Mostrando postagens com marcador Demi Moore. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Demi Moore. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Os Indicados Ao Oscar 2025


 Na manhã de quinta-feira, foram anunciados os indicados ao maior prêmio do cinema, isso num período em que Los Angeles –sede habitual da premiação –enfrenta uma calamidade de incêndios sistemáticos em sua costa litorânea, o que alimenta o protesto de muitos que até exigem uma espécie de cancelamento da cerimônia, ou mais especificamente, uma alteração no formato normalmente pomposo da festa para uma exibição mais austera com o objetivo de arrecadar donativos para as pessoas prejudicadas pelo fogo. O próprio anúncio dos indicados foi atraso duas vezes (sua data inicial era 17 de janeiro, depois mudado para o dia 19, e agora finalmente concretizado neste 23 de janeiro de 2025).

Ainda assim, a lista de indicados nos permite vislumbrar o ano espetacular que 2024 foi para o cinema, entregando uma variedade espantosa de fantásticos trabalhos, entre os quais, uma produção brasileira que finalmente quebrou um jejum de décadas e está indicada entre algumas das principais categorias. Vamos lá:

Melhor Filme

“Anora”

“O Brutalista”

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Ainda Estou Aqui”

“Nickel Boys”

“A Substância”

“Wicked”

Melhor Direção

Sean Baker por “Anora”

Brady Cobert por “O Brutalista”

James Mangold por “Um Completo Desconhecido”

Jacques Audiard por “Emilia Pérez”

Coralie Fargeat por “A Substância”

Embora sejam dez indicados na categoria de Melhor Filme (incluindo a inédita presença do brasileiro “Ainda Estou Aqui”), pode-se dizer que os Melhores Filmes do Ano de fato (e que constariam entre os indicados caso o número de vagas ainda fosse restrito à cinco como antigamente), são aqueles que surgem na categoria de melhor Direção –entretanto, sobram objeções para a presença de “Emília Pérez” (que, embora venha sendo bem aceito nos EUA, coleciona críticas e reprovações em todo o resto do mundo). Aliás, “Emília Pérez” assim como “O Brutalista”, (justamente os dois maiores favoritos) veem sofrendo uma polêmica recente onde profissionais acusam ambas as produções de lançar mão do uso de Inteligência Artificial, o que pode enfraquecer suas campanhas, algo que pode perfeitamente beneficiar o primoroso “Anora”, de Sean Baker.

Melhor Ator

Adrien Brody, por “O Brutalista”

Timothée Chalamet, por “Um Completo Desconhecido”

Colman Domingo, por “Sing Sing”

Ralph Fiennes, por “Conclave”

Sebastian Stan, por “O Aprendiz”

Melhor Atriz

Cynthia Erivo, de “Wicked”

Karla Sofía Gascón, de “Emilia Pérez”

Mikey Madison, por “Anora”

Demi Moore, por “A Substância

Fernanda Torres, por “Ainda Estou Aqui”

Se por um lado a categoria de Melhor Ator traz Adrien Brody como um favorito isolado e sem concorrentes mais fortes, a de Melhor Atriz, por outro, está disputadíssima: Entre as melhores atuações do ano, a maravilhosa Mikey Madison compete diretamente com a favorita Demi Moore (que ganhou muitos pontos com seu discurso emotivo no Golden Globe, mas ainda é uma incógnita já que a Academia não aprecia filmes de terror), assim como seguem firme na disputa Cynthia Erivo (num desempenho que predominou em todas as premiações do ano) e Karla Sofia Gascón (cuja agressiva e eficiente campanha da Netflix destaca o fato de ser a primeira atriz trans a concorrer ao prêmio). Nessa competição, a brasileira Fernanda Torres surge com chances bastante reais de trazer o Oscar para o Brasil, visto que ela conquistou o prêmio de Atriz Dramática no Golden Globe e vem fazendo uma campanha bastante sólida nos EUA.

Melhor Ator Coadjuvante

Yura Borisov, por “Anora”

Kieran Culkin, “A Verdadeira Dor”

Edward Norton, “Um Completo Desconhecido”

Guy Pearce, de “O Brutalista”

Jeremy Strong, de “O Aprendiz”

Melhor Atriz Coadjuvante

Monica Barbaro, por “Um Completo Desconhecido”

Ariana Grande, por “Wicked”

Felicity Jones, por “O Brutalista”

Isabella Rossellini, por “Conclave”

Zoe Saldaña, por “Emilia Pérez”

Sempre as categorias mais fáceis de serem antecipadas –e a tendência desta temporada parece imitar a das anteriores –os Coadjuvantes seguem firme com seus favoritos bem definidos: Dificilmente o Oscar vai escapar das mãos de Kieran Culkin no caso dos Atores (ainda que eu tenha ficado feliz com a indicação inesperada de Yura Borisov), e de Zoe Saldaña, no caso das Atrizes (talvez, o único prêmio que “Emília Pérez” deve conquistar sem suscitar controvérsias).

Melhor Figurino

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Gladiador II”

“Nosferatu”

“Wicked”

Melhor Cabelo e Maquiagem

“Um Homem Diferente”

“Emilia Pérez”

“Nosferatu”

“A Substância”

“Wicked”

Melhor Trilha Sonora Original

“O Brutalista”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

“Robô Selvagem”

Melhor Design de Produção

“O Brutalista”

“Conclave”

“Duna-Parte 2”

“Nosferatu”

“Wicked”

Melhor Edição

“Anora”

“O Brutalista”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

Melhor Som

“Um Completo Desconhecido”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Wicked”

“Robô Selvagem”

Melhores Efeitos Visuais

Alien-Romulus

“Better Man”

“Duna-Parte 2”

Planeta dos Macacos-O Reinado

“Wicked”

Melhor Fotografia

“O Brutalista”

“Duna-Parte 2”

“Emilia Pérez”

“Maria Callas”

“Nosferatu”

As categorias técnicas, de modo geral, refletem as lembranças dos votantes em “Duna-Parte 2” (certamente o favorito para Efeitos Visuais), em “Wicked” (onde ele obteve sua soberania em número de indicações”), em “Nosferatu”, e em “Gladiador II” (mais lembrado por estrear num período do ano propício para a lembrança dos membros da Academia), além também do completo esquecimento de “Furiosa-Uma Saga Mad Max”, tecnicamente perfeito (e digno de constar entre muitas das categorias), mas também um dos grandes fracassos do ano.

Melhor Filme Internacional

“Ainda Estou Aqui” (Brasil)

“The Girl with the Needle” (Polônia)

“Emilia Pérez” (França)

“The Seed of the Sacred Fig” (Irã)

“Flow” (Letônia)

Melhor Animação

“Flow”

Divertida Mente 2

“Memoir of a Snail”

“Wallace e Gromit-Avengança”

“O Robô Selvagem”

A indicação na categoria de Filme Internacional fecha a coroação de “Ainda Estou Aqui”, lembrado em três das mais importantes categorias do Oscar (em 2004, “Cidade de Deus” obteve quatro indicações, mas em categorias menores: Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia e Montagem). Seu grande concorrente é certamente o onipresente “Emília Pérez”, seguido de perto pelo elogiado “The Seed of The Sacred Fig” e até mesmo pela fascinante animação “Flow” que chega fortíssima em Melhor Animação, roubando o favoritismo de “Robô Selvagem”.

Melhor Curta-Metragem em Live-Action

“A Lien”

“Anuja”

“I’m Not a Robot”

“The Last Ranger”

“The Man Who Could Not Remain Silent”

Melhor Animação em Curta-Metragem

“Beautiful Men”

“In the Shadow of the Cypress”

“Magic Candies”

“Wander to Wonder”

“Yuck!”

Melhor Roteiro Adaptado

“Um Completo Desconhecido”

“Conclave”

“Emilia Pérez”

“Nickel Boys”

“Sing Sing”

Melhor Roteiro original

“Anora”

“O Brutalista”

“A Verdadeira Dor”

“Setembro 5”

“A Substância”

Melhor Canção Original

“El Mal”, de “Emilia Pérez”

“The Journey”, de “The Six Triple Eight”

“Like a Bird”, de “Sing Sing”

“Mi Camino”, de “Emilia Pérez”

“Never Too Late”, de “Elton John-Never Too Late”

Melhor Documentário

“Black Box Diaries”

“No Other Land”

“Porcelain War”

“Soundtrack to A Coup D’Etat”

“Sugarcane”

Melhor Documentário de Curta-Metragem

“Death By Numbers”

“I am Ready, Warden”

“Incident”

“Instruments of a Beating Heart”

“The Only Girl in the Orchestra”

É isso aí, saberemos quem serão os vencedores (e se o Brasil vai, enfim, conseguir um tão aguardado Oscar) na noite do dia 2 de março, quando forem anunciados os ganhadores durante a cerimônia.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

A Letra Escarlate


 Em tempos em que Demi Moore é sondada para a ganhar o Oscar de Melhor Atriz pelo surpreendente “A Substância”, vamos voltar numa época em que muitos acreditam que isso era algo impossível de se acontecer, mais precisamente no ano de 1995, quando do lançamento do drama “A Letra Escarlate” que veio acompanhado junto de uma campanha para levá-la ao Oscar. O que terminou resultando em ainda mais chacota em relação aos dotes dramáticos de Demi como atriz –por aqueles anos, ela viu, paralelo ao crescimento de seu status como estrela de cinema, as indicações a si mesma como Pior Atriz do Ano no Framboesa de Ouro se multiplicarem.

É verdade que o filme também não ajuda muito: A cena inicial (uma reunião de índios para uma espécie de cortejo fúnebre) já deixa bem claro as propensões do diretor Roland Joffé (que dirigiu “A Missão”, um hábil retrato do conflito indígena) para inserir mais aventura no texto todo drama e folhetim extraído do romance literário de Nathaniel Hawthorne (já adaptado para cinema, inclusive, por Win Wenders, e muito homenageado na comédia “A Mentira”). Na Nova Inglaterra, um vilarejo na América ocupado por uma comunidade de imigrantes ingleses recebe entre seus recém-chegados Esther Prynne (Demi Moore), enviada por seu marido, Roger Prynne, para que, antes de sua chegada, comece os preparativos para arrumar a casa em que irão viver.

Logo de cara, Esther demonstra iniciativa e independência que alarmam os mandatários locais, homens religiosos de rígido código moral para os quais o papel da mulher, em sociedade, deve vir cercado por regras de opressão. Com o tempo, Esther –que casou-se ainda bem nova, com um homem mais velho –torna-se amiga do pastor Arthur Dimmesdale (Gary Oldman), por quem acaba, mais tarde, se apaixonando.

Ator tão talentoso quanto generoso, Oldman já era calejado em papéis de vilão naquele período (havia feito, além de “Drácula de Bram Stoker”, também “O Profissional” e “O Quinto Elemento”), o que faz de sua escolha para o papel de galã romântico uma alternativa bastante curiosa –e um dos poucos lampejos inspirados do filme.

Enamorados um pelo outro, Arthur e Esther têm uma fortuita noite de amor quando acreditam que o marido de Esther, Roger (interpretado, à propósito, por Robert Duvall), foi morto num ataque de índios à sua embarcação. Na verdade, Roger terminou prisioneiro dos selvagens que o mantêm cativo por um tempo; quando ele, entre um e outro surto de loucura, começa a absorver alguns de seus costumes.

Quanto à Esther, ela engravida e, quando esse fato se torna óbvio para a comunidade (evidenciando também o adultério que ela cometeu), os senhores locais exigem que ela revele a identidade de seu amante, a fim de enforcá-lo. Esther guarda segredo para poupar a vida de Arthur, mas acaba vítima das consequências: Nos meses que se seguem, ela é aprisionada (acaba sendo solta apenas quando, por fim, dá à luz a uma menina, de nome Pearl), e quando ganha a autorização para voltar para casa e cuidar da filha, ela tem uma letra ‘A’ escarlate costurada às suas roupas –a indicação e a constante lembrança de que ela foi adúltera e, por isso, deve sofrer retaliação moral da comunidade, para onde quer que vá.

Ao melodrama clássico, esboçado com pompa e circunstância no livro original –e que foi relativamente assim mantido em outras adaptações mais ou menos bem sucedidas do material –o diretor Roland Joffé acrescenta doses de paranóia e suspense (quando Roger, mais vilanesco do que nunca, regressa dos mortos e, munido de outra identidade, promove uma ‘caça às bruxas’ na aldeia a fim de descobrir  quem foi o homem misterioso com quem Esther envolveu-se), além de, ao fim, até um pouco de ação (quando os índios, mostrados naquele início, decidem invadir a aldeia dando um golpe de misericórdia nas sandices generalizadas dos homens brancos)! Nada disso, porém consegue extrair seu filme de uma certa apatia –na verdade, até piora um pouco as coisas: Tantas são as desventuras a abater-se sobre sua sofrida protagonista, e tão esmerado é o esforço dos realizadores para torná-los uma penitência sem fim, que o papel de amante misterioso resguardado ao omisso Arthur termina fazendo-o parecer um tremendo idiota na maior parte do tempo –o que, claro, depõe terrivelmente contra o romance que, em inúmeras momentos (sobretudo, na inserção quase onipresente da melosa trilha sonora de John Barry), este filme parece querer ser.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Os Vencedores do Globo de Ouro 2025


 Eu ainda insisto nesse hábito de chamar a premiação de Globo de Ouro, quando na verdade, imprensa, crítica especializada e público já chamam Golden Globe... mas, a despeito disso, tivemos uma ideia, neste domingo dia 5 de janeiro de 2025, dos prováveis favoritos à temporada de prêmios em geral, e ao Oscar em particular, ou será que não? E no meio disso tudo, um bem-vindo sopro de orgulho para nós, brasileiros!

Vamos lá, às categorias de cinema:

MELHOR FILME DE DRAMA

O Brutalista

MELHOR FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Emilia Pérez

MELHOR DIREÇÃO

Brady Corbet (O Brutalista)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA

Adrian Brody (O Brutalista)

O favoritismo até então claudicante de “Emilia Pérez” confirmou-se com suas quatro vitórias no Globo de Ouro –incluindo a categoria de Filme em Língua Não Inglesa, derrotando o Brasil –o mesmo parece valer (embora com um pouco menos de intensidade por parte da crítica) para “O Brutalista”, logo atrás com três prêmios; curioso que o ator Adrien Brody, após sua consagração com “O Pianista” há uns vinte e dois anos atrás, volta aos holofotes e às premiações com um personagem bastante parecido. Embora tenha saído de mãos vazias (apesar de muitas indicações e de ostentar até então um considerável favoritismo), “Anora” tem sido bastante lembrado nas indicações de praticamente todos os prêmios de Melhor do Ano, o que pode favorecê-lo se a maré virar para o seu lado no futuro da temporada.

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA

Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)

O grande momento da noite, pelo menos para nós, aqui no Brasil. Não havia uma favorita na categoria de Atriz Dramática, embora as concorrentes de Fernanda Torres fossem fortes (e, pelo menos, Tilda Swinton, de “O Quarto Ao Lado”, fosse apontada por algumas casas de apostas como provável vencedora), isso culminou com sua emocionante vitória, o que pavimenta seu caminho para uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, seguindo os passos da mãe Fernanda Montenegro –ela também foi indicada o Globo de Ouro de Atriz Dramática em 1999 (conquistado, na ocasião, por Cate Blanchet por “Elizabeth”), lembrando que, no Oscar, quando foi indicada, foi lamentavelmente preterida por Gwyneth Paltrow. Espera-se que desta vez a Academia e os votantes (que não são mais os mesmos!) não repitam esse erro.

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Sebastian Stan (Um Homem Diferente)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Zoe Saldana (Emilia Pérez)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)

Muitas caras relativamente novas na premiação para cinema. Com dois astros vindos –veja só! –da Marvel Studios (Sebastian Stan, o Soldado Invernal; e Zoe Saldana, a Gamora de “Guardiões da Galáxia”) para a consagração em obras de gente grande. Mas, Sebastian realmente mereceu por seu belíssimo trabalho, e a entrega de Zoe Saldana à sua personagem (o que inclui um número musical cheio de energia) é uma das grandes surpresas de “Emilia Pérez”. Finalmente, o já premiado Kieran Culin começa a migrar de sua área habitual, a TV, para o cinema, garantindo o único prêmio da noite para o filme escrito e dirigido por Jesse Eisenberg.

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA OU MUSICAL

Demi Moore (A Substância)

Dona do discurso mais emocionante da noite, Demi Morre surpreendeu muita gente (incluindo ela própria) ao ser anunciada como vencedora na categoria de Melhor Atriz Cômica –até porque o terror “A Substância”, ainda que magnífico, está longe de ser uma ‘Comédia ou Musical’ como alardeado na categoria... –quando muitos já esperavam uma vitória de Karla Sofía Gascón, por “Emilia Pérez”, ou de Mikey Madison, por “Anora”, apontadas como as favoritas. Como a própria Demi afirmou, esse é seu primeiro prêmio conquistado na carreira como atriz; e deu uma vontade danada de vê-la indicada ao Oscar para ver onde isso vai dar!

MELHOR ANIMAÇÃO EM LONGA-METRAGEM

Flow

MELHOR ROTEIRO

Peter Straughan (Conclave)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Emilia Pérez (França)

Uma pena o belíssimo “Robô Selvagem” ter perdido para “Flow” que foi pouco falado, pelo menos, por aqui. No entanto, críticos de todos os cantos estão reiterando ser essa, realmente, a grande animação de 2024, e não o longa-metragem da Dreamworks. “Emilia Pérez” simplesmente arrebatou o prêmio de Filme em Língua Não Inglesa, definindo-o como o favorito para essa temporada, ao menos, nessa categoria. Uma pena para “Ainda Estou Aqui”... Na categoria de Melhor Roteiro, “Conclave” parece prevalecer como sua única chance de vitória nas outras premiações.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

"El Mal", Camille, Karla Sofía Gascón e Zoe Saldana (Emilia Pérez)

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Trent Raznor e Aticcus Ross (Rivais)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA

Wicked

A Canção Original de “Emilia Pérez” já era quase uma barbada, isso porque o filme de Jacques Audiard concorria já com duas canções (mesmo procedimento que houve com “Barbie” ano passado) e “El Mal” tem, de fato, uma execução poderosa, certamente um dos grandes momentos do longa. A trilha sonora ficou com Trent Raznor e Aticcus Ross (os mesmos de “A Rede Social”) definindo o único prêmio para o filme de Lucca Guadagnino, e o troféu de Conquista Cinematográfica e de Bilheteria para “Wicked” acabou soando como um prêmio de consolação (impressão que já havia se dado ano passado), quando minha torcida era mesmo para “Deadpool & Wolverine”.

Agora é possível afirmar que a Temporada de Prêmios realmente começou; em uma semana teremos Critics Choice Awards, depois Bafta, SAG e tudo o mais, até culminarmos no Oscar, do qual ainda não temos as indicações. Quem viver, verá!

sábado, 19 de outubro de 2024

A Substância


 Ganhador do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes 2024, “The Substance”, dirigido por Coralie Fargeat. É um exercício notável de fôlego narrativo, uma demonstração bastante impressionante de coragem da estrela Demi Moore, e uma revelação e tanto da jovem e promissora Margaret Qualley (de “Era Uma Vez Em Hollywood”), ela que é filha da também atriz Andie MacDowell.

“The Substance” começa acompanhando o estrelato já decadente de Elisabeth Sparkle (Demi Moore abraçando todas as vulnerabilidades extremas da personagem e de si mesma), cuja fama popularizou-se através de programas de ginástica aeróbica –numa nada lisonjeira referência à Jane Fonda. Contudo, o tempo passou e, em seu aniversário de 50 anos, Elisabeth descobre que os produtores não a querem mais. Eles querem alguém mais jovem. Ao dar entrada num hospital após um acidente de carro, Elisabeth recebe a recomendação em um pendrive (!), de um método enigmático e, ao que tudo indica, bastante experimental que promete proporcionar-lhe juventude; mais que isso, promete-lhe um novo “eu”!

Elisabeth não interage com ninguém, não negocia com ninguém (salvo sinistras conversas por telefone com um interlocutor soturno e impessoal), no entanto, é conduzida a um depósito onde recebe o material necessário para o seu ‘procedimento’: Uma seringa contendo a chamada ‘Substância’ que ela injeta em si mesma para, na sequência, experimentar uma mutação inacreditável –Elizabeth se duplica (!), gerando a partir de si mesma, uma versão mais jovem (vivida com esplendor pleno e consciente por Margaret Qualley que não nega fogo em nenhuma das generosas cenas de nudez). Essa nova versão, chamada Sue, logo galga os degraus da fama e assume o lugar na ribalta que antes pertencera à Elisabeth, fazendo sucesso entre o público e os produtores.

Entretanto, o atalho para o que se deseja cobra alguns sacrifícios impronunciáveis. De cada sete em sete dias, Sue e Elisabeth precisam trocar de corpo –enquanto um é ocupado pela mente, o outro permanece inanimado no chão do banheiro –e, durante o tempo em que é Sue, o corpo mais jovem precisa de injeções de um soro produzido pelo corpo de Elisabeth para não entrar em colapso. O problema é que as demandas da fama –e um tanto da empolgação juvenil que a consome –vão cobrando de Sue mais do que os meros sete dias que o procedimento exige. E cada hora na qual acaba sendo mais Sue do que Elisabeth, leva o corpo mais velho a se deteriorar terrivelmente. Com o tempo, na verdade, a própria Sue vai desenvolvendo uma personalidade competitiva para com Elisabeth, a despeito do interlocutor ao celular afirmar que elas são uma só, e nessa espécie de rixa, Sue e Elisabeth poderão fazer cada vez mais mal uma à outra.

Três são as influências que o filme primorosamente perturbador de Coralie Fargeat mais ostenta: A primeira é “O Retrato de Dorian Gray”, sobretudo, na premissa onde uma personagem confronta o próprio definhar da vida com métodos mirabolantes –repare que há, por sinal, um quadro da própria Elisabeth que vai, também ele, adquirindo sinais de deterioração ao longo do filme: a segunda influência é o mestre Stanley Kubrick, ela surge em elementos como a simetria da narrativa, o personagem desprezível do produtor de TV (interpretado magnificamente por Dennis Quaid, em trejeitos que remetem imediatamente ao Malcolm McDowell de “Laranja Mecânica”), no fato da trama gradualmente avançar por meio de cenas predominantes em banheiros (um deles, o da emissora de TV, lembra completamente a estética do banheiro de “O Iluminado”) e na menção à trilha sonora de “2001-Uma Odisséia No Espaço” durante a absurda e grotesca sequência clímax; e a terceira influência vem a ser David Cronenberg e seu terror fisiológico, onde mutações tão imprevisíveis quanto assombrosas desumanizam seus personagens sempre através da manutenção de suas neuroses.

Apropriando-se do dito popular no qual “o tempo é uma fábrica de monstros”, “A Substância” é uma brilhante observação sobre a aceitação de si mesmo, os complexos do envelhecimento e os perigos impronunciáveis da vaidade.

sábado, 21 de outubro de 2023

Bobby


 Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2006 –tendo perdido para “Babel” de Alejandro Gonzáles Iñarritu –“Bobby” é uma obra que reúne um elenco numeroso e respeitável, todos esses atores e atrizes dando vida a personagens periféricos em torno da figura maior, sobre a qual pairam as maiores reflexões que este trabalho almeja suscitar: O então candidato à presidência dos EUA, Bobby Kennedy, irmão do mesmo John F. Kennedy, morto à tiros em Dallas cinco anos antes, que, naqueles idos de 1968, era uma esperança para a América –os EUA começavam a enxergar com contestação a Guerra do Vietnam, e os conflitos raciais (o assassinato de Martin Luther King havia sido recente) geravam turbulência em todos os cantos do país. Idealista, jovem e carismático –e representante de uma estirpe política vista com ingênua adoração pelo povo americano –Bobby era um raro caso onde tinha a seu favor a simpatia de todas as classes sociais norte-americanas. Seus discursos enalteciam a união do povo, sua verve era inteligente, polida e esperançosa. Bobby, em suma, era a última esperança para os EUA que adentravam o período mais conturbado de sua História recente.

Todavia, Bobby Kennedy foi alvejado à tiros –um exemplo macabro que parecia repercutir, de alguma forma, a tragédia de seu irmão –ao sair de um discurso, em plena cozinha do Hotel Ambassador, onde foi para comemorar a vitória de sua candidatura para presidente, em eleições a serem disputadas contra Richard Nixon no ano seguinte. O filme surpreendentemente dirigido pelo ator Emilio Estevez (cujo pai, Martin Sheen, também se encontra no filme) não cede à tentação de escalar um ator para interpretar Bobby e converter este num recorte de suas últimas horas –ao invés disso, “Bobby” usa da tragédia notória deflagrada em seu cerne para observar os seres humanos que orbitavam Bobby  naquele momento, e quais teriam sido suas expectativas, e de que maneira seus futuros foram arremessados num turbilhão de perplexidade que, à sua maneira, resumiu o subconsciente norte-americano nas décadas seguintes.

A começar a trama naquele 6 de junho de 1968, temos o gerente do hotel, Paul (William H. Macy) ocupado em administrar todos os afazeres dos inúmeros funcionários para a recepção das comemorações do Partido Democrata, o que inclui a apresentação da cantora Virginia Fallon (Demi Moore) que traz à tira-colo seu marido Tim (o próprio diretor Emilio Estevez) e todos os problemas que seu alcoolismo vem acarretando ao seu casamento. De outro lado, há o porteiro John Casey (Anthony Hopkins), viúvo e aposentado, cuja solidão o leva a enxergar o Ambassador como seu segundo lar. Ele tem a ocasional companhia do igualmente desiludido e solitário Nelson (Harry Belafonte, de “O Diabo, A Carne e O Mundo”), junto de quem tece intermináveis conversas sobre o avanço da idade regadas à muito uísque. No staff de funcionários do Ambassador, o filme concebe um pequeno microcosmos da América: Na cozinha, regida pelo insensível Timmons (Christian Slater), o jovem imigrante José (Freddy Rodriguez, de “Garotas Sem Rumo”) se ressente da folga que lhe foi negada naquela noite, embora encontre relativo alento na serenidade contagiante do cozinheiro-chefe, Edward (Laurence Fishburne, extraordinário). No salão de beleza do lugar, a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) tem de se desdobrar enquanto atende os caprichos de Virginia Fallon ao mesmo tempo em que prepara a jovem noiva Diane (Lindsay Lohan), disposta a casar com o jovem William (Elijah Wood) para livrá-lo do compromisso com o exército, e ainda descobre um inesperado adultério de seu marido –o gerente Paul, à propósito –com uma das telefonistas do hotel (Heather Graham). Entre os hóspedes, o casal Jack (Martin Sheen) e Samantha (Helen Hunt) se vê às voltas com a compulsão de compras (dela) e um resíduo de depressão (dele) enquanto lidam com as expectativas ao seu redor. E, em meio às deliberações do Partido Democrata, cujos delegados se encontram no hotel, os jovens estagiários Jimmy (Shia LaBeouf) e Cooper (Brian Geraghty) escapam de suas responsabilidades para descobrir os efeitos do LSD junto do fornecedor de drogas local (uma ponta de Ashton Kutcher).

O roteiro, escrito pelo próprio Emilio Estevez, une personagens reais e (muitos) fictícios para elaborar uma espécie de afresco que ganharia muito mais propriedade nas mãos de um diretor como Robert Altman –na verdade, parece ser o trabalho e o estilo dele que, em muitos momentos, “Bobby” busca emular, sem no entanto escapar de uma ligeira superficialidade. Felizmente, Emilio Estevez soube escolher realmente um elenco primoroso para honrar seus vários personagens (os embates interpretativos entre Sharon Stone e Demi Moore e entre Anthony Hopkins e Harry Belafonte são particular sensacionais de se assistir) e sua mescla de trama real com ficção dramatúrgica –bem como as emendas documentais com o filme propriamente dito –são executadas com primor e profissionalismo inquestionáveis.

São acertos assim que tornam “Bobby” um filme válido, e ampliam de fato a percepção dramática presente na reflexão em torno da tragédia que se sucede no desfecho –já com um considerável distanciamento de tempo em relação aos eventos traumáticos para o povo americano que reconstitui, o filme de Emilio Estevez vislumbra, sem muito ratificar, as possibilidades perdidas, os sonhos devastados e a esperanças à mingua que acontecimentos como aquele legaram ao país. No final, sua pouca inclinação ao sutil acaba tem um saldo positivo: Apesar dos pesares, não é um filme que confronta o expectador com a desesperança e a tristeza inerentes à sua época.

Se fosse Robert Altman, o papo seria outro.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Proposta Indecente


 O diretor inglês Adrian Lyne sempre foi adepto de uma certa sem-vergonhice pincelada em tons de requintado cinema, ao mesmo tempo, ele também era adepto de experimentos em torno da interação com o público –isso nas décadas de 1980 e 90 quando tal ideia era de um arrojo inédito. Seu “Atração Fatal”, por exemplo, dos primeiros filmes a abordar o adultério sem amenidades, deixou-se orientar por seções-testes com o público para definir o desfecho que teria maior aceitação. Prática que passou a ser adotada no cinema comercial. Algo um pouco parecido veio a ocorrer com “Proposta Indecente” lançado em 1993.

Grande responsável pelo símbolo sexual fulgurante no qual Demi Moore se tornou pelo restante daquela década (a atriz já havia feito imenso sucesso em “Ghost-Do Outro Lado da Vida” mas, nele o público não a tinha enxergado ainda por um viés de sensualidade), o filme se municiou de uma campanha de marketing onde a grande e escandalosa questão que permeia toda premissa era dirigida ao público, incitando-o a dar seu parecer e a conferir o que ocorria no filme em si.

E todos os envolvidos fizeram bem seu dever de casa: Pela beleza e sex-appeal então revelados de Demi Moore, pelo tratamento visualmente acachapante do diretor Adrian Lyne, pela divulgação promocional astuta e instigante e pelo filme bastante sedutor que resultou, “Proposta Indecente” foi muito debatido e comentado na época e, consequentemente, fez imenso sucesso.

O casal de pombinhos apaixonados Diana e David (Demi Moore e o ainda pouco conhecido Woody Harrelson) estão enfrentando uma fase economicamente complicada na relação –e Lyne gasta um tempo demasiado, além de inúmeros recursos estilísticos e melodramáticos para salientar simultaneamente o perrengue que vivenciam e o amor que os une.

A saída para eles parece ser juntar alguma grana e partir para Las Vegas tentar a sorte nos jogos de cassino. Entretanto, as coisas vão mudar quando cruzarem-se com um personagem que representa, digamos, o terceiro vértice desse triângulo amoroso: John Gage, um milionário interpretado por Robert Redford, ainda firme, forte e convicto em sua fase de galã maduro.

Ao vê-la imediatamente John cai de desejos por ela –e, na tentativa de levar o público (em especial o masculino) à compactuar com esta faceta do personagem, o diretor Lyne não economiza maneirismos em sua hábil fotografia para tornar Demi Moore assombrosamente linda e desejável (além das caras e bocas da parte dela própria) –o que leva John, gradualmente, a aproximar-se do casal, a esboçar suas libidinosas intenções para com a moça (despertando diferenciadas reações de indignação no casal, ainda que pouco convincentes) e a propor o acordo que ocupa o cerne da narrativa: Endinheirado e entediado, John enxerga em Diana mais do que uma bela mulher –claro, ele TAMBÉM enxerga isso! –ele enxerga em Diana uma chance de aventurar-se na imponderabilidade de uma relação com riscos e possibilidades que ele a algum tempo não usufrui mais. Sua proposta é a de que ela passe uma noite de amor com ele, com o consentimento de ambos (dela e do marido) e, com isso, ele lhes dará a soma de um milhão de dólares; o suficiente para pagar todas as dívidas que o casal tem.

É desse dilema, e da maneira como se dá sua resolução, que se abastece a narrativa.

Parte de um nicho comercial improvável surgido no cinema hollywoodiano em meados dos anos 1990 –os thrillers eróticos, depois do fenômeno acarretado por “Instinto Selvagem” –“Proposta Indecente” tinha seu pedigree na direção estilosa de Adrian Lyne e na revelação pertinente e válida de Demi Moore, porém, seu resultado final é oscilante em satisfação, sobretudo, em sua cambaleante capacidade de envolver o público, sobretudo, o feminino: O romance nunca engrena por razões que, vistas hoje, parecem um tanto quanto patentes; afinal, se Robert Redford, o milionário desavergonhado e cara-de-pau é charmoso e atrativo, o marido indeciso vivido por Woody Harrelson é desengonçado e feioso. Na narrativa melodiosa e romantizada –aclimatada pela densa e tristonha trilha sonora de John Barry –a escolha de Diana pelo segundo em detrimento do primeiro se dá pela justificativa do amor, mas infelizmente, para demérito da produção, esses rumos moralistas tomados pelo filme jamais se conciliam com a torcida do público.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Ghost - Do Outro Lado da Vida

Ao enveredar por um projeto solo, o diretor Jerry Zucker (outrora famoso por sua colaboração com o irmão David Zucker e com Jim Abrahams nas comédias rasgadas “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu 1” e “2”) saiu-se com uma obra das mais inesperadas: Um romance mediúnico, por assim dizer, mais terno e gracioso do que engraçado, pleno em seu romantismo (potencializado pela canção “Unchained Melody”) ao mesmo tempo que econômico em sua comédia (ainda que o humor esteja lá, em momentos que encontram sua intensidade, graças, sobretudo à Whoopy Goldberg, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante).
Sinônimo de bilheteria na época, o hábil galã Patrick Swayze vive Sam, um rapaz morto em um assalto onde é baleado acidentalmente. Entretanto, seu espírito permanece junto da garota amada, Molly (Demi Moore, curiosamente, antes de virar um furacão sexual nos anos 1990, após “Proposta Indecente”).
Com essa manobra, o afiado, direto e (para a época) originalíssimo roteiro de Bruce Joel Rubin (vencedor do Oscar) dá a guinada que o torna pertinente: A duras penas, Sam acaba aprendendo as idiossincrasias de ser um fantasma (como atravessar paredes, por exemplo) e descobre, imperceptível aos vivos, que seu assassinato foi planejado por seu suposto amigo Carl (Tony Goldwyn, cujo crédito mais expressivo é a dublagem do protagonista de “Tarzan”, da Disney), e que Molly pode ser a próxima vítima dos criminosos.
Para impedi-los ele precisa aprender com um fantasma experiente que assombra as instalações do metrô (vivido por Vincent Schiavelli) como tocar e mover as coisas, já que sua forma é intangível –e nessa oportunidade, a direção de Zucker encontra uma chance para moldar uma série de cenas intrépidas, galantes e líricas que registram o personagem em sua aventura. A única aliada de Sam (e a única que pode se comunicar com ele) é Oda Mae (Whoopi, realmente divertidíssima) uma golpista até então ignorante de sua capacidade mediúnica.
Grande sensação do início dos anos 1990, “Ghost”, com sua receita certeira e bem administrada de uma enxuta e objetiva trama paranormal aliada à avidez do público por um romance funcional (e, de fato, a química entre Swayze e Demi é um dos grandes achados do filme), foi um estrondoso sucesso de bilheteria, e foi também durante algum tempo, poderosamente influente: Não foram poucos os filmes e séries que, naqueles anos, fizeram referência ao seu bem sacado enredo básico.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Noite É Delas

O pior filme já estrelado por Scarlett Johansson. O quê é uma pena, pois seria muito legal ver ela (que, além de símbolo sexual, é também uma grande atriz) mostrar suas capacidades cômicas. Contudo, este "A Noite É Delas" –cuja premissa sugeria uma versão feminina de "Se Beber Não Case" (há ainda espaço para fortes referências a “Missão Madrinha de Casamento” e “Um Morto Muito Louco”) –é, em seus melhores momentos, quando muito, vexaminoso. Tem um tipo de humor muito chulo e norte-americano, calcado em vergonha alheia, onde os roteiristas equilibram um momento constrangedor em cima do outro.
No papel da candidata ao congresso Jess, que está também por se casar, Scarlett parece fazer uma espécie de caricatura de Hillary Clinton (!). Apesar do zelo constante para com sua imagem pública ela aceita com reticências a idéia da melhor amiga Alice (Jillian Bell, péssima, forçada e apática) para se reunir às companheiras de juventude –a atual dondoca Blair (Zoe Kravitz) e a ativista maconheira Frankie (Ilana Glazer) –para uma despedida de solteiro em Miami.
À elas, mais tarde, junta-se uma amiga australiana de Jess, a sem noção Pippa (Kate McKinnon, o mais próximo de uma comediante de verdade que este filme consegue chegar).
Na primeira noite, contudo, um stripper contratado por elas acaba morto (naquela que deve ser uma das cenas mais incompetentes, constrangedores e obtusas deste ano no cinema) deixando todas em maus lençóis.
É claro que complicações um bocado previsíveis se seguem: As tentativas gaiatas –e potencializadas num humor negro muitas vezes inconveniente –de esconder o cadáver de possíveis testemunhas que aparecem; as intervenções ocasionais (feitas com intenção de serem engraçadas, mas absolutamente redundantes) do noivo de Jess (Paul W. Downs, perdido feito cego em tiroteio); e a participação sem maior relevância –e um tanto vulgar –de Demi Moore e Ty Burrell como um casal liberal e sexualmente libertino (a cena do threesome deles com Zoe Kravitz é outro momento pleno de constrangimento).
Perto do fim, o roteiro realiza sua maior e mais previsível manobra de obviedade revelando quem o morto realmente é, livrando a cara das protagonistas e convertendo o filme (que já não era nenhuma obra-prima) numa esquemática resolução de combate ao crime.
Fazer comédia é uma coisa complicada: Requer não só talento e timing, como é necessário também que haja uma sintonia pontual entre a desenvoltura de seu elenco e forma com que a direção e o roteiro urgem as seqüências cômicas. Essa é somente a primeira das grandes e inúmeras falhas que se pode detectar de imediato aqui.

Um besteirol moderno com pretensões feministas que jamais chegam a se concretizar, nada mais.

sábado, 9 de setembro de 2017

Margin Call - O Dia Antes do Fim

O cinema de J.C. Chandlor propositadamente não se revela um cinema fácil. Os poucos, mas incisivamente relevantes títulos de sua filmografia são esforços talentosos e implacáveis de radiografar, em suas tintas mais antropológicas, os lampejos selvagens do homem civilizado quando confrontado com uma situação à beira do desespero.
Nesse contexto, “Margin Call”, o filme que o revelou, é o mais perfeito exemplo dessa postura.
Seus personagens transitam num mundo asséptico, frio, quase mecânico e, dentro desses parâmetros de impressão, supostamente imutável. É isso, contudo, que a premissa, tão interessante ao seu diretor, revelará que eles perderão.
É um firma de corretores de Manhatan, e os executivos engravatados disputam entre si pela supremacia profissional. São meados de 2008 e, como sabe o expectador bem informado, é iminente a quebra na bolsa de valores que chacoalhou o sistema econômico mundial.
Os personagens que integram a fauna de “Margin Call”, entretanto, ainda não sabem disso. Ou melhor: A maior parte deles ainda não sabe; executivo júnior, dos muitos pressionados a demonstrar capacidade e eficiência em seu trabalho, Peter Sullivan (o ótimo Zachary Quinto, o Spok da nova versão de “Star Trek”), descobre, durante um extra no expediente, que alguns números nas estatísticas apontam algo incomum. Ou eles estão improvavelmente errados, ou eles sinalizam uma catástrofe em andamento. Algo que, por enquanto, só foi percebido por acaso: Em 24 horas, as ações imobiliárias que no dia anterior tinham preço elevado não terão valor algum. É madrugada, faltam algumas horas para o dia começar e, portanto, para que se inicie a jornada profissional em meio à qual todo o resto do mundo descobrirá aquilo que Sullivan antecipou.
Uma vantagem terrível da qual o executivo sênior Sam Rogers (o grande Kevin Spacey) tem lá seus escrúpulos em tirar proveito. Mas, não o executivo de alto escalão John Tuld (Jeremy Irons, brilhante e ameaçador), para ele a utilidade de tal dádiva é bastante clara: Os corretores têm cerca de oito horas para se desfazer das ações antes que a bolha na economia estoure. Em resumo, eles irão vendar os próprios olhos para o prejuízo alheio e garantir que escapem incólume à catástrofe, agindo como os predadores que são; se essa catástrofe é uma força irreprimível da natureza, então, eles irão se valer dos recursos que lhe caem a mão para sobreviver da única forma que a escola da vida, e o sistema capitalista lhes mostrou possível: A seleção natural.
É pois como uma grande, circunspecta e impiedosa análise comportamental e antropológica que o grande filme de Chandlor então se sustenta.