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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Duna


 O clássico da ficção científica concebido por Frank Hernert foi –e até prova em contrário, continua sendo –uma espécie de desafio para o cinema: Poucas obras enfrentaram tantas dificuldades para ser adaptada (em grande medida, por sua complexidade, pelo gigantismo de sua premissa, incapaz de ser simplificada, e pela difícil conjugação entre uma obra comercialmente viável e artisticamente concisa), gerando ao longo dessas tentativas, exemplares inusitados que, em sua maioria, geraram polêmica entre os expectadores.

Há, entre esses, o esforço lendário de Alejandro Jodorowsky em meados dos anos 1970, cujos contratempos, ambições, planos, ideias e frustrações (culminando no abandono do projeto) foram compilados e registrados no formidável documentário lançado em 2013 por Frank Pavich.

Algo próximo de uma adaptação real de “Duna” só foi mesmo perpetrada –e ganhou as telas de cinema –em 1984, quando o produtor Dino De Laurentis e o diretor David Lynch uniram forças para tal empreitada. De Laurentis vinha de uma fase na qual ao produzir material de cinema hollywwodiano tentou de tudo um pouco (ao longo daqueles últimos dois anos, ele realizou o formidável “Na Época do Ragtime”, de Milos Forman, o bem-sucedido “Conan”, de John Milius, a irregular refilmagem de “O Grande Motim”, “Rebelião Em Alto-Mar”, de Roger Donaldson, e o cultuado “A Hora da Zona Morta”, de David Cronenberg), já, David Lynch vinha de um projeto aclamado (“O Homem-Elefante”, seu primeiro trabalho para cinema depois do desafiador “Eraserhead”) e havia sido, por algum tempo, sondado pelo produtor George Lucas para dirigir “Star Wars-O Retorno de Jedi”, sendo preterido por Richard Marquant.

Talvez tenha sido esse episódio que incentivou David Lynch a experimentar a direção de uma ficção científica, aceitando pela primeira, e única vez em sua carreira, o comando de um projeto grandioso e endinheirado.

“Duna” começa –como os leitores do livro gigantesco de Herbert já poderiam supor –aos atropelos, deixando inúmeras informações literárias pelo caminho a fim albergar toda a trama numa obra de cento e trinta e sete minutos de duração: David Lynch insistiu numa edição bem mais extensa, refutada pelos produtores.

No planeta Arrakis, o Clã Atreides –do qual fazem parte o pai, Leto (Jürgen Prochnow), o filho Paul (Kyle Mac Lachlan, protagonista do filme e alter-ego de Lynch), e a mãe Jessica (Francesca Annis, de “Macbeth”) –assume o controle do lugar, tendo sobre si a desdenhosa supervisão de toda galáxia: Arrakis é o único planeta em todo o universo que fornece a especiaria Melange, um material essencial para a execução de viagens interplanetárias, pela capacidade que promove de fazer com que alguns cérebros atinjam uma elevação quântica, perceptiva e sensorial.

Entretanto, como é inerente a esse sistema feudalista espacial, os Atreides sofrem uma conspiração. Leto é assassinado, a família é deposta, restando à Paul e sua mãe refugiarem-se no grande deserto que envolve o planeta, morada do hostil povo nativo, os Fremen. Entre eles, Paul deve conquistar um lugar na tribo aprendendo a domar os Vermes, criaturas gigantescas sobre o dorso das quais os mais valentes Fremens são capazes de cavalgar.

Esses e outros percalços conduzem Paul a um duelo derradeiro contra o perigoso representante de seus traidores, Feyd-Rautha, vivido por Sting.

Turbulento em sua realização, errático na adaptação instintiva e frequentemente equivocada que faz do tomo de Frank Herbert –cujo excesso de detalhes, personagens, informações e sub-tramas representava um desafio a qualquer roteirista –“Duna” tem a seu favor a direção sempre inventiva e original de David Lynch e... nada mais.

As passagens pontuais da trama transcorrem com aleatoriedade maçante, e a ausência dos detalhes suprimidos em função da adaptação enfraquecem a relevância de tudo o que foi preservado. O expectador que adentrar o conceito idealizado por Herbert unicamente baseado na produção de De Laurentis e Lynch corre o sério risco de julgar que “Duna” não passa de uma obra estranha, inconstante e incoerente, e não o marco referencial do gênero que ele de fato é.

Após a mal-fadada repercussão do “Duna” de David Lynch, o livro ainda tentou ser adaptado numa pra lá de mediana minissérie do canal SyFy no ano 2000 que, se por um lado preservava a riqueza de detalhes do livro com seus duzentos e sessenta e cinco minutos de duração, por outro falhava miseravelmente no quesito primor narrativo.

Ainda durante esta pandemia pode haver uma esperança para a realização de Frank Herbert ganhar uma adaptação merecidamente válida: O diretor canadense Denis Vileneuve (em quem até hoje os cinéfilos do mundo inteiro não se arrependeram de depositar a confiança) prepara uma nova versão, desta vez, dividida em dois vultuosos longa-metragens.

Aguardaremos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei Versão Estendida

É possível uma obra já tida por impecável elevar ainda mais seu altíssimo padrão de qualidade? Esta é a difícil pergunta que as Versões Estendidas de “O Senhor dos Anéis” se atreveram a responder com uma audaciosa resposta afirmativa.
No capítulo final, “O Retorno do Rei”, algumas dessas cenas novas foram filmadas depois que o filme ganhou 11 Oscars na histórica cerimônia de 2004, o que não as impede de, pelo menos, conferir um aspecto esclarecedor a muitas passagens em alguns momentos.
Não há, contudo, razão para os pessimistas temerem, o filme majestoso, arrojado e inigualável que tomou o mundo de assalto continua lá: Após as duras provações experimentadas em “As Duas Torres”, o hobbit Frodo Bolseiro (Elijah Wood), ao lado de seu filme companheiro Sam (Sean Astin) adentra a etapa derradeira, e mais arriscada, de sua jornada, quando está por penetrar no território obscuro, maligno e infestado de perigos conhecido como Mordor. Não é só: Cada vez mais prejudicado em seu juízo perfeito pela influência do anel, Frodo rejeita a amizade sincera de Sam para cair nas armadilhas morais de Gollum (Andy Serkis, numa aula de interpretação virtual), cujo plano é entregá-lo de bandeja à horripilante aranha gigante Laracna, numa das mais espetaculares cenas do filme (e do cinema).
No outro núcleo de protagonistas, vemos Aragorn, Legolas, Gimli e Gandalf encontrarem Merry e Pippin, depois dos desencontros do filme anterior –é nesse momento que presenciamos uma das mais festejadas cenas da versão estendida, quando Gandalf, convertido em um mago branco, se depara com Saruman (Christopher Lee) e o confronta; certamente uma cena que foi um pecado ter sido tirada da versão de cinema.
O filme se ocupa de mostrar os desdobramentos desses personagens: Gandalf e Pippin seguem para a Cidade Branca de Gondor (um prodígio de efeitos visuais e direção de arte claramente reservado com zelo para aparecer apenas neste filme) onde devem alertar o esclerosado regente Denethor (John Noble) da chegada iminente de um exército incalculável de orcs; em Rohan, o Rei Théoden (Bernard Hill) e sua sobrinha Eowin (Miranda Otto) reúnem o exército dos rohimin para tentar impedir que a raça dos homens seja subjugada em definitivo pelas forças de Sauron; já, Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies), numa missão diferente, devem invadir catacumbas amaldiçoadas para reivindicar o auxílio de guerreiros fantasmas na grande guerra por vir, guerreiros estes que só responderam ao próprio herdeiro do Rei Isildur, e legítimo rei de Gondor, papel do qual Aragorn já não tem mais como fugir.
Essas subtramas –preenchidas com uma infinidade de cenas grandes ou pequenas que lhes acrescentam novas impressões –convergem, primeiro, na grandiloquente Batalha dos Campos do Pelenor, uma das grandes sequências épicas do cinema moderno, e depois, no enfrentamento final à Sauron e aos orcs, às portas de Mordor, quando Frodo, Sam e Gollum chegam ao ápice de sua conflituosa relação –e o bem e o mal encontram uma das personificações mais complexas, cativantes e visualmente estarrecedoras de seu eterno conflito.
Há beleza indescritível, inesgotável e inatacável em “O Retorno do Rei” –acredite, cada fotograma de sua cinematografia é um wallpaper! –e sua Versão Estendida tão somente fornece um novo e requintado ângulo para apreciá-la; no equilíbrio tão improvável quanto inacreditável de elementos íntimos com predicados épicos e grandiosos, e na obra de perfeição comovente que é obtido, “O Retorno do Rei” representa o final esplendoroso de uma das grandes sagas de nosso tempo, o auge do talento artístico de Peter Jackson e o ápice qualitativo nas telas de cinema das últimas décadas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres Versão Estendida

Pode-se afirmar que o capítulo do meio da formidável “Trilogia do Anel” é aquele que mais muda na comparação da versão de cinema com sua versão estendida.
O mais controverso dos três filmes por parte de algumas decisões criativas de seu diretor Peter Jackson –utilizar seu prólogo dramático no final do primeiro filme e jogar o antológico momento da aranha gigante para a terceira parte –“As Duas Torres” é aquele no qual o material original produzido pelos roteiristas (além de Jackson, Fran walsh, Phillippa Boyens e Stephen Sinclair) mais se expressa: Nele, vemos sub-tramas mais simplórias na versão literária ganhar ênfase e profundidade, além de algumas licenças poéticas que incrementam certas dinâmicas entre os personagens; sendo a mais gritante, a paixonite contumaz de Ewin (Mirando Otto) por Aragorn (Viggo Mortensen).
Por falar nele, Aragorn, com o acréscimo de novas linhas à trajetória empreendida por ele, Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) ao fim de “A Sociedade do Anel”, acaba adquirindo um protagonismo que toma o lugar central de Frodo (Elijah Wood) nesta narrativa –ele que era sem dúvida o protagonista do filme anterior, mas, que voltará a ser protagonista do filme posterior.
Neste épico monumental, desprovido de começo e de fim pela força dessas circunstâncias, a direção de Jackson relata assim três linhas narrativas paralelas originadas do dramático desfecho da primeira parte: Na primeira, Frodo e Sam (Sean Astin) adentram as regiões mais ermas e obscuras em seu caminho árduo rumo à Mordor; enquanto Frodo adentra também, num nível mais íntimo, áreas ainda mais sombrias de sua condição espiritual graças à influência maléfica do poderoso anel que deve destruir. Exemplo radical do mal provocado pela corrupção do anel, a criatura Gollum (Andy Serkis, brilhante) passa a acompanhá-los com a promessa de ser-lhes um guia –embora, lá no fundo, sua mente distorcida almeje traí-los.
Na segunda linha narrativa, os hobbits Merry (Dominc Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), cativos dos perversos orcs, são levados por eles até o traiçoeiro mago branco Saruman (o saudoso Christopher Lee) até serem interceptados no meio do caminho, levando os pequeninos a ficar sobre a guarda de Barbárvore, uma criatura conhecida como ‘ent’ –árvores ambulantes que representam um dos muitos assombros em efeitos visuais que o filme entrega.
E finalmente, na terceira linha, Aragorn, Legolas e Gimli, comprometidos na tentativa de resgatar Merry e Pippin, terminam por acabar deixando de lado essa missão para juntarem-se aos homens do reino de Rohan, cujo Rei Théoden (Bernard Hill, de “Titanic”) e seu povo se veem ameaçados de genocídio pela sanha de Saruman e sua horda de orcs, o que culmina na longa, violenta e arrebatadora Batalha do Abismo de Helm.
De modo geral, as inúmeras cenas novas que aparecem neste corte –e que se mostram intensas na sua primeira metade, praticamente desaparecem durante do clímax (prova do quão satisfeito Jackson ficou com o resultado) e voltam em um ou outro momento já no epílogo, pela primeira vez mostrando resultados não tão harmoniosos –reforçam as características shakesperianas deste capítulo da “Trilogia do Anel” em especial: Nos monólogos intensos do elenco, sobretudo, no núcleo que inclui os cavaleiros de Rohan, como o Rei Théoden, Eomer (Karl Urban), Eowin e Grima Língua de Cobra (Brad Dourif, de “Um Estranho No Ninho”); e também nas gratificantes cenas de flashback que ampliam a presença de Boromir (Sean Bean, magnífico) e agregam novas camadas ao personagem de seu irmão, Faramir (David Wenham, de “300”).
Tais considerações enfatizam o objetivo de Jackson e toda sua equipe em alcançar o mais alto nível cinematográfico e artístico possível, e ratificam o fato, já nítido e evidente na época do lançamento em cinema, destas produções estarem entre as grandes obras de cinema de todos os tempos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Pulse


Ao se aventurar por uma refilmagem de “Kairo”, de Kyioshi Kurosawa, é necessário uma certa displicência dos realizadores para ignorar as raízes essencialmente autorais e culturais que definiam aquele trabalho. Entretanto, não é difícil concluir que o grande apelo de público que as obras de terror japonesas da década de 1990 (assim como suas refilmagens) possuíam falou mais alto que a sensatez.
Da forma como pode, “Pulse” (que conta com o especialista em terror, Wes Craven, como um de seus roteiristas) busca americanizar a premissa do filme original japonês. Se nele, a solidão e o isolamento acarretados pela tecnologia adquiriam facetas abissais de escuridão –e nelas se entrevia uma reflexão pertinente dos novos tempos –este novo filme paira superficialmente sobre tais aspectos, aproveitando toda e qualquer deixa para compor cenas aterrorizantes embaladas em efeitos especiais e reflexos involuntários do gênero de terror norte-americano. Sem o contexto adequado, porém, essas cenas são vazias de resultado.
A jovem Mattie (Kristen Bell) fica perplexa quando um namoradinho envolvido com informática se suicida em circunstâncias um tanto estranhas.
Contudo, mensagens continuam sendo enviadas pelo computador dele. Ao investigar, Mattie descobre que ele foi vendido –por uma camareira interpretada por Octavia Spencer antes do Oscar por “Histórias Cruzadas” –para um jovem mecânico chamado Dexter (Ian Somerhalder, das séries “Lost” e “Vampire Diaries”).
Pouco a pouco, os dois vão se dando conta de algo muito errado com o mundo e a sociedade –e que está diretamente relacionado aos efeitos isolantes da tecnologia.
Sem fazer uso de muitas das tramas paralelas que amplificavam a aflição em “Kairo” –e em vez disso, empregando o conjunto de personagens que vão além do casal protagonista como meras vítimas consecutivas da maldição no estilo ‘slasher’ –o filme avança na sua história, munido de uma fotografia tão opressora quanto monocromática, em direção ao clima pós-apocalíptico do original sem, no entanto, aprofundar a mensagem subliminar da qual ele se originou.
Na mitologia que “Pulse” tenta construir, o mal não é uma condição irreversível da humanidade e de seu caminho em direção a um fim, mas sim um vírus de computador que se materializa como um inimigo tangível e, quem sabe, neutralizável (e, para isso, “Pulse” teve duas continuações!) –a exemplo quase de um “Jason” ou de um “Freddy Krueger” (não por acaso, criação de Wes Craven) –e cuja origem e ‘modus operandi’ ganha todas as explicações e esclarecimentos que o filme de Kurosawa mantém no terreno da sugestão.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Alien - A Ressurreição

Inesperada continuação de "Alien 3",já que a tenente Helen Ripley morre no final daquele filme. Aqui, ela desperta algumas centenas de anos depois, clonada no futuro. Mas junto com ela, foi clonado também o alien que a usava como hospedeiro.
Os belos trabalhos realizados pelos outros diretores nos filmes anteriores sofrem um ligeiro abalo com a entrada do francês Jean Pierre Jenaut (que ao lado de seu colaborador Marc Caro realizou "Delicatessen" e "Ladrões de Sonhos", obras extremamente surreais e de orientação artística e, anos mais tarde, dirigiu o grande sucesso francês “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”). Na visão de Jenaut, a saga efetivamente amedrontadora e essencialmente sombria dos aliens ganha um viés de aventura intergaláctica, enfatizada na presença de uma trupe de “piratas espaciais” com sua superficial diversidade e senso de humor plural –e pensar que o estúdio se mostrou tão avesso ao bom resultado da direção de David Fincher no filme anterior.
Jenaut impõe uma atmosfera simbólica diferente de toda a orientação obedecida pelos filmes anteriores, onde os aliens aparecem expostos em planos definidos de detalhes e sob uma iluminação minimalista (ao contrário da predominante escuridão dos outros filmes) em uma trama repleta de personagens esquisitos e cheios de segredos –sem contar que é o primeiro deles onde Sigourney Weaver (aqui ainda creditada como produtora) não aparece com sua habitual excelência como Ripley, muitas vezes soando até caricata e exagerada.

O filme ainda mantém o alto padrão técnico da saga, mas perde, e muito, para os outros.

sábado, 24 de junho de 2017

Mississipi Em Chamas

Pense nas melhores atuações da carreira de Gene Hackman. Pense no mais tenso filme policial. No mais brutal retrato do racismo. Agora coloque tudo em um só filme. Foi isso que o diretor Alan Parker basicamente fez neste antológico “Mississipi Em Chamas”.
Durante os anos 1960, nas rigidamente segregadas comunidades sulistas do Mississipi, três jovens estudantes idealistas (dois brancos e um negro) são assassinados. Para solucionar o caso que esbarra diretamente no predominante racismo local são designados dois agentes do FBI, um jovem e comprometido com as leis, as autoridades e a ética (Willen Dafoe, num trabalho admirável), e outro veterano, acostumado aos meandros nem sempre corretos, necessários para resolver um crime (Gene Hackman, estupendo).
Os dois batem de frente com a corrupção vigente no sistema local (e que, em função da natureza dos homicídios, revela-se um obstáculo ainda maior para o cumprimento da lei), com a complexidade da elucidação do que exatamente ocorreu e com a forte segregação sulista que não raro desemboca em ocorrências violentas.
Concebido nos anos 1980 –época provavelmente do auge criativo do diretor –e amparado numa alarmante história real (a partir da qual a produção elaborou um trabalho com poderosas inclinações de um cinema à moda antiga), este filme policial mostra-se brilhante nos mais diversos aspectos, a começar pelo fenomenal contraponto entre a interpretação de Gene Hackman e a caracterização bastante dedicada de um ainda jovem Willem Dafoe.
Em meio às imagens vigorosas captadas pela fotografia magistral (ganhadora do Oscar), o diretor Parker registra então uma série de embates: O novo contra o antiquado (e, em sua orientação de propósito, ele parece beneficiar a eficácia dos veteranos), a segregação contra a conciliação, a violência contra a racionalidade, enfim, a lei contra o crime.
Podem argumentar que existe uma série de opções de ordem demagógica que norteiam sua realização (sobretudo, no que diz respeito ao desfecho bem-sucedido das investigações oposto ao que aconteceu na realidade), mas não há como questionar a excelência cinematográfica que é atingida aqui.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Portal do Paraíso

O sonho da Nova Hollywood, no qual diretores essencialmente autorais adquiriram liberdade para moldar projetos comerciais a seu bel-prazer, durou até o início da década de 1980, quando Michael Cimino expressou sua intenção de realizar um poderoso faroeste revisionista com pretensões não só de rever paradigmas do próprio gênero, como também de firmar-se como uma obra de alcance técnico e logístico sem igual.
Sobre muitos aspectos, Cimino alcançou tal objetivo ainda que a repercussão negativa atroz de todo o fracasso comercial decorrido de sua iniciativa tenha tirado as atenções da qualidade do filme.
Mas, vamos analisar essa questão com mais calma.
A partir de um roteiro de sua própria autoria (forma como estava habituado a trabalhar, vide o oscarizado “O Franco Atirador”), Cimino obteve um orçamento volumoso da United Artists para tocar um projeto que prometia ser um dos grandes filmes do cinema. Mas, seu orçamento revelou-se insuficiente a medida que as gravações –repletas de contratempos e movidas com irrestrita personalidade por Cimino –foram avançando: Cenários caríssimos eram construídos e reconstruídos; cenas eram rodadas exaustivamente pela equipe técnica até que seu exigente diretor se desse por satisfeito; o clima oscilante do estado do Wyoming, onde foram feitas as gravações dificultava a já difícil tarefa de realizar o filme; e o prazo para a entrega do filme ia sendo esticado a medida que as complicações se somavam.
As filmagens só não foram encerradas porque Cimino e seu material gozavam de assombrosa confiança da parte de seus produtores e investidores –fruto justamente da mentalidade produtiva da Nova Hollywood que predominava da época.
Quando finalmente foi lançado, “O Portal do Paraíso” pegou todos de surpresa revelando-se um frustrante fracasso de bilheteria: O público não parecia disposto a comprar uma obra que voltava um olhar amargo para os desbravadores do Velho Oeste enquanto ratificava toda a dor e os revezes opressores à que foram expostos, ainda que isso se desse por meio de um trabalho de inquestionável brilhantismo cinematográfico.
1890. Tornado xerife de um vilarejo composto por imigrantes, o outrora fidalgo James Averill (Kris Kristoferson) busca proteger os habitantes desamparados de uma inevitável chacina quando uma lista de morte incluindo quase todos eles vai parar nas mãos de um grupo de assassinos de aluguel a mando de ricos proprietários de gado, ao mesmo tempo em que se envolve num triângulo amoroso com a prostituta Ella (Isabelle Huppert, linda) e o matador e arrivista Nathan Champion (Christopher Walken).
Tentando contornar a repercussão do problema, os produtores infligiram cortes que diminuíram a metragem do filme (supostamente para torná-lo mais viável comercialmente já que suas três horas de duração reduziam o número de exibições nos cinemas por dia) e tornaram o roteiro épico de Cimino, carregado de audaciosas considerações políticas, uma sucessão de incoerências.
O resultado levou à falência da United Artists (que não arrecadou nem uma fração do orçamento gigantesco gasto com o filme) e sua compra pela MGM.
Em seu filme seguinte (o espetacular “O Ano do Dragão”), Cimino já não tinha a mesma liberdade: O projeto foi conduzido com mão-de-ferro e atenção canina da parte de seu produtor, Dino De Laurentis, para com os possíveis excessos de seu realizador, numa prática que terminou encerrando o movimento da Nova Hollywood e definiu o sistema com que os estúdios lidariam com seus autores a partir dali.
O quê sobra em “O Portal do Paraíso” hoje, quando toda a comoção em torno de suas catastróficas conseqüências já foram devidamente digeridas, é um trabalho impressionante, dono de um estilo visual e narrativo que somente um mestre indomado e incorrigível como Cimino se atreveria a materializar na tela.

sábado, 13 de agosto de 2016

Veludo Azul

Se o vermelho sinaliza, no cinema de David Lynch, a ilusão, ou a possível presença dela, então o azul, em geral, costuma significar a deturpação moral, a corrupção.
E tudo, nesta obra inigualável de David Lynch é passível de corrupção: Ele é particularmente feliz na criação de uma atmosfera na qual as imaculadas casas com jardim da classe média norte-americada da década de 1980 está a mercê de um mundo mais sombrio que espreita nas sombras. Um mundo que o jovem Jeffrey (Kyle MacLachlan) irá conhecer.
Numa cidadezinha suburbana dos Estados Unidos, ele encontra por acaso uma orelha humana num matagal. Após levar tal achado para a polícia, ele inicia pessoalmente uma gaiata investigação, aliada à ingênua, angelical e curiosa filha do delegado local, Sandy (Laura Dern). As pistas que obtém a partir daí o levam a conhecer Dorothy (Isabella Rossellini), uma cantora de boate vitimizada física e psicologicamente por um perigoso psicopata, Frank (Dennis Hopper, surtado como nunca).
De imediato já se revela fascinante o jogo formidável de dualidades imposto por Lynch: Não só Sandy e Dorothy são contrapartes opostas da figura feminina arquetípica (e até facetas desiguais de uma mesma femme fatale), como os mundos que ambas habitam é de um contraste que ocasionalmente parece ser brutal.
Sandy inspira confiança e segurança, e sua qualidade é ser a namoradinha que Jeffrey gostaria de apresentar aos pais. Dorothy é a mulher madura e sexualmente permissiva que ele quer levar para a cama.
Uma, ironicamente, o empurra para o perigo, a outra o arrasta para dentro dele.
E, se há uma dedução que não se precisa fazer neste filme de Lynch, é a descontrução e reinvenção que ele promove, por conta disso, do que se subentende por fim noir: Até mesmo a concepção do irreal, perdidas nas décadas posteriores ao seu surgimento, quando o gênero começou a ser levado à sério, aparecem aqui, absolutamente apropriadas à um realizador como ele.
As intervenções de suspense deste clássico magnífico dos anos 1980 revelam no diretor David Lynch um hábil explorador de figuras bizarras e de cenas absurdas que por vezes beiram o inexplicável, como a alarmante postura dos dois homens semi-mortos no apartamento da heroína, já perto do final.

O filme é mórbido, perturbador até, mas também fascinante e envolvente, na maneira com que discute as percepções abstratas de trama e expectativa que seu diretor vai quebrando, uma a uma.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Um Estranho No Ninho

Muitos foram os habilidosos artistas estrangeiros trazidos para a América que levaram, através de seus filmes, um olhar incomum aos temas discorridos no cinema norte-americano. Nos anos 1970, um desses talentos foi Milos Forman.
Vindo de uma República Tcheca em convulsão política, ele deu continuidade, nos EUA, ao brilhante trabalho que ele já fazia em seu país natal, concebendo obras que tinham tudo a ver com o sentimento de uma agridoce contestação que predominava em sua obra.
“Procura Insaciável”, “Hair” e este “Um Estranho No Ninho” mostram, assim, uma progressão na qual ele avalia essa sua simpatia ao atrevimento ao mesmo tempo em que observava, de modo mais analítico, as engrenagens de poder que conduzem ao autoritarismo.
O micro-cosmos que serve à analogia de Milos Forman aqui é um hospital psiquiátrico onde os internos experimentam os mais diferenciados tipos de alienação social. Lá, tudo é controlado com rigor pela enfermeira-chefe (a intensa e introspectiva Louise Fletcher).
Até que um visitante, o instável McMurphy (interpretado com endiabrado entusiasmo por Jack Nicholson), questiona as normas vigentes por meio de seu comportamento indomável, e suas atitudes atrevidas. Isso inspira os outros pacientes a encontrar seu próprio inconformismo, ainda que por pouco tempo.
Não apenas Milos Forman e o grande Jack Nicholson estão inspirados neste trabalho: Há que se dar muito crédito a todo o restante do elenco (além de Louise Fletcher, lá estão Danny De Vito, Christopher Loyd e um jovem Brad Dourif), assim como ao fabuloso roteiro de Lawrence Hauben e Bo Goldman cuja verve encontra um tom inédito para ponderar sobre instituições, mecanismos de comando e, paralelamente, de rebeldia.
Uma formidável reunião de talentos, portanto, como volta e meia acontece no cinema, de um primor tal que foi agraciado com cinco Oscars principais em 1975.
E que encerramento magistral para a história é aquele, hein?

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres

A segunda parte da "trilogia do anel" chegou aos cinemas um ano depois da primeira, desta vez, com a missão de manter o extratosférico nível de qualidade mantido por "A Sociedade do Anel".
Em grande parte, ele atingiu seu objetivo: "As Duas Torres" é uma experiência cinematográfica poderosa, onde as três horas que se seguem são tão habilmente preenchidas por sequências memoráveis que não há, absolutamente, o quê falar dele.
Mas, há sim, o quê se falar...
Talvez, seja o fato de ser o capítulo do meio (e, por conseguinte, não ter um início e nem ter um fim), mas a narrativa, pela primeira e talvez única vez em toda a saga sofre uma ligeira pressão no segundo terço -e é sabido que, devido à decisão de jogar muitos dos acontecimentos pertinentes ao livro para o terceiro filme, os roteiristas Phillipa Boyens, Fran Walsh e o próprio Peter Jackson, tiveram que criar material original que preenchesse a duração e não deixasse este filme não destoante em relação aos dois outros.
Na verdade, era uma decisão antiga que afetou este filme do meio: Quando levou a ambiciosa proposta de adaptar "O Senhor dos Anéis" à produtora New Line, oito anos antes, a ideia de Jackson e sua turma era simplificar as coisas adaptando toda a trilogia em dois filmes. Foram os próprios produtores quem sugeriram manter o formato original de trilogia, obringando-os a rever os roteiros que já estavam prontos.
O resultado trouxe ligeira irregularidade à este "As Duas Torres", embora isso não importe em nada: Comparado com qualquer outro filme, este daqui permanece sendo uma das obras mais bem acabadas do cinema, o quê só confirma o quão elevado foi o padrão de qualidade adotado para a trilogia.
Na trama, acompanhamos agora várias narrativas paralelas a partir do destino dos personagens que vimos se desenhar no filme anterior: Frodo e Sam, cada vez mais embrenhados no território de Sauron precisam contar com a traiçoeira ajuda de Gollum para chegar ao seu destino, mas ele almeja o anel mais do que qualquer coisa; Aragorn, junto do elfo Legolas e do anão Gimli, encontram os cavaleiros do reino de Rohan, e também uma crescente ameaça ao reino dos homens -a Batalha do Abismo de Helm, assim sendo, se aproxima lentamente; enquanto isso, os hobbits Merry e Pipin se vêem numa tremenda enrascada envolvendo o centenário ent, Barbárvore.
Em meio à uma interminável sucessão de momentos sensacionais, destaca-se a atuação digital de Andy Serkis como Gollum: Nada menos que inovadora!