, sim. Todavia, quando ele dá uma espécie de basta e abre mão, por fim, do sonho de fazer sucesso como cantor é que o filme dirigido por Danny Boyle e escrito por Richard Curtis dá sua fundamental guinada: Um evento absolutamente sem explicação acontece –o mundo todo fica sem eletricidade por breves doze segundos! –e então, Jack sofre um acidente (é atropelado por um ônibus).
Nada de muito anormal ocorre nos dias que se seguem. Ele se recupera e volta ao convívio com a família e os amigos. Mas, ele não deixa de notar um detalhe: Que ser humano nenhum, exceto ele, lembra-se mais da existência do grupo musical, os Beatles, e de suas músicas icônicas e consagradas.
Para Jack a equação é simples de ser feita: Ele vive um mundo que desconhece completamente o repertório de canções inesquecíveis entregues por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star, e, na lembrança viva que guarda delas, apresentará essas composições ao mundo, como se fossem suas.
De início, os mesmos infortúnios de antes se repetem, contudo, aos poucos, um jovem dono de gravadora se interessa em produzir um CD aqui; um músico famoso (Ed Sheeran, numa participação especial) interessa-se que ele abra seu show ali; e... eis que, quando menos percebe, Jack já tem uma grande agente de Los Angeles na sua cola (Kate McKinnon, impagável) e a promessa de dinheiro e sucesso.
Entretanto, como reza a cartilha dramática dessa espécie particular de premissa desde os tempos de “A Felicidade Não Se Compra”, as realidades alternativas servem para que os protagonistas vislumbrem aquilo que perderam, mais do que aquilo que ganharam: o sucesso e o reconhecimento veem, sim, para o assombrado Jack, mas, não sem a constatação amarga de que ele usufrui tudo por meio de uma obra cuja autoria não lhe pertence –e o fantasma do embuste a ser desmascarado o persegue todo o tempo.
Ele também compreende que o sucesso e a realização não correspondem à felicidade –algo que ele já tinha, sem perceber, quando estava ao lado de Ellie, seu grande amor, contudo, sua nova vida de astro famoso requer sacrifícios, e Ellie não pode acompanhá-lo nessa trajetória.
Resta a Jack, portanto, o aplauso, não o amor.
É curioso como “Yesterday” mescla duas potências criativas cinematográficas que até então pareciam incompatíveis: De um lado, o inconformismo quase travesso, mas sempre inspirado e inteligente do diretor Boyle, dos inquietos e audaciosos “Trainspotting”, “Quem Quer Ser Um Milionário?” e “127 Horas”, do outro, o romantismo adocicado, mas não destituído de sensibilidade e da fina ironia inglesa do roteirista Richard Curtis, cujos scripts para “Quatro Casamentos e Um Funeral”, “Simplesmente Amor” e “Um Lugar Chamado Noting Hill” o elevaram, com méritos, ao status de gênio da comédia romântica.
“Yesterday”, na ode muito peculiar que faz ao legado dos Beatles, consegue unir a visão algo idealizada de um mundo  bonito, harmonioso e agridoce, característico do gênero da comédia romântica (e no qual, assim como em “Questão de Tempo”, Curtis deixa de lado maiores explicações sobre seu viés fantasioso), ao um ímpeto narrativo que define as obras de Danny Boyle.
Dessa mistura sai um produto bastante homogêneo: Uma comédia de risos contidos e lições enternecedoras, atrevida o bastante para ir até as últimas consequências na insanidade de uma premissa mirabolante que poucos realizadores conseguiriam encarar até o fim, mas apetecível o suficiente para disso tudo extrair algo que emocione o expectador, a partir dos mais básicos (e funcionais) princípios, como o valor daquilo que está a nossa frente e nem sempre notamos, a beleza transformadora da boa e genuína música e a força implacável do verdadeiro amor.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Noite É Delas

O pior filme já estrelado por Scarlett Johansson. O quê é uma pena, pois seria muito legal ver ela (que, além de símbolo sexual, é também uma grande atriz) mostrar suas capacidades cômicas. Contudo, este "A Noite É Delas" –cuja premissa sugeria uma versão feminina de "Se Beber Não Case" (há ainda espaço para fortes referências a “Missão Madrinha de Casamento” e “Um Morto Muito Louco”) –é, em seus melhores momentos, quando muito, vexaminoso. Tem um tipo de humor muito chulo e norte-americano, calcado em vergonha alheia, onde os roteiristas equilibram um momento constrangedor em cima do outro.
No papel da candidata ao congresso Jess, que está também por se casar, Scarlett parece fazer uma espécie de caricatura de Hillary Clinton (!). Apesar do zelo constante para com sua imagem pública ela aceita com reticências a idéia da melhor amiga Alice (Jillian Bell, péssima, forçada e apática) para se reunir às companheiras de juventude –a atual dondoca Blair (Zoe Kravitz) e a ativista maconheira Frankie (Ilana Glazer) –para uma despedida de solteiro em Miami.
À elas, mais tarde, junta-se uma amiga australiana de Jess, a sem noção Pippa (Kate McKinnon, o mais próximo de uma comediante de verdade que este filme consegue chegar).
Na primeira noite, contudo, um stripper contratado por elas acaba morto (naquela que deve ser uma das cenas mais incompetentes, constrangedores e obtusas deste ano no cinema) deixando todas em maus lençóis.
É claro que complicações um bocado previsíveis se seguem: As tentativas gaiatas –e potencializadas num humor negro muitas vezes inconveniente –de esconder o cadáver de possíveis testemunhas que aparecem; as intervenções ocasionais (feitas com intenção de serem engraçadas, mas absolutamente redundantes) do noivo de Jess (Paul W. Downs, perdido feito cego em tiroteio); e a participação sem maior relevância –e um tanto vulgar –de Demi Moore e Ty Burrell como um casal liberal e sexualmente libertino (a cena do threesome deles com Zoe Kravitz é outro momento pleno de constrangimento).
Perto do fim, o roteiro realiza sua maior e mais previsível manobra de obviedade revelando quem o morto realmente é, livrando a cara das protagonistas e convertendo o filme (que já não era nenhuma obra-prima) numa esquemática resolução de combate ao crime.
Fazer comédia é uma coisa complicada: Requer não só talento e timing, como é necessário também que haja uma sintonia pontual entre a desenvoltura de seu elenco e forma com que a direção e o roteiro urgem as seqüências cômicas. Essa é somente a primeira das grandes e inúmeras falhas que se pode detectar de imediato aqui.

Um besteirol moderno com pretensões feministas que jamais chegam a se concretizar, nada mais.

sábado, 12 de novembro de 2016

As Revelações Femininas de 2016

Já conta mais de um ano desde que falei das moças que brilharam em 2015, sendo assim, acho justo e necessário lembrar também as deste ano:

Ruth Negga –conhecida da TV, onde interpretou a enigmática “mulher de vestido de flores” no seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.” e, principalmente quando viveu Tulip O’ Hare na série “Preacher” que ela estrelou ao lado do namorado, o ator Dominic Cooper, esta bela e exótica morena colheu largos elogios da crítica quando o drama “Loving” estreou em Cannes. Desde então seu nome é um dos favoritos à concorrer ao Oscar, o que pode alçá-la à categoria de estrela nesta próxima temporada de premiações.

Zendaya –conhecida do público infanto-juvenil por estrelar um seriado do Disney Channel, esta bela jovem ainda não apareceu em nenhuma produção cinematográfica de ponta, mas quem aposta nela é, nada mais, nada menos, que a própria Marvel Studios: Segundo algumas fontes, pertence a ela o importantíssimo papel de Mary Jane Watson, em “Homem-Aranha De Volta Para Casa”, o vindouro e aguardado filme estrelado pelo Homem-Aranha de Tom Holland.
(Embora não hajam confirmações a esses respeito, uma vez que a Marvel Studios mantém um imenso e salutar segredo em torno de todos os aspectos dessa produção)
Mas, se isso se confirmar é um gesto admirável do estúdio ao trocar a etnia caucasiana da personagem (característica que predomina em personagens de quadrinhos e que é alvo de certa crítica) escalando uma atriz de descendência negra e que, mesmo assim, tem beleza de sobra para ser a melhor personificação da personagem nas telas de cinema.

Angourie Rice –esta bela jovem –também escalada para um papel no próximo filme do Homem-Aranha –já disse a que veio este ano mesmo: Ela interpreta a filha do detetive vivido por Ryan Gosling em “Dois Caras Legais”, e a crítica foi unânime em afirmar que ela rouba todas as cenas em que aparece. É preciso prestar atenção numa jovem atriz quando ela consegue tal façanha num filme estrelado pelos talentosos Gosling e Russel Crowe!

Gal Gadot –não tinha como faltar este nome na lista! Responsável pela personagem que talvez seja o único elemento a fazer o filme “Batman Vs Superman” funcionar plenamente, esta linda morena israelense não apenas calou de forma espetacular a boca dos críticos (que encheram a Internet com reclamações sobre o físico esbelto dela), provando-se perfeita para o papel de Mulher Maravilha, como também tornou-se a maior esperança –sobretudo, para os fãs –para se ver realmente um filme adaptado dos quadrinhos da DC Comics emplacar, com a produção solo da personagem.
O trailer já lançado é incrível, e a presença de Gal Gadot, sensacional.

Kate McKinnon –não se pode dizer que o remake feminino de “Caça-Fantasmas” tenha sido um sucesso estrondoso de público e crítica, mas pode se dizer sim que, dentre todos os elementos, ora controversos, ora espetaculares do filme, foi a participação de Kate que mais se destacou como um dos únicos fatores reconhecidamente bons.
O futuro, portanto, parece promissor para esta comediante revelada, como tantos e tantas, nos quadros do programa humorístico Saturday Night Live.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Caça - Fantasmas

Um dos blockbusters que mais dividiram as opiniões em 2016, esta versão feminina e alternativa do clássico da ‘sessão da tarde’ de 1984, dirigido por Ivan Reitman ganhou detratores e admiradores quando foi exibida nos cinemas, todos com igual nível de entusiasmo: Não é nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.
A mensagem de empoderamento feminino que o filme tenta passar –manifestada mais explicitamente na escolha de um elenco de comediantes femininas para interpretar personagens que são, em essência, os mesmos do elenco original masculino, porém, empregada também em várias outras escolhas, menções e observações ao longo do filme –não é tão acertada e admirável quanto, por exemplo, o quê foi feito em “Mad Max-Estrada da Fúria”. Também, o humor do diretor Paul Feig não é tão acessível quanto o foi o da obra de Ivan Reitman. Assim como fez em “Missão Madrinha de Casamento”, Feig constrói a comédia a partir de improvisos constante do elenco e de sacadas peculiares de roteiro. E como humor é uma questão muito particular, o resultado fica ambíguo para uns, divertido para outros.
Senti um resultado muito parecido com “Missão Madrinha...”, mas, por alguma razão, aquele filme foi bastante aplaudido, já este daqui, encontrou relativa rejeição. Talvez, por ousar remodelar um trabalho que goza de imenso carinho por grande parte do público.
Como obra cinematográfica em si, “Os Caça-Fantasmas” privilegia-se de certa névoa nostálgica que lhe confere, aos olhos do público, uma excelência que ele (a exemplo de outros clássicos oitentistas) não necessariamente tinha.
Contudo, é indicativo da perspicácia dos realizadores deste novo que seja este daqui o escolhido para se refilmar, e no processo, moldar como uma mensagem pró-feminismo: Analisado friamente,  “Os Caça-Fantasmas” de 1984 é um filme cheio de mensagens politicamente incorretas, em sua maioria de cunho machista.
Temos, logo no início, uma cena em que o personagem de Bill Murray distorce, na maior cara dura, um experimento-teste sério da faculdade só para poder flertar com uma estudante; as personagens femininas de maior proeminência na trama –a mocinha vivida por Sigourney Weaver, e a secretária Janine, de Annie Potts –têm revelância pífia (Sigourney é, quando muito, a donzela em perigo, chegando a servir até à propósitos sexuais para o vilão da história [!] enquanto que Annie interpreta um mero estereótipo afetado); e o quê falar do nível de absurdo na cena em que Dan Aykroyd recebe sexo oral de uma fantasma?!
Dessa forma, embora goze desse mérito, este novo “Caça-Fantasmas” (agora sem o artigo) oscila entre momentos excelentes, e outros que poderiam ter sido ótimos, mas acabam esbarrando numa perigosa sensação de constrangimento e até vergonha alheia. Seu elenco a princípio é funcional, reunindo algumas das mais notáveis comediante americanas da atualidade, incluindo Melissa McCarthy e Kristen Wiig, que trabalharam com Feig em “Missão Madrinha...”, todavia, quem se destaca é mesmo a interessante e surtada Kate McKinnon. Há também uma participação –também ela cheia de subtexto –de Chris Hemsworth (“Thor”) como o secretário bonitão e burro.
A verdade é que há anos o cinema hollywoodiano ensaiava uma nova versão dos “Caça-Fantasmas”; tentou-se, por muito tempo, uma reunião do time original, descartada a partir do falecimento de Harold Ramis em 2014; depois, muito se especulou numa versão mais jovem numa refilmagem propriamente dita, com nomes como Seth Rogen sendo ventilados. Nenhum desses projetos, entretanto, prosseguiu ver a luz do dia, até Paul Feig tocar esta sua idéia.
Ele teve amplo apoio de Ivan Reitman (que surge aqui como produtor) e o elenco do filme original (à exceção, claro, de Harold Ramis) aparece em peso, em pontas ocasionais, como formar de dar sua benção à esta nova versão.
A benção do público, contudo, foi um pouco mais difícil de ser conquistada.