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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Adoráveis Mulheres

Na cerimônia do Oscar 2020, “Adoráveis Mulheres” fez uma bela campanha levando o Oscar de Melhor Figurino; e na categoria principal, lá estava ele também disputando o prêmio dentre suas seis (e merecidíssimas) indicações.
Inspirado no clássico romance de Louisa May Alcott, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig é a oitava (!) adaptação cinematográfica do livro para cinema –a mais recente havia sido lançada em 1994, pela diretora Gillian Armstrong, com Winona Ryder –e Greta, seja no roteiro, seja na direção, constrói seu filme plenamente conciente de que cada expectador que assistir sua obra já deve ter visto pelo menos uma das versões anteriores: Ela modifica a trama e suas circunstâncias, senão na essência, ao menos no formato, alterando a ordem cronológica, recriando cenas, remodelando o convencionalismo da narrativa e, no seu audacioso final, acrescentando um elemento ambíguo de metalinguagem.
Tudo isso, confere um frescor à “Adoráveis Mulheres” que certamente poucos presumiram que ele viesse a ter: Depois que a (ótima) atriz Greta Gerwig decidiu arriscar-se atrás das câmeras dirigindo o brilhante “Lady Bird”, obtendo espetacular êxito de público e crítica, o seu projeto seguinte –a adaptação do famoso romance de Alcott –parecia um passo ambicioso, o tipo de trabalho no qual um artista se arrisca a um épico tropeço após um fenomenal acerto.
É maravilhoso ver o quanto os pessimistas se enganaram: “Adoráveis Mulheres” de Greta salta com graça e sofisticação à frente de todas as demais versões (até mesmo as clássicas!) como a melhor, mais emotiva e arrebatadora transposição de Alcott feita para as telas.
Em grande parte, graças à sensibilidade de Greta Gerwig que compreende as alegrias e angústias de suas numerosas personagens, a emoção estrutural embutida em cada arco dramático da narrativa e, talvez –na qualidade, ela própria, de roteirista –as predisposições emocionais da própria Louisa May Alcott.
Provavelmente a mais completa atriz de sua geração, a jovem Saoirse Ronan interpreta a heroína Jo March; e na cena que abre o filme –Jo, aspirante à escritora, submetendo seus manuscritos à insensibilidade de um editor antiquado e inepto –já deixa claro alguns dos tópicos inesperados, acerca do empuxo criativo que espelha a protagonista e sua autora, dos quais ela quer tratar.
Jo vive à duras penas na Nova York dos anos 1860. Mora numa pensão. Tenta vender os contos literários que produz e encontrar um lugar ao sol como escritora. Mas, a vida para uma mulher de planos independentes em meados do Século XIX não é fácil.
Alternadamente à essa aspereza da realidade –registrada na belíssima fotografia em tons azuis –o filme regressa sete anos no tempo, mostrando quando Jo e suas irmãs viviam junto de sua mãe (Laura Dern), na humilde, porém, amorosa casa da família, tentando suportar a ausência do pai (Bob Odenkirk) que foi lutar na Guerra Civil –nesse período de tempo, por sua vez, as imagens surgem em tom amarelo pastel.
Cada uma das irmãs March tinha uma personalidade distinta: Além de Jo, havia a artista Amy (Florence Pugh, dando fascínio insuspeito a uma personagem normalmente irritante); a boa moça Meg (Emma Watson); e a adoecida Beth (Eliza Scanlen).
E cada uma experimenta também diferentes aspectos nos dois pólos de tempo, separados por sete anos, dos quais a narrativa se incumbe: Amy, antes à sombra de Jo, com quem vivia às turras, agora está na Europa com a rabugenta Tia March (Meryl Streep), e enquanto tenta fisgar um marido rico, se descobre atraída pelo amigo da família Laurie (o ótimo Timothée Chamalet), outrora apaixonado por Jo; Meg, cujo temperamento equilibrava as inconstâncias de humores das outras irmãs se vê, depois, em um casamento cheio de amor, mas assolado pelas provações da pobreza; e, por fim, Beth tem um novo surto de escarlatina (um outro já havia acometido anos antes), o que obriga Jo à deixar Nova York e voltar para o município de Concord, no estado de Massachussets, para cuidar dela –bem quando Jo, tão desprendida para os assuntos românticos, começava a descobrir, no imigrante Friedrich (Louis Garrell), um possível interesse amoroso.
Indo e vindo no tempo –formato inédito dado à trama –o filme de Greta Gerwig reestrutura com inteligência sua tão famosa história estabelecendo rimas poéticas entre o antes e o depois, sublinhando novas emoções àquelas já conhecidas e dando à tudo um ar renovado e vibrante: se “Lady Bird” foi uma prova de seu talento, “Adoráveis Mulheres” é a comprovação de uma competência inquestionável (tamanho é seu brilhantismo que sequer Meryl Streep, habituada a roubar cenas, consegue fazê-lo, tal é o nível altíssimo mantido por todo o elenco); a diretora consegue obter o mesmo efeito do livro no qual nos descobrimos profundamente afeiçoados às suas personagens depois de um tempo.
Sua grande contribuição à essa obra magnífica talvez seja mesmo o final, um interessante jogo de narrativa dúbia e ambiguidade ficcional, onde Greta Gerwig discute as razões mercadológicas de um final feliz –ou romanticamente satisfatório –no que diz respeito à sua protagonista.
Podem até haverem novas versões de “Adoráveis Mulheres” em algum momento no futuro; mas, será um tremendo desafio superar o primor e as emoções irreprimíveis dessa daqui.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A Bela e A Fera

A iniciativa dos Estúdios Disney de conceber versões em live-action de suas animações sempre esbarrou num problema: O fato de algumas dessas obras serem produções louvadas pelo público e, não raro, criações cinematográficas irretocáveis.
Mal essa tendência havia se tornado lucrativa –com os sucessos de “Alice No País das Maravilhas”, de Tim Burton, “Malévola”, de Robert Stromberg (com Angelina Jolie), “Cinderella”, de Kenneth Branagh, e “Mogli-O Menino Lobo”, de Jon Favreau –e a Disney já resolveu segurar o touro pelos chifres e adaptar uma de suas mais aclamadas obras: O desenho animado que, entre outras honrarias, foi a primeira animação a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, “A Bela e A Fera”.
O escolhido para a empreitada foi o diretor Bill Condon que, diante do dilema criativo entre recriar fielmente a animação (realizando assim um trabalho sem alma) e executar uma obra dotada de sua própria inspiração e inventividade, saiu-se com uma alternativa sábia e travessa: “A Bela e A Fera”, o filme, se ampara, sim, na tão elogiada animação –até porque fãs e apreciadores se ressentiriam se fugisse muito de sua fonte –mas, ele se baseia também, em muitas de suas pontuações narrativas, na bem-sucedida adaptação teatral para os palcos da Broadway.
A dica já se acha no prólogo: Diferente dos vitrais que sugerem o prenúncio da trama na animação, a encenação mostra a festa onde o príncipe em questão (Dan Stevens, magnífica escolha) rejeita o pedido de ajuda de uma mendiga para descobrir que ela era uma feiticeira.
Indignada com o desprezo dele por sua aparência, ela o amaldiçoa: Transforma-o em monstro e todos os súditos de seu castelo nos móveis que o decoram. Para quebrar tal maldição, somente se ele conseguir fazer com que alguém apaixone-se por ele, a despeito de sua forma bestial.
Entra em cena, então, a mocinha Bela (Emma Watson, que deve ter aceitado este papel musical pelo arrependimento de ter recusado a proposta para estrelar “La La Land-Cantando Estações”).
Moradora de uma aldeia francesa, Bela é recebida com estranhamento pelos demais moradores, incomodados por sua independência, sua articulação e inteligência. Contudo, sua grande beleza (ainda que Emma não seja tão bela assim quanto o papel pede), não passa despercebida de Gaston (Luke Evans), o mais bonito e disputado (e arrogante!) rapagão local, que a quer como esposa de qualquer jeito.
Bela vem a se encontrar com Fera quando o pai dela, Maurice (Kevin Kline), perde-se numa viagem, indo parar inadvertidamente no castelo da Fera; e acaba seu prisioneiro.
Mais tarde, ao descobrir as atribulações do pai, Bela propõe uma troca e, agora, será ela quem Fera terá como prisioneira.
Entretanto, os demais personagens que orbitam esse par improvável (como são improváveis todos os pares de desenlaces românticos da ficção) haverão de contribuir para tornar este um romance, entre eles, o candelabro Lumiére (voz de Ewan McGregor), o relógio Cogsworth (voz de Ian McKellen, com quem o diretor Condon fez o premiado “Deuses e Monstros”), o bule de chá Madame Samovar (voz de Emma Thompson) e vários outros.
Ignorando a restrição que a obrigatória proximidade visual e narrativa para com a animação lhe impõe, o diretor Condon aproveita as ferramentas técnicas à sua disposição para transformar “A Bela e A Fera” num espetáculo de cores à exemplo do que foi a própria animação em sua época. Os recursos digitais, empregados de forma imodesta, podem fascinar alguns expectadores por sua extravagância e seu espalhafato, e incomodar outros por sua demasia e gratuidade –e o roteiro de Stephen Chobski (diretor de “As Vantagens de Ser Invisível”, também com Emma Watson, e de “Extraordinário”) não tem maiores justificativas para seu uso, embora possua o ligeiro mérito de tentar se afastar das obviedades em relação à animação ao usar de artifícios mais ou menos perceptíveis como alternância de cenas, a transferência de determinados diálogos para outros personagens e o acréscimo de prolongamentos de cena (que ora funciona, ora fica lamentável).
Como é o caso na maioria dos live-actions da Disney, o melhor meio de apreciar as qualidades deste “A Bela e A Fera” é desencanar de uma comparação constante com a animação; algo que só irá desfavorecer e sabotar o próprio filme.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 2

Havia uma intenção bastante específica quando foi tomada a decisão de dividir o último livro da “Saga Harry Potter” em dois filmes: Traduzir o conteúdo da história, profundamente elucidativa para com todas as pontas soltas deixadas ao longo dos outros seis livros, da forma mais completa possível –essa prática chegou até a influenciar outras sagas adolescentes posteriores oriundas da literatura como “Crepúsculo” e "Jogos Vorazes”, cujo livro final também foi dividido em filmes Parte 1 e Parte 2.
Ironicamente, é nesse aspecto que o último filme dirigido por David Yates deixa a desejar –como veremos mais a frente.
“As Relíquias da Morte-Parte 2” retoma exatamente o ponto em que a “Parte 1” abandonou o público, quando Voldemort enfim pôs as mãos na poderosa ‘varinha das varinhas’ e Harry Potter, ainda perplexo, testemunhou o nobre sacrifício do elfo Dobby.
O filme prossegue daí quando Harry, Hermione e Rony almejam agora encontrar as outras horcruxes –os artefatos de magia negra imbuídos de fragmentos da alma de Voldemort: E só para constar, até este ponto da trama, dentre todas as sete horcruxes já foram mostradas três (o diário de Tom Riddle, destruído em “A Câmara Secreta”; um anel, destruído por Dumblodore à duras penas; e o medalhão do qual Harry e Rony deram cabo no filme anterior).
As quatro que ainda faltam, de certa maneira, determinam a narrativa do filme: A quarta, uma taça enfeitiçada, guardada no Banco Gringotes, regido por desconfiados duendes –e dentro do qual os três jovens vão audaciosamente tentar entrar com o pouco confiável auxílio do duende Grampo (o sensacional Warwick Davis, de “Willow-Na Terra da Magia”). E tome mais uma cena espetacular quando os três fogem do banco sobre as costas de um dragão!
A quinta, um lendário diadema roubado da Casa de Corvinal, obriga Harry e seus amigos a voltarem para Hogwarts, onde Severo Snape prevalece como diretor impondo os desmandos do Lorde das Trevas e submetendo os alunos a um regime ditatorial –é na busca por essa horcrux que Harry se depara com o fantasma de Helena Ravenclaw, vivido por Kelly MacDonald, a estrela de “The Girl In The Café”, também dirigido por Yates.
A sexta horcrux, numa manobra até bem óbvia vem a ser a fiel e mortífera cobra Nagini, sempre próxima de Voldemort, enquanto que a sétima e última, revelada no clímax, vem a ser o próprio Harry Potter (!), que deve ser sacrificado para que o Lorde das Trevas pereça.
Na esteira dessas revelações e acontecimentos –que, por sua proximidade fidedigna ao material literário, agrega um excesso de informações que pode confundir muitos expectadores –o diretor Yates escancara suas predisposições épicas, já perceptíveis na gradual elevação de escopo em seus filmes anteriores (especificamente iniciada em “O Enigma do Príncipe”), mas abraçadas por inteiro aqui na grandiloquente batalha do bem contra o mal que toma Hogwarts como cenário na última hora de filme, quando praticamente todos os personagens (alguns interpretados por atores famosos que surgem como pontas) comparecem deste ou daquele lado.
Não há dúvida de que a possibilidade de abreviar o mínimo possível os acontecimentos do livro beneficiou o filme. Contudo, se a “Parte 1” resulta primordial e empolgante por conta disso, a “Parte 2” sofre pequenas complicações: É maravilhoso poder ver muitos trechos do livro preservados na íntegra (e uma pena constatar que isso infelizmente não ocorre com tanta frequência em adaptações cinematográficas em geral), no entanto, é estranho que justamente a sequência do livro que melhor justifica a divisão em duas partes seja exatamente a que acaba negligenciada pela narrativa –trata-se do momento em que Harry Potter contempla as memórias de Severo Snape (Alan Rickman, certamente o grande ator de toda saga), até então tratado como um dos grandes vilões da história. Por meio desse momento brilhante, Harry (e o público junto com ele) descobre as reais motivações de Snape e o porque dele ser, sem que soubéssemos, um dos grandes heróis da saga!
Um momento revelador, emocional e surpreendente que merecia no filme o mesmo zelo e cuidado demandado no livro; do jeito como ficou –numa montagem de cenas simultâneas, quase a lembrar um videoclipe –pode até suscitar algumas emoções, mas está longe do impacto que poderia ter se ganhasse a mesma atenção de algumas cenas de ação.
Claro que essas são impressões menores: Do jeito como está, “As Relíquias da Morte-Parte 2” se mantêm como um final apoteótico, arrebatador e digno para uma das sagas cinematográficas mais marcantes dos últimos tempos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Harry Potter e As Relíquias da Morte - Parte 1

O começo do fim. Desde os eventos irreversíveis do desfecho de “O Enigma do Príncipe” –isto é, a morte de Dumblodore e a opção definitiva (ou não) de Severo Snape em aliar-se ao mal –o clima obtido para este derradeiro filme era de urgência com uma notável atmosfera de inevitabilidade.
Ainda assim, os produtores não deixaram de fazer das suas para ficar um tempo a mais com a galinha dos ovos de ouro em mãos: Ao adaptar o último livro da saga, optou-se pela decisão de realizar não um, mas dois filmes extraídos do livro, com a desculpa (bastante razoável e bastante significativa para ambos os filmes) de que o máximo do material literário poderia ser mantido na adaptação.
Portanto, esta primeira parte de “As Relíquias da Morte” abrange cerca de 60% do livro, reservando os desenlaces mais contundentes para a segunda parte, o quê não impede este de ser, também ele, um trabalho muito bom.
Harry Potter está prestes a completar dezessete anos, e com isso, o feitiço de proteção que o mantinha a salvo na casa de seus tios irá se acabar. A fim de salvá-lo e levá-lo a um lugar seguro, já no início do filme, vários personagens (muitos introduzidos ao longo dos diversos filmes anteriores) unem-se para despistar os terríveis Comensais da Morte –e já nessa cena eletrizante, o diretor David Yates mostra que não está para brincadeiras. Ele exibe a escala de cenas de ação ampliada desde o memorável filme anterior, ostenta um domínio vertiginoso de narrativa que, mesmo sendo este seu terceiro filme na franquia, continua a surpreender, e não poupa o expectador e seus personagens de apuros ameaçadores de verdade; o conto de fadas pueril vislumbrado em “A Pedra Filosofal” há tempos não existe mais.
Após a breve e alentadora cena de casamento entre Gui (Doomhaal Gleeson), irmão de Rony, e Fleur (de “O Cálice de Fogo”) as circunstâncias imediatamente se complicam: O Ministério de Magia é invadido e dominado pelos Comensais da Morte. O Lorde das Trevas, Voldemort, passa a comandar então o mundo bruxo.
Harry, Rony e Hermione fogem e, ao longo de meses absolutamente angustiantes, passam a viver de maneira nômade, tentando encontrar uma forma de dar prosseguimento ao plano de Dumblodore –de achar as ‘horcruxes’, que contêm fragmentos da alma de Voldemort, para que possam assim matá-lo –sem, no entanto, nenhum recurso, nenhum auxílio e nenhuma informação.
E é a partir daí que Hermione tem a oportunidade de brilhar como nunca o fez antes, tanto pela imensa funcionalidade da personagem, como pelo talento e carisma da atriz que a interpreta, a bela Emma Watson.
Enquanto isso, e de maneira narrativamente sucinta (ainda que perspicaz), o filme mostra a extensão do mal no mundo bruxo, com Hogwarts sendo dominada por Comensais da Morte (Severo Snape é nomeado seu novo diretor), o Ministério da Magia trabalhando em função da obliteração de pessoas normais, destituídas de magia, e o nome de Harry Potter difundido como o “Indesejável Nº 1”.
São todas informações que ratificam a sensação de desamparo experimentada pelos jovens protagonistas, e que este filme é imensamente feliz em compartilhar com o público –em grande parte, auxiliado pela fácil identificação do expectador com personagens que ele já conhece há anos; e que, em muitos casos da plateia, cresceram junto com os próprios atores principais.
Como numa espécie de tradição que a série passou a adotar desde “O Cálice de Fogo”, os realizadores escolheram, como ponto de ruptura na narrativa do livro, a sequência fatídica e consternadora da morte de um querido personagem para encerrar este filme –uma jogada inteligente que dá a um filme originalmente concebido para prescindir de um desfecho um desenlace amargo, porém válido e certamente impactante.
Ao final desta “Parte 1”, as apostas na luta do bem contra o mal estão altas e o público, ávido para conferir das emoções derradeiras reservadas pela “Parte 2”.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Enigma do Príncipe

O diretor David Yates, tendo estreado em “Harry Potter” no filme anterior, chegou mesmo para agitar as coisas: Os primeiros minutos de “O Enigma do Príncipe” já deixam bem claro que, neste ponto, a saga já não tem qualquer interesse em temas infanto-juvenis –a paleta de cores é séria, monocromática, quase evocando um preto & branco interiorizado em muitos momentos; o clima de tensão é frequente e eficaz, aproximando esta obra, muitas vezes, de um filme de terror, e além de tudo, Yates impõe uma elegância à toda prova que eleva consideravelmente as apostas deste novo filme, onde são esboçados os ganchos narrativos que enfim conduzirão a saga ao seu desfecho.
Numa escala inédita nos filmes de “Harry Potter” até então, começamos o filme testemunhando o que parecem ser ataques terroristas sistemáticos em Londres de natureza mágica. Apesar do alvo ser o Beco Diagonal (visto em “A Pedra Filosofal” e “A Câmara Secreta”), podemos vislumbrar também a destruição da Ponte Millenium, de Londres. Os Comensais da Morte, pavorosos asseclas de Lorde Voldemort, atrevem-se a atacar e dar as caras no mundo normal (o chamado ‘mundo trouxa’).
Harry aparece no momento seguinte, quando o diretor Yates se dá ao luxo de fazer uma auto-referência: Impossível não lembrar de seu elogiado “The Girl in The Cafe”, quando vemos um Harry Potter aturdido com as notícias do jornal, dar um pequeno tempo e flertar com a garota que trabalha na cafeteria.
Logo, porém, a responsabilidade chama: Alvo Dumblodore requisita a companhia de Harry numa visita a um certo Horacio Slughorn (Jim Broadbent), alguém que, por razões muito especiais, o diretor de Hogwarts deseja para ser o novo professor de Poções –o professor anterior dessa matéria, Severo Snape, finalmente conseguiu a cadeira de professor de Defesa Contra A Arte das Trevas (cujas aulas mostradas no livro são omitidas no filme).
Apaixonado pela mitologia que cerca a trama como nenhum diretor antes dele, David Yates avança seu filme saboreando a evolução circunstancial presente em cada pequeno detalhe de sua história: Harry, Rony e Hermione são agora alunos dos últimos anos, o que faz deles veteranos acostumados aos meandros estudantis acrescidos da curiosidade da magia. Já a seis anos em Hogwarts, Harry agora é o capitão do time de quadribol de Grifinória, no qual seu amigo Rony e a irmã dele, Gina (Bonnie Wright), fazem teste para poder participar da equipe. E nas salas de aula, em especial, na matéria ministrada pelo Prof. Slughorn, Harry encontra um livro carcomido cheio de anotações de um certo ‘Príncipe Mestiço’ –o mistério que batiza este capítulo distraindo a atenção dos elementos realmente relevantes –e tais anotações feitas à mão ajudam Harry a tornar-se o melhor aluno da sala (!). Também o aspecto romântico se manifesta aqui com mais intensidade: Harry se descobre cada vez mais apaixonado por Gina, que no momento se envolve casualmente com Dino (Alfie Enoch), enquanto Hermione, em sua lenta e gradual aproximação com Rony tem seus planos interrompidos pela tietagem da deslumbrada Lila Brown (Jessie Cave).
Yates usa essas eventuais intrigas amorosas como pontuais atenuantes para uma trama sombria que ele engendra com zelo e critério ao longo da narrativa, sobretudo, na condução de dois núcleos distintos: Os breves, no entanto, significativos momentos em que flagramos o jovem Draco Malfoy (Tom Felton) e sua ‘missão’ por meio da qual os Comensais da Morte almejam finalmente invadir a tão segura Hogwarts; e, claro, a trajetória de Harry que o leva até o misterioso e escorregadio Horacio Slughorn –ele trás consigo um segredo (que ele recusa-se a compartilhar até mesmo com o próprio Dumblodore) sobre as razões ligadas a magia negra que fazem Voldemort ser imortal; e que, portanto, fornecem a pista para enfim matá-lo.
Como é habitual na construção narrativa de todos os “Harry Potter”, as numerosas pontas soltas a tratar de assuntos que aparentam serem tão diversos quanto dispersos, em dado momento, se unem revelando uma conexão intrínseca que os torna fragmentos complementares de uma mesma e sólida trama bem planejada –entretanto, neste filme até mais do que em “A Ordem da Fênix”, o diretor Yates se permite ir acima e além da fidelidade ao livro (que ele transfigura com convicção impecável) acrescentando impressões aos personagens e às suas motivações que só poderiam ser mesmo capturadas em cinema: É o caso da interpretação brilhantemente moldada do Prof. Slughorn que Jim Broadbent compõe com uma compreensão desigual do fascínio parasitário despertado nele por alunos de potencial fora do comum, primeiro o Tom Riddle ‘pré-Voldemort’ (interpretado em lembranças passadas por Frank Dillane e Hero Fiennes-Tiffin, este último, sobrinho de Ralph Fiennes), e depois o próprio Harry Potter. Os trinta minutos finais também revelam um domínio prodigioso dos elementos fantásticos, aqui empregados rumo a uma atmosfera genuinamente assustadora (palmas para a magnífica cena no lago dentro da caverna!).
Ao abraçar com uma serenidade contagiante um filme com facetas tão distintas (do romance ao terror, do suspense à comédia), o aspecto mais surpreendente do trabalho de David Yates acaba sendo a espantosa harmonia com a qual ele consegue manter tudo num mesmo tom, envolvendo o expectador num ritmo preciso e absorvente até a cena final que, neste filme em particular (talvez o de execução mais desafiadora de toda a saga) não encontra um ponto derradeiro que possa ser considerado um desfecho –e ainda assim, Yates o encerra extasiando o público com o filme espetacular que concebeu.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Harry Potter e A Ordem da Fêlix

Um novo filme. Uma nova troca de diretor. Todavia, este “A Ordem da Fênix” recebeu aquele que viria a ser o diretor fixo e definitivo da série até seu desfecho: O inglês David Yates, ironicamente reconhecido por trabalhos austeros, realistas e politizados feitos para a TV, como o filme “The Girl In The Café” e a minissérie (mais tarde convertida em filme) “Intrigas de Estado”.
Apesar de nada em sua filmografia pregressa sinalizar isso, Yates mostrou um fascínio inesgotável pelo material, um manuseio prodigioso dos elementos que configuravam a fantasia (como os onipresentes efeitos visuais), e um fôlego louvável que –ao contrário de Chris Columbus, cujo cansaço já se expressava no segundo filme –o levou a ostentar a mesma empolgação, o mesmo zelo para com o ritmo e a caracterização, e o mesmo patamar considerável de qualidade que ele conseguiu manter daqui até o último filme; totalizando quatro longa-metragens sob sua assinatura.
O começo de “A Ordem da Fênix” é brilhante e essencialmente cinematográfico –fruto, na opinião de muitos, do fato de ser o primeiro livro da saga escrito depois que ela já havia começado a ser adaptada para cinema. Nele, Harry surge num parquinho suburbano, contemplando memórias já distantes de infância e outras memórias, não tão distantes, mas terríveis, de quando testemunhou a morte de Cedrico no filme anterior.
Ao lado de seu primo Duda, agora à beira da deliquência, Harry é surpreendido pela aparição de dois Dementadores –numa sequência maravilhosa que deixa explícita a homenagem à “Alien”.
Por conta de usar o feitiço ‘patronum’ para proteger-se e a seu primo nesse prólogo, Harry corre assim o risco de ser expulso de Hogwarts –é sumariamente proibido que alunos pratiquem magia fora da escola.
Segue-se, logo depois, uma cena no até então muito falado, mas pouco mostrado, Ministério da Magia. Lá, o Ministro da Magia em pessoa, Cornélio Fudge (Robert Hardy), se revela hostil à Harry Potter e avesso à alegação dele e de Dumblodore de que Lorde Voldemort finalmente retornou.
E aí estão, pois, as características politizadas que justificam a escolha de David Yates como diretor –e que só se intensificarão daqui para frente –há todo um conflito de interesses ideológicos a incrementar as considerações acerca do conflito básico do bem contra o mal; para o Ministro Fudge, refutar a volta de Voldemort significa mais opor-se a Dumblodore como seu adversário político do que reconhecer o regresso do mal –e nessa teimosia, ele abre amplo espaço para a paranóia que, neste filme, contamina todo o mundo bruxo.
Isso, claro, se reflete na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: A nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas, a insidiosa Dolores Humbridge (Imelda Stanton, compondo com primor a grande vilã do filme), é uma ferrenha apoiadora das facetas mais rígidas e autoritárias do governo de Fudge, e com essa postura, ela aproveita-se da ausência eventual de Dumblodore para dominar gradualmente toda a escola: Começa impondo a regra de que alunos não devem praticar magia –apenas inteirar-se da teoria –fazendo-os indefesos e deixando a capacidade para se defender reservada às forças do ministério; logo, ela se vale da proximidade com o ministro para colocar-se no direito de vetar aulas que julga desnecessárias (como as de clarividência); impõe normas de conduta abusivas e, com o tempo, táticas de punição ainda mais intoleráveis, chegando a arregimentar os alunos mais suscetíveis e corruptíveis (como Draco Malfoy) para a chamada Ordem Inquisitória destinada a policiar e denunciar as menores contravenções.
É natural que, em um ambiente assim tão repressivo, os esforços revolucionários acabem insurgindo: Dispostos a garantir um conhecimento contra as forças das trevas que se ensaiam no horizonte, Harry, Rony, Hermione e seus outros amigos –como Gina (Bonnie Wright), Chang (Katie Leung) ou Luna Lovegood (a sensacional Evanna Lynch) –resolvem integrar um grupo que reedita a Ordem da Fênix –outrora formada por seus pais, Sirius Black e outros quando jovens –e criam assim a Armada Dumblodore, para treinar às escondidas feitiços de proteção.
É impressionante perceber, por meio dessa premissa e do modo com que ela é tratada, o quanto a saga “Harry Potter” evoluiu: De aventuras infanto-juvenis investigativas, a série passou para uma contundente e eficiente alegoria sobre os excessos perniciosos do poder e da autocracia, mais próximo dos formidáveis “V de Vingança” e “1984 de Orwell” que de “Scooby-Doo”. Essa impressão é reforçada pelo evidente e notável amadurecimento do elenco, sobretudo, os protagonistas, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson que cresceram literalmente em frente às câmeras.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Para o quarto filme de saga, o diretor do ótimo trabalho anterior, Alfonso Cuarón, recusou a oferta para retornar à direção. Foi chamado então o realizador Mike Newell, de “Quatro Casamentos e Um Funeral” –o primeiro inglês, por sinal, a assumir o comando da saga –o quê proporcionou aos filmes da série uma chance do público experimentar as obras que se sucediam acrescidas das sensibilidades particulares de diferentes cineastas. Chris Columbus deu aos dois primeiros um viés envolvente de aventura juvenil; Cuarón agregou ao terceiro valores cinematográficos e artísticos mais sólidos; enquanto que Newell, valendo-se da ampla experiência nos distintos gêneros que trabalhou, contribuiu com o bombástico humor inglês ao que a saga tinha de comédia, e uma refinada depuração entre o drama e o suspense para o que ela tinha de tragédia.
O resultado é que “O Cálice de Fogo” disputa, com qualquer um dos outros títulos, o posto de melhor filme de toda a saga.
No quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter já não é mais tão perplexo ao mundo mágico que o cerca. Suas inseguranças são agora angústias inerentes a um adolescente quase normal, que tem a peculiaridade de viver num ambiente regido por magia. Toda Hogwarts se encontra, nesse ano, em polvorosa: A escola será sede de um Torneio Tribruxo –onde Hogwarts e duas outras escolas de magia disputarão a almejada Taça dos Campeões.
Tais campeões serão selecionados pelo poderoso Cálice de Fogo cuja magia impede bruxos menores de dezessete anos de participar. Ou seja, Harry, Rony e Hermione –do alto de seus catorze anos –não podem competir. Contudo, no dia em que os competidores são anunciados, junto do nome dos usuais representantes de cada escola –Viktor Krum (Stanislav Ianevski) a representar o Instituto Durmstrang; Fleur Delacour (Clémence Poésy, de “127 Horas”) representando a Academia de Magia Beauxbatons; e Cedrico Diggory (Robert Pattinson, revelado aqui antes da “Saga Crepúsculo”) como representante de Hogwarts –o Cálice de Fogo cospe também o nome de Harry Potter (!).
Ele é aceito como competidor já que, segundo as regras do Torneio Tribruxo, os desígnios do Cálice de Fogo são onipotentes –o que significa que, na qualidade de perdedor certo, Harry terá alunos de magia mais velhos como adversários, em provas perigosas que podem perfeitamente lhe representar perigo mortal.
Ciente de que tem material de sobra para trabalhar –o livro que é aqui adaptado é um dos mais ricos e extensos de toda série –o diretor Mike Newell é admiravelmente criterioso na seleção dos momentos vultuosos e intensos que são aproveitados: Apenas aqueles que levam a história a avançar. O que sobra em “O Cálice de Fogo” é a aventura mais perfeitamente ajustada, até aqui, nas idas e vindas aflitivas de seu protagonista, absolutamente afiada nos meandros que conduzem, sem que fique claro até o instante fatídico, ao acontecimento divisor de águas para com toda a saga –é aqui, em “O Cálice de Fogo” que testemunhamos o retorno tão alardeado de Lorde Voldemort em toda sua ameaça; e ao interpretá-lo, na intensa cena do cemitério, Ralph Fiennes entrega um dos mais hipnóticos vilões dos últimos tempos, numa atuação raivosa e eletrizante que consegue fazer jus a toda preparação para sua chegada feita pelos filmes anteriores.
Por tudo isso, “Harry Potter e O Cálice de Fogo” marca uma contundente transformação na saga: A partir daqui, nada no mundo de Harry Potter será como antes –e trazer como clímax a primeira e verdadeiramente dolorosa morte de um personagem é só uma faceta dessa constatação –isso é inclusive sentido pelos próprios protagonistas na agridoce e reflexiva cena final, um sutil indício de tudo que está por vir nos excelentes filmes vindouros.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban

O anúncio do afastamento do diretor Chris Columbus em meio aos preparativos para este terceiro filme da saga pegou muitos de surpresa –ainda que ele tenha permanecido próximo como produtor.
Corria o boato de que Columbus dava brecha para que fosse assim contratado Steven Spielberg, que antes do lançamento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal” já manifestava sua intenção de dirigir a produção (e americanizar o material). Os produtores, no entanto, foram sensatos optando por uma escolha inusitada que revelou-se certeira: O magistral e premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón, até então conhecido apenas pelos prodigiosos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também” –ao adaptar aquele que muitos consideravam o melhor livro de toda a saga, Cuaron estabeleceu um diálogo autoral com suas duas belíssimas obras pregressas; do primeiro, ele extrai um enternecedor senso de fábula, uma paleta de cores sedutora (com predominância do elegante verde-musgo) e uma audaz capacidade de conjurar os elementos infantis oriundos dos filmes anteriores com uma aura transgressiva, sombria e que jamais subestima seu público; do segundo, ele aproveita o retrato honesto, orgânico e incomum dos humores inconstantes da juventude, obtendo do jovem elenco suas melhores interpretações até então.
De quebra, sua habilidade cinematográfica molda uma cena memorável atrás da outra. A começar por aquela que abre o filme, como sempre, com Harry às voltas com a tirania doméstica de seus tios –mais até: Desta vez, uma intratável irmã de tio Vernon que Harry, sem querer, transforma em balão (!). Essa cena já deixa bem claro que Harry Potter está crescendo: Ele já não se mostra tão passivo e intimidado quanto outrora e ensaia até uma espécie de fuga de casa, indo parar num tal hotel ‘Caldeirão Furado’.
É lá, antes mesmo de ir para Hogwarts, que Harry descobre que um prisioneiro escapou de Askaban, a famosa prisão dos bruxos –trata-se de Sirius Black (o sempre sensacional Gary Oldman) considerado o traidor que entregou seus pais ao próprio Voldemort. Por conta disso, muitos são os que acreditam que o alvo de Sirius, agora, é o próprio Harry Potter, o quê leva Dumblodore a requisitar para a Escola de Magia e seus alunos a ambígua proteção dos Dementadores –criaturas sobrenaturais capazes de sugar a energia, a felicidade e a vida das pessoas e que em sua periculosidade não distinguem aqueles que deveriam defender dos que deveriam atacar.
Entre outras sacadas geniais da parte de Cuarón enquanto contador de histórias –e nos inúmeros detalhes que ele consegue acrescentar em relação ao livro –algo que pode passar despercebido aos expectadores mais jovens é o quanto foi inspirada a escalação do ótimo Gary Oldman para viver Sirius Black –Oldman vinha de uma série de filmes (sobretudo, nos anos 1990) em que havia se popularizado em Hollywood como um dos mais assíduos vilões do cinema comercial, em obras como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Força Aérea Um” (estereótipo ao qual, pelo menos até aquele período, ele parecia estar restrito). Os rumos presentes na trama de “O Prisioneiro de Askaban” terminam por subverter completamente essa expectativa, mas apenas porque o ator escolhido conduz o público a essa surpresa.
Por falar em atores, “O Prisioneiro de Askaban” marca a estréia de Michael Gambon no papel de Dumblodore, em substituição ao falecido Richard Harris –um trabalho tão acertado e digno que pode passar despercebido dos expectadores que não tiverem essa informação.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Harry Potter e A Câmara Secreta

Se o segundo filme de saga é, com frequência, apontado por público e crítica como um dos mais desinteressantes da série, ele é também um dos que mais cresce numa revisão.
O primeiro dos filmes a experimentar a consequência notável de como a série registrou, entre outras coisas, o efeito do tempo sobre seu elenco jovem –o ano que separa este de “A Pedra Filosofal” já é perceptível no amadurecimento das crianças –“A Câmara Secreta” dá início ao processo no qual a narrativa lúdica na história de Harry Potter agrega mais e mais elementos sombrios e, por que não, adultos, à sua trama, embora se note que Chris Columbus não pareça muito à vontade com esse teor do material. Ainda assim, ele realiza um belo trabalho valendo-se de diversas cenas (sobretudo de enquadramentos nos diálogos) onde procura empregar de um desigual prologamento de tempo, muito parecido com o usado por Peter Jackson um ano antes em “OSenhor dos Anéis-A Sociedade do Anel”.
Ávido por iniciar seu segundo ano escolar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry amarga uma angústia ocasionada pelas últimas férias –durante todo o verão, não recebeu uma única carta de seus amigos, Rony e Hermione. Esse é um dos mistérios –dentre os muitos que aqui se somam –que logo ganha uma explicação: Doby, um elfo doméstico dotado de poderes mágicos (e concebido por meio de um primoroso processo de computação gráfica) cismou que Harry não deve, de forma alguma voltar para Hogwarts, caso contrário, coisas terríveis acontecerão.
Assim, Doby dá o estopim a muitas confusões que definem “A Câmara Secreta”: Deixa Harry em maus lençóis com seus tios, o que lhe acarreta um castigo, trancado dentro de seu quarto; em seu resgate vem Rony e seus irmãos que, à bordo de um carro voador, o levam na calada da noite. É Doby também que frustra os planos de Harry e Rony em pegar o Expresso Para Hogwarts –obrigando os dois a lançar mão, mais uma vez, do carro voador –numa das sequências mais sensacionais do filme.
Finalmente na escola, Harry, a medida que o tempo desse segundo ano passa, eventualmente descobre as razões dos temores do elfo: Uma pixação numa das paredes do lugar evidencia a ameaça –“A câmara secreta foi aberta... inimigos do herdeiro, preparem-se!”
Na esteira desse mistério, personagens começam a aparecer petrificados (primeiro a gata do zelador Filty, depois alguns dos alunos), indicando que um terrível monstro –até então preso na tal câmara –está agora à solta em Hogwarts.
Além disso, Harry descobre que seu poder de comunicar-se com cobras (como foi visto numa das primeiras cenas de “A Pedra Filosofal”) não é algo comum aos bruxos; na verdade, é uma particularidade atribuída quase exclusivamente ao tenebroso Lorde Voldemort.
Todos esses fatores têm o mérito de parecer aleatórios num primeiro momento, mas vão se unindo aos poucos, como pontas soltas numa bem elaborada e detalhada costura.
Seguindo uma fórmula similar ao do filme anterior –fato que incomoda, inclusive, porque a direção de Columbus se revela bastante exaurida em muitos momentos –este segundo filme deixa enfatizado, acima de tudo, que Hogwarts não é um local tão seguro quanto se presumia; tudo o mais que ele poderia fazer, deixa em aberto para os filmes vindouros, estes sim, responsáveis por iniciar a trama propriamente dita do embate das forças do bem contra o mal.
“Harry Potter e A Câmara Secreta” marca também a despedida do saudoso Richard Harris no papel de Alvo Dumblodore, personagem que, neste filme, ele fez questão de interpretar até o fim, em algumas cenas, necessitando de aparelhos para se manter em pé e respirando –nada disso se percebe em cena, claro, resultado da competência da equipe técnica e da brilhante tenacidade desse grande ator.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Harry Potter e A Pedra Filosofal

Um fenômeno literário, a série “Harry Potter” conseguiu o feito de repetir tal fenômeno ao ser vertido para cinema, graças à excelência de sua realização (que materializou com propriedade as inúmeras facetas do mundo mágico imaginado pela escritora J.K. Rowling), ao carisma de seu elenco escolhido com perfeição, e ao talento de seus distintos diretores que se alternaram nos filmes que se seguiram.
Para o primeiro deles, “A Pedra Filosofal” a escolha dos produtores recaiu sobre o americano Chris Columbus.
Um diretor essencialmente comercial, acostumado a moldar sucessos obtidos em parcerias (roteirizou para Steven Spielberg “Os Gremlins”, “Os Goonies” e “O Enigma da Pirâmide” e dirigiu “Esqueceram de Mim”, produzido por John Hugues) ou individualmente (“Uma Noite de Aventuras” e “Uma Babá Quase Perfeita”), Columbus fez o que poderia, afinal, dele se esperar: Narrou com noção criteriosa de ritmo (e auxiliado de maneira inestimável pela trilha sonora de John Williams) a história do jovem Harry (Daniel Radcliffe, ótima escolha), orfão inglês maltratado desde sempre pelos tios Vernon e Petûnia (Richard Griffiths e Fiona Shaw, ela de “Meu Pé Esquerdo”) e pelo mimado primo Duda (Harry Melling) com quem morou a vida toda.
No entanto, nas vésperas do décimo primeiro aniversário de Harry, coisas estranhas começam a acontecer: Corujas sobrevoam sua casa trazendo cartas que seu tio se esforça em esconder dele. Além disso, um mirabolante incidente no zoológico com uma cobra deixa Harry intrigado.
Quando o gigante Hagrid (Robbie Coltrane) apresenta-se a ele, Harry descobre a verdade: Que ele é um bruxo, parte de um mundo que vive oculto através de várias regras dos olhos de pessoas normais –e os meios pelos quais esse mundo se esconde é um dos aspectos fascinantes vistos neste primeiro filme.
Harry, na realidade, é uma celebridade no mundo bruxo: Há muitos anos, na noite fatídica em que perdeu o pai e a mãe, ele, ainda bebê, deu cabo, de alguma forma, do famoso e maldoso bruxo Voldemort (o grande vilão da saga) ganhando a cicatriz em forma de raio que tem na testa –e se tornando orfão no processo.
Com seus onze anos completos, é hora, portanto, de Harry ingressar na conceituada Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts: E assim, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” se ocupa de definir algumas características do mundo mágico, mostrar algumas regras que devem serem seguidas (ou não) conforme testemunhamos o emprego da magia recém-descoberta pelo protagonista e apresentar os demais personagens (todos numerosos) que participarão da trama –alguns, de suma importância, aparecem neste capítulo inaugural em uma única cena como é o caso da Sra, Weasley (Julie Walters).
Este primeiro filme gira em torno de um trama, que ganha até mesmo ares secundários, a respeito da mítica pedra filosofal –cuja importância só começa a ser trabalhada de fato quase a partir da sua metade –e de sua possível capacidade de trazer Voldemort de volta à vida, entretanto, o que parece contar de fato para a narrativa é a moldura onde todos os elementos do mundo da bruxaria (ou, ao menos, da Escola de Bruxaria) são evidenciados em ricos detalhes, sobretudo, da radiante introdução de personagens como Rony Weasley (Rupert Grint, fantástico), Hermione Granger (a maravilhosa Emma Watson), o diretor Alvo Dumblodore (Richard Harris), os professores Minerva (Maggie Smith) e Severo Snape (Alan Rickman, fabuloso) e tantos outros.
Embora desfrute de imodestos cento e cinquenta e dois minutos de duração, “Harry Potter e A Pedra Filosofal” é, no frigir dos ovos, um prólogo, um história de tom deliberadamente infantil que apresenta com transparência e puerícia esse complexo contexto dentro do qual os filmes seguintes irão se passar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

É O Fim


Eis uma comédia que, pode-se dizer, leva o absurdo de sua premissa às últimas consequências.
Numa simulação de realidade que frequentemente serve à seus propósitos cômicos, o comediante (e, aqui, tanto ator como diretor) Seth Rogen interpreta a si mesmo.
Ou seja, ele é um ator famoso –e já no início indagado do porque interpreta sempre o mesmo personagem –à espera de um amigo no aeroporto de L.A.
Esse amigo vem a ser jay Baruchel –que contracenou com Rogen em “Ligeiramente Grávidos” e faz parte, de fato, de seu círculo de amizades –e eles se reencontram depois de um longo tempo. Jay, embora também ator, é um pouco avesso ao modo de vida predominante na Califórnia. Seus planos são passar o tempo com seu amigo –e nisso o filme não tem pudores em suscitar todos os maneirismos de comédias sentimentais sobre amigos e parceiros; o quê Seth Rogen (que divide a direção com Evan Goldberg) parece prezar muito em sua filmografia.
Os planos de Jay, contudo, são frustrados: Seth não tarda a carregá-lo para uma festa promovida pelo astro James Franco em sua nova mansão. E, lá, não é somente James Franco que aparece interpretando uma versão impiedosamente caricatural e hedonista de si próprio: Vemos também a cantora Rihanna, os atores Jason Segel, Emma Watson e Michael Cera (numa versão terrivelmente irresponsável, inconsequente e promíscua do que supostamente seria o comportamento de um ator famoso), e os essenciais ao filme, Jonah Hill e Craig Robinson –todos, sem sombra de dúvidas, saídos do grupo de confiança de Rogen.
Até então, “É O Fim” não aparenta ser mais que uma comédia esquisita e um pouco ousada que flerta com as impressões da fama. Entretanto, ao acompanhar a decisão de Jay em ir a uma loja de conveniência junto de Seth, o filme entregará sua assombrosa guinada: Após um desastroso terremoto, raios azuis irrompem o céu (!) e capturam pessoas específicas entre a população. Uns são assim misteriosamente levados, outros ficam para ver a destruição que se segue por fogo e desmoronamento.
Na casa de Franco, contudo, ninguém percebeu o ocorrido (!!).
Após convencê-los –numa situação na qual a narrativa enfatiza o rídiculo da questão –alguns dos famosos citados até morrem (!) despencando num enorme buraco flamejante (nessa cena, temos também a aparição breve de Paul Rudd, o “Homem-Formiga”).
Rogen, Baruchel, Franco, Hill e Robinson têm a ideia de ficar na mansão de Franco, sobrevivendo com a água e a comida que há lá –isso até descobrirem que junto com eles está também o espaçoso e inconveniente (e, com frequência, o mais engraçado do filme) Danny McBride.
Forçados ao convívio, todos esses personagens, dotados do pouco de sensatez que têm, procuram racionalizar a situação: Ao que parece o Apocalypse Bíblico ocorreu, com o arrebatamento das almas boas e tudo o mais, e à eles, atores famosos, só restou experimentar o inferno na Terra (!).
O roteiro (do próprio Rogen) especula os desdobramentos realistas dessa situação certamente nada realista, embora explicíta a partir da definição da crença de muitas pessoas –e ainda que de certo o filme não almeje controvérsia na abordagem indireta da religião, ele sem dúvidas não a evita.
A verdade é que, em sua galhofa incontrolável, não dá para levar “É O Fim” muito à sério.
Mesmo nos momentos em que se pretende tenso, por exemplo, o filme conduz deliberadamente ao riso; um riso nervoso é bem verdade, mas riso ainda assim.
Uma mescla de comédia adolescente e debochada, referências improváveis, improvisão encorajada e solta e uma certa coragem inconsequente, este trabaho é, como outros assinados por Rogen, um exemplo do estilo muito peculir e significativo de um autor em meio à mesmice da comédia norte-americana.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

As Vantagens de Ser Invisível

“Aceitamos o tipo de amor que pensamos merecer.”
Stephen Chbosky lançou-se como diretor com esta bela adaptação, sensível e emotiva de seu próprio best-seller, o que confere ao resultado não somente fidelidade garantida ao material original como também uma compreensão intrínseca das motivações dos personagens –o quê vem a ser fundamental, num filme que reflete uma análise cheia de sentimento da faixa etária na qual John Hugues era um dos especialistas.
Em meados dos anos 1980, o jovem e ligeiramente desajustado Charlie (Logan Lehrmann) inicia um novo ano como calouro na escola, sob a angustiante perspectiva da ausência de seu melhor amigo, falecido no verão anterior. Entre as rejeições e desilusões características da idade e das circunstâncias, ele acaba fazendo amizade com um casal de irmãos extrovertidos e fora dos padrões, o rapaz Patrick (Ezra Miller) lidando com o fato de ser homossexual assumido num ambiente que não aceitava esse comportamento; e a garota Sam (Emma Watson), indo e vindo de péssimos relacionamentos, sem conseguir encontrar um rumo para sua vida.
Charlie se apaixona por Sam, mas o amor, a despeito de tudo, pode comprometer os laços de amizade que os unem.
Eficaz e nostálgica, esta obra despretensiosa conquista o expectador com sua transparência sentimental, sua bela simplicidade e com um elenco juvenil cujos talentos foram empregados com coerência e austeridade: Logan Lehrmann, a despeito da participação em obras lamentáveis como “Percy Jackson e O Ladrão de Raios” é bastante adequado ao protagonista desamparado e normal; Ezra Miller (magnífico em “Precisamos Falar Sobre O Kevin”) é um dos grandes talentos jovens da atualidade; já a encantadora Emma Watson (tentando novos caminhos que a afastem da personagem pela qual é tão lembrada, a Hermione de "Harry Potter") é, sem dúvida, um dos grandes destaques do filme.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sete Dias Com Marilyn

“O primeiro amor é um doce desespero...”
Certamente, não haveria de ser fácil capturar, mesmo que na fugacidade da tela de cinema, o fascínio provocado por Marilyn Monroe, na ausência dela própria que partiu de nosso mundo e descansa em paz desde 1962.
Os produtores deste sensível trabalho –inspirado num fragmento real da vida de Marilyn –foram imensamente felizes ao confiar no talento da jovem Michelle Willians que, embora na vida real não se pareça de forma alguma com a estrela, conseguiu, em cena, captar todos os sesu trejeitos, a sua exuberância e uma característica geralmente indefinível que a acompanha, e que responde por grande parte do charme deste projeto.
Em 1957, com apenas 23 anos, o jovem inglês Colin Clark (Eddie Redmayne, administrando adequadamente o acanhamento e a impetuosidade do personagem) consegue um emprego como diretor assistente na produtora de Lawrence Olivier (Kenneth Brannagh) às vésperas das filmagens de "O Príncipe e A Corista" que trazia dos EUA a estrela americana Marilyn Monroe (Willians).
Em meio às filmagens, marcadas pela conturbada personalidade da atriz, o jovem torna-se seu amigo e confidente, e por ela se apaixona.
É deveras impressionante ver a composição de Michelle Willians como uma Marilyn Monroe avoada, complicada, carente e problemática –e no final das contas, apaixonante. Felizmente, porém, o filme não é só dela. Brilhante também está Kenneth Brannagh, magistral como um Lawrence Olivier comprometido com sua arte, perplexo pelas complicações de sua estrela e, no fim, profundamente inspirado por ela mesma.
“Eu tentei mudá-la, mas ela continuou brilhante, apesar de mim.”
Um filme sobre as aspirações e inspirações da arte, sobre os sempre saborosos bastidores do cinema e suas divertidas histórias ocultas, e sobre o desabrochar de novas experiências que, quase sempre confluem em emoções poderosas –que o diga o jovem Colin que, pelo menos durante um curto período de tempo teve, em seus braços, uma deusa como Marilyn Monroe.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

The Bling Ring - A Gangue de Hollywood

Embora visto de modo geral (e não sem alguma razão) como um trabalho menor na notável filmografia de Sofia Coppola, este “Bling Ring” indica um pertinente acentuamento na sua busca por um olhar de descobertas íntimas dirigidas aos seus personagens tão cercados por luxo, e tão isolados do mundo (ou daquilo que eles almejam obter do mundo) por essas mesmas circunstâncias.
Nesta história, jovens adolescentes da classe média californiana expressam seu fascínio pelas celebridades milionárias que transitam pela mesma cidade em que moram visitando furtivamente suas casas e roubando pequenos objetos pessoais. Aos poucos, a empolgação gerada pelos atos ilícitos, e a sensação ilusória de que isso as aproxima de seus ídolos, os levam a intensificar essa vida de crimes. Baseado num fato real amplamente reportado pela mídia, a diretora Sofia Coppola realiza o mesmo estudo lúdico e desigual sobre as incongruências da juventude moderna que ela faz desde sua estréia em "As Virgens Suicidas". Desta vez, ressaltando a desconcertante ausência de uma noção de certo e errado à qual tais condições podem conduzir. A ressonância moral que ela busca relega até mesmo o único nome famoso do elenco (Emma Watson, da série "Harry Potter") a um inesperado papel coadjuvante.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Noé

Descendentes dos filhos de Matusalém (Anthony Hopkins), Noé (Russel Crowe) e sua família singran por um mundo vasto e assolado pelas hordas de Tubal-Caim (Ray Winstone), orgulhoso descendente de Caim, o filho de Adão.
Preocupado com as possibilidades nefastas das visões que tem tido, Noé procura pelas sábias instruções de Matusalém, e descobre que o Criador pretende varrer a terra –e, por conseqüência, os erros da humanidade –com um dilúvio previstos para os anos vindouros.
O papel de Noé e sua família seria de construir uma arca que viesse a abrigar um casal de cada ser animal da criação.
Mas, Tubal-Caim não deseja aceitar com tanta irrestrição os desígnios do Senhor, e quer que seu povo esteja em peso dentro daquela arca quando o dilúvio chegar.
Autor de um poema, ainda durante sua vida escolar, sobre o episódio bíblico de Noé, o diretor Daren Aronofski conseguiu dar corpo e propósito a este projeto especialmente pessoal, onde ele lança ênfases bastante particulares a muitas passagens do conhecido com que, transfiguradas pelas justaposições e pela própria concepção de Aronofsky, ganham um novo viés, que certamente foi responsável por algumas controvérsias que rondaram o projeto.
“Noé” fala sobre sensos de responsabilidade, bem como da pérfida condição humana diante da inexistência absolutas deles; sobre obsessões auto-justificadas pela devoção (aliás, um temo especialmente caro em todo o cinema de Aronofsky); sobre as transformações que o homem inflige ao mundo, e que o mundo inflige ao homem.
São questionamentos, estes, sempre presentes em “Cisne Negro”, “Pi”, “Fonte da Vida”, filmes de Darren Aronofsky cuja diferenciação atroz de tema e ambientação só não desconcerta mais que a percepção catártica de que, em seu cerne, eles dizem uma coisa só.
 Russel Crowe mostra por que é um dos grandes astros de hoje; Jennifer Connelly brilha depois de tanto tempo sem fazer um filme bom de verdade; e Emma Watson começava a provar que há muito mais ali do que Hermione Granger.
Quando parecia que Aronofsky estava conduzindo o filme primorosamente para seu final, ele estava tão somente trilhando um caminho inesperado para torná-lo ainda melhor!

Um trabalho que divide opiniões, não há dúvida, mas cujo engajamento de seu audaz e arrojado realizador o impede de ser uma obra passível de ser ignorada.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - A Quarta e Última Parte


Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 1
   O início do fim. Talvez por razões mercadológicas, talvez na intenção de preservar a integridade da obra (ou talvez por ambas as razões), o último livro foi dividido em dois filmes, sob o pretexto de todas as revelações contidas na obra serem mantidas, sem a necessidade de resumos ou abreviações. Esse mesmo pretexto foi adotado, mais tarde, em outras sagas como “Jogos Vorazes” e no já citado “Crepúsculo”, com resultados bastante díspares. A verdade é que, pelo menos nesta primeira parte, o recurso foi bastante interessante, possibilitando que passagens inteiras (e muito reveladoras) do livro ficassem intactas.
   No sétimo ano (em que completa sua maioridade), o jovem Harry Potter toma a decisão de percorrer o mundo em busca das horcruxes; objetos descobertos no filme anterior, e que são os fragmentos extraviados da alma do perverso Voldemort, portanto, a única maneira de matá-lo. A decisão de Harry vem numa hora crucial, já que o Ministério da Magia é tomado pelos Comensais da Morte, que impõem uma perseguição mortal aos trouxas, e Hogwars, a até então segura Escola de Magia, é controlada pelo agora diretor Severo Snape (o grande Alan Rickman), o frio assassino de Alvo Dumbledore.
   Junto de Harry, estão seus amigos Ron Weasley e Hermione Granger, as únicas companhias que Harry terá nessa angustiante cruzada.

Harry Potter e As Relíquias da Morte-Parte 2
   E foi assim que David Yates –o diretor mais longevo a lidar com a saga “Harry Potter” –chegou a este oitavo filme, o quarto sob sua direção.
   A divisão do livro derradeiro em dois filmes, que funcionou tão bem no filme anterior, não se revela tão harmônica neste último, sobretudo porque eles insistiram (mesmo adaptando somente os 40 % finais do livro) em resumir à uma montagem rápida, quase videoclipe, o grande momento do filme (a história de Severo Snape), enquanto deram mais espaço à segmentos mais desnecessários, como a batalha final propriamente dita, cheia de inserções novas que estendem a trama sem razão.
   Essas decisões tiraram a possibilidade de concretizar um filme perfeito no sentido de adaptação, mas Yates ainda sim realizou um trabalho magnífico (e que continua espetacular, anos depois, especialmente em comparação com as sagas juvenis que o precederam).
   Neste capítulo final faltam relativamente poucas horcruxes para Harry, Ron e Hermione reunirem. Muitos sacrifícios já foram realizados. Outros tantos estão por vir. E os itens que restam certamente serão encontrados na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, local onde agora os Comensais da Morte se apinham, orientados pelo soturno Severo Snape.
   O retorno a Hogwarts fará, portanto, Harry Potter confrontar seu maior inimigo que assassinou seus pais e lhe relegou o pesado destino de "salvador", assim como o próprio Severo Snape e o grande segredo que ele guardou durante toda a saga.

terça-feira, 12 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Terceira Parte


Harry Potter e A Ordem da Fênix
   Uma nova troca de diretores. Desta vez, os produtores tiveram relativa sorte ao encontrar David Yates (até então um diretor televisivo, mas de insuspeita qualidade, com obras como “Intrigas de Estado” e “The Girl In The Café”), que demonstrou não apenas um nível de sensibilidade e qualidade artísticas na mesma proporção dos talentosos realizadores anteriores, mas também se enamorou de tal forma com o material oriundo dos livros de J.K. Rowling que terminou sendo o seu diretor oficial até o fim da série.
   Neste capítulo, descobrimos que, infelizmente, Harry Potter foi a única testemunha do retorno de Voldemort visto no filme anterior. É por isso que ao iniciar seu quinto ano na escola de Hogwarts, Harry é recebido com certa descrença. Pior que isso, agora com as constantes mudanças políticas, quem assume a diretoria da escola é uma mulher repressora, a ardilosa Dolores Umbridge (a sensacional Imelda Stanton), que tira a liberdade dos alunos.
   Para obter a verdade, e poder se preparar contra o mal que se aproxima, o próprio Harry cria um grupo revolucionário chamado Armada de Dumbledore (inspirado pelo gesto de seus pais e Sirius Black que, no passado, compuseram a Ordem da Fênix), e passa a treinar magia escondido com outros alunos, começando o que poderia vir a ser uma revolução.


Harry Potter e O Enigma do Príncipe
   David Yates retoma à direção neste sexto filme, mas ao contrário de Columbus que, lá no início, demonstrou desgaste e cansaço já em sua segunda produção, Yates mostra fôlego redobrado neste extraordinário episódio: Seu refinamento narrativo –já evidente no trabalho anterior, onde ele adotou inesperadas referências, como “V de Vingança”, para uma série do porte de “Harry Potter” –é ainda mais aprimorado aqui, onde ele emprega uma encenação sofisticada, em perfeita sintonia com o trabalho exemplar do diretor de fotografia Bruno Delbonnel.

   No seu sexto ano como aluno na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter testemunha a tensão constante que paira no ar em função do medo despertado pelo onipresente Lord Voldemort e seus Comensais da Morte. Paralelamente, Harry e seus amigos, Ronny e Hermione, vivem as agruras dos primeiros amores da adolescência, principalmente quando Harry começa a perceber que está se enamorando de Gina, a irmã de seu melhor amigo. Entretanto, todos esses acontecimentos podem se interromper se Harry não cumprir uma certa missão da qual foi incumbido por Dumblodore: Obter as memórias do novo professor de Poções (o ótimo Jim Broadbent), memórias estas que estão diretamente relacionadas a Voldemort, e que escondem um horripilante segredo.