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quinta-feira, 9 de março de 2023

A Baleia


 Os filmes de Darren Aronofsky são tratados cinematográficos sobre as consequências físicas das escolhas emocionais adotadas por seus personagens. Seu cinema é um sacrifício da sutileza em prol da visceralidade. Foi mirando esse norte que ele transformou “Pi” e “Réquiem Para Um Sonho” em obras de terror amparadas em expedientes nada fantasiosos, extraídos diretamente da vida real. A medida que ganhou mais idade e experiência, suas obras foram focando cada vez mais em seus personagens, cada vez mais nas particularidades que os definiam e que, ao mesmo tempo, os empurravam em direção ao abismo. Nesse sentido, há toda uma relação muito pessoal entre os protagonistas de “O Lutador”, Cisne Negro” e este “A Baleia”.

Aronofsky tem o atrevimento de escalar Brendan Fraser, outrora um galã de filmes comerciais, para o papel de Charlie, um homem de meia idade obeso, homossexual e deprimido. Charlie é um ser humano em vias de consumar seu tormento interior a partir da visão cada vez mais irreversível de sua deterioração exterior –e, ao interpretá-lo, Brendan Fraser traz para o papel o peso de alguém que experimentou e compreendeu a crueldade desse processo. Como o protagonista de “O Lutador”, descobrimos Charlie como uma ruína de si mesmo, e como ele, tudo o que parece lhe restar é a filha com a qual nunca mais teve contato. Como a bailarina de “Cisne Negro”, Charlie padece cada segundo por ser quem é, em suas fragilidades, em suas abissais limitações. O filme de Aronofsky não esconde sua origem teatral (a partir da peça de Samuel D. Hunter), na ambientação restrita exclusivamente ao apartamento do protagonista, mas ele também não se exime de ser cinema na consciência narrativa adotada pela câmera, nas minimalistas adaptações que ramificam o enredo através do desenvolvimento mais satisfatório de alguns de seus coadjuvantes –o altruísmo áspero e maternal da amiga Liz (a ótima Hong Chau, de “Pequena Grande Vida”); a aparição providencial do fervorosamente religioso Thomas (Ty Simpkins, de “Homem de Ferro 3”); o ressentimento incontido da filha Ellie (Sadie Sink, da série “Stranger Things”) –todos orbitam Charlie com as considerações no fim das contas redundantes  da relação que têm com ele. Liz é irmã do homem que Charlie amou, e pelo qual deixou a família oito anos atrás (e cujo suicídio o levou a uma depressão de tal maneira severa que o condenou ao corpo morbidamente obeso que o está consumindo). Thomas surge já na primeira cena como alguém enviado por Deus para ajudar Charlie (assim, pelo menos, é como ele próprio enxerga a circunstância), mas será Thomas quem, nas revelações subsequentes de sua real situação, será auxiliado à conclusão de seu destino. E Ellie reitera seu ódio pelo pai que a abandonou quando criança, embora esteja sempre por perto, ciscando o sentimento enervante que, no fim das contas, é um amor transfigurado.

Charlie, porém, está morrendo. Na verdade, ele tem cerca de uma semana de vida –e a narrativa se divide assim em episódios que levam o título dos dias da semana –e como todo o protagonista caprichosamente inserido nas profundezas de suas celeumas pessoais desde os tempos de Shakespeare, é seu esforço, a tatear uma vã redenção, que o levará a um desfecho talvez digno.

“A Baleia” do título não é, pois, somente uma alusão ao protagonista e sua condição física debilitada –embora certamente essa analogia esteja em pauta –mas, acima de tudo, uma referência à obsessão intransigente registrada por Melville em “Moby Dick”, obra muito mencionada na trama, inclusive porque o protagonista é um ex-professor universitário, exímio estudioso de literatura, lecionando um curso on-line para alunos que não podem vê-lo por meio de sua câmera desligada.

Como em cada uma das investigações dramáticas que capitaneou, não falta crueldade na postura inclemente que Aronofsky adota aqui. Ela surge nos indícios sádicos e detalhados do flagelo constante que a obesidade inflige em Charlie (concebidos com um formidável trabalho de maquiagem), e na observação mais íntima e indireta acerca da índole de Ellie (seria ela uma pessoa má ou não?) na forma de pistas que Charlie busca não admitir. Mas, Aronofsky termina também atingindo os pontos certos –muitos deles graças à entrega habilidosa e sem restrição de Brendan Fraser ao papel –e consegue, por fim, emocionar o expectador que consiga atravessar desenvolto um trabalho de dramaturgia tão dilacerante.

domingo, 20 de novembro de 2022

Algumas Previsões Para o Oscar 2023


 Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo

Louvado por muitos como o melhor filme de 2022, o trabalho dos diretores Daniel Kwan e Daniel Scheinert é uma obra surpreendente que ousa, inclusive, ao tratar do tema de multiverso no mesmo ano em que a toda-poderosa Marvel Studios discorreu sobre o mesmo assunto no blockbuster “Doutor Estranho No Multiverso da Loucura”.

Todavia, o filme de Kwan e Scheinert vai além: Ele aborda reflexões existenciais numa roupagem que combina drama, humor e ação numa mesma proporção sem acomodar-se em genêro nenhum.

Um choque de ineditismo que lembra o feito das Irmãs Wachowsky em 2000 com o cult-movieMatrix”. Naquela época, entretanto, a Academia de Artes Cinematográficas não estava pronta para tamanha inovação (e ainda assim, “Matrix” saiu-se com quatro prêmios técnicos), e agora, estariam os votantes prontos para finalmente premiar a grande surpresa do ano?


Elvis

A música não deixa Baz Luhrman; Baz Luhrman não deixa a música. Após duas décadas de seu aclamado “Moulin Rouge”, o diretor australiano retorna –de certa maneira –ao gênero que lhe foi tão caro, desta vez, contando uma história que a tempos o cinema andava devendo: Uma biografia digna e emocionante de ninguém mais, ninguém menos, do que Elvis Presley, o Rei do Rock.

De quebra, “Elvis” ainda revela o talento hiperlativo do jovem Austin Butler que entrega um trabalho primoroso  ao cantar, dançar e atuar como Elvis, tirando de letra um desempenho que representaria um desafio para qualquer um.


The Fabelmans

Naquele que parece ser sua obra mais pessoal, o gigante Steven Spielberg volta suas lentes para uma trama auto-biográfica que gira em torno de sua própria família.

Realizado num esquema independente –tática que Spielberg, habituado à superproduções, não adotava havia décadas –“The Fabelmans” estreou no Festival de Toronto, berço de algumas das mais aclamadas obras independentes da temporada, e vem conquistando larga aprovação da crítica, além de uma quase garantida oportunidade no Oscar, caminho que, é bem verdade, quase todas as realizações de Spielberg acabam trilhando.

Os mais entusiasmados dão como certa a indicação de Melhor Atriz para Michelle Williams.


Babylon

Todos os três trabalhos anteriores do diretor Damien Chazelle –“Whiplash-Em Busca da Perfeição”, “La La Land-CantandoEstações” e “O Primeiro Homem” –tiveram belas campanhas no Oscar. Sua quarta realização promete manter essa constante; também pudera: Com um elenco estelar –que inclui Margot Robbie, Brad Pitt e Tobey Maguire –“Babylon” aborda o deslumbramento e os escândalos que cercaram os astros da fase áurea do cinema na década de 1920.


The Whale

O diretor Daren Aronofsky adora pegar grandes intérpretes e arremessá-los para fora de suas zonas de conforto: Foi assim com Mickey Rourke em “O Lutador”, com Natalie Portman em “Cisne Negro” e com Jennifer Lawrence em “Mãe!”.

Não obstante a eventual incompreensão de parte da crítica, ele obtém certa aclamação com isso, e as coisas parecem seguir um rumo bastante parecido com o novo “The Whale”.

Trazendo de volta à ribalta o desaparecido Brendan Fraser –que, muitos garantem, estar entregando a atuação de sua vida! –Aronofsky criou um drama sobre o processo árduo de rejeição, recuperação e aceitação centrado num personagem obeso, homossexual e depressivo, tendo recebidos aplausos de pé em sua estréia no Festival de Veneza.


Top Gun-Maverick

Uma grata surpresa para muitos e uma produção saudada como a grande prova de que financeiramente o cinema havia enfim superado o hiato de público ocasionado pela pandemia, a continuação do cultuado clássico oitentista “Top Gun” ostentou tamanha qualidade técnica e artistica quando aportou nas salas de cinemas que logo foram cogitadas as possibilidades dele concorrer ao Oscar.

As chances maiores repousam nas categorias técnicas é claro –as sequências de combate aéreo são particularmente um show de fotografia, montagem e efeitos visuais –embora existam aqueles que apostem numa colher de chá nas categorias mais artísticas –o roteiro segue uma fórmula razoável para a continuação que se propõe, mas é assinado por Christopher McGuarie, que ganhou o Oscar de Roteiro Original por “Os Suspeitos” –além da forte possibilidade de repetir, tal e qual o anterior em 1987, a vitória na categoria de Melhor Canção Original –desta vez com “Hold My Hand”, composta e interpretada por Lady Gaga.


The Batman

Outro que certamente marcará presença nas categorias técnicas –minha aposta vai especialmente para Melhor Maquiagem e Cabelo graças à assombrosa transformação de Colin Farrell no mafioso Pinguim –o filme dirigido por Matt Reeves revelou-se de tal forma surpreendente (afinal, alguns ainda tinham lá suas ressalvas com o fato do ótimo Robert Pattinson interpretar Bruce Wayne/Batman) que não apenas foi recebido como o melhor filme do Batman realizado até hoje (superando até as aplaudidas produções de Christopher Nolan) e Pattinson agraciado como o melhor dentre todos os intérpretes do herói, como seus fãs praticamente exigem um mínino de reconhecimento no Oscar.


Até Os Ossos

A última vez em que o diretor Luca Guadagnino e o jovem astro Timothée Chalamet se juntaram foi no elogiadíssimo romance homossexual “Me Chame Pelo Seu Nome”.

Agora, eles adicionam à mistura novos nomes consagrados, como Mark Rylance e Chloe Sevigny, e uma inusitada pitada de canibalismo e o resultado é o desconcertante “Até Os Ossos” que promete seguir um caminho de aclamação muito parecido.


Glass Onion-Um Mistério de Entre Facas e Segredos

Quando foi anunciada a sequência da pérola de suspense “Entre Facas e Segredos”, a Netflix não perdeu tempo: Tratou de pagar um valor estratosférico para o astro Daniel Graig voltar ao personagem do detetive Benoit Blanc, negociou a exclusividade da produção com o diretor Rian Johnson (de “Star Wars-Os Últimos Jedi”) e certificou-se de trazer um elenco tão arrojado, numeroso e célebre quanto o notável filme anterior (entre outros estão Kate Hudson, Ethan Hawke, Edward Norton, Dave Bautista e Kathryn Hahn).

Assim que foi lançado na plataforma, “Glass Onion” arrebatou público e crítica revelando-se espantosamente superior ao filme original, qualidades que, garantem os apreciadores, não haverão de passar despercebidas aos membros da Academia.


Avatar-O Caminho da Água

Por fim, é impossível não mencionar um dos mais aguardados filmes do ano –senão O mais aguardado: Lá se vão treze anos desde que o diretor James Cameron tomou o mundo de assalto com a revolucionária tecnologia 3D e com a criação assombrosa do planeta Pandora em “Avatar”.

O tempo decorrido só fez aumentar a expectativa dos fãs em torno da continuação (que é prometida como a primeira de outras três!) e fomentou a promessa de que o efeito 3D, desta vez, seria ainda mais arrebatador aos sentidos do público.

“Avatar-O Caminho da Água” ainda não estreou (teve, quando muito, alguns trailers exibidos nos cinemas), mas os expectadores não têm dúvidas de que ocupará um lugar de destaque na próxima cerimônia do Oscar (e em outros prêmios também), até porque, entre outros talentos, Cameron é brilhante na construção de continuações: O seu “Exterminador do Futuro 2” é, e provavelmente sempre será, imbatível do quesito de continuação tão válida e pertinente quanto o original; e ele também assinou “Aliens-O Resgate”, a única sequência verdadeiramente dotada de tanto brilho e originalidade quanto o primeiro “Alien”.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Requiem Para Um Sonho


 Para uns a ideia da revisão de um filme tão extenuante, impactante e incômodo como “Requiem Para Um Sonho” pode parecer loucura; para mim, contudo, significa a chance de rever e redescobrir uma das mais sensacionais obras de cinema realizadas nos anos 1990 –até então ainda o melhor trabalho de Darren Aronofsky –relembrar o porque de minha obcecada paixonite por Jennifer Connelly durante aqueles idos (plenamente justificada neste filme e em outros projetos excelentes) e profundar-me ainda mais nos códigos e detalhes subliminares que proporcionam novas impressões da obra. Sim, pois embora seja comum afirmar que alguns filmes devem ser revistos de tempos já que eles mudam, minha opinião é outra: Somos NÓS que mudamos. Nossa bagagem cultural e sentimental muda, nos tornando capazes de perceber nuances que já estavam lá, mas não nos foi possível apreender.

E não tenham dúvidas, isso acontece com “Requiem Para Um Sonho”, desde seu prosaico início, numa cena em tela dividida que lembra as experimentações de Brian De Palma, quando vemos o viciado Harry (Jared Leto, melhor que no oscarizado “Clube de Compras Dallas”) tomar, pela enésima vez, a televisão da mãe (Ellen Burstyn) a fim de vendê-la e usar o dinheiro para comprar drogas.

Adaptado do livro de Hubert Shelby Jr. o filme de Aronofsky divide-se em três capítulos graduais, incisivos e inevitáveis: “Verão”, “Outono” e “Inverno”, qual as estações do ano. Neles, testemunhamos a derrocada dos quatro protagonistas –Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly e Marlon Mayans –deflagrada pelo vício.

Em “Verão”, acompanhamos Harry e Tyrone (Mayans) colhidos no êxtase de seu consumo de cocaína, na empolgação radiante em tornarem-se, de usuários para fornecedores, no fascînio de, em princípio, ver esse plano dando certo.

Acompanhamos também a linda Marion (Jennifer Connelly, e bota linda nisso!), namorada de Harry, às voltas com seu romance, com os pais ricos dos quais ela buscou se desvencilhar, com o sonho de abrir uma loja de roupas. E ainda há Sara, a mãe de Harry, cujo vício era até então apenas sua compulsão em ver TV –mais especificamente um programa picareta de compras e vendas.

O sonho de Sara –de aparecer, ela própria nesse programa –parece magicamente querer realizar-se quando ela recebe um inesperado telefonema dos negociadores de participações no programa. A ideia arrebatadora de ver-se na TV logo acende em Sara o desejo de entrar num antigo vestido vermelho no qual ela não cabe mais. Sara decide emagrecer. E após as penosas tentativas de fazer regime, ela cede à sugestão das amigas para tomar anfetaminas receitadas por um médico.

Em “Outono”, a espiral de tormento começa a dar as caras nas trajetórias de todos. Harry e Tyrone já não conseguem manter a prosperidade de antes, e uma guerra de gangues nos arredores de Coney Island torna as drogas que consomem escassas nas ruas, obrigando a própria Marion a fazer alguns sacrifícios que não queria, entre eles, pedir dinheiro ao sórdido e libidinoso personagem vivido por Sean Gullette (protagonista de “Pi”, o filme anterior de Aronofsky) a um custo doloroso e ultrajante. Sara, por sua vez, vai se tornando cada vez mais dependente das anfetaminas –a medida que o efeito desejado por elas vai rareando –sem notar as mudanças comportamentais e fisiológicas que as drogas prescritas lhe infligem.

Em “Inverno”, vemos tudo desandar. Harry e Tyrone resolvem ir para a Flórida negociar com os próprios fornecedores de drogas, mas jamais chegam lá de fato: Acabam encarcerados antes disso, sobretudo, Harry cujo braço já ostentava uma terrível pústula, resultado de frequentes picos de heroína sem qualquer prevenção. Marion, por fim, acaba se prostituindo como única maneira de prover o vício que lhe consome as entranhas. E Sara, perde em definitivo a sanidade –no que pode ser visto como um filme de terror sem os elementos do terror –singrando alucinada e decadente pelas ruas até ser internada e submetida a eletrochoques.

Na crítica corrosiva e implacável que traça da desumanização dos programas televisivos para com a própria audiência que alicia, e dos médicos negligentes que prescrevem drogas lícitas (mas não menos nocivas) aos pacientes mal tendo lhes examinado, o filme de Aronofsky se impõe como uma das mais corajosas e poderosas narrativas de denúncia do final da década de 1990, estabelecendo conceitos arrojados que demorariam ainda um bom tempo para serem assimilados pelo cinema mainstream. Não é intenção de Aronofsky ser necessariamente realista –embora muitos presumem que aqui ele o seja –seu filme é mais uma fábula transfiguradora da realidade, a capturar um horror subjetivo na inocência maculada de quatro personagens bem escritos, magnificamente bem dirigidos e interpretados, todos, de maneira comovente.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Mãe!

O grande problema que este filme enfrentou foi o fato do público equivocadamente deduzir que um filme reflete a sua atriz. Explico: Ao ver Jennifer Lawrence, a protagonista, nos trailers e nos pôsteres, muitos (a grande maioria, seus fãs) acharam que encontrariam um trabalho comercial, nos moldes daqueles com os quais se acostumaram a vê-la, leia-se, a série “Jogos Vorazes”, ou a série “X-Men”.
Não podiam estar mais errados: “Mãe!” –como, aliás, todo e qualquer filme –reflete, sim, a personalidade e o estilo de seu diretor, Daren Aronofsky, e como todos os seus trabalhos ele é pontuado por inconformismo, por suas próprias obsessões pessoais (que vão desde metáforas de natureza artística até impressões de conotações bíblicas) e por uma amplitude de interpretação que transforma o filme numa das obras mais instigantes e desafiadoras do ano.
Jennifer interpreta a jovem e dedicada dona de casa numa mansão ambientada no que parece ser o centro de uma longínqua floresta. Javier Bardem vive seu marido, um poeta transtornado por um poderoso bloqueio criativo. O início do filme sugere a renovação de um ciclo: Através de um misterioso cristal, Bardem refaz uma casa em chamas.
Surge a personagem de Jennifer nessa casa restaurada.
Negando aos protagonistas –e aos coadjuvantes também –qualquer nome que seja, o roteiro de Aronofsky reforça sua natureza alegórica. Seria Jennifer Lawrence a Mãe-Terra? Seria Javier Bardem a representação de Deus?
Provavelmente. Sobretudo, se levarmos em conta o peso referencial e dramático que as noções bíblicas e teológicas possuem na obra de Aronofsky. A iniciar esses percalços que refazem o Velho Testamento –mas, não apenas isso –de maneira artisticamente decodificada, o casal recebe uma visita. Um médico (Ed Harris). Fã declarado do trabalho do poeta, ele vai adentrando a casa, lisonjeando o marido com sua escancarada devoção e afrontando a jovem esposa com seu desleixo.
A indiferença do marido, que dilacerava a jovem, só se acentua com isso.
Tudo irá piorar.
Na manhã seguinte chega a esposa (Michele Pfeiffer). Intrusiva, hostil, arrogante, ela é tão importuna e inconveniente quanto potencialmente perigosa e francamente ameaçadora. Ambos são imersos em vícios: Ele tosse o tempo todo devido ao hábito tabagista (e além de tudo bebe); ela é lasciva, despudorada na ostentação da volúpia que mantém com o marido. Ambos são pois Adão e Eva –até mesmo a cicatriz da costela extraída ele possui –e, como na Bíblia, são apenas o início de todo o caos que virá com a humanidade: Logo, aparecem Caim e Abel (Domhnall e Brian Gleeson, irmãos na vida real) culminando na morte do segundo pelas mãos do primeiro.
Todos eles (e outros mais) partem após um incidente com uma pia que alaga a cozinha e leva a jovem esposa ao limite –uma analogia envolvendo derramamento de água que remete ao dilúvio e à parábola da Arca tão bem ilustrada, à propósito, pelo próprio Aronofsky em “Noé”.
Segue-se um período de tranqüilidade durante o qual a jovem engravida e o marido tem um lampejo de inspiração que o faz escrever seu primeiro poema.
Entretanto, com esse poema virão adoradores (profetas?) e diversos seguidores fanáticos que irão deturpar as palavras do poeta em prol de seus próprios interesses. Ele aceita a invasão de sua casa e a destruição de seus bens materiais em troca da devoção cega que o embriaga e o satisfaz. Ela desespera-se com crescendo incontrolável da depredação –como fez em “Cisne Negro”, Aronofsky confronta sua personagem principal (numa atuação esplêndida de Jennifer Lawrence) com toda sorte de exuberantes perversidades sugeridas em sua narrativa: A própria turba que invade a casa se divide e entra em conflito (as doutrinas e ideologias que levam o ser humano à guerra) enquanto a jovem grávida se vê aflita e acuada.
O marido está sempre ali por perto, mas, sua displicência, sua indiferença, sua conivência com os atos abusivos e seu êxtase pela aclamação o tornam perigosamente ausente.
A criança então nasce (Jesus?) e num momento de descuido da mãe, a multidão o toma num dos mais desconcertantes momentos do cinema em 2017. Certamente, houve a intenção de Aronofsky em emular Lars Von Trier nesta obra: A protagonista, as escolhas visuais e os rumos metafóricos adotados pelo enredo são característicos, ainda que seja bastante provável que o diretor dinamarquês, em sua intransigência, carregaria ainda mais no teor chocante dos vinte minutos finais.
O que Aronofsky fez, contudo, bastou para que “Mãe!” se tornasse um dos trabalhos mais controversos da temporada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fonte da Vida

Experimentação parecia ser a palavra de ordem no cinema de Daren Aronofsky em seus primeiros longa-metragens: Filmes como “Pi” e “Réquiem Para Um Sonho” não negam a procedência de um diretor faminto por explorar as possibilidades de seu ofício.
De uns tempos pra cá, contudo, essa necessidade de romper com os limites deu lugar à um trabalho mais austero, com características de um cinema mais, digamos, clássico: Prova disso é, inclusive, o bom desempenho junto à Academia de Artes Cinematográficas (que sempre priorizou trabalhos mais tradicionais) de obras como “O Lutador” (duas indicações ao Oscar) e “Cisne Negro” (vencedor do Oscar de Melhor Atriz, e outras quatro indicações). Embora, seu cinema nunca tivesse deixado de ser soberbo.
O meio-termo entre esses dois extremos da carreira de Aronofsky pode ser considerado este “Fonte da Vida”.
Ao mesmo tempo em que é uma trama que guarda algumas audácias formais (em voga naquele período de transição dos anos 1990 para 2000 devido à atividade de jovens diretores de perfil autoral como os Irmãos Wachowsky, “Matrix”, Spike Jonze “Quero Ser John Malkovich”, e David Fincher, “Clube da Luta”), este filme também se aproxima –talvez, por fatores não obstantes à Aronofsky –de um cinema mais comercial, que se permite enxergar uma finalidade mais branda para suas ousadias.
A verdade é que tudo se iniciou com uma história em quadrinhos planejada por Aronofsky (e inclusive lançada, quando o projeto era tido como uma grande produção). Um grande estúdio assumiu o projeto e escalou Brad Pitt para o papel principal, prevendo uma superprodução que trouxesse a mesma natureza inovadora –e sucesso acachapante, provavelmente –do recém-lançado “Matrix”.
Em algum momento, esses planos foram frustrados quando o orçamento mostrou-se a beira do estouro e o projeto adquiriu ares de obra complicada e megalomaníaca.
Com a equipe despedida e a tomada puxada, o diretor reinventou o projeto, agora bancado pelo ramo independente da 20 Century Fox, simplificando um ou outro elemento e enxugando drasticamente tudo aquilo que encarecia a produção, ou seja, as portentosas cenas de ação previstas pelo roteiro.
É assim que chegamos a esta ficção científica estrelada por Hugh Jackman, curiosamente semelhante ao clássico sci-fi de Gregory Roy Hill, “Matadouro 5”, e como ele, dotado de um estranho senso de romantismo.
Sua trama, de início enigmática, mas aos poucos costurada de maneira nem sempre satisfatória, começa com três personagens, em tempos e locais diferentes, mas, compartilhando de um mesmo dilema existencial: Thomás, desbravador espanhol apaixonado por sua rainha que, em meados do século XVI, submerge nas inóspitas florestas sul-americanas atrás da lendária "Árvore da Vida" que pode lhe dar imortalidade (e a mão de sua amada); Tom, renomado cirurgião, consumido pela frustração de ver o amor de sua vida morrendo de um câncer inoperável, a despeito dos recursos disponíveis da atualidade, mas que encontra esperanças de salvá-la na enzima milagrosa extraída de um vegetal da América do Sul; e, por fim, Tommy, um viajante espacial do futuro aguardando pacientemente em sua nave, acompanhado da já moribunda "Árvore da Vida", o momento em que chegará à Shibalba, a constelação mitológica que poderá trazer-lhe vida eterna.
Podem ou não esses três personagens ser todos a mesma pessoa. E essa percepção é paulatinamente encorajada pela narrativa, não apenas porque todos são interpretados (com brilhantismo, diga-se) pelo mesmo Hugh Jackman –e, também ele, se vê cercado pelos mesmos coadjuvantes que revezam-se em diferentes personagens, em especial, Rachel Weisz (esposa do diretor na época) que surge sempre personificando o amor inalcançável –como também os percalços dessa “busca” (distinta para cada um deles, mas no fim, equivalente) surgem como se fosse irônicos reflexos um do outro, como se Aronofsky quisesse fazer um poema no qual suas cenas, pela similaridade de acontecimentos,  rimassem como se fossem estrofes.
O resultado só não encontra o brilho superlativo de outros trabalhos do diretor porque ele insiste num desfecho explicativo e redundante, dando ao grande mistério que cerca à tudo e à todos uma explicação da qual não necessariamente estávamos precisando.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Noé

Descendentes dos filhos de Matusalém (Anthony Hopkins), Noé (Russel Crowe) e sua família singran por um mundo vasto e assolado pelas hordas de Tubal-Caim (Ray Winstone), orgulhoso descendente de Caim, o filho de Adão.
Preocupado com as possibilidades nefastas das visões que tem tido, Noé procura pelas sábias instruções de Matusalém, e descobre que o Criador pretende varrer a terra –e, por conseqüência, os erros da humanidade –com um dilúvio previstos para os anos vindouros.
O papel de Noé e sua família seria de construir uma arca que viesse a abrigar um casal de cada ser animal da criação.
Mas, Tubal-Caim não deseja aceitar com tanta irrestrição os desígnios do Senhor, e quer que seu povo esteja em peso dentro daquela arca quando o dilúvio chegar.
Autor de um poema, ainda durante sua vida escolar, sobre o episódio bíblico de Noé, o diretor Daren Aronofski conseguiu dar corpo e propósito a este projeto especialmente pessoal, onde ele lança ênfases bastante particulares a muitas passagens do conhecido com que, transfiguradas pelas justaposições e pela própria concepção de Aronofsky, ganham um novo viés, que certamente foi responsável por algumas controvérsias que rondaram o projeto.
“Noé” fala sobre sensos de responsabilidade, bem como da pérfida condição humana diante da inexistência absolutas deles; sobre obsessões auto-justificadas pela devoção (aliás, um temo especialmente caro em todo o cinema de Aronofsky); sobre as transformações que o homem inflige ao mundo, e que o mundo inflige ao homem.
São questionamentos, estes, sempre presentes em “Cisne Negro”, “Pi”, “Fonte da Vida”, filmes de Darren Aronofsky cuja diferenciação atroz de tema e ambientação só não desconcerta mais que a percepção catártica de que, em seu cerne, eles dizem uma coisa só.
 Russel Crowe mostra por que é um dos grandes astros de hoje; Jennifer Connelly brilha depois de tanto tempo sem fazer um filme bom de verdade; e Emma Watson começava a provar que há muito mais ali do que Hermione Granger.
Quando parecia que Aronofsky estava conduzindo o filme primorosamente para seu final, ele estava tão somente trilhando um caminho inesperado para torná-lo ainda melhor!

Um trabalho que divide opiniões, não há dúvida, mas cujo engajamento de seu audaz e arrojado realizador o impede de ser uma obra passível de ser ignorada.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Pi

   Primeira obra de Daren Aronokski, este complexo, soturno e opressivo conto em preto e branco sobre as entranhas do sistema moderno e sua desigual fauna de esquisitos seres que se arrastam e se escondem por suas sombras é uma amostra do fôlego criativo que ele ostentava na década de 1990.
   O próprio Aronofski é o primeiro a admitir que é incapaz de fazer os filmes que fez naquele início de carreira (tão plenos de ímpeto e de ousadia) em contrapontos aos trabalhos de orientação cinematográfica mais clássica que realizou nos últimos anos; ainda que, também eles refletissem um autor incapaz de se conformar às convenções.
   Eis os fatos: Outrora um promissor talento da informática, o hacker anti-social Max (Sean Gullette) divide as ocasionais visitas ao seu antigo mentor (um ex-professor vitimado por um derrame cerebral) com sua incondicional dedicação à um projeto: Encontrar um padrão matemático na bolsa de valores através do qual possa lucrar impunemente.
   Tal padrão, ele tem quase certeza, está relacionado ao número do pi, calculado a partir da soma do centro de uma circunferência e que, ele deduz, possui duzentos dígitos (passando a crer que seja a própria identidade de Deus!).
   Contudo, toda a vez em que está próximo de obter sucesso (exatamente quando está no centésimo nonagésimo nono dígito) o computador adquire “consciência de silício” –obrigando-se a tornar-se mais inteligente, e assim compreendendo que é uma mera máquina –e  pifa (morre). Para ter êxito, ele recorre à rabinos ortodoxos e a perigosos mafiosos através dos quais ele consegue um chip forte o suficiente para agüentar a carga do número sem pifar.
  Mas, com problemas desse porte em seu encalço, ele talvez precise fazer um esforço e tentar memorizar o número do pi em sua própria mente, algo que talvez o seu mentor já tenha tentado fazer (e que, talvez, seja o motivo para o derrame que parcialmente o invalidou).

   Uma série incomum de inspirações e ideologias guia esta sua narrativa que, ao mesmo tempo em que encontra paralelos com o agudo e magistral “Réquiem Para Um Sonho”, também parece exigir um espaço todo próprio e singular na filmografia de seu realizador, permanecendo assim como uma obra nascida da mais pura e vívida chama criativa.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Requiem Para Um Sonho

Ainda muito jovem, o diretor Daren Aronofski já havia mostrado a que veio em grande estilo.
Após um desconcertante thriller carregado de estilo e de ousadia (o desafiador "Pi"), ele saiu-se com este retrato impiedoso de personagens mergulhados na via-crusis de seu próprio vício, e no processo, marcou época.
Até hoje lembrado como uma das grandes obras a abordar o vício em drogas, "Requiem Para Um Sonho" é uma experiência das mais exasperantes.
Seus personagens são Harry (Jared Leto, anos antes da consagração com "Clube de Compras Dallas", mas já demonstrando imenso bom gosto na escolha de projetos), sua namorada Marion (a linda, pulsante e brilhante Jennifer Connelly), seu melhor amigo Tyrone (Marlon Mayans, num ótimo e infelizmente raro papel dramático), e sua mãe Sara (a grande Ellen Burstyn, cuja entrega absurda ao personagem rendeu a única indicação ao Oscar recebida pelo filme). Todos estão, no início do filme, em um estado de imersão e êxtase com seus vícios.
Harry e Tyrone são viciados em heroína, Marion em cocaína, e Sara, em ver TV. Eles estão confortáveis com seus vícios, e lhes é relativamente pacata a perspectiva deles de assim ficarem a vida inteira. Eles até permitem-se sonhar com uma vida melhor.
Enquanto Marion planeja montar uma loja, Harry e Tyrone fazem planos para prosperar. Começando por obter dinheiro com venda de drogas, mas logo almejando um lucro limpo. Sara quer porque quer participar de um dos shows de TV que assiste, e para tanto quer entrar no vestido que guarda desde a mocidade.
Através da neurose que o vício lhes inflige, seus sonhos serão assim a gênese de sua ruína.
Divididos nas quatro estações do ano (primavera, verão, outono, inverno), o filme acompanhará os percalços que os levam, na inicial euforia da primavera, à degradação psicológica e, por fim, física que serão registradas no verão e no outono.
Sara irá se viciar em metanfetaminas para ficar mais magra, e sua transformação, comportamental e visual, será de doer no coração. As frustrações de Marion a levarão a buscar mais e mais à fuga das drogas e ela acabará se prostituindo, enquanto Harry e Tyrone encontrarão, cada um a seu modo, uma forma sub-humana de existência.
Quando o inverno chegar, essas quatro trajetórias encontrarão o fundo do poço, o inferno de suas vidas. E o diretor Aronofski não poupa expectador e personagens com cenas cuja carga dramática e o teor de choque só perdem para o primor com que são conduzidas.


Uma demonstração de estilo ímpar, que elevou o patamar do cinema no início da década de 2000.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Lutador

Vislumbrando seu fim após um ataque cardíaco, lutador decadente busca juntar os cacos do que era então sua vida, o que inclui reaproximar-se de sua filha com quem mal tem contato. Há uma luta em seu passado que lhe deixou um assunto mal resolvido com outro lutador. A iminência do combate que se aproxima (e que pode custar lhe a vida), lhe dá uma esperança de redenção, bem como lhe dá coragem para tentar aproximar-se da stripper que lhe atende todas as noites. A única pessoa com quem de fato se relaciona.
A direção partilha conosco a ânsia por capturar e entender a história de um personagem que se mostra impenetrável. Encontrar assim as frestas que vislumbram uma história que se perdeu no passado. A câmera de Daren Aronofski, em sua garimpagem emocional, a transfigurar as cenas no brilhante cinema que se vê.
E Mickey Rourke dando corpo, alma, voz e sangue a um personagem que ele conhece tão bem.
Como em "Requiem Para Um Sonho" os enquadramentos e cortes (aqui não tão simultâneos, rápidos e pragmáticos) observam o acúmulo das feridas externas visando, por meio delas, as transformações internas.
Como em "Fonte da Vida" é a desesperada e desesperadora tentativa de um homem em entender o que parece estar além do ponto de não retorno.

sábado, 10 de outubro de 2015

Cisne Negro

Os músculos podem doer, as unhas dos pés podem se quebrar (em cenas que, por vezes, transferem a angústia dessa dor para o expectador), mas a disposição da jovem bailarina (Natalie Portman) que protagoniza “Cisne Negro” em se superar e superar a capacidade de suas pares parece ser capaz de ignorar tudo isso.
Em alguns momentos, é bem verdade, tal dedicação não parece vir dela –aparenta, sim, ser a extensão da criação imposta pela própria mãe (Bárbara Hershey), e que reflete na jovem os anseios que antes ela alimentava para si.
Mas são muitas as coisas que aqui podem aparentar, e não necessariamente ser.
Nina, a jovem bailarina, inicia o árduo processo de treinamento da execução do balé "O Lago dos Cisnes". Dona da disputada vaga de protagonista, ela tem uma pressão a mais sobre seus ombros; deve interpretar não só a faceta do inocente e frágil Cisne Branco (papel ao qual ela se encaixa com perfeição), mas também o selvagem e sensual Cisne Negro (cuja interpretação, alguns acreditam, ela não é capaz de executar).
Ao longo dos fatigantes ensaios, ela vivencia tensões e paranóias manifestadas em cenas que podem não necessariamente pertencer à realidade, e tem de conviver com a exuberância de uma sexy bailarina rival (Mila Kunis) que parece possuir e ostentar os adjetivos que lhe faltam.
Natalie Portman está brilhante nesta tensa e fascinante obra do grande diretor Daren Aranofski, que pega elementos narrativos emprestados de várias fontes completamente distintas: A ambiguidade circular, e o registro brilhante do isolamento e da loucura executados por Roman Polanski no magistral "O Inquilino"; a ambientação algo européia que remete a um refinamento oriundo do mundo do balé presente em “Sapatinhos Vermelhos” e “Étoile” (cuja trama também girava em torno de uma bailarina oprimida pelos assombros do mundo real e do irreal); e a atmosfera dúbia, carregada de significados e múltiplas interpretações da fantástica animação japonesa "Perfect Blue".