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sexta-feira, 26 de março de 2021

Gremlins 2 - A Nova Geração


 Era inevitável que, tendo o sucesso que alcançou, “Gremlins” não tivesse, em algum momento uma continuação. Se tal dado era previsível, ao menos, “Gremlins 2”, lançado em 1990, surpreendeu a muitos revelando-se ainda melhor que o primeiro filme!

Isso porque o diretor Joe Dante espertamente soube exatamente quais eram os elementos e as facetas a serem potencializados, ao mesmo tempo em que preocupou-se, sobretudo, em dar continuidade à trama do filme original –e tal trama tinha como fio condutor (à exemplo de “E.T.” de seu produtor executivo, Steven Spielberg) a relação entre um garoto e uma criatura de poderes fantásticos.

Quando o primeiro “Gremlins” encerrou-se, o ‘mogwai’ chamado Gizmo retorna para junto de seu dono original, um chinês dono de uma loja de antiguidades. É aí que a trama do segundo filme começa, mostrando Gizmo perdendo seu antigo dono (ele morre de velhice) e ficando sem lar (com a loja demolida, a criaturinha vai parar no olho da rua), quando é encontrado por um desengonçado assistente do cientista malvadão (vivido por Christopher Lee).

Essas breves peripécias levam Gizmo à um prédio onde opera, entre outras coisas, um estúdio de TV, e onde também estão a trabalhar Billy (Zach Galligan) e Kate (Phoebe Cates), o jovem casalzinho do filme original. Agora morando juntos num apartamento e tentando a sorte na cidade grande em sub-empregos, os dois se reencontram com Gizmo no frenesi de todas as confusões orquestradas para o segundo filme: Ainda no escritório de Billy, Gizmo tem sua pelugem molhada –e sabemos que os ‘mogwais’ se multiplicam quando lhe é jogado água –e, da trupe de outros bichinhos que surge, vários deles se esbaldam na praça de alimentação do edifício –e também sabemos que, ao comer depois da meia-noite, uma sinistra metamorfose se opera entre as criaturas fofinhas.

E é aí, quando o filme atinge os mesmos percalços do primeiro filme –nos quais os perversos gremlins enfim dão as caras –é que o diretor Joe Dante chega exatamente aonde queria: Na oportunidade plena e totalmente aproveitada de elevar ainda mais as maluquices endiabradas de seus personagens a um nível imprevisto.

O primeiro “Gremlins” já era, em si, uma convulsiva e entusiasmada homenagem ao gênio humorístico e descontrolado de animação Chuck Jones, onde seres absolutamente destituídos de freios morais faziam uma algazzara tão intensa quanto indiscriminada.

Neste segundo filme, Joe Dante tratou de aperfeiçoar o conceito: Instalados agora num edifício que alberga uma estação de TV, um laboratório e inúmeras outras dependências relativas à vida moderna –um consultório de dentista, por exemplo –os gremlins tem então a chance de explorar sua capacidade de virar tudo de pernas para o ar de forma totalmente ampla, diversa e sequenciada: As gags que se seguem a partir de determinado ponto do filme empilham uma insanidade após a outra sem jamais perder o equilíbrio. Há o gremlin que adquire inteligência e, portanto, retórica para defender o ponto de vista dos seus (numa hilária entrevista fornecida à Robert Prosky como o Vovô da “Família Monstro”!); o que adquire asas graças à uma experiência (e permite assim, uma divertida homenagem ao “Batman”!); o que tem seu rosto deformado qual o “Fantasma da Ópera” (sem perder o oportunidade de referenciar o filme, claro!); o que vira raio (!), o que vira vegetal (!!), e até mesmo o que vira uma aranha monstruosa (proporcionando o momento em que o pequeno Gizmo incorpora o heroísmo de “Rambo”!); num certo momento, os gremlins se infiltram nos filmes musicais do estúdio e interferem até mesmo na linguagem do próprio filme: Repare no momento em que ocorre um ‘defeito técnico’ e os gremlins invadem a tela com suas traquinagens!

Em algum ponto, o filme de Joe Dante precisa retornar à sua narrativa e à trama que vinha desenvolvendo para encerrá-la nos moldes convencionais, é quando o filme engrena uma marcha mais descendente, mas até isso acontecer, Joe Dante já cumpriu muito bem o papel que havia se proposto: Continuar o sensacional filme anterior com uma trama ainda mais debochada, ainda mais satírica, demolidora e circunspecta para com o modo de vida norte-americano.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Grito de Pavor

 


Esta realização do diretor britânico Seth Holt tem peculiar e bem-vinda característica a partir da qual toda e qualquer informação fornecida de seu plot pode comprometer a apreciação da obra, tão cheia de mistérios e de surpresas ela é.

“Grito de Pavor” une, com perícia insuspeita e algumas pequenas coincidências, elementos de três filmes de Alfred Hitchcock: Temos a trama nebulosa, de propósitos multifacetados que se descortinam de modo surpreendente ao expectador conforme progridem os eventos, extraída de “Psicose”; o(a) protagonista confinado(a) numa cadeira de rodas, cuja condição, acima de tudo, potencializa o suspense, como em “Janela Indiscreta”; e o enigma algo mirabolante (e por isso mesmo, instigante no público pela busca de respostas) de um cadáver que desaparece e reaparece o tempo todo, como em “O Terceiro Tiro”.

Desses tópicos se constrói o filme de Holt –e, a partir daqui, detalhá-lo significará entregar invariavelmente algumas de suas surpresas: A trama começa, antes mesmo dos créditos, com a descoberta de um cadáver num país estrangeiro (nem mesmo os diálogos dos policiais, em outra língua, ganham legendas); trata-se de um elemento que será, depois, reaproveitado de maneira esperta pelo roteiro.

Afastada a dez anos do seio familiar, a jovem cadeirante Penny Appleby (Susan Strasberg, a garotinha de “Férias de Amor”) volta da Itália, onde passou a última década, para ficar junto do pai, em sua mansão na França.

Penny requerer cuidados especiais, desde que ficou paralítica, anos antes, ao cair de um cavalo: E o galante motorista da família, Bob (Ronald Lewis), parece mais do que disposto a fornecer esses cuidados. Ao chegar na mansão da família, Penny é surpreendida com algumas revelações: Seu pai foi viajar misteriosamente –sem avisar Penny, sem dizer para onde ia nem quando voltaria –e sua madrasta, Jane (Ann Todd, de “Daqui A Cem Anos”), que até então nunca tinha visto, a cobre de suspeitas gentilezas: Parecem ser menos para fazê-la se sentir em casa, e mais para que Jane controle cada movimento que faz.

Ao longo dos dias, em meio à uma atmosfera a sugerir que algo errado está acontecendo, Penny flagra, em momentos fortuitos, o que parece ser o cadáver do próprio pai (!), entretanto, toda a vez que uma testemunha surge, o cadáver não está mais lá. Desaparece!

Para o médico da família, Dr. Gerrard (Christopher Lee), tais visões podem ser surtos que alguma loucura que está prestes a dominar Penny. E tal loucura, ao menos para a Jane vem bem a calhar: Na impossibilidade de Penny administrar o dinheiro da família, após a morte de seu pai, seria Jane quem receberia toda a fortuna.

A jovem, contudo, está plenamente lúcida, e certa de que as aparições do cadáver do pai fazem parte de uma conspiração, e ela tem somente o auxílio do prestativo Bob para encontrar o corpo, escondido em algum lugar da mansão, e provar junto à polícia essas tramóias.

Construindo uma narrativa de suspense notável e saborosa, com eficaz utilização de sustos abruptos em quantidade muito maior do que o habitual, o diretor Holt molda uma pequena e injustamente pouco conhecida pérola do gênero, agraciada com pontuais reviravoltas, indicativas da criatividade e requinte nas mentes férteis daqueles realizadores de então.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei Versão Estendida

É possível uma obra já tida por impecável elevar ainda mais seu altíssimo padrão de qualidade? Esta é a difícil pergunta que as Versões Estendidas de “O Senhor dos Anéis” se atreveram a responder com uma audaciosa resposta afirmativa.
No capítulo final, “O Retorno do Rei”, algumas dessas cenas novas foram filmadas depois que o filme ganhou 11 Oscars na histórica cerimônia de 2004, o que não as impede de, pelo menos, conferir um aspecto esclarecedor a muitas passagens em alguns momentos.
Não há, contudo, razão para os pessimistas temerem, o filme majestoso, arrojado e inigualável que tomou o mundo de assalto continua lá: Após as duras provações experimentadas em “As Duas Torres”, o hobbit Frodo Bolseiro (Elijah Wood), ao lado de seu filme companheiro Sam (Sean Astin) adentra a etapa derradeira, e mais arriscada, de sua jornada, quando está por penetrar no território obscuro, maligno e infestado de perigos conhecido como Mordor. Não é só: Cada vez mais prejudicado em seu juízo perfeito pela influência do anel, Frodo rejeita a amizade sincera de Sam para cair nas armadilhas morais de Gollum (Andy Serkis, numa aula de interpretação virtual), cujo plano é entregá-lo de bandeja à horripilante aranha gigante Laracna, numa das mais espetaculares cenas do filme (e do cinema).
No outro núcleo de protagonistas, vemos Aragorn, Legolas, Gimli e Gandalf encontrarem Merry e Pippin, depois dos desencontros do filme anterior –é nesse momento que presenciamos uma das mais festejadas cenas da versão estendida, quando Gandalf, convertido em um mago branco, se depara com Saruman (Christopher Lee) e o confronta; certamente uma cena que foi um pecado ter sido tirada da versão de cinema.
O filme se ocupa de mostrar os desdobramentos desses personagens: Gandalf e Pippin seguem para a Cidade Branca de Gondor (um prodígio de efeitos visuais e direção de arte claramente reservado com zelo para aparecer apenas neste filme) onde devem alertar o esclerosado regente Denethor (John Noble) da chegada iminente de um exército incalculável de orcs; em Rohan, o Rei Théoden (Bernard Hill) e sua sobrinha Eowin (Miranda Otto) reúnem o exército dos rohimin para tentar impedir que a raça dos homens seja subjugada em definitivo pelas forças de Sauron; já, Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies), numa missão diferente, devem invadir catacumbas amaldiçoadas para reivindicar o auxílio de guerreiros fantasmas na grande guerra por vir, guerreiros estes que só responderam ao próprio herdeiro do Rei Isildur, e legítimo rei de Gondor, papel do qual Aragorn já não tem mais como fugir.
Essas subtramas –preenchidas com uma infinidade de cenas grandes ou pequenas que lhes acrescentam novas impressões –convergem, primeiro, na grandiloquente Batalha dos Campos do Pelenor, uma das grandes sequências épicas do cinema moderno, e depois, no enfrentamento final à Sauron e aos orcs, às portas de Mordor, quando Frodo, Sam e Gollum chegam ao ápice de sua conflituosa relação –e o bem e o mal encontram uma das personificações mais complexas, cativantes e visualmente estarrecedoras de seu eterno conflito.
Há beleza indescritível, inesgotável e inatacável em “O Retorno do Rei” –acredite, cada fotograma de sua cinematografia é um wallpaper! –e sua Versão Estendida tão somente fornece um novo e requintado ângulo para apreciá-la; no equilíbrio tão improvável quanto inacreditável de elementos íntimos com predicados épicos e grandiosos, e na obra de perfeição comovente que é obtido, “O Retorno do Rei” representa o final esplendoroso de uma das grandes sagas de nosso tempo, o auge do talento artístico de Peter Jackson e o ápice qualitativo nas telas de cinema das últimas décadas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres Versão Estendida

Pode-se afirmar que o capítulo do meio da formidável “Trilogia do Anel” é aquele que mais muda na comparação da versão de cinema com sua versão estendida.
O mais controverso dos três filmes por parte de algumas decisões criativas de seu diretor Peter Jackson –utilizar seu prólogo dramático no final do primeiro filme e jogar o antológico momento da aranha gigante para a terceira parte –“As Duas Torres” é aquele no qual o material original produzido pelos roteiristas (além de Jackson, Fran walsh, Phillippa Boyens e Stephen Sinclair) mais se expressa: Nele, vemos sub-tramas mais simplórias na versão literária ganhar ênfase e profundidade, além de algumas licenças poéticas que incrementam certas dinâmicas entre os personagens; sendo a mais gritante, a paixonite contumaz de Ewin (Mirando Otto) por Aragorn (Viggo Mortensen).
Por falar nele, Aragorn, com o acréscimo de novas linhas à trajetória empreendida por ele, Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) ao fim de “A Sociedade do Anel”, acaba adquirindo um protagonismo que toma o lugar central de Frodo (Elijah Wood) nesta narrativa –ele que era sem dúvida o protagonista do filme anterior, mas, que voltará a ser protagonista do filme posterior.
Neste épico monumental, desprovido de começo e de fim pela força dessas circunstâncias, a direção de Jackson relata assim três linhas narrativas paralelas originadas do dramático desfecho da primeira parte: Na primeira, Frodo e Sam (Sean Astin) adentram as regiões mais ermas e obscuras em seu caminho árduo rumo à Mordor; enquanto Frodo adentra também, num nível mais íntimo, áreas ainda mais sombrias de sua condição espiritual graças à influência maléfica do poderoso anel que deve destruir. Exemplo radical do mal provocado pela corrupção do anel, a criatura Gollum (Andy Serkis, brilhante) passa a acompanhá-los com a promessa de ser-lhes um guia –embora, lá no fundo, sua mente distorcida almeje traí-los.
Na segunda linha narrativa, os hobbits Merry (Dominc Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), cativos dos perversos orcs, são levados por eles até o traiçoeiro mago branco Saruman (o saudoso Christopher Lee) até serem interceptados no meio do caminho, levando os pequeninos a ficar sobre a guarda de Barbárvore, uma criatura conhecida como ‘ent’ –árvores ambulantes que representam um dos muitos assombros em efeitos visuais que o filme entrega.
E finalmente, na terceira linha, Aragorn, Legolas e Gimli, comprometidos na tentativa de resgatar Merry e Pippin, terminam por acabar deixando de lado essa missão para juntarem-se aos homens do reino de Rohan, cujo Rei Théoden (Bernard Hill, de “Titanic”) e seu povo se veem ameaçados de genocídio pela sanha de Saruman e sua horda de orcs, o que culmina na longa, violenta e arrebatadora Batalha do Abismo de Helm.
De modo geral, as inúmeras cenas novas que aparecem neste corte –e que se mostram intensas na sua primeira metade, praticamente desaparecem durante do clímax (prova do quão satisfeito Jackson ficou com o resultado) e voltam em um ou outro momento já no epílogo, pela primeira vez mostrando resultados não tão harmoniosos –reforçam as características shakesperianas deste capítulo da “Trilogia do Anel” em especial: Nos monólogos intensos do elenco, sobretudo, no núcleo que inclui os cavaleiros de Rohan, como o Rei Théoden, Eomer (Karl Urban), Eowin e Grima Língua de Cobra (Brad Dourif, de “Um Estranho No Ninho”); e também nas gratificantes cenas de flashback que ampliam a presença de Boromir (Sean Bean, magnífico) e agregam novas camadas ao personagem de seu irmão, Faramir (David Wenham, de “300”).
Tais considerações enfatizam o objetivo de Jackson e toda sua equipe em alcançar o mais alto nível cinematográfico e artístico possível, e ratificam o fato, já nítido e evidente na época do lançamento em cinema, destas produções estarem entre as grandes obras de cinema de todos os tempos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel Versão Estendida

Ainda no princípio da década de 2000, quando a trilogia de Peter Jackson tomou o mundo de assalto e marcou para sempre a história do cinema, surgiu um rumor de que a versão de três horas vista nos cinemas teria também um corte muito maior, com cenas inéditas que estendiam ainda mais o tempo de filme e traziam momentos suculentos que acrescentavam novas impressões ao grande filme do momento: “O Senhor dos Anéis” dominou a atenção de público e crítica pelos três anos seguintes.
A chamada versão estendida, quando por fim ficou ao alcance do público, trazia pequenos acréscimos em cenas já conhecidas, pedaços de diálogos que incrementavam a carga naturalmente literária do material e sequências inteiras, algumas bastante impressionantes, que terminaram de fora do corte conhecido.
No primeiro capítulo, “A Sociedade do Anel”, tais cenas não tardam a aparecer para quem acompanha do filme atento; embora a maneira mais correta de apreciá-lo seja mesmo pelo grande filme que ele é.
No mundo mágico e fantasioso criado pelo escritor J.R.R. Tolkien chamado Terra Média, os povos livres –homens, hobbits, magos, anões, elfos e outras criaturas fantásticas –se veem ameaçados por Sauron, cujo poder todos julgavam ter sido derrotado –numa cena espetacular mostrada no começo, e que já deixa bem claro as predisposições épicas do trabalho de Jackson.
Contudo, Sauron não está exatamente morto: Sua força vital se encontra ainda no Um Anel, fonte de seu poder e que, por meio de uma série de idas e vindas, acabou nas mãos do hobbit Bilbo Bolseiro (o saudoso Ian Holm), morador do bucólico Condado e tio do protagonista, Frodo Bolseiro (Elijah Wood) –é, por sinal, na sequência do Condado, que as primeiras cenas inéditas aparecem, como o momento em que Bilbo é visto escrevendo seu livro.
Em sua festa de aniversário, Bilbo despede-se de todos e, para resumir, deixa a guarda de seu anel (e de tudo que ele tem, na verdade) para Frodo.
Entretanto, o mago Gandalf, o Cinzento (Ian McKellen), tem suspeitas em relação ao tal anel –e à influência maléfica que ele nota ser despertada em Bilbo.
Ele descobre toda a verdade sobre a peça bem há tempo, quando os cavaleiros Nazgûl são despachados pelas forças das trevas para capturar Frodo e levar o anel.
Acompanhado de Sam (Sean Astin), Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), Frodo passa poucas e boas para chegar até Valfenda, local de morada do sábio elfo Elrond (Hugo Weaving) que monta um conselho secreto às pressas, composto por representantes dos povos livres da Terra Média, a fim de determinar que destino dar ao anel.
O próprio Gandalf, no entanto, sabe que só existe uma coisa a se fazer: Levar o anel até a longínqua e tenebrosa Mordor, onde foi forjado, portanto, único lugar onde pode ser destruído. E Gandalf sabe também que a pessoa destinada a realizar tal sacrifício é Frodo.
Assim quando ele parte –dando início à essa jornada fenomenal –seus companheiros são Gandalf, Sam, Merry e Pippin, além dos cavaleiros Aragorn (Viggo Mortensen) e Boromir (Sean Bean), o elfo Legolas (Orlando Bloom) e o anão Gimli (John Rhys-Davies).
Apesar da curiosidade, a Versão Estendida não deixa de ser o mesmo filme assombroso que chocou plateias do mundo com um nível improvável de qualidade. Ainda é possível perceber o que faz de “O Senhor dos Anéis” uma experiência cinematográfica inesquecível: Nunca antes (talvez, nem mesmo em “Star Wars”) uma produção de fantasia havia atingido padrões tão altos em seus quesitos técnicos e artísticos; sabia-se que os efeitos visuais seriam magníficos, mas não se esperava deles uma capacidade de modificar irreversivelmente a maneira de se fazer cinema; sabia-se que a paixão de Peter Jackson e sua equipe haveria de produzir algo singular, mas ninguém imaginava que o resultado seria uma obra de tal qualidade que até hoje, vinte anos depois, outros filmes penariam para igualar seu brilhantismo; e, finalmente, sabia-se que o material literário da obra de Tolkien (cultuado, referenciado e apreciado desde os anos 1950) tinha méritos narrativos que apareceriam na tela, mas o público não imaginava que, no tratamento de requinte ímpar dado à tudo, “O Senhor dos Anéis” seria algo tão antológico, marcante e inesquecível.
Neste primeiro filme, o efeito retumbante e ressonante que ele produz pode ser avaliado à partir de seu desfecho, quando seus personagens são colocados numa encruzilhada de caminhos paralelos que originam as duas estupendas continuações –um final que não finaliza coisa alguma, que proporcionou aos expectadores da época a mesma sensação (talvez até mais intensa) que a geração anterior teve ao ver o fim de “O Império Contra-Ataca” no cinema.
Que filme, senhoras e senhores, que filme!

sábado, 7 de março de 2020

Testemunhas de Uma Guerra

O diretor Danis Tanovic ganhou o Oscar de Melhor Filmes Estrangeiro por “Terra de Ninguém”, e ainda realizou o longa “Inferno”, parte da “Trilogia Paraíso/Inferno/Purgatório” imaginada por Krzysztof Kieslowski –e jamais completada por ocasião de sua morte.
Ambas as produções contêm elementos que moldam a estrutura básica deste “Testemunhas de Uma Guerra”: Como no primeiro caso, Tanovic revisita o cenários das zonas de conflito (lá, o leste europeu, aqui, o Oriente Médio), tomando como protagonista o fotógrafo de guerra Mark, vivido por Colin Farrell.
Como no segundo caso, Tanovic põe, no centro das questões de sua premissa, a memória traumática e a forma com que ela transfigura relações humanas.
O melhor amigo de Mark é David (Jamie Sives, de “O Guerreiro Silencioso”), também ele fotógrafo. Contudo, se antes os dois compartilhavam do mesmo sangue-frio nas incursões aos campos de batalhas, agora, algo está diferente: A relação entre Mark e a namorada Elena (a espanhola Paz Vega) segue normal, mas, David e sua esposa Diane (Kelly Reilly, de “Sra Henderson Apresenta” e “Sherlock Holmes”) estão esperando um filho.
O perigo à espreita em cada sombra de seu ofício já não empolga David como antes, e bastam alguns dias em meio ao Curdistão assolado por ataques do Afeganistão para ele compreender isso.
Ele deseja voltar.
Mark concorda não sem estranhar a relutância do amigo.
Após um acidente mal-fadado e mal-explicado, Mark volta para casa, porém, David, que deveria ter chegado antes dele não deu notícias –ou assim a montagem nos leva a crer.
O comportamento de Mark, percebido por Elena, parece indicar que algo muito pior aconteceu, e ele aparentemente bloqueou as memórias do ocorrido.
Elena apela então para o seu tio-avô, Joaquim (o grande Christopher Lee), outrora um psiquiatra espanhol especializado nos indivíduos com stress pós-traumático durante a Ditadura de Franco, para que ele penetre nos tormentos particulares de Mark e dele extraia a verdade.
Perseguir a expiação parece ser o mote em torno do qual as obras de Danis Tanovic giram, aqui, ainda que longe do primor demonstrado em outros trabalhos, ele exibe uma habilidosa capacidade de harmonizar os elementos cinematográficos principais (bom elenco, bom roteiro, boa direção) numa narrativa que expõe, aos trancos e barrancos, sua visão humanista e engajada de cinema e de mundo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

1941 - Uma Guerra Muito Louca


Antes de tornar-se o Midas de Hollywood, Spielberg era um diretor extraordinariamente promissor. Mais do que isso: Era quase um gênio em formação, uma vez que ele já havia entregue obras de qualidade sem igual como “Tubarão” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”.
Como o esperado, Spielberg aproveitou as portas que se abriram para experimentar outros gêneros, como a comédia.
E muitos são os cineastas que podem afirmar ser esse um dos mais difíceis gêneros de se trabalhar: Humor é algo muito mais particular do que, por exemplo, o medo –sentimento trabalhado de modo sempre recorrente no terror –o humor funciona de maneira distinta em cada pessoa, e com isso as circunstâncias e o contexto de um filme de comédia se tornam muito relativos. Isso talvez explique porque “1941” não funcionou na época de seu lançamento e hoje seja uma comédia até bastante satisfatória; além do fato de que a qualidade das comédias de hoje se vulgarizou a ponto de olharmos com outros olhos os bons e incompreendidos exemplares do passado.
Há quem diga (não sem uma certa razão) que um dos erros de Spielberg foi fazer uma comédia ambientada num episódio da Segunda Guerra Mundial ainda visto com alguma amargura pelo subconsciente norte-americano: O ataque à base de Pearl Harbor.
Por conseqüência, crítica e público enxergaram no filme um deboche inapropriado. Não é bem assim: O humor de Spielberg é bem mais ingênuo, inofensivo, e seu filme guarda elementos que o aproximam das comédias físicas de Buster Keaton e Charles Chaplin, ou mesmo das peripécias de inevitável apelo visual dos desenhos animados.
Após a base aérea de Pearl Harbor tornar-se palco de um ataque difundido aos quatro ventos pelos EUA, a Costa da Califórnia se vê tomada de uma preocupação generalizada –pode, afinal, lá ser um dos próximos alvos dos imprevisíveis inimigos.
Dessa forma, diversas situações são flagradas com galhofa e leveza, bem como personagens cheios de ingenuidade que dividem-se entre os desastrados (John Belushi e Dan Aykroyd, os mesmo de “Irmãos Cara-de-Pau”, vivendo respectivamente um piloto e o sargento de um tanque, que nunca se encontram em cena), os apaixonados, os divertidos e os quase inofensivos vilões (como o personagem de Treat Williams, cuja petulância lembra quase o Brutus de “O Marinheiro Popeye”).
Nesse cenário –e com uma cena de abertura que Spielberg usa para parodiar de forma hilária o seu “Tubarão” –surge um submarino japonês, capitaneado por um oficial nipônico e outro alemão (Toshiro Mifune e Christopher Lee, participações especialíssimas) que ronda as águas de região e não tardará a causar grandes confusões.
Deliberadamente desprovido da contundência de “M.A.S.H.”, Spielberg optou nesta primeira comédia de sua carreira (um gênero que mesmo anos depois permanece raro em sua filmografia) por uma abordagem amena, essencialmente divertida e sem segundas intenções.
Para público e crítica de então, talvez, tenha sido esse seu erro.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Hannie Caulder - Desejo de Vingança

O gênero faroeste se achava numa circunstância estranha durante a transição das décadas de 1960 para 70. A produção norte-americana, tão prolífica e abundante duas décadas antes minguava e os europeus, impulsionados pela fórmula vigorosa e palpitante fornecida por Sergio Leone e Sergio Corbucci, realizavam seus próprios exemplares de um gênero que adoravam, mas que seus realizadores originais, os americanos, começavam a relegar.
Esse cenário define muitas das peculiaridades de “Hannie Caulder”.
Embora todas as suas orientações remetessem ao faroeste clássico dos tempos de John Wayne, o diretor Burt Kennedy –dos poucos artesãos americanos que insistia nesse gênero naqueles tempos –moldou, meio que guiado pelas condições, uma nova espécie de faroeste, com influências e recursos europeus, que veio a ser precursor do infame sub-gênero dos anos 1970 de “Rape & Revenge” –aquele no qual uma mulher é estuprada e passa o filme a perseguir seus algozes na intenção de concretizar sua vingança.
Na inovação de nomear uma mulher como protagonista dessa vendeta –e de fazê-la assim o centro de sua ação –o filme faz mais do que honrar faroestes clássicos com protagonistas femininas (como “Johnny Guitar”), ele serve de base para o referencial “Kill Bill”, de Quentin Tarantino, também ele debruçado sobre a vingança de uma mulher.
Aqui, a mulher em questão –e personagem-título –vem a ser interpretada pela espetacular Rachel Welch vinda de produções como o também faroeste “100 Rifles” e “Mil Anos Antes de Cristo”, cujo caminho para o estrelato já apontava para um filme como este.
Ela é Hannie, que tem o infortúnio de cruzar o caminho dos irmãos malfeitores Em (Ernest Borgnine), Frank (Jack Elam, de “EraUma Vez No Oeste”) e Rufus (Strother Martin) no percurso de um sem fim de crimes. Vindos de um assalto a banco caótico e desajeitado –ilustrado na primeira e sangrenta cena –eles estão a caminho de outras malfeitorias mais, e então acham o rancho de Hannie e seu marido.
Ele, os bandidos matam. Ela, eles estupram e deixam para morrer dentro da casa em chamas.
Mas, Hannie sobrevive vestida somente com um poncho –e aí começa a função da bela Rachel Welch de objeto de contemplação de narrativa que seguirá assim até quase metade do filme: A câmera de Kennedy, ainda que nada vulgar, não tem pudor em verificar que Rachel não usa nada por baixo do poncho!
Nessas condições precárias ela encontra o pouco usual caçador de recompensas Thomas Luther Price (Robert Culp, fantástico, num personagem que serviu de ampla inspiração para Tarantino e o ator Christoph Waltz comporem o Dr. Schultz, de “Django Livre”).
Após um período de insistência dela, Price concorda em ensiná-la a  manejar armas e a ajudá-la a encontrar os homens que acabaram com sua vida.
Se há algo de curioso em “Hannie Caulder-Desejo de Vingança” são pelo menos duas de suas participações especiais: Uma a de Christopher Lee, em meio ao auge de sua contribuição como Drácula na produtora Hammer, fazendo aquele que é lembrado como seu único faroeste; e, mais intrigante, a de Stephen Boyd (o Messala do “Ben-Hur” clássico) num papel rápido, porém, marcante de um pistoleiro calado (não dá um pio o filme inteiro) todo vestido de preto e cercado de uma atmosfera misteriosa –ele aparece durante o treinamento que Price presta a Hannie, dando a entender que será uma aparição sem sentido, e então ressurge, num momento fundamental no desfecho do filme.
Sua participação está aberta à toda sorte de interpretação do expectador: Um padre pistoleiro?! Um caçador de recompensas metódico? Um anjo da morte? Um fantasma da vingança?
O filme de Kennedy não responde e nem quer responder a isso, no lugar, ele busca fazer o básico: Dar a sua protagonista uma trajetória sólida com começo, meio e fim. Tal e qual os grandes artesões do gênero o fariam.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Na terceira parceria do incomum ator Johnny Depp com o estiloso diretor Tim Burton (antecedida por “Edward-Mãos de Tesouras” e “Ed Wood”), o foco do projeto foi uma antiga história de terror norte-americana, muito mais lembrada pelo público por um irregular curta-metragem da Disney exibido com freqüência durante o Halloween.
Todavia, o que o roteiro de Andrew Kevin Walker (de “Seven-Os Sete Crimes Capitais”) propunha, era uma quase reinvenção da trama conhecida, para fins mais práticos: Nele, o famoso protagonista Ichabod Crane (Johnny Depp, deitando e rolando com o papel) é um astuto, porém covarde oficial de policia de Nova York –enquanto que na animação, fidelíssima à história clássica, Crane é um mero professor.
Se a ocupação muda, de certa maneira o personagem não: Na atuação minimalista e de trejeitos estudados de Depp, Ichabod Crane é, acima de tudo, um homem da ciência, daí o fato até plausível de suas investigações, mergulhadas em métodos científicos, irritarem seus superiores de arcaica mentalidade do final do Século XVIII. Como forma de propor-lhe um verdadeiro teste a fim de constatar a eficiência dos métodos de Crane, ele é então enviado à Província de Sleepy Hollow. Lá, várias mortes ocorridas (inclusive a que abre o filme numa breve participação de Martin Landau) são atribuídas a um fantasmagórico cavaleiro sem cabeça (interpretado pelo ator Christopher Walken, mas incorporado, na maior parte das cenas físicas pelo habilidoso dublê Ray Park).
Descrente, ainda que assustado (e a covardia é uma característica que, por vezes o define), o oficial Crane conduz sua investigação disposto a esclarecer o caso munido de lógica e ciência. Mas, ele cai nas malhas de uma trama rocambolesca que vai muito além da simples premissa de assombração embutida no conto e se alastra até conluios realizados entre membros da alta sociedade de Sleepy Hollow e descobre, estarrecido, que o cavaleiro sem cabeça é real, embora no final das contas, seja usado como executor de outro, e ainda misterioso, vilão.
Como ocorre em todos os exemplares de sua filmografia, Tim Burton usa seu senso formal para a construção de cenas primorosas e captura aqui uma essência específica de um elemento do seu passado responsável pela sua formação como cineasta: Em “Cavaleiro Sem Cabeça”, esse elemento responde pelos filmes sofisticados e ligeiramente irreais concebidos pelos estúdios da Hammer (Christopher Lee, um dos grandes astros desse estúdio, aparece numa ilustre ponta no início, tendo, a partir deste filme, marcado presença em praticamente todos os trabalhos de Burton). Um dos muitos aspectos aos quais Burton paga tributo –e esta obra é repleta de maravilhosos elementos visuais –é a característica peculiar daqueles filmes onde a direção de arte e a iluminação criavam uma atmosfera de tal forma etérea que não se podia distinguir o dia da noite. Ao lado de seus competentes colaboradores, Tim Burton realiza assim um filme de encher os olhos –a fotografia de Emmanuel Lubezki, o desenho de produção de Rick Heinrichs, bem como a trilha sonora de Danny Elfman, todos aspectos impecáveis que transformam este filme numa gratificante experiência cinematográfica.

segunda-feira, 13 de março de 2017

O Homem de Palha

A mais desigual das mesclas acaba sendo este insólito e formidável trabalho do diretor Robin Hardy: Nele há sensualidade (e nudez constante), um registro bastante interessante das crenças pagãs, uma relativamente satisfatória trama de suspense inserida nesse contexto inusitado, e uma curiosa condução, na qual a direção não se furta de evidenciar o humor, o ridículo e o absurdo dos momentos que se prestam à essas características.
Um policial britânico, metódico e rígido (Edward Woodward) chega de avião à uma ilha afastada, onde deve investigar o desaparecimento de uma jovem. Suas investigações esbarram nos estranhos hábitos da comunidade, devota dos ancestrais costumes pagãos europeus e, por conseguinte, acaba contrastando com o comportamento avesso do próprio policial, um cristão declarado e confesso.
Não lhe passa despercebido uma sucessão de atitudes consideravelmente suspeitas da parte de todo o povoado, na maneira com que parecem, fantasmagoricamente, acompanhar com os olhos seus passos pela rua, e mesmo nas práticas de natureza social, que soam esquisitas a outros padrões culturais: Com destaque para um desconcertante momento musical (!) onde uma jovem nua (a linda Britt Ekland, mais conhecida por ser casada, durante algum tempo, com o astro Peter Sellers) se oferece ao policial na porta de seu quarto à noite, a fim de interromper seu celibato.
Nada disso impede o líder dessa comunidade (interpretado com ironia ferrenha por Christopher Lee) de nutrir pelo policial alguma camaradagem, ainda que no fim –leia-se, na surpresa aterradora que a ele é reservado no desfecho –isso não venha a poupá-lo de seu terrível propósito.
Aí está, então, a justificativa para esse estilo tão absolutamente fora do tom (ou pelo menos, fora da idéia que se tem de habitual ao gênero) adotado pelo diretor Hardy: Valer-se de extraordinária desenvoltura e experiência, e evitar a controvérsia numa trama que, em mãos menos hábeis, poderia ser interpretada como uma crítica.
A sociedade pagã que segue as leis da natureza, e as reverencia, não é tratada como sendo o grupo de vilões do filme, nem tampouco o policial é um protagonista heróico com o qual a platéia se identifica –muito do que se percebe nele é uma caricatura patética daquele tipo de personagem (recorrente em filmes de terror) que insiste em cair numa cilada, mesmo quando ela se acha perceptível à olhos vistos em sua frente.

P/S: Em 2006, o subversivo diretor Neil Labute uniu-se ao astro Nicolas Cage para realizar uma refilmagem de “O Homem de Palha”, alterando inúmeras características da trama e seu objetivo, modificando muitos dos elementos que a tornam válida e, em lugar disso, dando continuidade a um estapafúrdio discurso misógino que Labute vinha difundindo em seus filmes mais independentes: O resultado é “O Sacrifício” (não confundir, por favor, com a obra-prima de Andrei Tarkovsky), um dos mais detestáveis, desleixados e imprestáveis filmes já feitos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

007 - A Fase Roger Moore

Para toda uma geração o rosto de James Bond foi o de Roger Moore, não apenas porque ele foi o ator que mais fez filmes de 007 (foram sete! Ninguém fez mais filmes que ele, embora isso seja, de certa forma, um demérito já que Moore demorou muito para ser substituído), mas também porque seus filmes foram os mais reprisados na TV nas décadas de 1980 e 1990.
Substituindo Sean Connery no papel icônico depois de uma mal-sucedida tentativa de emplacar o australiano George Lazenby em “007 A Serviço Secreto de Sua Majestade”, o Bond de Roger Moore agregava mais humor à mistura, abraçando de uma vez o caráter de diversão infanto-juvenil das aventuras do espião.
Como conseqüência disso, seus filmes oscilam entre saborosos e divertidos passatempos lembrados com muito carinho pelo público e produções vergonhosas que –na opinião de alguns –chegavam a manchar a reputação do mito criado por Ian Fleming.

Com 007 Viva e Deixe Morrer (1973) –A prova de fogo! Ainda sob a tensa possibilidade de não encontrar um intérprete à altura de Sean Connery (George Lazenby, não havia convencido o público, o quê levou-os a bancar um cachê recorde para Connery regressar em “007-Os Diamantes São Eternos”), os produtores resolveram ir por um caminho mais seguro contratando um ator que havia emplacado na TV com um personagem com muitas características em comum com Bond: Essa personagem era “O Santo” e o ator, o inglês Roger Moore.
Para sua sorte, Roger Moore estrelou justamente uma das mais inspiradas produções de James Bond, beneficiada por elementos como a inebriante e ágil música-tema executada por Paul McCartney, e a bondgirl interpretada pela belíssima Jane Seymour (de “Em Algum Lugar do Passado”), até hoje lembrada como uma das mais apaixonantes parceiras do herói.
Dirigido por Guy Hamilton, que já havia capitaneado a aventura anterior, este filme trás uma trama que envolve 007 colocando-se em oposição à uma organização criminosa sediada no Caribe, cujo vilão (Yaphet Kotto, de “Alien-O 8º Passageiro” e alguns filmes da blaxploitation) usa um braço mecânico como arma.

007 Contra O Homem da Pistola de Ouro (1974) –Para a segunda aventura de Roger Moore no papel, foi escolhido um antagonista no capricho: O imponente Christopher Lee, àquela altura da carreira já bastante especializado em interpretar vilões, no papel de Scaramanga.
O par romântico da vez era a bela sueca Britt Ekland (que havia sido casada com Peter Sellers e pôde ser vista, um ano antes, em “O Homem de Palha”, também ao lado de Christopher Lee).
O aspecto mais marcante de “O Homem da Pistola de Ouro”, porém, foi a ruptura entre o produtor Albert Brocolli (que prosseguiu sozinho com os direitos da franquia) e seu sócio Harry Saltzman, o quê provavelmente ressaltou ainda mais o caráter de “filme-pipoca” das produções. Ele insistiu no inglês Guy Hamilton como diretor, tendo também realizado os dois filmes anteriores (além daquele que é, para muitos, o molde com o qual todos os filmes de Bond são comparados, “007 Contra Goldfinger”).

007 O Espião Que Me Amava (1977) –Em seu terceiro filme como Bond (já bastante à vontade no papel), ficou claro que o humor inofensivo e leve era a grande contribuição (se é que se pode chamar assim...) de Roger Moore para o papel, substituindo a ironia de Connery, por deboche. Este “Espião Que Me Amava” tanto é prova cabal disso que, em muitos aspectos, sua trama lembra os desdobramentos de uma comédia romântica (!), ao colocar James Bond em meio à um hesitante e relutante romance com uma agente russa (interpretada pela bela Barbara Bach); vale lembrar que, nessa época, a Guerra Fria ainda era uma realidade, e o antagonismo entre os dois agentes criava uma circunstância ao estilo “Romeu & Julieta”.
Para que esses elementos funcionassem a contento, o produtor chamou Lewis Gilbert para dirigir, que tinha feito um bom trabalho em “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes”, ainda na fase Sean Connery.

007 Contra O Foguete da Morte (1979) –O mais fraco filme protagonizado por Roger Moore e, provavelmente, o mais fraco dentre todos os filmes oficiais de James Bond (quis o destino que o pobre Lewis Gilbert encerrasse sua boa passagem pela série com esta mancha em sua carreira...), a trama pega carona na febre de “Star Wars” que tomava o mundo de assalto. Disposto a acompanhar tais “tendências de mercado”, o produtor Albert Brocolli coloca Bond no espaço sideral, naquele que deve ser o mais irrisório dos roteiros da série.
Um milionário francês, com pretensões maquiavélicas envolvendo a apropriação indevida de um satélite ao redor da Terra, faz com que Bond, em sucessivas investigações venha para o Brasil, antes de acabar indo para o espaço.
Várias más decisões simultâneas ainda sabotam o projeto: O retorno de Richard Kiel –que havia feito sucesso como o capanga de vilão, Jaws, no filme anterior –parece somente uma forma picareta de capitalizar em cima de algo que deu certo por acaso; sua participação no filme é mal explicada e aleatória.
Para piorar: A seqüência em terras brasileiras, onde é encenada uma festa de carnaval pelo qual Bond acaba perambulando, é pífia e mal feita.

007 Somente Para Seus Olhos (1981) –Com a chegada dos anos 1980, chegava também um certo desgaste ao então intérprete de James Bond: É mais ou menos a partir deste filme que percebe-se que Roger Moore (talvez, mais ocupado em sua função na vida real como embaixador da U.N.I.C.E.F.) tinha menos tempo de cena do que seus próprios dublês!
De qualquer maneira, ainda havia algo de interessante neste filme inesperadamente mais voltado para seus lances de roteiro do que para a pirotecnia de seus efeitos visuais, talvez uma inclinação no novo diretor John Glenn.
Acompanhamos as conseqüências do ato de um vilão oportunista (Topol, de “Um Violinista No Telhado”) que rouba uma máquina decodificadora das mãos da Inteligência Inglesa e se dispõe a passá-la para os russos.
Aqui, a bondgirl é a angelical Carole Bouquet (de “Esse Obscuro Objeto do Desejo”) e o diretor, o tarimbado Glenn. A outra bondgirl, curiosamente, é interpretada pela falecida Cassandra Harris, casada na época (veja só!), com Pierce Brosnan que viria a ser 007, catorze anos depois.

007 Contra Octopussy (1983) –O produtor Brocolli pareceu apreciar o trabalho do diretor John Glenn na produção anterior, tanto que, além de comandar este daqui, Glenn seria o diretor dos próximos três filmes de James Bond (incluindo dois que não mais contariam com Roger Moore, mas sim com o novo escolhido, Timothy Dalton). A única ocasião em que um diretor tornaria a ser chamado para trabalhar simultaneamente na franquia ocorreria trinta anos depois, quando Sam Mendes iria realizar “007-Operação Skyfall”, em 2012 e “007 Contra Spectre”, em 2015 (Claro, sem contar Martin Campbell que dirigiu o primeiro filme de Pierce Brosnan, “007 Contra Goldeneye”, em 1995, e onze anos depois, em 2006, realizou o primeiro de Daniel Craig “Cassino Royale”).
Voltando ao filme em questão, a trama mostra Bond às voltas com uma ladra sofisticada e engenhosa que roda a Europa perseguindo tesouros escondidos do último czar russo, a ardilosa Octopussy (interpretada por Maud Adams). São evidentes aqui as inspirações –não só para a trama e seus desdobramentos, como também para as cenas de ação –dos produtores nos filmes de grande sucesso de Indiana Jones (que, por sua vez, foram inspirados nas primeiras aventuras do próprio James Bond, como reconheceu em entrevistas o diretor Steve Spielberg!).
Ainda que divertido, “Octopussy” tem o infortúnio de trazer Roger Moore sem um pingo de constrangimento naquele que é um dos momentos mais degradantes para Bond na opinião dos fãs: Quando 007, para se disfarçar, pinta a cara e se veste de palhaço!

007 Na Mira dos Assassinos (1985) –O último filme de Roger Moore no papel trazia, uma vez mais o diretor John Glenn, cuja postura de trabalho parecia estar em sintonia com a do produtor Albert Brocolli.
Buscando uma pegada mais atual, distanciando-se assim dos conceitos clássicos de filmes de espionagem que nortearam sobretudo os primeiros títulos, protagonizados por Sean Connery, este filme acompanha as tentativas de Bond em deter a sanha de um terrorista (Christopher Walken, mais um especialista em vilões) que quer destruir o Vale do Silício, e monopolizar assim o emergente mercado mundial de informática.
Duas bondgirls bem interessantes marcam presença: A exótica e carismática Grace Jones, e a esplêndida Tanya Roberts –ambas, roubando completamente a cena do já combalido Roger Moore.
Talvez, tenha sido por esses (e certamente, por outros) motivos que este foi seu último filme como 007, encerrando os doze anos em que ele interpretou Bond e, para o bem e para o mal, definiu uma nova característica ao personagem para toda uma geração.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Hobbit

Após o sucesso sem precedentes de crítica e bilheteria da Trilogia “Senhor dos Anéis”, no início da década de 2000, era inevitável que a atenção de Hollywood em geral, e dos produtores na franquia em particular, se voltassem para as outras obras de J.R.R. Tolkien, sobretudo para “O Hobbit”, um prelúdio literário para “O Senhor dos Anéis” com um tom ligeiramente mais leve, mais próximo de um conto infantil.
O diretor vencedor do Oscar (justamente por “O Retorno do Rei”) Peter Jackson, logo depois de dois projetos um pouco pessoais (a refilmagem de “King Kong”, sobre a qual já foi falado, e a adaptação de “Um Olhar do Paraíso”), resolveu se dedicar à roteirização e à produção dessa nova obra, deixando a direção inicialmente à cargo de Guilhermo Del Toro.
Mas o quê começou como o projeto de um único filme, não só tornou-se dois (e depois três!), como também consumiu um tempo longo de gestação, provocando o afastamento de Del Toro, e levando assim, Peter Jackson a assumir novamente a direção.
O quê nos leva, assim, ao primeiro filme desta Trilogia “Hobbit”, “Uma Jornada Inesperada”.

Voltamos à Terra Média, desta vez, cerca de sessenta anos antes dos eventos narrados nos outros filmes (o quê não impediu os roteiristas de usar alguns recursos para garantir a participação de Elijah Wood –o Frodo –e de outros membros do elenco de “Senhor dos Anéis”, como veremos mais adiante).
Junto de seu querido sobrinho Frodo, o hobbit Bilbo Bolseiro (no início, interpretado pelo mesmo Ian Holm, mas na juventude, interpretado magnificamente por Martin Freeman, o Watson da série inglesa “Sherlock”) relembra um marcante episódio de sua juventude, quando fora recrutado pelo mago Gandalf (Ian McKellen) –que mais tarde se tornaria seu grande amigo –ao lado de uma comitiva de anões, para uma empreitada rumo ao reino-anão de Erebor usurpado pelo dragão Smaug.
Pelo caminho, eles encontram perigos e toda a sorte de seres mágicos habitantes da Terra Média, bem como personagens que serão fundamentais no desenrolar da aventura a ser vivida futuramente pelo próprio Frodo. Como prelúdio da inesquecível trilogia cinematográfica assinada inclusive pelo mesmo Peter Jackson, era inevitável que “O Hobbit” despertasse interesse no público, o quê se refletiu na boa bilheteria.
Contudo, as platéias que foram conferi-lo no cinema não deixaram de notar que, embora sensacional e cheio de momentos de encher os olhos, este filme não era uma experiência à altura de "Senhor dos Anéis".
A saída de Guilhermo Del Toro removeu justamente o elemento que poderia trazer todo o frescor diferencial para este projeto.

Na continuação, "A Desolação de Smaug", reencontramos o grupo já muito próximo do reino de Erebor.
Bilbo acompanhado de Gandalf, bem como do outrora rei, Torin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) e toda sua comitiva de anões, chegam à Floresta das Trevas, reduto de um reino elfico protegido por um certo Legolas (Orlando Bloom, outra presença resgatada da trilogia anterior). Logo, essa jornada repleta de perigos os levará à esplendorosa Cidade do Lago e depois disso, ao reino-anão que um dia foi do pai de Torin, agora ocupado por uma fera cuja periculosidade o tornou uma lenda: o terrível dragão Smaug.
Jackson deu um ritmo mais dinâmico a este segundo filme, certamente numa reação às críticas não muito positivas dirigidas ao primeiro filme, considerado mais enrolado e disperso.
Todavia, o grande mal que acometeu essa nova trilogia –e que se torna particularmente explícito aqui –é de natureza prática: “O Senhor dos Anéis” era uma trilogia de livros convertida sabiamente numa trilogia de filmes. Já, “O Hobbit” era um único filme, com uma história até mais leve que o épico protagonizado por Frodo, a decisão de estendê-lo todo em uma nova trilogia –com cada capítulo ultrapassando, com margem, as duas horas de duração –exigiu que muito material adicional (e com freqüência, desnecessário) fosse feito, resultando numa produção que tenta desesperadamente replicar os valores admiráveis de produção da trilogia anterior, mas que parece ignorar o fato de que tudo o mais é “encheção de lingüiça”!

O último filme recebeu o pomposo (e estranhamente impróprio) título de “A Batalha dos Cinco Exércitos”.
O dragão Smaug escapa da fortaleza de Erebor (deixando suas riquezas para Torin e seus amigos), mas oferece uma ameaça sem precedentes aos moradores da Cidade do Lago. Depois, com o dragão morto e suas moradias destruídas, os habitantes irão recorrer ao restituído rei anão –auto intitulado “Rei Sob A Montanha” –para receberem algum abrigo.
Mas, Torin está com a febre do ouro e falta com sua palavra, o quê faz com que, às portas de Erebor se reúna um exército de homens e outro de elfos a fim de se opor ao contingente de anões, liderados por sua vez, por Dain Pé de Ferro.
Todos serão surpreendidos pelas forças de orcs que trairão e atacarão a todos.
O interesse do expectador é, portanto, bastante comprometido quando se chega neste terceiro e derradeiro filme, no qual o pecado cometido por Peter Jackson (o de estender seu prelúdio de “O Senhor dos Anéis” além do necessário) se torna mais visível: Personagens inteiros, concebidos exclusivamente para esta versão cinematográfica, como Tauriel (Evangeline Lilly) e sua intrigante relação com um dos anões, não encontram qualquer respaldo da narrativa quando chega a hora de juntar todas as pontas soltas, o quê termina por comprometer o protagonismo de Martin Freeman (que, como Bilbo, parece estar mais perdido que surdo em bingo!), e por conseqüência, o antagonismo do rei élfico Thranduil (Lee Pace) e até mesmo do dragão Smaug (voz de Benedict Cumberbath).

O fiasco está longe de ser completo, mas ficou claro que nem mesmo a própria equipe original era capaz de reproduzir a magia que pulsava de “O Senhor dos Anéis”. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres

A segunda parte da "trilogia do anel" chegou aos cinemas um ano depois da primeira, desta vez, com a missão de manter o extratosférico nível de qualidade mantido por "A Sociedade do Anel".
Em grande parte, ele atingiu seu objetivo: "As Duas Torres" é uma experiência cinematográfica poderosa, onde as três horas que se seguem são tão habilmente preenchidas por sequências memoráveis que não há, absolutamente, o quê falar dele.
Mas, há sim, o quê se falar...
Talvez, seja o fato de ser o capítulo do meio (e, por conseguinte, não ter um início e nem ter um fim), mas a narrativa, pela primeira e talvez única vez em toda a saga sofre uma ligeira pressão no segundo terço -e é sabido que, devido à decisão de jogar muitos dos acontecimentos pertinentes ao livro para o terceiro filme, os roteiristas Phillipa Boyens, Fran Walsh e o próprio Peter Jackson, tiveram que criar material original que preenchesse a duração e não deixasse este filme não destoante em relação aos dois outros.
Na verdade, era uma decisão antiga que afetou este filme do meio: Quando levou a ambiciosa proposta de adaptar "O Senhor dos Anéis" à produtora New Line, oito anos antes, a ideia de Jackson e sua turma era simplificar as coisas adaptando toda a trilogia em dois filmes. Foram os próprios produtores quem sugeriram manter o formato original de trilogia, obringando-os a rever os roteiros que já estavam prontos.
O resultado trouxe ligeira irregularidade à este "As Duas Torres", embora isso não importe em nada: Comparado com qualquer outro filme, este daqui permanece sendo uma das obras mais bem acabadas do cinema, o quê só confirma o quão elevado foi o padrão de qualidade adotado para a trilogia.
Na trama, acompanhamos agora várias narrativas paralelas a partir do destino dos personagens que vimos se desenhar no filme anterior: Frodo e Sam, cada vez mais embrenhados no território de Sauron precisam contar com a traiçoeira ajuda de Gollum para chegar ao seu destino, mas ele almeja o anel mais do que qualquer coisa; Aragorn, junto do elfo Legolas e do anão Gimli, encontram os cavaleiros do reino de Rohan, e também uma crescente ameaça ao reino dos homens -a Batalha do Abismo de Helm, assim sendo, se aproxima lentamente; enquanto isso, os hobbits Merry e Pipin se vêem numa tremenda enrascada envolvendo o centenário ent, Barbárvore.
Em meio à uma interminável sucessão de momentos sensacionais, destaca-se a atuação digital de Andy Serkis como Gollum: Nada menos que inovadora!

O Chicote e O Corpo

Mario Bava possui uma postura das mais formais neste trabalho todo climático, impregnado por percepções de que o passado é, em determinada medida e circunstância, uma maldição que persegue os personagens.
Ambientado numa mansão campestre, lúgubre e desolada, que em tudo remete à “O Morro dos Ventos Uivantes”, Bava relata a história de maus-tratos, sofridos por uma família, de seu patriarca, cujo fantasma regressa aparentemente, para atormentá-los.
Em sua costumeira e confortável personificação de vilão, Christopher Lee aparece com um bronzeado tão atípico e bizarro que, conforme e iluminação em cena, parece até meio verde (!), o quê, aliás, parece proposital visto que é até ressaltado no cartaz da produção.
Não é de se duvidar que seja essa uma das muitas opções estéticas que Bava toma ao longo do filme (algumas francamente discutíveis), que ele narra com depurada lentidão a fim de preencher momentos silenciosos com o máximo de tensão.

Ainda que este não seja um de seus momentos mais inspirados, poucas vezes o sopro do vento, ao som diegético, pareceu tão opressor.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Star Wars - Episódio 3 - A Vingança dos Sith

Foi em 2005 que George Lucas lançou o Episódio 3, que amarrou em definitivo as pontas soltas de toda a saga concebida por ele, e que, por conta disso, foi o mais esperado de todos. Muitos eram os que tinham esperanças de que fosse, dentre os capítulos da nova trilogia, aquele que mais se aproximasse da “trilogia clássica”. 
Em parte, alguns foram recompensados: Este é, provavelmente, o melhor filme da nova trilogia. 
Outros, porém, não: Ele ainda padece de muitos problemas que acometeram os capítulos anteriores. 
As Guerras Clônicas transcorrem deixando profundas marcas em toda a galáxia. Os Jedi, numa manobra quase desesperada, estão prestes a encerrá-la ao caçar universo afora o hediondo e cibernético General Graivius. 
Mas a mente por trás de tudo,o Chanceler Palpatine, identidade do lorde de Sith, Darth Tyrannus, já tem outros planos: valer-se da fragilidade e desequilíbrio emocional do recém-consagrado jedi Anakin Skywalker, e convertê-lo para o lado negro da força. Feito isso, Palpatine terá nele um novo e poderosíssimo aprendiz, Darth Vader, que lhe proporcionará seu intento; converter a República Galáctica em seu Império. Único obstáculo no caminho de Palpatine e Darth Vader, os cavaleiros Jedi devem então ser eliminados, o que leva Vader e seu ex-mestre, Obi-Wan Kenobi, a um duelo devastador e que definirá os rumos da história.
Não há dúvida de que as tramas convergem para este derradeiro (e bastante sombrio) capítulo, e ele alcança relativo sucesso em amarrá-las, tornando coesa a trama de toda a saga como um todo. O grande problema é o gosto amargo que fica na boca ao pensarmos que quase toda uma trilogia de filmes foi desperdiçada, com argumentos bastante pífios, para concretizar esse objetivo.
George Lucas emoldurou seus novos "Star Wars" com toda a parafernália que  fazia o figurino de seus filmes inaugurais: E que passaram a definí-los desde então -a tecnologia de ponta com a qual se materializou imagens inacreditáveis de uma galáxia muito distante, seus personagens alienígenas e seus vastos e diversos lugares. Mas o mesmo George Lucas cometeu o erro de achar que esse era o cerne de "Star Wars" quando na verdade não passa de sua moldura. A trilogia terminou ausente de empatia com seu personagem principal -Anakin Skywalker -e desprovida da identificação poderosa que a "trilogia clássica" obteve em todos os âmbitos de seu tempo.
Uma lição preciosa que o diretor J.J. Abrahams, felizmente, soube aplicar com bom senso e primor irrestrito no fabuloso Episódio 7.