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quarta-feira, 17 de junho de 2026

A História de Um Casamento


 Talvez o ápice do refinamento do cinema de Noah Baumbach, no qual os sentimentos e as relações ganham sempre uma avaliação plena de honestidade e atenção às minúcias improváveis da vida, “A História de Um Casamento” – ou “Marriage Story” – é uma obra que habilmente oscila entre o humor e o drama, alternando esses gêneros distintos com uma serenidade e uma fluidez que chegam a impressionar.

Quando a trama começa, vemos os dois protagonistas, Charlie e Nicole (Adam Driver e Scarlet Johansson, ambos estupendos), afirmando o que cada um ama no outro. Charlie e Nicole constituem um casal, mas não por muito tempo; Nicole entrou com um pedido de divórcio.

No entanto, como o filme brilhantemente reflexivo de Baumbach vai deixar bem claro, as coisas são infinitamente mais complicadas – não é que falte amor, ou mesmo respeito no casamento dos dois: Há uma falta de compatibilidade, uma ausência de diálogo, uma doação unilateral que sufoca Nicole, e ela já não suporta mais.

Ainda assim, apesar de um ou outro contratempo, oriundo do fato razoável de que nenhum dos dois está muito pronto para lidar com a situação, ambos concordam que tudo – inclusive a guarda compartilhada de seu amado filho Henry (Azhy Robertson) – pode ser resolvido sem a intervenção de advogados.

Charlie é um dramaturgo e diretor teatral em Nova York; Nicole é uma atriz – foi assim que se conheceram (durante a montagem de uma peça do próprio Charlie). Nicole, porém, é de Los Angeles, onde mora toda sua família, a mãe (Juie Hagerty, de “Apertem Os Cintos, O Piloto Sumiu!”, hilária em suas aparições) e a irmã (Merritt Wever, de “Sinais”), e para onde, durante todo o período em que estiveram juntos, ela sempre tentou convencer Charlie a se mudar.

Com a separação, Nicole agora almeja uma promissora vaga num filme-piloto para TV em Los Angeles que, se for aprovado, pode tornar-se uma série, o que a levaria a se mudar definitivamente para a Costa Oeste, junto com Henry. É justamente ao longo desse processo que ela recebe a sugestão de uma conhecida para que, apesar do que combinaram, ela contrate de fato um advogado a fim de mediar o divórcio, e assim entra na história, provocando um inesperado turbilhão, a advogada especialista em divórcio Nora Fanshaw (Laura Dern, sensacional, vencedora do Oscar 2020 de Melhor Atriz Coadjuvante).

Arremessados para dentro das engrenagens jurídicas – e de todo o viés de antagonismo que acompanham esses processos – Charlie e Nicole passam por estágios de ressentimento, de profunda transformação das próprias perspectivas financeiras (o dinheiro que poderiam guardar para a faculdade do filho é ironicamente investido nos honorários dos advogados que atuam para brigar pela guarda justamente de seu filho!), de idas e vindas, de atritos e de reconciliações, tudo na ânsia de chegar a um entendimento que a vida insiste em não concretizar.

Nada mais, o filme deixa claro, será como antes.

Charlie, tão avesso à ensolarada e superficial Los Angeles, agora tem de atravessar o país a fim de ter seus momentos com o filho, e de, não raro, sair atrás de advogados que lhe representem. Dois deles se destacam: O veterano, resignado e desenvolto Bert Spitz (o divertidíssimo Alan Alda), e o tubarão implacável, histriônico e, no fim das contas, hilariante, Jay Marotta (o saudoso Ray Liotta).

Divertido, tocante, dono de um sem fim de cenas maravilhosas (minhas preferidas, entre outras, são a engraçadíssima sequência da visita de uma avaliadora, vivida por Martha Kelly, ao apartamento de Charlie em Los Angeles; e o momento inebriante, já quase perto do fim, em que ele canta “Being Alive” num bar de karaokê em Nova York), “Marriage Story” é, como era de se imaginar, baseado na história do próprio Noah Baumbach e de seu casamento com a atriz Jennifer Jason Leight. De fato, trata-se de um trabalho verdadeiro demais para ser uma mera invenção – a traição dele brevemente mencionada numa passagem, ocorreu com a também atriz Greta Gerwig, com quem mais tarde ele acabou casando. A expiação dessas mazelas íntimas terminou rendendo uma das melhores e mais sensíveis obras a tratar do colapso de uma relação a dois em choque com diferentes realidades profissionais, financeiras e pessoais.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Twin Peaks - O Retorno


 Depois de muito tempo, em 2017, os fatores favoráveis se alinharam para que os criadores David Lynch e Mark Frost enfim dessem continuidade aos eventos misteriosos e intrigantes que encerraram a segunda temporada de “Twin Peaks” –isso tudo, para aproveitar o gancho no qual a personagem Laura Palmer (vivida por Sheryl Lee) diz ao Ag. Dale Cooper (Kyle MacLachlan) que o verá “dali há 25 anos”.

Entre esses 25 anos –tanto dentro da série como aqui, no mundo real –o criador e diretor David Lynch mudou: Se nas duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, ainda no início dos anos 1990 (nas quais ele dirigiu um total de seis episódios), Lynch ainda flertava com encenações imponderáveis e introduzia um surrealismo um pouco mais predisposto a se harmonizar com o formato televisivo convencional exigido pelos produtores, em 2017, Lynch já era um autor pra lá de aclamado, e ao conceber obras desafiadoras e fascinantes como a trinca “A Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” (todos eles, posteriores a “Twin Peaks”), era claro para qualquer financiador que um projeto de David Lynch não iria se render a conformismo nenhum.

E foi nessas circunstâncias que o canal Showtime viabilizou esta retomada de “Twin Peaks” que –diferente das duas temporadas originais –é integralmente dirigida por David Lynch. E nota-se isso a cada instante. A narrativa de “O Retorno” é fragmentada, nebulosa, estranha e frequentemente desconcertante. Lynch já começa quebrando expectativas levando a continuação da trama –que retoma o estranho final da segunda temporada a se fragmentar em, pelo menos, quatro ou cinco diferentes núcleos em locais distintos; e eles, à princípio, não remetem, de imediato, à cidadezinha de Twin Peaks, propriamente dita.

Descobrimos que o Ag. Cooper passou todos esses anos preso dentro do black lodge e que, em seu lugar, um doppelgänger maligno, um Bad Cooper, andou aprontando das suas –esse Bad Cooper é, também ele, vivido por Kyle MacLachlan, e trata-se do corpo de Cooper possuído pela perversa entidade Bob (Frank Silva), no fim das contas, o real assassino de Laura Palmer.

Em Nova York, testemunhamos um experimento no qual um jovem deve ficar horas observando (e filmando com um arsenal de câmeras) uma caixa de vidro aparentemente vazia –ele logo recebe a companhia da personagem da bela Madeleine Zima (da série “Californication”, também da Showtime) que inclusive aparece nua! Essa situação –surreal, como muitas saídas da mente de Lynch –será vital para a introdução do núcleo dos agentes do FBI na história: O chefe de departamento Gordon Cole (o próprio David Lynch), o Ag. Rosenfield (o saudoso Miguel Ferrer), e a novata, ainda que centrada e dedicada Tammy Preston (a cantora Chrysta Bell). Eles investigam casos pra lá de estranhos oriundos de um certo Arquivo Rosa Azul (entre os quais, uma chacina recente que houve com aquela caixa de vidro) que reacende um antigo caso, envolvendo o ex-agente Phillip Jeffries (o falecido David Bowie num personagem que apareceu no filme “Os Últimos Dias de Laura Palmer”), os leva até o encalço do Bad Cooper, e à pedir ajuda à ex-agente Diane (Laura Dern), a personagem para quem Cooper gravava as fitas nas temporadas originais –e que até então nunca tinha aparecido.

No black lodge (uma dimensão sobrenatural na qual transitam alguns dos mais enigmáticos personagens de toda a série), Cooper recebe a ajuda de Mike (Al Strobel), o guru de um braço só, para finalmente, depois de tanto tempo, voltar para a realidade, todavia, isso se dá por meio de caminhos tortuosos e pela quebra de qualquer expectativa que o público poderia elaborar: Cooper manifesta-se no lugar de um sósia, um cidadão de classe média baixa morador de Las Vegas chamado Dougie Jones –e na ocasião, em companhia da lindíssima Jade (Nafessa Williams). Dougie é casado com Janey-E (Naomi Watts) e trabalha como vendedor de seguros. Uma vez no corpo de Dougie Jones, Cooper fica preso numa persona balbuciante, monossilábica e lesada, ainda que, a partir daí, agraciada com uma sorte espantosa –mesmo que só repita as últimas palavras que ouviu da pessoa com quem fala, Dougie vai conquistando espaço e prestígio em sua empresa, felicidade e satisfação dentro de seu matrimônio, e até mesmo a afeição de dois irmãos mafiosos de bom coração (Robert Knepper e Jim Belushi) –esse personagem, o do idiota que sem querer ludibria os outros à sua volta convencendo-os de recursos e qualidades que não necessariamente tem remete a um filme que parece ser de muito apreço à David Lynch, o clássico “Muito Além do Jardim”, com Peter Sellers.

Noutra cidade, um homicídio tenebroso (uma mulher é morta por decapitação, no entanto, sua cabeça é encontra junto à outro corpo, de um dos personagens da série original) coloca, como principal suspeito aos olhos da polícia, o pacato diretor escolar vivido por Matthew Lillard (de “Pânico”), ao que tudo indica, mais um ato do Bad Cooper.

Os personagens de Twin Peaks, mais precisamente, começam a aparecer aos poucos revelando em alguns casos suas circunstâncias presentes, depois de todo o tempo decorrido: O xerife adjunto Hawk (Michael Horse) recebe uma orientação da clarividente Sra. do Tronco (Catherine E. Coulson) sobre uma pista (páginas perdidas do diário de Laura Palmer) que reacende a investigação e a procura pelo desaparecido Ag. Cooper, o que envolve o xerife Frank Truman (Robert Forster), irmão do Harry Truman (Michael Ontkean), xerife nas outras temporadas e o novo xerife adjunto Bobby (Dana Ashbrook), agora mais bem aproveitado pelo roteiro. Na medida do possível, o máximo de personagens são retomados, o núcleo da lanchonete e cafeteria onde trabalham Shelly (Madchen Amick) e Norma (Peggy Lipton); a situação enigmática (e sem respostas claras) de Audrey (Sherilyn Fenn) que, após um período de coma depois do fim da segunda temporada teve um filho psicopata, Richard (Eamon Farren), e o bar The Roadhouse, ponto de encontro onde vemos James Hurley (James Marshall) e outros, e onde muitos dos episódios (num total de 18) se encerram ao som espetacular de grandes convidados como Nine Inch Nails, Eddie Vedder e Rebekah Del Rio, contudo, a personagem Donna, de Lara Flynn Boyle, sequer é mencionada.

Pode-se afirmar, entretanto, que isso é somente arranhar a superfície: Além dessas e outras tramas e sub-tramas, “O Retorno” apresenta uma sucessão vertiginosa e vasta de outros personagens (alguns relevantes, outros bastante breves) onde se vê um elenco estupendo, certamente atraído pelo prestígio sem igual de David Lynch: Além de todos os já citados temos Harry Dean Stanton, Balthazar Getty, Ernie Hudson, Richard Chamberlain, Tim Roth, Jennifer Jason Leight, Ashley Jude, Ben Chaplin, Tom Sizemore, Amanda Seyfried, Caleb Landry Jones, Monica Bellucci, Michael Cera, Xolo Maridueña, David Dastmalchian, John Savage e muitos outros.

Todos representam pontas soltas que, embora até se interliguem ao longo dos episódios que se seguem, têm menos a intenção de elucidar os mistérios insolúveis que se levantam, e mais o objetivo de sedimentar o caminho percorrido como sendo uma experiência de sonho –e nisso, David Lynch é um craque sem igual. Mestre das atmosferas obscuras e do surreal empregado como fonte primitiva das mais diversas sensações humanas, Lynch nos leva do humor negro ao terror irracional, do investigativo ao experimental, do drama ao melodrama e de volta ao incategorizável, numa viagem apreensiva e fascinante que não encontra par, em toda a década, na realização audio-visual televisiva do mundo todo.

Só é um lamento constatar que –diante da perda de David Lynch, que nos deixou em 15 de janeiro de 2025 –a continuidade de “Twin Peaks” (que, pra variar, também se encerra aqui num plot misterioso prometendo possibilidades instigantes) seja algo que infelizmente não irá mais acontecer. Um filme de dezoito horas de duração, brilhantemente confuso e fascinante, construído com genialidade, e primoroso em cada um de seus inexplicáveis e eventualmente perturbadores momentos, terá que nos servir de consolo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O Mestre

Dos poucos realizadores consagrados norte-americanos a evocar a escola de Stanley Kubrick –onde estão em pauta filmes corrosivos construídos em torno de análises inquietantes e antropológicas da condição humana –Paul Thomas Anderson realizou este “O Mestre” na sequência de um de seus mais louvados trabalhos, o épico “Sangue Negro”.
Algo aproxima os dois: Se “Boogie Nights” e “Magnólia” eram registros pulsantes e abrangentes de microcosmos definidos por suas peculiaridades, “Sangue Negro” e “O Mestre” são tratados de observação moral dedicados a trajetória de um único protagonista –o filme que relaciona essas duas fases criativas distintas é “Embriagado de Amor”, com Adam Sandler.
Assim, a incorporar as questões levantadas neste filme, temos Joaquin Phoenix interpretando Freddie Quell, rapaz combatente na marinha da Segunda Guerra Mundial.
Incapaz de se adequar ao mundo à sua volta –antes mesmo dos traumas de guerra que o deixaram ainda mais instável –Freddie passa a singrar algumas cidades americanas colecionando encrencas e confusões; e a fim de materializar o estado à beira do esquizofrênico de seu protagonista, o filme de Anderson vai e vem em eventos atuais e pregressos sem maiores avisos, confundindo a percepção do público.
Em algum momento, Freddie acaba parando no navio de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman) à caminho de Nova York.
Se Freddie Quell é a figura subjetiva a narrativa, então Lancaster Dodd é seu elemento central: Envolvente e carismático, ele revela-se o guia de um culto intrigante e metodicamente mirabolante e, em última instância, perigoso –e o filme de Anderson até no improvável que registra nunca se afasta demais da realidade: “O Mestre” é, pois, fortemente baseado na figura de L. Ron Hubbard, o guru por trás da Cientologia, uma religião alternativa que tornou-se moda entre celebridades norte-americanas a partir dos anos 1990.
Dodd abraça Freddie como seu protegido, e assim, as características em torno do movimento religioso chamado “A Causa” –nome do primeiro livro escrito e publicado por Dodd –se descortinam para ele.
Dodd crê na conexão com vidas passadas, e na possibilidade da mente acessar tais ligações através de sessões que misturam elementos de hipnose, sugestão e psicanálise superficial. Ao lado de Freddie, um seguidor prontamente ferrenho, Dodd e sua esposa (Amy Adams) vão arrebanhando novos e engajados adeptos, como Clark (Rami Malek), casado com a filha de Dodd, e Helen (Laura Dern), nova-iorquina em cuja mansão Dodd e seus seguidores se instalam indefinidamente.
Eventuais vozes dissonantes do movimento são caladas com grosseria, truculência e exclusão, como é o caso do jornalista que aborda Dodd com perguntas constrangedoras e mais tarde recebe uma violenta visita em seu apartamento de Freddie e Clark, ou da própria Helen que identifica um erro contraditório no segundo livro de Dodd e acaba enxergando uma faceta intolerante e irascível que ele normalmente esconde de todos.
“O Mestre”, contudo, se dedica mesmo ao mergulho algo psicodélico no conceito montado por Lancaster Dodd, que inclui seus jogos mentais de manipulação, e na relação quase simbiótica deste com Freddie que nele enxerga uma figura paterna que jamais teve (outro tema que transcende toda a filmografia de Anderson), enquanto que Dodd o vê, em suas rachaduras psicológicas inapeláveis, uma cobaia perfeita para suas experiências de controle psíquico.
Nesse delírio coletivo capitaneado por tal mente cheia de segundas intenções, Anderson termina por realizar algo próximo do que fez em seu celebrado “Sangue Negro”: Um retrato distinto, moralmente circunspecto e cheio de maestria de uma mentalidade específica a aparecer no seio da América numa determinada hora e lugar –no caso, os EUA da década de 1950 –e um estudo cheio de propriedade e maneirismos humanos da maldade, da violência e da sordidez em gestação, por meio de ideologias atrativas aos corações atormentados como o de Freddie Quell, que termina o filme do mesmo jeito que começou: Errante num caminho que o devolve sempre às angústias de seu passado.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O Céu de Outubro

Um ótimo esteta, o diretor Joe Johnston sempre provou que foi –é dele a premiada direção de arte de “Os Caçadores da Arca Perdida”, além de ter dirigido “Querida, Encolhi As Crianças”, “Rocketeer” e “Jumanji”, excelentes exemplos de filmes visualmente elaborados –faltava, no entanto, sedimentar sua eficácia quanto ao drama humano.
E a história real de Homer Hickam veio bem a calhar.
Um adolescente no fim dos anos 1950, morador da cidadezinha de Coalwood, província mineradora do estado da Virgínia, Homer (vivido com competência surpreendente pelo jovem Jake Gyllenhaal, antes mesmo da revelação em “Donnie Darko”) é um dos muitos norte-americanos surpreendidos pela notícia de que os russos colocaram um satélite no espaço, o “Sputnik”.
Basta identificar seu pontinho luminoso no céu noturno, e Homer já sabe o que quer da vida: Ele quer ser um dos engenheiros que colaboraram na Corrida Espacial, e projetar foguetes em Cabo Canaveral.
No entanto, na mentalidade de seu pai, John (Chris Cooper), tal feito é um sonho impossível; bem mais provável e acessível é trabalhar ganhando a vida como mineiro, herdando assim o ofício do qual se ocupa todo homem nascido e crescido em Coalwood.
Aliado à dois amigos Roy Lee (William Lee Scott, de “Pearl Harbor” e “Gattaca-A Experiência Genética”) e O’Dell (Chad Lindberg, de “Velozes e Furiosos” e “Doce Vingança”), ambos destinados à ocupação proletariada das minas como ele, Homer resolve que este não será o seu destino. Ele faz amizade com o inteligente nerd desprezado da escola Quentin (Chris Owen, de “American Pie”) e com ele termina integrando o quarteto de ‘fogueteiros’ que desenvolvem, a partir de planejamentos matemáticos calculados na raça por eles mesmos, formas de criar foguetes e fazê-los voar para o céu.
Os garotos insistem na tarefa usando erro e tentativa: Seus primeiros foguetes explodem como bombas de fogos de artifício. Eles aprendem a resistência necessária ao aço da confecção do projétil (e que esse aço não é nada barato), descobrem regras científicas de aerodinâmica e aprendem uma série de equações matemáticas por conta própria.
Suas tentativas sistemáticas de lançar foguetes atraem a atenção da cidade inteira que passa a fazer dos lançamentos um evento onde todos se reúnem para assistir.
Como na melhor tradição dos dramas sobre juventude em choque contra o patriarcado, o diretor Johnston leva seu protagonista a colidir com as pressões do meio familiar: Seu pai ressente-se do filho não escolher a mina como herança para sua vida adulta.
Não só ele: O diretor da escola (Chris Ellis, de “A Ilha”, “Armageddon” e “Meu Primo Vinny”) não vê com bons olhos os alunos sonhando com algo que não seja o usual –esses e outros obstáculos vão sendo superados por Homer com o encorajamento de sua professora, Srta. Riley (Laura Dern) que sugere aos ‘fogueteiros’ uma inscrição na feira de ciências; se conseguirem ganhar, eles poderão concorrer ao primeiro prêmio na Feira de Ciências Nacional de Indianápolis, através da qual poderão conseguir bolsas de estudo para as grandes faculdades do país, e com isso, passagem direta para a realização de suas ambições.
Ao encarar um projeto corajosamente voltado para a manejo de emoções  e respaldado no rendimento da atuação do elenco –na contramão das orientações técnicas que definiram seus filmes anteriores –Joe Johnston entregou um trabalho emotivo e significativo de sua capacidade como contador de histórias; seu estilo continua lá –no esmero técnico focado na reconstituição de época, por exemplo, e na observação apaixonada de valores norte-americanos, essenciais à sua narrativa, com uma referência à famoso foto dos soldados em Iwo Jima, central à duologia de guerra de Clint Eastwood (afinal, Johhston dirigiu “Capitão América”!) e num novo ângulo por meio do qual a Corrida Espacial é vista, distinto de “Os Eleitos” –no entanto, aqui a afiada conjugação do diretor, de um cinema à moda antiga aliado à tecnologia de ponta para moldá-lo, serve a uma trama real e autêntica, sem retoques que escondam, ou substituam, as emoções humanas com as quais o público invariavelmente vem a se conectar.
E é belíssimo o resultado de tal atrevimento.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Adoráveis Mulheres

Na cerimônia do Oscar 2020, “Adoráveis Mulheres” fez uma bela campanha levando o Oscar de Melhor Figurino; e na categoria principal, lá estava ele também disputando o prêmio dentre suas seis (e merecidíssimas) indicações.
Inspirado no clássico romance de Louisa May Alcott, o filme escrito e dirigido por Greta Gerwig é a oitava (!) adaptação cinematográfica do livro para cinema –a mais recente havia sido lançada em 1994, pela diretora Gillian Armstrong, com Winona Ryder –e Greta, seja no roteiro, seja na direção, constrói seu filme plenamente conciente de que cada expectador que assistir sua obra já deve ter visto pelo menos uma das versões anteriores: Ela modifica a trama e suas circunstâncias, senão na essência, ao menos no formato, alterando a ordem cronológica, recriando cenas, remodelando o convencionalismo da narrativa e, no seu audacioso final, acrescentando um elemento ambíguo de metalinguagem.
Tudo isso, confere um frescor à “Adoráveis Mulheres” que certamente poucos presumiram que ele viesse a ter: Depois que a (ótima) atriz Greta Gerwig decidiu arriscar-se atrás das câmeras dirigindo o brilhante “Lady Bird”, obtendo espetacular êxito de público e crítica, o seu projeto seguinte –a adaptação do famoso romance de Alcott –parecia um passo ambicioso, o tipo de trabalho no qual um artista se arrisca a um épico tropeço após um fenomenal acerto.
É maravilhoso ver o quanto os pessimistas se enganaram: “Adoráveis Mulheres” de Greta salta com graça e sofisticação à frente de todas as demais versões (até mesmo as clássicas!) como a melhor, mais emotiva e arrebatadora transposição de Alcott feita para as telas.
Em grande parte, graças à sensibilidade de Greta Gerwig que compreende as alegrias e angústias de suas numerosas personagens, a emoção estrutural embutida em cada arco dramático da narrativa e, talvez –na qualidade, ela própria, de roteirista –as predisposições emocionais da própria Louisa May Alcott.
Provavelmente a mais completa atriz de sua geração, a jovem Saoirse Ronan interpreta a heroína Jo March; e na cena que abre o filme –Jo, aspirante à escritora, submetendo seus manuscritos à insensibilidade de um editor antiquado e inepto –já deixa claro alguns dos tópicos inesperados, acerca do empuxo criativo que espelha a protagonista e sua autora, dos quais ela quer tratar.
Jo vive à duras penas na Nova York dos anos 1860. Mora numa pensão. Tenta vender os contos literários que produz e encontrar um lugar ao sol como escritora. Mas, a vida para uma mulher de planos independentes em meados do Século XIX não é fácil.
Alternadamente à essa aspereza da realidade –registrada na belíssima fotografia em tons azuis –o filme regressa sete anos no tempo, mostrando quando Jo e suas irmãs viviam junto de sua mãe (Laura Dern), na humilde, porém, amorosa casa da família, tentando suportar a ausência do pai (Bob Odenkirk) que foi lutar na Guerra Civil –nesse período de tempo, por sua vez, as imagens surgem em tom amarelo pastel.
Cada uma das irmãs March tinha uma personalidade distinta: Além de Jo, havia a artista Amy (Florence Pugh, dando fascínio insuspeito a uma personagem normalmente irritante); a boa moça Meg (Emma Watson); e a adoecida Beth (Eliza Scanlen).
E cada uma experimenta também diferentes aspectos nos dois pólos de tempo, separados por sete anos, dos quais a narrativa se incumbe: Amy, antes à sombra de Jo, com quem vivia às turras, agora está na Europa com a rabugenta Tia March (Meryl Streep), e enquanto tenta fisgar um marido rico, se descobre atraída pelo amigo da família Laurie (o ótimo Timothée Chamalet), outrora apaixonado por Jo; Meg, cujo temperamento equilibrava as inconstâncias de humores das outras irmãs se vê, depois, em um casamento cheio de amor, mas assolado pelas provações da pobreza; e, por fim, Beth tem um novo surto de escarlatina (um outro já havia acometido anos antes), o que obriga Jo à deixar Nova York e voltar para o município de Concord, no estado de Massachussets, para cuidar dela –bem quando Jo, tão desprendida para os assuntos românticos, começava a descobrir, no imigrante Friedrich (Louis Garrell), um possível interesse amoroso.
Indo e vindo no tempo –formato inédito dado à trama –o filme de Greta Gerwig reestrutura com inteligência sua tão famosa história estabelecendo rimas poéticas entre o antes e o depois, sublinhando novas emoções àquelas já conhecidas e dando à tudo um ar renovado e vibrante: se “Lady Bird” foi uma prova de seu talento, “Adoráveis Mulheres” é a comprovação de uma competência inquestionável (tamanho é seu brilhantismo que sequer Meryl Streep, habituada a roubar cenas, consegue fazê-lo, tal é o nível altíssimo mantido por todo o elenco); a diretora consegue obter o mesmo efeito do livro no qual nos descobrimos profundamente afeiçoados às suas personagens depois de um tempo.
Sua grande contribuição à essa obra magnífica talvez seja mesmo o final, um interessante jogo de narrativa dúbia e ambiguidade ficcional, onde Greta Gerwig discute as razões mercadológicas de um final feliz –ou romanticamente satisfatório –no que diz respeito à sua protagonista.
Podem até haverem novas versões de “Adoráveis Mulheres” em algum momento no futuro; mas, será um tremendo desafio superar o primor e as emoções irreprimíveis dessa daqui.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Os Vencedores do Oscar 2020

A cerimônia dos Oscar 2020 nos deu a chance de ver a História do Cinema sendo escrita.
Nunca antes a Academia de Artes Cinematográficas havia prestado tamanho reconhecimento à genialidade do cinema realizado na Coréia do Sul –certamente um dos melhores mananciais de cinema do mundo (senão O melhor!).
As bolsas de apostas ventilavam a possibilidade, sem no entanto agarrar-se a um sonho impossível, entretanto, nas últimas semanas, algo muito especial parecia estar acontecendo, especialmente após a vitória de “Parasita” no SAG Awards (o mais confiável de todos os termômetros do Oscar), onde o elenco principal foi praticamente ovacionado por todos os profissionais de Hollywood.
Um favoritismo inédito e até então improvável começava a se desenhar.
Alguns até cogitavam a chance de “Parasita” ganhar algumas estatuetas principais, mas, ninguém se atrevia a tecer tais garantias, alimentar tantas esperanças diante da forte competição de “1917” (vencedor da maioria das premiações anteriores).
Quando “Parasita” conquistou o prêmio de Melhor Roteiro Original e de Melhor Filme Estrangeiro, todos imaginavam que a Academia seguiria sua cartilha convencional e restringiria o filme apenas à essas honrarias.
O próprio Bong Joon-Ho quando subiu, estarrecido, ao palco para receber o prêmio de Melhor Diretor admitiu achar que, após as duas primeiras estatuetas, ele julgou que poderia relaxar e ver as outras produções ganharem os prêmios que faltavam.
Mal sabia ele o que o guardava...
O anúncio do prêmio principal pegou a todos de surpresa: Todo mundo –TODO MUNDO! –acreditava que “Parasita” e “1917” fariam, na melhor das hipóteses, uma dobradinha nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor; ou seja, cada um ganharia em uma, premiando ambos os favoritos. Contudo, a Academia realizou um gesto sem precedentes em seus quase 100 anos de história ao conceder todos os prêmios principais, pela primeira vez, a um filme falado em língua estrangeira –e que, sem sombra de dúvidas, representava a melhor obra cinematográfica de todo o ano que passou.
O discurso de agradecimento do grande filme da noite, de direito e de fato, foi assim feito num emocionado idioma sul-coreano.

MELHOR FILME
"Parasita"

MELHOR DIRETOR
"Parasita", Bong Joon-Ho

MELHOR ATRIZ
Renée Zellweger, "Judy-Muito Além do Arco-Íris"

MELHOR ATOR
Joaquin Phoenix, "Coringa"

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Laura Dern, "História de Um Casamento"

MELHOR ATOR COADJUVANTE

MELHOR FOTOGRAFIA
"1917"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM LONGA-METRAGEM
"Indústria Americana"

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
"Learning To Skateboard In A Warzone (If You’re A Girl)"

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"Parasita" (Coréia do Sul)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
"1917"

MELHORES EFEITOS VISUAIS
"1917"

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
"O Escândalo"

MELHOR FIGURINO
"Adoráveis Mulheres"

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Ford Vs Ferrari"

MELHOR DESIGNER DE PRODUÇÃO
"Era Uma Vez em... Hollywood"

MELHOR TRILHA SONORA
“Coringa"

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"(I’m Gonna) Love Me Again", de "Rocketman"

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Parasita"

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Jojo Rabbit"

MELHOR LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
"Hair Love"

MELHOR EDIÇÃO
"Ford Vs Ferrari"

MELHOR CURTA-METRAGEM
"The Neighboor’s Window”

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Vencedores do Globo de Ouro 2020

O que podemos extrair do 77º Globo de Ouro? Acima de tudo, que as premiações estão fazendo um esforço algo vazio para serem surpreendentes –e ainda é cedo para dizer se isso é bom ou ruim.
No caso do Globo do Ouro, o inesperado já deu as caras com o implacável discurso do apresentador Ricky Gervais que não deixou pedra sobre pedra: Ele alfinetou praticamente a tudo e a todos em Hollywood, estúdios, atores, diretores, produtores (pedindo, a certa altura, que os premiados se recolhessem em sua insignificância e evitassem a hipocrisia de seus discursos políticos!), restando às câmeras apenas flagrar a perplexidade das celebridades presentes.
Mas, vamos aos prêmios: Diferente do que foi esboçado ano passado, o Globo de Ouro deu um passo atrás em relação à aceitação dos filmes da Netflix deixando sem qualquer prêmio o filme “O Irlandês”, de Martin Scorsese, até então um dos favoritos da noite –resta saber se o Oscar e outros prêmios seguirão essa postura.
Com efeito, a surpreendente esnobada de um favorito significa a igualmente inesperada consagração de uma zebra; não que o épico “1917” não fosse digno dos prêmio de Melhor Filme Dramático e Melhor Direção.
A surpresa apenas ofuscou o merecimento.

Melhor Filme Dramático
“1917” – VENCEDOR
“Irlandês”
“História de Um Casamento”
“Coringa”
“Dois Papas”

Melhor Ator – Drama
Joaquin Phoenix por “Coringa” – VENCEDOR
Christian Bale por “Ford v Ferrari”
Antonio Banderas por “Dor e Glória”
Adam Driver por “História de Um Casamento”
Jonathan Pryce por “Dois Papas”

Melhor Atriz – Drama
Renée Zellweger por “Judy-Muito Além do Arco-Íris” – VENCEDORA
Cynthia Erivo por “Harriet”
Scarlett Johansson por “História de Um Casamento”
Saoirse Ronan por “Adoráveis Mulheres”
Charlize Theron por “O Escândalo”

Um dos poucos favoritismos confirmados foram os de Joaquin Phoenix e Renée Zellwegger que arrebataram sem maiores problemas os prêmios de intérpretes dramáticos (embora no caso de Phoenix, eu ainda considere o trabalho de Adam Driver mais perfeito).
Foram os dois também os mais prejudicados, no momento de seus discursos, pela interrupção, às vezes bem rude, da orquestra musical, podando inclusive um comentário bastante audacioso de Phoenix sobre o teor político da própria premiação.

Melhor Filme Cômico ou Musical
“Era uma Vez em… Hollywood” – VENCEDOR
“Jojo Rabbit”
“Entre Facas e Segredos”
“Rocketman”
“Meu nome é Dolemite”

Melhor Diretor
Sam Mendes por “1917” – VENCEDOR
Todd Phillips por “Coringa”
Bong Joon-Ho por “Parasita”

Martin Scorsese por “O Irlandês”
Quentin Tarantino por “Era uma Vez em… Hollywood”

Melhor Roteiro 
Quentin Tarantino por “Era uma Vez em… Hollywood” – VENCEDOR
Noah Baumbach por “História de Um Casamento”
Bong Joon-ho e Han Jin-won por “Parasita”
Anthony McCarten por “Dois Papas”
Steven Zaillian por “O Irlandês”

Melhor Atriz – Musical ou Comédia
Awkwafina por “The Farewell” – VENCEDORA
Ana de Armas por “Entre Facas e Segredos”
Cate Blanchett por “Cadê Você, Bernadette?”
Beanie Feldstein por “Fora de Série”
Emma Thompson por “Late Night”

Melhor Ator – Musical ou Comédia
Taron Egerton por “Rocketman” – VENCEDOR
Daniel Craig por “Entre Facas e Segredos”
Roman Griffin Davis por “Jojo Rabbit”
Leonardo DiCaprio por “Era uma Vez em… Hollywood”
Eddie Murphy por “Meu Nome é Dolemite”

Melhor Ator Coadjuvante 
Brad Pitt por “Era uma Vez em… Hollywood” – VENCEDOR
Tom Hanks por “Um Lindo Dia na Vizinhança”
Anthony Hopkins por “Dois Papas”
Al Pacino por “O Irlandês”
Joe Pesci por “O Irlandês”

Melhor Atriz Coadjuvante
Laura Dern por “História de Um Casamento” – VENCEDORA
Kathy Bates por “O Caso Richard Jewell”
Annette Bening por “O Relatório”
Jennifer Lopez por “As Golpistas”
Margot Robbie por “O Escândalo”

Talvez o grande vencedor da noite, “Era Uma Vez Em... Hollywood” saiu com três prêmios, Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante, no qual Brad Pitt superou concorrentes peso-pesados para conquistar uma de suas primeiras honrarias como intérprete; e seu trabalho é realmente tão bom que eu espero que isso se repita no Oscar.
Também surpreendente foi a vitória da jovem asiática Awkwafina entre as atrizes de musical ou comédia e de Taron Egerton entre os atores –pareceu apontar uma tendência no Globo de Ouro de, ao mesmo tempo em que homenageou respeitosamente os veteranos (os prêmios especiais foram para Tom Hanks e Ellen Degeneres), deu espaço e reconhecimento aos talentos dessa nova geração.

Melhor Animação
“O Elo Perdido” – VENCEDOR
“Frozen 2”
“Como Treinar seu Dragão 3”
“Toy Story 4”
“O Rei Leão”

Melhor Filme em Língua Estrangeira
“Parasita” – VENCEDOR
“The Farewell”
“Dor e Glória”
“Retrato de Uma Jovem em Chamas”
“Les Misérables”

Entre favoritismos confirmados e outros esnobados, a animação “Missing Link” tirou de “Frozen 2” e “Toy Story 4” o prêmio de animação –ainda que eu duvide que isso se mantenha no restante da temporada de prêmios.
Já a categoria de Melhor Filme Estrangeiro não tinha espaço para surpresas: Na falta de um prêmio de Melhor Diretor (que seria bastante justo) não havia como negar à obra-prima “Parasita” o Globo de Ouro; e o discurso de agradecimento de Bong Joon-Ho foi perfeito ao ratificar a todos os presentes e ao público expectador que filmes maravilhosos e espetaculares estarão à disposição deles se superarem a mera barreira linguística das legendas.

Melhor Canção Original
(I’m Gonna) Love Me Again, de “Rocketman” – VENCEDOR
Into the Unknown, de “Frozen 2”
Beautiful Ghosts, de “Cats”
Spirit, de “O Rei Leão”
Stand Up, de “Harriet”

Melhor Trilha Sonora Original
Hildur Guðnadóttir por “Coringa” – VENCEDORA
Daniel Pemberton por “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe”
Alexandre Desplat por “Adoráveis Mulheres”
Thomas Newman por “1917”
Randy Newman por “História de Um Casamento”

Ao fim, tivemos três prêmios para “Era Uma Vez Em... Hollywood” (fazendo a belíssima ode de Tarantino à Hollywood seguir forte), dois para “Coringa” (sendo que o de trilha sonora foi o primeiro concedido à uma mulher!), dois para “Rocketman” (irá Taron Egerton repetir o feito de Rami Malek ano passado?) e dois para “1917” que, apesar de estranhamente não ter estreado em solo americano (lembre-se o Globo de Ouro é escolhido pela imprensa estrangeira), subiu consideravelmente nas apostas.
O olhar dos votantes do careca dourado repousa atento sobre todos esses eventos.

terça-feira, 12 de março de 2019

Coração Selvagem

Revisto “Coração Selvagem” conserva inalterado todo seu fascínio. É notável perceber também que ele pertence a uma fase em que David Lynch se permitia trabalhar com materiais oriundos de outrem –como “Duna” extraído do romance de Frank Herbert ou o livro de Barry Gifford, como é o caso aqui –e mesmo assim se manter dentro de seu estilo rocambolesco, ácido e desafiador.
Saltam aos olhos as analogias estabelecidas entre “O Mágico de Oz” –uma pequena obsessão de Lynch vide a personagem de Isabela Rosellini chamada Dorothy em “Veludo Azul” –possivelmente responsáveis principais pelo estranhamento deliberado que ele evoca nesta obra.
Como Saylor, Nicolas Cage é incrivelmente adequado ao universo do diretor: Um ator perfeito para os rompantes bipolares que a narrativa irá impor ao personagem que começa o filme cometendo um chocante assassinato, termina encontrando um tortuoso caminho para virar pai de família, e durante todo o processo enaltece Elvis Presley.
No papel da garota que ele ama –e junto da qual vive toda uma jornada de fuga e redenção –Laura Dern, uma das atrizes prediletas de Lynch, compõe uma personagem diametralmente oposta ao seu trabalho anterior, em “Veludo Azul”: Se antes era a menina recatada, aqui ela é a garota sensual; facetas opostas numa mesma intérprete que Lynch parece contrabalancear em cores quentes. Com efeito, se Cage é um reflexo de Elvis Presley, Dern é um reflexo de Marilyn Monroe.
E ambos, no papel assumido de criações norteadas pela caricatura, são assim os protagonistas perdidos em um conto de fadas perverso, corrosivo e sórdido. A estrada pela qual dirigem todo o filme, a fugir da mãe dela (Diane Ladd) que os deseja separados e Saylor, morto, é, portanto, a estrada de tijolos amarelos que deveria levar à Cidade Esmeralda, mas leva à cidadezinha poeirenta de Big Tuna, onde um desfecho de desventura lhes aguarda.
Dessa forma, o road movie que o casal apaixonado estrela se ocupa de mostrar, aqui e ali, personagens defeituosos e problemáticos, aos quais sempre falta algo –tal qual o Espantalho sem cérebro, o Homem de Lata sem coração e o Leão Covarde sem coragem.
Esses personagens surgem ora nas histórias mirabolantes que Saylor e Lula contam um ao outro (a ninfomaníaca que se recusava a fazer sexo oral; ou o primo de Lula, vivido por Crispin Glover, acometido de insana esquizofrenia); ora cruzando o caminho dos dois (o velhote de voz esganiçada que reflete sobre pombos, ou a antológica aparição de Willem Dafoe no papel do cafajeste Bobby Peru) –entretanto, não é dado a nenhum deles a oportunidade de preencher magicamente suas deficiências, assim como os próprios protagonistas não estão lutando para voltar ao lar, como Dorothy, mas, ao contrário, estão tentando fugir dele.
Narrado num tom caricatural que desperta certa suspeita ao expectador –sobretudo, àquele expectador acostumado aos enigmas quase indecifráveis de Lynch –“Coração Selvagem” encontra, nas manobras tortuosas de seu próprio retrato do mal, um final terno e feliz para seus personagens principais (proporcionado pela intervenção da Bruxa Boa, Glinda, aqui vivida por Sheryl Lee, a própria Laura Palmer!) quando estes se agarram à única âncora sólida e real naquele mundo corrupto e pernicioso: O amor que têm um pelo outro.
E o amor, na verve poética de Lynch, é o fogo que queima –o elemento, não por acaso, de maior força visual na narrativa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Pequena Grande Vida


Outrora especialista em crônicas da vida real sobre personagens absolutamente comuns, o diretor e roteirista Alexander Payne mergulha aqui na sua primeira premissa dotada de um viés de ficção científica. Aproveitando –como todo bom autor que andou pelo gênero –para fazer sua dissertação particular sobre a periclitante situação do meio ambiente e o imponderável destino da raça humana sob esse prisma, sem nunca abandonar, no entanto, o ponto de vista do homem comum.
Tal homem comum é Matt Damon que interpreta o terapeuta ocupacional Paul Safrânek. Desde sempre com a conta bancária no vermelho, Paul junto da esposa (Kristen Wiig) testemunham, no início como todo o mundo, por noticiários na TV, a criação de um método revolucionário para resolver o problema de superpopulação mundial: A miniaturização.
Pessoas são levadas em centros específicos e, por meio de um processo avançadíssimo (esmiuçado pelo roteiro com raro preciosismo), reduzidos a um tamanho de não mais que doze centímetros.
Essas pessoas passam a viver em comunidades montadas especificamente para sua proporção reduzida. O pulo do gato: Sendo muito menores, eles consomem menos comida, ocupam menos espaço e demandam uma quantidade muito menor de recursos –mesmo aqueles que representam uma vida de regalia –e, por consequência, gastam menos dinheiro.
Para Paul, a renda financeira de que dispõe relega ele e a mulher à uma vida suburbana, mas, uma vez reduzidos, esse valor lhes permite uma vida de luxo –um dado que, somado ao fato de um amigo (vivido por Jason Sudeikis) fazer uma exaltada propaganda positiva da miniaturização, o convence a tentar o procedimento.
Entretanto, como vem a ser tão sintomático quanto notável no cinema de Payne, as certezas só se expressam na teoria –na prática, elas esbarram na volatilidade humana: Quando Paul já passou pelo processo de miniaturização, eis que sua esposa lhe anuncia, num telefonema, ter se arrependido.
Assim, a dita nova vida, que Paul almejava com entusiasmo já começa com dolorosos transtornos imprevistos. Solteiro, ele acaba –num reflexo de crise de meia idade –no meio de uma festa promovida pelo vizinho e novo amigo, Dusan (Christoph Waltz), na qual ele acaba conhecendo a diarista Ngoc Lan (a notável Hong Chau), uma ex-ativista e imigrante vietnamita, outrora famosa por uma situação inusitada: No Vietnam, as autoridades passaram a usar a miniaturização para conter o excesso carcerário, reduzindo os prisioneiros, como Ngoc Lan, sem o seu consentimento.
Por isso, Paul descobre, ela entra num nicho desconhecido, que não estava previsto nas ostensivas propagandas: As pessoas pobres que terminam passando pela miniaturazação por inúmeras razões improváveis, e integram o grupo cada vez maior de pobres de classe baixa que passam a trabalhar para os hedonistas miniaturizados das classes superiores.
Ao conceber essa estranha utopia que logo ganha ares de distopia, Alexander Payne parece incapaz (e indiferente) de conter seu ímpeto natural de falar sobre impressões e sentimentos quase sempre muito íntimos e pouco evidentes –muito mais em foco do que o rumo que essa inusitada sociedade em miniatura toma (embora isso também faça parte dos desdobramentos da premissa) está a curiosa relação que se estabelece entre Paul e Ngoc Lan.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Star Wars - Episódio 8 - Os Últimos Jedi

Tarefa complicada essa assumida por Rian Johnson: Dar continuidade, neste segundo filme da terceira trilogia da saga “Star Wars”, ao enredo e aos personagens concebidos por J.J. Abrahams em “O Despertar da Força”.
Não apenas isso: Suprir os anseios de tantos fãs –que ao longo desses últimos dois anos, elaboraram milhares de teorias sobre quem seriam os pais de Rey (a maravilhosa Daisy Ridley) e de qual seria o seu futuro –e responder a contento inúmeras perguntas que ficaram sem resposta; isso tudo e ainda segurar o rojão da inevitável expectativa de que –sendo este o capítulo do meio –ele teria de igualar em qualidade, espanto e ressonância emocional o adorado “O Império Contra-Ataca”, preferido de nove entre dez fãs da saga criada por George Lucas.
Por tudo isso é um tanto injusto que muitos já reclamem que o filme é longo demais (não é), que sua primeira parte é muito arrastada (nem tanto) e que o trabalho de Johnson, como diretor, não consegue obter o mesmo encanto de Abrahams no filme anterior (longe disso...).
O quê Rian Johnson faz –e, talvez, isso explique a reação rabugenta de alguns –é subverter as expectativas.
Quando “O Despertar da Força” encerrou-se, Rey enfim encontrava Luke (Mark Hamill), o assim alardeado último jedi para devolver a ele seu sabre de luz e convidá-lo, digamos assim, para juntar-se à Resistência, comandada por sua irmã Léia (Carrie Fisher, falecida poucos meses após as filmagens), na luta contra a Primeira Ordem, um resquício do que foi o Império Galáctico.
Por dois anos, os fãs tinham certeza de que, o filme que se desdobraria a partir daí, mostraria Rey sendo treinada por Luke, e de lá partindo para enfrentar as forças do mal.
Porém, o roteiro de Johnson contorna completamente o óbvio, preferindo mostrar o lado humano dos heróis, as discordâncias dentro da nobre Resistência e a fragilidade de uma causa em meio à guerra.
Após a destruição da Base Starkiller, no fim do último filme. Descobrimos que não há muito que comemorar para a Resistência, afinal, a Primeira Ordem sabe a localização de seu reduto e apesar da derrota ainda tem recursos para esmagá-los –e, na cena formidável que abre o filme, já começa a movê-los para fazer exatamente isso!
É também nessa cena em que Rian Johnson explora suas particularidades como diretor (mais atento aos detalhes inesperados do que Abrahams), e começa amostrar a que veio o personagem mais desperdiçado do outro filme, Poe Dameron (o ótimo Oscar Isaac), que obtém aqui uma extraordinária importância e solidez junto a trama.
Só então, após nos contextualizar na trama dos outros personagens para além do final enganosamente feliz do filme anterior, que Johnson nos leva de volta à cena que encerrou o filme de Abrahams, para prosseguir além dela de maneira desconcertante: Luke, veja só, não quer nada com a resistência e seu exílio justifica a negativa para o pedido da jovem. Ele conhece muito bem as vicissitudes da Força, que Rey está só começando a notar.
Também Finn (John Boyega), o outro protagonista, ao lado de Rey, introduzido em “O Despertar da Força”, tem lá seus problemas: Ao lado da dedicada e idealista Rose (Kelly Marie Tran), ele precisa infiltrar-se num destróier inimigo e desabilitar o mecanismo prodigioso que está permitindo à Primeira Ordem caçar e exterminar a Resistência por toda a galáxia. Para tanto, eles têm como peça fundamental o auxílio algo duvidoso de um escorregadio trapaceiro (Benicio Del Toro, cujo personagem, para surpresa de muitos, não tem tanta importância assim no final das contas). Enquanto Finn, Rose e o dróide BB-8 se arriscam nessa empreitada, cabe a Poe Dameron impedir que o comando indulgente de uma nova oficial (Laura Dern, uma surpresa) comprometa o quê ainda resta da Resistência.
Do outro lado da contenda, Kylo Ren (Adam Driver, excelente), sobrinho de Luke, filho de Léia e assassino de Han Solo, seu pai, é confrontado com suas limitações e frustrações. Mais do que ameaçar o favoritismo cultivado com ele junto ao maquiavélico Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), elas o afastam de seu objetivo mais pessoal de fato: Igualar o poder e a lenda de seu avô, Darth Vader.
O trabalho de Rian Johnson então faz pela saga o quê ele já mostrou fazer bem em outros grandes filmes, como “Vigaristas” e “Looper-Assassinos do Futuro”: Explorar um ambiente, mesmo que fantástico e orquestrar as motivações íntimas com as conseqüências épicas e dessa conjugação extrair momentos surpreendentes.
E Johnson sabe manipular as ferramentas narrativas que têm em mãos: Ele entrega momentos reveladores e instigantes durante o prolongado período em que Rey confabula com Luke em seu exílio –trecho esse que representa o maior alvo das reclamações do filme –observa com um apuro muito mais atento que Abrahams as variações psicológicas mais sutis de seus personagens –e, nesse sentido, sem entregar nenhuma surpresa (e a partir de um ponto, elas serão inúmeras!), as ramificações acerca das personalidades de Rey e de Kylo Ren são as mais notáveis –e elabora cenas brilhantes e espetaculares, marca registrada de uma saga famosa pela proeminência de seus efeitos especiais, mas aqui tratadas com um refinamento e uma singularidade visual flagrantes: Sendo os melhores exemplos, a impressionante sequência de sacrifício de uma das personagens dentro de um cruzador da Resistência, e a batalha final em um deserto de areia vermelha coberto de sal.
Durante todos esses percalços, Johnson trata de conduzir seu roteiro com a precisão de quem quer (e em diversas passagens consegue) fazer algo até inédito em “Star Wars”: Surpreender o público com lances sofisticados e emocionantes de uma trama pontuada por reviravoltas.

“Star Wars” está em um outro nível agora, e nesses próximos dois anos até o “Episódio IX” só podemos supor para onde esses personagens e sua instigante dinâmica revelada aqui irão nos levar.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Culpa É Das Estrelas

Desde muito pequena, Hazel (a promissora Shailene Woodley) sempre foi doente. Aos 16 anos, a perspectiva de uma vida longa já lhe havia sido completamente tolhida por um quadro incontornavelmente pessimista de câncer de pulmão. Na tentativa de administrar a fatalidade, mais para os outros que a cercam (como seus excessivamente solícitos pais) do que para si mesma, ela vai a um grupo de apoio, onde conhece o jovem, Gus Walters (o radiante Ansel Elgort), sobrevivente de um câncer que lhe custou a perna direita.
Como reza a cartilha hollywoodiana de dramas destinados ao público adolescente (cujo livro do qual este filme é adaptado parece seguir à risca), Hazel e Gus se envolvem, enquanto tentam lidar com as particularidades da vida de cada um: Hazel não vê com otimismo a perspectiva de construir qualquer relacionamento com Gus ou com quem quer que seja, diante do fato de que sua vida será tão curta; Gus, por outro lado, vê em tudo uma chance para saborear a vida como ela se apresenta.
São duas concepções distintas que encontram uma harmonia em pequenos elementos de compatibilidade (a adoração pelo filme “O Diário de Anne Frank”, por exemplo) e num sentimento que logo se torna recíproco.
A direção de Josh Boone conduz o filme com sensibilidade, enaltecendo as características do best-seller de John Green que fizeram sucesso no meio literário, e que repetiram um certo êxito em sua versão para cinema: A sensação de que o fim é incontornável permeia todos os seus momentos, fazendo com que as lágrimas sejam inevitáveis.
Seus personagens nunca questionam a vontade de viver que arde dentro deles, cientes de que a culpa é toda e inteiramente das estrelas cujo brilho nos leva a sonhar para além de nossa condição humana.