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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Salve-Se Quem Puder (A Vida)


 Como sempre, é um desafio decifrar Jean-Luc Godard. Aqui, em sua primeira obra dos anos 1980, ele dá continuidade ao experimentalismo que marcou sua produção nos anos 1970, compondo uma espécie de diário pessoal em forma de cinema, afinal, é com um protagonista de nome Sr. Godard, interpretado por Jacques Dutronc, que o filme se inicia.

O Sr. Godard é mau-humorado e esnobe, como os franceses em geral e como Jean-Luc Godard em particular –ou assim é a impressão que parecem querer fornecer ao mundo.

O filme, construído com uma narrativa cheia de  alternâncias experimentais de caráter enigmático e, no fim das contas, vazio, acompanha as impressões desse personagem –pois a despeito de levar o nome de seu realizador, ele nada mais é que isso, um personagem –definidas, em grande medida, pela relação com as mulheres. São elas: A atual namorada, Denise (Nathalie Baye), que perde-se em passeios de bicicleta no campo a ponto de ganhar um entrecho só seu, e em discussões filosóficas sobre a desgastada relação; a filha Gabrielle, já nutrindo considerável aversão pelas atitudes do pai, além da personagem-fantasma da autora Marguerite Duras, que nunca aparece, mas mostra-se onipresente, quase uma assombração às considerações autorais do tremendamente misógino Godard.

Ao longo desse percurso conceitual e narrativo –pontuado por intrusivas sequências com velocidade de rotação alterada –Godard oferece um formato episódico, dividindo-o em intertítulos que determinam elementos criativos do cinema em si, como arte e como indústria (a câmera lenta; a vida; o imaginário; o comércio; a música), mas que também determinam muitas características ressaltadas dos personagens que vão aparecendo.

Num determinado ponto, o Godard diretor parece se cansar desse Godard personagem por algum tempo, e transfere o protagonismo para a jovem prostituta interpretada por Isabelle Hupert com quem tem um casual encontro –e durante uma boa parte do filme, ele a acompanha em seu dia-a-dia, flagrando situações tão bizarras quanto surreais (o cliente pervertido que deseja encenar uma conversa cheia de intenções incestuosas com a esposa e a filha: os negociantes que submetem a prostituta Isabelle, junto de uma outra, a uma sessão de submissão e abuso).

Mais cedo ou mais tarde, o filme acaba retomando o personagem Godard, insistindo em cenas que ressaltam sua relação inconstante, insatisfatória e imperfeita com as mulheres, a cidade a vida real e a arte: No relevo de seu traquejo claudicante com todas as coisas, se desenrolam outros dilemas (as relações existenciais de Isabelle com as questões trabalhistas de seu ofício e sua tentativa de alugar uma casa de campo; ou a intenção de Denise em deixar tudo para trás e viajar, na busca por uma fuga).

Como lhe é inerente, o diretor se perde tanto na intenção de ser Godard aos olhos de seu público e crítica que a narrativa de seu filme se fragmenta nos pretensiosos e inúmeros objetivos que ele almeja.

Muitos são os que chegarão ao fim deste “Sauve Qui Peut (La Vie)” com considerações completamente distintas uma da outra acerca do que, de fato, esta obra imprecisa, incoerente e inconstante trata –talvez, na vicissitude de seu propósito (ou na ocultação absoluta dele), Godard trate exatamente disso, da inconstância; um ebuliente esforço artístico que, como num teste psico-técnico, pode ser sobre qualquer coisa, ou sobre coisa nenhuma.

Vai do gosto do freguês...

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

A Professora de Piano


 Listado como número 85 na lista dos 100 melhores filmes da década de 2000 feita pelo jornal “The Times”, “A Professora de Piano” é uma obra na qual o austríaco Michael Haneke investiga os desdobramentos do amor e da relação a dois em um contexto cheio de perversidade e frieza –à sua maneira, sua realização é um título que soma novos significados às inquietações muito pessoais que ele dedicou sua filmografia inteira a discorrer.

Do alto de sua inquestionável excelência, Isabelle Hupert é Erika, um professora de aulas de piano, em tudo e por tudo, rígida com todos à sua volta.

Entretanto, tal rigidez é mais do que apenas compostura, como tratam de mostrar pequenos indícios ainda no começo, como a abruptamente violenta relação dela com a mãe (Annie Girardot), suas inesperadas e improváveis visitas à uma cabine de sex-shop para assistir filmes pornográficos (e, na ocasião, cheirar lenços ‘usados’ por clientes pouco antes!) e alguns instantes, bem ao gosto de Haneke, quando Erika inflige, inclusive em si mesma, ferimentos de ordem sadomasoquista.

Erika é um perigo ambulante, disfarçado sob a superfície de uma respeitável doutora em música: Há uma satisfação captada em pequenos detalhes de sua expressão, quando consegue infligir algum dano realmente doloroso, ou quando suas atitudes podam a felicidade de alguém.

Durante os disputados ensaios para um vindouro recital de Schubert, Erika conhece o jovem Walter Klemmer (Benoît Magimel, de “Uma Garota Dividida Em Dois”), que não poupa esforços para chamar a atenção da bela professora; mas, para ele e para todos os outros mais, Erika é um poço sem fundo de rancor e amargura travestido de excessivo profissionalismo.

Leva tempo para Walter começar a romper essa ardilosa armadura social e descobrir quem ela é de fato: Aos poucos, Erika esboça suas intenções de se tornar o agente passivo numa relação de dominação –ela deseja ser chicoteada, estapeada e agredida –e essa reação promove uma mudança em Walter; de apaixonado repudiado, ele se torna o agressor, enquanto Erika passa a submeter-se a sua violência.

Haneke promove uma inversão de papéis abusivos, guiada pela justificativa do amor, mas que ilustra inúmeras fissuras defeituosas na relação homem/mulher.

Como outros de seus trabalhos naquele período –tal qual as duas versões de “Violência Gratuita” e o antológico “Caché” –“A Professora de Piano” parece sinalizar um molde cinematográfico com expedientes bem sólidos aos quais o subconsciente do expectador médio haverá de se agarrar –aqui, o romance, a história de amor –e, a partir dessas pressuposições básicas, Haneke desconstrói os anseios e as expectativas do expectador negando-lhe um desfecho fácil e convencional que traga catarse e oferecendo, em vez disso, uma verdadeira paulada em formado de experiência cinematográfica.

Diferente de outros realizadores europeus (como Lars VonTrier, Andrzej Zulawski ou Gaspar Noé), Haneke não recorre direta e imediatamente à choques visuais para desconsertar o público: Ele o faz triturando, pouco a pouco, as defesas de seu psicológico. É nessa convicta escolha estética que “A Professora de Piano” posiciona sua reflexão ao lado de tantos outros grandes trabalhos, nos quais Haneke questiona as máscaras sociais, a idealização sentimental dos relacionamentos humanos, a gênese e os propósitos do próprio cinema.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Paixão


Integrante daquela melindrosa lista dos trabalhos de Jean Luc Godard apenas integralmente recomendados aos já devidamente iniciados em sua obra, “Paixão” não é –como haveria de se esperar –um filme fácil.
Lançado em 1982, quando Godard já tinha se deixado convencer pela adoração unilateral de seus apreciadores que era um gênio absoluto e que seus filmes tinham por obrigação, portanto, serem absolutamente geniais, ele conta uma trama tão fragmentada, tão dispersa numa narrativa pretensamente desafiadora, tão refém da necessidade de Godard ser Godard que quase não se consegue achar um fio da meada.
“Paixão” tem por protagonista, na maior parte das vezes, o mal-humorado Jerzy (Jerzy Radziwilowicz), um cineasta –e, portanto, alter-ego de Godard –cuja distância de sua Polônia natal (distância essa imposta por lamentáveis circunstâncias políticas) o leva a filmar na Suécia. Mas, o que Jerzy, em seu ímpeto autoral quer filmar?
Imagens, somente. Imagens reproduzidas de quadros de obras de arte –e que assim exigem dos atores posições estáticas sem mover um músculo e da iluminação, uma perfeição imperturbável, onde a menor oscilação de luz acarreta frustração.
E como o cinema não é pintura –ele se faz com movimento –Jerzy se vê continuamente insatisfeito com os resultados dessa empreitada.
Também outros personagens, divididos entre a insatisfação e o ideal, surgem orbitando Jerzy. Há, por exemplo, Isabelle (Isabelle Hupert) que, tirada da usina onde era operária, se torna uma presença confidente entre os membros da equipe de filmagem, cuja função ela não saberia dizer qual é. Há, também Hanna (Hanna Schygulla, deveras todos os personagens têm os nomes correspondentes de seus intérpretes!), uma atriz também ela polonesa, e talvez um relacionamento do passado de Jerzy, que precisa constantemente lidar com os constrangimentos da própria imperfeição –o pudor registrado com brilho onde ela assiste uma filmagem em videotape da própria performance –e os rompantes bipolares da relação com Michel (Michel Piccoli), membro da equipe de filmagem.
Isso, além da aparição da lindíssima Myriem Roussel (de “Je Vous Salue, Marie”, lançado no ano seguinte) interpretando uma jovem atriz muda, porém, essencial em dado momento para a composição de uma determinada imagem que parece, com efeito, existir somente na cabeça frustrada de Jerzy –e a nudez de Myriem Roussel parece também se mostrar uma obsessão para o próprio Godard neste e no filme subsequente que fez com ela.
No tênue contexto em que todos os integrantes dessa fauna estão inseridos, todos representam pequenos lampejos da reflexão que Godard lança sobre a arte, seu significado e sua representação, e também sobre os equívocos acarretados pela transposição da arte para uma outra mídia –o cinema –que lhe é oposta em tantos aspetos; afinal, se a arte de pintura é contemplação e imobilidade, o cinema é som e fúria, não?

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Infelizmente Para Mim


Na década de 1990, Jean Luc Godard já era um nome lendário no cinema –e o próprio já acreditava piamente no mito que havia sido criado em torno de si.
Suas obras já não oscilavam numa arguta busca por voz e estilo –ou mesmo argumentação –então, o que parecia norteá-lo, como artista, era uma algo prepotente tentativa de fazer jus à reputação que dele e de seus filmes foram construídos.
“Infelizmente Para Mim” é fruto dessa fase.
Menos um filme ou até uma expressão artística, e mais um esforço para observar as repercussões da própria relevância e, quem sabe, um espasmo na intenção de manter essa mesma relevância.
Com efeito, o resultado é um filme-ensaio com postura artística tão contundente que dificilmente será decifrado ou mesmo apreciado por quem não está intimamente ligado ao que Godard significa.
Ele parte do princípio de alguns mitos nos quais se baseia (sobretudo, no de Alcmena e Anfitrião) e deles extrai não uma história mais um apanhado de situações e circunstâncias (e, talvez, lá no fundo, a intenção abstrata de uma história) onde vislumbra uma tentativa de Deus em experimentar sensações muito humanas e mundanas em meio à uma narrativa que se impõe a necessidade de ousar todo o tempo: A cronologia é distorcida; a incongruência entre o quê se vê e o quê se ouve é propositadamente divergente, estranha e fragmentada; a encenação segue princípios impraticáveis de realismo fantástico; as referências se amontoam em níveis que impossibilitam uma leitura completa de tudo o que se passa em cena; e a direção de atores (entre eles, Gerard Depardieu e Isabele Hupert) conduz o elenco por meio de seqüências que até conseguem extrair alguma beleza e poesia do momento, mas cujo desvario em nome da arte só leva a indagações que não encontram qualquer respiro.
Como em “Je Vous Salue, Marie”, realizado anos antes, Godard mira na Igreja Católica com ousadia e despojamento visando fazer barulho; mas, diferente daquele obra, esta aqui não parece expressar uma vontade genuina de questionamento –é Godard apenas querendo continuar a ser Godard para seus intelectuais admiradores que se perdem em argumentos para enaltecê-lo.
E sabemos que podia ser bem mais que isso.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Corações Loucos

O filme do diretor Bertrand Blier nada mais é do que uma transgressão, das muitas que jovens realizadores com muito a dizer e amplo terreno para ousar perpetraram nos anos 1970.
Em sua simplicidade narrativa, segue dois rapazes arruaceiros sem eira nem beira, Jean Claude (Gerard Depardieu, magnífico) e Pierrot (Patrick Dwaere, de “Beau-Père”, também de Blier), que não demonstram ter escrúpulos, propósito ou ocupação. São libidinosos, abusados e atrevidos. E, por pertencerem à uma comédia de Bertrand Blier, são também beneficiados pelo modo quase indiferente com que o mundo à sua volta recebe suas manifestações de transgressão.
O filme caminha assim no formato de uma sucessão de pequenos episódios que registram sua libertinagem, sua permissividade e audácia, e são em grande medida definidos, não pelos personagens principais que se mantêm constantes em sua infâmia, mas pelas personagens com quem se cruzam, e que acrescentam presenças notáveis como a de Jeanne Moreau (como uma ex-presidiária recém-saída da cadeia cuja presença inspira neles uma inesperada devoção e os conduz ao desenlace mais trágico do filme), Isabelle Huppert (como uma jovem rebelde que aparece já perto do desfecho –mas, cuja personagem havia sido mencionada no início –e que representa uma das muitas pontas soltas que se unem) e, com muito mais presença e importância na trama, Miou Miou (uma bela e frígida cabeleireira que os dois conhecem logo no começo, após o roubo de um carro, e que a partir daí vira uma espécie de parceira sexual partilhada).
Numa das cenas, os dois encurralam, no vagão vazio de um trem, uma jovem mãe que amamenta seu bebê. Ela não se opõe tanto quanto poderia se esperar quando eles –de modo um bocado ameaçador –lhe pedem para sugar seus seios (!). Ela cede e, no absurdo desconcertante da cena que se segue –onde é preciso destacar a grande beleza da atriz Brigitte Fossey, assim como são belas todas as atrizes deste filme –Blier mostra o êxtase sexual dela própria ao encontrar o marido esperando-a na estação.
Nesse, como em vários outros momentos que se seguirão, Blier, portanto, sublinha menos a natureza abusiva do ato e mais seu objetivo de excitação: Tal mundo no qual se passa “Corações Loucos” não pertence ao mundo real –onde a mulher chamaria um policial para denunciar tais abusos –mas, sim, num outro, onde estão em perspectivas as buscas por prazer acima de tudo e a intenção de chocar público e crítica com o filme que de tal esforço há de resultar; e, de fato, “Corações Loucos” é lembrado assim como um anárquico manifesto do cinema francês naqueles tempos (década de 1970) em que o cinema autoral vinha recebendo ressonantes abalos sísmicos em todos os cantos do mundo com trabalhos que testavam o limite da aceitação por meio de ousadas incursões no sexo.
E o cinema de Bertrand Blier sempre foi avesso ao conformismo, à adequação às convenções. No comportamento amoral dos protagonistas que registra –e a premissa de seu filme pode mesmo ser reduzida a isto –ele expõe a pertinência com que se deve questionar patrulhas ideológicas e rótulos institucionais assim como realiza também uma síntese da mentalidade juvenil daqueles tempos em que, após os politizados anos 1960, as novas gerações eram confrontadas com uma nociva perspectiva de alienação; e cabeça vazia, como bem se diz, é oficina do diabo.
O final parece sugerir um fim acidental para a vida dos protagonistas –cuja cena o filme se encerra antes de mostrar –já que, ao que parece, eles tornam a roubar o mesmo carro do início (que eles sabotaram antes de devolver ao dono para que sofresse um acidente), mais uma das muitas ironias que Bertrand Blier destila aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Amor

Há algo de audacioso no fato de se intitular este filme como “Amor” –já deixando bem claro que este não é um romance, algo que o diretor austríaco Michael Haneke jamais faria.
Não são, de modo algum, os procedimentos e as etapas de evolução de um relacionamento amoroso o alvo do interesse de Haneke: O amor que ele vislumbra é aquele moldado ao longo de décadas de convívio, e que sofre um duro teste de fogo quando o casal formado por Jean Louis Trintignant e a saudosa Emmanuelle Riva se vê diante de um incontornável problema, depois que ela sofre as conseqüências de dois derrames simultâneos.
O marido deve então passar a cuidar dela, e testemunhar a mulher que ama definhar (e deixar de ser ela própria) dia após dia enquanto se vê aprisionada num corpo cujas funções motoras já não respondem mais aos seus comandos.
É o amor, portanto, convertido numa dedicação incondicional diante dos males atrozes e imprevistos da realidade (os quais Haneke faz tanta questão de ressaltar), e o mesmo amor que, mais tarde, será também a motivação que o levará a um ato radical visando uma certa libertação no último ato do filme –e que não chega a surpreender se tivermos em mente que este é o mesmo Michael Haneke cruel e implacável desde “O Sétimo Continente”.
Aliás, desde o início (que mostra bombeiros tentando invadir o apartamento do casal, e depois regride no tempo ao começo da trama) sabemos que as coisas não acabarão bem.
Esse simbolismo (o da interrupção abrupta da vida) é evidenciado por Haneke no emprego da música –nenhuma das que tocam no filme termina naturalmente; elas são todas, por alguma razão diferenciada, interrompidas: Em especial, a música que toca na grande cena do filme, na qual parece (mas, apenas parece...) que vemos o personagem de Trintignant ouvir a esposa tocar piano.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Elle

Nesta temporada, dois filmes aparentam uma curiosa similaridade entre si: Este “Elle”, de Paul Verhoeven, e o drama de guerra “Até O Último Homem”, dirigido por Mel Gibson.
Ambos são obras de insuspeita qualidade e habilidade (ainda que completamente diferentes entre si) que trazem de volta à ribalta dois grandes (e polêmicos) realizadores após quase uma década de sua ausência no cinema.
Não há um segundo de filme desperdiçado na narrativa vigorosa que Paul Verhoeven impõe aqui, a lançar uma atenção peculiar sobre desdobramentos corriqueiros do cotidiano (trabalhar; encontrar-se com amigos, conhecidos, familiares; participar de uma festa de Natal) cujo contexto transforma tais percepções numa audaciosa abordagem da postura que escolhemos para lidar com acontecimentos da vida, e que terminam por nos definir.
“Elle” é, portanto, um filme cujo brilho e genialidade provêm, acima de tudo, dos fatores inerentes à sua protagonista. E que golpe de sorte teve Verhoeven ao escalar Isabelle Huppert para interpretá-la –Isabelle Huppert é a continuidade do filme. É a sua coerência. É a razão absoluta para a trama sustentar-se e, no tom espetacularmente preciso de sua atuação, dela proporcionar a chance para que o público extraia exatamente os tópicos e observações almejados pelo diretor.
Que atriz, senhores! Que atriz!
Qualquer outra intérprete em seu lugar (e olha que Verhoeven cogitou, de fato, usar nomes mais hollywoodianos como Sharon Stone ou Nicole Kidman), e o filme perderia seu impacto, e a exatidão fluida com que se dá seu desenvolvimento.
Isabelle é Michelle (ou Elle para os mais íntimos), uma mulher bem-sucedida que, já na cena que abre o filme, é estuprada dentro da própria residência por um mascarado misterioso.
Os dias que se seguem registram um comportamento inesperado da parte dela, em relação ao ocorrido –e particularmente interessa muito ao diretor Verhoeven essa dicotomia.
Dona de uma empresa de designer de videogames, Elle não é uma mulher acostumada ao vitimismo: Quando relata o que aconteceu ao ex-marido e a um casal de amigos numa mesa de restaurante, ela é a menos abalada com o fato.
Não há também nada de comum em Elle: Ela exerce, como ficará nítido ao longo do filme, um controle ocasionalmente tirânico sobre as pessoas à sua volta: Interfere nas relações afetivas da própria mãe, assim como do filho, que vai morar com a namorada grávida num apartamento que Elle faz questão de bancar. Até mesmo a vida amorosa do ex-marido não lhe escapa ao radar.
Há, talvez, uma explicação para isso: Na infância, Elle assistiu, do mais inusitado dos camarotes, uma chacina psicótica perpetrada pelo pai (e muito bem ilustrada, com parcimônia e brilho, ao longo do filme), cuja lembrança oscila na memória dela entre o intencionalmente repulsivo e o convulsivamente terno.
Daí o rigor com que Elle encara todo o resto –e a personagem só não perde em empatia para o expectador, porque é uma cintilante e genial Isabelle Huppert quem está lá, a catalisar toda a importância do filme.
E, se controle é um elemento que determina a maneira com que ela lida com tudo o mais, não é o fato de ter sido estuprada (e, nem mesmo, de seu misterioso estuprador ainda estar por perto, a cercá-la), que irá mudar isso: Pouco a pouco, Elle estabelece um jogo de reconhecimento, aproximação e, por que não, de sedução com seu agressor. Um jogo que não se altera nem mesmo depois que ela descobre a identidade dele!
Muitos foram os patrulheiros do politicamente correto que criticaram o filme de Paul Verhoeven (que sempre esteve habituado à uma controvérsia) acusando-o de criar uma obra que enaltece a cultura do estupro. Um erro crasso: Verhoeven tão somente se recusa a embalar seu filme e sua protagonista numa roupagem convencional e melodramática da qual tantos outros filmes já lançaram mão. À sua maneira sarcástica, debochada e ousada, Verhoeven dá um ímpeto de empoderamento feminino à “Elle”, fazendo dela a grande personagem de sua própria história.
Um diferencial espetacular que coloca “Elle” entre os melhores filmes do ano.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Os Indicados Ao Oscar 2017

Hoje, quinta feira, 24 de Janeiro, conhecemos os filmes que disputarão o grande prêmio do cinema no próximo dia 26 de Fevereiro, numa exibição bonita que abriu mão da tradicional apresentação ao vivo.
Eis os indicados:

MELHOR FILME
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Até O Último Homem"
"A Qualquer Custo"
"Estrelas Além do Tempo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Manchester À Beira-Mar"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

E "La La Land-Cantando Estações" chega pronto para fazer história com um número recorde de indicações (foram 14, somente dois filmes antes dele atingiram esta marca, sendo eles “A Malvada” e “Titanic”), podendo sair da cerimônia de entrega com um feito raro no cinema. Seus maiores concorrentes acabam sendo os elogiadíssimos “Moonlight” e “Manchester À Beira-Mar”.
Até lá, dá para lamentar um pouco a nem tão surpreendente ausência de “Deadpool” –mas, talvez, fosse pedir demais do Oscar mesmo... –e comemorar com a merecida lembrança de “A Chegada”.

DIREÇÃO
"A Chegada", Denis Villeneuve
"Até O Último Homem", Mel Gibson
"La La Land-Cantando Estações", Damien Chazelle
"Manchester À Beira-Mar", Kenneth Lonergan
"Moonlight-Sob a Luz do Luar", Barry Jenkins

Já era hora mesmo de Denis Villeneuve receber uma indicação de Melhor Diretor (que poderia ter vindo por qualquer um de seus últimos trabalhos), mas ela chega num momento em que dificilmente o prêmio escapará das mãos hábeis do jovem Damien Chazelle.
De resto é um bocado interessante ver a Academia render-se à primorosa execução de filme de guerra realizada por Mel Gibson em “Até O Último Homem”, cujas indicações soam como um reconhecimento (e uma redenção) proporcionados pela Academia. Também pudera: Comparados às denúncias de estupro de Nate Parker –outrora um potencial candidato ao Oscar por seu elogiado porém esquecido “O Nascimento de Uma Nação” –os escândalos de Mel parecem brincadeira de criança.

ATRIZ
Isabelle Huppert, "Elle"
Ruth Negga, "Loving"
Natalie Portman, Jackie
Emma Stone, "La La Land-Cantando Estações"
Meryl Streep, "Florence-Quem É Essa Mulher?"

A indicação de Meryl Streep se deve em grande parte pela repercussão de seus discurso anti-Trump no Globo de Ouro. Rezamos para que isso não interfira na premiação propriamente dita, uma vez que seu trabalho é bastante fraco se comparado à suas magníficas concorrentes, sobretudo o trabalho ímpar entregue por Isabelle Huppert, em “Elle”.
Dito isso, a maior concorrente de Huppert é mesmo a apaixonante Emma Stone que pelo ovacionado “La La Land” vem ganhando diversos prêmios. Também premiada, mas perdendo considerável força com o avanço da temporada de premiações está Natalie Portman e sua atuação em “Jackie”.
Correndo por fora, o belo trabalho de Ruth Negga em “Loving” vem representar a única lembrança da Academia ao filme.

ATOR
Casey Affleck, "Manchester À Beira-Mar"
Andrew Garfield, "Até O Último Homem"
Ryan Gosling, "La La Land-Cantando Estações"
Viggo Mortensen, "Capitão Fantástico"
Denzel Washington, "Um Limite Entre Nós"

Dificilmente o prêmio escapará das mãos do mais cotado: O talentoso Casey Affleck, que já vem sendo amplamente reconhecido na temporada de prêmios. Mas as lembranças nesta categoria a tornam uma vitrine do que de melhor, em termos interpretativos, o ano de 2016 entregou: Denzel Washington, primoroso como sempre em "Um Limite Entre Nós”; o jovem Andrew Garfield superando a mal-fadada experiência como Homem-Aranha; Viggo Mortensen provando sua excelência num personagem brilhante; e Ryan Gosling, sempre ótimo, no filme-sensação da temporada.

ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis, "Um Limite Entre Nós"
Naomie Harris, "Moonlight-Sob a Luz do Luar"
Nicole Kidman, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Octavia Spencer, "Estrelas Além do Tempo"
Michelle Williams, "Manchester À Beira-Mar"

Este certamente será o ano de Viola Davis: Ao menos nesta categoria poucas (ou quase nenhuma) concorrentes têm chance contra ela.
Isso se a maré de favoritismo até lá não mudar a favor do grande trabalho de Naomi Harris em “Moonlight” (um filme que ainda pode surpreender), ou de Nicole Kidman no ainda pouco visto “Lion”.

ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali, "Moonlight-Sob A Luz do Luar"
Jeff Bridges, "A Qualquer Custo"
Lucas Hedges, "Manchester À Beira-Mar"
Dev Patel, "Lion-Uma Jornada Para Casa"
Michael Shannon, "Animais Noturnos"

Teimando em contrariar o Globo de Ouro, a Academia ignorou o premiado Aaron Taylor Johnson, indicando seu colega de elenco, Michael Shannon, na única menção ao elogiado filme de Tom Ford.
As chances parecem concentradas em Mahershala Ali, que tem no veterano Jeff Bridges aparentemente seu único concorrente mais forte. Mas ainda pode ser que Dev Patel, ou mesmo Lucas Hedges venham a surpreender –o olhar do SAG Awards ainda repousa sobre todos eles.

FOTOGRAFIA
"A chegada"
"La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Silêncio"

LONGA DOCUMENTÁRIO
"Fogo No Mar", Gianfranco Rosi
"I Am Not Your Negro", Raoul Peck
"Life, Animated", Roger Ross Williams
"O.J.-Made In America", Ezra Edelman
"A 13ª Emenda", de Ava DuVernay

CURTA DOCUMENTÁRIO
"Extremis"
"4.1 Miles"
"Joe's Violin"
"Watani-My Homeland"
"The White Helmets"

FILME ESTRANGEIRO
"Terra de Minas" (Dinamarca)
"Um Homem Chamado Ove" (Suécia)
"O Apartamento" (Irã)
"Tanna" (Austrália)
"Toni Erdmann" (Alemanha)

A França perdeu a chance de estar nesta categoria (talvez, como favorito!) ao deixar de indicar o brilhante “Elle” como representante do país. Ficou de fora, e os cinco indicados terminaram com títulos pouco significativos, não havendo nenhum favorito.
Dito isso, há alguma chance de “Um Homem Chamado Ove” prevalecer.

MIXAGEM DE SOM
"A Chegada"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Rogue One-Uma História Star Wars"
"13 horas-Os Soldados Secretos de Benghazi"

EFEITOS VISUAIS
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Doutor Estranho"
"Mogli-O Menino Lobo"
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Rogue One-Uma História Star Wars"

Páreo duro. Pelo menos três dos melhores blockbusters do ano disputam ferrenhamente esta categoria, na qual ambos não apenas amparam suas narrativas, como também oferecem novas possibilidades para o emprego dos efeitos visuais.
São eles, a exuberância técnica e fascinante de “Mogli-O Menino Lobo” que recria todo um mundo ao redor do pequeno protagonista Neel Sethi; o aprimoramento e o aperfeiçoamento, um patamar além, do que “A Origem” já fez (e também do que o Universo Marvel vinha fazendo no cinema) de “Doutor Estranho”; e a recriação sem precedentes de mundos, criaturas e personagens (e seus intérpretes) realizada em “Rogue One”.
Se fosse para escolher, eu ficaria com “Rogue One”!

MAQUIAGEM
"Um Homem Chamado Ove"
"Star Trek:-Sem Fronteiras"
"Esquadrão Suicida"

O melhor trabalho de maquiagem é “Star Trek-Sem Fronteiras”. Ponto.
Resta, contudo, conferir se este não é um gesto político da Academia lembrando um filme achincalhado pela crítica de um grande estúdio (no caso, “Esquadrão Suicida”, da Warner), mas que teve grande recepção de público –o elemento, afinal, que mantém a indústria.

FIGURINO
"Aliados"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Florence-Quem É Essa Mulher?"
"Jackie"
"La La Land-Cantando Estações"

EDIÇÃO DE SOM
"A Chegada"
"Horizonte Profundo-Desastre No Golfo"
"Até O Último Homem"
"La La Land-Cantando Estações"
"Sully-O Heroi do Rio Hudson"

DIREÇÃO DE ARTE
"A Chegada"
"Animais Fantásticos e Onde Habitam"
"Ave, César"
"La La Land-Cantando Estações"
"Passageiros"

TRILHA SONORA
"Jackie"
“La La Land-Cantando Estações"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"
"Passageiros"

A Academia aproveitou as categorias técnicas para lembrar de alguns filmes que ficaram de fora dos prêmios principais. Como o sucesso “Animais Fantásticos...”, e os esquecidos “Ave, César”, dos Irmãos Coen, e “Sully”, colaboração de Clint Eastwood e Tom Hanks.
Quem levou a melhor foi o irregular “Passageiros” cuja data de lançamento facilitou sua lembrança entre os votantes

CANÇÃO ORIGINAL
"Audition (The fools who dream)", de “La La Land-Cantando Estações"
"Can't stop the feeling", de "Trolls"
"City of stars", de "La La Land-Cantando Estações"
"The empty chair", de "Jim-The James Foley Story"
"How far I go", de "Moana-Um Mar de Aventuras"

Comparecendo com duas indicações numa mesma categoria, é improvável que “La La Land- Cantando Estações" fique sem o prêmio. Ele deve vir pela música mais mencionada e comentada do filme, “City of stars”, cantada (e muito bem) por Ryan Gosling, mas a minha preferida vai sempre continuar sendo a emocionante “Audition” na voz de Emma Stone –um dos grandes momentos do filme.
Fica até difícil para os outros concorrentes.

ROTEIRO ORIGINAL
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"O Lagosta"
"Manchester À Beira-Mar"
"20th Century Women"

ROTEIRO ADAPTADO
"A Chegada"
"Um Limite Entre Nós"
"Estrelas Além do Tempo"
"Lion-Uma Jornada Para Casa"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

A Academia lembrou-se do inusitado “O Lagosta” na categoria de roteiro original, o quê pouco significa diante da força de “La La Land-Cantando Estações".
Na de roteiro adaptado, “Moonlight” e “Lion” devem disputar pau a pau o prêmio, ficando provavelmente com o primeiro. Mas, não seria nada ruim ver “A Chegada” pegando a todos de surpresa!

LONGA DE ANIMAÇÃO
"Kubo e As Cordas Mágicas"
"Moana-Um Mar de Aventuras"
"Minha Vida de Abobrinha"
"A Tartaruga Vermelha"
"Zootopia"

O fato de “Kubo e As Cordas Mágicas” ter duas indicações (além desta, a de efeitos visuais) dá uma ligeira impressão de favoritismo, mas isso se dissipa quando vemos que ali está o genial “Zootopia”, que andou levando quase todos os prêmios a que concorreu e é mesmo uma obra de animação que cresce com o tempo.
Muito legal a lembrança da Academia ao belíssimo “A Tartaruga Vermelha”.

CURTA ANIMADO
"Blind Vaysha"
"Borrowed Time"
"Pear Cider and Cigarettes"
"Pearl"
"Piper"

EDIÇÃO
"A Chegada"
"Até O Último Homem "
"A Qualquer Custo"
"La La Land-Cantando Estações"
"Moonlight-Sob A Luz do Luar"

CURTA-METRAGEM
"Ennemis Intérieurs", Slim Azzazi
"La Femme Et Le TGV", Timo von Gunten e Giacun Caduff
"Silent Nights", Aske Bang e Kim Magnusson
"Sing', Kristof Deak e Anna Udvardy
"Timecode", Juanjo Gimenez

No dia 26 de Fevereiro descobriremos quais favoritos se confirmarão, e quais darão espaço para inesperados vencedores.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Um Amor Tão Frágil

Para comemorar o recente Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama conquistado pela extraordinária Isabelle Huppert, nada como regressar ao começo, e conferir um dos trabalhos que a revelou para o mundo.
Ela, de fato, deveria contar uns vinte aninhos quando incorporou a protagonista Beatrice, em 1977, neste trabalho do veterano diretor Claude Goretta.
Beatrice (chamada Pomme, por sua colega) trabalha num salão de beleza e, ao contrário da amiga é introvertida, tímida e silenciosa. Uma personagem que não notaríamos, exceto pelo fato da câmera de Goretta estar, o tempo todo centrado nela.
Pouco a pouco, começa a ficar claro o porque: Na interpretação linda e cheia de pormenores de Isabelle Huppert, Beatrice é uma personagem feita de profundezas insondáveis, característica que será o pólo gravitacional que trará o personagem de François (Yves Beneyton) para sua vida, e mais tarde, paradoxalmente, o afastará dela também.
Vindo de uma família de classe e instrução mais alta que a de Beatrice, logo François se vê ressentido por sua expectativa inicial que nutre dela não ser correspondida, quando por fim os dois decidem morar juntos como um casal. A jovem não diz o que sente. Não expressa suas opiniões. E pouco reage diante de suas insistências e fazê-la mudar.
É como se ele não quisesse que ela continuasse a ser a jovem por quem ele se apaixonou: Ela deve evoluir, para que continue a despertar seu interesse paulatinamente, e o rompimento para com ela surge a partir desse viés de egocentrismo.
Ao fim, ele perceberá o erro, e tentará gaiatamente voltar atrás, com resultados irrisórios.
Narrado com uma peculiaridade bastante francesa –e que remete um sentimento muito próximo da nouvelle vague, um movimento famoso, porém relativamente recente na época –o diretor Goretta reforça seu fascínio pelos aspectos banais que contam a história, visual classe média europeu, enquadramentos de austero minimalismo e ocasionais rompantes que lembram Truffaut, mas nunca tiram seu filme do ritmo pausado que ele lhe impõe.
Tudo é uma moldura para uma atriz fascinante como Isabelle Huppert, que monopoliza nossa atenção, sem fazer esforço algum –ela já era sensacional, desde o começo!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Vencedores do Globo de Ouro 2017

Melhor Ator Coadjuvante
Aaron Taylor Johnson (Animais Noturnos)

A noite começou com uma vitória inesperada, que não deve se manter nas demais premiações, embora essa fosse uma maneira de lembrar do elogiado filme de Tom Ford. De qualquer forma, é interessante ver o intérprete de “Kick Ass” obter algum reconhecimento de seu talento –que ele, de fato, tem e muito!

Melhor Trilha Original
La La Land - Cantando Estações

Melhor Canção Original
"City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)

Seria até mesmo contraditório (ainda que perfeitamente provável de que viesse a ocorrer) que um filme de tamanho favoritismo como “La La Land”, justamente um musical, ficasse sem levar os prêmios de Canção e Trilha Original (justamente as forças que o definem), mas o Globo de Ouro evitou as mancadas nessa edição, e começou, exatamente por essas categorias, a revelar a supremacia sem precedentes do filme de Damien Chazelle.

Melhor Atriz Coadjuvante
Viola Davis (Fences)

As categorias de coadjuvantes são as mais distintas do Globo de Ouro, dificilmente se repetindo no restante da temporada de premiações. Mas, seria maravilhoso ver Viola Davis obtendo um já tardio reconhecimento por seu grande trabalho.

Melhor Ator - Comédia ou Musical
Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)

Uma das mais disputadas, esta categoria premiou a escolha mais justa, óbvia e válida enquanto premiação séria. É lógico que muitos foram os que lamentaram a derrota de Ryan Reynolds por sua já icônica atuação como Deadpool, mas o outro Ryan, o Gosling, mereceu plenamente o prêmio.

Melhor Filme de Animação
Zootopia

Com a concorrência bastante assídua de “Moana” –que também é da Disney e ainda se encontra nas salas de cinema –muitos apostavam numa possível injustiça da parte do Globo de Ouro, uma vez que, tendo “Zootopia” sido lançado em março do ano passado nos cinema (há quase um ano) sua lembrança poderia não estar tão fresca na mente dos votantes. Mas, confirmando os diversos acertos da premiação deste ano, o Globo de Ouro consagrou a inteligência e a sensibilidade da brilhante metáfora sobre a ideologia da diversidade criada pelos estúdios Disney.

Melhor Filme Estrangeiro
Elle

Surpresa maravilhosa. Das muitas que essa edição do Globo de Ouro proporcionou! A Associação de Imprensa Estrangeira deu de ombros para o politicamente correto que orienta as escolhas do Oscar, por exemplo (sobretudo nesta categoria), e elegeu a magnífica obra que trás o grande Paul Verhoeven de volta à ribalta. Com essa vitória, este grande filme se torna mais difícil de ser ignorado.

Melhor Roteiro
Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)

Melhor Diretor
Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)

Os prêmios de Roteiro e Direção, ambos concedidos ao jovem Damien Chazzele já começavam a desenhar um quadro: Não tinha pra ninguém, esta seria a grande noite de “La La Land”! O belíssimo musical vem para dar continuidade ao ímpeto de excelência que ele já ostentou no surpreendente “Whiplash-Em Busca da Perfeição” há dois anos atrás.

Melhor Atriz - Comédia ou Musical
Emma Stone (La La Land - Cantando Estações)

O prêmio foi anunciado por Matt Damon que deu um ligeiro puxão de orelha no Globo de Ouro (ele ironizou sua vitória no ano passado como Melhor Ator por Comédia ou Musical, pelo filme “Perdido em Marte”, sendo que ele não é nem comédia e nem musical!). A vencedora, como muitos apostavam e torciam, foi Emma, reprisando a consagração ocorrida no festival de Veneza, e ela estava tão linda quanto simpática.

Melhor Comédia ou Musical
La La Land - Cantando Estações

Desde a abertura (que mostrou Jimmy Fallon cantando e dançando com vários convidados especiais numa clara inspiração ao filme) já ficou bastante claro que “La La Land” seria um dos grandes vencedores da noite, mas não esperava-se que o Globo de Ouro lhe concederia todas as estatuetas às quais foi indicado. Resta saber se esse reconhecimento se estenderá aos outros prêmios da temporada.

Melhor Ator - Drama
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

O filme de Kenneth Lonergan recebeu o único prêmio para o qual estava mais cotado, mas a verdade é que não sobrou muita coisa para ninguém depois do furacão “La La Land”. Ao menos, o talentoso Casey Affleck recebeu um reconhecimento que já lhe era há algum tempo devido.

Melhor Atriz - Drama
Isabelle Huppert (Elle)

O grande momento da noite (talvez rivalizando com o emocionante discurso de Meryl Streep na entrega do prêmio Cecil B. DeMille em sua homenagem). Já estava na hora mesmo de surgir um reconhecimento mais amplo do trabalho inigualável que a grande Isabelle Huppert entrega aqui. Com isso, as chances de vê-la gloriosamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz (o quê seria, por mais inacreditável que possa parecer, a primeira indicação de sua carreira!) aumentam consideravelmente.

Melhor Drama
Moonlight

A falta de obras que tivessem uma repercussão maior ajudou a vitória deste drama de forte cunho social. Seu concorrente mais forte, em termos cinematográficos, o memorável “Até o Último Homem”, recebeu uma tímida aprovação dos críticos por ser dirigido pelo polêmico Mel Gibson. Mas, “Moonlight” ainda pode surpreender na temporada de premiações.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2017

Foram divulgados hoje os indicados ao Globo de Ouro selecionados pela Associação de Imprensa Estrangeira quase simultâneo à entrega do Critic’s Choice Award –que eu cito incessantemente nos comentários. A entrega dos prêmios aos vencedores será realizada no dia 8 de janeiro de 2017. Vamos a eles:

Melhor filme dramático
"Até o Último Homem"
"A qualquer custo"
"Lion"
"Manchester à Beira-Mar"
"Moonlinght"

O elogiadíssimo épico de guerra dirigido por Mel Gibson e protagonizado pelo ex-Homem-Aranha, Andrew Garfield, surge como uma surpresa: Seria uma lembrança da Associação de Imprensa Estrangeira para uma grande obra destinada a ser esquecida por outras premiações, ou a primeira menção a um trabalho que pode devolver o estrelato à Mel Gibson? Só o tempo dirá, e ele tem pela frente dois fortes concorrentes ao prêmio, os brilhantes “Manchester À Beira-Mar” e “Moonlight”.

Melhor ator em filme dramático
Casey Affleck, "Manchester à Beira-Mar"
Joel Edgerton, "Loving"
Andrew Garfield, "Até o Último Homem"
Viggo Mortensen, "Capitão Fantástico"
Denzel Washington, "Fences"

Contando com o favoritismo do recém-conquistado prêmio de Melhor Ator no Critic’s Choice, Casey Affleck aparece à frente dos demais, embora Joel Edgerton (elogiado em Cannes) e Denzel Washington venham com o embasamento da aprovação irrestrita da crítica. A curiosidade fica por conta da absoluta ausência de Tom Hanks e seu “Sully-O Herói do Rio Hudson” entre os indicados.

Melhor atriz de filme dramático
Amy Adams, "Animais Noturnos"
Jessica Chastain, "Miss Sloane"
Isabelle Hupert, "Elle"
Ruth Negga, "Loving"
Natalie Portman, "Jackie"

Surpreendentemente, Amy Adams foi indicada por “Animais Noturnos” e não por “A Chegada”, como era o esperado (aliás, o filme de Denis Villeneuve foi bastante ignorado no Globo de Ouro), ainda assim suas grandes adversárias parecem realmente ser Natalie Portman (que por “Jackie” já ganhou o Critic’s Choice) e o trabalho unânime e gigantesco de Isabelle Hupert em “Elle”, desde já, minha favorita. Eis uma disputa que esperamos que chegue ao Oscar!

Melhor diretor
Damien Chazelle, por "La La Land-Cantando Estações"
Tom Ford, por "Animais Noturnos"
Mel Gibson, "Até o Último Homem"
Barry Jenkins, "Moonlight"
Kenneth Lonergan, por "Manchester à Beira-Mar"

A categoria em si nos faz lembrar do esquecimento de Martin Scorsese e de seu aguardado “Silence”. Mas, é bem provável que o Oscar compense esse lapso (e, espera-se com relação à “A Chegada”, também). Tudo leva a crer que o elogiado “La La Land-Cantando Estações” será um dos grandes destaques da temporada de premiações. Seu diretor, o jovem Damien Chazelle (vencedor do Critic’s Choice) vindo do igualmente prestigiado “Whiplash” parece ser realmente o único a disputar de fato com o trabalho estarrecedor que Mel Gibson entrega em “Até O Último Homem”.

Melhor roteiro
Damien Chazelle, por "La La Land-Cantando Estações"
Tom Ford, por "Animais noturnos"
Barry Jenkins, "Moonlight"
Kenneth Lonergan, "Manchester à Beira-Mar"
Taylor Sheridan, "A qualquer custo"

Os grandes filmes da temporada se desenham com mais ênfase nesta categoria, sendo “La La Land-Cantando Estações” e “Manchester À Beira-Mar” as grandes forças, ainda que no caso desta categoria hajam chances para “Moonlight” ou “A Qualquer Custo” surpreenderem. As atenções dos grandes prêmios da temporada repousam sobre eles.

Melhor filme de comédia ou musical
"20th Century Women"
"La La Land-Cantando Estações"
"Deadpool"
"Sing Street"
"Florence Foster Jenkins"

A presença de “Deadpool” entre os indicados num prêmio desta seriedade é uma grata surpresa, ainda que isso tenha custado a inclusão do igualmente ótimo “Mogli-O Menino Lobo”. Nada, contudo, que ameace a aparente supremacia de “La La Land-Cantando Estações” depois de sua larga vitória no Critic’s Choice.

Melhor atriz em filme de comédia ou musical
Annete Bening, "20th Century Women"
Lilly Collins, "Rules Don't Apply"
Halee Steinfeld, "The Edge of Seventeen"
Emma Stone, "La La Land-Cantando Estações"
Meryl Streep, "Florence Foster Jenkins"

Emma Stone foi premiada no Festival de Veneza, mas Meryl Streep é sempre Meryl Strrep, nessa dúvida sobram chances para a também veterana Annete Bening e para as jovens Lilly Collins e Halee Steinfeld por filmes que só estão começando sua campanha na temporada de premiações. Mas, ainda fico com Emma...

Melhor ator em filme de comédia ou musical
Colin Farrell, "The Lobster"
Ryan Gosling, "La La Land-Cantando Estações"
Hugh Grant, "Florence Foster Jenkins"
Jonah Hill, "War Dogs"
Ryan Reynolds, "Deadpool"

Curiosamente, esta é uma das mais interessantes categorias deste ano –característica normalmente reservada à de Melhor Atriz, ou ao intérpretes sérios –temos um Huhg Grant se saindo dignamente bem ao lado de Meryl Streep em “Florence”, Colin Farrell e Jonah Hill, ambos com seus habituais talento e dedicação, além do sempre excelente Ryan Gosling (fazendo par pela terceira vez com a linda Emma Stone em “La La Land”) e daquele que tem a minha torcida: Ryan Reynolds e sua insubstituível personificação para o melhor anti-herói do ano, “Deadpool”.

Melhor atriz coadjuvante
Viola Davis, "Fences"
Naomie Harris, "Moonlight"
Nicole Kidman, "Lion"
Octavia Spencer, "Estrelas Além do Tempo"
Michelle Williams, "Manchester à Beira-Mar"

Os fãs torcem para que este seja o ano de Viola Davis, menos em uma premiação como o Globo de Ouro, e mais no Oscar. Mas, é aqui que tudo começa. Ela deve enfrentar sua companheira de elenco de “Histórias Cruzadas”, Octavia Spencer, bem como a excelência de todas as demais competidoras, especialmente Michelle Williams, mas, tem a seu favor a vitória no Critic’s Choice.

Melhor ator coadjuvante
Mahershala Ali, "Moonlight"
Jeff Bridges, "A Qualquer Custo"
Simon Helberg, "Florence Foster Jenkins"
Dev Patel, "Lion"
Aaron Taylor Johnson, "Animais Noturnos"

Sempre imprevisível, esta categoria pode ser a chance de alguns jovens que ainda se sentem na necessidade de provocar suas capacidades, caso do eterno “Kick Ass”, Aaron Taylor Johnson, extraordinário como todo o resto do elenco em “Animais Noturnos”, de Simon Helberg, que finalmente tem uma chance para brilhar em cinema, depois de fazer Howard em “Big Bang Theory” na TV, ou de Dev Patel, sempre lembrado por “Quem Quer Ser Um Milionário?”. Bem mais tranqüilos devem estar o veterano Jeff Bridges e o favorito Mahershala Ali, ganhador do Critic’s Choice.

Melhor filme estrangeiro
"Divines" (França)
"Elle" (França)
"Neruda" (Chile)
"O apartamento" (Irã)
"Toni Erdmann" (Alemanha)

“Elle”, de Paul Verhoeven, é o filme a ser batido nessa categoria depois de uma jornada pelo circuito comercial que o cobriu de elogios e enaltecimentos. É o retorno do controverso holandês à premiações, quarenta e três anos depois dele concorrer com “Louca Paixão”. Dentre os demais, seu grande adversário aparenta ser o chileno “Neruda”, com Gael Garcia Benal.

Melhor animação
"Kubo e as Cordas Mágicas"
"Moana-Um Mar de Aventuras"
"Ma Vie de Courgette"
"Sing-Quem Canta Seus Males Espanta"
"Zootopia"

Sem um representante da Pixar para ocupar os holofotes este ano –que seria o esquecido “Procurando Dory” –a Disney comparece com o inventivo e pertinente “Zootopia” e o menos brilhante, mas ainda bonitinho “Moana”. O tom pouco acessível das animações “Kubo” e “Ma Vie de Courgette” pode restringi-los apenas às indicações, e “Sing” é tão leve que chega a ser disperso.

Melhor canção original
"Can't Stop the Feeling", de "Trolls"
"City of Stars", de "La La Land-Cantando Estações"
"Faith", de "Sing"
"Gold", de "Gold"
"How Far I'll Go", de "Moana"

Melhor trilha sonora
"Moonlight"
"La La Land-Cantando estações"
"A Chegada"
"Lion"
"Hidden Figures"


Sendo “La La Land” um musical, é de se esperar que seja nestas categorias que sua supremacia mais se revele, embora a qualidade de seus competidores não deva ser ignorada. Uma coisa parece certa, este tende a ser um ano em que o Oscar mais deverá destoar do Globo de Ouro. Aguardaremos para ver.