Mostrando postagens com marcador John Hillcoat. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Hillcoat. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A Proposta


São irônicos os caminhos encontrados por esta magnífica produção australiana conduzida pelo diretor John Hillcoat (do brilhante “A Estrada”): Ele começa num tiroteio infernal, onde um mero sossobrar de cabeça pode representar uma bala mortal na testa! Inquieto, explosivo e caótico, esse início vai de encontro às pressuposições que o público leigo tem do gênero faroeste em si, e –embora seja um faroeste com todas as letras –a partir dali, o filme de Hillcoat trata de se opor a essa primeira impressão impondo um poderoso intimismo.

À ele interessam menos os duelos romantizados e mais as condições tremendamente árduas às quais os homens e mulheres a viver naquele tempo foram submetidos. A Austrália é retratada como uma terra de ninguém, entretanto, em pequenos e obscuros vilarejos, ascendem homens querendo fazer valer a justiça e a lei. Como eles o fazem? Sendo ainda mais brutais que os bandidos que perseguem.

Esse é um dos paradoxos com os quais de depara o protagonista Cap. Stanley (Ray Winstone, de “A Lenda de Beowulf”), homem da lei vindo da Inglaterra, desejoso de impor a ordem naquele fim de mundo. Ou seria o protagonista o criminoso Charles Burns (Guy Pierce), colhido de surpresa ao lado do irmão mais novo, Mikey (Richard Wilson), naquele tiroteio do início?

Disposto a usar de um método mais elaborado para conseguir o que ninguém antes dele foi capaz –capturar todo o bando do perigoso Arthur Burns (Danny Huston), que perpetrou uma atrocidade contra uma família da região –o Cap. Stanley propõe um acordo à Charles, e com isso dá o estopim à trama: Ele enforcará Mikey dentro de nove dias –exatamente durante o Natal –contudo, dará liberdade à Charles. Se ele retornar com a cabeça de Arthur, o irmão mais velho, e certamente o líder por trás de todas as calamidades praticadas, então Charles terá em troca a vida salva do caçula e o perdão pelos crimes praticados.

Para Stanley não é fácil viver com o peso dessa escolha: Amargurado pela tragédia recente, o povoado de seu vilarejo –que inclui os próprios policiais ao seu comando e o almofadinha político vivido por David Wenham (de “Senhor dos Anéis-As Duas Torres”) –não aceita a presença de Mikey na cadeia sem exigir retaliação, e faz pressão para uma execução à céu aberto. Ou um castigo à chibatadas. Ou ambos. E nesse ínterim, quem sofre é também Martha (Emily Watson), a esposa de Stanley, que tem de aguentar os olhares de reprovação dos cidadãos.

Ainda menos fácil é para Charles: A árdua jornada em busca do irmão que não tem muita certeza se conseguirá trair o leva aos confins do ‘Outback’, o deserto australiano, nas montanhas outrora dominadas pelas tribos selvagens dos aborígines. Lá, como uma espécie de Coronel Kurtz, Arthur o aguarda com uma inusitada concepção de antagonismo: Em nada ele corresponde ao monstro que a narrativa o pintava, revelando-se contemplativo, absorto, filosófico e existencial. Ele admira o pôr-do-sol, e conhece de cor sentenças de famosos escritores. E compreende melhor que qualquer personagem no filme que o contexto no qual estão inseridos é um inferno inexpugnável onde todos estão condenados.

Dessa forma, o filme de Hillcoat toma nosso tempo, passeando por essas circunstâncias pesarosas, acompanhando os personagens diante de suas aflições, cercados pela precariedade atroz daquele meio de vida –não são raras as moscas a rodear todos os personagens, num reflexo da irremediável degradação moral de todos eles.

Durante muito tempo, nada parece acontecer. Mas, essa imutabilidade é a grande força dramática de “A Proposta”: Ela aprofunda o suspense, salienta as particularidades dúbias de seus personagens e das dinâmicas em que estão envolvidos, e intensifica gradualmente a sensação de inevitabilidade em sua atmosfera.

Roteirizado pelo músico Nick Cave (que, depois, também roteirizou outra obra de Hillcoat, “Os Infratores”), “A Proposta” poderia entrar na definição de faroeste revisionista, pela forma circunspecta com que abre mão dos reflexos tradicionais do gênero e abraça elementos despojados e naturalistas mais comuns da literatura, mas, sua realização é tão competente e seu resultado final, tão brilhante, que o eleva ao improvável status de obra única. 

domingo, 18 de outubro de 2015

Os Infratores

O diretor John Hillcoat (do fabuloso “A Estrada”) lança um olhar peculiar sobre as engrenagens da lenda e as matizes que acrescentam cor quando tal folclore se permite vislumbrar pelo prisma da realidade.
Em sua ânsia de observação, ele perscruta diversas facetas: A lenda enquanto mitologia nas mentes mais sugestionáveis; a vaidade inquieta dos indivíduos no centro da questão; os esforços intrínsecos dos cínicos para não ceder ao deslumbramento –e o conseqüente conflito que leva á tentativa de questionar o que é contado.
A fim de mover essa dissertação carregada de tantas facetas, Hillcoat apropriou-se de uma trama real: Durante a década de 1930, sob o regime da Lei Seca, o condado de Franklin torna-se o palco do próspero negócio dos três irmãos Boudurant –Forrest (Tom Hardy, ótimo), o líder taciturno; Howard (Jason Clark, um tanto quanto mal aproveitado), o grandalhão; e Jack (Shia LaBeouf, fora do tom), o caçula impetuoso –que passam a destilar bebida e vendê-la ilegalmente  para toda a região. 
A atividade atrai o perigoso policial assistente Rakes (Guy Pierce), vindo de Chicago, disposto a por um fim na lenda mítica que cerca os Boudurant. 
O resultado do esforço de John Hillcoat acaba orquestrando um vigoroso filme de gangster –ainda que excessivo em sua sanguinolência –ambientado em majestosa desolação a exemplo de seu trabalho anterior, e inquisitivo na maneira ressonante e ocasionalmente desmistificadora com que ele aborda a trama elaborada. Seu elenco parece em sintonia com esses propósitos entregando interpretações objetivas e perspicazes em suas nuances, como comprovam as extraordinárias presenças de Tom Hardy e Jessica Chastain (linda e com uma estupenda cena de nudez). O ponto fraco do filme fica por conta da presença destoada e superficial de Shia LaBeouf. Uma pena já que seu personagem irritante é colocado como protagonista em detrimento dos outros, mais interessantes.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Estrada

Numa narrativa que parece incorporar muito da visão pós-apocalíptica de Michael Haneke em “Tempos de Lobo” testemunhamos um das mais esmeradas concepções realistas do fim do mundo –ainda que pouco dos motivos que o deflagraram sejam esboçados: Rios amarelados, a natureza em colapso absoluto, as cidades abandonadas, quando não devastadas (!), desolação e desesperança palpáveis no ar como uma névoa densa.
Pai e filho (Viggo Mortensen e Kodi Smith-McPhee, ambos extraordinários) singram os escombros de um mundo pós-apocalíptico no qual poucos indícios restaram de que houve outrora uma civilização.
Eles vasculham as ruínas em busca de qualquer tipo de comida (sempre escassa) e evitam a todo o custo contato com terceiros; as redondezas queimam em incêndios, e tudo foi reduzido a cinzas.
O pai busca manter intacta a índole do filho (para tanto inventou um ingênuo artifício sobre um "fogo" que a eles foi encarregado de zelar), e protegê-lo da ameaça sempre presente de gangues canibais, enquanto tem dolorosas lembranças da esposa –vivida apropriadamente pela bela e etérea Charlize Theron. 
O diretor australiano John Hillcoat conta, munido de impactante e significativo acabamento visual, uma parábola de sobrevivência onde os personagens anônimos de pai e filho buscam preservar um fiapo de humanidade, em meio a um mundo de desolação, canibalismo e tons monocromáticos.
Apoia-se, para isso, na estupenda interpretação de Viggo Mortensen e no igualmente impecável garotinho Kodi Smith-McPhee. Dois atores fora de série.