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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Gallipoli


 Dentre os notáveis realizadores australianos dos anos 1970 e 80, Peter Weir sempre desempenhou um cinema bem mais voltado ao classicismo da Velha Hollywood em comparação com alguns de seus contraventores conterrâneos. O que não que dizer que ele não preserve, ainda assim, uma identidade singular e desigual em seus trabalhos, exatamente como costumava ocorrer ao intrigante cinema vindo da Austrália.

Tomemos como exemplo a epopéia, a um só tempo ambiciosa e intimista, que testemunhamos se desenrolar em “Gallipoli”, de 1981. Embora comumente apontado como uma das produções que revelaram Mel Gibson – o primeiro “Mad Max” havia sido lançado dois anos antes – o protagonista de fato de “Gallipoli” é Mark Lee, intérprete de Archy Hamilton, jovem australiano que, nos idos de 1915, embora tenha um promissor potencial para ascender como corredor, almeja mesmo alistar-se no Exército e lutar por seu país na Primeira Guerra Mundial.

Archy é um personagem construído com um zelo que somente um realizador realmente brilhante tem o equilíbrio e a sensatez para fazê-lo; embora seja benevolente, altruísta, idealista e convicto, ele ostenta características humanas que não o tornam bidimensional – e esses elementos, a capacidade do personagem em mostrar o melhor de si, a forma com que sua pureza encanta de imediato o público serão fundamentais mais a frente.

Mel Gibson, por sua vez, interpreta Frank Dunne, um jovem trabalhador das ferrovias do país, e por isso mesmo mais cínico, mais prático e mais, por assim dizer, egocêntrico, do que Archy – Frank é bem-intencionado, mas a ideia de adentrar na guerra, junto de outros jovens alistados, o faz pensar, primeiro, no bem-estar de sua própria pele!

Os dois se conhecem ao disputarem uma corrida de 100 metros rasos e, a despeito das personalidades distintas, ficam grandes amigos. Na ocasião, Archy desvencilha-se da família (ele vivia com o tio, que o treinava) para tentar ingressar na guerra, no entanto, é impedido pela pouca idade – tinha apenas 18 anos, enquanto que a idade mínima exigida para o alistamento militar era 21.

Ao lado de Frank, um aventureiro procurando conseguir dinheiro onde quer que vá, Archy vai clandestinamente de trem tentar o alistamento na cidade de Perth, onde as exigências militares não estabeleciam limite de idade, entretanto, o trem acaba levando-os para outro lugar, um ponto longínquo do deserto australiano. O que exige que os dois rapazes, para atingir seu objetivo atravessem a pé a imensidão do Out Back – uma travessia que se mostra desafiadora mesmo para o físico e a vitalidade desportista dos dois.

Após esses percalços, Archy enfim consegue alistar-se na Brigada Ligeira. Já, Frank, embora tenha sido convencido por Archy, nesse interím, a alistar-se também, não consegue – Frank não sabia montar, pré-requisito essencial para integrar a Brigada Ligeira. Depois da partida de Archy, Frank – que assume a partir daqui o protagonismo do filme – finalmente consegue entrar para o Exército Australiano quando alista-se para a Infantaria. Junto de seus novos companheiros, ele é designado para o Cairo, no Egito onde vive sucessivas aventuras.

Ele e Archy tornam a se encontrar durante um treinamento que reúne a Infantaria e a Brigada Ligeira da Austrália e da Nova Zelândia num mesmo campo de batalha. Eles convencem alguns oficiais a aceitar a convocação de Frank para a Brigada Ligeira e ambos são designados, junto de todo o batalhão, para a fatídica Batalha dos Dardanelos, às margens da península de Gallipoli, na Turquia. Uma área completamente tomada pelos turcos – então aliados da Alemanha – que os oficiais britânicos, ao lado dos australianos, almejam tomar a todo custo, a fim de chegar em Constantinopla. As trincheiras apertadas e estreitas cavadas na terra representavam centímetros de diferença entre a vida e a morte para os soldados, enquanto as metralhadoras inimigas retiniam sobre suas cabeças.

Nesse ponto que o filme de Peter Weir traz suas primeiras facetas de filme de guerra – quando já se acha em seu terço final! É quando Archy recomenda Frank (desde sempre temeroso com sua participação em batalha) para ser mensageiro dos oficiais em campo, devido à sua agilidade.

Os elementos acumulados pelo diretor dessa trajetória rumo à tragédia dos dois amigos, adquirem impacto justamente pela perfeição e pelo brilho com que são executados e apresentados ao expectador, nesta poderosa observação sobre o peso da guerra e dos terríveis sacrifícios que ela sempre cobra da juventude. Nesse sentido, nenhum momento é mais marcante e poderoso do que sua imagem final, congelada no tempo em um encerramento arrebatador do filme e da trajetória daquela amizade.

Mel Gibson e o diretor Peter Weir ainda fariam, logo em seguida, mais um grande filme juntos, “O Ano Que Vivemos Em Perigo”, desta vez com Sigourney Weaver, sobre o Golpe Comunista na Indonésia de 1965, mas, esta, é uma outra história...

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Teoria da Conspiração


 O cinema comercial –em especial, o hollywoodiano –sempre valeu-se do ostensivo apelo de público no qual eram reunidas duas (ou mais) grandes estrelas em cena; em torno disso girou a própria premissa do sucesso “Onze Homens e Um Segredo”, por exemplo. A despeito da qualidade –alguns filmes tinham muita, outros não tinham nenhuma... –esse era um recurso que parecia funcionar muito bem e instigava a curiosidade dos expectadores. E por volta da década de 1990, não haviam estrelas tão reluzentes quanto Mel Gibson e Julia Roberts, e foram justamente os dois quem o diretor Richard Donner reuniu no interessante, envolvente e descontraído “Teoria da Conspiração”.

Na época, o diretor Donner e o astro Mel Gibson estavam aproveitando ao máximo uma sintonia rara descoberta em pleno set de filmagens: Donner não apenas havia dirigido, com largo êxito, Gibson na série “Máquina Mortífera” –naquele ano, 1997, os três primeiros filmes já haviam sido feitos, e o quarto seria lançado no ano seguinte –como também dirigiu Gibson no faroeste “Maverick”. Na sua colaboração, portanto, Donner sabia precisamente o que poderia extrair das capacidades de Gibson e disso se vale para construir a trama engenhosa deste filme.

Flertando até que um bocado com a comédia –na qual Gibson se sai muito bem na sua dosagem de tiques nervosos –o roteiro de Brian Helgeland (roteirista de “Los Angeles-Cidade Proibida” cujo apreço sempre foram tramas intrincadas) apresenta o paranóico e catatônico personagem Jerry Fletcher, vivido por Mel Gibson. Fletcher é um motorista de táxi de Nova York, no entanto, essa ocupação não chega exatamente à defini-lo; seu objetivo, como taxista, parece ser mais o de passar despercebido às autoridades governamentais que, em seu íntimo, ele crê conspirarem o tempo todo contra o cidadão comum a fim de estabelecer um controle sempre maior sobre o mundo. Para tanto, Fletcher tem uma rotina regida pelos mais extremos pormenores do transtorno obsessivo-compulsivo (trancas e fechaduras, por exemplo, são uma eterna fonte de dúvida), publica clandestinamente um jornal subversivo destinado à apontar as mais improváveis conspirações praticadas pelo governo (o “Conspiracy Theory”) e atazana a vida da advogada do Departamento de Justiça dos EUA Alice Sutton (Julia Roberts) que, solícita, até dá um pouco de corda às suas sandices.

Entretanto, numa noite, Jerry é capturado por homens misteriosos liderados pelo obscuro Dr. Jonas (Patrick Stewart, sensacional numa quase recriação do personagem de Laurence Olivier em “Maratona da Morte”). O motivo, ainda que nebuloso, não tarda a se esclarecer: Em algum momento, dentre tantas teorias aleatórias veiculadas em seu jornalzinho clandestino, Fletcher acertou uma delas em cheio, o problema é, qual delas? Tentando escapar dos homens perigosos e treinados que agora o perseguem (em uma cena, numa divertida brincadeira do diretor Donner, Gibson refugia-se num cinema que exibe “O Feitiço de Áquila”, um de seus clássicos dos anos 1980), Fletcher acaba envolvente a sensata Dra. Sutton em suas enrascadas e, nesse percurso tortuoso, descobre que havia sido, ele próprio, vítima de uma espécie de lavagem cerebral previamente realizada; o que em parte explica seu comportamento paranóico e cheio de T.O.C. além de sua obsessão inexplicável pelo livro “O Apanhador No Campo de Centeio”.

Frenético, dono de um ritmo que somente um mestre da ação e da aventura escapista como Richard Donner seria capaz de imprimir na tela, “Teoria da Conspiração” surpreende o público, sobretudo, pela imprevista complexidade do seu enredo que, para as pretensões modestas de seu projeto, se torna até desafiador e rocambolesco em demasia a partir de certo ponto. O encontro em cena entre Julia Roberts e Mel Gibson pode não suscitar tantos suspiros quanto o público interessado exclusivamente nisso gostaria –até porque o filme não é e nem quer ser um romance –mas, ele oferece diversão, ação, mistério e enigmas intrigantes em profusão, para uma agradável sessão de passatempo noventista; e um casal central que não deixa de exibir química e carisma em níveis admiráveis.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Trilogia Os Mercenários

Durante boa parte dos anos 1980 e 90, os fãs de filmes descerebrados de ação cultivaram a ideia de ver reunidos em cena alguns de seus heróis prediletos do período, sendo estes os mais requisitados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Isso não ocorreu naquelas décadas –inclusive porque, durante algum tempo, os dois alimentaram uma espécie de rivalidade antes de virarem bosn amigos e se tornarem sócios da cadeia de restaurantes Planet Hollywood –entretanto, os aficcionados tiveram a oportunidade de ver isso acontecer primeiramente em “Os Mercenários”, que reuniu os dois e mais um punhado considerável de  marombados daquela época, como Bruce Willis e Dolph Lundgreen.
Dirigido pelo próprio Stallone, o primeiro “Os Mercenários” não fazia maior esforço além de incitar o público com esse apelo –o de reunir em primeira mão os astros da pancadaria do passado, no que pode ser visto como uma das primeiras produções a se valer de um certo saudosismo dos anos 1980 que desde então dominou inúmeras obras.
Assim, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários de aluguel composto por Lee Christmas (Jason Statham, talvez o único verdadeiro astro de ação da atualidade), Toll Road (Randy Culture), Gunnar Jens (Lundgreen, que curiosamente se destaca no elenco), Hale Caesar (Terry Crews) e o ágil Yin Yang (o chinês Jet Li) –além deles, há também a ponta ilustre de Mickey Rourke como um barman cheio de histórias para contar.
Como era ainda governador da Califórnia na época do filme, Schwarzenegger não faz mais do que uma participação especial ao lado de Bruce Willis, numa cena em que encontram Barney em uma igreja –momento breve que, porém, foi o bastante para fazer a alegria dos apreciadores de filmes de ação protagonizados pelos três.
Na trama absurdamente genérica, o grupo de mercenários liderado por Barney deve completar uma missão numa republiqueta sul-americana. Entretanto, em algum momento a ombridade típica de herói de ação em Barney e Christmas irá falar mais alto, e eles decidirão destituir o impiedoso ditador do lugar, vivido com canastrice premeditada por Eric Roberts, convencidos pela candura da mocinha indefesa da vez, interpretada –veja só –pela atriz brasileira Gisele Itié.
Embora essa receita soasse infalível, o tratamento narrativo dado por Stallone –talvez, por essa mesma excessiva confiança –foi tão genérico e impessoal que quase o filme não passa do ponto de corte: “Os Mercenários”, ainda que com uma razoável bilheteria, concorreu ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor (!), o que levou os produtores a tomarem um cuidado maior na continuação.

Em “Os Mercenários 2”, o diretor escolhido foi Simon West que, tendo no currículo “Con Air-A Rota da Fuga” e o primeiro “Tomb Raider”, com Angelina Jolie, ostentava vasta experiência e conhecimento no gênero. De fato, ele contribui com um ritmo vertiginoso, um humor revigorante e um tremendo entendimento sobre os aspectos que tornam esse tipo de filme empolgante aos olhos de seus apreciadores –“Os Mercenários 2” é, sem sombra de dúvida, a produção que, dentre toda a trilogia, tira melhor proveito dos elementos que usa como chamariz.
Sobretudo no que diz respeito às participações de astros famosos e veteranos da ação: Além de todos os integrantes do primeiro filme (à exceção de Mickey Rourke que não voltou), aparecem também Jean Claude Van Damme, no papel do vilão Jean Vilain (!?!), o lendário Chuck Norris (que recebe da narrativa um tratamento que faz jus à sua lenda!) e participações mais estendidas e suculentas de Schwarzenegger e Bruce Willis (com direito à infindáveis referências aos seus grandes sucessos); de lambuja, ainda temos a presença do jovem Liam Hemsworth, de “Jogos Vorazes”.
É ele quem, de certa maneira, dá a ignição à trama, quando um encontro com o perverso Jean Vilain (Van Damme sempre interpreta vilões num divertido tom canastrão e provocativo) termina mal para o rapaz, por quem Barney estava se apegando –reza a lenda que originalmente este seria o destino reservado ao personagem de Mickey Rourke.
Barney e sua equipe, com o auxílio de Trench Mauser (Schwarzenegger) o rival salvo na cena inicial convertido em aliado, seguem assim numa missão mais pessoal com o intuito de frustrar os planos inescapavelmente malignos de Vilain e vingar a morte do jovem..
Aqui, os heróis ouvem a todo o instante que já estão velhos e obsoletos para seu ofício. Nada mais que provocação: “Os Mercenários 2” é um dos melhores e mais divertidos filmes de ação dos últimos tempos e seus protagonistas, astros inquestionáveis do gênero.

É nesse sentido –no do segundo exemplar ter resultado tão memorável –que o terceiro filme acaba sendo uma curva descendente.
Os produtores julgaram que chamando um diretor mais jovem –Patrick Hughes, da comédia adolescente “Imaginem Só” e o faroeste contemporâneo “Busca Sangrenta” –a energia e o frescor da produção se manteria. Contudo, “Os Mercenários 3”, se não chega a ser de qualidade duvidosa como o primeiro filme (que beneficiou-se, sobretudo, da novidade) também passa longe do equilíbrio e do ajuste acertado do segundo.
Os acréscimos ao elenco (fatores que passaram assim a definir a série) foram Wesley Snipes (chapa de Stallone desde que fizeram “O Demolidor”), Antonio Banderas (chapa de Stallone desde que fizeram “Assassinos”), Kelsey Grammer (o Fera de “X-Men O Confronto Final”), novo gerente de missões e Harrison Ford, além do vilão interpretado com fleuma e vigor por Mel Gibson. Por outro lado, o filme não conta com Terry Crews (reduzido à uma participação ínfima), Chuck Norris e Bruce Willis (esses nem sequer aparecem).
Há também outro grupo, de integrantes jovens que estão lá mais para atender aos propósitos da trama.
No encalço de Conrad Stonebanks (Gibson), um adversário que ajudou a fundar o grupo dos ‘expendables’, Barney se depara com a necessidade de recrutar integrantes mais novos diante da ineficácia de seus velhos companheiros. Esses novos mercenários são John Smilee (Kellan Lutz), Thorn (Glen Powell, de “Estrelas Além do Tempo”), Marte (Victor Ortiz) e a durona Luna (Ronda Rousey, ex-lutadora de MMA), além do personagem de Banderas, um histriônico alívio cômico.
É previsível ao extremo o fato de que o jovem grupo falhará miseravelmente, virando reféns do próprio vilão, fazendo com que o grupo da velha guarda retorne para salvar a situação –e nisso a direção de Patrick Hughes encontra suas grandes fraquezas. Ele simplesmente não se satisfaz em realizar um filme digno de ação amparado nas presenças icônicas de que dispõe. Quer porque quer preencher suas entrelinhas de significado e com isso espalha sequências vazias e desanimadoras por todo o filme; como por exemplo o aproveitamento nada criativo do personagem de Schwarzenegger convertido numa espécie de ‘voz da consciência’ do personagem Barney, de Stallone, aparecendo em momentos pontuais sem nunca ter relevância de fato, e esse problema se estende tanto ao personagem de Harrison Ford (um coadjuvante sem o brilho e sem a razão de ser que um astro merecia) quanto ao de Wesley Snipes (que, salvo a cena de abre o filme, passa todo o resto da trama sem qualquer serventia).
Composta por dois filmes medianos e apenas um verdadeiramente empolgante, a “Trilogia dos Mercenários” ocupa um lugar especial na memória afetiva de seus fãs mais pelo apelo no conceito em ver reunidos em cena diversos ícones vivos do gênero pancadaria, do que por sua execução final.
E tal é o seu apreço que até hoje alimentam expectativas para uma vindoura “Parte 4”.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Gasparzinho - O Fantasminha Camarada

Ainda durante os anos 1990, quando o emprego da computação gráfica no cinema permanecia visto como um ato constante de experimentação, o diretor Brad Silberling –com a luxuosa produção de Steven Spielberg –saiu na frente com a primeira produção a trazer um protagonista digital (até então, filmes como “Jurassic Park” e outros, contentavam-se em ostentar criaturas coadjuvantes ou aparições ocasionais como presenças exclusivamente geradas por computador).
O que sobrou em audácia nesta decisão, contudo, compensou o anacronismo quase nostálgico que predomina no restante de todo o filme –algo que a direção perspicaz de Silberling trata de virar a seu favor, visto que “Gasparzinho” (ou “Casper”, no original) é a adaptação cinematográfica de um personagem de desenho animado tão antiquado que poucas crianças haveriam de lembrar com exatidão dos detalhes de sua fonte original.
Assim, temos o personagem principal, o fantasma Gasparzinho (na voz do jovem Malachi Pearson) –recriado com minúcia e inteligência pelos efeitos visuais –que, tendo falecido muito jovem, conserva um maravilhamento infantil diante de tudo, assim como um desejo de ter amigos. Vontade dificíl de ser realizada, uma vez que sua moradia, a Mansão Whipstaff, é a famigerada casa mal-assombrada da cidade, graças às travessuras de seus três tios, também fantasmas, que compõem o Trio Assombroso.
(Há, inclusive, uma sensacional referência a “Os Caça-Fantasmas” na cena em que Dan Akroyd, devidamente trajando o figurino daquele filme, desiste de tentar conter aquelas assombrações!)
Usando porém da desenvoltura típica dos personagens de animação, Gasparzinho consegue trazer para sua mansão a única visita que lhe parece importar: A jovem Kat Harvey (Christina Ricci, crescendo de forma encantadora depois de seu papel de Wednesday em “A Família Addams”), filha do atrapalhado pesquisador paranormal Dr. Harvey (Bill Pullman), viúvo cujos objetivos buscam, lá no fundo, contactar do além, de alguma forma, a esposa falecida.
O choque com os fantasmas é inevitavelmente entrelaçado pela inocência e pela comicidade caricata típica das animações antigas, mas não deixa de ser divertido (e tome outras referências, sobretudo, nas participações inacreditáveis de Clint Eastwood, Mel Gibson e Rodney Dangerfield).
Contudo, assustar não é o objetivo de Gasparzinho: Ele quer um amigo, oportunidade que ele enxerga em Kat (ou, talvez, até algo mais!).
Assim, o filme de Silberling, tal e qual seu protagonista, cheio de doçura e boas intenções (características potencializadas pela ótima trilha sonora de James Horner) se torna um exemplo louvável de transposição competente de um personagem animado para o live-action e uma agradabilíssima fábula infanto-juvenil com direito até a um romance adolescente –quando Gasparzinho, no trecho final, expõe seus sentimentos a Kat, em um desfecho meio hesitante mas ainda assim enternecedor.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Air America - Loucos Pelo Perigo

Embora haja um destaque absurdo para a presença de Mel Gibson, o verdadeiro protagonista deste filme é um jovem e promissor Robert Downey Jr. –é um daqueles casos em que o cinema hollywoodiano emprega uma série de circunstâncias e de talentos que deram certo em outros filmes, para urgir sua própria pérola; no entanto, a genialidade é um rompante que não se expressa sem espontaneidade.
Neste caso, além do carisma amplamente aproveitado de Mel Gibson e do talento absolutamente insuspeito de Robert Downey Jr. (dois elementos que funcionam a contento), a produção traz a direção de Roger Spottiswoode que demonstrou perícia e afiada narrativa em obras comerciais sobre contextos sócio-políticos históricos específicos em seu ótimo “Sob Fogo Cerrado” –“Air America” é, pois, uma tentativa de reaproveitar tudo isso num só caldeirão e dali extrair a mais saborosa mistura.
Piloto de helicóptero e radialista em Los Angeles, Billy Covington (Downey Jr.) perde o emprego devido ao seu temperamento inconstante.
Sua habilidade acaba sendo útil aos interesses da empresa aérea Air America, através da qual os EUA intervêm oficialmente no Laos, ainda no início da Guerra do Vietnam –essa presença americana, vale lembrar, era veementemente negada em público pelo presidente Nixon; o que confere ao roteiro do filme (baseado em livro de Christopher Robbins) uma pertinente (ainda que tardia) chacota com a política norte-americana.
Aliadas às tirânicas autoridades regionais vietnamitas, fornecedores de tóxicos e de armas, essas empresas aéreas organizam um esquema de distribuição amparado na habilidade quase intrépida de pilotos como Covington e o veterano e safo Gene Ryack (Mel Gibson).
Os dois se tornam grandes amigos e companheiros tentando salvar a própria pele e valer-se de muito jogo de cintura para aproveitar o imusitado negócio e com ele fazer dinheiro.
Ao tentar agregar um pouco de tudo (comédia, drama, romance, filme de guerra e de denúncia política), “Air America” se dissipa naquilo que se propõe; suas cenas de ação são encaixadas sem inteligibilidade, e seus personagens pairam pelas situações dispostas no roteiro sem uma função narrativa mais elaborada.
O resultado de tudo isso é uma obra que não demora a descobrir-se enfadonha. O que segura seu interesse por mais tempo que o devido é o descontraído pique da dupla Downey Jr./Gibson.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Machete Kills


Na continuação de seu trailer-falso tornado um longa-metragem real –derivado, por sua vez, do projeto “Grindhouse” –Robert Rodriguez incrementou ainda mais a mescla de referências, influências e tendências que caracterizava o primeiro “Machete” e dele fazia quase um Tour de Force narrativo: A iniciar esta quase experiência de imersão em tudo o que o cinema-poeira setentista tinha de mais desavergonhado e popularesco, temos (veja só!) mais um trailer falso –antecedido por aquelas vinhetas retrô que tanto Rodriguez quanto Quentin Tarantino adoram colocar em seus filmes –de uma produção intitulada “Machete Kills Again... In The Space” (!).
O filme propriamente dito começa logo depois: Na esteira do final de sua aventura anterior, onde vemos o vingador Machete Cortez (Danny Trejo, mais casca-grossa do que nunca) pegar a estrada ao lado de sua agora parceira Sartana (Jessica Alba), testemunhamos uma ação do próprio Machete ao lado dela tentando desbaratar um cartel munido de armas fornecidas pelos militares –o bandidinho da vez que surge nesse prólogo é interpretado por Freddy Rodrigues, de “Garotas Sem Rumo”, que o próprio Robert Rodriguez (nenhum parentesco) dirigiu em “Planeta Terror”.
Após perder a mulher que ama nessa sequência, Machete, sedento de vingança é despachado numa missão de suma importância pelo presidente dos EUA em pessoa, vivido por Charlie Sheen (que aqui adota seu nome real, Carlos Estevez!), na qual deve encontrar o poderoso líder do cartel, Marcos Mendez (Demian Bichir) e, conforme a circunstância, mata-lo.
Seu contato na tumultuada fronteira EUA/México –e que, nessa tresloucada realidade alternativa concebida por Rodriguez, inclui uma muralha megalomaníaca a separar os países –vem a ser deliciosa e insinuante Miss San Antonio (Amber Heard) cujo disfarce de ganhadora de sucessivos concursos de beleza só reforça o colorido vibrante e esfuziante com o qual o diretor caracteriza seu filme.
E a jornada de Machete segue assim na construção de uma aventura descerebrada, evocativa do cinema mirabolante que suscita, fazendo de seu protagonista uma versão latina, sangrenta e truculenta de James Bond transfigurada por todos os vícios que acompanham seu contexto: Eis que Mendez, o tal vilão, tem lá um plano mirabolante –os batimentos de seu coração estão conectados à um míssil que será disparado contra o solo americano (!). Para desarmar tal engenhoca, Machete, portanto, precisa mantê-lo vivo e atravessar com ele a fronteira. Contudo, a cabeça de Machete está a preço de ouro e isso atrai a atenção de pelo menos um oponente ameaçador: O lendário assassino de aluguel Camaleão –que, honrando o nome, se metamorfoseia em nada menos do que quatro intérpretes ao longo do filme, entre eles, Walton Goggins, Cuba Gooding Jr. e Lady Gaga (participações espetaculares que só um diretor de natureza descolada e cult como Rodriguez é capaz de atrair).
E “Machete Kills” não se acomoda nessa premissa: Quando achamos que as peças do tabuleiro estão estabelecidas, eis que o verdadeiro vilão do filme se revela; o ardiloso Luthor Voz, incorporado por Mel Gibson –e não deixa de ser uma tremenda e brilhante inversão de valores proporcionada por Rodriguez o fato de que, neste e no primeiro filme, o calejado Danny Trejo (sempre relegado à papéis coadjuvantes ou de vilões devido à sua compleição física) tem a chance de ser protagonista tendo como vilões dois dos mais celebrados astros de ação do passado; o próprio Gibson e Steve Segal (no filme anterior).
Após uma série de perseguições, tiroteios e batalhas onde as implausibilidades se equilibram à moda das obras que o diretor quer homenagear, eis que a história culmina num gancho desavergonhado para um próximo filme –e que, então descobrimos, acaba sendo justamente o filme mostrado no trailer do começo: “Machete Kills Again... In The Space” (cujo título já diz tudo) é, pois, a continuação de “Machete Kills” que, no senso de humor referencial e sarcástico de Rodriguez, pode acabar nem sendo feito (a repercussão deste filme foi bem menor que a do primeiro), tornando-se assim o que era para ser desde o começo, um trailer falso.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Um Novo Despertar


Consagradíssima vencedora de dois Oscar de Melhor Atriz (por “Acusados” e por “O Silêncio dos Inocentes”), a atriz Jodie Foster já experimentou em algumas ocasiões a função de diretora –com o ótimo drama “Mentes Que Brilham”, a comédia “Feriado Em Família” e com este filme aqui, onde administra muito bem os elementos dramáticos, cômicos e absurdos da trama dando-lhe equilíbrio e delicadeza.
Outro nome a ser citado é o do astro Mel Gibson –que então passava por uma fase turbulenta na carreira devido à alguns escândalos; amigos desde os tempo em que dividiram a cena em “Maverick”, Jodie e Mel se reencontram neste filme (inclusive em cena, já que interpretam marido e mulher) que aborda com um sabor de drama familiar uma neurose que progride para um esboço de loucura.
Profundamente afetado pela depressão, o empresário Walter Black (Mel Gibson) abandona a casa, esposa e filhos para morar num motel onde, em desespero, tenta o suicídio.
Após fracassar, um fantoche de castor assume uma persona que o confronta e o incentiva a encarar sua vida (!).
Walter retorna ao lar e ao convívio com a família, sempre "representado" pela persona do castor, que aos poucos passa a controlar toda a sua vida, inclusive no âmbito profissional.
Realizado com a delicadeza habitual de atores que se arriscam na direção –e que por isso enfatizam as sutilezas da atuação –o filme de Jodie Foster, no entanto, abre mão da graciosidade que parece se ensaiar em sua primeira parte, optando por um desfecho de ordem mais realista. Responsável direto pelo equilíbrio que a narrativa conquista entre esses dois pólos quase extremos, Mel Gibson sai-se muito bem num papel bastante complexo de homem comum incitado pelo desprendimento de um fantoche (que, diga-se, ele mesmo interpreta), um trabalho que, se fosse feito por um ator menos visado do que ele, certamente teria rendido uma indicação ao Oscar.
P/S: Chega a ser estranho ver Jennifer Lawrence, hoje tão estrela, num papel de coadjuvante vivendo a namoradinha do filho do protagonista, vivido pelo saudoso Anton Yelchin.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Coração Valente

A carreira de astro de Mel Gibson ia muito bem nos anos 1990, e ele definitivamente não precisava passar por nenhum tipo de reinvenção, contudo, havia nele um desejo incontrolável de criar e de se expressar –o quê se percebia nas escolhas criteriosas de filmes dos quais participava.
Ele estreou na direção, de maneira um tanto quanto promissora, no sensível drama “O Homem Sem Face” para logo em seguida realizar um assombroso salto de escopo e habilidade com a superprodução intitulada “Coração Valente”.
Nota-se, neste grandioso filme épico, as características que sempre definiram Gibson: A paixão por histórias transcorridas na Antiguidade (nos projetos seguintes, ele foi regressando cada vez mais no tempo em obras como “Apocalypto” e “A Paixão de Cristo”) e uma espécie de empolgação com os elementos tão realistas quanto brutais (um fator fundamental na qualidade hiperlativa das cenas de batalha) e com a ausência de características fantasiosas.
Assim sendo, ao acumular as funções de direção (revelando muito talento para a elaboração das seqüências) e ator principal (conduzindo com seu habitual carisma a história verídica deste célebre herói escocês), Gibson conta a trajetória romantizada de William Wallace que, após ficar órfão, retorna a sua Escócia natal depois de muitos anos recebendo educação na Europa. É a era medieval e a Escócia, então colônia da Inglaterra tem seus moradores oprimidos pelo Tirânico Rei Eduardo I (Patrick McGorman, maquiavélico), cujas leis visavam esmagar qualquer ímpeto de auto-respeito do povo escocês, como a famigerada Lei da Primeira Noite, pela qual, um nobre inglês teria direito a deitar-se com uma noiva escocesa em sua noite de núpcias no lugar do marido.
Apaixonado por uma amiga de infância (Catherine McCormack, em breve, porém, bonita participação), Wallace casa-se com ela em segredo, só para mais tarde vê-la morrer pelas mãos de soldados ingleses. Implacável, mata a todos, o que o transforma num inesperado líder a frente de um inevitável levante.
Usando muitos de seus conhecimentos de homem culto em meio aos bárbaros, Wallace acaba por liderar toda uma rebelião que une a oprimida Escócia contra seus opressores ingleses, valendo-se de sucessivas estratégias de batalha que os fazem adquirir uma inesperada vantagem sobre seus esmagadores inimigos.
Gibson não busca inventar a roda neste seu segundo trabalho na direção; e, por isso mesmo, o filme resulta tão belo quanto tradicional, um exemplar clássico das produções épicas do passado que fizeram a fama de diretores como David Lean, William Wyler ou Anthony Mann.
A Academia de Artes Cinematográficas não viu mal algum nisso, pelo contrário, concedeu ao filme cinco estatuetas (entre elas as de Melhor Filme e Melhor Diretor) comprovando um certo fascínio que seus membros têm em enaltecer atores que se arriscam –com bons resultados –a atuarem atrás das câmeras: Fazia poucos anos que Kevin Costner, em sua estréia como diretor, viu seu “Dança Com Lobos” ser agraciado, e naquele mesmo ano (1996) a atriz Emma Thompson havia levado o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado por “Razão e Sensibilidade”.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Maverick

A primeira cena já é calibrada a perfeição para capturar o interesse do expectador: Brett Maverick (Mel Gibson, incrivelmente carismático) está amarrado sob um cavalo, o pescoço preso à forca de uma árvore e o animal na iminência de uma disparada em razão das cobras que foram atiradas ao chão.
Com o protagonista nessa tremenda encrenca, o filme realiza seu providencial flashback, por meio do qual tratará de revelar à platéia como ele foi parar lá.
Lances inspirados de roteiro não poderiam mesmo faltar à esta adaptação cinematográfica de uma famosa série de TV, uma vez que escalado para escrevê-la está o renomado William Goldman, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro justamente por “Butch Cassidy” –a manobra, contudo, soa mais como uma forma de atrair interessados num faroeste novamente roteirizado por Goldman do que um plano para agregar qualidade de fato ao projeto: Há realmente bons momentos, no entanto, eles convivem com seqüências que beiram o constrangedor na falta de graça de algumas piadas, ou no excesso de frases feitas que poluem os diálogos.
Jogador de pôquer, pistoleiro e ocasional fora-da-lei, Brett Maverick tem um plano com o qual deseja lucrar o suficiente para um bom período de descanso da vida atribulada de golpista: Vencer um campeonato disputadíssimo de pôquer cujo ingresso custa 25 mil dólares –uma fortuna nos tempos do Velho Oeste!
Efetivamente, cruzam-se em seu caminho, no decurso de tumultuadas aventuras, a charmosa falsária Annabelle (Jodie Foster, numa inusitada personagem que exige mais de suas habilidades cômicas, além de ostentar insuspeita sensualidade) e o xerife intransigente Zane Cooper (James Garner, veterano intérprete do Maverick televisivo), bem como o carrancudo pistoleiro Angel (Alfred Molina).
Todos exemplos do tratamento irônico que o filme espertamente dá à alguns ícones do faroeste: Um dos trechos mais engraçados é o encontro de Maverick com o chefe indígena Joseph, velho companheiro de falcatruas tão cheio de lábia interpretado por Graham Greene, de “Dança Com Lobos”, que nem seu velho amigo escapa de sua malandragem.
Conseqüência de uma série de tendências do cinema norte-americano dos anos 1990 de então (uma tentativa de restabelecer o faroeste após a consagração de “Os Imperdoáveis”; uma nova série de TV ganhando as telas de cinema após o sucesso de “O Fugitivo”; e uma nova parceria do diretor Richard Donner e do astro Mel Gibson após “Máquina Mortífera”) “Maverick” vai, pelo menos, na contramão dos exemplares densos e dramáticos dos novos faroestes que foram produzidos no período, como “Wyatt Earp”, ostentando uma descontração e uma diversão que remetem ainda mais à “Butch Cassidy” –e o roteirista Goldman, deveras não resiste à tentação de introduzir, numa cena, uma referência ao clássico passeio de bicicleta daquele filme.
Se no final das contas, “Maverick” oscila entre seqüências divertidas e outras insatisfatórias (sobretudo, perto do fim quando sua duração começa a se revelar excessiva), ele tem em contrapartida o mérito de ficar na memória como um bom e bem-humorado entretenimento.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Sinais

Após os sucessos de “O Sexto Sentido” e “Corpo Fechado” –antes deles, ele havia feito a comédia dramática “Olhos Abertos” –estabeleceu-se uma fórmula por meio da qual M. Night Shyamalan criava suas obras: Um protagonista normalmente relacionado a filmes de ação (Bruce Willis no dois filmes anteriores, Mel Gibson neste aqui), porém, à frente de um elenco plenamente explorado em suas capacidades dramáticas; uma incursão no terror/suspense fantástico que, nada mais é senão uma forma narrativa de refletir os anseios do ser humano; uma notável economia de efeitos visuais e pirotecnia onde ele se vale exclusivamente das preciosas lições de ameaça sugerida deixadas, sobretudo, pelo mestre Spielberg em “Tubarão”, mas também pelo outro mestre Hitchcock, em inúmeros filmes; e uma atmosfera de freqüente sobressalto e susto construída com grande ajuda da trilha sonora.
Essas características definem este e todos os outros filmes de Shyamalan, inclusive “A Vila”, que ele faria em seguida.
Aqui, embora o quê ele pareça entregar seja um suspense crescente e aflitivo sobre invasões alienígenas (e até certo ponto, ele realmente seja mesmo), Shyamalan discute a fé em Deus ante as tragédias da vida, sobre o eixo fundamental da família.
O fazendeiro Graham Hess (Mel Gibson), outrora um padre que deixou de exercer seu sacerdócio após ter perdido a fé devido à trágica morte da esposa (numa cena esmiuçada gradativamente ao longo do filme), descobre perplexo ao lado de seu cunhado (Joaquim Phoenix) e dos dois filhos pequenos (Rory Culkin e Abigail Breslin, de “Pequena Miss Sunshine”) que em sua lavoura foram feitas misteriosas e gigantescas marcas, impossíveis de terem sido realizadas pela mão humana tal sua precisão e a rapidez com que surgiram da noite para o dia. São os famosos círculos que surgem em plantações ao longo do mundo e são atribuídos a seres extraterrestres.
Tentando elucidar o mistério que os perturba eles testemunham, nos dias que se seguem, outros indícios de que algo está a espreita: Aparições inexplicáveis, de criaturas fortuitas e desconhecidas se tornam cada vez mais freqüentes na plantação –e Shyamalan é hábil ao tornar cada uma desses aparições um momento arrepiante.
Pouco a pouco, enquanto a televisão vai noticiando outras e ainda mais estarrecedoras aparições em todo o mundo, eles vão se dando conta de que o planeta Terra como um todo parece estar sendo invadido.
É algo usual, portanto, o quê Shyamalan propõe: Testemunhar tal invasão do ponto de vista de humildes fazendeiros que só podem torcer pelos humanos nas grandes batalhas acompanhadas pelo noticiário da TV, e tentar rechaçar os invasores eventuais que vêem perturbar em seu próprio quintal.
Na estrutura algo convencional que Shyamalan atribui ao seu conto –pois os filmes de Shyamalan lembram, de fato, pequenos e saborosos contos de terror ou ficção científica –os desdobramentos ocorridos no desfecho tem direta relação com o acidente que tirou de Graham sua mulher. E a harmonia desses detalhes, a forma com que eles se complementam e parecem lá colocados para que eles possam sobreviver, é o elemento restaurador da fé que ele julgava ter abandonado para sempre.
“Sinais” não é tão perfeito quanto “O Sexto Sentido”, nem tão inspirado quanto “Corpo Fechado”, e perde na comparação até mesmo com o ótimo “A Vila”, que Shyamalan fez logo depois, mas é um dos sensacionais exemplares que ele entregou em sua melhor fase, que se acabou quando ele meteu os pés pelas mãos e lançou o estranho “A Dama Na Água”. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Crimes de Um Detetive

Antes de se tornar o astro popular e milionário que é hoje graças ao “Homem de Ferro” e a muitos filmes da Marvel Studios que vieram depois dele, Robert Downey Jr. esteve em alguns projetos inusitados que foram responsáveis diretos por evidenciar seu inesgotável talento e tirá-lo de um certo ostracismo ao qual ele foi condenado durante a década de 1990 depois de várias prisões e escândalos envolvendo drogas e prostitutas.
Um deles certamente foi “Crimes de Um Detetive” ao lado de “Beijos e Tiros”.
Consideravelmente menos comercial do que “Beijos e Tiros”, este “Crimes de Um Detetive” foi dirigido por Keith Gordon que havia, anos antes, realizado a intrigante mescla de história de amor, conspiração política e suspense mediúnico chamado “Amor Maior Que A Vida”, estrelado pela estonteante Jennifer Connelly.
Percebe-se aí, o gosto incomum em seu estilo que o leva a experimentar as junções de gêneros que, em princípio, parecem incompatíveis –e cuja natureza estranha dos projetos resultam justamente dessa incompatibilidade.
Aqui, Keith Gordon realiza uma inclinação ainda maior para o aspecto autoral, o quê tira de seu filme a acessibilidade ao grande público: Ele faz um drama, carregado em tintas de humor negro, psicologia, elementos de film noir e de literatura pulp, e arremata tudo numa roupagem que termina como musical (!).
Um turbilhão de esquizofrenia e confusão de realidade que acomete seu protagonista.
Engolido por sua angústia e perplexidade, Dan Dark (Robert Downey Jr. dando um show!), um escritor mal-humorado, acaba penando numa clínica psiquiátrica justamente por manifestar fisicamente os males que afligem sua mente (como terríveis irritações na pele). Ele convive ainda com personagens oriundos das tramas policiais de seus livros (a femme fatale vivida por Robin Wright, intérprete também de sua esposa, o bandidão traiçoeiro interpretado por Jeremy Northam, e o assassino a serviço de gangsteres personificado por Adrien Brody), sobretudo um certo "detetive cantor", talvez um reflexo de instintos cínicos e agressivos que ele preserva dentro de si, segundo seu psicanalista (interpretado por um Mel Gibson quase irreconhecível). Esse misto estranho e irregular parece visar uma percepção desconcertante no expectador a exemplo do que se passa com o personagem principal, mas resulta num trabalho que frustra, por sua indefinição premeditada, sistematicamente as expectativas do público –a graça é deixada de lado quando parece prestes a virar comédia, a angústia não se estabelece o suficiente para percebermos algum drama, a tensão não dura para que se perceba algum suspense, e as cenas musicais, intercalando esses momentos, só despertam estranheza –sua tentativa de emendar tantas gêneros de abordagens diferentes compromete assim sua qualidade. O quê é indiscutível neste filme é o talento de Robert Downey Jr. absolutamente fantástico e competente no desenvolvimento de seu difícil personagem, seja na desenvoltura para com o humor ou no comprometimento para com o drama.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Paixão de Cristo

O pátio noturno que se revela na primeira cena é tenebroso, quase pertencente a um filme de terror. E a narrativa parcimoniosa, serena, porém firme do diretor Mel Gibson, já desde esse princípio consegue se mostrar amedrontadora, sobretudo, talvez aos expectadores que sabem de antemão o quê lhes aguarda.
Jesus Cristo Nazareno tem medo. Interpretado com bastante propriedade e compromisso por Jim Cazievel (de “Além da Linha Vermelha”), o messias é mostrado, como não poderia deixar de ser, em suas facetas humanas mais suscetíveis aos flagelos terrenos –ao longo do filme ele experimentará, além do medo, o abandono, o repudio, a desesperança, o desespero, a desorientação e a dor em suas inúmeras e insuportáveis expressões, além de diversas outras sensações tão mundanas quanto atrozes, antes de, por fim, deixar esta vida.
“Paixão de Cristo” se impõe assim como um exercício de estilo e, por que não, de brilhantismo do diretor Mel Gibson, onde ele logrou empregar toda sua obsessão artística por uma reconstituição fiel aos fatos históricos que tanto se mostraram interessantes em sua pequena mais brilhante filmografia, que vai desde os detalhes mais sutis até os mais evidentes, o quê determinou diretamente a excelência artística do resultado final, bem como a reação de assombro perplexidade com a qual o público o respondeu.
Falado todo em hebraico, o filme acompanha assim as 12 últimas horas de vida de Jesus Cristo na terra. A traição de Judas (Luca Lionello) e sua conseqüente prisão pelos soldados romanos. O julgamento movido por Caifás (Mattia Sbragia) e os outros sacerdotes. A sentença decretada por Poncio Pilatos (Hristo Shopov). O interminável martírio até a crucificação. Tudo acompanhado de perto por seus seguidores e pelo testemunho perplexo e impotente de sua aflita mãe, Maria (Maia Morgenstern, fabulosa), e da ex-prostituta devota e recuperada, Maria Madalena (Monica Bellucci). Encerrando, enfim, com a morte na cruz mostrada com assustador realismo.
Muitos foram os que criticaram a maneira gráfica com que Gibson expôs o calvário –tão reconstituído em tantos outros filmes, todos infinitamente mais amenos do que este –assim como a ligeira sugestão de anti-semitismo da narrativa (personagens como Judas, Poncio Pilatos ou mesmo Barrabás ganham interpretações ambíguas e humanizadas, enquanto Caifás e os sacerdotes do templo são retratados com desprezível vilania), e muitos foram também aqueles que o louvaram como uma grande obra –o quê ele de fato é.
Gibson promove uma recriação árdua, minimalista e até mesmo apaixonada das percepções, texturas e elementos da época rigidamente como teria sido (o que converge no assombro das cenas ultra sangrentas e ultra violentas que deram muito o que falar), de forma ainda mais dedicada e artisticamente perseverante do que ele fez no ganhador do Oscar, “Coração Valente” –neste sentido, “Paixão de Cristo” se irmana, de fato, com outro grande filme realizado por Gibson logo depois, “Apocalypto”.
O mestre Martin Scorsese pode até ter feito um trabalho ainda mais amplo e admirável em seu esplêndido “A Última Tentação de Cristo”, mas Mel Gibson certamente urgiu um filme que é um testemunho à tenacidade, ao talento e à força estética de si próprio como um artista que, após uma consagrada carreira como ator, revelou-se um diretor de estilo forte e contundente.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Máquina Mortífera - A Quadrilogia

Máquina Mortífera
É possível que hoje seja necessário explicar, para um expectador adolescente a importância que teve a série “Máquina Mortífera” para o cinema de ação a partir dos anos 1980, para a carreira de Mel Gibson (cujo estrelato ele deve à série “Mad Max” e à esta!) e para o gênero de filmes policias cujo filão de “filmes sobre parceiros” ganhou aqui um modelo de excelência para seguir.
Nem todos os exemplares são primorosos, é bom dizer, mas a série é um dos poucos casos em que um mesmo diretor (Richard Donner, neste caso) conseguiu se manter à frente de todos os capítulos –no cinema norte-americano, os casos em que me lembro são Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), Steven Spielberg (“Indiana Jones”), Blake Edwards (“A Pantera Cor-de-Rosa”), Peter Jackson (“O Senhor dos Anéis”), Robert Zemeckis (“De Volta Para O Futuro”) e Christopher Nolan (“Batman”).
O primeiro filme é, talvez, aquele que melhor equilibra o tempo entre seus dois protagonistas –talvez, porque a trama, em grande parte, se vale de um certo suspense criado em torno da instabilidade de Martin Riggs, personagem de Mel Gibson.
O personagem de Danny Glover, por sua vez, é Roger Murtaugh, um detetive já experiente da polícia de Los Angeles que se vê bastante confortável com a vida que leva. De uma hora para outra, isso tudo muda quando lhe é designado Riggs como parceiro, até então policial do departamento de narcóticos. Ao contrário de Murtaugh, pacato pai de família, Riggs é viúvo e, embora seja considerado apto para o trabalho, tem, em decorrência da morte da esposa, uma perigosa tendência ao suicídio, o quê complicada consideravelmente a vida de seu novo parceiro, especialmente quando os dois começam a investigar a morte de uma jovem, e a relação disso com um comércio de heroína coordenado por um ex-agente da CIA.
Conduzido com um refinamento inédito para filmes policiais de ação de então, “Máquina Mortífera” foi uma grata surpresa graças ao roteiro detalhado, espirituoso e inteligente de Shane Black e à direção notável de Richard Donner, duas forças que iniciaram uma pequena reformulação no gênero.

Máquina Mortífera 2
O melhor filme da série.
O primeiro “Máquina Mortífera” surpreendeu o público com uma receita, à época, incomum para um filme de ação, já o segundo, surpreendeu pela perícia com que os realizadores conseguiram superar o antecessor –talvez, porque realizar esta continuação já estivesse primeiramente nos planos do roteirista Shane Black (aqui recebendo o auxílio de Jeffrey Boam, de “Indiana Jones e A Última Cruzada”), que idealizou um desfecho primordial para as maluquices do oficial Riggs.
O segundo filme já começa dizendo a que veio numa seqüência espetacular de perseguição: Um exercício de virtuosismo plenamente indicativo da habilidade do diretor Donner.
A bordo de uma viatura, Riggs e Murtaugh perseguem um veículo suspeito em disparada, e que fica ainda mais suspeito a medida que vai obrigando mais e mais agentes da polícia a se unirem em sua captura.
É a partir dessa cena inicial espetacular que se desenrola o fio narrativo que constituirá a ágil trama desse segundo filme que coloca Riggs e Murtaugh (agora bem mais habituados um com o outro) atrás de uma quadrilha de traficantes controlada por um diplomata da África do Sul, Arjen Rudd (Joss Ackland, um vilão padrão dos anos 1980). Eventualmente, Riggs acaba por se envolver com a bela secretária Rika Van Des Hass (a ótima Patsy Kensit), ao mesmo tempo em que vem a descobrir que o braço direito do vilão, Vorstedt (Derrick O’ Connor), é também o homem que matou a sua esposa.
Ao longo do filme, o diretor Donner entrega uma sucessão de cenas eletrizantes e memoráveis: Além da seqüência inicial, vemos um bandido ser decapitado por uma prancha de surf durante uma perseguição (!); em outra cena, Murtaugh perfura um inimigo com rebitadas de um martelo hidráulico; o mesmo Murtaugh, numa das cenas mais tensas (e engraçadas!) do filme tem de salvar-se de uma bomba instalada em seu vaso sanitário (!); e perto do fim, a caminhonete de Riggs proporciona o espetacular desabamento de uma luxuosa casa envidraçada nas colinas de Hollywood.
Outro fator marcante para a série é a introdução do personagem de Leo Gertz (vivido pelo baixinho Joe Pesci), como o “alívio cômico” oficial da série –embora neste filme ele tenha uma relevância de mais seriedade para com a trama –quando este é detido pela dupla por envolvimento com limpeza de dinheiro proveniente do narcotráfico.

Máquina Mortífera 3
Sem os roteiros de Shane Black –cujo plano era mesmo que a história de Riggs se encerrasse no segundo filme –os filmes subseqüentes se converteram exatamente naquilo que “Máquina Mortífera” aparentava ser, mas no fundo não era: Produções genéricas com fusões ocasionalmente exageradas de comédia e ação.
Como conseqüência disso, uma fórmula se estabeleceu: Um início frenético (espelhando o brilhante prólogo da segunda produção) em geral, sem qualquer conexão com o restante do filme –mais ou menos como as aberturas dos filmes de James Bond –e então a trama pontuada pelos bordões habituais –“Estou ficando velho demais para isso” –na qual A) Riggs ostentava sempre descaso para com vilões e autoridades maiores, B) Joe Pesci, ou melhor, o seu personagem, era carinhosamente destratado pela dupla, que acabou fazendo dele uma espécie de alívio cômico da saga, C) a personagem de Rene Russo, o par romântico de Riggs a partir deste filme, ostentava habilidade prodigiosa de artes marciais e D) o filme ia num crescendo de ação, pancadaria e tiroteios até o final.
São esses ingredientes que conduzem a trama que coloca os dois protagonistas inicialmente como dois rebaixados guardas de trânsito (em conseqüência da apoteótica cena inicial onde acabam já explodindo um prédio inteiro), para em seguida se verem na trilha de uma quadrilha de contrabandistas de armas.
Lançado nos cinema no verão de 1993, “Máquina Mortífera 3”, à época, precisou de todo seu apelo junto ao público e do magnetismo notório que Mel Gibson possuía junto aos expectadores para superar um imprevisto de última hora: A repercussão extremamente negativa do vídeo em que policiais americanos eram mostrados espancando um jovem negro inocente, cuja intensa celeuma deflagrada no período ameaçava a trajetória comercial de filmes como este, estrelados por policiais.

Máquina Mortífera 4
Mel Gibson não é nada bobo. Ele tinha consciência do quão drástico havia sido a queda de qualidade do segundo para o terceiro filme. Com sua carreira estável e aproveitando, já durante a década de 1990, os louros colhidos pelo sucesso de público e crítica da superprodução que dirigiu, “Coração Valente”, não faziam parte de seus planos retomar a série “Máquina Mortífera”. Nem mesmo o cachê vultuoso oferecido pelo estúdio contribuiu para seu regresso. Na verdade, o quê terminou determinando a volta de Gibson –e, por conseqüência, a viabilização do quarto filme –foi um pedido pessoal do amigo Danny Glover: Ele encontrava dificuldade em obter um bom papel em Hollywood sendo “Máquina Mortífera” uma de suas poucas alternativas, por isso, ele praticamente implorou para Gibson aceitar fazer o novo filme.
Neste quarto episódio, os elementos que caracterizavam a série (e que em parte a banalizavam) já estão completamente assimilados pela equipe técnica e pelo elenco. Os atores na verdade parecem encarar tudo como uma grande brincadeira, fato que é potencializado pela atmosfera de grande família que o diretor Richard Donner criou no set ao longo de todos os filmes –e que é absolutamente ratificada nas fotos (tiradas ao longo de todos os quatro filmes) que ilustram os créditos finais. Pena que essa camaradagem acabe se refletindo numa tendência a suavizar bastante uma série que começou violenta e frenética.
Tratado como o episódio final da saga (o que terminou, de fato, acontecendo) esta “parte 4” encontra Riggs e Murtaugh já estabelecidos, deixando a atribulação das cenas de ação para os mais jovens: Agora o bordão “Estou ficando velho demais para isso!” não é mais exclusividade de Murtaugh, mas sim compartilhado pelos dois. Prova disso é a introdução, um tanto forçada e sem muita graça, de Chris Rock, até inesperadamente sério, como um jovem detetive relutantemente envolvido com a filha de Murtaugh.
O roteiro, bem mais ameno e menos violento que nos primeiros filmes, trata de reforçar os conceitos de família: Não só a família de Murtaugh aumenta exponencialmente aqui, como também Riggs e a detetive Lorna Cole (Rene Russo) vão agora ter um filho. Diante disso, é também natural que a representação da criminalidade ganhe assim ares mais simplistas e exóticos; eles agora se deparam contra Wah Sing Ku, desejoso de mobilizar todo o crime organizado de Chinatown e mover um império (e contra muitos prognósticos, o ágil e vigoroso Jet Li revela-se mesmo assim o mais sensacional vilão de toda a saga!).
Os momentos de clímax parecem constantemente insinuar (mas, deliberadamente, jamais concretizar) uma possível morte de Riggs, algo com o qual a série sempre flertou –e até mesmo o marketing deste quarto filme trabalhou em cima dessa possibilidade; entretanto, isso não acontece –e dificilmente viria a acontecer logo neste último e mais “familiar” exemplar da série.
Em tempo: Gibson e o diretor Richard Donner prolongaram sua parceria para além deste projeto em filmes bem interessantes como o inventivo suspense “A Teoria da Conspiração” e o faroeste “Maverick”. Eventualmente ainda falaremos deles...

sábado, 17 de junho de 2017

Trilogia Mad Max

Mad Max
O conceito de filmes pós-apocalípticos era bem outro antes deste incomum, ressonante e vibrante trabalho de um ainda iniciante George Miller.
A idéia em si nem lograva definir o quê o filme seria: A fim de justificar o baixo orçamento e a ambientação incontornavelmente precária que teria de arcar, Miller concebeu o roteiro instalando a premissa em meio à um mundo onde a civilização já começava sua derrocada, justificando assim a ausência de figurantes (que eles não podiam pagar), os cenários arcaicos e rudimentares (que eram tudo aquilo de que dispunham) e as amplas tomadas desérticas (afinal de contas, o lugar de que podiam tirar o máximo de proveito).
A trama em si não colocava o policial Max Rockatansky como o personagem que ele acabou sendo: O roteiro estava mais para um thriller envolvendo motoqueiros desordeiros, um dos sub-gêneros comuns no cinema guerrilheiro, apelativo e franco da Austrália.
Mas, a necessidade, como se diz por aí, foi moldando o projeto, e “Mad Max” terminou sendo uma obra que reunia uma série de características bastante únicas.
Num futuro iminente, porém espertamente não determinado, um policial rodoviário (Mel Gibson, uma extraordinária presença de cena) das estradas desérticas da Austrália se defronta com uma gangue de motoqueiros arruaceiros, uma onda de violência e caos que parece se repetir em todo o mundo, levando os pilares da civilização a iniciar um colapso gradativo –as restrições extremas da produção impediam que este fosse um filme que ilustrasse inteiramente um mundo pós-apocalíptico (tarefa que foi magnificamente abraçada e executada pelos filmes seguintes), e é por isso que George Miller vale-se da criatividade, da sugestão e de várias sacadas de roteiro a fim de contornar essa questão.
Psicóticos, os selvagens antagonistas perseguem Max e terminam matando sua mulher e filho pequeno.
Não sabem o erro que cometeram.
São inúmeras as proezas incomuns deste filme aparentemente tão modesto e de realização tão básica: Iniciou uma série que consagrou o astro Mel Gibson; apresentou o estilo de cinema ebuliente e inusitado da Austrália para o mundo; e criou um cenário de mundo pós-apocalíptico (mais explorado nos filmes seguintes) que tornou-se modelo para infindáveis imitações posteriores (e inferiores).
Por tal aspecto ainda hoje desigual e suas cenas eletrizantes e imaginativas (em parte devido ao pequeno orçamento) usufrui, hoje, de um merecido status cult.


Mad Max 2-A Caçada Continua
Nesta continuação do cult "Mad Max", a orientação da história prima por explorar o mundo futurista que foi apenas esboçado no primeiro filme (de orçamento bem menor).
Agora já sabemos com mais nitidez os detalhes pelos quais se deu o desmoronamento da sociedade regulamentada, do qual tivemos um vislumbre no filme inicial.
É por isso que, neste segundo filme, Max Rockatansky já deixou à tempos o ofício de policial: Neste futuro pós-apocalíptico, cuja falta de combustível (como descobrimos no prólogo) levou ao esfacelamento da civilização, tudo o quê resta ao ex-policial fazer é singrar as estradas australianas a bordo do seu ford falcon envenenado.
Acostumado a enfrentar arruaceiros ocasionais, Max se encontra com uma sociedade montada dentro de uma fortaleza, onde as pessoas precisarão de seus serviços para conduzir um disputado caminhão de combustível por uma estrada afora.
Nesta produção, mais endinheirada do que a anterior devido ao sucesso de público, George Miller pode dar ainda mais personalidade aos quesitos que definiram o primeiro filme (e que são inerentes ao cinema australiano a que pertencem) o fetiche cativante e irresponsável com que são registradas as perseguições de carros mais drásticas. Essa faceta passou a definir a série, assim como –a partir desse filme –o registro curioso, inventivo e ácido de um mundo em frangalhos culturais, sociais e técnicos onde o diretor encontra largo terreno para a criatividade sua e da equipe técnica.


Mad Max-Além da Cúpula do Trovão
Em sua terceira aventura ambientada num mundo pós-apocalíptico onde a cada filme o diretor George Miller abandona cada vez mais as relações com a nossa própria civilização, o ex-policial Max Rockatanski, agora convertido num andarilho a singrar pelo mundo devastado, encontra uma sociedade desértica que gira em torno de uma arena –a Cúpula do Trovão.
Lá, a disputa pelo poder se dá entre uma dupla de controladores formada por Máster (a sabedoria representada num articulado anãozinho quase inválido) e Blaster (a força manifestada por um truculento gigante mudo), e Tia Entity (Tina Turner), líder de um grupo de motoqueiros punk (!).
Max passa algumas agruras no fogo cruzado dessa luta pelo poder: É levado, por um acordo com Tia Entity a confrontar o poderoso Blaster dentro da famigerada Cúpula do Trovão, em torno da qual se dão os embates que mobilizam toda atenção daquela sociedade (na mais espetacular cena de duelo de todo o filme), e termina exilado no deserto, onde conhece um grupo de crianças perdidas.
No terceiro filme da série protagonizada pelo personagem Max Rockatanski, o diretor George Miller já indica, em sua condução, a propensão para histórias mirabolantes que ilustrariam melhor o mundo anarquizado que ele criou –e que levaria ao formidável “Mad Max-Estrada da Fúria”.