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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Harry Potter e O Cálice de Fogo

Para o quarto filme de saga, o diretor do ótimo trabalho anterior, Alfonso Cuarón, recusou a oferta para retornar à direção. Foi chamado então o realizador Mike Newell, de “Quatro Casamentos e Um Funeral” –o primeiro inglês, por sinal, a assumir o comando da saga –o quê proporcionou aos filmes da série uma chance do público experimentar as obras que se sucediam acrescidas das sensibilidades particulares de diferentes cineastas. Chris Columbus deu aos dois primeiros um viés envolvente de aventura juvenil; Cuarón agregou ao terceiro valores cinematográficos e artísticos mais sólidos; enquanto que Newell, valendo-se da ampla experiência nos distintos gêneros que trabalhou, contribuiu com o bombástico humor inglês ao que a saga tinha de comédia, e uma refinada depuração entre o drama e o suspense para o que ela tinha de tragédia.
O resultado é que “O Cálice de Fogo” disputa, com qualquer um dos outros títulos, o posto de melhor filme de toda a saga.
No quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry Potter já não é mais tão perplexo ao mundo mágico que o cerca. Suas inseguranças são agora angústias inerentes a um adolescente quase normal, que tem a peculiaridade de viver num ambiente regido por magia. Toda Hogwarts se encontra, nesse ano, em polvorosa: A escola será sede de um Torneio Tribruxo –onde Hogwarts e duas outras escolas de magia disputarão a almejada Taça dos Campeões.
Tais campeões serão selecionados pelo poderoso Cálice de Fogo cuja magia impede bruxos menores de dezessete anos de participar. Ou seja, Harry, Rony e Hermione –do alto de seus catorze anos –não podem competir. Contudo, no dia em que os competidores são anunciados, junto do nome dos usuais representantes de cada escola –Viktor Krum (Stanislav Ianevski) a representar o Instituto Durmstrang; Fleur Delacour (Clémence Poésy, de “127 Horas”) representando a Academia de Magia Beauxbatons; e Cedrico Diggory (Robert Pattinson, revelado aqui antes da “Saga Crepúsculo”) como representante de Hogwarts –o Cálice de Fogo cospe também o nome de Harry Potter (!).
Ele é aceito como competidor já que, segundo as regras do Torneio Tribruxo, os desígnios do Cálice de Fogo são onipotentes –o que significa que, na qualidade de perdedor certo, Harry terá alunos de magia mais velhos como adversários, em provas perigosas que podem perfeitamente lhe representar perigo mortal.
Ciente de que tem material de sobra para trabalhar –o livro que é aqui adaptado é um dos mais ricos e extensos de toda série –o diretor Mike Newell é admiravelmente criterioso na seleção dos momentos vultuosos e intensos que são aproveitados: Apenas aqueles que levam a história a avançar. O que sobra em “O Cálice de Fogo” é a aventura mais perfeitamente ajustada, até aqui, nas idas e vindas aflitivas de seu protagonista, absolutamente afiada nos meandros que conduzem, sem que fique claro até o instante fatídico, ao acontecimento divisor de águas para com toda a saga –é aqui, em “O Cálice de Fogo” que testemunhamos o retorno tão alardeado de Lorde Voldemort em toda sua ameaça; e ao interpretá-lo, na intensa cena do cemitério, Ralph Fiennes entrega um dos mais hipnóticos vilões dos últimos tempos, numa atuação raivosa e eletrizante que consegue fazer jus a toda preparação para sua chegada feita pelos filmes anteriores.
Por tudo isso, “Harry Potter e O Cálice de Fogo” marca uma contundente transformação na saga: A partir daqui, nada no mundo de Harry Potter será como antes –e trazer como clímax a primeira e verdadeiramente dolorosa morte de um personagem é só uma faceta dessa constatação –isso é inclusive sentido pelos próprios protagonistas na agridoce e reflexiva cena final, um sutil indício de tudo que está por vir nos excelentes filmes vindouros.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O Império do Sol


Steven Spielberg inspirou-se nas memórias e nas peripécias experimentadas pelo escritor James G. Ballard (autor do livro que inspirou “Crash-Estranhos Prazeres”, de David Cronenberg) quando criança, durante a Segunda Guerra Mundial, para compor uma de suas primeiras e mais contundentes incursões no cinema sério no que tange à tentativa de criar uma obra relevante no panorama cinematográfico comercial, longe das fantasias a que era associado.
E Spielberg o faz com fôlego invejável: Cada cena traz um virtuosismo de fotografia (a cargo do competente Allen Daviau), ou um truque visual que incrementa a condução dramática –de certo modo, como se o ainda jovem Spielberg estivesse pisando em ovos ao adentrar o terreno inédito da dramaturgia adulta (dois anos antes ele havia feito sua primeira experiência nesse sentido, “A Cor Púrpura”).
Apesar disso, “Império do Sol” trazia muitas de suas características como realizador: Um protagonista infantil (Christian Bale, algumas décadas antes de virar Batman); um fascínio pueril e irreprimível por elementos específicos relacionados à guerra (no caso, os espetaculares aviões de combate) e não necessariamente ao combate em si; e uma figura paterna central, ainda que distante e nada afetuosa (no personagem vivido por John Malkovich).
1941. Na cidade de Shangai, com a invasão japonesa à porta e o ataque à Pearl Harbor –mesmo que ninguém ainda soubesse –na berlinda, a família aristocrática do garoto inglês Jamie (Bale) vive entre os abastados ingleses que integravam a elite do lugar.
Nesse princípio, quando os indícios da guerra e da ocupação são esboçados aos poucos, o diretor Spielberg salienta a ironia da circunstância com um rigor absurdista na cena em que os aristocratas seguem em seus carros rumo a uma festa à fantasia, trajados em disfarces coloridos e espalhafatosos, enquanto a turbulência cresce progressivamente nas ruas.
Quando por fim a invasão se concretiza, os pais de Jamie protelaram tempo demais sua partida: Eles se vêem no caos das ruas, o que leva Jamie a perder-se deles.
Perdido nas ruas de Shangai, faminto e desamparado a ponto de quase tornar-se um mendigo, ele é encontrado por um matreiro sobrevivente norte-americano, Basie (Malkovich). Em companhia do qual acaba indo parar num campo de concentração montado pelos japoneses.
Lá, ao longo de quatro anos, Jamie sobrevive valendo-se de esperteza e trocas constantes, bem como de combinações sucessivas –como o acordo para mudar-se do Dormitório Inglês (onde ficam conhecidos indiferentes como a mulher interpretada por Miranda Richardson) para o Dormitório Americano (onde está Basie), junto dos rapazes que planejam uma fuga (entre eles, Ben Stiller e Joe Pantoliano, ainda jovens) desde que consiga colocar armadilhas para faisões nas cercas sem que os soldados notem.
Tão brilhante na concepção de cenas coletivas como nas de vibração mais íntima, a direção de Spielberg, assim como o roteiro detalhista de Tom Stoppard, parece enfatizar, nesse trecho, uma espécie de materialismo compulsivo, dando atenção às negociações constantes do pequeno protagonista (as aquisições frequentes de variados itens, como o sapato de jogar golfe) enquanto deixa os eventos mais tensos, e históricos referentes à guerra quase como pano de fundo, sem, no entanto, abrir mão de uma irreprimível tristeza que permeia toda essa trajetória.
Em algum momento, após os bombardeios americanos deixarem bem claro para a moral japonesa os rumos que a guerra tomou, os prisioneiros do campo de concentração são abandonados e seguem sem rumo. Ao lado de uma moribunda Sra. Victor (a personagem de Miranda), Jamie fica em um estádio olímpico usado para estocar mobília confiscada e testemunha ao longe os efeitos longínquos da bomba atômica –ainda que inicialmente ele acredite ser uma manifestação da alma da Sra. Victor que havia acabado de morrer.
Após acompanhar seu pequeno herói numa verdadeira saga de sofrimento, encarceramento e sobrevivência, Spielberg o reúne novamente com seus pais, quando ele já nem mais se recordava do rosto deles; efeito que ele consegue produzir no expectador também devido às feições pouco marcantes dos atores escolhidos.
Neste grande trabalho de Spielberg, ainda que infectado por um certo superficialismo, fica bastante patente, a despeito das emoções nem sempre eficazes, que Jamie sobreviveu graças ao espírito incansavelmente sonhador que sempre alimentou –esse, sim, um tópico ao qual Spielberg jamais deixou de enfatizar em sua carreira.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Moça Com Brinco de Pérola


Discussão a um só tempo interessante e superficial sobre os meandros mesmerizantes da arte, “Moça Com Brinco de Pérola”, em sua relevância artística, corresponde àquela conversa ocasional que se tem com um amigo no balcão de um café: Nos argumentos dispostos pode até haver pretensões de inteligência e de um senso de observação de fato, mas pela simples falta de seriedade dedicada, nada mais é do que passatempo.
No século retrasado no auge de seu reconhecimento artístico o metódico pintor holandês Veemer (Colin Firth, numa caracterização algo cabotina) contrata como criada uma jovem de origem humilde. Logo identifica nela uma beleza incomum e uma presença quase que magnética. Intrigado, ele a acolhe como sua assistente particular em seu atelier e passa a usá-la como modelo dando início a uma complexa relação de amor e atração platônicos, que não passam despercebidos aos olhos perplexos e magoados de sua mulher (Miranda Richardson).
Essa relação originará o quadro que é tido como a obra-prima de Veemer, "A Moça Com Brinco de Pérola", conhecido como a "Mona Lisa" holandesa.
A despeito do detalhe indisfarçável de que o par central não possui muita química –e nesse sentido, os rumos austeros e realistas tomados pela trama acabam sendo apropriados –este filme romântico de enorme beleza visual conduzido pelo diretor Peter Webber (que depois realizaria o também satisfatória “Hannibal-A Origem do Mal”) conta com a inebriante beleza de Scarlett Johansonn (no mesmo ano em que foi revelada no fabuloso “Encontros e Desencontros”), perfeita no enigmático e importante papel da criada Grete.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Revolução Em Dagenham


Lançado em 2010, este filme pode ser visto como uma contra-parte inglesa de “Histórias Cruzadas”, lançado em 2012. Em comum, ambos têm protagonistas femininas tão maravilhosas quanto cativantes, centrais em um trama que, embora tratada com leveza e emoção, trata de desafios muito reais contra injustiças tremendamente revoltantes.
De sua parte, “Revolução Em Dagenham” até vem brindado com a excelência habitual do impecável elenco inglês –onde, vez ou outra, identificamos um figurante da Saga “Harry Potter” –embora, “Histórias Cruzadas” tivesse reunido um elenco feminino estelar e talentoso que pouquíssimas produções em todo o cinema tiveram sorte em fazê-lo. Também o diretor de “Histórias Cruzadas”, Tate Taylor, demonstra habilidade e empolgação com o material que dirige em níveis raros à obras comerciais, aqui, o diretor Nigel Cole (de “Garotas do Calendário”) tem empenho evidente embora seja evidente também ocasionais escorregadelas de ritmo e tom, bastante comuns em produções de escopo um pouco mais amplo.
A intenção inicial parecia ser conceber uma narrativa que girasse em torno de três distintas protagonistas. São elas: Rita (Sally Hawkis), que aos poucos assume a iniciativa de um protesto sem precedentes, onde ela e suas colegas realizam uma greve de funcionárias em plena década de 1960, pelo direito de ganharem salários iguais aos homens.
Lisa (Rosamund Pike), a ex-universitária inteligente, linda, porém frustrada, casada com um dos executivos ingleses da subsidiária da Ford –a empresa da qual as grevistas exigem seus direitos –na Inglaterra.
E Barbara Castle (Miranda Richardson), a Ministra do Emprego no Parlamento Inglês e membro do Partido Trabalhista, dividida entre a lealdade real e válida às proletariadas e as pressões, abastecidas de politicagem e interesses econômicos, de seus superiores.
Entretanto, não demora nada para que a narrativa vá relegando Lisa e Barbara à presenças coadjuvantes na trama e acabe centralizando Rita; em parte, porque Sally Hawkins é genial, em parte, porque é impossível, ao roteiro e à direção, negar a importância e a atenção que as personagens das costureiras grevistas merecem.
E esse zelo é o grande mérito desta realização: A forma profundamente respeitosa, rica em meandros humanos que unem um sutil humor a um bem administrado drama (algo no qual os ingleses são hábeis) com a qual eles relatam o envolvimento de Rita na questão; primeiro, ela participa de uma reunião até corriqueira, ao lado do amigável sindicalista Albert (a quem o grande Bob Hoskin empresta toda sua autoridade e simpatia), onde estavam em discussão a qualificação das funcionárias (o quê elas tinham) e a postura da empresa diante disso (qual que queriam ignorar), durante essa reuniaão, contudo, Rita sai decidida por uma paralisação de 24 horas, que depois, diante do descaso de seus empregadores se converte numa greve de duração indefinida que, dia após dia, vai paralisando também os demais setores da produção de carros: A mulheres costuravam os estofados nos bancos, sem bancos nos estoques os carros não ficavam prontos e assim, sistematicamente, todos os setores da fabricação eram obrigados a interromper as atividades.
“Revolução Em Dagenham” é um bom filme. Agradável, flúido, bem interpretado e curiosamente esforçado em não ser contundente demais na direção errada –uma espécie de ‘entretenimento família’; embora pareça ser essa concessão que impede este relato de uma imprescindível e relevante história real de ser memorável de fato.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Na terceira parceria do incomum ator Johnny Depp com o estiloso diretor Tim Burton (antecedida por “Edward-Mãos de Tesouras” e “Ed Wood”), o foco do projeto foi uma antiga história de terror norte-americana, muito mais lembrada pelo público por um irregular curta-metragem da Disney exibido com freqüência durante o Halloween.
Todavia, o que o roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) propunha, era uma quase reinvenção da trama conhecida, para fins mais práticos: Nele, o famoso protagonista Ichabod Crane (Johnny Depp, deitando e rolando com o papel) é um astuto, porém covarde oficial de policia de Nova York –enquanto que na animação, fidelíssima à história clássica, Crane é um mero professor.
Se a ocupação muda, de certa maneira o personagem não: Na atuação minimalista e de trejeitos estudados de Depp, Ichabod Crane é, acima de tudo, um homem da ciência, daí o fato até plausível de suas investigações, mergulhadas em métodos científicos, irritarem seus superiores de arcaica mentalidade do final do Século XVIII. Como forma de propor-lhe um verdadeiro teste a fim de constatar a eficiência dos métodos de Crane, ele é então enviado à Província de Sleepy Hollow. Lá, várias mortes ocorridas (inclusive a que abre o filme numa breve participação de Martin Landau) são atribuídas a um fantasmagórico cavaleiro sem cabeça (interpretado pelo ator Christopher Walken, mas incorporado, na maior parte das cenas físicas pelo habilidoso dublê Ray Park).
Descrente, ainda que assustado (e a covardia é uma característica que, por vezes o define), o oficial Crane conduz sua investigação disposto a esclarecer o caso munido de lógica e ciência. Mas, ele cai nas malhas de uma trama rocambolesca que vai muito além da simples premissa de assombração embutida no conto e se alastra até conluios realizados entre membros da alta sociedade de Sleepy Hollow e descobre, estarrecido, que o cavaleiro sem cabeça é real, embora no final das contas, seja usado como executor de outro, e ainda misterioso, vilão.
Como ocorre em todos os exemplares de sua filmografia, Tim Burton usa seu senso formal para a construção de cenas primorosas e captura aqui uma essência específica de um elemento do seu passado responsável pela sua formação como cineasta: Em “Cavaleiro Sem Cabeça”, esse elemento responde pelos filmes sofisticados e ligeiramente irreais concebidos pelos estúdios da Hammer (Christopher Lee, um dos grandes astros desse estúdio, aparece numa ilustre ponta no início, tendo, a partir deste filme, marcado presença em praticamente todos os trabalhos de Burton). Um dos muitos aspectos aos quais Burton paga tributo –e esta obra é repleta de maravilhosos elementos visuais –é a característica peculiar daqueles filmes onde a direção de arte e a iluminação criavam uma atmosfera de tal forma etérea que não se podia distinguir o dia da noite. Ao lado de seus competentes colaboradores, Tim Burton realiza assim um filme de encher os olhos –a fotografia de Emmanuel Lubezki, o desenho de produção de Rick Heinrichs, bem como a trilha sonora de Danny Elfman, todos aspectos impecáveis que transformam este filme numa gratificante experiência cinematográfica.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Jovem Rainha Vitória

O diretor Jean Marc-Valée sempre demonstrou na elevada qualidade de seus trabalhos, uma capacidade inata de ressaltar o imenso potencial de entendimento entre seus ótimos intérpretes e os personagens de suas tramas. Em “A Jovem Rainha Vitória”, essa regra se cumpre com gosto: No papel de Vitória, Emily Blunt flutua com carisma, desenvoltura e força pelos ambientes empostados deste filme de época. Com ela, cada reunião de cúpula, cada obrigação aristocrática parece uma aventura. Foi realmente uma injustiça não tê-la indicado ao Oscar (prêmio que o filme terminou conquistando só no departamento de Melhor Figurino).
Única herdeira ao trono inglês, Alexandrina Vitória Regina sofre, desde muito cedo (ainda menina), as tentativas de influência daqueles que a cercam, que vão desde sua mãe (Miranda Richardson) e seu manipulador conselheiro Conroy (Mark Strong), até o tentacular Lord Melbourne (Paul Betany, o Visão de “Vingadores-A Era de Ultron” e “Capitão América-GuerraCivil”).
Logo, Vitória encontrará na amizade com o Príncipe Albert (o ótimo Rupert Friend, obtendo com Emily uma química fenomenal), da Alemanha, um alento para tantas intrigas. Assim, a personalidade destemida e intrépida de Vitória descobrirá, ao longo dos anos e das situações, os caminhos tortuosos da monarquia, adquirindo a confiança com a qual ela dará seus primeiros passos como rainha.
Despido do peso habitual que acompanha os densos filmes de época que têm por hábito se debruçar sobre históricas intrigas palacianas, este roteiro notável de Julian Fellowes (roteirista de “Assassinato Em Gosford Park” e criador da série “Downton Abbey”) tem a salutar qualidade de propor um convite ao expectador: Conhecer ali, naquelas ardorosas atribulações pontuadas pelo crescimento de sua protagonista, (seja esse crescimento físico, seja ele existencial, graças à plenitude sutil na atuação de Emily Blunt), a obstinação de uma jovem perante responsabilidades que se mostraram, desde sempre, imensuráveis; vislumbrar a dinâmica escorregadia, traiçoeira e perigosa que costuma se estabelecer entre o jogo do poder, a vaidade da fama, a ambigüidade da política e o orgulho da realeza; e testemunhar, encantado, o amor entre Vitória e Albert encontrar passagens em cada uma dessas brechas noscivas, para então definir a força de todo um reinado.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Perdas e Danos

Um olhar mais desavisado pode acabar levando à conclusão de que este é mais uma obra banal sobre os desdobramentos do adultério, entretanto, o bom cinéfilo identifica que ali, na direção, está o grande Louis Malle e, portanto, deve haver –como sempre há em seus filmes –uma ênfase muito distinta e inesperada das torpezas humanas.
O grande realizador francês elabora uma narrativa cheia de elegância e charme, fascinante em sua dramaturgia, intrigante em seu visual, e acima de tudo, perene em sua reflexão. “Perdas e Danos” acompanha Stephen (o indefectível Jeremy Irons), um diplomata inglês, pai de família e bem casado. Sua vida reflete, com freqüência, aquela fachada de exatidão e perfeição que tanto adora passar a classe elitista.
Sobre muitos aspectos, “Perdas e Danos” é sobre isso: Sobre a classe elitista e o quanto eles têm a perder a medida em que todas as facetas de suas vidas é pensada e planejada numa equação que exclui a imprevisibilidade da emoção.
E, deveras, quando é apresentado à jovem noiva francesa de seu filho, Anna (Juliete Binoche, soberba em sua dualidade moral), é com esse turbilhão inesperado que Stephen é confrontado: O desejo –mais que o amor –tão ardente que o faz ignorar os laços familiares iminentes que estão sendo estabelecidos com aquela moça.
Malle conduz esse crescendo operístico de obsessão e tragédia com uma sutileza que era –e ainda é –um artigo raro no cinema de circuito comercial que o publico conhece. Seu entendimento das faíscas passionais que sobrepujam a ética é certamente a grande força de seu filme: O envolvimento adúltero de Stephen com Anna tira dele a razão, ameaçando consumir com seu delicado trabalho, seu casamento e sua vida; não obstante certo anacronismo da trama, o encadeamento dos elementos que o diretor faz desse microcosmo –e que, exatamente por isso, proporciona uma desintegração tão brusca e irreversível quando tudo dá errado –é notável.
Para quem acompanhou seus trabalhos anteriores, é clara demais a percepção de mundo (e de valores humanos) agregados por Malle para não achar que tudo caminha inevitavelmente para a tragédia. Ainda que, em seu fascínio irrestrito por essas almas torturadas pela promessa um êxtase fugaz, ele seja hábil em fazer deles personagens cuja derrocada terminamos por lamentar. Malle já apresentou qualidade muito maior em trabalhos anteriores (e isso é absolutamente incontornável diante de uma filmografia que abarca títulos como “Trinta Anos Esta Noite”, “O Sopro do Coração”, “Adeus, Meninos” e “Atlantic City”), aqui, no entanto ele ratifica sua qualidade mantendo os eventos cadenciados por um ritmo todo particular, dando à composição das cenas uma espécie de névoa por meio da qual diversas ambigüidades terminam sendo trabalhadas, e conferindo um certo requinte na atuação do elenco, especialmente Miranda Richardson, sublime no papel da esposa traída.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Traídos Pelo Desejo

Bem antes de M. Night Shyamalan e seu “O Sexto Sentido” transformarem em moda, lá pelo ano 2000, o artifício de apresentar uma reviravolta surpreendente no plot –e, com o tempo isso se tornar um reflexo convulsivo, inclusive no seu próprio cinema –este conto de desejo, engano, perigo e subterfúgios pessoais de Neil Jordan obteve aclamação trilhando um caminho um bocado parecido.
Uma espécie de campanha ética –em 1992 estava longe de existir algo como a internet –orientava veículos de mídia e expectadores que já o tivessem visto para procurar não entregar revelações acerca de sua grande e lendária reviravolta (e isso foi respeitado, também, na cerimônia do Oscar de onde “Traídos Pelo Desejo” saiu vitorioso na categoria de Melhor Roteiro Original), que ocorre não exatamente no final, mas aproximadamente no início de sua segunda metade.
Fergus (Stephen Rea, presença assídua em todos os filmes de Neil Jordan) é um militante do IRA e, no fluxo de suas atividades, participa do seqüestro de Jody, um soldado britânico (Forest Whitaker, num breve participação que estipula o tom do filme). O período de cativeiro estabelece uma relação de curiosa amizade entre o seqüestrado e o indivíduo instruído a vigiá-lo, com a qual o diretor Neil Jordan parece deleitar-se em analisar tal dinâmica. É justamente por isso que se torna já inesperada e abrupta a guinada que ele não tarda a promover, arremessando a trama em outra direção, dando-lhe outra atmosfera e outra estrutura.
E é justamente a partir desse ponto que a sinopse de “Traídos Pelo Desejo” começa a se mostrar desafiadora para aqueles que não desejam entregar seus lances surpreendentes: Mais até poderia ser dito, mas à medida que sua trama avança, com a condução serena do diretor enganando o expectador e fazendo-o crer que, na tranqüilidade de seu ritmo, ele não irá recorrer a mais manobras chocantes, vão se somando detalhes que beiram o inacreditável, e que operam assim até mesmo uma mudança na própria concepção inicial do quê, de fato, o filme de Neil Jordan realmente se trata, muitos desses detalhes por sinal envolvendo –e isso talvez seja revelar demais –a namorada do soldado britânico, a cabeleireira Dil (Jaye Davidson).
Para além da questão bastante pertinente do quanto Jordan sacrifica qualquer postura ideológica que seu filme poderia assumir para, em lugar disso, entregar um espetáculo de inesperados focos narrativos, o filme é uma demonstração e tanto de perícia e controle insuspeito sobre a condução de uma história.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

A Saga Harry Potter - Segunda Parte


Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban
   A saída de Chris Columbus exigiu evidentes mudanças na saga, e a primeira delas foi um intervalo de tempo maior entre o segundo e este novo filme; provavelmente para uma melhor aclimatação no novo diretor, o talentoso Alfonso Cuarón (então conhecido por duas pérolas, os ótimos “A Princesinha” e “E Sua Mãe Também”).
   Essa notícia deixou os fãs da série eufóricos. Não foi à toa: Empregando seu talento desigual, seu lirismo e seu estilo infinitamente mais hábil do que o genérico Columbus, Cuáron concebeu o melhor filme da série.
   A evolução, não apenas no crescimento natural do elenco infantil, ficou evidente neste filme que agregava valores cinematográficos à narrativa, aprimorando os eventos relatados e levando Harry Potter, bem como seu fiel público, à outros e inesperados níveis. À sua maneira, Cuáron capturou em filme a essência do fascínio despertado pelos livros.
   Prestes a iniciar seu terceiro ano em Hogwarts, Harry Potter descobre que está ameaçado: O perigoso Sirius Black (o fantástico Gary Oldman), acusado de traição, e considerado um dos responsáveis pelos eventos que levaram os pais de Harry à morte, escapou da prisão de Askaban (uma espécie de penitenciária para bruxos), onde estivera nos últimos 13 anos. Assim sendo, a escola de Hogwarts passa a ser vigiada pelos perigosos Dementadores (guardas fantasmagóricos que roubam a energia dos vivos). Além disso, Harry tem que descobrir por que tem visões de um cão sinistro, por qual razão os Dementadores o afetam tanto, e quais são os segredos de seu novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas: O misterioso, ainda que amigável, Remo Lupin (David Thewlis, um dos muitos e magistrais atores britânicos a integrar o elenco dos filmes).
   Este terceiro filme também marcou a entrada do grande Michael Gambon no elenco, substituindo o magnífico Richard Harris no papel de Dumbledore (que infelizmente veio a falecer logo após as filmagens do filme anterior).


Harry Potter e O Cálice de Fogo
   No filme anterior, Alfonso Cuaron havia estabelecido um patamar de qualidade técnica e artística muito maior que as duas obras inaugurais. Como o talentoso mexicano não aceitou voltar para a direção do quarto filme (que adaptaria o que alguns fãs consideram o melhor livro), os produtores recorreram a uma escolha ao mesmo tempo audaciosa e refinada: Mike Newell, realizador inglês do indicado ao Oscar “Quatro Casamentos e Um Funeral”.
   O humor britânico de Newell, aliado à sua ampla experiência como artesão cinematográfico, foram muito apropriados para este quarto filme, igualando assim o deleite do ótimo produto anterior.
   Na trama esboçada aqui, Harry inicia seu quarto ano na escola após as reviravoltas do ano anterior. Há uma euforia geral do ar em função de um torneio tribruxo envolvendo outras três escolas de magia e bruxaria de outros cantos do mundo. Misteriosamente, o onipotente cálice de fogo seleciona Harry Potter para representar Hogwarts durante o árduo torneio. Mas nada é o que parece ser, e Harry verá que o perigo está muito mais próximo do que todos supõem, na forma do eminente retorno daquele que todos temem: Lorde Voldemort.
  Várias coisas notáveis se sucedem neste capítulo: A primeira morte realmente brutal de um personagem (no caso, Cedrico Digori, interpretado por Robert Pattinson, que viria a se tornar astro com a infame série “Crepúsculo”), ressaltando o tom cada vez mais sombrio e amadurecido da história, e a introdução de inúmeros personagens importantes para o futuro da saga, sobretudo a assustadora e admirável inclusão de Ralph Fiennes, como Voldemort (o quê o coloca, talvez, como o segundo melhor intérprete de toda a saga, atrás somente do fenomenal Alan Rickman como Severo Snape), além da chegada de elementos que deixam, em definitivo, a infância dos personagens para trás, como as primeiras experiências amorosas.