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sábado, 21 de outubro de 2023

Bobby


 Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático em 2006 –tendo perdido para “Babel” de Alejandro Gonzáles Iñarritu –“Bobby” é uma obra que reúne um elenco numeroso e respeitável, todos esses atores e atrizes dando vida a personagens periféricos em torno da figura maior, sobre a qual pairam as maiores reflexões que este trabalho almeja suscitar: O então candidato à presidência dos EUA, Bobby Kennedy, irmão do mesmo John F. Kennedy, morto à tiros em Dallas cinco anos antes, que, naqueles idos de 1968, era uma esperança para a América –os EUA começavam a enxergar com contestação a Guerra do Vietnam, e os conflitos raciais (o assassinato de Martin Luther King havia sido recente) geravam turbulência em todos os cantos do país. Idealista, jovem e carismático –e representante de uma estirpe política vista com ingênua adoração pelo povo americano –Bobby era um raro caso onde tinha a seu favor a simpatia de todas as classes sociais norte-americanas. Seus discursos enalteciam a união do povo, sua verve era inteligente, polida e esperançosa. Bobby, em suma, era a última esperança para os EUA que adentravam o período mais conturbado de sua História recente.

Todavia, Bobby Kennedy foi alvejado à tiros –um exemplo macabro que parecia repercutir, de alguma forma, a tragédia de seu irmão –ao sair de um discurso, em plena cozinha do Hotel Ambassador, onde foi para comemorar a vitória de sua candidatura para presidente, em eleições a serem disputadas contra Richard Nixon no ano seguinte. O filme surpreendentemente dirigido pelo ator Emilio Estevez (cujo pai, Martin Sheen, também se encontra no filme) não cede à tentação de escalar um ator para interpretar Bobby e converter este num recorte de suas últimas horas –ao invés disso, “Bobby” usa da tragédia notória deflagrada em seu cerne para observar os seres humanos que orbitavam Bobby  naquele momento, e quais teriam sido suas expectativas, e de que maneira seus futuros foram arremessados num turbilhão de perplexidade que, à sua maneira, resumiu o subconsciente norte-americano nas décadas seguintes.

A começar a trama naquele 6 de junho de 1968, temos o gerente do hotel, Paul (William H. Macy) ocupado em administrar todos os afazeres dos inúmeros funcionários para a recepção das comemorações do Partido Democrata, o que inclui a apresentação da cantora Virginia Fallon (Demi Moore) que traz à tira-colo seu marido Tim (o próprio diretor Emilio Estevez) e todos os problemas que seu alcoolismo vem acarretando ao seu casamento. De outro lado, há o porteiro John Casey (Anthony Hopkins), viúvo e aposentado, cuja solidão o leva a enxergar o Ambassador como seu segundo lar. Ele tem a ocasional companhia do igualmente desiludido e solitário Nelson (Harry Belafonte, de “O Diabo, A Carne e O Mundo”), junto de quem tece intermináveis conversas sobre o avanço da idade regadas à muito uísque. No staff de funcionários do Ambassador, o filme concebe um pequeno microcosmos da América: Na cozinha, regida pelo insensível Timmons (Christian Slater), o jovem imigrante José (Freddy Rodriguez, de “Garotas Sem Rumo”) se ressente da folga que lhe foi negada naquela noite, embora encontre relativo alento na serenidade contagiante do cozinheiro-chefe, Edward (Laurence Fishburne, extraordinário). No salão de beleza do lugar, a cabeleireira Miriam (Sharon Stone) tem de se desdobrar enquanto atende os caprichos de Virginia Fallon ao mesmo tempo em que prepara a jovem noiva Diane (Lindsay Lohan), disposta a casar com o jovem William (Elijah Wood) para livrá-lo do compromisso com o exército, e ainda descobre um inesperado adultério de seu marido –o gerente Paul, à propósito –com uma das telefonistas do hotel (Heather Graham). Entre os hóspedes, o casal Jack (Martin Sheen) e Samantha (Helen Hunt) se vê às voltas com a compulsão de compras (dela) e um resíduo de depressão (dele) enquanto lidam com as expectativas ao seu redor. E, em meio às deliberações do Partido Democrata, cujos delegados se encontram no hotel, os jovens estagiários Jimmy (Shia LaBeouf) e Cooper (Brian Geraghty) escapam de suas responsabilidades para descobrir os efeitos do LSD junto do fornecedor de drogas local (uma ponta de Ashton Kutcher).

O roteiro, escrito pelo próprio Emilio Estevez, une personagens reais e (muitos) fictícios para elaborar uma espécie de afresco que ganharia muito mais propriedade nas mãos de um diretor como Robert Altman –na verdade, parece ser o trabalho e o estilo dele que, em muitos momentos, “Bobby” busca emular, sem no entanto escapar de uma ligeira superficialidade. Felizmente, Emilio Estevez soube escolher realmente um elenco primoroso para honrar seus vários personagens (os embates interpretativos entre Sharon Stone e Demi Moore e entre Anthony Hopkins e Harry Belafonte são particular sensacionais de se assistir) e sua mescla de trama real com ficção dramatúrgica –bem como as emendas documentais com o filme propriamente dito –são executadas com primor e profissionalismo inquestionáveis.

São acertos assim que tornam “Bobby” um filme válido, e ampliam de fato a percepção dramática presente na reflexão em torno da tragédia que se sucede no desfecho –já com um considerável distanciamento de tempo em relação aos eventos traumáticos para o povo americano que reconstitui, o filme de Emilio Estevez vislumbra, sem muito ratificar, as possibilidades perdidas, os sonhos devastados e a esperanças à mingua que acontecimentos como aquele legaram ao país. No final, sua pouca inclinação ao sutil acaba tem um saldo positivo: Apesar dos pesares, não é um filme que confronta o expectador com a desesperança e a tristeza inerentes à sua época.

Se fosse Robert Altman, o papo seria outro.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

O Melhor Jogo da História


 Ainda nas primeiras décadas do Século XX, o jovem Francis Ouimet (Shi LaBeouf, despido dos cacoetes que depois comprometeram sua carreira) protagonizou uma circunstância de superação sem precedentes: Filho de um humilde operário (Elias Koteas), imigrante irlandês morador de Boston, ele, que até seus módicos 16 anos havia tão somente trabalhado como carregador de tacos no prestigiado clube de golfe local, inscreveu-se no disputado campeonato aberto de golpe, o U.S. Open, como amador. Até então, o clube e seus associados –abastados que, com frequência, confundiam tradição com elitismo –experimentavam um impasse indigesto: Os últimos campeonatos haviam sido conquistados por ingleses, no entanto, seu competidor, John McDermott (Michael Weaver), estava disposto a quebrar essa hegemonia e não deixar esse título escapar das mãos dos norte-americanos. O problema é que o então campeão mundial, o britânico Harry Vardon (Stephen Dillane, de “As Horas”) e seu parceiro Ted Ray (Stephen Marcus, de “Jogos, Trapaças e DoisCanos Fumegantes”) formavam uma dupla imbatível que não tarda, nas disputas eliminatórias, a deixar McDermott para trás e desclassificá-lo.

É o jovem Francis, subestimado como perdedor certo, quem vai galgando timidamente as posições do campeonato –auxiliado por seu ajudante infantil, e ladrão de cenas do filme, Eddie (o fantástico Josh Flitter, de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”) –e termina disputando o primeiro lugar diretamente com os campeões do mundo.

Uma história real que parecia predestinada a se converter numa daquelas peças de cinema perfeitas a evocar a narrativa de perseverança e edificação das obras antológicas de Frank Capra –e só um estúdio subsidiário da Walt Disney mesmo, como a extinta Touchstone Pictures, para comprar, em pleno ano de 2005, tal ideia! Coube ao ator Bill Paxton reconhecer tais elementos de gênero tão prontamente identificáveis na história de Francis Ouimet e arregaçar as mangas como diretor (ele havia dirigido um único trabalho anteriormente, o terror “A Mão do Diabo”) para de fato transformá-la em filme.

Como numa atenciosa receita de bolo, todos os ingredientes estão lá, caprichosamente administrados: Junto da trama de superação e obstinação a recompensar a tenacidade dos puros de coração estão o romance de classes sociais distintas entre o protagonista proletário e a mocinha de família rica (Peyton List) –e, como tal, tanto o pai como o irmão dela se opõem firmemente (e vilanescamente) ao romance –a oposição paterna na qual o patriarca não consegue reconhecer o talento do filho e instala drama e conflito na narrativa ao impor sua retrógrada reprovação ao rapaz, e a amizade divertida, cheia de pequenas farpas, que nasce gradualmente, até converter-se em lealdade à toda prova, entre o protagonista e seu jovem escudeiro (carregador de tacos, no caso...).

Aproveitando habilmente alguns recursos cinematográficos à disposição –nos quais os jogos de golfe são convertidos em exercícios de envolvente virtuosismo com a câmera simulando o trajeto da própria bolinha até o buraco, e outros truques visuais interessantes –o diretor Paxton extrai de tudo isso um entretenimento simpático e agradável, cuja provável cumplicidade do expectador é recompensada com instantes de genuíno suspense durante os tensos vinte minutos finais. Seu único tropeço é o fato, um bocado incontornável, de que o golfe é um esporte frequentemente elitista, cujas regras e normas de postura são pouco conhecidas do público médio ao qual, em sua simplicidade, o filme parece se dirigir.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Transformers - O Lado Oculto da Lua


 Tivesse qualidade palpitante como entretenimento (tal qual o primeiro filme) ou fosse uma porcaria indefensável (tal qual o segundo), uma coisa ficou clara: A franquia “Transformers” era rentável. A crítica poderia expor, em minúcias, onde tudo estava errado –e quase sempre dizia respeito ao estilo histérico e espalhafatoso do diretor Michael Bay –mas, o público comparecia em peso nas bilheterias. Diante dessa constatação, não havia como não aprovar a realização de um terceiro filme tão logo o segundo fez dinheiro o suficiente para se pagar.

Embora tenha gerado relativamente menos expectativa do que o filme anterior –a parcela mais exigente do público já havia entendido que a qualidade se restringiu ao filme inaugural da saga –esta terceira produção não deixou de enfrentar alguns contratempos, além de vir pontuada com alguns indícios de que, sim, Michael Bay, apesar dos pesares, estava atento às reclamações dos expectadores e fez questão de compor um filme que se afastasse de muitas das notórias características negativas apontadas em “A Vingança dos Derrotados”. Em seu novo filme, por exemplo, ele deu uma ênfase mais dedicada aos personagens dos robôs (aqui, mais influentes na história); enxugou consideravelmente o excesso de piadinhas, tornando-as mais pontuais (embora, na boca de Shia LaBeouf, continuassem irritantes); aboliu completamente a ambientação insistente do deserto presente nos dois filmes anteriores; e acima de tudo, devolveu seu jovem protagonista, Sam Witwick (LaBeouf), ao status de perdedor nato –o que contraria, de forma um tanto incômoda, a postura de “bonzão” que ele ostentava na produção anterior.

Houve outro fator –este um pouco inesperado –que tornaram as coisas diferentes neste terceiro filme: A personagem de Megan Fox, Micaela (que, notamos, teria muito mais peso nesta trama) acabou sendo retirada. O motivo: Alegações meio inconsequentes da parte da atriz (afirmando que Michael Bay era um carrasco com o elenco e a equipe, comparando-o à Hitler) deixaram descontente o produtor Steven Spielberg que, imediatamente, ordenou o afastamento dela. Em seu lugar, foi escalada a modelo Rosie Huntington-Whiteley (namorada do astro de ação Jason Statham) a fim de interpretar o novo interesse amoroso de Sam, Carly –entretanto, é visto e perceptível que, embora mudasse o nome da personagem e a beldade que a interpreta, tudo o mais no roteiro de “O Lado Oculto da Lua” trata como se ela ainda fosse Micaela. Tanto é que Megan Fox realmente estava lá nas primeiras semanas de gravação!

Enfim vamos à história: Ingressando na vida adulta (e obviamente assumindo um cargo de simbólica inferioridade perante seu chefe interpretado por John Malkovich), Sam vive uma fase complicada. A namorada (agora, Carly) já não lhe dá atenção, ocupada que está com seu próprio emprego (e com as exigências do patrão vivido por Patrick Dempsey). E seu melhor amigo, Bumblebee, um dos Autobots, finalmente se deu conta de que é mais que um carro de estimação de um humano e agora se ocupa das missões junto dos demais Autobots, sem ter muito tempo para ele –atitude, diga-se, completamente oposta da demonstrada pelo personagem no outro filme.

Os Autobots, por sua vez, liderados por Optimus Prime, têm assuntos realmente sérios com os quais lidar: Atuando em parceria com o governo dos EUA –personificados na personagem pouco aproveitada da grande Frances McDormand –os Autobot acabam descobrindo que a relação entre sua espécie e a dos seres humanos remonta há mais tempo do que parecia, no caso, desde a chegada do homem na Lua (reconstituída num prólogo todo pomposo), onde foi descoberta toda uma base ocupada de Decepticons.

É preciso muita boa vontade do expectador para que seja comprada a proposta de “O Lado Oculto da Lua” ao fazer drama e suspense com a suposição realista de uma invasão alienígena, tantas vezes que esse filão já foi explorado pelo cinema. No que diz respeito ao estilo de Michael Bay, pouca coisa mudou de fato, não obstante seus esforços: As cenas de ação em geral brilham com sua execução exemplar –as técnicas 3D turbinaram os efeitos visuais, influenciados pelo fenômeno “Avatar” poucos anos antes –mas, toda essa extravagância perde qualquer respaldo quando a narrativa busca apoio nos quesitos que deveria ser sólidos, mas não são: Como o roteiro (redundante e, ocasionalmente, até vergonhoso), os personagens (construídos com visível preguiça) e o elenco (orientado de maneira grosseira e superficial). “O Lado Oculto da Lua” é o tipo de filme cujas falhas gritam muito mais alto que seus acertos.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Transformers - A Vingança dos Derrotados


 Produzido por Steven Spielberg, o primeiro “Transformers”, quando aportou nas salas de cinema no ano de 2007, revelou-se um belo achado: Descobrimos que o estilo bombasticamente sinético de Michael Bay poderia se encaixar com certa propriedade num produto oriundo da cultura pop dos anos 1980; descobrimos o promissor potencial (depois de um tempo não consumado) do jovem protagonista Shia LaBeouf, além da formosura de Megan Fox. Também descobrimos as vastas possibilidades na área do entretenimento que poderia nos oferecer a arrojada combinação entre robôs gigantes e efeitos visuais de ponta. Um sucesso absoluto.

E como costuma ocorrer com sucessos absolutos, a continuação foi quase um reflexo espontâneo. O problema: Apesar das honoráveis exceções de “O Poderoso Chefão Parte II”, “O Império Contra-Ataca” e alguns outros, Hollywood pouco aprendeu sobre a fina arte de realizar continuações tão boas quanto seus originais. E não haveria de ser o ansioso, truculento e afoito cinema de Michael Bay que possuiria bom senso o bastante para dar uma pausa, observar tudo o que funcionou no primeiro filme (que seriam o carisma de alguns personagens e o apelo dos imensos robôs que viravam carros, combinados num roteiro profundamente referencial às aventuras dos anos 1980) e replicá-lo com critério, parcimônia e elegância no segundo. Em vez disso, Michael Bay –provavelmente agraciado com muito mais liberdade criativa aqui –potencializou tudo o que havia no filme anterior, tornando-o maior, mais longo, mais intenso e mais frenético, beirando assim o insuportável. As piadinhas (em especial, aquelas partidas de Sam, personagem de LaBeouf) se eram pontuais, espontâneas e genuinamente divertidas antes, se multiplicaram de forma a logo cansarem, tal é a frequência com que saem insistentemente (e agora sem tanta espontaneidade) da boca do protagonista (e, aqui neste caso, dos coadjuvantes também); os efeitos visuais flertando com o revolucionário, se representavam os maiores chamarizes daquela produção (similar ao que “Jurassic Park” fizera pouco mais de uma década antes), agora predominavam de tal maneira em cena (e com tamanha ausência de cuidado ao serem inseridos em qualquer contexto) que logo enjoavam, devido a profusão com que robôs de todas as cores, todos os formatos e tamanhos (até mesmo uns nanicos colocados na trama sem a menor relevância!) apareciam na tela.

Em sua trama pouco inspirada, também “A Vingança do Derrotados” se mostrava uma espécie de equívoco: Disposto talvez a não arriscar, os roteiristas Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman trilhavam todos os segmentos narrativos do filme anterior, revisitando-os, e acrescentando adendos situacionais que não somavam em absolutamente nada ao enredo. É dessa maneira que o outrora perdedor, Sam Witwick, agora namorando a espetacular Micaela (Megan Fox) ingressa na faculdade para tristeza de seu melhor amigo, o autobot Bumblebee –e todas as piadas já recauchutadas do primeiro filme onde Bumblebee não consegue falar e usa das músicas do rádio para se comunicar são repetidas aqui, como se fossem novidade (!); também a questão um tanto estranha de um jovem adulto não se empolgar com a presença de um robô alienígena e nem de um sex-simbol ambulante como Micaela em sua vida é bastante forçada (tanto que esses elementos serão revistos e contrariados no filme seguinte, mas aí é outra história...). Em meio ao processo de  adequação à faculdade de sempre (mostrado com todos os clichés possíveis, incluindo os valentões da vez), Sam segue demonstrando mais interesse no tédio da vida estudantil acadêmica do que nas circunstâncias assombrosas com as quais se deparou no primeiro filme, até que os perversos Decepticons retornam com um plano de trazer seu líder, Megatron, de volta à vida. O que, em resumo, leva ao caos barulhento e visual que costuma acometer os filmes de Michael Bay –e que ele considera cenas de ação –atingindo seu clímax numa sequência em plenas Pirâmides do Egito.

Não se pode negar que haviam algumas boas intenções no projeto deste segundo “Transformers”: Ao abordar ligeiramente a subtrama da “morte de Optimus Prime”, o roteiro fazia uma ligeira referência ao longa-metragem de animação, “Transformers-O Filme” (lançado ainda durante a época gloriosa do desenho animado, em 1986) tomando emprestado um dos mais dramáticos e marcantes arcos narrativos acompanhados pelos fãs. Uma pena que, de tudo aquilo, muito pouco sobrou: O roteiro de Kruger, Orci e Kurtzman mal aproveita as circunstâncias esboçadas na animação oitentista –que, com não muita atenção, pode-se notar que era muito mais bem roteirizada, mesmo sendo um produto infantil, do que todos os mais recentes longa-metragens feitos para cinema, presumidamente feitos para adultos.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Conquistas Perigosas


 Assim como o cinema comercial, o cinema independente norte-americano é ocasionado por certas fórmulas. “The Necessary Death Of Charlie Countryman” –ou “A Morte Necessária de Charlie Countryman”, título literal deste “Conquistas Perigosas” –até que começa orientado por esse tipo de fórmula: O drama pesado marginal e silencioso, onde os personagens perscrutam, com contundente pose, as aflições da vida suburbana.

O protagonista Charlie, vivido por Shia LaBeouf (numa atuação que, longe de ser brilhante, ao menos desvencilha-se dos cacoetes irritantes que ele desenvolveu em alguns projetos), vive as agruras de testemunhar os últimos dias de vida da própria mãe (Melissa Leo), e quando tal fatalidade enfim se concretiza, sente-se perdido.

Visitado pelo fantasma dela (!), ele recebe o tardio conselho de partir em viagem em busca de si mesmo, sugerindo-lhe a cidade de Bucareste.

Logo após esse princípio depressivo e convencional, o filme dirigido por Fredrik Bond começa a demonstrar algum fôlego próprio, e alguma autenticidade a medida que pontas soltas justapostas com enganosa aleatoriedade começam a se juntar numa narrativa, senão equilibrada ou harmoniosa, pelo menos com certeza envolvente: No avião, Charlie faz uma relutante amizade com o romeno de meia-idade Victor (Ion Caramitru) que vem a falecer antes mesmo do avião chegar ao destino final (!). O último desejo de Victor era que Charlie entregasse para a filha dele, Gaby (Evan Rachel Wood) um gorro que ele comprou para ela nos EUA.

Contudo, Charlie apaixona-se pela moça e, junto com o amor hesitantemente correspondido, veem também as encrencas; Gaby havia antes se envolvido com o perigoso Nigel (Mads Mikkelsen), truculento assassino que não larga mais do pé do desafortunado americano. Junto de Nigel –e por motivos que o roteiro não consegue ou não se importa em esclarecer de maneira satisfatória –está também o gangster Darko (Til Schweiger, de “Bastardos Inglórios”) e ambos estão interessados numa certa fita, registro visual de um flagrante comprometedor para os dois, e que Victor usava, até então, para afastar Nigel de Gaby.

Agora, cabe a Charlie a tarefa de ajudar Gaby e livrá-la da presença desses antagonistas em sua vida –ou assim ele acredita. Apesar da trama sinalizar com elementos descontraídos de aventura e romance –e de fato trazer muitas cenas que correspondem a esses gêneros –a direção de Fredrik Bond almeja imprimir características mais estilosas ao resultado: Na dramaturgia algo esquizofrênica que preenche seu andamento –onde o filme se perde em sub-tramas estranhas, como a dos amigos drogados de Charlie vividos por James Buckley e Rupert Grint –a direção tenta evocar um estilo que lembra muito o de Sofia Coppola, com uma etérea trilha sonora e sua visão agridoce e alternativa da condição abstrata dos jovens na sociedade contemporânea.

Essas opções de ordem narrativa dão sabor ao prato, não restam dúvidas, mas, dificilmente o filme e seu cômputo geral (seja ele bom ou ruim) escapam do fato de que o espalhafatoso estilo empregado pouco acrescenta realmente a uma obra que não almeja ser mais que entretenimento.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Controle Absoluto

Rendendo uma bem azeitada parceria em “Paranoia”, o jovem astro Shia LaBeouf e o diretor D.J. Caruso tornaram a reunir-se sob a asa do produtor Steven Spielberg neste projeto consideravelmente mais ambicioso.
Houve quem dissesse, na época, que se “Paranoia” era uma versão modernizada de “Janela Indiscreta”, então, “Controle Absoluto” era uma versão modernizada de “Intriga Internacional”.
Não é bem assim.
Co-produzido por Alex Kurtzman e Robert Orcci e roteirizado por Dan McDermott (autor da ideia original), John Gleen, Hilary Seitz e Travis Adam Wright, “Controle Absoluto” era uma trama de espionagem e aventura das mais mirabolantes a tentar unir, num único pacote, elementos da então festejada “Trilogia Bourne”, o reverberante temor americano pós-11 de setembro, tecnologia de ponta (com o vasto aparato de câmeras de segurança, redes de network e aparelhos celulares surgindo como ferramentas fundamentais no roteiro), ação ininterrupta, uma discussão algo rasa sobre a vigilância governamental e referências pós-modernas ao Grande Irmão de “1984 de Orwell”.
Uma das pontas soltas do emaranhado de fios narrativos que vai se construindo ao longo do filme, o personagem de Shia LaBeouf, Jerry Shaw, recebe a devastadora notícia da morte de seu irmão gêmeo.
Paralelamente, outras coisas acontecem, como o fato de Rachel, a mãe solteira vivida por Michelle Monaghan, deixar seu filho pequeno ir, de trem, a uma apresentação musical de sua escola, na cidade de Washington.
No mesmo dia, Jerry recebe em seu apartamento, uma misteriosa remessa de armas e apetrechos que o tornam um suspeito de terrorismo aos olhos da lei –uma das muitas manobras sem muita lógica do roteiro que parece mais interessado em justificar o corre-corre do que em estruturar uma trama sem furos. Na delegacia, Jerry recebe o telefonema de uma mulher desconhecida (na voz da atriz Julianne Moore, à propósito) que lhe instrui, de forma quase premonitória, à perpetrar uma fuga inacreditável: Um guindaste arromba a parede da sala onde ele se encontra, e a tal voz parece ser capaz de controlar o fluxo dos trens do metrô para faze-lo seguir o rumo que ela deseja.
O mistério acerca de quem ou o quê é a voz no telefone não se sustenta do modo como poderia se imaginar –ou porque, em sua empolgação, o diretor Caruso não demanda maior atenção a isso, ou porque lhe falta perspicácia para realizá-lo: A voz é, pois, de uma inteligência artificial operando de dentro do próprio Pentágono e, no plano nebuloso que ela parece desenvolver, estão incluídos não só os perplexos Jerry e Rachel (que, coagidos cada qual à sua maneira, logo se veem lado a lado), como também o Agente do FBI Thomas Morgan (Billy Bob Thornton), a Investigadora da Força-Aérea Zoe Pérez (Rosario Dawson), o Major Bowman (Anthony Mackie, antes de virar o Falcão em “Capitão América-Soldado Invernal”) e o Secretário de Defesa Callister (Michael Chiklis, da série “The Shield” e do filme “Parker”).
Acelerado, dotado de uma produção ostensiva à cargo de Spielberg, e orgulhoso das reviravoltas que entrega minuto e minuto num ritmo perigosamente enervante e quase inverossímil, “Controle Absoluto” é um filme de ação high-tech a demonstrar, acima de tudo, um comando bastante seguro e convicto de D.J. Caruso, que não perde a mão, nem mesmo quando o filme ameaça ruir diante das próprias pretensões narrativas na sua parte final.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Paranoia

Diz-se de “Paranoia” que foi uma ideia ocorrida à Steven Spielberg –pura bajulação, uma vez que não passa de uma versão modernosa de “Janela Indiscreta”, de Hithcock –quando este teve a iniciativa de produzir um exemplar de filme comercial nos moldes daqueles que ele executou nos anos 1980, dirigido e estrelado por seus apadrinhados, e que marcaram uma geração de expectadores –como “Os Goonies”, “Gremlins”, “De Volta Para O Futuro” e outros.
Os apadrinhados desta vez eram o diretor D.J. Caruso e o jovem candidato a astro Shia LaBeouf (que, em meados de 2007, gozava de alta conta junto à Spielberg que colocou-o como protagonista em “Transformers” e ainda o escalou para “Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal”).
LaBeouf é Kale Brecht, jovem norte-americano, morador de um bairro residencial que acaba em prisão domiciliar devido à um surto violento ocorrido na escola, acarretado pela morte do pai.
Com uma tornozeleira eletrônica –e não uma perna engessada como o personagem de James Stewart –e, por conta disso, sem poder deixar a área da casa e quintal onde mora com a mãe (Carrie Anne-Moss), tudo o que Kale pode fazer é transformar o ato de bisbilhotar os vizinhos numa arte; isso e emergir em buscas pela internet e jogos de videogame (o emprego imodesto de tecnologia nos desdobramentos da trama é o grande diferencial abraçado pelo filme em sua evocação de modernidade).
Durante essa rotina voyeurística de espionagem, duas coisas terminam por chamar a atenção de Kale acima das outras: Uma, a chegada –um tanto providencial –de uma nova vizinha, a bela, jovem e descolada Ashley (Sarah Roemer, formando um belo parzinho com LaBeouf), que não tarda a se tornar sua amiga e (a despeito da enfatizada contradição do nerd estranho enamorando-se da garota bonita e popular) a compactuar com suas excentricidades.
A outra coisa, vem a ser o vizinho da casa dos fundos (vivido pelo sempre eficiente David Morse, de “Contato”), recluso, pouco sociável e de hábitos que vão revelando, ao escrutínio cada vez mais indiscreto de Kale, a possibilidade dele ser um assassino em série (!).
É claro que a narrativa de D.J. Caruso e o roteiro de Christopher Landon e Carl Ellsworth aproveitam até o limite do divertidamente tolerável a batida situação do protagonista que antecipa todo o mal, mas é incapaz de prová-lo aos céticos personagens coadjuvantes à sua volta –até que seja tarde demais.
“Paranoia” é, quando muito, um conceito –um exercício de imaginação que muito pouco muda os elementos que compõem a estrutura da narrativa idealizada por Alfred Hitchcock em seu clássico imortal.
O frenesi de seu suspense e a diversão de seus cento e cinco minutos de duração funcionam porque o diretor Caruso compreende a redundância desse detalhe e usa de seus recursos para tornar tudo ágil, dinâmico, envolvente e saboroso, tal qual um delicioso bolo de chocolate, como diria o próprio Hitchcock.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Corações de Ferro


Quase não existem regras (ou seria melhor dizer clichês) que a realização de David Ayer (de “Esquadrão Suicida”) não segue dentro dos cânones dos filmes de guerra ambientados na Segunda Guerra Mundial.
Prova mais contundente de que o estilo de Ayer como diretor não exatamente prima pela forma sobre o conteúdo, mas pela caracterização antes da profundidade, “Corações de Ferro” parece preocupar-se mais com o figurino impecavelmente realista, com a direção de arte meticulosa (em meio à qual o tanque é o exemplo mais formidável) e com todas as caprichadas facetas técnicas e visuais do que propriamente com a coerência do que está sendo contado.
Fury é o nome do tanque de guerra capitaneado com mão de ferro pelo exigente e rude Sargento ‘Wardaddy’ Colliers (Brad Pitt, bastante à vontade num personagem autoritário e solene). Embora seja retratado durante a maior parte do tempo como alguém severo, Colliers é quem mantem sua equipe unida e segura ao longo de todas as incertezas da guerra.
Quando um de seus condutores morre, um novo membro se integra à já veterana equipe, o idealista e ingênuo Norman (o jovem Logan Lerman).
De imediato, a equipe –formada pelo crédulo Boyd (Shia LaBeouf, tentando e falhando como sempre), Grady (Jon Bernthal, uma boa presença) e Gordo (o ótimo Michael Peña), todos brutalizados pelo combate –rejeita seus modos civilizados e seu discurso de ética em meio à guerra.
As circunstâncias da guerra –ou melhor dizendo as circunstâncias de todo o filme hollywoodiano de guerra –irão modificar essas impressões: Colliers mostrará, na aridez do campo de batalha, que tem um coração; Norman descobrirá sua própria capacidade de matar (e com ela sua coragem); os outros soldados revelarão que são capazes de ser bons e leais amigos; e todos formarão uma espécie de família (ainda que esses laços padeçam de profundidade), cuja unidade será posta severamente à prova no desfecho.
Se há uma obra que parece orientar “Corações de Ferro” num nível mais onipresente do que se poderia esperar, é “O Resgate doSoldado Ryan”: Da pirotecnia empregada sem modéstia por David Ayer, ao estilo despojado de sua encenação, na estrutura de sua própria trama e até na proposta do filme como um todo, tudo remete ao trabalho de Spielberg que foi tão transgressor no fim dos anos 1990 quando foi lançado.
Da mesma forma. a premissa parece aproveitar um bocado a idéia central de um notável cult dos anos 1980, "A Fera da Guerra", de Kevin Reynolds, também ele quase todo ambientado dentro da tensão claustrofóbica de um tanque de guerra.
Alguém podia, no entanto, avisar David Ayer que muita gente conhece tais filmes: Gente o suficiente para perceber o quanto o trabalho dele acaba indo muito além da mera homenagem ou referência.
Da forma como é concebido, “Corações de Ferro” é tecnicamente bem feito o bastante para satisfazer plenamente àqueles expectadores que gostam de um filme de guerra que prima pela ação, sem importar-se tanto com a trama ou os personagens.
Quem esperar um capricho autoral que defina melhor a construção das cenas ou o rumo das atuações, ou mesmo um trabalho onde se possa identificar um esforço original de fato e não um arremedo de tudo que já foi feito antes, poderá acabar tendo que exercitar a paciência.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Transformers

Diretor cuja carreira é indissociavelmente atrelada aos filmes de ação (e dos mais descerebrados possíveis!), Michael Bay ganhou uma franquia à qual relacionar seu nome quando aceitou o convite do produtor Steven Spielberg para comandar a primeira adaptação cinematográfica dos famosos brinquedos de Hasbro (e que renderam uma bem-sucedida série de desenhos animados a partir dos anos 1980): Transformers, os robôs que viravam carros.
Spielberg demonstrou, com essa escolha, apurado faro mercadológico; ele percebeu que Bay, com seu estilo de filmar a ação, obcecado com o visual publicitário, daria a roupagem adequada ao filme –de fato, a maneira com que o diretor consegue fetichizar as máquinas já é meio caminho andado, dando aos robôs gigantes uma identificação humana que os formidáveis efeitos visuais só tratam de potencializar.
Ainda assim, o fio narrativo de Bay, por mais frágil que seja, necessita de uma contraparte humana de fato, que vem a ser Sam Witchwyck (personagem que Shia LaBeouf interpretada com improviso desesperado), um adolescente com uma única coisa em mente: Convencer seu pai a lhe comprar um carro e obter meios para assim impressionar a garota mais bela da escola, Michaela (a espetacular Megan Fox).
O carro em questão, porém, não é bem um carro: Trata-se de um robô alienígena (!), Bublebee, vindo do planeta Cybertron, consumido por uma guerra intergaláctica entre os honrados Autobots (dos quais Bublebee faz parte, assim como seu líder, Optimus Prime, e seus demais companheiros) e os perversos Decepticons (liderados pelo cruel Megatron). As duas facções de robôs gigantes trazem sua guerra para a Terra à procura de um artefato denominado “Allspark”, um cubo dotado do poder de atribuir vida às máquinas –ou algo assim...
E o quê um mero adolescente americano com hormônios em fúria tem a ver com um conflito que ameaça todo o planeta? Como é habitual aos filmes de Bay, tais amarras menos relevantes (!) o filme trata de realizar da forma mais rudimentar possível (e esse é o mesmo tratamento dado à dezena de outros personagens que surgem de forma um pouco aleatória na trama); o que interessa ao seu diretor é a ação ininterrupta –cujo elevado volume suplanta qualquer atenção à história, às motivações ou à dramaturgia –as imagens exuberantes captadas em filtros de câmera estilosos e, no caso deste filme em especial, prestar homenagem ao seu produtor, Spielberg, por meio de uma série de pequenas referências: A relação de amizade entre Sam e Bublebee remete (ou, pelo menos tenta remeter) ao afeto entre Elliot e o alienígena em “E.T. O Extraterrestre”; o caminhão no qual Optimus Prime se transforma faz alusão ao modelo usado no suspense “Encurralado”; o diminuto decepticon que cria um tumulto à bordo do Força Aérea Um parece uma referência aos “Gremlins”; e assim por diante.
Tremendo sucesso de bilheteria, “Transformers” foi o primeiro exemplar de uma franquia cujos títulos seguintes foram minguando no fato –óbvio desde o início –de que os filmes não tinham nada de novo a oferecer. Uma parcela do público, contudo, não se incomoda com isso, e a franquia “Transformers” goza de contínuas bilheterias rentáveis, apesar de contínua também ser sua queda de qualidade.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal

O tempo passou, Harrison Ford envelheceu, o próprio Spielberg envelheceu (e nesse hiato sagrou-se como cineasta sério com os Oscars vencidos por “A Lista de Schindler”, em 1993, e por “O Resgate do Soldado Ryan”, em 1999), George Lucas continuou sendo George Lucas (incluindo suas presepadas tentando resgatar “Star Wars” com a mal-fadada “Trilogia Prólogo"), e também o mundo mudou e junto com ele a audiência dos cinemas –na verdade, o próprio cinema mudou!
Mas, uma coisa parecia não ter mudado, de modo geral: O público continuava ávido por uma nova aventura de Indiana Jones.
Eis que em 2008 –dezenove anos depois do lançamento de “A Última Cruzada” –Spielberg, Lucas e Ford reuniram-se novamente para mais uma aventura do mais famoso arqueólogo do cinema.
Escrita por Jeff Nathanson (que obteve resultados esplêndidos trabalhando para Spielberg no roteiro de “Prenda-Me Se For Capaz”), a trama apresentava, aos 65 anos, o Dr. Henry Jones (Harrison Ford, tirando de letra o pique atlético exigido pelo personagem) ainda mantendo suas atividades de explorador e aventureiro ao redor do mundo.
Nos anos 1950, ele agora testemunhava a Guerra Fria e a vilanesca competição dos agentes russos por relíquias antigas representados pela fria Comandante Spalko (Cate Blanchett, uma vilã impecável).
É quando surge Mutt Williams (Shia LaBeouf, espécie de apadrinhado de Spielberg na época), um rapaz trajado com os mesmos figurinos de Marlon Brando em “O Selvagem” –uma habitual piscadela cinéfila de Spielberg –que pede ajuda a Jones para encontrar sua mãe Marion Ravenwood (Karen Allen, de "Caçadores da Arca Perdida", regressando à série), assim como o estudioso –e pinel –Prof. Harold Oxley (John Hurt, encarando um personagem criado para substituir a participação não concretizada de Sean Connery) que se perderam nas selvas da América do Sul à procura da lendária Cidade dos Deuses Maias. Tal localização pode, ou não, ser revelada por outra relíquia sagrada: a Caveira de Cristal de Akator, que Jones e seu novo parceiro de aventuras tentam encontrar em algum ponto do México.
Embora Spielberg tenha recheado este filme com elementos caros ao seu cinema –o mais notável deles, certamente, a introdução de alienígenas na mitologia “Indiana Jones” –e de honrar cada uma das características que fazem a série ser fenomenal, nada disso, impediu “O Reino da Caveira de Cristal” de ser o pior de todos os filmes de Indiana Jones até então. Motivos para isso não faltam: O personagem de Shia LaBeouf (assim como o próprio ator), além de sofrível, é apático e sem carisma; a própria participação de Karen Allen (celebrada pelos fãs antes da estréia do filme) resulta frustrante, inclusive pela falta de timing da atriz que trabalhou muito pouco depois da década de 1980; mas, o pior de tudo é quando os personagens acabam vindo para terras brasileiras –a sucessão de incoerências, não apenas em relação à confusão geográfica do roteiro (começa no território amazonense, após uma breve descida de barco, chegam às cataratas de Foz do Iguaçu e, mais a frente, termina num templo maia!), mas também as inverossimilhanças que se sucedem a medida que o filme caminha para seu clímax, são bastante prejudiciais.
Haviam coisas boas também, claro: Spielberg continuava um diretor de mão cheia e uma das principais preocupações do público (a idade de Harrison Ford) revelou-se infundada –Ford, seu invejável preparo físico e sua identificação certeira com o personagem são, com freqüência, a melhor coisa do filme.
Razões de sobra que mantiveram acesa a chama para a esperança de que um sexto filme ainda seja produzido. Estamos aguardando.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ninfomaníaca

Ninfomaníaca-Volume 1
Lars Von Trier sempre foi um diretor incomum.
Suas narrativas nunca fizeram questão de se mostrar aprazíveis ao expectador, e seus temas imbricavam por celeumas desconcertantes revelando um autor quase obcecado por pulsões de ordem sexual que revelavam a disfunção em comportamentos originados da opressão.
Sob essa condição, ele concebeu obras que, uma a uma, chocaram e desestabilizaram o público, que passou a saber exatamente o quê esperar dele: “Ondas do Destino”, “Os Idiotas”, “Dogville”, “Melancolia”, Manderlay”, “O Anti-Cristo”.
Ao mesmo tempo em que seus trabalhos faziam referências a grandes artistas transgressores do passado (como Píer Paolo Passolini e Andrei Tarkovski), Von Trier demonstrava certos fascínios específicos.
Nessa evolução, percebia-se, era questão de tempo até que um de seus filmes flertasse abertamente com o sexo explícito –deixando de lado alguns rumores que afirmam que isso já ocorria nas cenas de “O Anti-Cristo”.
“Ninfomaníaca” era, portanto, o auge de muitos temas perseguidos por Von Trier ao longo de seus trabalhos.
Nele, testemunhamos um solteirão solitário (Stelan Skarsgaard) encontrando, certo dia, uma mulher (Charlotte Gainsbourg, ambos presenças freqüentes nas obras de Von Trier) agredida e estirada num beco próximo ao seu apartamento.
Ele lhe oferece ajuda e um ouvido confidente para escutar a história que ela tem a relatar: a de como, ainda muito jovem (agora interpretada de maneira corajosa pela jovem Stacy Martin), descobriu-se ninfomaníaca, e ao longo de toda sua juventude e vida adulta, buscou suprir essa compulsão, pouco importando-se com as vidas que eventualmente destruía no processo.
Esta primeira parte (que responde por cerca de cento e dezessete minutos de um projeto que totaliza pouco mais de três horas, mas inicialmente previsto para uma duração de cinco horas!!!) enfoca a juventude da protagonista, em especial, os encontros e desencontros vividos com o homem que ela pensava amar, o reticente Jerome (interpretado pelo polêmico Shia LaBeouf).
O final é um gancho provocativo, melancólico e –em se tratando de Lars Von Trier –bastante, condizente para o segundo volume.

Ninfomaníaca-Volume 2
Dando continuidade ao relato de sua tumultuada vida sexual para o casto e interessado Seligman (Skarsgaard), a vitimizada Joe (Gainsbourg) chega ao ponto de sua narrativa em que junto de Jerome (LaBeouf), seu amor da juventude, tem um filho. É também quando ela estranhamente perde a sensibilidade de sua vagina, o quê a levará a passar quase o restante da vida tentando recuperar sua capacidade de sentir prazer.
Lars Von Trier prossegue com sua saga sexual convertida em dois volumes, na qual inclusive, logrou a concepção de “um novo gênero cinematográfico” segundo suas próprias palavras.
De acordo com o diretor, tal gênero, o “digresismo” seria um filme que corresponde à experiência sensorial de se ler um livro.
De fato, há toda uma empolgação da parte de Von Trier (talvez, mais perceptível na primeira parte) em detalhar as mais distintas impressões da narrativa, ainda que nesse sentido –e na escolha escandalosa de seu tema –essas opções aparecem em segundo plano. Há inclusive uma seqüência de auto-referência (ela remete à mais memorável cena de “O Anti-Cristo”) que pode soar pedante para alguns, genial para outros.
Esta segunda parte trás finalmente a introdução de Charlotte Gainsbourg (atriz predileta do diretor) como a protagonista Joe em sua fase adulta, e intensifica os percalços e dilemas sexuais, levando a um desfecho impiedoso que pode incomodar muitos expectadores, bem ao gosto de seu realizador.
Por isso, uma vez mais, Von Trier vale-se de seu talento, minúcia e erudição para chocar o expectador através de um tema que parece perseguí-lo: o sexo e seus desdobramentos mais cruéis visto por uma ótica feminina.
Impressionam (mas, estranhamente não excitam) as cenas de sexo explícito realizadas pelo elenco famoso.

domingo, 18 de outubro de 2015

Os Infratores

O diretor John Hillcoat (do fabuloso “A Estrada”) lança um olhar peculiar sobre as engrenagens da lenda e as matizes que acrescentam cor quando tal folclore se permite vislumbrar pelo prisma da realidade.
Em sua ânsia de observação, ele perscruta diversas facetas: A lenda enquanto mitologia nas mentes mais sugestionáveis; a vaidade inquieta dos indivíduos no centro da questão; os esforços intrínsecos dos cínicos para não ceder ao deslumbramento –e o conseqüente conflito que leva á tentativa de questionar o que é contado.
A fim de mover essa dissertação carregada de tantas facetas, Hillcoat apropriou-se de uma trama real: Durante a década de 1930, sob o regime da Lei Seca, o condado de Franklin torna-se o palco do próspero negócio dos três irmãos Boudurant –Forrest (Tom Hardy, ótimo), o líder taciturno; Howard (Jason Clark, um tanto quanto mal aproveitado), o grandalhão; e Jack (Shia LaBeouf, fora do tom), o caçula impetuoso –que passam a destilar bebida e vendê-la ilegalmente  para toda a região. 
A atividade atrai o perigoso policial assistente Rakes (Guy Pierce), vindo de Chicago, disposto a por um fim na lenda mítica que cerca os Boudurant. 
O resultado do esforço de John Hillcoat acaba orquestrando um vigoroso filme de gangster –ainda que excessivo em sua sanguinolência –ambientado em majestosa desolação a exemplo de seu trabalho anterior, e inquisitivo na maneira ressonante e ocasionalmente desmistificadora com que ele aborda a trama elaborada. Seu elenco parece em sintonia com esses propósitos entregando interpretações objetivas e perspicazes em suas nuances, como comprovam as extraordinárias presenças de Tom Hardy e Jessica Chastain (linda e com uma estupenda cena de nudez). O ponto fraco do filme fica por conta da presença destoada e superficial de Shia LaBeouf. Uma pena já que seu personagem irritante é colocado como protagonista em detrimento dos outros, mais interessantes.