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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A Incrível Vida de Adaline


 É possível que hajam méritos bastante abstratos no fato de que “A Incrível Vida de Adaline”, com sua construção de contos de fadas e todos os seus reflexos condicionados de comédia romântica, seja assim tão envolvente e agradável.

Grande parte disso vem, certamente, da escolha feliz de Blake Lively para o papel da protagonista: Linda atriz, dona de um carisma incomum –uma simpatia mesclada a um insolúvel encanto –e consideravelmente talentosa, Blake tem, além de tudo, uma fisionomia delicada e clássica, a lembrar uma atriz dos anos 1940, o que casa com perfeição à personagem que interpreta, uma quase versão feminina de “O Curioso Caso de Benjamin Button”; Adaline Bowman, afinal, adquiriu em algum momento de sua vida (e por razões mais mirabolantes do que se pode imaginar) uma condição singular –ela simplesmente não envelhece, congelada na mesma idade (29 anos) e conservando uma beleza acachapante.

Se em princípio, esse detalhe –percebido por ela, logicamente, à longo prazo –parece ser uma espécie de benção, com o passar do tempo Adaline percebe tratar-se de uma maldição.

Ela teme ser isolada, dissecada e estudada, privada de seu direito de viver caso seja descoberta, mas, mesmo deixando sua condição em segredo, ela não consegue viver: De tempos em tempos, ela precisa deixar o lugar onde vive e trabalha, e as pessoas com quem se relaciona quando o transcorrer do tempo começa a denunciar o contraste entre aqueles que envelhecem à sua volta, enquanto nada acontece a ela (até mesmo sua filha, vivida de um certo ponto em diante pela octogenária Ellen Burstyn, acaba envelhecendo a ponto de aparentar ser a avó de Adaline!).

A trajetória dessa incomum protagonista chega num ponto crucial quando, nos dias atuais, ela verdadeiramente se apaixona por Ellis Jones (Michiel Ulsman, de “Livre” e “A Jovem Rainha Victoria”), com quem ela almeja, de alguma forma, casar-se. Embora Adaline não se permita, por algum tempo, pensar no inevitável –que, em algum momento, Ellis irá envelhecer e ela não –a obrigação da consciência vem até ela: Quando fica noiva de Ellis, Adaline conhece a família dele, cujo pai, William (Harrison Ford) veio a ser namorado de Adaline a muitos anos atrás (!). Nos flashbacks que ilustram o romance que tiveram, William é interpretado por Anthony Ingruber, jovem ator que traz, deveras, uma espantosa semelhança com Harrison Ford.

O fato de Adaline mudar de identidade justamente para acobertar de todos sua idade imutável proporciona a ela fingir que tudo é uma grande coincidência –que ela é filha da mulher que William um dia amou e não a própria mulher!

No entanto, como regem as orientações melodramáticas do cinema comercial –e, apesar de todo o potencial de sua premissa, é nesse nicho convencional que “A Incrível Vida de Adaline” se insere –a verdade acaba vindo a tona, o que obriga Adaline a revelar, pela primeira vez, a sua incrível história, não só a William, mas, a Ellis também.

Para tornar essas concessões narrativas um pouco mais difíceis de engolir (ou para ir de encontro aos anseios de uma parcela mais acomodada da plateia, como queira), o diretor Lee Toland Krieger arruma, já perto do desfecho do filme, uma forma de Adaline voltar ao normal, à inapelável condição humana na qual envelhecerá e morrerá, para que possa viver ao lado de seu príncipe encantado, num infalível final feliz, sem que escolhas dolorosas continuem sendo tomadas.

E sem que os realizadores precisem se defrontar com impasses que exigirão alguma ousadia que o filme não se dispõe a ter.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Requiem Para Um Sonho


 Para uns a ideia da revisão de um filme tão extenuante, impactante e incômodo como “Requiem Para Um Sonho” pode parecer loucura; para mim, contudo, significa a chance de rever e redescobrir uma das mais sensacionais obras de cinema realizadas nos anos 1990 –até então ainda o melhor trabalho de Darren Aronofsky –relembrar o porque de minha obcecada paixonite por Jennifer Connelly durante aqueles idos (plenamente justificada neste filme e em outros projetos excelentes) e profundar-me ainda mais nos códigos e detalhes subliminares que proporcionam novas impressões da obra. Sim, pois embora seja comum afirmar que alguns filmes devem ser revistos de tempos já que eles mudam, minha opinião é outra: Somos NÓS que mudamos. Nossa bagagem cultural e sentimental muda, nos tornando capazes de perceber nuances que já estavam lá, mas não nos foi possível apreender.

E não tenham dúvidas, isso acontece com “Requiem Para Um Sonho”, desde seu prosaico início, numa cena em tela dividida que lembra as experimentações de Brian De Palma, quando vemos o viciado Harry (Jared Leto, melhor que no oscarizado “Clube de Compras Dallas”) tomar, pela enésima vez, a televisão da mãe (Ellen Burstyn) a fim de vendê-la e usar o dinheiro para comprar drogas.

Adaptado do livro de Hubert Shelby Jr. o filme de Aronofsky divide-se em três capítulos graduais, incisivos e inevitáveis: “Verão”, “Outono” e “Inverno”, qual as estações do ano. Neles, testemunhamos a derrocada dos quatro protagonistas –Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly e Marlon Mayans –deflagrada pelo vício.

Em “Verão”, acompanhamos Harry e Tyrone (Mayans) colhidos no êxtase de seu consumo de cocaína, na empolgação radiante em tornarem-se, de usuários para fornecedores, no fascînio de, em princípio, ver esse plano dando certo.

Acompanhamos também a linda Marion (Jennifer Connelly, e bota linda nisso!), namorada de Harry, às voltas com seu romance, com os pais ricos dos quais ela buscou se desvencilhar, com o sonho de abrir uma loja de roupas. E ainda há Sara, a mãe de Harry, cujo vício era até então apenas sua compulsão em ver TV –mais especificamente um programa picareta de compras e vendas.

O sonho de Sara –de aparecer, ela própria nesse programa –parece magicamente querer realizar-se quando ela recebe um inesperado telefonema dos negociadores de participações no programa. A ideia arrebatadora de ver-se na TV logo acende em Sara o desejo de entrar num antigo vestido vermelho no qual ela não cabe mais. Sara decide emagrecer. E após as penosas tentativas de fazer regime, ela cede à sugestão das amigas para tomar anfetaminas receitadas por um médico.

Em “Outono”, a espiral de tormento começa a dar as caras nas trajetórias de todos. Harry e Tyrone já não conseguem manter a prosperidade de antes, e uma guerra de gangues nos arredores de Coney Island torna as drogas que consomem escassas nas ruas, obrigando a própria Marion a fazer alguns sacrifícios que não queria, entre eles, pedir dinheiro ao sórdido e libidinoso personagem vivido por Sean Gullette (protagonista de “Pi”, o filme anterior de Aronofsky) a um custo doloroso e ultrajante. Sara, por sua vez, vai se tornando cada vez mais dependente das anfetaminas –a medida que o efeito desejado por elas vai rareando –sem notar as mudanças comportamentais e fisiológicas que as drogas prescritas lhe infligem.

Em “Inverno”, vemos tudo desandar. Harry e Tyrone resolvem ir para a Flórida negociar com os próprios fornecedores de drogas, mas jamais chegam lá de fato: Acabam encarcerados antes disso, sobretudo, Harry cujo braço já ostentava uma terrível pústula, resultado de frequentes picos de heroína sem qualquer prevenção. Marion, por fim, acaba se prostituindo como única maneira de prover o vício que lhe consome as entranhas. E Sara, perde em definitivo a sanidade –no que pode ser visto como um filme de terror sem os elementos do terror –singrando alucinada e decadente pelas ruas até ser internada e submetida a eletrochoques.

Na crítica corrosiva e implacável que traça da desumanização dos programas televisivos para com a própria audiência que alicia, e dos médicos negligentes que prescrevem drogas lícitas (mas não menos nocivas) aos pacientes mal tendo lhes examinado, o filme de Aronofsky se impõe como uma das mais corajosas e poderosas narrativas de denúncia do final da década de 1990, estabelecendo conceitos arrojados que demorariam ainda um bom tempo para serem assimilados pelo cinema mainstream. Não é intenção de Aronofsky ser necessariamente realista –embora muitos presumem que aqui ele o seja –seu filme é mais uma fábula transfiguradora da realidade, a capturar um horror subjetivo na inocência maculada de quatro personagens bem escritos, magnificamente bem dirigidos e interpretados, todos, de maneira comovente.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Última Sessão de Cinema


Já na cena inicial, a câmera percorre com desalento a poeirenta e solitária cidadezinha texana aonde toda trama irá se passar.
Este filme de Peter Bogdanovich (talvez, o melhor que ele já realizou) dedica-se a relacionar a condição imutável de uma cidade longínqua com a mais profunda sensação de desconforto –desse esforço surgiu até mesmo a decisão de filmá-lo em preto & branco drenando das imagens a beleza das cores.
Tão hábil, contudo, é o trabalho de Bogdanovich aqui que seu talento quase depõe contra seu objetivo: “A Última Sessão de Cinema” mostra-se tão incrivelmente envolvente e prazeroso que é preciso atenção para perceber que ele, lá no fundo, ele quer mesmo é incomodar.
O filme acompanha a trajetória de alguns personagens específicos –jovens em sua maioria –enfatizando o fato de que, cada um a sua maneira, eles se sentem presos àquela monotonia que corre o risco de engoli-los.
O jovem Sonny (Timothy Bottoms) houve a toda hora provocações acerca do desempenho lamentável do time escolar no qual joga. Ele não liga para isso, como também não liga para os amigos que encontra no bar de sinuca de Sam (o vencedor do Oscar de Coadjuvante Ben Johnson, formidável) e nem para a atual namorada que ocasionalmente lhe deixa bulinar os seios durante das sessões do cinema local.
Sonny, no entanto, encontra uma espécie de atalho para uma vida sexual mais satisfatória quando começa a se encontrar com Ruth (Cloris Leachman, também vencedora do Oscar de Coadjuvante), a negligenciada esposa do técnico da escola.
Entretanto, se há alguém que mexe com a libido de Sonny –assim como da maioria dos homens da cidade –é a bela Jacy (Cybill Shepherd, uma aparição!) que namora o melhor amigo dele, Duane (Jeff Bridges).
Se, em princípio, Jacy aparenta ter boas intenções ao defender o pobre Duane contra sua mão (Ellen Burstyn), que o rejeita como genro por ser pobre, logo descobrimos que a própria Jacy tem lá sua falta de escrúpulos: Ela engana Duane para ir a uma festa de adolescentes ricos da cidade onde sabe que todos ficarão nus.
Mais tarde, transa com um dos empregados de seu pai e, na seqüência –quando já se entediou de Duane e o deixou de lado –usa de sua beleza e sensualidade para seduzir Sonny apenas porque descobriu que ele estava se envolvendo com a quarentona Ruth.
De situação em situação, de personagem em personagem, acompanhando cada uma de suas angústias, o filme de Bogdanovich se desenvolve de maneira episódica, sublinhando com mais interesse os desdobramentos sexuais que enlaçam os indivíduos uns aos outros e observando com alguma poesia a deterioração acarretada pela amargura.
Tudo o que já não era muito bom se intensifica em sua desolação à medida que a trama avança; como a lamentável derradeira sessão no cinema local –a exibir um filme de John Ford, diretor que Bogdanovich emula com insuspeita devoção –que coincide, também, com a agridoce despedida de Sonny e Duane quando este último parte para lutar na Guerra da Coréia.
Ao capturar essa impressão consternada de um mundo cuja cultura e tradição se vêem no amargo limiar de mudanças irreversíveis (no caso, os anos 1950), Bogdanovich –talvez, não deliberadamente –refletiu o lamento para com as irreprimíveis mudanças que o próprio cinema experimentou naqueles idos de 1970 (quando uma nova geração buscava o pioneirismo rompendo com as formalidades) ao enaltecer aqui todas as características técnicas e artísticas presentes na geração anterior de cineastas, como Howard Hawks e o próprio John Ford.

sábado, 30 de junho de 2018

Os Vencedores do Oscar 1975

A geração de jovens realizadores americanos dos anos 1970 chegava exigindo reconhecimento no Oscar: Faziam apenas dois anos que Francis Ford Coppola havia levado o prêmio pelo primeiro “O Poderoso Chefão”, e lá estava sua segunda parte ganhando novamente (e desta vez, levando seis estatuetas, contra apenas três do filme original!). E olha que Coppola concorria consigo mesmo, sendo que seu brilhante “A Conversação” também estava no páreo.
A grande Ellen Burstyn venceu como Melhor Atriz por um trabalho sublime do também jovem e inovador Martin Scorsese, sem falar que o ator-assinatura dele, Robert De Niro, arrebatou o prêmio de Coadjuvante, vivendo o jovem Don Vito Corleone em “Chefão 2” –mesmo personagem pelo qual Marlon Brando conquistou o Oscar de Melhor Ator dois anos antes!
A musa Ingrid Bergman (de “Casablanca”) já numa fase mais crepuscular da carreira foi agraciada com o prêmio de Atriz Coadjuvante por “Assassinato No Expresso Oriente” embora muitos (inclusive a própria Ingrid!) manifestassem a opinião de que o prêmio podia ter ido para Valentina Cortese, por sua graciosa participação em “A Noite Americana”.
Agora: Quem é afinal Art Carney? Que ganhou o Oscar de Melhor Ator no lugar de Al Pacino (por “Chefão 2”) ou mesmo de Jack Nicholson (por “Chinatown”)?!
Art Carney foi um comediante norte-americano falecido em 2003, famoso pela série “The Honeymooners”, exibida nos anos 1950, o Oscar de Melhor Ator veio por seu papel na comédia dramática “Harry & Tonto”, hoje completamente desconhecida do grande público, assim como seu ator principal.

MELHOR FILME
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR DIREÇÃO
"O Poderoso Chefão-Parte II", Francis Ford Coppola

MELHOR ATRIZ
Ellen Burstyn, "Alice Não Mora Mais Aqui"

MELHOR ATOR
Art Carney, "Harry & Tonto"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ingrid Bergman, "Assassinato No Expresso Oriente"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Robert De Niro, "O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR FOTOGRAFIA
"Inferno Na Torre"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Amarcord" (Itália)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Terremoto"

MELHOR FIGURINO
"O Grande Gatsby"

MELHOR SOM
"Terremoto"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"O Grande Gatsby"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"We May Never Love Like This Again", de "Inferno Na Torre"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Chinatown"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"O Poderoso Chefão-Parte II"

MELHOR MONTAGEM
"Inferno Na Torre"

domingo, 4 de dezembro de 2016

O Exorcista

Os anos 1970 encontravam-se numa situação propícia para as arrojadas obras que surgiram naquela época: Não apenas o cinema –como outras formas de arte, também –oferecia amplo terreno para experimentações temáticas e estéticas que realmente aconteceram, como a geração de realizadores que despontaram nesse período mostrou-se avidamente afeita à desbravar esses novos territórios.
Filmes de terror eram, e até hoje ainda são, um gênero extremamente popular. Mesmo muitas das obras concebidas com pensamento subversivo e artístico, acabavam caindo nas graças do público. Provavelmente porque, ao contrário dos outros gêneros, o terror implica em submeter o expectador à uma experiência que, não raro, beira o extenuante. Ao menos, aquele tipo de terror que busca o objetivo primal do gênero: Provocar medo.
Em entrevistas que deu ao longo da carreira, o diretor William Friedkin –que dois anos antes, em 1971, conquistou o Oscar por “Operação França” –sempre afirmou que a idéia de seu filme seminal de terror não era provocar o medo como objetivo final, mas sim levantar uma questão pertinente e carregada de ramificações humanas a respeito dos obstáculos da fé.
Apesar disso, ele conseguiu, sim, realizar um dos mais horripilantes filmes do cinema. Tanto que até hoje, blockbusters providos do gênero, tentam inutilmente imitá-lo na busca vã por recriar seu singular e longevo efeito amedrontador.
A trama de “O Exorcista” começa no Oriente Médio, brilhantemente mergulhada nas inquietações do diretor Friedkin, ao acompanhar a sina do padre Merrin (um extraordinário Max Von Sydow), incapaz de encontrar paz exatamente porque seus embates com o próprio demônio, na qualidade de especialista em exorcismos, o deixaram ciente do mal incrustado em todas as entranhas prováveis e possíveis do mundo.
Um corte tão brusco quanto fenomenal –característica do diretor –nos arremessa desse cenário poeirento e desolador para um mais familiar, onde esse mesmo mal se esconde com maior facilidade. É uma cidade dos EUA. Regan (a impressionante Linda Blair, numa ousada interpretação com apenas 14 anos), uma garotinha de classe média-alta norte-americana, filha de uma atriz de cinema (Ellen Burstyn, sempre primorosa), apresenta pouco a pouco sintomas assustadores de dupla personalidade.
Grande artista e narrador tarimbado de histórias, Friedkin força uma ligeira depreciação da capacidade de seu filme no expectador em sua primeira meia hora de filme.
As cenas corriqueiras que ele registra –sempre com perícia –vão tomando o tempo do público, fazendo-o esquecer das conseqüências da premissa, e dando a absolutamente enganosa sensação de que este será um filme muito mais sutil.
Ledo engano: Quando menos se espera o filme de Friedkin começa a surpreender, a espantar, a convencer nosso ceticismo, a oprimir nossa certeza de segurança –tudo nessa mesma ordem –e a conduzir o expectador à um terreno que, pelo menos nos anos 1970, uma grande parte do público não estava pronta a ir.
Gradativamente, aqueles sintomas de dupla personalidade de Regan vão se somando a acontecimentos estranhos que ocorrem por toda a casa e vizinhança, alarmando as pessoas próximas. Seus exames médicos, sucessivos e cada vez mais dolorosos, nada revelam acerca do mal que acomete à criança, até que a mãe é aconselhada a fazer um ritual de exorcismo.
Incrédula, ela procura por um jovem padre (Jason Miller) quando esgotam-se suas alternativas, mas mesmo a igreja católica é cética com a possessão demoníaca nos dias de hoje. Por fim, quando o filme já se encaminha para sua devastadora meia hora final, Merrin, um dos únicos exorcistas com experiência no mundo é chamado do Oriente Médio para ajudá-la. A seqüência de exorcismo que se segue então é um dos momentos mais impressionantes deste filme de terror lendário, dos poucos capazes de gerar medo genuíno no espectador.
Visto hoje, após uma ampla, insistente e ainda persistente tentativa do cinema comercial em imitá-lo paulatinamente, muitas de suas cenas podem parecer convencionais por já terem sido exploradas em outras produções.
Mas, a percepção apurada do diretor Friedkin, que teve o ímpeto de ineditismo de revestir com verossimilhança sua premissa sobrenatural e sua ousadia em moldar cenas que se mantêm, muitas delas, aterradoras e chocantes até hoje, é algo que filme algum consegue reproduzir.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fonte da Vida

Experimentação parecia ser a palavra de ordem no cinema de Daren Aronofsky em seus primeiros longa-metragens: Filmes como “Pi” e “Réquiem Para Um Sonho” não negam a procedência de um diretor faminto por explorar as possibilidades de seu ofício.
De uns tempos pra cá, contudo, essa necessidade de romper com os limites deu lugar à um trabalho mais austero, com características de um cinema mais, digamos, clássico: Prova disso é, inclusive, o bom desempenho junto à Academia de Artes Cinematográficas (que sempre priorizou trabalhos mais tradicionais) de obras como “O Lutador” (duas indicações ao Oscar) e “Cisne Negro” (vencedor do Oscar de Melhor Atriz, e outras quatro indicações). Embora, seu cinema nunca tivesse deixado de ser soberbo.
O meio-termo entre esses dois extremos da carreira de Aronofsky pode ser considerado este “Fonte da Vida”.
Ao mesmo tempo em que é uma trama que guarda algumas audácias formais (em voga naquele período de transição dos anos 1990 para 2000 devido à atividade de jovens diretores de perfil autoral como os Irmãos Wachowsky, “Matrix”, Spike Jonze “Quero Ser John Malkovich”, e David Fincher, “Clube da Luta”), este filme também se aproxima –talvez, por fatores não obstantes à Aronofsky –de um cinema mais comercial, que se permite enxergar uma finalidade mais branda para suas ousadias.
A verdade é que tudo se iniciou com uma história em quadrinhos planejada por Aronofsky (e inclusive lançada, quando o projeto era tido como uma grande produção). Um grande estúdio assumiu o projeto e escalou Brad Pitt para o papel principal, prevendo uma superprodução que trouxesse a mesma natureza inovadora –e sucesso acachapante, provavelmente –do recém-lançado “Matrix”.
Em algum momento, esses planos foram frustrados quando o orçamento mostrou-se a beira do estouro e o projeto adquiriu ares de obra complicada e megalomaníaca.
Com a equipe despedida e a tomada puxada, o diretor reinventou o projeto, agora bancado pelo ramo independente da 20 Century Fox, simplificando um ou outro elemento e enxugando drasticamente tudo aquilo que encarecia a produção, ou seja, as portentosas cenas de ação previstas pelo roteiro.
É assim que chegamos a esta ficção científica estrelada por Hugh Jackman, curiosamente semelhante ao clássico sci-fi de Gregory Roy Hill, “Matadouro 5”, e como ele, dotado de um estranho senso de romantismo.
Sua trama, de início enigmática, mas aos poucos costurada de maneira nem sempre satisfatória, começa com três personagens, em tempos e locais diferentes, mas, compartilhando de um mesmo dilema existencial: Thomás, desbravador espanhol apaixonado por sua rainha que, em meados do século XVI, submerge nas inóspitas florestas sul-americanas atrás da lendária "Árvore da Vida" que pode lhe dar imortalidade (e a mão de sua amada); Tom, renomado cirurgião, consumido pela frustração de ver o amor de sua vida morrendo de um câncer inoperável, a despeito dos recursos disponíveis da atualidade, mas que encontra esperanças de salvá-la na enzima milagrosa extraída de um vegetal da América do Sul; e, por fim, Tommy, um viajante espacial do futuro aguardando pacientemente em sua nave, acompanhado da já moribunda "Árvore da Vida", o momento em que chegará à Shibalba, a constelação mitológica que poderá trazer-lhe vida eterna.
Podem ou não esses três personagens ser todos a mesma pessoa. E essa percepção é paulatinamente encorajada pela narrativa, não apenas porque todos são interpretados (com brilhantismo, diga-se) pelo mesmo Hugh Jackman –e, também ele, se vê cercado pelos mesmos coadjuvantes que revezam-se em diferentes personagens, em especial, Rachel Weisz (esposa do diretor na época) que surge sempre personificando o amor inalcançável –como também os percalços dessa “busca” (distinta para cada um deles, mas no fim, equivalente) surgem como se fosse irônicos reflexos um do outro, como se Aronofsky quisesse fazer um poema no qual suas cenas, pela similaridade de acontecimentos,  rimassem como se fossem estrofes.
O resultado só não encontra o brilho superlativo de outros trabalhos do diretor porque ele insiste num desfecho explicativo e redundante, dando ao grande mistério que cerca à tudo e à todos uma explicação da qual não necessariamente estávamos precisando.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Requiem Para Um Sonho

Ainda muito jovem, o diretor Daren Aronofski já havia mostrado a que veio em grande estilo.
Após um desconcertante thriller carregado de estilo e de ousadia (o desafiador "Pi"), ele saiu-se com este retrato impiedoso de personagens mergulhados na via-crusis de seu próprio vício, e no processo, marcou época.
Até hoje lembrado como uma das grandes obras a abordar o vício em drogas, "Requiem Para Um Sonho" é uma experiência das mais exasperantes.
Seus personagens são Harry (Jared Leto, anos antes da consagração com "Clube de Compras Dallas", mas já demonstrando imenso bom gosto na escolha de projetos), sua namorada Marion (a linda, pulsante e brilhante Jennifer Connelly), seu melhor amigo Tyrone (Marlon Mayans, num ótimo e infelizmente raro papel dramático), e sua mãe Sara (a grande Ellen Burstyn, cuja entrega absurda ao personagem rendeu a única indicação ao Oscar recebida pelo filme). Todos estão, no início do filme, em um estado de imersão e êxtase com seus vícios.
Harry e Tyrone são viciados em heroína, Marion em cocaína, e Sara, em ver TV. Eles estão confortáveis com seus vícios, e lhes é relativamente pacata a perspectiva deles de assim ficarem a vida inteira. Eles até permitem-se sonhar com uma vida melhor.
Enquanto Marion planeja montar uma loja, Harry e Tyrone fazem planos para prosperar. Começando por obter dinheiro com venda de drogas, mas logo almejando um lucro limpo. Sara quer porque quer participar de um dos shows de TV que assiste, e para tanto quer entrar no vestido que guarda desde a mocidade.
Através da neurose que o vício lhes inflige, seus sonhos serão assim a gênese de sua ruína.
Divididos nas quatro estações do ano (primavera, verão, outono, inverno), o filme acompanhará os percalços que os levam, na inicial euforia da primavera, à degradação psicológica e, por fim, física que serão registradas no verão e no outono.
Sara irá se viciar em metanfetaminas para ficar mais magra, e sua transformação, comportamental e visual, será de doer no coração. As frustrações de Marion a levarão a buscar mais e mais à fuga das drogas e ela acabará se prostituindo, enquanto Harry e Tyrone encontrarão, cada um a seu modo, uma forma sub-humana de existência.
Quando o inverno chegar, essas quatro trajetórias encontrarão o fundo do poço, o inferno de suas vidas. E o diretor Aronofski não poupa expectador e personagens com cenas cuja carga dramática e o teor de choque só perdem para o primor com que são conduzidas.


Uma demonstração de estilo ímpar, que elevou o patamar do cinema no início da década de 2000.