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domingo, 5 de abril de 2020

Orquídea Selvagem

Zalman King ganhou certo renome após o sucesso colossal de seu roteiro para “9 e ½ Semanas de Amor”, filmado por Adrian Lyne –de repente, ele, que havia escrito pouco mais que um romance modernoso sobre pulsões sexuais inusitadas, era um profissional considerado a última palavra em erotismo.
Ele soube aproveitar a maré lançando-se como o próprio diretor de seus scripts (no longa “Um Toque de Sedução”) e –sem o estilo visualmente extravagante de Lyne –as suas características autorais começaram a ficar mais claras: King tinha o objetivo de conceber um misto elegante e excitante de dramaturgia nada usual com erotismo em níveis desafiadores para o mercado convencional de então, numa postura que lembrava um pouco os projetos fetichistas do italiano Tinto Brass.
Lançado em 1990, “Orquídea Selvagem” reuniu Zalman King novamente com o astro de “9 e ½ Semanas...”, Mickey Rourke, prometendo uma obra de sexualidade forte e singular tanto quando foi o cultuado filme de Lyne.
“Orquídea Selvagem” começa com sua protagonista de fato, Emily (a modelo Carré Otis) rumando para Nova York a fim de vencer na vida –ponto de partida mais clichê, impossível!
Lá, ela obtém emprego como advogada na empresa da poderosa Claudia Liones (Jacqueline Bisset, absolutamente sensacional) e de pronto as duas seguem para o fechamento de um negócio a ser realizado em terras brasileiras envolvendo chineses e um edifício antigo.
A distinção da realização de Zalman King para os filmes eróticos mais convencionais –mesmo os de hoje –é, sobretudo, o tempo prolongado que ele demanda para elaborar sua premissa. Uma pena que esse período anormalmente longo permite ficarem evidentes os lapsos de sua produção: Se Jacqueline Bisset rouba com facilidade cada uma das cenas em que aparece, a novata Carré Otis é tão inexpressiva que nem falar ela consegue direito que o diga atuar! O próprio Zalman King, como diretor, deixa bastante claro que seu outro roteiro funcionou bem porque um diretor perspicaz como Adrian Lyne soube enfatizar elementos do filme que camuflavam a fragilidade da trama; já, aqui, cada detalhe colabora para evidenciar sua superficialidade.
Desde a ambientação no Rio de Janeiro (onde conta com a presença do ator Milton Gonçalves) passando pelas despropositadas inserções de bailes de máscaras sem o menor sentido (ao que parece, um fetiche de King) e pelo apático personagem de Mickey Rourke “Orquídea Selvagem” soa todo jocoso e improvável.
E, por falar em Rourke: Seu personagem, de nome Wheller, é um dos empresários envolvidos na tal negociação. Emily assim, recebe de Claudia a incumbência de acompanhá-lo (e, se possível, vigiá-lo de perto) a fim de garantir que ele não cometa nenhuma travessura antes que seja fechado o negócio.
Sedutor nato, envolto em mistério e cheio de manhas, Wheller logo enreda Emily –que desde o início ostenta adjetivos entre ‘frígida’ e ‘travada’ –numa espécie de jogo de provocação, identificando muitos dos desejos ocultos dela; alguns deflagrados por uma cena de sexo que ela testemunhou no tal edifício antigo envolvendo um casal de negros (a mulher particularmente é estupenda!).
Engana-se, todavia, aquele expectador que deduzir que eles logo partem para os finalmentes –protelar, ao menos em seus primeiros trabalhos, parece ser o maior joguete de King –Wheller, na realidade, tem ao que parece um bloqueio emocional (nunca devidamente esclarecido) onde não tolera ser tocado; daí sua incapacidade de consumar suas conquistas deixando as mulheres sempre em expectativa (algo um pouco parecido com o que é mostrado com o personagem principal de “Cinquenta Tons de Cinza”, mais de vinte anos depois). Dessa forma, impossibilitado de extasiar-se diretamente com um toque, Wheller resolve experimentar tal sensação indiretamente, através de Emily, levando ela a deixar-se seduzir por um outro turista americano (uma ponta meio cafajeste de Bruce Greenwood).
Ela se torna de tal forma uma obsessão para ele, que Wheller chegar a comprar o edifício antigo, interferindo nos negócios, apenas para mantê-la por perto mais algum tempo.
Entre floreios excessivos a pavimentar o caminho da sugestão até o fato, o filme de Zalman King oferece um erotismo pulsante e revelador quando é chegada a hora –uma pena o fato dele submeter o expectador a um considerável teste de paciência antes disso: Porque as noções cinematográficas de King como diretor são rudimentares e equivocadas (e não aparentam terem melhorado em trabalhos posteriores), porque o retrato que ele pinta das noites cariocas (assim como do carnaval) é tão bisonho que chega a resvalar na comédia involuntária e porque, salvo Jacqueline Bisset, os demais atores não mostram a menor veracidade em seus papéis, nem mesmo Mickey Rourke (que certamente iniciou sua decadência profissional com esta obra) ou Carré Otis, que se casaram na vida real depois deste filme, ainda que em cena não apresentem maiores compatibilidades.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Trilogia Os Mercenários

Durante boa parte dos anos 1980 e 90, os fãs de filmes descerebrados de ação cultivaram a ideia de ver reunidos em cena alguns de seus heróis prediletos do período, sendo estes os mais requisitados Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.
Isso não ocorreu naquelas décadas –inclusive porque, durante algum tempo, os dois alimentaram uma espécie de rivalidade antes de virarem bosn amigos e se tornarem sócios da cadeia de restaurantes Planet Hollywood –entretanto, os aficcionados tiveram a oportunidade de ver isso acontecer primeiramente em “Os Mercenários”, que reuniu os dois e mais um punhado considerável de  marombados daquela época, como Bruce Willis e Dolph Lundgreen.
Dirigido pelo próprio Stallone, o primeiro “Os Mercenários” não fazia maior esforço além de incitar o público com esse apelo –o de reunir em primeira mão os astros da pancadaria do passado, no que pode ser visto como uma das primeiras produções a se valer de um certo saudosismo dos anos 1980 que desde então dominou inúmeras obras.
Assim, Stallone é Barney Ross, líder de um grupo de mercenários de aluguel composto por Lee Christmas (Jason Statham, talvez o único verdadeiro astro de ação da atualidade), Toll Road (Randy Culture), Gunnar Jens (Lundgreen, que curiosamente se destaca no elenco), Hale Caesar (Terry Crews) e o ágil Yin Yang (o chinês Jet Li) –além deles, há também a ponta ilustre de Mickey Rourke como um barman cheio de histórias para contar.
Como era ainda governador da Califórnia na época do filme, Schwarzenegger não faz mais do que uma participação especial ao lado de Bruce Willis, numa cena em que encontram Barney em uma igreja –momento breve que, porém, foi o bastante para fazer a alegria dos apreciadores de filmes de ação protagonizados pelos três.
Na trama absurdamente genérica, o grupo de mercenários liderado por Barney deve completar uma missão numa republiqueta sul-americana. Entretanto, em algum momento a ombridade típica de herói de ação em Barney e Christmas irá falar mais alto, e eles decidirão destituir o impiedoso ditador do lugar, vivido com canastrice premeditada por Eric Roberts, convencidos pela candura da mocinha indefesa da vez, interpretada –veja só –pela atriz brasileira Gisele Itié.
Embora essa receita soasse infalível, o tratamento narrativo dado por Stallone –talvez, por essa mesma excessiva confiança –foi tão genérico e impessoal que quase o filme não passa do ponto de corte: “Os Mercenários”, ainda que com uma razoável bilheteria, concorreu ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor (!), o que levou os produtores a tomarem um cuidado maior na continuação.

Em “Os Mercenários 2”, o diretor escolhido foi Simon West que, tendo no currículo “Con Air-A Rota da Fuga” e o primeiro “Tomb Raider”, com Angelina Jolie, ostentava vasta experiência e conhecimento no gênero. De fato, ele contribui com um ritmo vertiginoso, um humor revigorante e um tremendo entendimento sobre os aspectos que tornam esse tipo de filme empolgante aos olhos de seus apreciadores –“Os Mercenários 2” é, sem sombra de dúvida, a produção que, dentre toda a trilogia, tira melhor proveito dos elementos que usa como chamariz.
Sobretudo no que diz respeito às participações de astros famosos e veteranos da ação: Além de todos os integrantes do primeiro filme (à exceção de Mickey Rourke que não voltou), aparecem também Jean Claude Van Damme, no papel do vilão Jean Vilain (!?!), o lendário Chuck Norris (que recebe da narrativa um tratamento que faz jus à sua lenda!) e participações mais estendidas e suculentas de Schwarzenegger e Bruce Willis (com direito à infindáveis referências aos seus grandes sucessos); de lambuja, ainda temos a presença do jovem Liam Hemsworth, de “Jogos Vorazes”.
É ele quem, de certa maneira, dá a ignição à trama, quando um encontro com o perverso Jean Vilain (Van Damme sempre interpreta vilões num divertido tom canastrão e provocativo) termina mal para o rapaz, por quem Barney estava se apegando –reza a lenda que originalmente este seria o destino reservado ao personagem de Mickey Rourke.
Barney e sua equipe, com o auxílio de Trench Mauser (Schwarzenegger) o rival salvo na cena inicial convertido em aliado, seguem assim numa missão mais pessoal com o intuito de frustrar os planos inescapavelmente malignos de Vilain e vingar a morte do jovem..
Aqui, os heróis ouvem a todo o instante que já estão velhos e obsoletos para seu ofício. Nada mais que provocação: “Os Mercenários 2” é um dos melhores e mais divertidos filmes de ação dos últimos tempos e seus protagonistas, astros inquestionáveis do gênero.

É nesse sentido –no do segundo exemplar ter resultado tão memorável –que o terceiro filme acaba sendo uma curva descendente.
Os produtores julgaram que chamando um diretor mais jovem –Patrick Hughes, da comédia adolescente “Imaginem Só” e o faroeste contemporâneo “Busca Sangrenta” –a energia e o frescor da produção se manteria. Contudo, “Os Mercenários 3”, se não chega a ser de qualidade duvidosa como o primeiro filme (que beneficiou-se, sobretudo, da novidade) também passa longe do equilíbrio e do ajuste acertado do segundo.
Os acréscimos ao elenco (fatores que passaram assim a definir a série) foram Wesley Snipes (chapa de Stallone desde que fizeram “O Demolidor”), Antonio Banderas (chapa de Stallone desde que fizeram “Assassinos”), Kelsey Grammer (o Fera de “X-Men O Confronto Final”), novo gerente de missões e Harrison Ford, além do vilão interpretado com fleuma e vigor por Mel Gibson. Por outro lado, o filme não conta com Terry Crews (reduzido à uma participação ínfima), Chuck Norris e Bruce Willis (esses nem sequer aparecem).
Há também outro grupo, de integrantes jovens que estão lá mais para atender aos propósitos da trama.
No encalço de Conrad Stonebanks (Gibson), um adversário que ajudou a fundar o grupo dos ‘expendables’, Barney se depara com a necessidade de recrutar integrantes mais novos diante da ineficácia de seus velhos companheiros. Esses novos mercenários são John Smilee (Kellan Lutz), Thorn (Glen Powell, de “Estrelas Além do Tempo”), Marte (Victor Ortiz) e a durona Luna (Ronda Rousey, ex-lutadora de MMA), além do personagem de Banderas, um histriônico alívio cômico.
É previsível ao extremo o fato de que o jovem grupo falhará miseravelmente, virando reféns do próprio vilão, fazendo com que o grupo da velha guarda retorne para salvar a situação –e nisso a direção de Patrick Hughes encontra suas grandes fraquezas. Ele simplesmente não se satisfaz em realizar um filme digno de ação amparado nas presenças icônicas de que dispõe. Quer porque quer preencher suas entrelinhas de significado e com isso espalha sequências vazias e desanimadoras por todo o filme; como por exemplo o aproveitamento nada criativo do personagem de Schwarzenegger convertido numa espécie de ‘voz da consciência’ do personagem Barney, de Stallone, aparecendo em momentos pontuais sem nunca ter relevância de fato, e esse problema se estende tanto ao personagem de Harrison Ford (um coadjuvante sem o brilho e sem a razão de ser que um astro merecia) quanto ao de Wesley Snipes (que, salvo a cena de abre o filme, passa todo o resto da trama sem qualquer serventia).
Composta por dois filmes medianos e apenas um verdadeiramente empolgante, a “Trilogia dos Mercenários” ocupa um lugar especial na memória afetiva de seus fãs mais pelo apelo no conceito em ver reunidos em cena diversos ícones vivos do gênero pancadaria, do que por sua execução final.
E tal é o seu apreço que até hoje alimentam expectativas para uma vindoura “Parte 4”.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

1941 - Uma Guerra Muito Louca


Antes de tornar-se o Midas de Hollywood, Spielberg era um diretor extraordinariamente promissor. Mais do que isso: Era quase um gênio em formação, uma vez que ele já havia entregue obras de qualidade sem igual como “Tubarão” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”.
Como o esperado, Spielberg aproveitou as portas que se abriram para experimentar outros gêneros, como a comédia.
E muitos são os cineastas que podem afirmar ser esse um dos mais difíceis gêneros de se trabalhar: Humor é algo muito mais particular do que, por exemplo, o medo –sentimento trabalhado de modo sempre recorrente no terror –o humor funciona de maneira distinta em cada pessoa, e com isso as circunstâncias e o contexto de um filme de comédia se tornam muito relativos. Isso talvez explique porque “1941” não funcionou na época de seu lançamento e hoje seja uma comédia até bastante satisfatória; além do fato de que a qualidade das comédias de hoje se vulgarizou a ponto de olharmos com outros olhos os bons e incompreendidos exemplares do passado.
Há quem diga (não sem uma certa razão) que um dos erros de Spielberg foi fazer uma comédia ambientada num episódio da Segunda Guerra Mundial ainda visto com alguma amargura pelo subconsciente norte-americano: O ataque à base de Pearl Harbor.
Por conseqüência, crítica e público enxergaram no filme um deboche inapropriado. Não é bem assim: O humor de Spielberg é bem mais ingênuo, inofensivo, e seu filme guarda elementos que o aproximam das comédias físicas de Buster Keaton e Charles Chaplin, ou mesmo das peripécias de inevitável apelo visual dos desenhos animados.
Após a base aérea de Pearl Harbor tornar-se palco de um ataque difundido aos quatro ventos pelos EUA, a Costa da Califórnia se vê tomada de uma preocupação generalizada –pode, afinal, lá ser um dos próximos alvos dos imprevisíveis inimigos.
Dessa forma, diversas situações são flagradas com galhofa e leveza, bem como personagens cheios de ingenuidade que dividem-se entre os desastrados (John Belushi e Dan Aykroyd, os mesmo de “Irmãos Cara-de-Pau”, vivendo respectivamente um piloto e o sargento de um tanque, que nunca se encontram em cena), os apaixonados, os divertidos e os quase inofensivos vilões (como o personagem de Treat Williams, cuja petulância lembra quase o Brutus de “O Marinheiro Popeye”).
Nesse cenário –e com uma cena de abertura que Spielberg usa para parodiar de forma hilária o seu “Tubarão” –surge um submarino japonês, capitaneado por um oficial nipônico e outro alemão (Toshiro Mifune e Christopher Lee, participações especialíssimas) que ronda as águas de região e não tardará a causar grandes confusões.
Deliberadamente desprovido da contundência de “M.A.S.H.”, Spielberg optou nesta primeira comédia de sua carreira (um gênero que mesmo anos depois permanece raro em sua filmografia) por uma abordagem amena, essencialmente divertida e sem segundas intenções.
Para público e crítica de então, talvez, tenha sido esse seu erro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Spun - Sem Limites


O cinema independente, com o tempo, adquiriu seu próprio verniz da realidade nua e crua. Os grandes responsáveis por isso talvez tenham sido Armone Corinne e Larry Clark e suas obras como “Kids” e “Gummo” em meados dos anos 1990.
Esse tipo de cinema não se pretende tão realista assim quanto na verdade escandaloso, controverso e estiloso. Uma cosmetização da realidade que um cinema idealmente transgressivo (mas, no fim, longe da realidade de fato) faz: “Spun”, estréia em longas-metragens do videoclipeiro Jonas Akerlund segue esta e inúmeras outras vertentes estéticas e artísticas.
Como os filmes sobre vícios e viciados aos quais deseja ardentemente se irmanar –e, nesse sentido, as similaridades narrativas a obras infinitamente mais antológicas e bem resolvidas como “Trainspotting” e “Réquiem Para Um Sonho” não são mera coincidência.
Com efeito, “Spun” é (ou assim se pretende ser) um filme sobre o submundo, sobre drogados e sobre as órbitas alucinadas e constantes de suas vidas.
A iniciar este redemoinho de percepções e confusões temos Ross (Jason Schartzman), um rapaz em busca de seu alívio na forma de droga. A desorganização de seu fornecedor habitual (John Leguizano) o leva a comprar droga de outro vendedor (Mickey Rourke) levando-o a conhecer, no processo, sua dondoca namoradinha (a falecida Brittany Murphy).
Os personagens cheiram carreiras de cocaína e seu comportamento oscila entre o psicótico, o bipolar e o esquizofrênico –e, não só a narrativa de Akerlund parece deslumbrar-se com isso, como logo absorve por inteiro essas características, galvanizando um ritmo modorrento, histérico e febril, pontuado por inserções redundantes de takes infindáveis determinando sem muito critério as ações prolixas dos personagens.
É o estilo sobre o conteúdo levado a um extremo quase insuportável.
Não há, por assim dizer, uma história, mas uma sucessão de acontecimentos que têm por fio condutor o personagem de Schartzman –o quê a equivocada narrativa de Akerlund parece interpretar por protagonista: Entre suas caronas para Nikki (a personagem de Brittany Murphy) e seu namorado (Rourke, numa série de monólogos completamente desvairados), ele se divide entre o interlúdio sexual e insensível com April (que ele esquece nua e algemada na cama do próprio quarto!) e a procura ingrata e desencantada pela ex Amy (que sempre se mostra ausente).
São personagens que vão e vêem (além dos já citados, há os de Mena Suvari, Patrick Fugit, Peter Stormare e outros), com aleatoriedade desconcertante –e a nenhum deles é negado um desfecho tragicômico, por assim dizer.
Na pouca profundidade que confere a sua dramaturgia (se é que há uma), e na inexistente elaboração que dá ao seu humor, o filme não se categoriza em gênero nenhum, seja comédia, seja drama, ou qualquer outra coisa –e esse é só um dos inúmeros lapsos da direção de Jonas Akerlund.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Corpos Ardentes

Existem diversos elementos na premissa de “Corpos Ardentes” que o relacionam ao gênero do filme noir em geral, e à “Pacto de Sangue”, de Billy Wilder, em particular –a ponto de parte da crítica apontá-lo como uma refilmagem, embora ele não necessariamente o seja.
Indo de encontro ao clima monocromático e gélido dos filmes noir do passado, a obra se ambienta em uma abafada e escaldante cidadezinha da Flórida –a encenação do diretor Lawrence Kasdan não poupa recursos (filtros de câmera alaranjados, suor constante) para sugerir a onda de calor extremo que aflige os personagens.
Seu protagonista, o desleixado e pouco interessado Ned Racine (William Hurt) é um advogado cujas aspirações não encontram ali maior ânimo –ganhar uma ou outra causa no tribunal local e transar casualmente com garçonetes e enfermeiras parece lhe bastar.
Uma noite, contudo, ele conhece uma dessas mulheres capazes de abalar a rotina de qualquer homem: a fulgurante Matty Walker que, vivida por Kathleen Turner, é uma femme fatale com todas as letras –a química entre Turner e Hurt é tão pontual e precisa que o próprio Kasdan tornou a usá-los, anos depois, como par central num outro filme completamente diferente, o intimista “O Turista Acidental”.
Oferecendo uma resistência na medida certa para tornar os avanços de Ned ainda mais inevitáveis, Matty se torna sua amante; às escondidas, diga-se, pois ela é casada.
Logo, as descrições de Matty de sua vida conjugal incitam Ned a planejar a morte do marido dela (interpretado por Richard Crenna, de “Rambo”).
Ned elabora o que considera ser um crime perfeito onde todas as peças estão devidamente plantadas para fazer parecer que o assassinato foi, em verdade, um acidente –ou, em última instância, um crime que nem ele, nem Matty cometeram –e para que a esposa, agora viúva, herde toda a herança do falecido; o quê garantirá aos amantes a boa vida com a qual sonharam.
Todavia, a execução do plano já apresenta perigos (o marido tinha arma em casa e eles não sabiam), detalhes inesperados (os óculos dele, que se extraviam e que contêm as impressões digitais de Ned) e outros desdobramentos que, nos dias tensos que se seguem, parecem apertar o cerco em torno de Ned que se vale da amizade com o promotor fã de Fred Astaire, Peter Lowenstein (Ted Danson) e com o policial honesto Oscar Grace (J.A. Preston) para estar desinteressadamente próximo das investigações –e ter assim oportunidade se desvencilhar de sua iminente culpa.
Entretanto, uma vez praticado o assassinato as coisas não irão facilitar para Ned, especialmente quando ficar claro, aos poucos, que ele é só mais uma engrenagem num plano individual elaborado pela própria Matty; plano no qual ele, em seu desenlace, não parece estar incluído.
Com efeito, tal e qual realizadores como Dennis Hopper (“Hot Spot-Um Lugar Muito Quente”) e os Irmãos Coen (“Gosto de Sangue”) naqueles idos, Lawrence Kasdan (mais conhecido pelo roteiro de “O Império Contra-Ataca”, aqui estreando na direção) promove uma modernização do gênero em plenos anos 1980, fazendo com que as características –antes sugestivas –de lascívia e sedução, com a audácia conquistada pelos novos tempos, se façam mais explícitas, o quê paradoxalmente torna este trabalho nem tanto um noir moderno (embora ele, por méritos, também o seja), mas um dos primeiros (e, sejamos justos, melhores) exemplares do ‘thriller erótico’ –e, nesse sentido, a estréia no cinema de Kathleen Turner é, no mínimo, audaz e corajosa, uma vez que ela encara cenas tórridas de nudez e sexo!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Sin City - A Dama Fatal

Durante muito tempo o público se perguntou quando o diretor Robert Rodrigues iria enfim revisitar o mundo noir criado por Frank Miller nos quadrinhos e vertido por ele num belíssimo filme, visual e narrativamente falando, que pegou muita gente desprevenida em um já longínquo 2005.
A resposta, um bocado tardia, veio em 2014 com o lançamento de “Sin City-A Dama Fatal”. Mais do que perder o timing de uma continuação que todos aguardavam, o filme pareceu ter perdido o brilho que a primeira produção ostentava com tanto fulgor. Uma das razões era possivelmente o fato de Rodrigues deixar que Frank Miller produzisse material original para o novo filme. Se na obra anterior, Rodrigues foi cirúrgico na seleção de contos dispersos nos quadrinhos que representavam o melhor de toda a criação de Miller, neste ele contentou-se com uma das grandes histórias do selo “Sin City” –no caso, “A Dama Fatal” que dá nome ao filme –(e mesmo assim realizada com pouco empenho) e dois outros contos menores, nitidamente concebidos por um Frank Miller já distante de seu auge criativo.
Na primeira história, o ex-detetive Dwight (vivido por Clive Owen no filme anterior e por Josh Brolin, neste daqui) se vê enredado numa trama de traição e morte elaborada por uma autêntica femme fatalle: A irresistível e sensual Ava (a francesa Eva Green, ocasionalmente nua num papel durante muito tempo relacionado à Angelina Jolie) que, ao seduzi-lo, o conduzirá ao assassinato de seu marido, colocando-o da mira da polícia.
O problema do filme de Rodrigues já começa quando percebemos que nem mesmo a história principal consegue funcionar a contento como nas HQs: As frases feitas, costumeiras nos roteiros de Miller, se sucedem com exagero e desleixo e as cenas transcorrem repetitivas e sem inspiração.
Já não há muito ânimo, portanto, quando chegamos na segunda história, e passamos a acompanhar as desventuras de um jovem golpista (Joseph Gordon-Levitt, que até se esforça, mas não tem um personagem bom o suficiente) tentando acertar as contas com seu verdadeiro pai, o corrupto e amoral senador Roark (Powers Booth, oriundo do filme original).
O pior de tudo, porém, é quando finalmente chegamos na terceira trama e o novo filme de Rodrigues e Miller vai além do simples pecado de ser um filme ruim e consegue realizar algo imperdoável: Manchar o ótimo filme original!
O mesmo senador Roark, na última parte, é alvo da vingança da bela stripper Nancy (Jessica Alba, bela e fraquinha como sempre), que não consegue se esquecer dos desdobramentos ocorridos no ótimo episódio do filme anterior no qual ela era uma das protagonistas, e que graças a Roark, levaram a morte do homem que ela amava, o ex-policial Harttigan (Bruce Willis, reaparecendo aqui numa patética versão “Gasparzinho-O Fantasminha Camarada” de seu personagem).
Nada em “Sin City-A Dama Fatal” remete ao ímpeto inventivo que definia “Sin City-A Cidade do Pecado”, nem mesmo o irrelevante reaproveitamento do personagem Marv (vivido por Mickey Rourke) que aqui se oferece como ajudante, de forma banal, para os protagonistas de cada um dos episódios, ou as substituições por outros intérpretes de personagens que funcionaram muito bem antes e aqui soam tediosos e desinteressantes –além de Brolin substituindo Owen, no papel do capanga Mamute, antes do saudoso e fantástico Michael Clarke Duncan, entrou o pouco carismático Dennis Haysbert (das primeiras temporadas da série “24 Horas”), e tomando o lugar de Devon Aoki como a hábil assassina Miho, ficou a mais bela, porém menos adequada Jamie Chung (de “Sucker Punch-Mundo Surreal”).
O visual acachapante em preto & branco e as intenções do primeiro filme continuavam lá, mas faltou brilhantismo narrativo para equiparar sua audaz qualidade cinematográfica.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Imortais

Se existe algo que não deve ser levado em conta no cinema comercial atual –em especial o norte-americano –são as verdades históricas dos roteiros inspirados nas mitologias antigas.
Tomemos como exemplo este acelerado e visualmente funcional “Imortais”: Toda sua trama é uma distorção grotesca da mitologia grega e não corresponde a quase nada do que é ensinado nas salas de aula.
Como entretenimento, porém, o trabalho do diretor indiano Tarsem Singh Dhandwar (artesão de filmes díspares como o terror “A Cela” e o infantil “Espelho, Espelho Meu”, cujo único ponto em comum é o esmero visual) esforça-se em ser vibrante e, no que tange ao frenesi de suas cenas de ação e ao clima convencional de um grande embate do bem contra mal, até que consegue.
Vitoriosos de um confronto há muito tempo travado contra os titãs, os deuses agora obedecem uma lei que os impede de interferir no destino dos homens. Assistem, portanto, incapazes ao plano em curso do colérico rei Hipérion (Mickey Rourke), antagonista de uma amargura abissal que, indignado com os deuses, deseja libertar os titãs de sua prisão nas profundezas do Monte Tártaro, para que dêem continuidade a sua guerra. Mas os planos de Zeus (Luke Evans), o deus maior, envolvem o jovem camponês bastardo e desacreditado Teseu (Henry Cavill), que ao lado de uma linda oráculo (Freida Pinto, de "Quem Quer Ser Um Milionário"), um monge sem língua e dois ladrões foragidos, deve conduzir o exército dos heleníacos até o Monte Tártaro onde poderão tentar deter Hipérion e suas tropas.
O filme tem uma maneira muito inventiva de contornar a limitação orçamentária, valendo-se de concepções visuais inusitadas e inesperadas (e francamente funcionais). Sua grande fraqueza reside mesmo em seu roteiro, não somente rudimentar como equivocado e esquemático, e na insuficiência no tratamento de seqüências-chaves: O discurso final de Teseu em direção à guerra é simplesmente constrangedor!
Apesar das grandes liberdades poéticas em relação a mitologia grega o filme, que possui uma forte influência visual de "300", de Zack Snyder, resulta melhor que "Fúria de Titãs", de Louis Leterrier –a produção que, talvez, tenha iniciado essa reciclagem de mitologias –embora todos esses projetos tenham partido mesmo do sensacional “Fúria de Titãs” dos anos 1980.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Domino - A Caçadora de Recompensas

O grupo de realizadores reunido em torno de “Domino” é dos mais inusitados e curiosos: Além do falecido diretor Tony Scott –cuja eclética carreira reúne filmes de vampiro (“Fome de Viver”), aventuras oitentistas clássicas (“Top Gun”) e infindáveis colaborações com Denzel Washington (“Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança”, “De Já Vu”, “Incontrolável” e outros) –temos também, o roteirista Richard Kelly, autor e diretor de “Donnie Darko”, um dos mais desafiadores filmes dos anos 2000, e a inquieta inglesinha Keira Knightley, atriz que, apesar da aparência bela e delicada, se identifica bastante com a personagem real Domino Harvey, filha do ator Lawrence Harvey; e que, à propósito, faleceu em meio às filmagnes desta produção.
Filha de uma celebridade, Domino estudou nos melhores colégios e teve a melhor educação que uma menina de classe alta poderia receber. Contudo, isso não deteve seu espírito rebelde que fez com que ela fosse expulsa de todas as escolas por onde passou. Quando já tinha idade adulta, Domino encontrou, por acaso, a única atividade para a qual sentia-se perfeita: A de caçadora de recompensas! Ao lado de sua equipe, o experiente e calejado Ed (Mickey Rourke), e o temperamental Choco (Edgar Ramirez), ela se tornou uma lenda entre os profissionais do ramo.
Por meio de flashbacks, inserções narrativas, momentos de delírio, cenas justapostas de efeito irônico e inúmeros outros recursos usados por Scott (num de seus filmes mais desiguais), enxergamos toda essa trajetória sob o prisma de uma de suas missões mais arriscadas e mirabolantes: A captura de um fugitivo legal que, graças à ramificações que se estenderam a uma dezena de personagens envolvidos, terminou num explosivo banho de sangue numa das torres mais altas de Las Vegas, de propriedade de um mafioso.
Esquia, ainda que um bocado sensual e bela, Keira Knightley se entrega com garra ao papel de Domino, que exige dela, inclusive breves cenas eróticas –no que parece ser um esforço para afastar-se dos papéis de mocinha com o qual iniciou seu estrelato, como em “Piratas do Caribe” e “Orgulho e Preconceito”.
Não obstante sua base numa história real, este filme toma uma quantidade tal de ‘liberdades poéticas’ que o resultado termina sendo uma aventura quase descerebrada, ocasionada por francos absurdos, reviravoltas deliberadamente dramáticas e acarinhada por lampejos de realidade.
Devido, em grande parte à natureza audaciosa da equipe aqui reunida, o filme do diretor Tony Scott não parece querer ser uma biografia no sentido convencional do termo e o roteiro fragmentado de Kelly (sem dúvida mais contido que em "Donnie Darko", mas ainda assim cheio de elementos absurdos e de desordem narrativa) por vezes brinca com o realismo (ou falta de) da sua história.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Horas de Desespero

Em contraponto ao filme de 1955, de William Wyller, esta refilmagem carrega nas tintas habituais com que Michael Cimino costuma trabalhar: A tensão e a violência em níveis humanamente insuportáveis –talvez, o único cineasta do mesmo período capaz de trabalhar tais mazelas com esse mesmo senso analítico somado a um quase fetiche autoral seja o polêmico Oliver Stone.
“Horas de Desespero” abre com as cenas magnificamente panorâmicas de um carro em disparada, diminuto em meio às grandes montanhas. Lembra muito o famigerado “O Portal do Paraíso”, do mesmo Cimino, na grandiosidade de imagens que evoca, mas é, acima de tudo, uma oposição ao que virá mais tarde: A confinação tensa e alarmante entre quatro paredes, onde os personagens experimentarão a degradação física e emocional de uma situação-limite até o fim.
De altíssima periculosidade, o criminoso Michael Bosworth (Mickey Rourke, sempre formando com Cimino uma dupla matadora) está prestes a escapar de trás das grades no dia de seu julgamento. Sua cúmplice, para tanto, é a advogada Nancy Breyers (Kelly Lynch, uma das mulheres mais deliciosas dos anos 1980 e 90) que dele se enamorou –é ela quem aparece dirigindo o carro no início, plantado num lugar longínquo para uma apropriada fuga em quatro rodas.
Corta para uma mansão nas imediações da classe alta de Salt Lake City. Os Cornell são uma família tentando administrar uma crise: Tim, o marido (Anthony Hopkins, pouco antes da aclamação por “Silêncio dos Inocentes”) e Nora, a esposa (Mimi Rogers) estão prestes a se divorciar. Diante disso, seus filhos, a adolescente May (Shauwnee Smith) e o pequeno Zack (Danny Gerard) alternam rebeldia com indiferença.
Cimino não faz a menor questão de esconder o fato de que, em algum momento, essas duas linhas narrativas irão se encontrar: Michael é conhecido por sitiar mansões e fazer de reféns os moradores que encontra lá dentro. E enquanto aguarda o contato relutante de Nancy, é exatamente isso que ele faz com os Cornell, com a ajuda de dois comparsas, seu irmão Wally (Elias Koteas) e o obtuso e potencialmente violento Albert (David Morse).
Existe muito cinema nesta obra de Cimino: Seu filme é um lembrete constante das nuances dúbias do film noir –a personagem Nancy, uma femme fatale imersa em perplexidade, dividida entre a paixão e o medo no flerte com o perigo, sendo nesse aspecto, o exemplo mais notável –e as referências a Alfred Hitchcock –a trilha de David Mansfield, e seus rompantes agudos são um testemunho à precisão de Bernard Herrmann, assim como a fotografia de Doug Milsome busca, nas ocasionais cenas de deserto, um resgate de “Intriga Internacional” à memória –se sobressaem com bastante ênfase.
Entretanto, é o cinema do próprio Cimino que tem a mais forte ressonância. Ele toma emprestada a angústia de cada um de seus trabalhos ao detalhar Tim, o dono da casa invadida, como um veterano do Vietnam, irmanando-o então ao Michael Vronsky de “O Franco Atirador” e ao Stanley White de “O Ano do Dragão” (interpretado, veja só, pelo próprio Mickey Rourke). Como todos eles, Tim Cornell é o ex-combatente encontrando, não na guerra, mas no cerne da sociedade americana a que pertence o verdadeiro gatilho para seu tormento.
Pontuado por exageros que revelam-se bem típicos do produtor Dino De Laurentis (com quem Cimino já havia feito “O Ano do Dragão” e aparentemente havia tido uma boa relação profissional), “Horas de Desespero” passa longe de ser o melhor trabalho do diretor: Sua encenação é ocasionada por relapsos inacreditáveis e suas soluções passam longe de qualquer sutileza. Mesmo quando elas têm alguma engenhosidade –como a esperta manobra de Tim para ludibriar Michael no desfecho –a condução não lhes privilegia o brilho.
No entanto, ainda está lá, na alegórica cena final, a razão para ser este um projeto de Michael Cimino, afinal; finda a terrível experiência pela qual tiveram que atravessar, os Cornell dão as costas aos alvoroçados e ineficazes agentes do FBI e o próprio retrato do alarmismo e da paranóia na sociedade norte-americana feito por Cimino e  terminam se fechando no sentimento que parece mais fazer sentido, ao realizador, nos homens de boa vontade: A resignação.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Coração Satânico

A lista dos filmes genuinamente assustadores do gênero terror é limitada. Quando perguntamos a alguém quais os mais assustadores filmes de todos os tempos, os títulos tendem a ser os mesmos: “O Exorcista”, “O Iluminado”, talvez “O Bebê de Rosemary” se a pessoa tiver boa memória, talvez “A Profecia”, conforme o gosto pessoal.
Alguns de paladar mais específicos irão lembrar de filmes mais cults e obscuros, como “Evil Dead” ou “Hellraiser”. É curioso que, dentre todos esses filmes, seja pouco lembrado sensacional e francamente amedrontador “Coração Satânico”.
Uma prova de que o diretor Alan Parker foi capaz de passear por inúmeros gêneros, e dentro deles, urgir obras sempre pertinentes –ainda que, hoje em dia, ele não entregue nada relevante a algum tempo.
O filme acompanha a via-crusis de um detetive, Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, então no auge do sucesso que seu talento e boa pinta lhe proporcionou nos anos 1980. Ele recebe um caso no qual tem de encontrar o paradeiro de um certo Johnny Favorite, um ex-combatente da guerra que simplesmente evaporou.
Seu cliente é alguém ardiloso e cheio de segundas intenções, Louis Cypher (personificado com prontidão maligna por Robert De Niro) por meio de quem, dependendo da atenção do expectador, é até possível antecipar a grande revelação-surpresa da trama.
Mas, não o seu impacto.
Isso porque a investigação levada por Angel, e conduzida pela narrativa poderosa, esmagadoramente expressionista e inquietante de Alan Parker, tem até alguns elementos do film noir, mas se ampara quase que totalmente nas características do mais alarmante dos filmes de terror: A medida que vai descobrindo os passos do homem desaparecido, o detetive adentra um mundo perturbador de rituais macabros, seres sinistros e sombras preocupantes, enquanto novos crimes começam a se suceder, e ele é confrontado com visões enigmáticas que aos poucos vão revelando uma verdade horripilante.
Tudo culmina no terrível instante final do filme, quando as inúmeras pontas soltas do roteiro (e que aparentavam ser apenas isso, pontas soltas!) convergem numa solução das mais corajosas para um filme produzido pelo cinema norte-americano e o diretor Parker nos deixa com um último e memorável take, tão aterrorizante que dificilmente tal imagem sairá de nossa memória. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sin City - A Cidade do Pecado

Por incrível que possa parecer, em 2005, ainda não se tinha aquela proliferação de adaptações de histórias em quadrinhos que vemos no circuito comercial de cinema atual –claro, haviam os filme do Batman (no caso, “Batman Begins”, primeiro filme da aclamada trilogia de Christopher Nolan, foi lançado naquele ano), haviam os filmes do Homem-Aranha (a primeira trilogia, de Sam Raimi, estava no segundo exemplar) e haviam os filmes dos X-Men (o terceiro, ainda com o elenco original e antes da reformulação em “Primeira Classe”, sairia só no ano seguinte), além de uma ou outra adaptação.
Ou seja, em 2005, além de não terem se consolidado como uma tendência do mercado, as adaptações de HQ, ainda tateavam em busca da linguagem ideal por meio da qual as narrativas da nona arte seriam transpostas para a sétima.
Êxito já tinha sido obtido, certamente, mas muita coisa ainda estaria por vir –a Marvel Studios só lançaria “Homem de Ferro” e iniciaria a construção de sua supremacia em 2008.
Nesse sentido –no de explorar possibilidades oferecidas nos quadrinhos que ampliassem a experiência cinematográfica em si –uma das mais notáveis produções a surgir em 2005 foi, sem sombra de dúvidas, “Sin City-A Cidade do Pecado”, de Robert Rodrigues e Frank Miller.
E não foi para menos...
A idéia no projeto de Rodrigues era adaptar três histórias extraídas da graphic-novel em preto e branco escrita e ilustrada por Frank Miller, uma coletânea de histórias de crime ao estilo pulp e noir, e que a despeito de serem quadrinhos, ignoravam os super-heróis.
Rodrigues foi ambicioso: Sua intenção era moldar uma adaptação absolutamente fiel em termos visuais e narrativos, capturando a opção estética das páginas (cujos desenhos apresentam um emprego ímpar do “chiaroscuro”). Era uma intenção de tal maneira definitiva que sequer há créditos, no filme, de montagem e direção de fotografia –em lugar disso, aparece nos créditos iniciais apenas “filmado e montado por Robert Rogrigues”.
Na primeira história, "Cidade do Pecado", o bruta-montes Marv (Mickey Rourke, fabuloso) jura vingança aos assassinos da única mulher na vida que teve coragem de fazer amor com ele, a enigmática garota de programa Goldie (a estonteante Jamie King).
Em seus percalços em busca dessa vingança –e de um mínimo de significado para o assassinato de Goldie –ele se depara com uma conspiração que envolve os políticos graúdos de Basin City, assim como um de seus mais respeitados sacerdotes e um jovem e estranho canibal. Isso tudo enquanto luta com os fantasmas ilusórios (e enganadores) de sua própria esquizofrenia.
Na segunda, "A Grande Matança", um mal-entendido protagonizado pelo foragido Dwight (Clive Owen), pela prostituta Gale (Rosário Dawson, vulcânica) e pela pequena ninja Miho (a ágil e surpreendente Devon Aoki) pode por em risco uma trégua milenar mantida entre os policiais e os moradores de um bairro chamado Cidade Velha.
Na terceira, "O Assassino Amarelo", acompanhamos o policial Hartigan (Bruce Willis, num papel perfeito para ele) que sacrifica sua vida, sua carreira e seu casamento para proteger a garotinha Nancy de um perverso assassino e maníaco sexual (Nick Stahl, fantástico) cujo fato de ser filho de um senador o torna blindado aos olhos da lei. Após tentar praticar justiça com as próprias mãos –e de amargar quinze anos na cadeia por isso –Hartigan deve encontrar Nancy (agora vivida pela bela Jéssica Alba) e salvá-la das garras desse psicopata.
Assim sendo, com essas três emblemáticas premissas (nada menos do que três contos extraídos da graphic-novel e escolhidos a dedo), Rodrigues concebeu essa transposição literal (em tom, enquadramento de câmera, e paleta de cores) do sensacional e inovador trabalho do quadrinista Frank Miller, que à propósito foi convidado a dividir com Rodrigues o crédito de direção: Mais uma prova do objetivo estóico de Rodrigues em manter-se completamente fiel à fonte de inspiração, uma postura em geral ignorada por outros realizadores.

Em tempo: Melhor amigo de Quentin Tarantino, Robert Rodrigues convidou-o para dirigir uma única cena do filme; trata-se da tensa, dúbia e surreal conversa banhada por luzes estroboscópicas entre Clive Owen e o personagem de Benicio Del Toro dentro de um carro em movimento.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

9 ½ Semanas de Amor

O roteirista Zalman King, após conceber este roteiro (cuja trama, simplista ao extremo, teve a sorte de encontrar o diretor Adrian Lyne, recém-saído da consagração de “Atração Fatal”), nunca mais livrou-se –ou, de repente, nunca teve a intenção de se livrar! –da pecha de “roteirista de filmes pornô soft”, aqueles filmes eróticos, mas que não chegam a extrapolar os limites da pornografia explícita.
De sua pena saíram roteiros (e não demorou muito para King tornar-se diretor deles também!) como “Orquídea Selvagem”, “Delta de Vênus” e até um desnecessário “9 ½ Semanas de Amor 2” –todos numa vertiginosa curva descendente de qualidade que os empurrava cada vez mais para o terreno do erotismo convencional.
Mas, “9 ½ Semanas de Amor” foi um fenômeno e tanto (e não há dúvidas de que isso se deve mais pela condução incomum do diretor Lyne, do que pelo roteiro redundante de King), numa época em que os cinemas não existiam em multiplex de shoppings centers e o circuito comercial trabalhava num ritmo diferente do que se faz hoje: Para se ter uma idéia, o filme ficou quatro anos (!), em cartaz num cinema em São Paulo; algo inconcebível mesmo para o maior dos sucessos de bilheteria dos tempos atuais.
O enredo deste filme inicia-se ao mostrar uma belíssima publicitária (Kim Basinger, assombrosamente bela) quando ela conhece um homem misterioso e enigmático (Mickey Rourke, já próximo do fim de sua fase como galã) iniciando com ele um romance. A história a dois que eles vivem tem natureza episódica: Muito do que assistimos são cenas –de sedução, em geral –embaladas numa estética ultra-estilizada que se sucedem uma a uma, sublinhando as características pouco usuais do romance que transcorre na tela, passando uma ligeira percepção de estranhamento, pontuada por uma indelével superficialidade, que pode ter contribuído para o enorme culto em torno da produção que se formou logo no fim dos anos 1980.
Ao longo das semanas em que os protagonistas vivem essa história de amor e sexo, a jovem não deixa de perceber estranhas "excentricidades" no comportamento do rapaz que, a despeito da tórrida relação que desenvolvem, acabam por separá-los.
Pode-se dizer que talvez este tenha sido um dos últimos filmes que causaram grande repercussão no final da década de 1980, justamente devido ao apelo oitentista que aqueles filmes traziam, com seu visual carregado de afetações tão típicas daquele período; sem contar a trama carregada por desvios de comportamento e aspectos de absurdo que soariam non-sense nos dias de hoje. Além dessas características deixadas pelo tempo a que pertenceu, este filme vem embalado numa exorbitante atmosfera extraída da publicidade (área de formação do diretor Adrian Lyne), salpicado pelas ocasionais e vistosas cenas de sexo –ainda que tímidas para os padrões mais atuais –e, em especial, conta com a presença magnética do "sex-simbol" Kim Basinger, cujo corpo e exuberância são magistralmente bem emoldurados pela iluminação criteriosa e pelo ambiente de extremo bom gosto elaborados pelo diretor.
Pode ser esse o segredo de seu sucesso, afinal: Apresentar as idiossincrasias mais constrangedoras e íntimas do sexo através de uma ótica de confortável júbilo visual.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Homem de Ferro 2

Em time que está ganhando, não se mexe, certo?
Com essa idéia em mente, a Marvel Studios, após o estrondoso sucesso de público e crítica de “Homem de Ferro” optou por lançar, dois anos depois, a continuação desse trabalho.
Alternativas não faltavam –na época, exceto pelo Incrível Hulk que ganhou uma nova versão com Edward Norton em 2008, nem Capitão América, nem Thor tinham seus próprios filmes –mas, a Marvel resolveu não arriscar e chamou mais uma vez Jon Favreau para a direção. Liderando o elenco, retornava Robert Downey Jr. garantindo ao filme sua interpretação irrepreensível como o protagonista Tony Stark.
Uma curiosidade: O intérprete de James Rhodes do filme anterior, Terence Howard, não voltou para a seqüência, e em seu lugar foi chamado o ótimo Don Cheaddle que assumiu o personagem e, até o momento, já viveu Rhodes em quatro filmes.
Após ter revelado sua identidade secreta como Homem de Ferro no final do filme anterior, o milionário Tony Stark enfrenta diversos tipos de pressões: Alçado à condição de celebridade ele é pressionado pelo governo à compartilhar a arrojada tecnologia da armadura, no que são apoiados pelo melhor amigo de Stark, o Coronel James Rodhes; ao mesmo tempo, seu ferimento no coração, herdado do ataque do primeiro filme requer uma fonte de energia constante para não matá-lo.
Enquanto isso, um rancoroso inimigo nutre planos de vingança contra o Homem de Ferro: ele é Ivan Danko (Mickey Rourke, uma presença luxuosa), cientista russo que, aliado ao inescrupuloso empresário Justin Hammer (Sam Rockwell), planeja recriar a armadura usando-a para o mal.
Fica perceptível, em muitos momentos, um relativo cansaço do diretor Favreau, pelo fato de estar mais uma vez lidando com os mesmos elementos que tão bem empregou no primeiro filme: Muitas cenas soam quase como uma repetição disfarçada de algo que ele já havia feito antes, embora não faltem momentos bastante divertidos a este trabalho, amparado num roteiro ocasionalmente cômico de Justin Theroux –com quem Downey Jr. havia trabalho em “Trovão Tropical”. Mais do que dar uma continuidade de fato à história de Tony Stark, este filme tem por objetivo, enquanto narrativa, estender os detalhes acerca do Universo Marvel. Para tanto, sua riqueza de detalhes diversas vezes relega a trama a um segundo plano –o quê é fonte de críticas para este filme em especial até hoje –enquanto exibe um gancho explícito para o vindouro filme do Thor (habilmente retomado nessa produção) na forma do personagem do Agente Coulson (Clark Gregg), bem como a aparição bem mais estendida e intensa de Nick Fury (Samuel L. Jackson, que no filme anterior surgiu somente numa cena pós-créditos) e, sobretudo, a esplêndida presença da Viúva Negra (Scarlet Johansson).

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O Portal do Paraíso

O sonho da Nova Hollywood, no qual diretores essencialmente autorais adquiriram liberdade para moldar projetos comerciais a seu bel-prazer, durou até o início da década de 1980, quando Michael Cimino expressou sua intenção de realizar um poderoso faroeste revisionista com pretensões não só de rever paradigmas do próprio gênero, como também de firmar-se como uma obra de alcance técnico e logístico sem igual.
Sobre muitos aspectos, Cimino alcançou tal objetivo ainda que a repercussão negativa atroz de todo o fracasso comercial decorrido de sua iniciativa tenha tirado as atenções da qualidade do filme.
Mas, vamos analisar essa questão com mais calma.
A partir de um roteiro de sua própria autoria (forma como estava habituado a trabalhar, vide o oscarizado “O Franco Atirador”), Cimino obteve um orçamento volumoso da United Artists para tocar um projeto que prometia ser um dos grandes filmes do cinema. Mas, seu orçamento revelou-se insuficiente a medida que as gravações –repletas de contratempos e movidas com irrestrita personalidade por Cimino –foram avançando: Cenários caríssimos eram construídos e reconstruídos; cenas eram rodadas exaustivamente pela equipe técnica até que seu exigente diretor se desse por satisfeito; o clima oscilante do estado do Wyoming, onde foram feitas as gravações dificultava a já difícil tarefa de realizar o filme; e o prazo para a entrega do filme ia sendo esticado a medida que as complicações se somavam.
As filmagens só não foram encerradas porque Cimino e seu material gozavam de assombrosa confiança da parte de seus produtores e investidores –fruto justamente da mentalidade produtiva da Nova Hollywood que predominava da época.
Quando finalmente foi lançado, “O Portal do Paraíso” pegou todos de surpresa revelando-se um frustrante fracasso de bilheteria: O público não parecia disposto a comprar uma obra que voltava um olhar amargo para os desbravadores do Velho Oeste enquanto ratificava toda a dor e os revezes opressores à que foram expostos, ainda que isso se desse por meio de um trabalho de inquestionável brilhantismo cinematográfico.
1890. Tornado xerife de um vilarejo composto por imigrantes, o outrora fidalgo James Averill (Kris Kristoferson) busca proteger os habitantes desamparados de uma inevitável chacina quando uma lista de morte incluindo quase todos eles vai parar nas mãos de um grupo de assassinos de aluguel a mando de ricos proprietários de gado, ao mesmo tempo em que se envolve num triângulo amoroso com a prostituta Ella (Isabelle Huppert, linda) e o matador e arrivista Nathan Champion (Christopher Walken).
Tentando contornar a repercussão do problema, os produtores infligiram cortes que diminuíram a metragem do filme (supostamente para torná-lo mais viável comercialmente já que suas três horas de duração reduziam o número de exibições nos cinemas por dia) e tornaram o roteiro épico de Cimino, carregado de audaciosas considerações políticas, uma sucessão de incoerências.
O resultado levou à falência da United Artists (que não arrecadou nem uma fração do orçamento gigantesco gasto com o filme) e sua compra pela MGM.
Em seu filme seguinte (o espetacular “O Ano do Dragão”), Cimino já não tinha a mesma liberdade: O projeto foi conduzido com mão-de-ferro e atenção canina da parte de seu produtor, Dino De Laurentis, para com os possíveis excessos de seu realizador, numa prática que terminou encerrando o movimento da Nova Hollywood e definiu o sistema com que os estúdios lidariam com seus autores a partir dali.
O quê sobra em “O Portal do Paraíso” hoje, quando toda a comoção em torno de suas catastróficas conseqüências já foram devidamente digeridas, é um trabalho impressionante, dono de um estilo visual e narrativo que somente um mestre indomado e incorrigível como Cimino se atreveria a materializar na tela.

Anjo do Desejo

Existem filmes tão equivocados em sua proposta que é difícil determinar o quê pretendiam dizer, ou o quê, no fim das contas, são.
Este conto algo lisérgico sobre decadência parece ensaiar uma tentativa de ser um drama, uma referência tênue, gaiata e muito hesitante à “Monstros”, de Todd Browning, arrisca virar uma história de amor, mas esbarra na falta de química atroz do par central, e acaba encerrando-se num final circular que, embora até interessante, nada acrescenta ao todo.
O problema talvez seja –como veremos mais adiante –os três principais nomes envolvidos na produção: O ator Mickey Rourke (que à despeito de seu talento, aqui mostra-se completamente perdido), a atriz Megan Fox e o diretor Micht Glazer, que trabalha num roteiro de sua própria autoria.
Mickey Rourke é Nate Poole, um trompetista que vive à duras penas nas empoeiradas cidades do meio-oeste americano, vivem de tocar em espeluncas e boates de strip-tease. Logo no início ele é abordado por um matador contratado que o leva para o deserto a fim de executá-lo por ter mexido com a mulher errada. E nessas primeiras cenas já se percebe a incapacidade do diretor em dar qualquer fôlego narrativa à elas.
Poole é salvo, sem maiores explicações, por atiradores índios vestidos de branco (!) e, a partir daí, caminha a esmo pelo deserto, terminando por deparar-se com um circo de aberrações.
É curioso notar que, embora o roteiro pertença ao diretor, ele não soube enfatizar o aspecto absurdo e surreal que pulsa de sua trama, e optou por uma condução que soa desanimada e desanimadora o tempo todo.
Por isso, já não nos importamos muito quando o personagem de Rourke encontra Lilly (Megan Fox, ratificando sua incapacidade como atriz), uma bela jovem que, sabe-se lá como, possui duas asas nas costas (como um anjo), e que por isso é a atração principal do lugar. Poole a convence a fugir dali com ele e, embora haja uma conexão amorosa que se consuma, ele a sua como moeda de troca numa negociação que envolve o gangster que havia encomendado sua morte (Bill Murray, graças à Deus uma coisa que presta neste filme!).
Assim, além da pretensão em carregar seus personagens (sobretudo o protagonista) em tintas ambíguas, que terminam apenas lhe conferindo uma prejudicial apatia, a produção não diz a que veio, seja como romance, como suspense, drama alegórico ou qualquer coisa que seja.
Mickey Rourke e Megan Fox estão tão ruins em cena que parecem competir quem tem o rosto de botox mais inexpressivo (acho que é Mickey Rourke!) e, como eles são os protagonistas, isso corresponde a noventa e cinco por cento de todo o filme!!!

O desfecho (quando surge uma cena que revê seu prólogo e dá novo significado à trajetória da obra como um todo) poderia até valorizar o filme, se a mediocridade de tudo o que veio antes não tivesse estragado toda a receita.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O Ano do Dragão

A raiva é a força motriz que impulsiona os atos de muitos dos personagens de Michael Cimino. 
É a raiva que dá motivação aos tratados que norteiam toda a trama de “O Portal do Paraíso”, e é, sobretudo, a raiva que provoca o ímpeto para que o personagem de Robert De Niro, seguido pelos demais, consiga escapar de seus captores vietcongues em “O Franco Atirador”. 
Dentre todos eles, o mais emblemático para a própria postura que Cimino assume como realizador (especialmente no fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980, sua época mais prolífica) é o personagem de Mickey Rourke em “O Ano do Dragão”. Sua raiva é o que o define, é o que o conduz. Ela o levará a colidir com toda a máfia de Chinatown e seu esquema de distribuição de heroína. Ela é o seu cerne. 
Engana-se, porém, aquele que tiver o pensamento simplista de que é uma raiva que ele nutre contra o personagem de John Lone, o chefão por trás desse esquema. Ele é, sim, seu nêmesis, mas isso é um detalhe, afinal, esse papel seria exercido por qualquer um que ocupasse essa posição. A raiva do tira interpretado por Mickey Rourke é, na visão niilista, estilizada e persistente de Cimino, uma herança que ele carrega consigo desde antes de ser, primeiramente, um policial: Ela vem de suas experiências no Vietnam. 
E aí, estamos num terreno que parece familiar à Cimino novamente, as mazelas, muito mais espirituais do que físicas, que assolam o subconsciente norte-americano, sem as quais eles não possuem sua identidade, mas que ao mesmo tempo lhes desumaniza. 
Em “O Portal do Paraíso”, as vastas paisagens, plenas de liberdade, do oeste bravio passam despercebidas dos homens enferruscados, ocupados demais com sua richa, e sua obsessão em colonizar as terras ainda não desbravadas à custa de sangue e pólvora, num gesto que moldará a América. 
Em “O Franco Atirador”, essa mesma América redescobre a si mesma, numa geração que apesar dos ideais e da conscientização política, buscou justiça no Vietnam, para lá só encontrar traumas profundos que forçou-os a rever os conceitos de família. 
E em “O Ano do Dragão”, esse mesmo assunto do Vietnam, ao que parece ainda não resolvido por Cimino, retorna como a definitiva maldição de um policial americano (não só ele é veterano da guerra, mas, num acaso carregado de simbolismo, a própria origem da droga que movimenta toda a indústria ilegal que ele quer confrontar vem do Vietnam). 

Está aí, portanto, no próprio Michael Cimino, uma característica que define bem o quê é um autor: O contador de histórias indomado e habilidoso, que exorciza seus maiores demônios através de sua arte, e no processo, entrega grandes e memoráveis trabalhos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Lutador

Vislumbrando seu fim após um ataque cardíaco, lutador decadente busca juntar os cacos do que era então sua vida, o que inclui reaproximar-se de sua filha com quem mal tem contato. Há uma luta em seu passado que lhe deixou um assunto mal resolvido com outro lutador. A iminência do combate que se aproxima (e que pode custar lhe a vida), lhe dá uma esperança de redenção, bem como lhe dá coragem para tentar aproximar-se da stripper que lhe atende todas as noites. A única pessoa com quem de fato se relaciona.
A direção partilha conosco a ânsia por capturar e entender a história de um personagem que se mostra impenetrável. Encontrar assim as frestas que vislumbram uma história que se perdeu no passado. A câmera de Daren Aronofski, em sua garimpagem emocional, a transfigurar as cenas no brilhante cinema que se vê.
E Mickey Rourke dando corpo, alma, voz e sangue a um personagem que ele conhece tão bem.
Como em "Requiem Para Um Sonho" os enquadramentos e cortes (aqui não tão simultâneos, rápidos e pragmáticos) observam o acúmulo das feridas externas visando, por meio delas, as transformações internas.
Como em "Fonte da Vida" é a desesperada e desesperadora tentativa de um homem em entender o que parece estar além do ponto de não retorno.