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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tróia


 Em 2004, a superprodução “Tróia” – ou “Troy”, no original – era uma promessa e tanto nos cinemas: Um épico dirigido pelo tarimbado Wolfgang Petersen (diretor alemão que trazia em seu currículo o elogiado “O Barco-Inferno No Mar” e a fantasia “História Sem Fim”), roteirizado por David Benioff (roteirista do lastimável “X-Men-Origens-Wolverine” e da aclamada série "Game of Thrones"), adaptando o poema “A Ilíada”, de Homero, e que ostentava um elenco com nomes como Brad Pitt, Eric Bana, Peter O’Toole, Julie Christie, Orlando Bloom (então em alta com a Trilogia “O Senhor dos Anéis”), Brian Cox, Garrett Hedlund e muitos outros.

Todavia, ao aportar nos cinemas, a empolgação rapidamente foi substituída por um certo descaso: A direção de Petersen era burocrática, desanimada, indicativa de uma carreira que logo chegaria ao seu crepúsculo (depois de “Tróia”, ele só lançou “Poseidon”, de 2006, em Hollywood, e a comédia “Vier Gegen Die Bank”, de 2016, em sua Alemanha natal, até falecer em 2022) e o roteiro (que pretendia-se realista) omitia a intervenção das divindades da mitologia grega nos acontecimentos, preservando elementos pouco palatáveis nos personagens protagonistas que foram mantidos – um dos grandes lapsos em “Tróia” é que, num elenco numeroso e adornado de estrelas de cinema, quase ninguém traz um personagem bem desenvolvido ou uma atuação capaz de se sobressair ao todo – com muita boa vontade, talvez, somente à exceção de Eric Bana...

Uma pena, uma vez que “Tróia” era (ou deveria ser) uma obra onde as ações servem de consequências aos vícios e às virtudes humanas.

1184 A.C. Grécia Antiga. Em Esparta, o Rei Menelau (Brendan Gleeson) recebe os príncipes de Tróia, os irmãos Hector (Eric Bana) e Paris (Orlando Bloom), de índoles distintas – enquanto que Hector, o mais velho, carrega consigo a austeridade como herança de seu reinado e de suas responsabilidades, o mais jovem, Paris, é um jovem mimado e imaturo, cujo semblante de agradável beleza lhe permite colecionar conquistas amorosas.

Será uma dessas conquistas o estopim para uma celeuma sem precedentes: A Rainha Helena, tida como a mulher mais linda do mundo (vivida pela convincente e radiante Diane Kruger) e esposa de Menelau, encanta-se por Paris, tornando-se seu amante e pondo em prática o plano de fugir junto dele para Tróia.

Afrontado, Menelau convoca seu irmão, Agamenon (Brian Cox), um convencido senhor da guerra e, juntando forças, decidem arremessar seus exércitos para cima das defesas de Tróia. A confiança de Agamenon, contudo, tem lá sua razão de ser: Entre suas fileiras está o imbatível guerreiro Aquiles (Brad Pitt, exalando soberba), segundo dizem, abençoado pelos deuses para ser invencível no campo de batalha.

Munido de milhares de outros soldados – entre eles, o estrategista Odisseu (Sean Bean, aqui chamado de Ulisses) e o primo de Aquiles, Pátroclo (Garrett Hedlund, de “Inside Llewyn Davis-Balada de Um HomemComum”) – as forças de Menelau e Agamenon rumam mar adentro em direção à Tróia, governada pelo Rei Príamo (Peter O’Toole), disposto a proteger seus filhos e seu povo das hostilidades iminentes.

Condensada numa obra de profundas intenções comerciais (na qual nota-se com nitidez a predisposição em enfatizar as cenas de batalhas em detrimento de qualquer enredo), esta versão pasteurizada de “A Ilíada” negligencia o potencial de seus personagens – Aquiles, Agamenon, Paris e Menelau surgem reduzidos à estereótipos apáticos, como arrogante, intolerante, mimado e obsequioso, respectivamente – não fornecendo ao expectador um protagonista válido e digno ao qual ancorar seu investimento emocional.

Esse detalhe um tanto prejudicial torna irrelevante alguns dos predicados positivos da produção como a execução caprichada de suas sequências épicas (ainda mais impressionantes hoje, em que o cinema já não entrega tanto empenho na confecção de efeitos práticos, e superproduções em geral padecem de seriedade e dramaturgia) e a beleza física de seu elenco jovem paulatinamente explorada – além de Orlando, Diane, Eric e Brad há também Rose Byrne (no papel de Briseis) e Saffron Burrows (Andrómaca, esposa de Hector).

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Harry Potter e O Prisioneiro de Askaban

O anúncio do afastamento do diretor Chris Columbus em meio aos preparativos para este terceiro filme da saga pegou muitos de surpresa –ainda que ele tenha permanecido próximo como produtor.
Corria o boato de que Columbus dava brecha para que fosse assim contratado Steven Spielberg, que antes do lançamento de “Harry Potter e A Pedra Filosofal” já manifestava sua intenção de dirigir a produção (e americanizar o material). Os produtores, no entanto, foram sensatos optando por uma escolha inusitada que revelou-se certeira: O magistral e premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón, até então conhecido apenas pelos prodigiosos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também” –ao adaptar aquele que muitos consideravam o melhor livro de toda a saga, Cuaron estabeleceu um diálogo autoral com suas duas belíssimas obras pregressas; do primeiro, ele extrai um enternecedor senso de fábula, uma paleta de cores sedutora (com predominância do elegante verde-musgo) e uma audaz capacidade de conjurar os elementos infantis oriundos dos filmes anteriores com uma aura transgressiva, sombria e que jamais subestima seu público; do segundo, ele aproveita o retrato honesto, orgânico e incomum dos humores inconstantes da juventude, obtendo do jovem elenco suas melhores interpretações até então.
De quebra, sua habilidade cinematográfica molda uma cena memorável atrás da outra. A começar por aquela que abre o filme, como sempre, com Harry às voltas com a tirania doméstica de seus tios –mais até: Desta vez, uma intratável irmã de tio Vernon que Harry, sem querer, transforma em balão (!). Essa cena já deixa bem claro que Harry Potter está crescendo: Ele já não se mostra tão passivo e intimidado quanto outrora e ensaia até uma espécie de fuga de casa, indo parar num tal hotel ‘Caldeirão Furado’.
É lá, antes mesmo de ir para Hogwarts, que Harry descobre que um prisioneiro escapou de Askaban, a famosa prisão dos bruxos –trata-se de Sirius Black (o sempre sensacional Gary Oldman) considerado o traidor que entregou seus pais ao próprio Voldemort. Por conta disso, muitos são os que acreditam que o alvo de Sirius, agora, é o próprio Harry Potter, o quê leva Dumblodore a requisitar para a Escola de Magia e seus alunos a ambígua proteção dos Dementadores –criaturas sobrenaturais capazes de sugar a energia, a felicidade e a vida das pessoas e que em sua periculosidade não distinguem aqueles que deveriam defender dos que deveriam atacar.
Entre outras sacadas geniais da parte de Cuarón enquanto contador de histórias –e nos inúmeros detalhes que ele consegue acrescentar em relação ao livro –algo que pode passar despercebido aos expectadores mais jovens é o quanto foi inspirada a escalação do ótimo Gary Oldman para viver Sirius Black –Oldman vinha de uma série de filmes (sobretudo, nos anos 1990) em que havia se popularizado em Hollywood como um dos mais assíduos vilões do cinema comercial, em obras como “O Profissional”, “O Quinto Elemento” e “Força Aérea Um” (estereótipo ao qual, pelo menos até aquele período, ele parecia estar restrito). Os rumos presentes na trama de “O Prisioneiro de Askaban” terminam por subverter completamente essa expectativa, mas apenas porque o ator escolhido conduz o público a essa surpresa.
Por falar em atores, “O Prisioneiro de Askaban” marca a estréia de Michael Gambon no papel de Dumblodore, em substituição ao falecido Richard Harris –um trabalho tão acertado e digno que pode passar despercebido dos expectadores que não tiverem essa informação.

sábado, 1 de setembro de 2018

Os Vencedores do Oscar 1966


Um dos últimos musicais produzidos pelos estúdios do período sagrou-se vencedor na cerimônia de 1966 –e um dos mais clássicos, também: “A Noviça Rebelde”, que além de tudo deu um novo prêmio ao seu diretor Robert Wise (que já havia vencido por “Amor, Sublime, Amor”).
Havia uma primorosa inquietação de gênero entre alguns daqueles premiados como o vencedor de Melhor Ator (para Lee Marvin) que não se acomodava no rótulo de comédia, faroeste ou musical –o formidável “Dívida de Sangue” era um pouco de tudo isso. Também havia um pouco de transgressão (e muito de elegância) no filme que deu o Oscar de Melhor Atriz para a maravilhosa Julie Christie, “Darling-A Que Amou Demais” –que marcava presença também no esplêndido “Doutor Jivago”, outro premiado da noite.
Era curioso notar que, naqueles anos, a Academia prestava homenagem às obras que eram, em si, os trabalhos estertores de gêneros que perdiam velozmente o apelo de público como o musical, o faroeste, o épico romântico.
Havia um dilema corroendo as inclinações do Oscar entre enaltecer o que sempre foi enaltecido (um cinema que os novos tempos deixavam para trás) e reconhecer o valor de implacáveis novidades que estavam chegando, na forma de filmes de qualidade insuspeita e de atrevimento até então inconcebível.

MELHOR FILME
"A Noviça Rebelde"

MELHOR DIREÇÃO
"A Noviça Rebelde", Robert Wise

MELHOR ATRIZ
Julie Christie, "Darling-A Que Amou Demais"

MELHOR ATOR
Lee Marvin, "Dívida de Sangue"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Shelley Winters, "Quando Só O Coração Vê"

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Martin Balsam, "Mil Palhaços"

MELHOR FOTOGRAFIA P&B
"A Nau dos Insensatos"

MELHOR FOTOGRAFIA CORES
"Doutor Jivago"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"A Pequena Loja da Rua Principal" (Tchecoslováquia)

MELHORES EFEITOS ESPECIAIS

MELHORES EFEITOS SONOROS
"A Corrida do Século"

MELHOR FIGURINO P&B
"Darling-A Que Amou Demais"

MELHOR FIGURINO CORES
"Doutor Jivago"

MELHOR SOM
"A Noviça Rebelde"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE P&B
"A Nau dos Insensatos"

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE CORES
"Doutor Jivago"

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL
“Doutor Jivago"

MELHOR TRILHA SONORA ADAPTADA
"A Noviça Rebelde"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"The Shadow Of Your Smile", de "Adeus Às Ilusões"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Darling-A Que Amou Demais"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Doutor Jivago"

MELHOR MONTAGEM
"A Noviça Rebelde"

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Em Busca da Terra do Nunca

A despeito da irregularidade que demonstrou ao longo da carreira, o diretor Marc Foster, quando acertava entregava obras muito boas. Depõe a seu favor o contundente “A Última Ceia” e, em especial, este inebriante “Em Busca da Terra do Nunca”.
Ele conta a história real de James Barry (Johnny Depp, uma escolha notável) e sua relação com a jovem viúva Sylvia Llewelyn Davies (vivida por Kate Winslet) e seus quatro filhos pequenos na Inglaterra do século XVIII: George (Nick Roud), Jack (Joe Prospero), o caçula Michael (Luke Spill) e o amargurado Peter (o surpreendente Freddie Highmore).
Barry enxerga no desamparo afetivo dessa família um desalento que reflete a agonia de seu próprio casamento com Mary (Radha Mitchell), então entrando numa crise irreversível. Junto deles, encontra assim uma jovialidade e uma satisfação que lhe reacendem sua capacidade criativa, cujo bloqueio começava então a ser cobrado por seu produtor (Dustin Hoffman), sequioso de um novo e rentável trabalho: A última obra de Barry não havia tido lá muito boas críticas.
Contudo, o que surge a partir dali será, em tudo e por tudo, especial –Teatrólogo, Barry vale-se das experiências lúdicas e sentimentais vividas ao lado daquela família para criar e elaborar os elementos com os quais irá compor uma obra imortal sobre a infância e a imaginação: o clássico “Peter Pan”.
A meia hora final, na qual assistimos cheios de expectativa a primeira e mágica apresentação de “Peter Pan” para uma platéia maravilhada e boquiaberta, está entre as cenas mais cativantes e encantadoras do cinema.
Longe da intenção restritiva de fazer exatamente uma biografia, este belíssimo trabalho prefere se enveredar pelos meandros ora lúdicos, ora reais através dos quais se constrói uma obra-prima, imerso em inevitável emoção, em parte graças à brilhante atuação de Johnny Depp, que no papel de James Barry encara um dos mais difíceis trabalhos de sua carreira, e dele extrai uma emoção única e insuspeita.

“É o crocodilo tic-tac, não? O tempo persegue a todos nós!”

Simplesmente fantástico.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Geração Proteus

Não tão famoso quanto merecia ser, “Geração Proteus” é um dos mais formidáveis trabalhos de ficção científica dos anos 1970. Tratado com inusitada e requintada seriedade pelo diretor Donald Cammell (co-diretor de “Performance” ao lado de Nicolas Roeg) a partir do livro de Dean Koontz, este conto claustrofóbico de suspense, futurismo e filosofia se inicia a partir da criação de Proteus 4, um computador projetado para ser um salto além na criação de inteligência artificial.
Tão prodigioso Proteus se revela (com a voz do ator Robert Vaughn) que sua inteligência não apenas leva à cálculos instantâneos para a solução de diversos problemas mundiais, como também desperta nele –para surpresa de seu criador do Dr. Alex Harris (Fritz Weaver) –questionamentos acerca da ética com que os humanos vão proceder na execução das tarefas que ele viabiliza.
Sua insurreição contra seus controladores será inevitável.
A outra extremidade fundamental dessa narrativa é a personagem da sensacional Julie Christie, Susan, a bela esposa do Dr. Harris –prestes, à propósito, a virar ex-esposa: A saída do Dr. Harris de sua casa futurista toda automatizada é iminente!
As duas extremidades se juntam, constituindo o todo que a narrativa assumirá até o fim, quando Proteus assume o controle de toda a casa automatizada, tornando Susan sua prisioneira. O plano de Proteus é usá-la para gerar um filho seu, uma fusão orgânica entre o organismo humano e o cérebro computadorizado, e para tanto, ele se vale das circunstâncias (com o marido deliberadamente ausente não há ninguém que dará pela falta dela) e sua todos os recursos vastos e robotizados da casa para coagi-la.
Em seu desespero, Susan tenta de tudo –inclusive contatar um amigo do mesmo laboratório do marido, Walter (Gerrit Graham), para em vão tentar ajudá-la –até que a tenacidade e a irredutibilidade de Proteus a fazem, pouco a pouco, ceder.
A partir dessa premissa aparentemente sensacionalista –um computador que, em sua vilania, deseja possuir uma mulher –o filme se constrói de forma elegante, envolvente, precursora (a manipulação genética ainda soava como algo mirabolante na década de 1970) e admirável em termos técnicos e artísticos.
Certamente, seu grande trunfo é Julie Christie que, além da beleza vívida e arrebatadora, oferece uma composição cuidadosa, inteligente e empática para uma personagem cheia de armadilhas que, nas mãos de uma intérprete menos capaz, poderia reduzir o filme à uma obra menor. Devido à época em que foi realizado acaba sendo inevitável à “Geração Proteus” recorrer à mais perene dentre todas as referências da ficção científica de todos os tempos: “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Stanley Kubrick.
Essa influência surge na personificação de Proteus IV –não muito diferente de HAL 9000, inclusive com o funcional recurso de ser representado por uma indiferente e desumanizada luz vermelha –e também, em cenas algo psicodélicas que se intensificam no trecho final, lembrando muito a grande seqüência de imponderabilidade da obra de Kubrick.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Doutor Jivago

O branco da neve predomina em cena, já indicando opressivamente a geografia gélida do lugar, a Rússia de meados do Século XIX. Embora inóspito, o ambiente suscita imediato deslumbre graças à habilidade da direção de fotografia  e, sobretudo, a atmosfera criada pela embriagante trilha sonora de Maurice Jarre, conhecida mundialmente como “Tema de Lara”. Logo, sabemos então de qual filme se trata este. E que nenhum outro podia ser senão o mais romântico dentre todos os irretocáveis épicos concebidos pelo grande David Lean.
Trata-se do inesquecível e, por vezes, inigualável “Doutor Jivago”.
Dono de uma capacidade ímpar para conduzir narrativas de orientação clássica, Lean nos guia pelos altos e baixos das emoções vividas por seu protagonista: Orfão, o médico e poeta russo Yuri Zhivago (e não Jivago, como no título nacional), interpretado com excelência por Omar Sharif, casa-se com a filha do casal que o educou, a aristocrata Tonya Gromeko (Geraldine Chaplin), mas realmente se apaixona e se envolve mais tarde com a enfermeira Lara (a inebriante Julie Christie). Ela, ex-esposa de um barão da classe elitista russa (Rod Steiger), casa-se quase que por conveniência com um nome importante da Resistência (Tom Courtenay) durante a Revolta dos Bolcheviques.
Durante os anos que se transcorrem então, Lara e Zhivago jamais param de sonhar em se reencontrar, embora muitos dos mais importantes acontecimentos históricos europeus, entre eles a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, se sucedam para interpor-se entre eles e a consumação de seu amor.
A história (transposta com fina excelência do livro de Boris Pasternak) é relatada à Yevgraf Zhivago, um oficial russo (o grande Alec Guinness, como Sharif, uma presença constante nas obras-primas de Lean) e também meio-irmão de Yuri Zhivago, por uma jovem enfermeira que, no fim das contas, pode ser a filha de Lara e Zhivago, pela qual Yevgraf tem buscado.
Como nos grandes trabalhos de Lean em particular, e as grandes obras do cinema em geral, o mundo, em “Doutor Jivago” e suas transformações sociais e políticos nos mais práticos níveis serve muitas vezes de empecilho à transcendência espiritual e sentimental do ser humano, cujo sacrifício de valores e ideais muito pessoais será o preço que ele pagará em prol das mudanças que será capaz de infligir.
Nada mais, nada menos que uma aula de cinema.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Inverno de Sangue Em Veneza

Nas mãos de um realizador mais acomodado, a trama de “Inverno de Sangue Em Veneza” em sua simplicidade quase brutal, não renderia mais que um curta-metragem. Isso porque seu roteiro captura praticamente a essência de um conto de terror: Aquele momento em que a banalidade dos dias que se seguem é corrompida por um instante do mais absoluto pavor, comprometendo assim, tudo o que faremos depois.
Nas mãos de alguém como Nicolas Roeg, essa premissa serve –como em todos os títulos de sua desigual filmografia, mas sobretudo os primeiros –para uma sondagem até indiscreta das modificações que as escolhas do ser humano infligem em seu bem-estar, e o dos outros à sua volta.
A beleza plástica de Veneza (tão mais bela quando capturada pelas imagens gélidas, oníricas e sugestivas obtidas por Roeg que, vale lembrar, era diretor de fotografia) parece ser o lugar perfeito para John (Donald Sutherland) e Laura Baxter (Julie Christie, belíssima numa audaciosa cena de nudez e sexo com Sutherland) encontrarem um momento de alívio após o luto opressor pela morte acidental da filha. Indícios sinistros, contudo, não deixarão que a passagem do casal pela cidade seja tranqüila.
Na visão sempre desigual de Roeg (e que ele levou a vários outros projetos nos quais passeou pelos mais variados gêneros) os detalhes corriqueiros do dia a dia conjugam um cenário rico em que o horror pode instalar-se e ocultar-se, espreitando a vida de pessoas normais com a perene ameaça de uma tragédia em curso. Esse clima absolutamente impecável do qual a direção se vale responde pela grande razão desta obra constar entre os grandes filmes de terror já produzidos. OK, há outra razão: O susto, repentino e genuíno, que ele prega no expectador na cena fatídica do encontro com o suposto “fantasma” da garotinha.
Como em seus outros filmes também, há em Roeg uma necessidade patológica e filosófica em remover o sentido da jornada de seu protagonista, arremessando suas certezas e esperanças contra as ironias maldosas do mundo real.

Aqui, esta postura é, por demais, amedrontadora!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Segunda Parte


Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban
   A saída de Chris Columbus exigiu evidentes mudanças na saga, e a primeira delas foi um intervalo de tempo maior entre o segundo e este novo filme; provavelmente para uma melhor aclimatação no novo diretor, o talentoso Alfonso Cuarón (então conhecido por duas pérolas, os ótimos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também”).
   Essa notícia deixou os fãs da série eufóricos. Não foi à toa: Empregando seu talento desigual, seu lirismo e seu estilo infinitamente mais hábil do que o genérico Columbus, Cuáron concebeu o melhor filme da série.
   A evolução, não apenas no crescimento natural do elenco infantil, ficou evidente neste filme que agregava valores cinematográficos à narrativa, aprimorando os eventos relatados e levando Harry Potter, bem como seu fiel público, à outros e inesperados níveis. À sua maneira, Cuáron capturou em filme a essência do fascínio despertado pelos livros.
   Prestes a iniciar seu terceiro ano em Hogwarts, Harry Potter descobre que está ameaçado: O perigoso Sirius Black (o fantástico Gary Oldman), acusado de traição, e considerado um dos responsáveis pelos eventos que levaram os pais de Harry à morte, escapou da prisão de Askaban (uma espécie de penitenciária para bruxos), onde estivera nos últimos 13 anos. Assim sendo, a escola de Hogwarts passa a ser vigiada pelos perigosos Dementadores (guardas fantasmagóricos que roubam a energia dos vivos). Além disso, Harry tem que descobrir por que tem visões de um cão sinistro, por qual razão os Dementadores o afetam tanto, e quais são os segredos de seu novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas: O misterioso, ainda que amigável, Remo Lupin (David Thewlis, um dos muitos e magistrais atores britânicos a integrar o elenco dos filmes).
   Este terceiro filme também marcou a entrada do grande Michael Gambon no elenco, substituindo o magnífico Richard Harris no papel de Dumbledore (que infelizmente veio a falecer logo após as filmagens do filme anterior).


Harry Potter e O Cálice de Fogo
   No filme anterior, Alfonso Cuaron havia estabelecido um patamar de qualidade técnica e artística muito maior que as duas obras inaugurais. Como o talentoso mexicano não aceitou voltar para a direção do quarto filme (que adaptaria o que alguns fãs consideram o melhor livro), os produtores recorreram a uma escolha ao mesmo tempo audaciosa e refinada: Mike Newell, realizador inglês do indicado ao Oscar “Quatro Casamentos e Um Funeral”.
   O humor britânico de Newell, aliado à sua ampla experiência como artesão cinematográfico, foram muito apropriados para este quarto filme, igualando assim o deleite do ótimo produto anterior.
   Na trama esboçada aqui, Harry inicia seu quarto ano na escola após as reviravoltas do ano anterior. Há uma euforia geral do ar em função de um torneio tribruxo envolvendo outras três escolas de magia e bruxaria de outros cantos do mundo. Misteriosamente, o onipotente cálice de fogo seleciona Harry Potter para representar Hogwarts durante o árduo torneio. Mas nada é o que parece ser, e Harry verá que o perigo está muito mais próximo do que todos supõem, na forma do eminente retorno daquele que todos temem: Lorde Voldemort.
  Várias coisas notáveis se sucedem neste capítulo: A primeira morte realmente brutal de um personagem (no caso, Cedrico Digori, interpretado por Robert Pattinson, que viria a se tornar astro com a infame série “Crepúsculo”), ressaltando o tom cada vez mais sombrio e amadurecido da história, e a introdução de inúmeros personagens importantes para o futuro da saga, sobretudo a assustadora e admirável inclusão de Ralph Fiennes, como Voldemort (o quê o coloca, talvez, como o segundo melhor intérprete de toda a saga, atrás somente do fenomenal Alan Rickman como Severo Snape), além da chegada de elementos que deixam, em definitivo, a infância dos personagens para trás, como as primeiras experiências amorosas.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Hamlet

“Ser ou não ser... eis a questão.” O protagonista existencialista de “Hamlet” questionava até mesmo o ato de existir. Não era a toa que sua vida dava espaço para o desiludido questionamento: Seu pai faleceu, e em apenas um mês, seu tio terminou desposando sua mãe, o que levou Hamlet a ser visitado pelo fantasma de seu pai, que lhe convocava para representá-lo em sua vingança.
Assim se constrói uma das peças de Shakespeare mais famosas de todos os tempos, traduzida e preservada na integridade de suas quase intransponíveis quatro horas de duração pelo ator e diretor Kenneth Brannagh. Como é um ator, Brannagh enfatiza seu elenco monumental através da narrativa, fornecendo a eles planos longos, à vezes intermináveis, onde podem declamar o bardo na íntegra, e também dá prioridade ao texto, o que termina evidenciando sua verborragia.
É um trabalho perigosamente disperso, no qual o expectador desavisado corre o risco de ser esmagado por uma narrativa de teor, tamanho e envergadura tão exuberantes, raramente vista no atual circuito comercial.

  Fiel à sua formação de origem (o teatro), Brannagh realizou um grande filme, ainda que bastante difícil e denso, honrando seu elenco majestoso (e composto por inúmeros colaboradores) e a verve do autor, cuja genialidade ele dedicou boa parte de sua filmografia a ressaltar: William Shakespeare.