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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Gallipoli


 Dentre os notáveis realizadores australianos dos anos 1970 e 80, Peter Weir sempre desempenhou um cinema bem mais voltado ao classicismo da Velha Hollywood em comparação com alguns de seus contraventores conterrâneos. O que não que dizer que ele não preserve, ainda assim, uma identidade singular e desigual em seus trabalhos, exatamente como costumava ocorrer ao intrigante cinema vindo da Austrália.

Tomemos como exemplo a epopéia, a um só tempo ambiciosa e intimista, que testemunhamos se desenrolar em “Gallipoli”, de 1981. Embora comumente apontado como uma das produções que revelaram Mel Gibson – o primeiro “Mad Max” havia sido lançado dois anos antes – o protagonista de fato de “Gallipoli” é Mark Lee, intérprete de Archy Hamilton, jovem australiano que, nos idos de 1915, embora tenha um promissor potencial para ascender como corredor, almeja mesmo alistar-se no Exército e lutar por seu país na Primeira Guerra Mundial.

Archy é um personagem construído com um zelo que somente um realizador realmente brilhante tem o equilíbrio e a sensatez para fazê-lo; embora seja benevolente, altruísta, idealista e convicto, ele ostenta características humanas que não o tornam bidimensional – e esses elementos, a capacidade do personagem em mostrar o melhor de si, a forma com que sua pureza encanta de imediato o público serão fundamentais mais a frente.

Mel Gibson, por sua vez, interpreta Frank Dunne, um jovem trabalhador das ferrovias do país, e por isso mesmo mais cínico, mais prático e mais, por assim dizer, egocêntrico, do que Archy – Frank é bem-intencionado, mas a ideia de adentrar na guerra, junto de outros jovens alistados, o faz pensar, primeiro, no bem-estar de sua própria pele!

Os dois se conhecem ao disputarem uma corrida de 100 metros rasos e, a despeito das personalidades distintas, ficam grandes amigos. Na ocasião, Archy desvencilha-se da família (ele vivia com o tio, que o treinava) para tentar ingressar na guerra, no entanto, é impedido pela pouca idade – tinha apenas 18 anos, enquanto que a idade mínima exigida para o alistamento militar era 21.

Ao lado de Frank, um aventureiro procurando conseguir dinheiro onde quer que vá, Archy vai clandestinamente de trem tentar o alistamento na cidade de Perth, onde as exigências militares não estabeleciam limite de idade, entretanto, o trem acaba levando-os para outro lugar, um ponto longínquo do deserto australiano. O que exige que os dois rapazes, para atingir seu objetivo atravessem a pé a imensidão do Out Back – uma travessia que se mostra desafiadora mesmo para o físico e a vitalidade desportista dos dois.

Após esses percalços, Archy enfim consegue alistar-se na Brigada Ligeira. Já, Frank, embora tenha sido convencido por Archy, nesse interím, a alistar-se também, não consegue – Frank não sabia montar, pré-requisito essencial para integrar a Brigada Ligeira. Depois da partida de Archy, Frank – que assume a partir daqui o protagonismo do filme – finalmente consegue entrar para o Exército Australiano quando alista-se para a Infantaria. Junto de seus novos companheiros, ele é designado para o Cairo, no Egito onde vive sucessivas aventuras.

Ele e Archy tornam a se encontrar durante um treinamento que reúne a Infantaria e a Brigada Ligeira da Austrália e da Nova Zelândia num mesmo campo de batalha. Eles convencem alguns oficiais a aceitar a convocação de Frank para a Brigada Ligeira e ambos são designados, junto de todo o batalhão, para a fatídica Batalha dos Dardanelos, às margens da península de Gallipoli, na Turquia. Uma área completamente tomada pelos turcos – então aliados da Alemanha – que os oficiais britânicos, ao lado dos australianos, almejam tomar a todo custo, a fim de chegar em Constantinopla. As trincheiras apertadas e estreitas cavadas na terra representavam centímetros de diferença entre a vida e a morte para os soldados, enquanto as metralhadoras inimigas retiniam sobre suas cabeças.

Nesse ponto que o filme de Peter Weir traz suas primeiras facetas de filme de guerra – quando já se acha em seu terço final! É quando Archy recomenda Frank (desde sempre temeroso com sua participação em batalha) para ser mensageiro dos oficiais em campo, devido à sua agilidade.

Os elementos acumulados pelo diretor dessa trajetória rumo à tragédia dos dois amigos, adquirem impacto justamente pela perfeição e pelo brilho com que são executados e apresentados ao expectador, nesta poderosa observação sobre o peso da guerra e dos terríveis sacrifícios que ela sempre cobra da juventude. Nesse sentido, nenhum momento é mais marcante e poderoso do que sua imagem final, congelada no tempo em um encerramento arrebatador do filme e da trajetória daquela amizade.

Mel Gibson e o diretor Peter Weir ainda fariam, logo em seguida, mais um grande filme juntos, “O Ano Que Vivemos Em Perigo”, desta vez com Sigourney Weaver, sobre o Golpe Comunista na Indonésia de 1965, mas, esta, é uma outra história...

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Mestre dos Mares - O Lado Mais Distante do Mundo

É menos um filme de guerra e mais uma aventura sobre o mundo dos navegadores daquele período (1805) este elogiado filme no qual o diretor australiano Peter Weir realiza um épico de forte inclinação anacrônica, com narrativa, vocabulário e melodia de um filme feito na Velha Hollywood –e que, por isso mesmo, pouco acessível parece ser à platéias mais jovens.
Com efeito, ele conta a história de como, durante as Guerras Napoleônicas, o Capitão Jack Aubbrey (Russell Crowe, em seu auge) conduz sua eclética tripulação pelos sete mares, enfrentando problemas de convívio e atribulações comuns a um grande navio, enquanto experimentam a tensão de um possível e iminente combate com os espectrais navios da frota francesa. A partir dessa premissa –que a maior parte dos diretores usaria como ponto de partida para um filme cheio de cenas de ação –Weir enfatiza a minúcia, a dinâmica e a condição humana: Interessa a sua narrativa as relações que camaradagem ou não que se estabelece entre os indivíduos que dividem o convés, às vezes ao longo dos anos, as histórias que relatam uns aos outros, a impressão furtiva dos novatos, a hierarquia que vez ou outra sofre alguma torção em função das circunstâncias, e as reações profundamente humanas.
Ele começa e termina com duas prodigiosas cenas de batalha, contudo, excetuando-se isso, o filme de Weir não ação. A guerra, quando muito, é mencionada como um fator estratégico pelos personagens, e mais se fala dela do que se vê de fato. Ela surge na apreensão que toma os marujos, nas constantes deliberações do capitão. Na atmosfera preocupante que de vez em quando aflige a tripulação.
Após ter o navio H.M.S. Surprise avariado em um conflito inesperado, o Capitão Aubrey, da Marinha Britânica, conduz sua embarcação e seus homens pela costa da América do Sul numa tensa caçada ao navio francês que o emboscou.
Seu melhor amigo e conselheiro, é o médico do navio, Dr. Stephen Maturin (Paul Bettany, excelente) com quem compartilha as incertezas de ver sua tripulação passar por revezes de fome e exaustão na busca por superar seu adversário.
Tudo no filme de Weir depõe a favor de seu retrato elaborado e meticuloso da vida marítima: A fotografia de Russell Boyd (ganhadora do Oscar) se esmera em cenas que ilustram a recriação brilhante do dia-a-dia no Surprise, ao mesmo tempo em que captura instantes de grande beleza na paisagem natural; o elenco –que além de Crowe e Bettany, inclui James D’ Arcy, Billy Boyd (de “O Senhor dos Anéis”) e Richard McCabe –dedica-se a uma interpretação coletiva de posturas formais e estudadas com imensa atenção na reconstituição comportamental; e a direção de arte impõe um nível de preciosismo e detalhamento que chega às raias do documental.

Esse esforço traz uma autenticidade vívida e perceptível à encenação e à reconstituição, mas são muitos os que observam a maneira com que a direção de Peter Weir se opõe à dar uma estrutura mais comercial ao seu épico, valorizando mais a contemplação da natureza praticada por Maturin, as interações entre ele e Aubrey, e a rotina marítima como um todo.

domingo, 4 de junho de 2017

A Testemunha

Um dos grandes filmes policiais do cinema, “A Testemunha”, do sempre notável diretor australiano Peter Weir, não se restringe apenas a esse gênero: É funcional também como suspense, como drama e como romance.
Tal mérito se deve ao roteiro equilibrado de Earl W. Wallace e William Kelley que, somado à condução sempre austera e impregnada de vivacidade de Weir, dá ao filme uma atmosfera dramática extremamente desigual e incomum.
Por isso talvez haja um comprometimento tão acentuado e singular na atuação de Harrison Ford (que recebeu aqui a única indicação ao Oscar de Melhor Ator de sua carreira) no papel de John Book, o policial encarregado de um caso onde um garotinho amish (o pequeno Lukas Haas) torna-se a única testemunha de um brutal assassinato, logo descobrindo que o assassino vem a ser um conceituado detetive da polícia de Los Angeles (Danny Glover).
O homicídio em questão envolve, portanto, corrupção nos mais altos escalões da polícia, o quê o obriga, sem alternativas, a refugiar-se, junto da criança e de sua mãe (Kelly McGillis, de “Top Gun”, belíssima) na comunidade amish ao qual os dois pertencem.
É quando o filme de Weir revela seu aspecto mais inusitado e brilhante: Homem rígido e urbanizado, John Book encontra dificuldade e reticência em sua adaptação a esse novo modo de vida no qual, ao contrário da rotina moderna que cultivou a vida inteira, prima pela harmonia, pela simplicidade (num nível quase atroz) e pela abnegação de comodidades fúteis e banais.
Paralela a essa adaptação –que acontece em todas as suas nuances de sutileza e drama –floresce também uma paixão contida entre ele e Rachel (personagem de McGillis), completamente impedida pelas circunstâncias e pelo contraste do mundo a que ambos pertencem.
Essa faceta do filme de Weir, tão magistral e bem realizada em todos os seus aspectos se mostra que chega a engolir a trama policial que engatilhou a narrativa, mas ela retorna na meia hora final, brilhantemente tensa e aflitiva, para ilustrar o realizador completo que é o seu diretor.
Ao fim, a idéia com a qual Peter Weir encerra o filme e deixa o expectador é a mesma de quase todos os seus filmes: O fato indelével –e fascinante até –que o ser humano tem de transformar e deixar ser transformado pelo ambiente à sua volta.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Picnic Na Montanha Misteriosa

São claras as razões que tornaram este um dos filmes australianos mais importantes dos anos 1970: Nele existem inúmeros pequenos grandes filmes –temos a afiada crítica social jamais destituída da alegoria que a torna tão relevante para além de seu tempo e lugar; temos o filme independente respirando pela narrativa, evidenciado na pouca disposição do diretor em ceder às expectativas do público; temos o filme de suspense, onde o mistério, tornado quase fantasmagórico ao longo da duração, vai esmagando as convicções dos personagens; temos o poético drama juvenil onde o foco principal são as jovens perplexas e sua vã tentativa de desabrochar para uma maturidade diante do opressor mundo adulto; e temos o filme sobre um desaparecimento –este baseado em fatos reais –que enganosamente sugere ser o grande cerne da produção, mas é, em inúmeros níveis, apenas seu pretexto. Todos estes diferentes filmes se justapõe numa perspectiva enigmática graças ao singular trabalho de Peter Weir, pois ele procura em cada um deles um fragmento que contribua para elucidar a resposta que parece tão inalcançável: O quê afinal aconteceu àquelas quatro meninas naquela nebulosa tarde em Hanging Rock? Para onde foram? Que fim todas elas tiveram?
Esse mistério insolúvel erguido pela austera direção de Weir (tão denso e tangível quando uma neblina cerrada) não se dissipa nem mesmo quando uma das jovens desaparecidas é encontrada: A indignação das cenas que se seguem, quando fica claro que, em seu trauma, é impossível extrair dela qualquer relato que seja, é tão frustrante para o expectador quanto o é para os personagens.
O mistério não é necessariamente crível, ele é apenas irreprimível –em sua sensibilidade única, Weir ressalta o fato alarmante de que a resposta pode nunca mais chegar –traduzida na inocente e fracassada obsessão de um jovem em não deixar-se desistir em sua busca desesperada. Mas há de se notar que todo esse sentimento de inconformismo (ou algo assim) existe como um catalizador para os personagens e suas obsessões pessoais diretamente à esse evento relacionadas: É escolha de cada um seguir em frente com suas vidas, ou deixar de viver, para em lugar disso, mastigar durante toda a sua existência as causas e efeitos de uma dúvida inexplicável.
Para além das percepções atribuídas pelo perspicaz diretor Peter Weir à este filme, a autora do livro, Joan Lindsay, (cujo roteiro, ela própria escreveu), tinha uma história de 18 capítulos dos quais 17 foram publicados –e, portanto, adaptados para o cinema. O décimo oitavo capítulo, e que trazia a resolução do grande mistério, só poderia ser publicado após a morte da escritora (ocorrida em 23 de dezembro de 1984).
Quando finalmente o grande segredo de Hanging Rock foi publicado seu pendor fantasioso frustrou as indagações daqueles que aguardavam por uma explicação à altura de sua expectativa –o filme de Peter Weir, contudo, com sua impassível névoa de mistério, permanece com sua impecável aura de sonho inconcluso.

domingo, 5 de junho de 2016

Sociedade dos Poetas Mortos

O ótimo e emocionante trabalho do diretor Peter Weir não deixou que o ingênuo público dos anos 1980, que prestigiou (e muito) o filme nos cinemas, percebesse um insuspeito caráter de transgressão disfarçado da mais pura e genuína ode à vida e à liberdade que impregnava esta maravilha da sétima arte.
Avesso à emoções fortes e apelos melodramáticos convencionais (como provam seus equilibrados, austeros e também magistrais “A Testemunha”, de 1985, “O Show de Truman” de 1999, e “Mestre dos Mares”, de 2003), o talentoso diretor australiano entrou numa fase mais emotiva no final daquela década, chegando a realizar até mesmo uma comédia romântica! Mas, uma comédia romântica que era, também ela, uma esmerada obra de cinema, com um roteiro inquestionável e um trabalho narrativo superior à muito drama vencedor de Oscar (e quando se tem Gerard Depardieu no elenco, o filme se torna, no mínimo, livre de críticas quanto às atuações): Tratava-se de “Green Card-Passaporte Para O Amor”, sobre o qual, inclusive já falei aqui.
O curioso é que, aparentemente, Peter Weir vinha planejando a algum tempo essa fase mais leve e agridoce: O roteiro de “Green Card” vinha sendo trabalho a alguns anos, e Weir tinha inclusive escrito especialmente para Depardieu.
Na qualidade de grande astro da França naquele período, o francês estava atarefado (no caso, filmando “Cyrano de Bergerác” que, em 1990, lhe deu uma indicação ao Oscar), e para conseguí-lo, Weir teria de adiar o início das filmagens.
Eis que ele contornou a ansiedade da espera preenchendo o tempo enquanto fazia um outro filme: “Sociedade dos Poetas Mortos”.
É curioso notar, portanto, que não passava pela cabeça de Weir o filme brilhante que ele estava fazendo. Desnecessário dizer que “Green Card”, ainda que ótimo, não teve metade da repercussão que o sensacional filme estrelado por Robin Willians obteve.
“Sociedade...” recebeu inúmeras indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Diretor, para Weir, mas ganhou mesmo o de Melhor Roteiro Original, vem laureado uma de suas maiores forças: O script certeiro, enxuto, ponderado e essencial de Tom Schulman.
São meados da década de 1950, e a prestigiada escola norte-americana para meninos de Welton recebe um novo professor de poesia, John Keating (um inspirado Robin Willians), cuja desigual postura em sala de aula –ele inspira os alunos à um pensamento livre e questionador, abrindo mão de manuais e regras –encanta muitos dos alunos na mesma medida em que desperta a intolerância da direção da escola.
Surge então a dita Sociedade dos Poetas Mortos, um grupo composto de alunos que reúnem-se numa caverna para recitar poemas. Os jovens que formam esse grupo são inspirados assim a buscar seus sonhos, sejam eles materializados da forma que for.
Desde a feliz descoberta de um elenco homogêneo e competente de jovens atores até a sacada fantástica de colocar Robin Willians num papel dramático, tudo funciona a favor do filme. As cenas costuradas à medida que a narrativa avança são brilhantes e memoráveis em sua unidade: Os poemas na caverna; as sucessivas aulas de poesia onde Willians enche a boca com os monólogos extraordinários de seu personagem; a cena em que os jovens declamam uma frase e chutam bola; a tensa apresentação de teatro.
Nada, contudo, supera a emoção dos dez minutos finais, um momento que, ao som da sempre eficiente trilha sonora de Maurice Jarre, ouso dizer, está entre os mais tocantes do cinema.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O Show de Truman

Um estudo dos reality show muito, muito antes da era dos reality show começar, "O Show de Truman" é um feito e tanto: Um roteiro primoroso, astuto e audaz de Andrew Niccol, versando sobre ganchos, paradigmas e reflexos de narração que ainda soavam inéditos naqueles saturados anos 1990; um projeto onde o comediante Jim Carrey abraçou a oportunidade para mostrar o ator brilhante que é de fato, num personagem carregado de camadas, através das quais o ator permite vislumbrar o lado a um só tempo patético, destemido, vulnerável e beligerante do ser humano; e, sobretudo, uma obra de cinema singular perpetrada pelo sempre talentoso Peter Weir, que a exemplo de seus magníficos "A Testemunha" e "Sociedade dos Poetas Mortos" adentra um gênero para distorcê-lo, transmutá-lo com seu agudo estilo e diferenciação, e dele extrair algo absolutamente novo.
E é, definitivamente algo novo, que encontramos aqui, na história de Truman Burbank, um rapaz que, sem saber, é o centro do programa de TV mais assistido de todo o mundo: o "Truman Show", que é exibido desde que nasceu –e do qual, ele não tem o menor conhecimento!
Todos ao redor dele, portanto, seus amigos, conhecidos e familiares, são atores contratados para fingir que fazem parte de sua vida.
Aos poucos porém, Truman começa a detectar indícios de que sua realidade é diferente aquela que ele pensa (por meio de pequenos acidentes técnicos que se sucedem ao longo dos anos, pelos ocasionais erros de continuidade dos atores a sua volta, e pela determinação de uma jovem vivida por Natascha McElhone disposta a livra-lo de sua ‘novela-prisão’), e isso tudo pode levar Truman a tentar algo que foi basicamente educado para não fazer: Arriscar-se a deixar a vida que conhece para trás a fim de ser dono do próprio destino, e com isso, defrontar-se com o homem responsável por tudo o que representa o “Truman Show”, o controlador e paternalista Cristof (o magistral Ed Harris).
Não são somente o roteiro de Niccol, nem a direção soberba de Weir as grandes estrelas deste achado cinematográfico: Também o são as atuações de Jim Carrey e de Ed Harris.
Harris, aliás, é o responsável pelo grande momento do filme, quando já no desfecho, ao alcançar o que certamente é o limite final de seu mundo idealizado e construído (e portanto, o início do assustador mundo real), Truman e Cristof (seu pai, criador e, de certa forma, o deus de seu mundo; e a encenação cuida para que essa metáfora fique clara e poderosa) ficam pela primeira –e, provavelmente única vez –em contato um com o outro, para ambos poderem esclarecer dúvidas (sobretudo Truman) e descobrirem quem passarão a ser dali em diante.
Um trabalho poderoso, sem dúvidas, um dos melhores dos anos 1990.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Green Card - Passaporte Para O Amor

Um verdadeiro deleite este “Green Card”. Parece pertencer a uma classe cada vez mais rara de filmes desprovidos de cinismo que, hoje em dia, acabam rotulados de algo como “excessivamente ingênuos” justamente pelos cínicos. 
Desavisados poderão tomá-lo como uma mera comédia romântica e, embora o renomado diretor Peter Weir lhe dê indisfarçáveis características desse gênero, esse é um dado equivocado. “Green Card” é, primeiramente, uma jóia de roteiro, onde as situações, magnificamente arranjadas, se sucedem de maneira à evidenciar uma sinergia a interligar com ironia os feitos e efeitos do mundo, num processo cuja beleza só não passa, talvez, despercebida dos românticos. 
Não fosse isso, ainda seria um prazer constatar o elenco reunido para o filme. Andie MacDowell é linda, mas de uma beleza mais clássica, que não abre tanto espaço para conotações sexuais. Isso não aconteceu nem mesmo quando Steven Sodenbergh a colocou como um dos pivôs de seu drama humano em “Sexo, Mentiras e Videotape”. 
Sendo assim, é um contraponto, no mínimo, curioso, a presença de Gerard Depardieu como seu par. O francês, contudo, precisa de muito pouco tempo em cena para desabilitar o fato de que ela é bela e cativante, enquanto que ele é mundano, exótico e deliciosamente vulgar. Ele também é um músico e, vindo da França para fazer fortuna nos EUA, depende de um green card, fornecido aos estrangeiros casados com mulheres norte-americanas. Ela, por sua vez, precisa de um apartamento com estufa para o cultivo de suas plantas, dificílimo de achar em Nova York, mas cujo proprietário só aluga para inquilinos casados. Os dois completos estranhos fazem um arranjo, assim, que beneficia a ambos. Mas, aos poucos, complicações começam a aparecer, sobretudo, na tentativa de provar que, por mais improvável que possa parecer, eles são um casal. Seus encontros e desencontros são mágicos. A exemplo de alguns dos grandes filmes de romance do cinema, serão suas divergências que irão moldar a química por meio da qual se descobrirão feitos um para o outro.
Um filme perfeito para se assistir com o coração aberto.