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sábado, 13 de setembro de 2025

Corra Que A Polícia Vem Aí!


 Numa época em que já era improvável realizar uma comédia besteirol e abilolada por si só, o diretor Akiva Schaffer (membro do grupo de comediantes The Lonely Island) também resgatou uma cinessérie que parecia extinta –a aloprada saga cômica-policial do Detetive Frank Drebin que, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, representou o supra-sumo da comédia norte-americana produzida no período. Feita nos mesmos moldes insanos de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!” uma década antes, e estrelada pelo impagável Leslie Nilsen (cujo entendimento da comédia o levava a ser o personagem mais sério em cena e, paradoxalmente, o mais hilariante), essa produção foi compreendida na íntegra pelos novos realizadores na hora de ganhar uma nova roupagem. Eles escalaram, para o papel do novo protagonista, filho do personagem anterior, Frank Drebin Jr, o incontornavelmente sério Liam Neeson (que, com sua carranca, se torna uma improvável fonte constante de graça do início ao fim) e pontuaram o incomum roteiro (pois qualquer enredo que traga algum humor hoje em dia É incomum) com piadas relacionadas aos novos tempos, aos expedientes condicionados que o gênero sempre ostentou, e imbuídas das bobagens usuais de sempre.

O resultado é um filme bobo, destemido, notável e ocasionalmente surpreendente.

Membro da polícia de Los Angeles, Frank Drebin jr. (Neeson), é alguém que tem algo a provar –seu pai havia sido, no passado, uma lenda na força policial. Contudo, para aqueles conhecedores das circunstâncias dos filmes originais, Jr. puxou o pai em tudo e por tudo: Ao redor de Frank, tudo se convertia em caos por conta do talento sobrehumano que ele tinha para deixar confusões acontecerem sem cessar. E Jr. é exatamente assim; crê piamente estar fazendo seu trabalho investigativo com a maior seriedade possível, mas só está equilibrando uma trapalhada atrás da outra.

Um intrigante caso de assassinato cai em suas mãos quando um funcionário de uma empresa milionária fabricante de carros elétricos surge vítima aparentemente de suicídio. A irmã do falecido, Miss Beth Davenport (Pamela Anderson, em estado de graça após a indicação ao Globo de Ouro por “The Last Showgirl”), no entanto, sabe que o irmão não se matou –ele foi, sim, assassinado. E os objetivos disso escondem uma conspiração que, por enquanto, permanece um mistério.

É Fran Jr., mais por destrambelhamento do que por instinto policial de fato, quem irá percorrer a trilha das pistas até o magnata Richard Cane (Danny Huston, num papel que começa a lhe parecer quase inevitável) e ao plano maquiavélico, digno de um vilão de James Bond, que ele engendra.

No decurso dessa investigação e de todos os reflexos involuntários que o filme executa dentro do gênero que almeja parodiar (os filmes policiais norte-americanos e, aqui e ali, os filmes noir dos anos 1950), as piadinhas (sejam as infames ou as genuinamente engraçadas) vão se acumulando, como aquela recorrente, na qual os policiais nunca ficam sem um copo cheio de café para beber, o gracejo em torno do fato de Liam Neeson partir ao meio todo o celular no qual está falando (uma brincadeira com sua persona truculenta de herói de ação), ou a absurda cena do início, na qual o enorme Liam Neeson frustra um sequestro se disfarçando de inocente garotinha (!). Neeson, por sinal, esbanja uma química formidável com sua parceira de cena, Pamela Anderson, e há um empenho nítido e louvável da parte do elenco, da direção e do roteiro em fazer o humor do filme funcionar –e embora os momentos cômicos encontrem um ou outro empecilho devido à pouco habituada plateia de hoje, esse esforço persiste até o final.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A Proposta


São irônicos os caminhos encontrados por esta magnífica produção australiana conduzida pelo diretor John Hillcoat (do brilhante “A Estrada”): Ele começa num tiroteio infernal, onde um mero sossobrar de cabeça pode representar uma bala mortal na testa! Inquieto, explosivo e caótico, esse início vai de encontro às pressuposições que o público leigo tem do gênero faroeste em si, e –embora seja um faroeste com todas as letras –a partir dali, o filme de Hillcoat trata de se opor a essa primeira impressão impondo um poderoso intimismo.

À ele interessam menos os duelos romantizados e mais as condições tremendamente árduas às quais os homens e mulheres a viver naquele tempo foram submetidos. A Austrália é retratada como uma terra de ninguém, entretanto, em pequenos e obscuros vilarejos, ascendem homens querendo fazer valer a justiça e a lei. Como eles o fazem? Sendo ainda mais brutais que os bandidos que perseguem.

Esse é um dos paradoxos com os quais de depara o protagonista Cap. Stanley (Ray Winstone, de “A Lenda de Beowulf”), homem da lei vindo da Inglaterra, desejoso de impor a ordem naquele fim de mundo. Ou seria o protagonista o criminoso Charles Burns (Guy Pierce), colhido de surpresa ao lado do irmão mais novo, Mikey (Richard Wilson), naquele tiroteio do início?

Disposto a usar de um método mais elaborado para conseguir o que ninguém antes dele foi capaz –capturar todo o bando do perigoso Arthur Burns (Danny Huston), que perpetrou uma atrocidade contra uma família da região –o Cap. Stanley propõe um acordo à Charles, e com isso dá o estopim à trama: Ele enforcará Mikey dentro de nove dias –exatamente durante o Natal –contudo, dará liberdade à Charles. Se ele retornar com a cabeça de Arthur, o irmão mais velho, e certamente o líder por trás de todas as calamidades praticadas, então Charles terá em troca a vida salva do caçula e o perdão pelos crimes praticados.

Para Stanley não é fácil viver com o peso dessa escolha: Amargurado pela tragédia recente, o povoado de seu vilarejo –que inclui os próprios policiais ao seu comando e o almofadinha político vivido por David Wenham (de “Senhor dos Anéis-As Duas Torres”) –não aceita a presença de Mikey na cadeia sem exigir retaliação, e faz pressão para uma execução à céu aberto. Ou um castigo à chibatadas. Ou ambos. E nesse ínterim, quem sofre é também Martha (Emily Watson), a esposa de Stanley, que tem de aguentar os olhares de reprovação dos cidadãos.

Ainda menos fácil é para Charles: A árdua jornada em busca do irmão que não tem muita certeza se conseguirá trair o leva aos confins do ‘Outback’, o deserto australiano, nas montanhas outrora dominadas pelas tribos selvagens dos aborígines. Lá, como uma espécie de Coronel Kurtz, Arthur o aguarda com uma inusitada concepção de antagonismo: Em nada ele corresponde ao monstro que a narrativa o pintava, revelando-se contemplativo, absorto, filosófico e existencial. Ele admira o pôr-do-sol, e conhece de cor sentenças de famosos escritores. E compreende melhor que qualquer personagem no filme que o contexto no qual estão inseridos é um inferno inexpugnável onde todos estão condenados.

Dessa forma, o filme de Hillcoat toma nosso tempo, passeando por essas circunstâncias pesarosas, acompanhando os personagens diante de suas aflições, cercados pela precariedade atroz daquele meio de vida –não são raras as moscas a rodear todos os personagens, num reflexo da irremediável degradação moral de todos eles.

Durante muito tempo, nada parece acontecer. Mas, essa imutabilidade é a grande força dramática de “A Proposta”: Ela aprofunda o suspense, salienta as particularidades dúbias de seus personagens e das dinâmicas em que estão envolvidos, e intensifica gradualmente a sensação de inevitabilidade em sua atmosfera.

Roteirizado pelo músico Nick Cave (que, depois, também roteirizou outra obra de Hillcoat, “Os Infratores”), “A Proposta” poderia entrar na definição de faroeste revisionista, pela forma circunspecta com que abre mão dos reflexos tradicionais do gênero e abraça elementos despojados e naturalistas mais comuns da literatura, mas, sua realização é tão competente e seu resultado final, tão brilhante, que o eleva ao improvável status de obra única. 

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Por Trás dos Seus Olhos


O filme do diretor Marc Foster lembra sistematicamente o dinamarquês “Blind” (ao mostrar, em sua primeira parte, uma bela mulher a enfrentar os desafios domésticos e existenciais da cegueira), o thriller “Blink-Num Piscar de Olhos” (ao devolver, a essa mesma protagonista, a capacidade de visão e, a partir daí, engatar uma marcha de suspense), e “EnsaioSobre A Cegueira”, de Fernando Meirelles (nos recursos visuais que tenta empregar para simular a impressão subjetiva da personagem, e nas intenções reflexivas de sua condição que, aqui, nunca se concretizam satisfatoriamente).
Gina (a bela e minimalista Blake Lively) sofreu um acidente quando criança que a fez perder a visão. Aos vinte e poucos anos, ela jamais viu o próprio reflexo num espelho, ou mesmo o rosto do marido James (Jason Clarke) com quem vive na Tailândia –registrada, neste filme, como um lugar onde se esbarra com frequência em americanos (!).
Quando o Dr. Hugues (Danny Huston) aparece com a possibilidade de um transplante de córneas –e, por consequência, com a possibilidade de Gina voltar a enxergar –algo, inicialmente indefinível começa a se transformar na dinâmica do casamento entre ela e James.
Se antes ele era inteiramente vulnerável e dependente, a partir do momento em que recupera a visão, Gina passa a demonstrar auto-confiança, independência e opinião próprias –o que, sem ela notar, começam a minar a masculinidade do próprio marido.
É James, querendo a volta de seu casamento como era antes, quem introduz os primeiros elementos de suspense na narrativa.
Estaria ele conspirando –na provável adulteração dos remédios de Gina –para que sua cegueira retornasse?
Apesar das possibilidades promissoras na premissa, o diretor Marc Foster contorna o teor instigante obtido pelos realizadores dos filmes citados acima optando por algo que quase descamba para um melodrama, arrastando sua condução em cenas que desperdiçam o potencial sufocante da narrativa para se concentrar em lamentações domésticas e questões melancólicas da vida a dois culminando em obviedades como o adultério ou a represália nos animais de estimação.
Uma pena: A julgar pelo afinco demonstrado por Blake Lively dava para obter algo muito melhor que isso.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O Congresso Futurista


Saído da magistral e densa experiência em rotoscopia formulada chamada “Valsa Com Bashir”, o diretor Ari Folman arriscou, em seu segundo projeto, uma obra concebida com a mesma técnica –que consiste em desenhar animação à mão por cima de uma filmagem real.
Apesar disso, tanto “Bashir” quanto este “O Congresso Futurista” são trabalhos essencialmente adultos.
“Bashir” investigava os labirintos lúgubres das memórias em busca da mais atroz das verdades, já “Congresso...” observa, por meio das alegorias surreais da ficção científica, os subterfúgios improváveis da arte e da tecnologia e a facilidade com que esses percalços podem nos roubar a identidade, a segurança e a sanidade.
Do livro de Stanislaw Lem (autor do romance filmado em “Solaris”), que supostamente esta obra adapta, sobrou muito pouco: Tão transfigurado ele foi pelas idéias pertinentes e de intenções mais atuais de Folman que o que resta do delírio literário e futurista sobre o autoritarismo é, quanto muito, a perplexidade que ele evoca em perspectiva da manipulação da vida.
A magnífica Robin Wright interpreta a si mesma num futuro profético e metalingüístico: Com a substituição cada vez maior das produções filmadas em celulóide pelos filmes digitais gerados por computador, a única e última cartada que ela pode dar para manter-se relevante, segundo seu agente (vivido por Harvey Keitel) é cedendo os direitos de sua imagem para que os estúdios escaneiem seu rosto e usem sua eterna aparência jovem nos filmes do futuro para todo o sempre.
Munido de um elenco espetacular de nomes famosos, conquistados sem dúvida graças à repercussão de sua belíssima obra anterior, Ari Folman alterna os dilemas existenciais de Robin Wright em relação ao que foi sua carreira (flertando audaciosamente com a realidade) e às pulsões de vaidade pessoal de todo artista, com uma gradual e delirante queda rumo à animação que ganha espaço na narrativa em seu segundo ato quando o filme avança alguns anos no tempo, e a protagonista vai participar do assim chamado Congresso Futurista e começa, aos poucos, a perder a certeza da realidade –e o filme, a perder um pouco de seu sentido.
É um reflexão pretensamente profunda e tragicamente surreal sobre a difícil conjugação entre as angústias reais e as imaginárias que paira sobre o processo da arte –e é curioso que Folman não utilize o recurso da animação/live-action para ilustrar essa incongruência, mas sim para confundí-la.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Hitchcock

Era uma questão de tempo até que a figura tão icônica de Alfred Hitchcock ganhasse um retrato cinematográfico. Quando finalmente aconteceu, ganhou em dobro: Não só com este filme para cinema, mas também com o telefilme, “The Girl”, que se debruça num registro mais sério e patológico do mestre do suspense.
Este filme realizado por Sacha Gervasi, por sua vez, apresenta um Hitchcock mais afável, romanceando muitos aspectos que se sabe terem sido momentos pesados por parte da difícil personalidade de Hitchcock.
A trama se inicia quando ele, após saborear o merecido sucesso de seu último trabalho, "Intriga Internacional", dá início á busca por seu projeto seguinte, sob os poucos lisonjeiros comentários de que sua carreira já teria atingido (e passado de) seu auge.
Hitchcock então se deixa fascinar pela grotesca história de um certo Ed Gein, psicótico capturado pela polícia no meio-oeste americano, e decide transformar num filme, idéias oriundas daquela reportagem, contra todas as opiniões contrárias afirmando ser aquele um material de gosto duvidoso, ao mesmo tempo que seu casamento com Alma parece entrar numa crise.
Essa romantização dos tumultuados e históricos bastidores do clássico "Psicose" trata com mais condescendência do que devia os estranhos desvios de personalidade de Hitchcock e de seu casamento (alvo da maioria das críticas direcionadas ao filme), ainda que haja uma não muito desenvolvida observação sobre o grau inusitadamente alto de identificação que o cineasta teria experimentado com a figura de Ed Gein, durante a realização de seu filme.
A atuação de Anthony Hopkins é histriônica e carregada de trejeitos excessivos, aquém do que normalmente se espera dele, sem falar que os detratores mais impiedosos afirmaram que sua exagerada maquiagem é uma versão caucasiana da prótese usada por Eddie Murphy em “O Professor Aloprado” (!).
Sensacionais mesmo, e valorizando por completo a produção, estão Helen Mirren, como Alma, a fiel e ambivalente esposa, e Scarlett Johansson como a estrela Janet Leight.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Mulher-Maravilha

Dentre os intérpretes escolhidos para dar vida aos personagens heróicos da DC Comics, Gal Gadot mostrou-se com folga, a mais perfeita.
Melhor que Henry Cavill como Superman e melhor que Ben Affleck como Batman, ela já conseguiu mostrar a que veio numa aparição de uns dez minutos, porém arrasadora, como Mulher-Maravilha em “Batman Vs Superman”.
De lá pra cá, após os críticos torcerem o nariz para o logo posterior “Esquadrão Suicida”, o filme solo de sua personagem tornou-se a grande esperança para que o universo de heróis da DC Comics, transposto dos quadrinhos para o cinema a exemplo do Universo Marvel, viesse a dar certo.
Mais do que isso: Falou-se, e muito (na maioria das vezes, com receio da parte dos estúdios) a respeito desta ser a primeira produção estrelada por uma heroína –e, de quebra, também ela, dirigida por uma mulher, no caso, Patty Jenkins, de “Monster-Desejo Assassino”.
Foi um passo tão duro e hesitante de ser dado pela cultura pop, mas quando foi feito –agora, com o lançamento de “Mulher-Maravilha” –revelou-se então certeiro, necessário e, muito provavelmente, determinante dos rumos que não só a DC Comics seguirá daqui por diante, mas, da postura da própria indústria: “Mulher-Maravilha” funciona brilhantemente, revelando-se tão ou mais sensacional do que se tivesse um homem à frente ou atrás das câmeras.
A Mulher-Maravilha de Gal Gadot já tinha se mostrado a melhor coisa em “Batman Vs Superman” –e, é bem possível que venha a ser a melhor coisa no ainda vindouro “Liga da Justiça” –levando a crer que seu filme solo seria magnífico.
Ela não fez por menos: Como protagonista, Gal Gadot confirma o magnetismo singular que demonstrou naqueles inebriantes minutos no outro filme, mostra-se habilmente capaz de abranger, com todo o talento necessário a uma atriz, o arco dramático objetivo, criterioso e eficaz dado aqui a sua personagem, e ostenta, nas cenas de ação, uma mistura nunca menos que apaixonante de graça, beleza, energia e força cinética.
Em outras palavras: Perfeita no papel.
A sutileza embutida em sua atuação já se percebe desde o começo, quando ela é mostrada despida da seriedade e da desilusão para com o mundo que se podia ver em seu semblante no filme anterior (que, é bom lembrar, passa-se, depois desta história). Quando começamos a acompanhar o início de sua jornada, por volta de 1918 –período, portanto da Primeira Guerra Mundial –Diana é uma jovem ávida pela oportunidade de se provar ao mundo e dele fazer um lugar melhor, ainda que o registro da atriz e a condução da diretora nunca a deixem cair em qualquer clichê possível.
A ilha de Themyscira, onde ela vive isolada e protegida do mundo junto com todas as outras amazonas, recebe então um inesperado visitante: O Capitão Steve Trevor (Chris Pine, um austero e generoso coadjuvante), espião do exército inglês, fugindo dos inimigos alemães.
A guerra –“para acabar com todas as guerras” como ele diz –chega então a Themyscira, o quê obriga Diana a tomar uma decisão: Partir para o mundo dos homens ao lado de Trevor, tentar por um fim ao conflito insano que coloca os homens uns contra os outros e, à propósito, confrontar o deus da guerra, Ares, que, em sua pureza e ingenuidade, Diana tem certeza ser o responsável pela selvageria que consome os homens.
O processo de descoberta de Diana –do mundo injusto e, não raro, incompreensível dos homens e do dever que cabe a si própria –é a grande jornada elaborada aqui por Patty Jenkins, e ela, em momento algum, foge desse princípio: Tudo em seu filme, vilões, cenas íntimas e grandiosas, personagens maiores e menores, manobras de roteiro, cenas de ação e efeitos especiais, menções e situações, tudo está a serviço dessa história e da possibilidade de engrandecê-la e à sua radiante protagonista.
Numa época tão incrivelmente tomada por heróis mundanos, anti-heróis plenos de cinismo e a insistente ênfase nas características defeituosas de seus protagonistas –algumas delas,  ilustradas pela própria DC Comics em seus filmes anteriores –“Mulher-Maravilha” vem para restaurar os valores como eles deveriam ser; tão absurdamente pertinente se faz essa narrativa de Patty Jenkins que nem mesmo a pecha de “à moda antiga” cabe em seu filme: Ele é sim, poderosamente atual,moralmente necessário e profundamente emocional.
Um misto de eficácia narrativa, brilhantismo cinematográfico (artístico, inclusive) com a escolha certeira de uma protagonista tão cativante, forte e hipnótica que não se via no cinema desde... oras, desde “Superman-O Filme”, com Christopher Reeve!
Vai se tornar um chavão, mas “Mulher-Maravilha” é o filme que parece finalmente colocar o Universo Cinematográfica da DC nos trilhos. E é a pura verdade.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Reencarnação

Existem filmes que poderiam ser grandes. E durante algum tempo até são bem sucedidos em nos convencer que o são, até que a trama, da maneira como ela é concebida, exige não apenas o comprometimento, mas a coragem dos envolvidos em desenvolvê-la com convicção até o final.
É aí que a hesitação (e o medo de controvérsias) pode por tudo a perder.
Tomemos o exemplo deste “Reencarnação”.
Dez anos após ter enviuvado, e prestes a casar novamente, jovem mulher (a sempre bela Nicole Kidman) conhece uma criança, um garotinho (Cameron Bright) que se diz a reencarnação de seu falecido marido. Ele revela conhecimentos espantosos da vida que tiveram juntos e tem lembranças de momentos que somente ela poderia recordar.
Essas características abalam seriamente a convicção dela, então completamente cética a respeito.
A premissa interessante e que causou polêmica (desnecessária) devido a uma cena de nudez em que a atriz Nicole Kidman divide uma banheira com o jovem Cameron Bright, de 10 anos, não chega a concretizar o filme intrigante e desafiador que ele prometia ser em sua primeira metade. Embora o trabalho do bom diretor Jonathan Glazer (que depois faria o sensacional “Sob A Pele”, com Scarlett Johanson) se revele instigante, e até ousado no que tange à premissa e seus desdobramentos de ordem metafísica e factual durante boa parte de sua duração, o filme sofre uma guinada burocrática, covarde e redundante em algum momento de sua meia hora final, tornando-se hesitante e contraditório ao optar por uma solução das mais esquemáticas –tamanha é a quebra de tom e postura provocada por essa decisão que esse desfecho parece escrito por alguém completamente diferente da pessoa que iniciou a trama.
Um detalhe que põe a perder todo o interesse antes suscitado.

domingo, 25 de setembro de 2016

Maria Antonieta

A carreira cinematográfica de Sofia Coppola recebeu grande ajuda e incentivo de seu pai, o ilustre Francis Ford. Mesmo antes quando (ainda bem jovem) Sofia experimentou alçar vôos como atriz, seu pai a ajudou –ele deu a ela um papel fundamental em “O Poderoso Chefão Parte 3”, com resultados insatisfatórios.
Depois que ela decidiu tornar-se diretora, ele produziu todos os seus filmes, de “As Virgens Suicidas” até o mais recente “Bling Ring-A Gangue de Hollywood”, deixando bem claro, para o pai e para o mundo, o estilo que ela adotaria para contar histórias.
Em algum momento dessa filmografia notável que Sofia construiu, Coppola, o pai, tentou colocá-la num projeto que tivesse mais a sua cara.
Leia-se: Um trabalho suntuoso, com tinturas épicas. Mais clássico do que alternativo.
O resultado foi “Maria Antonieta” que, polarizado entre os estilos bastante díspares do pai (produtor) e da filha (diretora) transfigurou-se não em uma cinebiografia da célebre rainha da França, mas em um esforço de tentar entender sua personalidade, estranhamente localizado numa área nebulosa entre o intimista e o espalhafatoso.
Com uma carreira que já a gabaritava como veterana no cinema, a relativamente jovem atriz Kirsten Dunst (que ganhou muita fama como Mary Jane nos filmes do “Homem-Aranha”, de Sam Raimi, e já havia trabalhado com Sofia em “As Virgens Suicidas”) entregou uma interpretação engajada e rica em minúcias, bem ao gosto de sua diretora, para a princesa austríaca, Maria Antonieta, que num casamento arranjado, aos 14 anos, é arrancada do seu ambiente familiar e arremessada na corte francesa, como esposa do reticente e infantil rei Louis XVI (Jason Schwartzman) –que, à propósito, ela mal conhecia!
A narrativa de Sofia Coppola, assim, a acompanhará dos 14 aos 27 anos, mostrando muito do período em que ela teve de aprender a lidar com as complicadas exigências sociais e políticas de um posto de monarca, dando à trajetória de Maria Antonieta uma ótica que a aproxima das meninas sem perspectiva de “As Virgens Suicidas” e da deslocação e do vazio existencial experimentado pelos personagens de “Encontros e Desencontros”.
Uma visão que, é bom lembrar, atribui certa simpatia à ela, o quê contraria bastante a idéia que a França, em geral, faz dela, sempre lembrando-a com aversão.
Nesse ensejo, Sofia também cria um painel de afresco da própria realeza do período ao qual essa jovem rainha pertenceu, retratando-a como um grupo de pessoas sem muito que fazer a não ser mergulhar no hedonismo e na futilidade, algo possível só pela riqueza e ostentação da classe em que se encontravam. Elementos da narrativa que Sofia parece sublimar no que diz respeito à superficialidade, mas que revelam-se cruciais para os rumos que a trama toma –inclusive em termos históricos.
De quebra, ainda tirou, do cotado como favorito "Diabo Veste Prada", o Oscar de Melhor Figurino em 2007.

domingo, 25 de outubro de 2015

21 Gramas

Quando o corpo humano morre, ele perde 21 gramas. 
O que se vai com esse peso?A alma humana? 
Por meio de três histórias que se entrelaçam através de uma tragédia o diretor Alejandro Gonzales-Iñaritu tenta responder a essa pergunta, em sua primeira produção norte-americana após a premiada carreira de seu trágico e corrosivo "Amores Brutos"; que só não levou o Oscar 2001 de Melhor Filme Estrangeiro porque tinha pela frente "O Tigre e O Dragão", de Ang Lee.
Por meio de um pungente roteiro de Guilhermo Arriaga (que, durante algum tempo, compreendeu como ninguém as inquietações do diretor), Iñaritu conta a história de Paul Rivers (Sean Penn), um matemático que tem um problema cardíaco e definha enquanto está a espera de um coração para transplante, com baixíssimas chances de sucesso.
No outro lado do espectro narrativo (cuja cronologia embaralhada nos desafia a organizar mentalmente os eventos) está Christina Peck (Naomi Watts, fantástica) outrora esposa dedicada e mãe de família que agora sofre com a perda de seus entes queridos e é uma ex-viciada em drogas.
Há também Jack Jordan (Benicio Del Toro), um ex-presidiário que agora busca seu caminho pela religião, mas vive com a sombra do seu passado.
Em todos esses casos, testemunhamos essas pessoas numa espécie de 'antes' e 'depois', e é esse contraste que dá corpo não apenas ao drama superlativo que Iñaritu conduz tão bem, mas nos leva a questionar o rumo que tais pessoas tomaram para chegarem em desenlaces tão aflitivos: A grande sacada no cinema de Iñaritu e Arriaga, portanto, não está em cultivar surpresas almejadas pela grande maioria dos cineastas convencionais, mas sim ostentar ao público uma jornada tortuosa e certamente dilacerante cujos rumos ele já sabe, mas não os percalços que até lá conduziram. 
Todos os personagens aqui mostrados terão em algum momento seus destinos entrecruzados na construção deste impactante drama, e assim sendo não é nenhuma novidade o fato de sua estrutura narrativa muito se assemelhar ao trabalho anterior (e aclamado) de Iñaritu (o próprio "Amores Brutos") e vir a ser mais uma vez aproveitada no seu filme seguinte, "Babel".
Enquanto foram colaboradores, Iñaritu e Arriaga estabeleceram para si uma fórmula dramatúrgica que, durante o tempo que puderam, utilizaram para forjar dramas de altíssimo nível.
É provável que este possa ser considerado assim, o seu melhor exemplar.