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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tróia


 Em 2004, a superprodução “Tróia” – ou “Troy”, no original – era uma promessa e tanto nos cinemas: Um épico dirigido pelo tarimbado Wolfgang Petersen (diretor alemão que trazia em seu currículo o elogiado “O Barco-Inferno No Mar” e a fantasia “História Sem Fim”), roteirizado por David Benioff (roteirista do lastimável “X-Men-Origens-Wolverine” e da aclamada série "Game of Thrones"), adaptando o poema “A Ilíada”, de Homero, e que ostentava um elenco com nomes como Brad Pitt, Eric Bana, Peter O’Toole, Julie Christie, Orlando Bloom (então em alta com a Trilogia “O Senhor dos Anéis”), Brian Cox, Garrett Hedlund e muitos outros.

Todavia, ao aportar nos cinemas, a empolgação rapidamente foi substituída por um certo descaso: A direção de Petersen era burocrática, desanimada, indicativa de uma carreira que logo chegaria ao seu crepúsculo (depois de “Tróia”, ele só lançou “Poseidon”, de 2006, em Hollywood, e a comédia “Vier Gegen Die Bank”, de 2016, em sua Alemanha natal, até falecer em 2022) e o roteiro (que pretendia-se realista) omitia a intervenção das divindades da mitologia grega nos acontecimentos, preservando elementos pouco palatáveis nos personagens protagonistas que foram mantidos – um dos grandes lapsos em “Tróia” é que, num elenco numeroso e adornado de estrelas de cinema, quase ninguém traz um personagem bem desenvolvido ou uma atuação capaz de se sobressair ao todo – com muita boa vontade, talvez, somente à exceção de Eric Bana...

Uma pena, uma vez que “Tróia” era (ou deveria ser) uma obra onde as ações servem de consequências aos vícios e às virtudes humanas.

1184 A.C. Grécia Antiga. Em Esparta, o Rei Menelau (Brendan Gleeson) recebe os príncipes de Tróia, os irmãos Hector (Eric Bana) e Paris (Orlando Bloom), de índoles distintas – enquanto que Hector, o mais velho, carrega consigo a austeridade como herança de seu reinado e de suas responsabilidades, o mais jovem, Paris, é um jovem mimado e imaturo, cujo semblante de agradável beleza lhe permite colecionar conquistas amorosas.

Será uma dessas conquistas o estopim para uma celeuma sem precedentes: A Rainha Helena, tida como a mulher mais linda do mundo (vivida pela convincente e radiante Diane Kruger) e esposa de Menelau, encanta-se por Paris, tornando-se seu amante e pondo em prática o plano de fugir junto dele para Tróia.

Afrontado, Menelau convoca seu irmão, Agamenon (Brian Cox), um convencido senhor da guerra e, juntando forças, decidem arremessar seus exércitos para cima das defesas de Tróia. A confiança de Agamenon, contudo, tem lá sua razão de ser: Entre suas fileiras está o imbatível guerreiro Aquiles (Brad Pitt, exalando soberba), segundo dizem, abençoado pelos deuses para ser invencível no campo de batalha.

Munido de milhares de outros soldados – entre eles, o estrategista Odisseu (Sean Bean, aqui chamado de Ulisses) e o primo de Aquiles, Pátroclo (Garrett Hedlund, de “Inside Llewyn Davis-Balada de Um HomemComum”) – as forças de Menelau e Agamenon rumam mar adentro em direção à Tróia, governada pelo Rei Príamo (Peter O’Toole), disposto a proteger seus filhos e seu povo das hostilidades iminentes.

Condensada numa obra de profundas intenções comerciais (na qual nota-se com nitidez a predisposição em enfatizar as cenas de batalhas em detrimento de qualquer enredo), esta versão pasteurizada de “A Ilíada” negligencia o potencial de seus personagens – Aquiles, Agamenon, Paris e Menelau surgem reduzidos à estereótipos apáticos, como arrogante, intolerante, mimado e obsequioso, respectivamente – não fornecendo ao expectador um protagonista válido e digno ao qual ancorar seu investimento emocional.

Esse detalhe um tanto prejudicial torna irrelevante alguns dos predicados positivos da produção como a execução caprichada de suas sequências épicas (ainda mais impressionantes hoje, em que o cinema já não entrega tanto empenho na confecção de efeitos práticos, e superproduções em geral padecem de seriedade e dramaturgia) e a beleza física de seu elenco jovem paulatinamente explorada – além de Orlando, Diane, Eric e Brad há também Rose Byrne (no papel de Briseis) e Saffron Burrows (Andrómaca, esposa de Hector).

sexta-feira, 26 de abril de 2024

A História Sem Fim


 Durante os anos 1970, houve uma série de movimentos cinematográficos que evocaram em grande medida um sentimento na sociedade da época, onde uma descrença, um cinismo, uma recusa à credulidade e à ingenuidade apontava para a percepção de uma realidade dura, bruta e cruel. Não se tratava somente da Nova Hollywood, com suas obras autorais e desafiadoras (embora elas sejam, sim, poderosamente exemplares), mas de toda uma miríade de produções da época –questionava-se as noções de sociedade e de relacionamentos por meio de filmes sexualmente audaciosos (“O Último Tango Em Paris” e “O Império dos Sentidos”); expiava-se traumas históricos e políticos contundentes (“O Franco-Atirador”), a desilusão era ilustrada em uma série de imagens poderosas (“Cinzas No Paraíso”, “Meu Ódio Será A Sua Herança” e “Apocalypse Now”).

Essa vertente prosseguiu nos anos 1980, encontrando vez ou outra, uma obra que se posicionava contra essa tendência subconsciente –foi, portanto, nessa década que as coisas começaram a mudar. Surgiram realizadores, como Steven Spielberg e George Lucas, que tomaram para si a responsabilidade de fazer representativo um novo cinema, um cinema que falasse às aspirações insondáveis do ser humano, que desse asas à sua mais tresloucada imaginação. Muitos foram os filmes que deram corpo, nos anos 1980, a esse propósito, mas, em 1984, surgiu um filme que, à sua maneira, representava, qualificava e arrematava toda essa discussão na alegoria de seu enredo. Esse filme era “A História Sem Fim”.

Não faltaram filmes de inapelável pessimismo no ano de 1984 –nesse período foram lançadas as lúgubres ficções “O Exterminador do Futuro” e “1984 de Orwell”; o árido e dramático “Paris, Texas”; o irônico, inquietante e arrebatador “Amadeus”; o amargo e reflexivo “Era Uma Vez Na América” e tantos outros. E foi nesse período também que, num reflexo da desilusão recorrente da década anterior, o Movimento Punk ganhou mais expressão na música e nas artes, trazendo uma juventude que, farta e desesperada de tanta subversão, optava por uma implosão de valores por meio da anarquia.

De uma certa maneira, um pouco de tudo isso pode ser trazido para a reflexão proposta em “A História Sem Fim” que, na época, muitos poucos compreenderam, preferindo enxergá-lo como aquilo que em princípio ele parecia, um simples filme infantil. Quando a trama começa, somos apresentados ao dia-a-dia melancólico do menino Bastian (o pequeno Barret Oliver) cuja mãe morreu (!) e cujo pai atarefado, pragmático e incapaz de lidar com os sentimentos de luto do filho, o deixa só na maior parte do tempo. Bastian sofre bullying na mão de outros garotos valentões na escola e, diante dessa situação, só lhe resta buscar refúgio num sotão escolar e nas páginas de um livro que um senhor bibliotecário lhe emprestou, um livro intitulado “Never Ending Story” –ou A História Sem Fim.

Bastian mergulha assim na leitura, descortinando para o público a história dentro da história que haverá de se revelar no filme: Num mundo chamado ele próprio de Fantasia, um conselho de criaturas diversas debate um perigo incalculável que se aproxima, denominado tão somente de O Nada, um mal que simplesmente encerra a existência de tudo aquilo que alcança. Esse conselho escolhe um herói para partir numa imponderável jornada rumo a uma improvável chance de salvação, o garoto indígena Atreyu (Noah Hathaway) que, em princípio, não faz a menor ideia de por onde começar.

Nessa curiosa jornada –acompanhado de perto pelo atencioso leitor Bastian –Atreyu vivencia diversas situações diferentes e que permitem interpretações de significados opostos em adultos ou crianças. Quando, por exemplo, Atreyu se defronta com o Lobo Gmork, um lacaio do próprio Nada –e que surge num sinistro diálogo oculto numa penumbra que só possibilita enxergar seus olhos ameaçadores –a cena remete, às crianças, ao personagem tipicamente mau de “Os Três Porquinhos” ou “Chapeuzinho Vermelho”, mas os adultos notarão, no diálogo que se segue, que o Lobo é, em si, uma ilustração do fascismo –“Assuste-os e você será capaz de controlá-los!” –há também a sequência em que Atreyu e seu cavalo Artax atravessam o Pântano da Tristeza, um lugar que identifica os sentimentos sombrios no indivíduo e por meio deles o leva a afundar em suas águas lamacentas, numa poderosa alegoria da depressão.

A medida que a trama avança, e elementos de metalinguagem e quebra da quarta parede, cruciais para o desfecho, começam a interferir na leitura de Bastian, “A História Sem Fim” permite compreender que seu enredo é sobre as opressoras facetas da realidade (a perda, o luto, a coibição dos sentimentos) e de como podem elas serem confrontadas com as possibilidades libertadoras da fantasia e da imaginação.

Genial também no aproveitamento criterioso e seletivo da premissa do livro de Michael Ende em que se baseia, este filme dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen (sendo os próprios realizadores alemães especialistas em capturar o aspecto tangível e visual da desilusão) é um clássico infantil dos anos 1980 que pede por uma revisão a fim de que seja (re)descoberta sua fascinante metáfora sobre a oposição entre as trevas de um cinismo inerente à realidade e a luz de um gênero fantástico que aflorava em obras de bem-intencionado apelo escapista.