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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A Hora do Pesadelo 3 - O Guerreiro dos Sonhos


 Dirigido por Chuck Russell (que depois faria o remake de “A Bolha Assassina” e, nos anos 1990, “O Máskara”), a terceira aparição de Freddy Krueger ganhou mais pontos na cotação dos fãs por contar, desta vez, com o roteiro assinado pelo próprio Wes Craven.

O filme também é a estréia no cinema da gracinha Patricia Arquette, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2015 por “Boyhood”. É com a personagem dela, Kristie, que tudo começa: A jovem é aterrorizada por Freddy em seus sonhos e –num reflexo contumaz dos filmes de terror –os adultos que deveriam zelar por ela, não acreditam em seus temores.

Ela termina despertando de um sonho com os pulsos cortados e, com isso, é encaminhada e internada num hospital psiquiátrico, onde muitas referências ao primeiro filme se sucedem, sendo a principal delas, o reaparecimento de Nancy, a mocinha do filme anterior vivida pela mesma Heather Langenkamp, agora uma pesquisadora de sonhos que auxilia a equipe médica a tentar entender tantos jovens lá internados que compartilham não só o temor pela mesma criatura que os persegue ao dormir, como também o fato de serem todos moradores e ex-moradores da Rua Elm (tal e qual a própria Nancy, como bem sabemos).

Relatando uma história mais contundente de origem –na qual descobrimos também a história em torno da mãe de Freddy, a freira Amanda Krueger (Nan Martin, de “Os Pássaros Feridos”) –o roteiro caminha, paradoxalmente, rumo a um pressuposto encerramento, oferecendo aos protagonistas (que aqui são o Dr. Neil, vivido por Craig Wasson, e o policial Thompson, pai de Nancy, também oriundo do primeiro filme, vivido pelo falecido John Saxon) uma oportunidade para dar cabo em definitivo do vilão, inclusive com a construção de uma equipe nos sonhos e o poder de destruí-lo, implícito em sua união.

Algo que terminou não acontecendo: Devido ao seu sucesso junto ao público, novas continuações se sucederam, apesar dos esforços de Wes Craven em dar à história de Freddy Krueger um ponto final.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A Hora do Pesadelo 2 - A Vingança de Freddy


 Para Wes Craven, o seu “Nightmare In Elm Street” seria um trabalho de autor, uma história com começo, meio e fim. Foi, na realidade, o pequeno estúdio New Line Cinema –o único que aceitou produzir seu roteiro –quem pressionou o diretor para realizar um final que preservasse pontas soltas a ventilar uma continuidade e a sugestão de uma franquia vindoura.

Dessa forma, no ano seguinte, a continuação (sem a colaboração de Craven) já estava engatilhada, sob o comando de Jack Sholder (do ótimo “Hidden-O Escondido”), mostrando uma nova família indo morar na mesma casa do filme original, ambientada na famigerada Rua Elm. O jovem Jesse termina sendo o novo alvo de Freddy Krueger que alimenta um plano: Possuir o corpo do garoto para então poder matar na vida real.

No entanto, se na aparência superficial, “A Hora do Pesadelo 2” preserva as estruturas básicas de um filme de terror, o roteiro a cargo de David Chankins lhes dá um respaldo curiosamente diferenciado: Estrelado por Mark Patton como Jesse (jovem ator que ficou marcado por este papel), a continuação agrega aos expedientes convencionais um subtexto homoerótico, no qual vemos o protagonista frequentar um bar gay, sofrer ao ter de transar com a namorada, gritar com voz afeminada e quase ser estuprado pelo treinador da escola (!). além da questão dele ter seu corpo ‘possuído’ por Freddy ser, aqui, uma circunstância toda ela subentendida.

Nesse sentido, “A Hora do Pesadelo 2” busca uma reinvenção dos códigos do gênero, onde havia sempre uma mocinha indefesa a prevalecer ante os horrores como a única sobrevivente; aqui é um mocinho indefeso...

Esse viés, presente neste trabalho como uma alusão de efeito alegórico em relação a uma discriminação generalizada perpetrada em Hollywood na época (o medo da AIDS gerou um processo da homofobia generalizado na primeira metade dos anos 1980), foi inicialmente refutado pelos realizadores, temerosos de serem, eles próprios, alvo de discriminação, e acabou sendo todo creditado à atuação de Mark Patton que, devido ao estigma, teve de abandonar a carreira.

Os percalços dessa sua trajetória e os bastidores inusitados dessa ideologia presente em “A Hora do Pesadelo 2” são mostrados, e por fim esclarecidos, no documentário “Screen, Queen! My Nightmare On Elm Street”.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A Hora do Pesadelo


 Fala-se que Wes Craven teve várias inspirações para a composição de Freddy Krueger e a tenebrosa história que o cerca: Algumas afirmações se referem à episódios da juventude de Craven –e que vieram assim a moldar seu gosto pelo cinema de terror –e outros até citam certas histórias reais, referentes a pessoas que morreram dormindo, ou psicopatas verídicos queimados vivos por grupos de pessoas indignadas.

Verdade ou não, a fusão de todos esses elementos realmente resulta na trama básica que emoldura o icônico antagonista deste lendário filme de terror dos anos 1980, composto de características marcantes que o levaram a representar toda uma franquia surgida a partir daqui, e a ocupar –ao lado de outros ícones do terror –um lugar de respeito na cultura pop.

O estopim para tal fenômeno –esta obra dirigida por Wes Craven –é um filme de terror eficaz em tudo que se espera de uma produção nesses moldes: Climático, amedrontador, enxuto, cheio de inventividade e de pequenas definições oriundas de outros sub-gêneros nos quais o terror havia, nas últimas décadas, se ramificado.

Há, em “A Hora do Pesadelo”, códigos plantados pelo cinema de John Carpenter em geral (“Halloween” em particular) nos quais identifica-se o perfil previamente estabelecido dos personagens que irão morrer e os que viverão até o final, a dicotomia ‘promiscuidade/morte certa’ que norteia a contagem de corpos do ‘slasher’, os expedientes de atmosfera e sanguinolência descobertos pelo giallo italiano (do qual o ‘slasher’ pode ser visto como uma variação) e, acima de tudo, o aproveitamento criativo e original dos temores infantis acerca do monstro no sonho ruim dotado de poder para nos perseguir e nos fazer mal também na vida desperta.

Tal monstro, aqui, é Freddy Krueger, personagem ao qual o ator Robert Englund dá uma identidade e uma peculiaridade que extravasam o já bem elaborado background presente em sua origem.

Ele afronta, em sonhos, a jovem Nancy (Heather Langenkamp) que percebe a autenticidade incomum naqueles pesadelos –Freddy, ela não tarda a concluir, é capaz de fazer mal a qualquer pessoa na realidade também. Os outros personagens ao redor dela, como é de praxe em inúmeros filmes de terror, não acreditam nela –entre eles, o namoradinho vivido por Johnny Depp, ainda em início de carreira.

Há, ainda assim, um propósito nos atos torpes de Freddy, na qualidade da assombração que ele é: Os membros da Rua Elm estão na sua mira, as pessoas descendentes de todos aqueles que, quando ele era vivo e matador humano de crianças, o executaram queimando-o vivo.

Mescla hábil e crua de um terror físico –o assassino que persegue suas vítimas com a pura e selvagem promessa de carnificina –com expedientes sobrenaturais –o aproveitamento dos sonhos é, no mínimo, instigante –“A Hora do Pesadelo”, sem ser necessariamente original, marcou o panorama dos filmes de terror dos anos 1980 ao entregar uma obra distinta a partir da conciliação inesperada e esperta de várias facetas distintas desse gênero.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Voo Noturno


 No princípio deste usual e frenético filme de Wes Craven vemos cenas que se seguem aparentemente destituídas de uma relação (ou não): Uma carga misteriosa aparece num carregamento náutico; uma carteira (com as iniciais JR) é roubada numa casa onde vemos fotos da personagem de Rachel McAdams; essa personagem, de nome Lisa, aparece num táxi a caminho do aeroporto, ávida por pegar o voo de volta à Miami, onde trabalha como gerente em um hotel cinco estrelas.

Como num hábil suspense concebido em torno das preciosas lições do mestre Alfred Hitchcock, as impressões aleatórias dessas cenas iniciais logo desaparecerão a medida que o roteiro elaborado por Carl Ellsworth e Dan Foos une cada uma das pontas e revela todos os propósitos daquilo que vemos transcorrer.

No Hotel Lux Atlantic –no qual Lisa trabalha, com tamanha competência que sua ausência transforma as tarefas de sua substituta Cynthia (Jayma Mays, de “Feito Na América”) num inferno –haverá um evento incomum; o lugar receberá a visita de Charles Keefe (Jack Scalia), político influente e de implacável política desarmamentista.

No início, nada disso parece interferir na viagem de volta de Lisa, cujo voo parece ter atrasado. Em espera no aeroporto, ela faz amizade com alguns passageiros que estarão com ela no mesmo avião. Um deles é Jack Rippner (Cillian Murphy, sempre eficaz) que se mostra simpático, cortês e solícito –características que, num filme de suspense dirigido por Wes Craven já despertam desconfiança.

Uma série de coincidências –também elas cheias de desconfiança –colocam Lisa na poltrona lateral à de Jack, e logo eles iniciam uma conversa descontraída enquanto o avião decola.

É em pleno ar que Jack revela à Lisa todo o seu plano, sem preocupar-se em mentir: Foi ele (ou os homens em seu comando) quem roubou a carteira do pai de Lisa (Brian Cox), uma prova de que eles o têm em sua mira.

A chantagem é simples: Lisa deve pegar um telefone e usar de sua autoridade no Hotel Lux Atlantic para mudar Keefe (que logo chegará lá) de quarto –um quarto onde possa ser alvo para o atentado engendrado por Jack e seus contratantes.

Se Lisa fizer isso, estará salvando a vida de seu pai.

Praticamente toda a filmografia de Wes Craven gira em torno da premissa básica de uma mulher em apuros. Aqui, ele cerca esse plot com elementos extraídos de uma das sensações cinematográficas de então, a “Trilogia Bourne”, abrindo mão dos expedientes de terror que norteiam em geral suas obras e adotando uma narrativa dinâmica, onde os detalhes convergem a uma situação simples que centraliza a ação: A chantagem dentro de um avião em meio à uma dinâmica tensa que se mantém entre duas poltronas –para tanto, grande parte do filme se dedica aos closes expressivos da ótima Rachel McAdams, fazendo um belíssimo trabalho.

O roteiro, com algumas firulas em demasia, dedica-se  a mostrar os caminhos tortuosos que ela tomará para desvencilhar-se dessa encrenca sem ceder às imposições do mal; por conta disso, a meia hora final abandona o suspense restrito, aflitivo e verbal que vinha construindo para abraçar elementos de ação e perseguição desenfreada –terreno no qual, quando muito, Wes Craven se revela correto.

“Voo Noturno” é um filme assim divertido, tenso na medida certa e cercado de elementos mirabolantes que ora auxiliam sua apreciação, ora dificultam sua credibilidade; o resultado entre o mediano e o apetecível que obtém só é potencializado pelo seu casal protagonista central que movem um belo duelo entre algoz e refém, esbanjando química e competência.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Pânico


 O roteiro de Kevin Williamson, dirigido com o máximo de criatividade por Wes Craven é um paradoxo na forma com que mostrou-se revolucionário: Naquele final dos anos 1990 de então, os realizadores conseguiram entregar um filme recebido como divisor de águas no gênero do terror contemporâneo, simplesmente versando em torno dos clichês inapeláveis desse mesmo gênero –e, no final das contas, não lhes acrescentando nada genuinamente novo.

A beleza de “Pânico” está, portanto, na sedução com que consegue enredar seus expectadores, e para isso, um diretor profundamente conhecedor das engrenagens que movem o gênero, como Wes Craven, é essencial.

Desde seu prólogo –onde vemos uma jovem Drew Barrymore, às voltas com um ameaçador telefonema de um psicótico que, descobrimos, está rondando sua casa –“Pânico” é todo metalinguagem: Os personagens, fãs incondicionais de filmes de terror ‘slasher’, debocham das decisões redundantes das vítimas dos assassinos (que insistem em correr escadas acima, por exemplo, ao invés de saírem porta afora) para, no momento seguinte, serem levados a cometer os mesmos lapsos.

A preencher esse amálgama ininterrupto de referências, o roteirista Williamson até que soube construir uma trama suficientemente envolvente: Após o assassinato de Casey (a personagem de Drew), um toque de recolher instala-se na cidadezinha de Woodsboro, com as autoridades temerosas de novos assassinos, a mídia subitamente interessada nos desdobramentos naquela comunidade pacífica e os jovens  tecendo teorias e mais teorias a partir dos filmes de psicopata que conhecem.

A protagonista de “Pânico” é Sydney (Neve Campbell, então em alta pelo sucesso do seriado “O Quinteto”) e, em poucos dias, há de completar um ano do assassinato da própria mãe dela; crime que muitos insistem em relacionar com as novas mortes.

De fato, Sydney, cujo pai saiu em viagem, deixando-a sozinha em casa, é assediada pelo assassino (um psicopata que usa uma máscara inspirada na pintura “O Grito”, do artista Edvard Munch), usando o mesmo recurso do telefone da vítima anterior: Ameaçadoramente, ele propõe um jogo de perguntas e respostas sobre filmes de terror, à medida que vai revelando sua presença próxima e letal –na cartilha de Wes Craven e Kevin Williamson, “Pânico” surge como um herdeiro natural de “Halloween” e “Sexta-Feira 13” (filmes com os quais a premissa é deliberadamente similar) ao introduzir um psicopata com elementos visuais icônicos à exemplo de Michael Meyers e Jason Vorhees, mas incrementado pelas artimanhas tecnológicas que o conectam aos jovens (o telefone) e por sua própria percepção cultural (os filmes de terror).

É também curioso notar que Craven humaniza o psicopata: Ele cai, se machuca e apanha de suas vítimas antes de matá-las, o que serve não necessariamente para humanizá-lo (embora isso aconteça) mas, mais precisamente para relacioná-lo com os suspeitos que vão despontando. Um elemento que garante diversão e interesse à “Pânico” –pelo menos, nas primeiras vezes a que se assiste a ele –são as incertezas quanto à identidade real do assassino: Seria o namoradinho de Sydney (Skeet Ulrich, de “Jovens Bruxas” e “Melhor É Impossível”) cheio de desculpas esfarrapadas e histórias mal-contadas? Ou seria o nerd de locadora Randy (Jamie Kennedy, possivelmente o melhor personagem do filme) cujas observações sobre os códigos embutidos nos filmes de terror são um dos grandes achados do filme?

A resposta que “Pânico” fornece –e que vem após uma sucessão estilística de mortes e corre-corre ao gosto dos jovens sedentos por sangue e adrenalina –é mirabolante e cheia de desdobramentos absurdos; e, por isso mesmo, divertidíssima!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Aniversário Macabro


O filme de Wes Craven, longe, muito longe de ser um título minimamente satisfatório em sua filmografia, é uma junção de duas vertentes inesperadas que resultou em algo infame, vulgar e inquietante, muito condizente, porém, com as intenções de seu realizador naqueles tempos.
De um lado, Craven vislumbrou –não sem alguma pretensão –uma refilmagem do clássico “A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman (apesar do letreiro inicial que afirma dissimuladamente ser inspirado em fatos reais); do outro, ele usou de tal premissa para ir de encontro a todas as ousadias gráficas, à todo o rompimento de limites que vinham sendo alardeados por inúmeras vertentes cinematográficas da época: A Nova Hollywood, os filmes de exploitation, as produções de “rape and revenge” (entre elas, o ultrajante “A Vingança de Jennifer”, o sueco “Thriller” e “Sedução e Vingança”, de Abel Ferrara), e outras transgressões típicas dos anos 1970.
“Aniversário Macabro” paga assim um tributo a isso tudo deixando pelo caminho um tanto do bom senso, do equilíbrio e da coerência que poderia ter tido.
Acompanhadas de uma câmera trêmula (em tomadas que evidenciam desconforto constante), a jovem Mari Colingwood (Sandra Cassel), ao lado de uma amiga (Lucy Grantham), deixa de lado sua festa de aniversário preparada pelos pais, para ir a um show de rock –numa postura que remete as tendências juvenis daqueles anos 1970.
As duas decidem comprar maconha no subúrbio e acabando cruzando o caminho de um grupo violento e foragido: Um bando de psicóticos liderados por um certo Krug (David Hess), sua namorada (Jeramie Rain), seu filho demente (Marc Sheffler) e um amigo cúmplice (Fred J. Lincoln).
O quarteto sequestra as meninas e –no filme absolutamente impiedoso que se segue –submete-as à torturas físicas e psicológicas de intensidade por vezes insuportável. Após um rodízio insano de humilhações, maus-tratos e estupros (que ocupam sadicamente e sem modéstia a primeira metade do filme), os psicopatas –que fogem a bordo de um carro –chegam a conclusão de que não precisam mais carregar aquelas vítimas e delas se desfazem; desnecessário dizer que Wes Craven vale-se desse pretexto para mais uma sucessão de violência e crueldade desmedida.
Na sequência, os assassinos das jovens pedem ajuda justamente na casa em que estão os aflitos pais de Mari (Gaylord St. James e Cynthia Carr), que desde então apareciam em desespero em cenas intercaladas pela narrativa. Eles são recebidos com hospitalidade, porém, ao longo da noite o pai da jovem reconhece o colar da filha no pescoço do membro mais jovem do grupo –o rapaz demente, que até mostrou-se relutante com a violência deflagrada pelos outros, e recebeu o colar de Mari pouco antes dela ser morta.
Uma rápida busca na floresta leva os pais a encontrarem o cadáver da filha e, quando estes retornam à casa, já têm planejada uma vingança das mais sangrentas e abusivas já concebidas pelo cinema; inclusive com um uso pioneiro de uma serra elétrica, anos antes do filme de Tobe Hooper –não é nenhum segredo o quanto esta obra maldita de Craven, apesar da obscuridade que sua própria ousadia lhe legou, foi uma inspiração para inúmeros trabalhos vanguardistas do gênero terror que apareceram nos anos 1970.
Seguindo um princípio similar ao de Bergman em “A Fonte da Donzela” –o de que o ato sangrento de justiça deflagra tanta crueldade quanto o crime que quer retribuir –Craven também coloca o personagem do garoto demente como uma vítima indireta da vingança dos pais, colhido na mesma espiral de matança que engole seus companheiros.
No entanto, se Bergman molda uma obra definida por humanismo e primor, Craven abraça por inteiro o ‘exploitation’ que predominava na liberdade de criação do período –e que parecia excitar as plateias –e potencializa sua própria inexperiência (disfarçada de estilo solto) para tornar ainda mais incômodo, precário e escatológico o registro sem amarras de violência que aqui comete.
Um filme abusivo, sangrento, sujo, desconcertante e perturbador feito sem a menor das intenções de divertir a audiência.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Quadrilha de Sádicos


Como muitos realizadores dos anos 1970, Wes Craven direcionou suas obras –oriundas do gênero que lhe era mais caro, o terror –para as características naturalistas de um cinema feito com crueza e câmera na mão.
Seu grande trabalho dessa fase é considerado “Quadrilha de Sádicos” que, a despeito da mescla indigesta de humor negro cortante e terror sangrento, e da narrativa sufocante, é um apanhado de muitas observações do período.
A primeira delas diz respeito à preocupação com a tragédia nuclear, tão em voga naqueles tempos de Guerra Fria e políticas de desarmamento: Toda a trama se ambienta numa área de testes da Força Aérea Americana onde –supõe-se –a radioatividade originou as mutações em uma família de canibais homicidas que lá vive.
Uma outra família, desta vez normal –e formada por aqueles personagens que insistem, no gênero terror, em fazer aquelas imbecilidades óbvias que irão deflagrar seu sofrimento –cruza o mesmo deserto, e se tornam o alvo desses estranhos montanheses mutantes.
Wes Craven não precisa de uma premissa mais detalhada que essa para moldar, a partir daí, um filme angustiante e violento.
Certamente uma das grandes influências para o estilo e a abordagem com os quais Tobe Hooper compôs, anos depois, seu visceral e transgressor “O Massacre da Serra Elétrica”.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Benção Mortal


As características de um especialista em terror já surgem aqui, neste trabalho de Wes Craven, anterior a muitas das obras que depois o fizeram famoso: A construção ligeira e certeira de uma atmosfera imediatamente tensa –na qual a trilha sonora se revela de uma contribuição importantíssima; o sadismo latente para com a condução de inúmeros personagens, sobretudo, os mais relapsos; o manejo de circunstâncias até politicamente incorretas em prol de uma premissa que atende as demandas do gênero.
De maneira geral, “Benção Mortal” é uma ideia um tanto estapafúrdia que a habilidade de Wes Craven rapidamente consegue tornar palatável e envolvente.
Numa região afastada de uma cidade norte-americana vive os hititas, uma comunidade que replicada características dos amish (vistos, por exemplo, em “A Testemunha”), porém, com uma intolerância e uma irredutibilidade que chegam às raias da inverossimilhança –e que, deveras, só poderiam mesmo habitar o enredo de um filme de terror.
Ao lado da comunidade, está a fazenda de Jim (Douglas Barr), rapaz que outrora pertenceu ao grupo, mas foi expulso por seu pai intransigente, Isaiah (Ernest Bognine), por ter se envolvido com Martha (Mare Jensen) uma moça de fora da comunidade –e, como todas elas, vista pelos hititas como um mero instrumento da tentação.
Quando os personagens aqui e ali começam a morrer no melhor estilo slasher –com um uso hábil de câmera subjetiva do ponto de vista do assassino que lembra muito as sequências de “Halloween” –o diretor Craven oferece um vasto leque de suspeitos, entre eles, o próprio Isaiah, e o truculento William (interpretado por Michael Berryman, de “Quadrilha de Sádicos).
Ele oferece também um vasto leque de potenciais vítimas para o assassino: Aparecem na fazenda também as melhores amigas de Martha, as urbanizadas Lana (Sharon Stone, ainda em início de carreira) e Vick (Suzan Buckner) que vem a envolver-se com o outro filho de Isaiah, John (Jeff East, o jovem Clark Kent em “Superman-O Filme”).
Lançado em 1981 –três anos antes de “A Hora do Pesadelo” –“Benção Mortal” possui, inclusive, uma cena que já antecipa em execução, ideia e enquadramento a famosa cena da banheira; esse fato passou completamente despercebido do público porque injustamente “Benção Mortal” é um trabalho quase desconhecido, certamente composto de elementos que ele iria aprimorar em seus futuros filmes –embora a carreira de Craven tenha sido sempre definida por obras que jamais chegaram ao polimento completo.
Após visitar todas as definições do sub-gêneros slasher que começava a proliferar no cinema comercial –e sair-se relativamente bem nisso –o filme de Craven se encerra num desfecho inesperado e inusitado, algo raivoso, abraçando elementos sobrenaturais que até então ele não havia lançado mão.
Prova de que, além de fazer muito bem suas obras de terror, Craven se divertia a valer com elas.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Pulse


Ao se aventurar por uma refilmagem de “Kairo”, de Kyioshi Kurosawa, é necessário uma certa displicência dos realizadores para ignorar as raízes essencialmente autorais e culturais que definiam aquele trabalho. Entretanto, não é difícil concluir que o grande apelo de público que as obras de terror japonesas da década de 1990 (assim como suas refilmagens) possuíam falou mais alto que a sensatez.
Da forma como pode, “Pulse” (que conta com o especialista em terror, Wes Craven, como um de seus roteiristas) busca americanizar a premissa do filme original japonês. Se nele, a solidão e o isolamento acarretados pela tecnologia adquiriam facetas abissais de escuridão –e nelas se entrevia uma reflexão pertinente dos novos tempos –este novo filme paira superficialmente sobre tais aspectos, aproveitando toda e qualquer deixa para compor cenas aterrorizantes embaladas em efeitos especiais e reflexos involuntários do gênero de terror norte-americano. Sem o contexto adequado, porém, essas cenas são vazias de resultado.
A jovem Mattie (Kristen Bell) fica perplexa quando um namoradinho envolvido com informática se suicida em circunstâncias um tanto estranhas.
Contudo, mensagens continuam sendo enviadas pelo computador dele. Ao investigar, Mattie descobre que ele foi vendido –por uma camareira interpretada por Octavia Spencer antes do Oscar por “Histórias Cruzadas” –para um jovem mecânico chamado Dexter (Ian Somerhalder, das séries “Lost” e “Vampire Diaries”).
Pouco a pouco, os dois vão se dando conta de algo muito errado com o mundo e a sociedade –e que está diretamente relacionado aos efeitos isolantes da tecnologia.
Sem fazer uso de muitas das tramas paralelas que amplificavam a aflição em “Kairo” –e em vez disso, empregando o conjunto de personagens que vão além do casal protagonista como meras vítimas consecutivas da maldição no estilo ‘slasher’ –o filme avança na sua história, munido de uma fotografia tão opressora quanto monocromática, em direção ao clima pós-apocalíptico do original sem, no entanto, aprofundar a mensagem subliminar da qual ele se originou.
Na mitologia que “Pulse” tenta construir, o mal não é uma condição irreversível da humanidade e de seu caminho em direção a um fim, mas sim um vírus de computador que se materializa como um inimigo tangível e, quem sabe, neutralizável (e, para isso, “Pulse” teve duas continuações!) –a exemplo quase de um “Jason” ou de um “Freddy Krueger” (não por acaso, criação de Wes Craven) –e cuja origem e ‘modus operandi’ ganha todas as explicações e esclarecimentos que o filme de Kurosawa mantém no terreno da sugestão.