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sábado, 22 de fevereiro de 2025

Capitão América - Admirável Mundo Novo


 Embora persiga o tempo todo a atmosfera conspiratória do excelente “Capitão América-O Soldado Invernal”, este “Brave New World” dá continuidade realmente aos eventos mostrados em “O Incrível Hulk” (de um já longínquo 2008) e “Eternos” (de 2021). Quando reencontramos o protagonista, Sam Wilson (Anthony Mackie), ele já veste o manto de Capitão América a pelo menos quatro anos –desde que assumiu esse legado na minissérie “Falcão e O Soldado Invernal”. Sua missão é deter a negociação envolvendo um item desconhecido entre a Sociedade da Serpente, chefiada pelo inescrupuloso Coral (Giancarlo Esposito), e um comprador misterioso. Já aí, a narrativa concebida pelo diretor Julius Onah (de “The Cloverfield Paradox”) orquestra vários pontos de partida (como é de praxe, muitos deles extraídos dos quadrinhos originais) para buscar um todo mais sólido e exuberante, ainda que, ao contrário do que fizeram (e muito bem) os Irmãos Russo nos filmes predecessores, essa solidez e essa exuberância nunca cheguem, de fato, a aparecer.

Se de um lado temos Sam Wilson e seus válidos esforços em corresponder às expectativas dele esperadas como Capitão América –não apenas ao substituir a grande e inspiradora presença de Steve Rogers, mas também ao representar um herói tão icônico sendo também um homem negro a trazer consigo à reboque toda uma questão de representatividade racial –do outro, temos o General Thadeus Ross (vivido por Harrison Ford, substituindo o falecido William Hurt, intérprete anterior do personagem) cuja fama de irascível ele procura avidamente deixar de lado por conta de A) reatar os laços com a filha, Betty (Liv Tyler), em frangalhos desde que ele caçou, por anos, o Hulk, assim como outros heróis, e B) honrar seu novo cargo de presidente eleito dos EUA perante o povo norte-americano.

Para tal intento, Ross quer se aproximar de Sam Wilson, sobretudo, após a bem-sucedida missão em recuperar o tal item desconhecido (que havia sido roubado de aliados japoneses), entretanto, novas complicações tornam a afastá-los: Acontece que o Celestial petrificado em pleno oceano em “Eternos”, vem a ser constituído de um novo minério que as potências mundiais identificaram como tão resistente (ou até mais!) que o cobiçado vibranium de Wakanda, o adamantium. De olho nessa nova riqueza, vários países forjam uma tênue aliança com os EUA, mas um atentado na Casa Branca –perpetrado por Isaiah Bradley (Carl Lumbly), um ex-supersoldado veterano, ao que tudo indica sob controle mental –pode colocar tudo a perder, e deixar os EUA à beira de uma guerra.

A tarefa deste novo Capitão América em seu primeiro filme solo é, portanto, complicada: Provar a inocência de Isaiah, descobrir quem é o misterioso vilão manipulador que aparentemente está por trás de tudo isso, e deter uma crise política de proporções globais. Tudo isso, contando com a ajuda do novo Falcão, Joaquim Torres (Danny Ramirez), uma vez que o próprio Presidente Ross, como sempre, mostra-se alguém de difícil relação –em especial, por conta do segredo que o liga ao tal vilão manipulador, e que pode levar Ross a uma metamorfose inesperada como a ameaça conhecida por Hulk Vermelho –e, embora desse detalhe seja resguardado para o trecho final do filme, ele não é nenhuma surpresa, uma vez que dominou por completo o material promocional do filme nos últimos meses antes de sua estréia. Grave problema de marketing: Certamente, se a questão envolvendo o Hulk Vermelho e sua aparição no clímax de “Brave New World” tivesse sido guardado exclusivamente para ser visto nos cinemas (como foi feito com as aparições dos Homens-Aranhas, Tobey Maguire e Andrew Garfield, em “Sem Volta Para Casa”) a empolgação provocada pelo filme seria exponencialmente maior.

Como está, “Brave New World” não é um filme ruim, longe da irrelevância maçante de “As Marvels” ou da afetação lastimável de “Thor-Amor & Trovão”, e Anthony Mackie se esforça genuinamente para ser um herói com dignidade e valor, no entanto, os predicados desta produção –leia-se, roteiro (fragmentado e mal-amarrado em muitos momentos) e direção (burocrática e incapaz de evidenciar sequências mais memoráveis) –ficam muito aquém das obras nas quais se inspira e às quais tenta a todo o custo igualar: Os excelentes filmes estrelados pelo Capitão América anterior, Steve Rogers (Chris Evans).

domingo, 9 de junho de 2024

Uma Secretária de Futuro


 O saudoso diretor Mike Nichols sempre teve uma versatilidade desigual, essa capacidade, somada ao talento para sintonizar as sutilezas da atuação (oriundo de sua formação teatral) ajudou a moldar inúmeros projetos singulares que compõem a sua filmografia. Nela, há de tudo um pouco. Das raras comédias a concorrer à prestigiada estatueta de Melhor Filme na cerimônia do Oscar 1989 (prática que infelizmente perdura até hoje), “Uma Secretária de Futuro” é um título que se destaca: Por sua simpatia perene junto ao público que tornou-o um sucesso de bilheteria; pela escolha espetacular, primorosa e espirituosa de intérpretes, todos perfeitos (algo no qual Nichols era craque); e pela junção adequada, funcional e certeira de elementos, tais como um bom roteiro, boas atuações e uma ótima direção.

Interpretada com fulgor fora do comum por Melanie Griffith (uma atriz com algo de alternativo que, na época, dificilmente seria uma escolha convencional para um papel como este), Tess McGill é uma das muitas assalariadas que luta por ter lugar ao sol na disputada (e machista) Nova York da década de 1980. Todos os dias, ela pega a balsa que a leva da suburbana Nova Jersey –onde tenta levar uma vida doméstica, pacata e pretensamente estabelecida ao lado do noivo (Alec Baldwin) –para a competitiva e inclemente Manhattan, onde estão os tubarões corporativistas da bolsa de valores que normalmente atuam como seus patrões; Tess é secretária.

Um deles (Oliver Platt) não tarda a lhe preparar uma armadilha: Julgando ser uma entrevista de emprego para um cargo melhor, Tess acaba na limusine de um executivo disposto à seduzí-la –uma ponta de um ainda desconhecido Kevin Spacey, da época em que atuava mais como comediante. Como pedir demissão na situação financeira de classe média-baixa em que vive é um risco e tanto, Tess tem consciência da urgência em arrumar outro ganha-pão. E ela julga que sua sorte pode finalmente mudar quando começa a trabalhar para a empoderada e discursivamente encorajadora Katharine Parker (Sigourney Weaver, afiadíssima) –afinal, com uma mulher como chefe, imagina Tess, as chances de crescer profissionalmente se tornam reais, longe da indulgência tipicamente masculina, não é mesmo?

Contudo, não é exatamente isso que acontece: Ao sugerir uma ideia bastante original e arguta que teve para Katharine –a de investir, não em emissoras de TV, no ramo de propaganda, mas em emissoras de rádio, por conta dos valores e das complexidades de negociações serem infinitamente mais razoáveis –Tess descobre que Katharine tentou lhe passar a perna. Durante uma tumultuada semana em que Katharine sofre uma fratura andando de esqui, Tess fica sabendo que ela lhe roubou a ideia e iniciou negociações preliminares com um tal de Jack Trasker (Harrison Ford, no auge de sua fase galã). Ao aproveitar-se da ausência de Katharine para passar-se por uma das acionistas a fim de conduzir a negociação, Tess inicia uma relação profissional promissora ao lado de Jack, que acaba progredindo para uma relação mais íntima também –e em ambos os casos, Tess sabe que terá a competição acirrada e desleal de Katharine.

A narrativa que Mike Nichols constrói em “Uma Secretária de Futuro” é, até hoje, pra lá de saborosa: Não apenas ele faz uso imodesto dos elementos de comédia romântica presentes na trama (os encontros e desencontros entre Tess e Jack são simultaneamente deliciosos de se acompanhar) como também se vale de um expediente muito comum em obras graciosas dos anos 1980, onde um, ou uma, protagonista finge, por razões até que nobres, guardadas as proporções, ser aquilo que não é, e cria toda uma farsa a um só tempo divertida e tensa com data de validade para terminar (pois, mentira, apesar dos pesares, ainda tem perna curta!), premissa que funcionou para as mais diversificadas produções como “Tootsie”, “Quase Igual Aos Outros”, “Um Príncipe Em Nova York”, “Tocaia” e tantas outras, aliado a isso, ele ainda elabora uma observação contundente, envolvente e cheia de propriedade, do competitivo mercado de trabalho yuppie dos anos 1980, amparada numa personagem principal cheia de iniciativa, pioneira das personagens femininas a se posicionar com independência e auto-afirmação perante os homens em um universo predominantemente masculino.

Em tempo: Já a adentrar os anos 1990, algum executivo da NBC teve a ideia de criar uma série de TV inspirada em “Uma Secretária de Futuro” –ou “Working Girl”, seu título original –e a atriz que interpretou Tess McGill nos oito episódios que essa série pouquíssimo lembrada durou foi uma ainda desconhecida Sandra Bullock!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Indiana Jones e A Relíquia do Destino


 Há uma estranha tendência em voga a dominar o entretenimento. Nela, ícones considerados clássicos sofrem uma espécie de desconstrução em prol de certas agendas ideológicas e discursos politicamente corretos em atividade, sobretudo, nas redes sociais. Colhido num momento em que tal prática parece ter chegado ao seu ápice, “Indiana Jones e A Relíquia do Destino”, o quinto filme da gloriosa franquia que remonta desde os anos 1980, seria uma retomada das aventuras do famoso arqueólogo; uma celebração da tenacidade quase absurda de seu intérprete, Harrison Ford (do alto de seus 81 anos) em permanecer num papel tão fisicamente exigente; e um resgate das aventuras à moda antiga que lotavam cinemas, numa época em que Hollywood e seus realizadores parecem ter perdido o jeito para fazer exatamente isso.

Entretanto, “A Relíquia do Destino” não é nenhuma dessas coisas: A troca de diretores (sai o veterano, mas ainda ativo, Steven Spielberg, realizador de todos os quatro longas anteriores; entra o jovem diretor James Mangold, de “Ford Vs Ferrari”), talvez na intenção de rejuvenescer aspectos narrativos da franquia, pouco ajudou no fato de que, ao afastar-se das características identificáveis que agregavam estilo à série –e que, ao longo dos anos, arregimentaram seus fãs –o novo filme se afasta não só dos elementos que sempre fizeram de Indiana Jones e seus filmes algo tão original, mas também afasta a possibilidade desta produção, com todo o vultuoso orçamento investido, ser um bom filme.

Em seu prólogo, “A Relíquia do Destino” até alimenta um pouco a esperança do público: Nos anos 1940 (época correspondente ao período de “Os Caçadores da Arca Perdida”), Indiana Jones (Harrison Ford, neste início, rejuvenescido por computador) escapa por um triz do jugo dos nazistas junto de seu amigo Basil Shaw (Toby Jones), numa intrépida cena de ação sobre um trem em movimento –neste trecho, está em cheque a posse do precioso Marcador de Tempo de Arquimedes, segundo o qual, seria possível torcer o fluxo temporal e modificar o passado.

Logo após esse prólogo, somos levados à 1969, na companhia de um Indiana Jones octogenário, amargurado, desiludido e aposentado. Na ânsia de afastar-se do mal-recebido “Indiana Jones e O Reino daCaveira de Cristal”, a produção descarta muitos dos elementos plantados por aquele filme, como o casamento com Marion Havenwood (Karen Allen), agora um iminente divórcio, e em especial, o filho de Indy, Mutt Williams (vivido naquele filme pelo irritante Shia LaBeouf), morto em combate, como não tardamos a descobrir.

A ação começa de fato quando entra no caminho de Indy uma misteriosa mulher que descobrimos ser sua afilhada, Helena (Phoebe Waller-Bridge, da série “Fleabag”), filha do já falecido Basil. Helena quer a ajuda de Indiana para encontrar as duas partes perdidas do Marcador de Arquimedes –uma das quais esteve nas mãos dele e de seu pai –contudo (e isso, os realizadores tratam como a maior das novidades), Helena não deseja o artefato para fins filantrópicos ou altruístas como colocá-lo em exposição num museu (motivação principal do grande protagonista da série e, até de muitos de seus antagonistas, também), Helena quer, na verdade, vender a relíquia num leilão clandestino e faturar dinheiro.

E está aí, na postura de relativo desdém para com o passado e seus significados, aquela que parece ser a opinião não só da coadjuvante que busca, o tempo todo, roubar o filme de seu idoso protagonista, como também a dos realizadores. Enquanto “Indiana Jones” possuía Spielberg na direção –mesmo que nos filmes nem tão superlativos da saga como o demasiado sombrio “O Templo da Perdição”, ou mesmo o insatisfatório “O Reino da Caveira de Cristal” –havia um diretor atento aos elementos icônicos do personagem, aos impulsos morais que faziam seus códigos de honra serem infalíveis, e à uma postura cinematográfica e artística que tornava tudo salutar, supino e translúcido (“Indiana Jones” é bom lembrar, sempre teve profunda influência de “007”); agora com o esforçado James Mangold na direção (o roteiro ficou a cargo dele, de Jezz Butterworth e de John-Henry Butterworth), muito disso se perde: Mangold dirige com plena consciência dos tópicos a serem preservados como símbolos distinguíveis da série (como a trilha de John Williams, as cenas de ação impregnadas de uma melindrosidade do cinema mudo de Buster Keaton e Harold Loyd, os enigmas a serem desvendados em cenários ancestrais, inacessíveis e inesperados), mas se esquece que seu herói precisa SER Indiana Jones, e não a desengonçada moça que, neste enredo, o acompanha. Enaltecida de forma bastante desmedida para ser uma mera coadjuvante, mas pouco memorável para ombrear o personagem principal, Helena é uma personagem que atende demandas dos tempos atuais: É empoderada (ou assim julgam os roteiristas que a fazem uma anti-heroína ambígua durante boa parte do filme), questionadora (já que ela justifica roubar a relíquia de todo mundo como uma prática que espelha o próprio capitalismo!) e nem um pouco sexualizada (na verdade, é quase masculinizada!), Helena é uma personagem concebida, pelo roteiro e pela atriz que a interpreta com tanta sanha em corresponder aos tópicos liberais da atualidade (que condenam muito da imagem das protagonistas femininas dos filmes do passado) que não tiveram tempo de fazer dela alguém com quem o público vá se importar.

Resultado: A coadjuvante, que em diversos momentos parece suplantar o verdadeiro herói ao longo do filme (até porque, a avançada idade de Harrison Ford o impede de atuar com verossimilhança como Indiana Jones em muitos momentos cruciais e essencialmente físicos da trama) é chata, sem empatia e sem motivação, não oferecendo absolutamente nenhuma característica positiva que a faça, por exemplo, mais digna da torcida do público que os próprios vilões de plantão, vividos, à propósito, por Mads Mikkelsen e Boyd Holbrook (de “Logan”).

Há um lamento que persiste e perpassa todo “A Relíquia do Destino”, uma sensação de que Indiana Jones já foi melhor aceito (e melhor realizado) em outros tempos.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Ender's Game - O Jogo do Exterminador


 O diretor sul-africano Gavin Hood ganhou do Oscar de Filme Estrangeiro por "Infância Roubada" e, em seguida, quase destruiu a própria carreira ao dirigir “X-Men Origens Wolverine”, o primeiro (e catastrófico) filme solo do personagem. Ao encarar esta adaptação austera, equilibrada e interessante de uma série conhecida de livros juvenis, ele tentou –e de certa forma conseguiu –provar que é um bom realizador.

Ender’s Game” passa longe de ser uma obra-prima, mas deixa evidente a condução sensata, a noção de ritmo e o entendimento de uma história que Gavin Hood pode ter quando não há todo um estúdio dando pitaco em seu trabalho.

A trama se passa no futuro, onde toda uma geração de crianças é treinada para uma provável guerra contra uma raça alienígena que tentou uma invasão fracassada a Terra no passado.

Uma dessas crianças é o jovem e promissor Ender (Asa Butterfield), cujo irmão mais velho não soube desenvolver seu potencial, fazendo com que a mesma descrença caísse agora sobre ele.

Sua rotina na academia militar situada no espaço é penosa: além de enfrentar desafiadoras provas simuladas, Ender precisa lidar com o bullying de inúmeros colegas e rivais que aparecem em seu caminho.

Dois são os mentores que pavimentam seu caminho rumo à uma certa auto-descoberta e à transição da perplexidade adolescente até a consciência estrategista e ética de um vida adulta inicial, e eles são o Coronel Graff (Harrison Ford) e o lendário Mazer Rackhan (Ben Kingsley, que fez, anos antes, “A Invenção de Hugo Cabret”, também ao lado de Asa Butterfield), além de outras personagens evidentemente plantadas com o nítido objetivo de guiá-lo ao amadurecimento pessoal, como atestam as presenças demagógicas, ainda que inebriantes de Hailee Stenfeld e Abigail Breslin; todavia, o personagem mais marcante do filme é o breve antagonista Bonzo, vivido por Moises Arias (da série "Hannah Montana" e de "Kong-A Ilha da Caveira") –ele responde pelo trecho mais envolvente, sólido e reflexivamente esclarecedor de todo o filme. Esse acerto particular (e possivelmente involuntário) em todo um único bloco narrativo (pois, Bonzo não tarda a ser descartado da trama), em detrimento das outras partes, boas mas não tanto, fornecem um estranho desequilíbrio ao filme de Gavin Hood. Ele flerta seriamente com a grande obra que poderia ter sido, para então, praticamente em toda sua segunda metade, investir em aspecto que nunca funcionam –sua elaborada reviravolta final, por exemplo, é um bocado fácil de antecipar.

No saldo geral, “Ender’s Game” termina como uma experiência positiva para o expectador, ainda que seu curto fôlego como trabalho antológico tenha feito sua repercussão, seja de público, seja de crítica, ser merecidamente muito aquém do que se esperava. Fato que termina condenando o gancho final –explicitamente necessitado do respaldo de uma continuação –a jamais ser concluído em outros filmes.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Império dos Sonhos - A História da Trilogia Star Wars


 Hoje, “Star Wars” é mais que uma simples saga cinematográfica; é um marco comparável à poucos na cultura pop que reúne uma legião intratável de adoradores e depreciadores que o amam e o odeiam com igual intensidade.

Motivo para isso é seu sucesso incomensurável –que há tempos já extravasou as fronteiras do cinema indo para a animação, quadrinhos, literatura, videogames e séries de TV –e a capacidade de apreender, em toda sua vasta mitologia, um fascínio por elementos imediatamente identificáveis e por personagens inconfundíveis.

O documentário capitaneado por Edith Becker e Kevin Burns, realizado em 2004 para aproveitar o lançamento dos três primeiros filmes em DVD, foi registrado enquanto a polêmica “Trilogia Prequel” (composta de “A Ameaça Fantasma”, “O Ataque dos Clones” e “A Vingança dos Sith”) ainda estava sendo realizada, e muito antes de haverem planos para uma “Trilogia Sequel” (que consiste de “O Despertar da Força”, “Os Últimos Jedi” e “A Ascensão Skywalker”) ou do boom que a saga sofreu nos anos recentes ao ser comprada pela Disney e multiplicar seu cânone em séries animadas, derivados e inúmeras outras obras. Portanto, ao filme resta somente registrar o nascimento da obra que originou todo esse vasto universo e que, sabe-se, resume-se aos exemplares da hoje chamada “Trilogia Clássica” (que alberga os seminais “Uma Nova Esperança”, “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”), cujo dado mais surpreendente seja talvez o de que, tantas obras e ramificações depois, continuam entre os produtos de mais alta qualidade reconhecida seja entre fãs ou críticos.

O que muita gente não sabe, foram as dificuldades homéricas enfrentadas por George Lucas para conceber sua visão –e que encontraram muitos obstáculos devido às inovações que ele vislumbrou em sua realização –e nem a forma (ou o contexto) com que a chamada ‘Febre Star Wars’ dominou o Planeta Terra naqueles turbulentos, mas à sua maneira inocentes, anos 1970.

O documentário explora, em tom notadamente enaltecedor, o pioneirismo do grupo formado ao redor de George Lucas e de como usaram de vasta criatividade para moldar imagens (e sons) que logo entrariam para a História. Acompanhamos a tenacidade de Lucas enquanto criador ao insistir numa aventura de ficção científica construída em circunstâncias que eram, então, sem precedentes: Obras desse cunho, para obter respeito e aprovação crítica, deveriam ser adultas e cerebrais, caso contrário, caíam na desonrosa pecha de produções infantis –o que, muitos à época  insistiram, “Star Wars” seria.

Igualmente sem precedentes foi a opção de Lucas em assumir os direitos sobre o merchandising dos produtos oriundos do filme, algo que, ao longo do tempo, se mostrou um acerto milionário e que, entre outras coisas, definiu o sistema mercadológico do cinema comercial norte-americano dali para frente.

O documentário é respeitoso. Ele omite fatos espinhosos como o romance fora das telas entre Harrison Ford e Carrie Fisher ou o breve problema de vício em drogas dela, porém, ele se estende para além do primeiro filme ao focar na realização também de “O Império Contra-Ataca”. Assim, descobrimos que, em 1980, Lucas depositou todas as suas fichas na continuação, investindo toda a fortuna que havia adquirido com o sucesso do primeiro filme; embora muitos acreditassem, desdenhosamente, que ele já tivesse dinheiro para dar e vender.

Os depoimentos do diretor Irvin Keshner expõem claramente as decisões que levaram a sequência a ser ainda mais memorável que o filme anterior, e as escolhas que levaram aos grandes momentos da saga, como a revelação da paternidade de Darth Vader –mantida em segredo, na cena, até do próprio ator Mark Hammil –e o fenomenal desfecho, com o gancho explícito para a terceira parte.

O último terço dá conta, assim, da realização, aguardada com muito expectativa pelo público, de “O Retorno de Jedi”, quando “Star Wars” já havia se sagrado como uma das grandes franquias do cinema moderno, e seus astros, Hammil, Ford e Fisher, já eram tão reconhecidos que a produção teve de usar títulos alternativos para diblar curiosos –prática esta que também passou a ser adotada por Hollywood.

O documentário ainda traz depoimentos maravilhosos de realizadores direta ou indiretamente influenciados por “Star Wars”, seja nas suas inovações técnicas, seja na inspiração que exerceu quando eles eram fãs –entre essas ilustres aparições estão Steven Spielberg, Francis Ford Coppola (chapas de George Lucas que, inclusive, acompanharam a gestação do conceito de “Star Wars”), Peter Jackson, Jeffrey Katzenberg e John Lasseter. Todos eles e outros convidados (além de outros segmentos mais!) fornecem um panorama do que foi “Star Wars”, não somente o retumbante fenômeno cultural, mas também os fascinantes contratempos enfrentados em sua gênese, e a personalidade pacata, colaborativa e divertida de seu criador, George Lucas, por vezes mostrado como o gestor de inúmeras mentes criativas (algumas mais prodigiosas que a dele próprio) no centro desse furacão que mudou o cinema para todo o sempre.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A Incrível Vida de Adaline


 É possível que hajam méritos bastante abstratos no fato de que “A Incrível Vida de Adaline”, com sua construção de contos de fadas e todos os seus reflexos condicionados de comédia romântica, seja assim tão envolvente e agradável.

Grande parte disso vem, certamente, da escolha feliz de Blake Lively para o papel da protagonista: Linda atriz, dona de um carisma incomum –uma simpatia mesclada a um insolúvel encanto –e consideravelmente talentosa, Blake tem, além de tudo, uma fisionomia delicada e clássica, a lembrar uma atriz dos anos 1940, o que casa com perfeição à personagem que interpreta, uma quase versão feminina de “O Curioso Caso de Benjamin Button”; Adaline Bowman, afinal, adquiriu em algum momento de sua vida (e por razões mais mirabolantes do que se pode imaginar) uma condição singular –ela simplesmente não envelhece, congelada na mesma idade (29 anos) e conservando uma beleza acachapante.

Se em princípio, esse detalhe –percebido por ela, logicamente, à longo prazo –parece ser uma espécie de benção, com o passar do tempo Adaline percebe tratar-se de uma maldição.

Ela teme ser isolada, dissecada e estudada, privada de seu direito de viver caso seja descoberta, mas, mesmo deixando sua condição em segredo, ela não consegue viver: De tempos em tempos, ela precisa deixar o lugar onde vive e trabalha, e as pessoas com quem se relaciona quando o transcorrer do tempo começa a denunciar o contraste entre aqueles que envelhecem à sua volta, enquanto nada acontece a ela (até mesmo sua filha, vivida de um certo ponto em diante pela octogenária Ellen Burstyn, acaba envelhecendo a ponto de aparentar ser a avó de Adaline!).

A trajetória dessa incomum protagonista chega num ponto crucial quando, nos dias atuais, ela verdadeiramente se apaixona por Ellis Jones (Michiel Ulsman, de “Livre” e “A Jovem Rainha Victoria”), com quem ela almeja, de alguma forma, casar-se. Embora Adaline não se permita, por algum tempo, pensar no inevitável –que, em algum momento, Ellis irá envelhecer e ela não –a obrigação da consciência vem até ela: Quando fica noiva de Ellis, Adaline conhece a família dele, cujo pai, William (Harrison Ford) veio a ser namorado de Adaline a muitos anos atrás (!). Nos flashbacks que ilustram o romance que tiveram, William é interpretado por Anthony Ingruber, jovem ator que traz, deveras, uma espantosa semelhança com Harrison Ford.

O fato de Adaline mudar de identidade justamente para acobertar de todos sua idade imutável proporciona a ela fingir que tudo é uma grande coincidência –que ela é filha da mulher que William um dia amou e não a própria mulher!

No entanto, como regem as orientações melodramáticas do cinema comercial –e, apesar de todo o potencial de sua premissa, é nesse nicho convencional que “A Incrível Vida de Adaline” se insere –a verdade acaba vindo a tona, o que obriga Adaline a revelar, pela primeira vez, a sua incrível história, não só a William, mas, a Ellis também.

Para tornar essas concessões narrativas um pouco mais difíceis de engolir (ou para ir de encontro aos anseios de uma parcela mais acomodada da plateia, como queira), o diretor Lee Toland Krieger arruma, já perto do desfecho do filme, uma forma de Adaline voltar ao normal, à inapelável condição humana na qual envelhecerá e morrerá, para que possa viver ao lado de seu príncipe encantado, num infalível final feliz, sem que escolhas dolorosas continuem sendo tomadas.

E sem que os realizadores precisem se defrontar com impasses que exigirão alguma ousadia que o filme não se dispõe a ter.

domingo, 9 de agosto de 2020

Amor Em Chamas

Em 1979, o público ainda absorvia a apreciação de ver Harrison Ford no papel de Han Solo, no bem-sucedido “Star Wars”. Trabalhos que vieram a consolidar seu status como astro, tais quais “Caçadores da Arca Perdida” ou “Blade Runner” ainda não haviam sido feitos –e mesmo a continuação de “Star Wars”, “O Império Contra-Ataca” só chegaria às telas de cinema no ano seguinte –assim sendo, soava quase audacioso colocar Harrison Ford como um galã romântico num filme de guerra feito à moda antiga; no entanto, esse detalhe termina sendo deveras a maior audácia deste singelo trabalho do diretor e também roteirista Peter Hyams (de "Timecop-O Guardião do Tempo", com Van Damme), indo na mais absoluta contra-mão das tendências criativas de sua época (na qual estava em voga um experimentalismo autoral, forte característica da Nova Hollywood), o filme de Hyams almeja recuperar um estilo tradicional de filme antigo, onde se percebe com clareza a inspiração maior de “Casablanca”.
E como na obra de Michael Curtiz é em torno de um amor impossível –e de impossibilidades diretamente relacionadas aos desdobramentos da guerra –que respira a sua premissa.
Também esse esmero antiquado e propositadamente anacrônico se nota na reconstituição de época: Já na primeira cena, salta aos olhos o capricho na cenografia a recriar a Hanover Street (título original do filme, à propósito), em Londres, onde boa parte da primeira metade da trama se passará..
Ao tentar pegar um lugar num ônibus londrino, o personagem de Harrison Ford se envolve numa graciosa disputa com a personagem da bela Lesley-Anne Down (de “A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa” e “Delírios Mortais”); ambos perdem a carona e acabam tomando um chá. Ele é piloto da Força-Aérea Norte-Americana. Ela é enfermeira.
Ali mesmo, quando ainda titubeiam na atração recíproca recém-descoberta, eles testemunham um bombardeio inimigo que arrasa boa parte da Hanover Street, e as emoções intensas de escapar da morte por um triz marcam o início da relação.
A cada quinze dias, ele, cujo nome é David Halloran, recebe uma folga, durante a qual se encontra com ela, cujo nome é Margaret Sellinger.
Ela é casada, no entanto, experimenta com Halloran, uma paixão que jamais conhecera.
Ele é (ou era) impulsivo, corajoso, inconsequente até; agora, porém, que tem alguém para quem voltar, Halloran começa a experimentar o inédito sentimento do medo de morrer em combate –temor que ele passa a compartilhar com seus colegas de avião, seu co-piloto Tnt. Hyer (Michael Sacks, de “Louca Escapada” e “Matadouro 5”) e seu bombardeiro Tnt. Cimino (Richard Masur, de “Sem Licença Para Dirigir”).
Nas intenções bem claras expostas pelo trabalho de Peter Hyams notamos o cinema à moda antiga que ele busca em “Amor Em Chamas”: Seu roteiro peca por diálogos assolados por redundâncias, mas ele parece até mesmo ciente disso. Seu empenho real se enxerga na direção e no clima de romantismo onipresente que evoca, aproveitando o belo par formado por Harrison Ford e Lesley-Anne Down, a trilha sonora dramática e melodiosa de John Barry e os esforços admiráveis da direção de arte, do figurino e demais departamentos cenográficos –em meio aos quais a produção encontra seus mais hiperlativos méritos.
Como consequência, para efeitos de desenlace, o filme de Hyams vai confrontando seus amantes protagonistas com as injustas ironias do destino à medida que caminha da primeira para a segunda metade: Como forma de compensar uma missão da qual desistiu no último minuto (escapando assim da morte certa), Halloran e seu grupo são pressionados a aceitar uma missão diferenciada envolvendo os esforços da Contra-Inteligência Britânica, na qual deverão sobrevoar a cidade de Lyons, na França Ocupada, e nela deixar um agente disfarçado de oficial alemão. O agente em questão é Paul Sellinger (o sempre digno Christopher Plummer), o próprio marido de Margaret (!).
Quando o avião é alvejado e destruído, e praticamente toda tripulação, morta, restam apenas Halloran e Sellinger vivos para completar a missão que inclue adentrar o posto de comando nazista a fim de roubar documentos –e nesse processo, cada esquina reserva uma ameaça às suas vidas.
Diante desse detalhe, Margaret tem, portanto, que se preocupar em dobro: Com a vida do marido e pai de sua filha pequena (Patsy Kensit, de “Máquina Mortífera 2”); e com a vida do homem que ela ama, ambos reunidos na mesma e perigosa situação –embora a direção e o roteiro de Hyams, por razões que só podem ser explicadas pela falta de timing, protele em demasia o momento em que tal informação chegue até ela.
Previsível até a medula (quem assistiu diversos outros filmes a girar sobre esse tema consegue adivinhar as cenas chegando à quilômetros de distância!), o filme de Peter Hyams parece ser feito para um público fidedigno desse gênero específico, apreciador de tramas românticas com desenvolvimento e conclusão pré-estabelecidos em seus expedientes, de um charmoso filme de espionagem que já faz parte do passado, de diálogos cheios de obviedades e juras de amor e de intoxicante predisposição ao melodrama. A esses expectadores –e somente a eles –“Amor Em Chamas” agradará plenamente as expectativas.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Apocalypse Now Redux

Lançado no Festival de Cannes de 2001, durante o advento das ‘versões especiais do diretor’ de filmes em DVD, “Apocalypse Now Redux” representava um novo e diferenciado corte de Francis Ford Coppola em relação à sua obra-prima lançada em 1979.
O “Apocalypse Now” que todos conheciam, e que não tardou a converter-se numa marco fundamental do cinema, era um cópia bruta, despida de cenas que, segundo Coppola, acrescentavam novas camadas à trama; dessa forma, esta versão “Redux” era inusitadamente acrescida por quase uma hora de material inédito que, segundo o próprio Coppola, tinha o mérito de tornar mais ágil o material.
O filme que começa é o mesmo e magistral de sempre: Ao som apoteótico e apropriadamente dramático de “The End”, do The Doors, somos apresentados ao Capitão Willard (Martin Sheen) e às suas neuroses –no Vietnam, ele anseia por voltar para casa; quando em casa, ele sente falta da guerra.
Logo, ele recebe uma missão para ocupar sua mente transtornada: Deve subir um rio até adentrar o Camboja a bordo de um barco militar, infiltrado entre a tripulação, e uma vez lá eliminar o mítico Coronel Kurtz (Marlon Brando), um oficial extremamente graduado que enlouqueceu em regiões muito distantes da civilização, e lá montou um império particular.
As primeiras diferenças em relação ao filme original surgem logo após a espetacular cena do bombardeio ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, quando Willard (um personagem sem expressões de sarcasmo na outra versão) convence os soldados a roubarem a prancha de surf do megalomaníaco oficial interpretado por Robert Duvall. Na sequência, a cena do show das coelhinhas da Playboy ganha um formidável e aprofundado acréscimo quando Willard e os outros recrutas reencontram as garotas num acampamento militar decadente transformado praticamente em prostíbulo.
Contudo, o trecho que realmente justifica a existência desta versão “Redux” é mesmo o imenso bloco de quase uma hora de duração, lá pelo início do terço final, onde Willard encontra uma fazenda mantida por militares franceses em pleno Vietnam –cena apelidada pelo diretor de “Fantasmas de Buñuel” –onde os protagonistas encontram personagens aprisionados pela própria irredutibilidade de sua ideologia.
O interlúdio de Willard com a bela moradora do lugar (Aurore Clément, de “Paris, Texas”) introduz uma inesperada dose de erotismo na ópera bélica de Coppola.
Todo seu trecho final, entretanto, manteve-se intocado (prova de que realmente não havia como tornar melhor e mais antológica toda aquela passagem), quando Willard e o que sobrou de sua tripulação, triturados pela loucura, chegam ao extremo de não-civilização onde reina Kurtz, ameaçador e icônico como só um monstro como Marlon Brando seria capaz de interpretar.
Concebido como uma livre adaptação do livro “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad –transpondo da ambientação da África colonial do Século XIX para a Guerra do Vietnam –o filme de Coppola é uma surreal jornada de pesadelo filosófico, materializada após dois anos infernais de filmagens caóticas. A versão original e oficial até então conhecida era de uma perfeição e de um assombro que dificilmente uma nova releitura seria capaz de ombrear; e, de fato, “Redux” embora fascine por trazer novos adendos à uma narrativa tão hipnótica não consegue retocar o que já era irretocável –as cenas novas esticam consideravelmente a experiência afetando-lhe o ritmo, que na versão original transcorria com exatidão e fluidez.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Uma Manhã Gloriosa


Numa manobra comum ao cinema comercial norte-americano –aquela na qual tudo que dá certo pode ser explorado à exaustão –esta comédia pretende ser uma variação de “O Diabo Veste Prada”; dele, inclusive, herda a própria roteirista, Aline Brosh McKenna.
Redicados para se impor por conta própria ele tem: Não apenas a ambientação e a premissa proporcionam a chance de um filme luminosos e original –no lugar do mundo da moda, o universo televisivo cheio de fogueiras de vaidade que queimam em igual intensidade –como também seu diretor, Roger Mitchell, pode ser considerado um especialista em comédias de humor sofisticado: São deles os ótimos “Um Lugar Chamado Notting Hill” e “Vênus”.
Também o elenco tem nomes notáveis. O primeiro deles, a jovem Rachel McAdams, vive a protagonista Becky, uma ambiciosa produtora de TV que se vê nas nuvens quando finalmente escapa da obscuridade dos programas secundários e assume um célebre show de TV nova-iorquino. É claro que tanta satisfação vem com um porém: Os lendários e veteranos apresentadores do show (vividos pelos também lendários e veteranos Harrison Ford e Diane Keaton) se estranham a ponto de declarar guerra um ao outro.
Conciliar os ânimos e as personalidades difíceis dos dois é só o primeiro dos desafios que Becky terá de encarar.
Na narrativa simples e direta que usa, o diretor se mostra confiante no carisma e na desenvoltura de Rachel McAdams no papel, que embora exagere nos trejeitos em muitos momentos segura bem o rojão –mais do que a relação afetuosa e enfadonha que se cria entre ela e o personagem vistoso de Patrick Wilson (e que confere ao filme todas as inflexões típicas de uma comédia romântica) é a química entre McAdms e Harrison Ford (cujos personagens trilham um caminho tortuoso da implicância até a amizade) que ganha, de fato, importância neste filme indeciso entre fazer rir e fazer cativar.
Mais que tudo, é uma prova e tanto de que o velho “Indiana Jones” é um ator com muito mais potencial do que normalmente é explorado.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Fugitivo

A ação primordialmente bem conduzida pelo diretor Andrew Davis se vale de uma série de escolhas inteligentes para funcionar: A montagem dinâmica e perspicaz, o ritmo espontâneo e informativo imposto pelo roteiro, enquadramentos inesperados em resposta aos panoramas americanos convencionais que, mais tarde, foram devidamente assimilados pela indústria.
Richard Kimble (Harrison Ford, fantástico no papel) é um homem injustiçado: No mesmo incidente em que teve a esposa assassinada (“foi um homem de um braço só” terminou virando um bordão na época da série em que este filme se baseia), ele também terminou condenado por seu homicídio.
Nos primeiros minutos, o diretor Davis já promove a reviravolta fenomenal que irá engatilhar o filme: O espetacular acidente sofrido pelo ônibus que conduziria Kimble a uma penitenciária –e que o permite fugir para encontrar uma forma de tentar provar sua inocência nos anos por vir, enquanto busca escapar do encalço obstinado do agente federal Gerard (Tommy Lee Jones, extraordinário no personagem que lhe deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).

Além da condução prodigiosa, Andrew Davis não só demonstra habilidade ao ressaltar os predicados de seu roteiro e a astúcia de seus intérpretes, com freqüência perfeitos em seus papéis (além de Ford e Lee Jones, há Jeroen Krabbé, vilanesco como sempre, a participação da bela Sela Ward, como a esposa e até uma ponta sensacional e infelizmente muito pequena de uma ainda desconhecida Julianne Moore), como também enfileira uma cena antológica atrás da outra: O salto intrépido de Ford nas águas de um rio após uma aflitiva e labiríntica perseguição pelos túneis de um aqueduto; a fuga (por um triz) através de uma porta automática com vidro à prova de balas; o trecho em que a narrativa sugere um final iminente para então seguir por outro caminho; a inteligente e bem amarrada solução final.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A Conversação

Talvez, não caiba dizer que o excelente “A Conversação” seja um filme menor de Francis Ford Coppola, entretanto, quando vemos que ele se situa entre “O Poderoso Chefão-Parte II” e “Apocalypse Now” em sua assombrosa filmografia dos anos 1970, este é o primeiro comentário que ocorre.
Muitos cineastas, normalmente quando envolvidos em projetos de escala épica, têm em geral o hábito de intercalar uma obra menor, de orçamento, prazo de produção e viabilização menor, como forma de restaurar as energias e recobrar o tino narrativo de produções altamente exigentes em termos logísticos –um exemplo disso é a realização de “Psicose”, por Alfred Hitchcock logo na seqüência da superprodução “Intriga Internacional”.
Do modo como se situa na trajetória artística de Coppola, “A Conversação” parece ter exercido esse tipo de papel para ele.
Coppola dá um tempo nas intrigas mafiosas da família Corleone para se focar em outro universo de segredos e meias verdades. Quando o filme começa testemunhamos um diálogo banal entre duas pessoas numa praça bucólica. A captação de som, os ruídos, o murmúrio do ambiente, tudo torna nebuloso o esforço para distinguir o verdadeiro teor da conversa.
Mas, é exatamente esse o ofício de Harry Caul (Gene Hackman, num de seus grandes papéis), um especialista em escutas, realizando mais um de seus trabalhos rotineiros.
Harry é uma versão ultra-realista do que se supõe ser um espião: Vive nas sombras, cercado de aparatos nada vistosos, mas potencialmente defeituosos, sua vida e ele próprio são completamente destituídos de glamour.
Talvez seja essa compreensão e autoconsciência da própria mediocridade que leva sua paranóia a deduzir que, no diálogo que capturou na primeira cena do filme, haja afinal um plano nebuloso para um iminente assassinato.
Ou talvez seja um perigo real e cabe somente a ele impedir que venha a acontecer.
Como no formidável “BlowUp-Depois Daquele Beijo”, de Michelangelo Antonioni –uma inspiração suprema aqui –o áudio em questão serve para que o protagonista realize um escrutínio constante e incessante em busca do que possa ser a verdade, e paradoxalmente com isso, acabar mergulhando na verdade a respeito de si mesmo.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049

Incrível como o roteiro escrito por Michael Green e Hampton Fancher (este último, um dos roteiristas do primeiro filme) consegue dar continuidade louvável à trama do cultuado “Blade Runner-O Caçadorde Andróides” sem, no entanto, cair na fácil armadilha de esclarecer alguns dos mistérios que fizeram a fama tão perene do filme original.
Dirigido por Denis Villeneuve que substitui Ridley Scott com perícia e propriedade, “Blade Runner 2049” mergulha nas questões profundas que enriqueciam e engrandeciam o filme anterior: O limite entre o que é sintético e o que é orgânico, entre o artificial e o natural, e a capacidade assombrosa e quantitativa que a tecnologia tem para apagar essas fronteiras.
Se a capacidade de sentir emoções era a diferença entre humanos e máquinas em 9 entre 10 filmes de ficção científica com esse enredo, não é no primoroso trabalho de Villeneuve: Os replicantes –andróides feitos de carne e osso que no filme original, passado em 2019, trinta anos antes deste, se rebelaram contra os criadores –já a muito desenvolveram capacidade para sentir; como é explicitado na relação de afetuosidade doméstica entre o personagem de Ryan Gosling e a inteligência artificial vivida pela absurdamente deliciosa Ana De Armas (de “Bata Antes de Entrar”), e já era mostrado também no filme original, no relacionamento relutante, porém intenso entre Deckard (Harrison Ford) e Rachel (Sean Young).
A grande diferença –ao menos, muitos presumiam –era o fato de que humanos, como todas as outras formas de vida orgânica, podem procriar.
Contudo, quando o Oficial K (Ryan Gosling, extraordinário) descobre os restos mortais de Rachel e, numa autópsia minuciosamente futurística, fica evidente que a replicante do filme anterior morreu ao dar a luz (!), descobre-se a abertura de um precedente para colocar os replicantes em pé de igualdade com os humanos (e sendo assim, confrontá-los, na possibilidade de uma devastadora guerra civil). As ordens de K dadas por sua chefe (Robin Wright) são então para consumir com todas as provas e testemunhas, incluindo aí encontrar o paradeiro do ex-blade runner Deckard, pai do filho desaparecido de Rachel.
É uma corrida contra o tempo: Atrás de Deckard e de seu segredo, por inúmeras razões existenciais e políticas, está também o inventor e milionário Niander Wallace (Jared Leto), uma espécie de herdeiro do legado da Tyrell Corporation, que coloca, no encalço de K, a fria e implacável Luv (Sylvia Hoeks, uma das grandes antagonistas do ano).
E dizer mais entra no perigoso terreno em que se entrega demais a trama cujas reviravoltas são tão geniais e inesperadas quanto a força do cinema de Villeneuve.
Eram poucos, hoje, os cineastas verdadeiramente capazes de criar uma continuidade válida para o seminal trabalho que Scott entregou em 1982 (nem o próprio Ridley Scott foi capaz de fazê-lo, pré-sequenciando seu “Alien” de maneira vulgar e insatisfatória com “Prometheus” e “Alien-Covenant”), certamente, muitos foram os que temeram o resultado.
Entretanto, Villeneuve abraça o material com a mesma tenacidade com a qual moldou em “A Chegada” uma das melhores ficções dos últimos anos: “Blade Runner 2049” amplia o escopo do fabuloso e caótico mundo futurista visto no original (agora, não só Los Angeles é vista –numa recriação e ampliação fenomenal dos cenários do primeiro filme –como também vemos os inacreditáveis escombros a perder de vista em Detroit, e o deserto radioativo e abandonado de Las Vegas), dá uma seqüência natural, inteligente e reflexiva à sua trama, honra todas as suas questões mostrando-se tão fascinante quanto e deixa, ao fim, ainda mais perguntas do que respostas –é, pois, um espécime raro no mainstream hollywoodiano, um filme que instiga, impõe questionamentos e reflexões, e nos leva a pensar acerca de nossa humanidade e de suas mais ínfimas imbricações.
Ele supera ainda o original, numa questão bastante inesperada: No afeto que Villeneuve e sua técnica prodigiosa capturam entre seus diversos personagens, nos flagrantes de vínculos que os fazem humanos e lembram, em pormenores poderosos, a importância fundamental da vida e o poder inigualável do amor.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal

O tempo passou, Harrison Ford envelheceu, o próprio Spielberg envelheceu (e nesse hiato sagrou-se como cineasta sério com os Oscars vencidos por “A Lista de Schindler”, em 1993, e por “O Resgate do Soldado Ryan”, em 1999), George Lucas continuou sendo George Lucas (incluindo suas presepadas tentando resgatar “Star Wars” com a mal-fadada “Trilogia Prólogo"), e também o mundo mudou e junto com ele a audiência dos cinemas –na verdade, o próprio cinema mudou!
Mas, uma coisa parecia não ter mudado, de modo geral: O público continuava ávido por uma nova aventura de Indiana Jones.
Eis que em 2008 –dezenove anos depois do lançamento de “A Última Cruzada” –Spielberg, Lucas e Ford reuniram-se novamente para mais uma aventura do mais famoso arqueólogo do cinema.
Escrita por Jeff Nathanson (que obteve resultados esplêndidos trabalhando para Spielberg no roteiro de “Prenda-Me Se For Capaz”), a trama apresentava, aos 65 anos, o Dr. Henry Jones (Harrison Ford, tirando de letra o pique atlético exigido pelo personagem) ainda mantendo suas atividades de explorador e aventureiro ao redor do mundo.
Nos anos 1950, ele agora testemunhava a Guerra Fria e a vilanesca competição dos agentes russos por relíquias antigas representados pela fria Comandante Spalko (Cate Blanchett, uma vilã impecável).
É quando surge Mutt Williams (Shia LaBeouf, espécie de apadrinhado de Spielberg na época), um rapaz trajado com os mesmos figurinos de Marlon Brando em “O Selvagem” –uma habitual piscadela cinéfila de Spielberg –que pede ajuda a Jones para encontrar sua mãe Marion Ravenwood (Karen Allen, de "Caçadores da Arca Perdida", regressando à série), assim como o estudioso –e pinel –Prof. Harold Oxley (John Hurt, encarando um personagem criado para substituir a participação não concretizada de Sean Connery) que se perderam nas selvas da América do Sul à procura da lendária Cidade dos Deuses Maias. Tal localização pode, ou não, ser revelada por outra relíquia sagrada: a Caveira de Cristal de Akator, que Jones e seu novo parceiro de aventuras tentam encontrar em algum ponto do México.
Embora Spielberg tenha recheado este filme com elementos caros ao seu cinema –o mais notável deles, certamente, a introdução de alienígenas na mitologia “Indiana Jones” –e de honrar cada uma das características que fazem a série ser fenomenal, nada disso, impediu “O Reino da Caveira de Cristal” de ser o pior de todos os filmes de Indiana Jones até então. Motivos para isso não faltam: O personagem de Shia LaBeouf (assim como o próprio ator), além de sofrível, é apático e sem carisma; a própria participação de Karen Allen (celebrada pelos fãs antes da estréia do filme) resulta frustrante, inclusive pela falta de timing da atriz que trabalhou muito pouco depois da década de 1980; mas, o pior de tudo é quando os personagens acabam vindo para terras brasileiras –a sucessão de incoerências, não apenas em relação à confusão geográfica do roteiro (começa no território amazonense, após uma breve descida de barco, chegam às cataratas de Foz do Iguaçu e, mais a frente, termina num templo maia!), mas também as inverossimilhanças que se sucedem a medida que o filme caminha para seu clímax, são bastante prejudiciais.
Haviam coisas boas também, claro: Spielberg continuava um diretor de mão cheia e uma das principais preocupações do público (a idade de Harrison Ford) revelou-se infundada –Ford, seu invejável preparo físico e sua identificação certeira com o personagem são, com freqüência, a melhor coisa do filme.
Razões de sobra que mantiveram acesa a chama para a esperança de que um sexto filme ainda seja produzido. Estamos aguardando.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Indiana Jones e A Última Cruzada

A primeira trilogia de filmes de Indiana Jones é de um primor raro de ser igualado no cinema –por isso mesmo, não incluo nesse comentário o quarto filme, realizado muitos anos depois...
Isso se deve porque Steven Spielberg foi extremamente cuidadoso na realização do terceiro filme: Ao mesmo tempo em que ele enxergava com singular admiração o resultado obtido pelo primeiro filme, “Caçadores da Arca Perdida”, no panorama de sua filmografia, ele também lamentava sua insatisfação pessoal para com o resultado final do segundo filme, “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (embora muitos fãs também o apreciem).
Assim sendo, quando iniciou, em 1988, os preparativos para a realização do terceiro filme estrelado pelo arqueólogo aventureiro, Spielberg não poupou esforços para aproximar-se mais do tom, ritmo e atmosfera do primeiro filme, evitando ao máximo o clima sombrio e pesado do segundo: Retornou o personagem de Denholm Elliot, aqui quase um alívio cômico, e retornaram também os nazistas como vilões principais, entre outras similaridades.
O prólogo do novo filme também trazia o esboço de uma “origem do herói” e, a partir disso, uma melhor ilustração de sua vida familiar (mais precisamente o pai de Indiana Jones), o que abriu espaço para a referência primordial de Spielberg: O pai de Indiana, Prof. Henry Jones, foi interpretado por Sean Connery, primeiro intérprete de James Bond, justamente a reconhecida inspiração de Spielberg para criar o arqueólogo.
Sean Connery vive assim o pai de Indiana Jones tanto em termos figurativos como em termos literais.
O começo de “A Última Cruzada” é delicioso, quando vemos um Indiana ainda adolescente (e escoteiro!) dando os primeiros passos em direção ao aventureiro que viria a ser –e, neste trecho, magnificamente interpretado pelo saudoso River Phoenix, que viveu o filho de Harrison Ford em “A Costa do Mosquito”.
Esse início, diga-se, serviu de inspiração para que o produtor George Lucas fizesse uma experiência televisiva com a série “O Jovem Indiana Jones” –que não chegou a vingar.
Passado esse sensacional prólogo, a narrativa salta para o ano de 1938. O arqueólogo Dr. Henry Jones Jr. (mais uma vez Harrison Ford), conhecido como Indiana Jones, auxiliado pela bela e misteriosa Dra. Elsa Schneider (Alison Doody, uma beldade e que –veja só –foi bondgirl em “007-Na Mira dos Assassinos”!) e pelo velho colega Prof. Marcus Brody (Denholm Elliot), parte em busca do Santo Graal –um novo ‘mcguffin’ que não consegue ser tão preciso quanto a Arca da Aliança, mas cumpre seu objetivo.
Primeiro, contudo, Indiana tem que resgatar seu pai, o Prof. Henry Jones (Sean Connery, divertidíssimo em sua fleuma britânica) das mãos dos nazistas, também sequiosos pelo mítico objeto, pois, na condição de respeitado estudioso da época medieval (desempenho que por vezes levou-o a negligenciar seu filho  na infância), ele possui os instintos mais capazes para levá-los até os indícios sobre o paradeiro do cálice sagrado.
E pronto: Como tornou-se habitual nesta trilogia, Spielberg elabora sucessivas cenas magistrais onde entrega uma combinação rara de ação bem conduzida e bem filmada, registro cinematográfico de caráter artístico e espetáculo carismático –a seqüência em que Jones, pai e filho, fogem em disparada de soldados alemães montados numa moto; a perseguição insana de Indiana e seu pai pelos nazistas, começando num dirigível, indo para um aviãozinho b-17, e terminando nas rodovias européias a bordo de um conversível (!); a espetacular cena sobre um tanque alemão que atravessa todo o deserto; e, por fim, a genial resolução dos três desafios que Indiana Jones deve encarar para obter o Santo Graal, todas elas de uma criatividade incomum no cinema comercial norte-americano.
“A Última Cruzada” foi claramente concebido como uma despedida do personagem (não foi, como muitos anos depois pudemos conferir...), e coroou a “Trilogia Indiana Jones” com mais um exemplo impecável de filme de aventura.

domingo, 4 de junho de 2017

A Testemunha

Um dos grandes filmes policiais do cinema, “A Testemunha”, do sempre notável diretor australiano Peter Weir, não se restringe apenas a esse gênero: É funcional também como suspense, como drama e como romance.
Tal mérito se deve ao roteiro equilibrado de Earl W. Wallace e William Kelley que, somado à condução sempre austera e impregnada de vivacidade de Weir, dá ao filme uma atmosfera dramática extremamente desigual e incomum.
Por isso talvez haja um comprometimento tão acentuado e singular na atuação de Harrison Ford (que recebeu aqui a única indicação ao Oscar de Melhor Ator de sua carreira) no papel de John Book, o policial encarregado de um caso onde um garotinho amish (o pequeno Lukas Haas) torna-se a única testemunha de um brutal assassinato, logo descobrindo que o assassino vem a ser um conceituado detetive da polícia de Los Angeles (Danny Glover).
O homicídio em questão envolve, portanto, corrupção nos mais altos escalões da polícia, o quê o obriga, sem alternativas, a refugiar-se, junto da criança e de sua mãe (Kelly McGillis, de “Top Gun”, belíssima) na comunidade amish ao qual os dois pertencem.
É quando o filme de Weir revela seu aspecto mais inusitado e brilhante: Homem rígido e urbanizado, John Book encontra dificuldade e reticência em sua adaptação a esse novo modo de vida no qual, ao contrário da rotina moderna que cultivou a vida inteira, prima pela harmonia, pela simplicidade (num nível quase atroz) e pela abnegação de comodidades fúteis e banais.
Paralela a essa adaptação –que acontece em todas as suas nuances de sutileza e drama –floresce também uma paixão contida entre ele e Rachel (personagem de McGillis), completamente impedida pelas circunstâncias e pelo contraste do mundo a que ambos pertencem.
Essa faceta do filme de Weir, tão magistral e bem realizada em todos os seus aspectos se mostra que chega a engolir a trama policial que engatilhou a narrativa, mas ela retorna na meia hora final, brilhantemente tensa e aflitiva, para ilustrar o realizador completo que é o seu diretor.
Ao fim, a idéia com a qual Peter Weir encerra o filme e deixa o expectador é a mesma de quase todos os seus filmes: O fato indelével –e fascinante até –que o ser humano tem de transformar e deixar ser transformado pelo ambiente à sua volta.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Indiana Jones e O Templo da Perdição

Na inevitável continuação de “Os Caçadores da Arca Perdida”, o diretor Steven Spielberg e o produtor George Lucas tinham planos de concretizar o restante das cenas que planejavam para aquele primeiro filme, extraídas de seu imaginário nostálgico em relação aos filmes de matinê do passado, que também inspiraram as aventuras de “Star Wars”.
Assim, cenas como a queda livre de um avião num bote inflável através dos picos de neve de uma montanha, a perseguição em um pequeno carrinho pelos trilhos e túneis de uma mina abandonada ou a luta final na ponte de cordas, que não encontraram espaço na trama anterior, surgem aqui. Ainda sim, isso não impediu “O Templo da Perdição” de revelar-se um filme bem diferente de seu antecessor, devido a um clima bastante sombrio que predomina nesta produção.
As razões para isso foram menos os contratempos das filmagens –que precisaram de um remanejamento quando o astro Harrison Ford machucou as costas numa cena de luta –e mais o influente fato do divórcio do produtor Lucas: Inspirado pelos meandros sombrios pelos quais sua vida passava, Lucas concebeu um roteiro onde crianças eram escravizadas e o próprio herói, em um determinado momento, é enfeitiçado e convertido para o mal.
Esta trama tem início durante os anos 1930 (o que coloca esta trama cronologicamente num ponto anterior à de “Caçadores...”) e abre com um suntuoso número musical –uma das frustrações de Spielberg era nunca ter dirigido um filme do gênero –que já apresenta a mocinha do filme (Kate Capshaw que substitui graciosamente Karen Allen, do filme anterior, e mais tarde, veio a se casar com Spielberg). Acompanhado por ela e por um parceiro-mirim (Jonathan Ke Huy, que esteve na série “O Pequeno Mestre” e em “Os Goonies”), o arqueólogo Henry Jones, mais conhecido como Indiana Jones, vai parar na Índia onde toma para si uma complicada missão; reaver para uma tribo desolada as três pedras sagradas que lhes foram levadas por sacerdotes malditos a fim de dar continuidade a tenebrosos rituais.
Apesar do próprio Spielberg ter declarado sua pouca satisfação com este filme –em entrevistas, suas lembranças mais freqüentes são os transtornos que assolaram a produção –(e prova disso, é seu imenso esforço em aproximar-se narrativamente de “Caçadores da Arca Perdida’, nos filmes seguintes), muitos são os fãs que colocam “O Templo da Perdição” em pé de igualdade ao sensacional filme anterior em sua predileção.
Uma prova de que, até quando não é tão bom, Spielberg é excelente!

terça-feira, 21 de março de 2017

Os Caçadores da Arca Perdida

Existem filmes que estão acima do bem e do mal. Certamente, a aventura inaugural de Indiana Jones –um dos mais sensacionais heróis do cinema –está entre eles.
“Caçadores da Arca Perdida” representava a reunião de uma equipe cujo resultado do trabalho conjunto dificilmente escaparia de ser memorável: Lá, estavam o produtor (George Lucas), o roteirista (Lawrence Kasdan) e o ator (Harrison Ford) de “O Império Contra-Ataca”, até hoje louvado como o melhor dentre todos os “Star Wars”.
É inclusive o mesmo clima impecável de aventura vertiginosa, com um equilíbrio raro e de espetacular acabamento entre um tom sombrio ocasional e uma leveza envolvente que caracteriza ambas as produções.
E isso, porque nem chegamos a falar ainda do diretor!
Fã dos movimentados filmes de James Bond, Steven Spielberg compartilhou com o amigo e produtor George Lucas sua intenção de realizar um filme de aventura, com um protagonista, naqueles moldes. Ele aplicou nessa narrativa seu amor ao cinema, sua excelência como condutor de cenas e contador de história, e imprimiu neste filme um clima irresistível que combinava o descompromisso sedutor das matinês com o primor do cinema da mais alta qualidade, obtendo com isso um clássico moderno.
1932. Indiana Jones, arqueólogo aventureiro que cruza o mundo em busca de artefatos raríssimos (e não raro arrisca sua vida por isso), recebe uma missão do governo norte-americano: numa disputa não declarada com a Alemanha de Hitler, os EUA desejam obter antes dos nazistas a posse da mais que preciosa Arca da Aliança, objeto que dizem ter armazenado os dez mandamentos e que por isso contem o poder de Deus. Ao lado de sua parceira, por força das circunstancias, Marion Ravenwood (uma adoravelmente irrequieta Karen Allen), ele ruma para o Marrocos onde perigos e aventuras os aguardam.
Como quem não quer nada, eis que Spielberg realiza um dos filmes fundamentais do cinema comercial moderno.