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domingo, 14 de junho de 2026

Encontro de Amor


 O cinema do diretor Wayne Wang sempre foi fascinado por comunidades, não à toa, seu melhor e mais ressonante trabalho é o emocionante “Clube da Felicidade e da Sorte” – daí ser até natural que, ao ser contratado por um estúdio (a Columbia Pictures) para conduzir uma comédia romântica, não seja tanto o enredo e seu desenrolar cheio de encontros e desencontros que surgem com desenvolvimento mais apaixonado da parte direção, mas sim a caracterização e contextualização das circunstâncias que cercam a protagonista feminina da trama, vivida pela graciosa e radiante Jennifer Lopez – aqui, num dos sucessos de bilheteria responsáveis pela consolidação do status de estrela de sua carreira.

Lançado em 2002, “Encontro de Amor” – ou “Maid In Manhattan”, seu título original – não esconde, e nem conseguiria mesmo esconder, as semelhanças quase constrangedoras com “Um Lugar Chamado Notting Hill” (um grande sucesso do ano de 1999). Como naquele filme (mas, muito melhor realizado lá...), “Maid In Manhattan” busca unir num divertido, hesitante e cativante enlace amoroso dois indivíduos de mundos absolutamente distintos, sendo que um deles vem dos holofotes da fama, enquanto o outro do anonimato da plateia. Em “Notting Hill” havia a estrela de cinema e o plebeu desconhecido, vividos respectivamente por Julia Roberts e Hugh Grant; aqui, temos o candidato ao senado e a um só tempo sex-simbol das mulheres mais despachadas, Chris Marshall, interpretado por Ralph Fiennes (num papel bem mais leve e inesperado para os rumos usuais de sua carreira), e a camareira Marisa Ventura, vivida por Jennifer Lopez – que, num truque de inversão típico do demagógico cinema norte-americano, vem a ser, ela sim, um sex-simbol.

Mãe solteira, Marisa trabalha no ostensivo hotel de luxo Beresford, em Manhattan, no coração de Nova York, onde os procedimentos dos funcionários, visando o atendimento aos hóspedes ricaços, beira o rigor militar. Criando sozinha o pequeno Ty (Tyler Posey), Marisa almeja uma vaga disponibilizada para uma das gerências do hotel, contudo, tal cargo jamais foi ocupado antes por uma camareira – o que dificulta mais o objetivo de Marisa e faz das semanas seguintes decisivas para a avaliação de sua postura profissional (que, até então, era impecável).

Entretanto, eis que o Beresford recebe o candidato ao senado Chris Marshall que, junto de seu staff, liderado pelo inquieto e paranoico Jerry (Stanley Tucci, que décadas depois reuniu-se com Fiennes no elenco do fenomenal “Conclave”), se encontra num momento crítico da campanha – justamente quando as lentes dos paparazzi estão focadas nele, esperando qualquer deslize para virar manchete!

Numa série de mal-entendidos – daqueles típicos de uma comédia romântica – Marisa acaba sendo confundida por Chris como uma das hóspedes do hotel – ela e uma colega estavam numa travessura, experimentando o casaco Golce & Gabbana de uma hóspede real, a socialite Caroline Laine (a saudosa Natasha Richardson) quando o imbróglio acontece. Marisa aceita o convite para um passeio no parque, tentando se livrar da situação o mais rápido possível, mas, evidentemente, nesse meio tempo, a magia hollywoodiana se opera: Um interesse surge de ambas as partes e, agora, Chris quer saber quem é aquela maravilhosa mulher que ele conheceu – e tê-la como convidada para um importante jantar a ser realizado no próprio hotel!

Já, Marisa, também atraída por Chris, precisa se desvencilhar do cerco cerrado dos demais funcionários do hotel, incluindo superiores que podem farejar sua farsa, da inconveniente Caroline que pensa ser ela a convidada de Chris, e da própria situação em que se encontra, mentindo para o homem por quem está se apaixonando, e escondendo dele quem é.

“Maid In Manhattan” tem, portanto, todos os elementos narrativos de uma comédia romântica, organizados e apresentados com fidelidade formulaica – o desfecho descaradamente decalcado de “Notting Hil” é particularmente constrangedor...

Todavia, o que notamos saltar aos olhos ao longo do filme, é o amor com que o diretor Wayne Wang retrata o dia-a-dia de Marisa, sejam as regras rígidas, permeadas por subterfúgios de malandragem, que os funcionários precisam seguir em sua rotina de ‘agentes invisíveis’ dentro do hotel (que fazem lembrar o britânico “Coisas Belas e Sujas”), sejam os pequenos embates entre ela e a mãe (a cantora Priscilla Lopez, apesar do sobrenome, nenhum parentesco com Jennifer) carregados tanto de ternura quanto de ressentimento, sejam as relações amistosas, fraternais até, entre Marisa e suas colegas camareiras (talvez, os momentos mais divertidos do filme), ou os diálogos com o dedicado e minimalista mordomo Lionel (o saudoso Bob Hoskins, interpretando o personagem com dignidade e solidez). As manobras do roteiro (assinado por Kevin Wade) parecem menos importar ao diretor do que essas facetas da produção que dele recebem muito mais entusiasmo e cuidado.

Curiosidade: O argumento do filme foi idealizado pelo saudoso John Hughes (de “O Clube dos Cinco”) que não aparece creditado. No lugar de seu nome vemos um ‘Story by Edmond Dantes’, que vem a ser o herói fictício de “O Conde de Monte Cristo”!

segunda-feira, 8 de março de 2021

Nixon


 Como passou a ser sintomático em sua filmografia, Oliver Stone dedica um verdadeiro tour-de-force de três horas de duração para esmiuçar em detalhes até então inéditos mais uma faceta da história norte-americana nos anos 1960 e 70. E ele o faz num filme onde suas ideologias surgem conjugadas com sua poderosa habilidade para costurar impressões de uma realidade factual às conjecturas intrépidas da ficção (ou da mera especulação).

Centralizado na arrojada caracterização de Anthony Hopkins, o diretor Stone conta à sua maneira a história de Richard Nixon, adotando o que teria sido seu ponto de vista ao longo de muitos acontecimentos retumbantes da política americana na segunda metade do Século XX.

Como toca a um diretor audaz, Stone intercala sequências oriundas de diferentes trechos cronológicos –começa nos 18 meses pós-escândalo de Watergate, regressa à infância de Nixon nos anos 1920, e depois salta para a primeira eleição disputada em 1960 –e alterna, com seu conhecido repertório de experimentos visuais –filme colorido, preto & branco, e simulações de arquivos –um filme que se pretende instigante o tempo todo.

Com essa sua exuberância técnica, Stone parece tentar entender e vislumbrar o lado humano de Nixon, o mais controverso dos presidentes recentes dos EUA (ou aquele que teve a infelicidade de governar durante o período mais controverso de sua história), mas na verdade o que ele quer é tecer uma elaborada teia de intrincadas teorias conspiratórias, tão mirabolantes e carregadas de sordidez ficcional que se convertem num afresco cinematográfico sobre decadência e traições de um ponto em diante.

Filho do meio de uma família pobre do meio-oeste norte-americano, Richard Nixon cresceu influenciado pela tenacidade severa do pai e pelo tratamento humanamente suscetível da mãe (Mary Steenburgen); as mortes do irmão mais novo e do mais velho (de tuberculose) também tiveram poderoso efeito sobre seu caráter, transformando Nixon num homem disposto a encontrar todos os meios possíveis para sobrepujar suas desvantagens existenciais –que no caso dele, já durante a competitiva vida adulta em meio à política, se manifestaram como a alardeada falta de carisma, de afabilidade e beleza física, em comparação com seu contumaz adversário, John Kennedy.

A derrota para ele, nas eleições de 1960, é um golpe que chega a afetar a harmonia de seu casamento (com Pat, vivida por Joan Allen). Entretanto, o próprio Nixon ganha chances improváveis de governar os EUA –o que de fato acontece –depois que John Kennedy é assassinato em Dallas, e seu irmão, Bobby (adversário de Nixon nas eleições subsequentes), é também ele alvejado e morto no Hotel Ambassador, tempos depois –na narrativa de descarado teor alarmista de Oliver Stone, essas escandalosas teorias ganham ares de verdade documental quando é sugerido o envolvimento de Nixon em cada um desses atentados.

Durante a gestão de Nixon, Stone relata os percalços tumultuados de seu governo com ênfase nos trágicos desdobramentos da Guerra do Vietnam (um tema caro ao cinema do diretor), nas atitudes egocêntricas e contraditórias de seu protagonista (cuja paranóia o leva a duvidar de aliados genuínos como o Secretário de Estado Heny Kissinger, vivido por Paul Sorvino), e nos lances ambíguos que convertem o próprio Nixon naquilo que, em tese, ele desejava enfrentar: Um líder relapso, errático, incapaz de se opor à inevitabilidade atroz do sistema, e disposto a lançar mão de recursos cada vez mais escusos sob pretextos vazios –na verdade, essa premissa, a do personagem principal cuja pureza da ideologia se vê contaminada pela sordidez inapelável do mundo é, também, um tema muito caro ao cinema de Oliver Stone.

Do alto de sua nada modesta duração, “Nixon” é pois um épico de difícil assimilação, dedicado aos meandros mais mesquinhos e insidiosos a que pode se submeter o caráter humano, e imerso na caracterização mais vil dos bastidores (ainda que certamente ficcionais) da política norte-americana dos anos 1960 e 70.

A habilidade inconteste de Oliver Stone está aqui, como em outras obras corrosivas que realizou, a favor de uma narrativa que tão somente conscientiza o expectador de uma implacável inclinação para a maldade no ser humano; e essa sensação amarga não é amenizada nem mesmo pelo primor presente do início ao fim na atuação de Anthony Hopkins.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Branca de Neve e O Caçador

É irônico que, perante essa nova e lucrativa tendência dos Estúdios Disney de refazer em filmes com atores suas animações clássicas, tenha sido outro estúdio, a Universal Pictures, quem repaginou em tons realistas o clássico maior da Disney, “Branca de Neve e Os Sete Anões”.
Claro que, por conta disso, “Branca de Neve e O Caçador” tem liberdades poéticas necessárias que afastam o risco de um processo autoral –como o fato de serem oito anões, e não sete (!), além da presença consideravelmente menos importante deles na trama.
Aqui, quem ganha destaque, como o próprio título já trata de esclarecer, é o breve personagem do Caçador (que Chris Hemsworth interpreta com propriedade e carisma) numa manobra narrativa um bocado comum, onde se aventa uma ‘história não contada’ dentro da própria história já muito difundida –e “Branca de Neve” é certamente uma das histórias mais famosas de todos os tempos.
Com uma austeridade narrativa que remete à obras de mitologia mais adulta como “O Senhor dos Anéis”, “Excalibur” ou “O Feitiço de Áquila”, a trama do filme se inicia com a pequena e doce menina Branca de Neve perdendo a mãe e vendo ela ser substituída, não muito depois, pela belíssima Ravena (Charlize Theron, espetacular em todas as facetas da personagem).
Entretanto, Ravena se revela uma feiticeira perigosa e nem um pouco interessada em desposar um rei –ela quer (e, de fato, consegue) é tomar-lhe seu reino, sagrar-se rainha e arremessar todos os súditos num regime tirânico e aterrorizante.
Com seu pai morto, Branca de Neve é convertida em prisioneira, crescendo no alto de uma torre nos anos seguintes –e adquirindo com isso as feições de Kristen Stewart; que não é a boa atriz, nem a linda mulher que é Charlize Theron, mas cujo protagonismo na série “Crepúsculo” lhe garantia estrelato o suficiente para ser aqui a personagem principal.
Se há algo que valoriza “Branca de Neve e O Caçador” é o fato de que, ainda em seus primeiros vinte minutos, já fica evidente a disposição entusiasmada do diretor Rupert Sanders em incorporar um cinema vistoso, assumidamente comercial e visualmente bem acabado para moldar um filme sedutor ainda que amparado numa história batida, e que com frequência não consegue escapar –a despeito de suas intenções de seriedade –das características pueris presentes no conto de fadas: Apesar de tudo, Ravena continua obcecada em manter o título de ‘Mulher Mais Bela’ aos olhos do onisciente Espelho Mágico (cuja personificação visual me lembrou as criaturas dos filmes de Guillermo Del Toro) e, quando Branca de Neve atinge idade o bastante para tomar-lhe tal honraria, a insatisfeita Ravena ordena sua execução.
É quando –em outro momento perigosamente implausível com os quais a trama flerta –Branca de Neve aproveita o ensejo e consegue sozinha fugir do palácio (!), terminando desaparecida na lúgubre e assustadora Floresta Negra.
Indignada com a inépcia de seus soldados, a rainha convoca o único homem capaz de encontrar alguém extraviado por lá, o Caçador.
Beberrão e desesperançado desde que se tornou viúvo (background mais aprofundado na continuação “O Caçador e A Rainha do Gelo”), o Caçador recebe da rainha uma oferta irrecusável: Ela usará seus poderes para ressuscitar sua amada se ele lhe trouxer o coração de Branca de Neve.
No entanto, após encontrar Branca de Neve, o Caçador começa a compreender as razões para a extrema atenção que a ira da rainha dedica a ela: A jovem é a única capaz de tirar Ravena de seu trono e restaurar harmonia ao reino.
Segue-se assim uma aventura episódica onde o diretor leva esse casal central a encontrar os agora oito anões, grupo de personagens que soa mais como alívio cômico do que como um adendo relevante da narrativa, embora entre eles hajam participações ilustres como Bob Hoskins, Eddie Marsan, Ray Winstone, Nick Frost e Ian McShane (todos miniaturizados por computador, como Peter Jackson fez com os hobbits em “O Senhor dos Anéis”).
E também, o providencial ‘príncipe encantado’, na forma do apaixonado amigo de infância William (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”) cujo exército contribui para a inevitável batalha final, reflexo condicionado do sub-gênero de filmes épicos que o trabalho de Sanders, em seu caráter evocativo, não resistiria.à tentação de incluir.
Há também a clássica passagem da maçã envenenada, seguida do igualmente clássico momento do beijo que faz Branca de Neve despertar –aqui, o trabalho de Sanders também aproveita para inserir uma sutil intenção transgressora ao sugerir que, longe dos olhos de testemunhas, foi o beijo do Caçador, e não o do príncipe quem despertou a protagonista –um prenúncio de triângulo amoroso que talvez estivesse nos planos da vindoura continuação, mas que foi completamente modificado em função da polêmica que envolveu a divulgação do filme: A atriz Kristen Stewart e o diretor Rupert Sanders, ambos comprometidos, foram flagrados juntos por paparazzis, o quê afastou ambos do segundo projeto, “O Caçador e A Rainha do Gelo”.
Contudo, se a continuação, por todas essas razões de afastamento, resultou fraca, aqui obtem-se uma produção fluente, de encher os olhos e satisfatória para os aficcionados de aventuras de espada & magia, num esforço até que válido, mas ocasionalmente banal, para ocultar os traços infantis de conto de fadas da história original.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Caçada Na Noite

O filme de John Mackenzie começa numa sucessão intrincada de cenas que, até a resolução final, não terão significado algum. Personagem proeminente nesse prólogo, o gangster vivido por Paul Freeman (o Beloq de “Os Caçadores da Arca Perdida”) se envolve numa entrega nebulosa.
Algo dá errado, mas não fica claro porque ou com quem.
O filme de Mackenzie assim desafia abertamente o expectador em seus quinze minutos iniciais com um plot cujas pontas soltas não se juntam e nem irão se juntar até que tudo tenha terminado.
Essa provocação e audácia direta para com o público parece evocar uma oposição do cinema inglês em relação à atitude do cinema comercial norte-americano, segundo o qual o filme, em seus minutos iniciais, tem por obrigação conquistar o expectador.
A oposição entre o inglês e o norte-americano é, por sinal, o combustível dessa narrativa.
Líder de uma ampla máfia londrina, o truculento e selvagem Charlie (Bob Hoskins, explosivo) tem delicados negócios a serem fechados com investidores americanos a fim de legitimar suas operações.
Todavia, para seu tormento, uma convergência de fatores acarreta uma violência imprevista: Atentados ferozes (inclusive à bomba) eliminam pessoas próximas à Charlie.
Quem são os responsáveis? E por que?
A primeira pergunta, Charlie tenta em vão responder mobilizando seus capangas a fazer a única coisa que entende: Retribuir violência com mais violência; ele procura entre os demais gangsteres londrinos alguém que possa ser o culpado pela onda crescente de retaliações, enquanto busca, com a ajuda da esposa Victoria (Helen Mirren, deliciosa) deixar tais eventos desastrosos passarem despercebidos dos americanos.
É claro que, em algum momento, no fulgor da narrativa que elabora, “Caçada Na Noite” irá encontrar, na já indistinta lembrança daquele prólogo enigmático, as suas almejadas respostas. Até lá, no entanto, é exatamente disso que a urgência da narrativa do diretor Mackenzie se abastece: A tensão densa e implacável de enfrentar um inimigo invisível, onipresente e que acompanha todos os seus passos, contra o qual os vastos recursos nada significam.
É tão instigante quanto eletrizante acompanhar a magnífica atuação de Bob Hoskins, onde ele dá dimensão a um homem consciente do poder que tem, vendo esse mesmo poder se esvair (ou mostrar-se irrelevante) ante desconhecidos antagonistas das sombras cujas ações fragmentam invariavelmente suas esperanças, seus asseclas e as bases do império que julgava tão sólido.
O cinema inglês de gangster não fica melhor que isso.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Mona Lisa

Neil Jordan era escritor antes de iniciar sua carreira como diretor de cinema em “Angel”, de 1981. Essa faceta de criador literário ele exercita em “Mona Lisa” ao estabelecer um paralelo o tempo todo pertinente entre a própria trama e as conversas dos dois amigos, Bob Hoskins, o protagonista, e Robbie Coltrane (de “Harry Potter”) que vive seu melhor amigo, um leitor inveterado de romances pulp e também aspirante a escritor –as tramas que ele engenha (e que se confundem com os livros que ele lê) refletem arquétipos que surgem e se transfiguram a medida que os personagens com os quais nos deparamos em “Mona Lisa” vivenciam seus próprios arcos dramáticos.
A começar por George, um ex-presidiário irritadiço e temperamental que, na atuação primordial de Bob Hoskins, se converte num personagem pelo qual a plateia alimenta empatia genuína.
Sem família (a ex-mulher sequer consegue olha-lo na cara e não deseja que se aproxime da filha), e tendo como único amigo Thomas (Coltrane), George arruma emprego com Mortwell (Michael Caine), o figurão parcialmente responsável por sua prisão.
Sua tarefa é servir de motorista para a exótica Simone (Cathy Tyson, atriz oriunda do teatro estreando em cinema, mesmo depois fez poucos filmes como “A Maldição dos Mortos-Vivos” e “O Padre”).
Ainda que violento, intempestivo e exalando a truculência das ruas (características que inicialmente comprometem sua atuação sutil como motorista discreto), George é um tanto ingênuo; ele demora até perceber que a função de Simone é como garota de programa de luxo –ele a leva e traz para hotéis cinco estrelas e mansões luxuosas onde encontra seus clientes, e ocasionalmente a protege dos contratempos.
Por sua incompatibilidade aparente, são normais e exasperados os atritos que ambos no início experimentam: George porque é tão desleixado quando rude, e sabe disso; Simone porque age como uma dama da sociedade, e manter essas aparências faz parte de seu negócio.
Mas, Simone tem seus negócios pendentes: Toda noite, ela pede a George para dirigir por King’s Cross, bairro londrino de assídua atividade noturna e pólo de prostituição do mais baixo nível.
Lá, Simone procura por algo ou por alguém.
A medida que o relacionamento entre ela e George se metamorfoseia do choque para o entendimento (e até para a ternura), ele descobre: Ela está atrás de Cathy, uma estimada companheira de programa de quem ela se perdeu quando conseguiu levar seu padrão de vida profissional.
Cada vez mais envolvido por Simone, e portanto, ávido por agradá-la, George passa a procurar por Cathy em meio aos deploráveis subúrbios londrinos, chegando a conhecer a instável May (Sammi Davis, de “Esperança & Glória” e “O Despertar de Uma Mulher Apaixonada”).
Na habilidade que demonstra, Neil Jordan trabalha com excelência um material que poderia soar raso nas mãos de outro diretor, entretanto, com ele, são fascinantes as imbricações peculiares de seus personagens que levam a diferentes concepções e rumos de sua premissa. Seu talento encontra uma forma de tornar notável o banal.
É mais do que necessário ressaltar também o brilho singular de Bob Hoskins numa das mais excepcionais composições de sua carreira.
Emoldurado pela música de Nat King Cole, “Mona Lisa” –cujo romantismo não apenas embala diversos momentos do filme como também o batiza –esta obra admirável de Jordan se revela uma história romântica, adulta, fascinante e humana.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Revolução Em Dagenham


Lançado em 2010, este filme pode ser visto como uma contra-parte inglesa de “Histórias Cruzadas”, lançado em 2012. Em comum, ambos têm protagonistas femininas tão maravilhosas quanto cativantes, centrais em um trama que, embora tratada com leveza e emoção, trata de desafios muito reais contra injustiças tremendamente revoltantes.
De sua parte, “Revolução Em Dagenham” até vem brindado com a excelência habitual do impecável elenco inglês –onde, vez ou outra, identificamos um figurante da Saga “Harry Potter” –embora, “Histórias Cruzadas” tivesse reunido um elenco feminino estelar e talentoso que pouquíssimas produções em todo o cinema tiveram sorte em fazê-lo. Também o diretor de “Histórias Cruzadas”, Tate Taylor, demonstra habilidade e empolgação com o material que dirige em níveis raros à obras comerciais, aqui, o diretor Nigel Cole (de “Garotas do Calendário”) tem empenho evidente embora seja evidente também ocasionais escorregadelas de ritmo e tom, bastante comuns em produções de escopo um pouco mais amplo.
A intenção inicial parecia ser conceber uma narrativa que girasse em torno de três distintas protagonistas. São elas: Rita (Sally Hawkis), que aos poucos assume a iniciativa de um protesto sem precedentes, onde ela e suas colegas realizam uma greve de funcionárias em plena década de 1960, pelo direito de ganharem salários iguais aos homens.
Lisa (Rosamund Pike), a ex-universitária inteligente, linda, porém frustrada, casada com um dos executivos ingleses da subsidiária da Ford –a empresa da qual as grevistas exigem seus direitos –na Inglaterra.
E Barbara Castle (Miranda Richardson), a Ministra do Emprego no Parlamento Inglês e membro do Partido Trabalhista, dividida entre a lealdade real e válida às proletariadas e as pressões, abastecidas de politicagem e interesses econômicos, de seus superiores.
Entretanto, não demora nada para que a narrativa vá relegando Lisa e Barbara à presenças coadjuvantes na trama e acabe centralizando Rita; em parte, porque Sally Hawkins é genial, em parte, porque é impossível, ao roteiro e à direção, negar a importância e a atenção que as personagens das costureiras grevistas merecem.
E esse zelo é o grande mérito desta realização: A forma profundamente respeitosa, rica em meandros humanos que unem um sutil humor a um bem administrado drama (algo no qual os ingleses são hábeis) com a qual eles relatam o envolvimento de Rita na questão; primeiro, ela participa de uma reunião até corriqueira, ao lado do amigável sindicalista Albert (a quem o grande Bob Hoskin empresta toda sua autoridade e simpatia), onde estavam em discussão a qualificação das funcionárias (o quê elas tinham) e a postura da empresa diante disso (qual que queriam ignorar), durante essa reuniaão, contudo, Rita sai decidida por uma paralisação de 24 horas, que depois, diante do descaso de seus empregadores se converte numa greve de duração indefinida que, dia após dia, vai paralisando também os demais setores da produção de carros: A mulheres costuravam os estofados nos bancos, sem bancos nos estoques os carros não ficavam prontos e assim, sistematicamente, todos os setores da fabricação eram obrigados a interromper as atividades.
“Revolução Em Dagenham” é um bom filme. Agradável, flúido, bem interpretado e curiosamente esforçado em não ser contundente demais na direção errada –uma espécie de ‘entretenimento família’; embora pareça ser essa concessão que impede este relato de uma imprescindível e relevante história real de ser memorável de fato.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Minha Mãe É Uma Sereia

Não há muita personalidade na filmografia do diretor Richard Benjamin –que dirigiu, entre outros filmes mais irrelevantes, “F/X 2” e “Psicose 2”. É, portanto, sabido, entendido e comprovado que a mente criativa por trás de “Minha Mãe É Uma Sereia” trata-se da estrela Cher que, tendo conquistado o Oscar de Melhor Atriz por “Feitiço da Lua” três anos antes, gozava de prestígio e poder suficientes para moldar uma produção à sua vontade.
Nesse sentido, nota-se uma predileção por tipos inusitados e incomuns, uma inclinação à mescla desigual de comédia e drama e uma tendência subliminar em incorporar à indústria uma versão amena do retrato cáustico e absurdo que os filmes de John Waters (“Pink Flamingos”, “Hairspray-E Éramos Todos Jovens”) levavam à classe média norte-americana, em outras palavras, estilo de sobra.
O ano é 1963, e a sociedade americana abraça uma série de mudanças comportamentais. Entretanto, a família de Charlotte Flax (Winona Ryder, sensacional) não parece responder a elas com naturalidade ou normalidade: Sua irmãzinha menor Kate (a precoce Christina Ricci) é obcecada por água e quando não disputa incansavelmente os campeonatos de natação na escola fica em casa cronometrando suas tentativas de prender a respiração na banheira (!), mas, o pior de tudo é sua mãe, a Sra. Flax (Cher, magnânima), definida por ares de independência sexual e pessoal que norteavam a mulher moderna de então, mas, sempre impondo às filhas as conseqüências indiretas de seu próprio histrionismo –toda a vez que um namoro dá errado, a Sra. Flax faz as malas e carrega as duas filhas para alguma outra cidade!
A própria Charlotte passa longe de ser alguém, digamos, normal: Embora sejam descendentes de judeus, ela insiste na vocação palpitante e reprimida de ser freira, tentando domar seus impulsos hormonais com convicção religiosa e valendo-se desses preceitos para censurar intimamente as atitudes da mãe.
Numa dessas idas e vindas provocadas pelos desamores da mãe, todas vão parar numa cidadezinha onde um improvável príncipe encantado parece surgir disposto a tolerar todos os desvarios da Sra. Flax, ele é o fanático por beisebol Lou Landsky (Bob Hoskins).
Lá desembocarão muitos dos desenlaces narrativos que cercam as personagens: Charlotte, atraída por um galante rapaz da região (Michael Schoeffling) trairá suas acirradas convicções (e pensa que ficou grávida após beijá-lo!); Sra. Flax irá se deparar, perplexa, com o real sentimento por Lou, e na casualidade com que lidou com todos os outros antes dele, ela se sentirá então intimidada (talvez, pela primeira vez); meio que negligenciada pela mãe e pela irmã mais velha, justamente por estes percalços, a pequena Kate –provavelmente, a personagem que melhor personifica a questão das ‘sereias’ no título do filme –sofrerá uma ironia cruel e quase trágica.
Há beleza em “Minha Mãe É Uma Sereia” e ela é quase sempre percebida quando Winona Ryder está em cena, seja pelo fato dela estar realmente belíssima, seja pelo fascínio despertado pelo arco dramático de sua personagem; todavia, há também um deliberado estranhamento, nas atitudes e nas caracterizações de modo geral que impedem uma entrega completa do expectador à essa trama sobre pessoas excêntricas.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Sra. Henderson Apresenta

Eis um filme delicioso que o cinema inglês, em sua mescla incomum de fina ironia e sagaz seriedade, consegue nos entregar.
Na Inglaterra do final da década de 1930, a milionária Laura Henderson (a sempre impecável Judi Dench) fica viúva aos 70 anos de idade. Ela não encontra qualquer adequação em bordados ou em reuniões de grupos assistenciais, atividades normalmente esperadas por uma viúva, em vez disso, ela compra o depauperado teatro municipal e o reconstrói.
Como produtor de shows, ela contrata o gabaritado Vivian Van Damm (o saudoso Bob Hoskins em sua última grande atuação) que sugere uma iniciativa arrojada: Apresentações contínuas, ao longo de todo o dia.
O sucesso imediato logo dá lugar ao fracasso quando todas as outras companhias teatrais aderem à mesma tática.
A Sra. Henderson, com quem Vivian nutria uma relação das mais intensas e turbulentas, dá então uma idéia audaciosa: Introduzir nudez nos espetáculos!
O governo, enxergando uma proximidade entre a transgressão tentada no palco e a arte como era vista nos quadros dos museus –onde a nudez, afinal, era permitida e aceita –estabelece que as modelos que tirarem a roupa devem ficar efetivamente imóveis. Várias são então contratadas: Sendo aquela que mais ocupa o tempo da narrativa, a loira Maureen, interpretada pela lindíssima Kelly Reilly.
O diretor Stephen Frears opta por um caminho distinto dos filmes baseados em fatos reais ao atribuir pouco interesse nos meandros historicamente solenes do teatro, ou dos personagens que o conduziram, ou mesmo das atitudes pioneiras que eles tomaram. Sua atenção está na condução de suas tramas de natureza mais íntima que inclui, além da relação entre Vivian e a Sra. Henderson temperada com irritabilidade e afeição, porém essencialmente platônica e adequadamente britânica, os diversos humores dos integrantes do espetáculo como a dinâmica velada entre as artistas que se apresentavam de fato (cantavam e dançavam) e as modelos que precisavam ficar imóveis (às vezes, por horas) a expor sua nudez para o público.
Algum tempo depois, vem então a Segunda Guerra Mundial para complicar a vida desses artistas com outros contratempos como os bombardeios à cidade –que insistiam em ocorrer durante o show! –e a própria ameaça do governo de interdição –sob pretexto de que o sucesso do teatro ocasionava muita aglomeração!
Todos esses fatores são tratados com grande habilidade na mescla de humor e drama por Stephen Frears que entrega aqui uma obra divertida, ousada na medida em que se presta a ser –a nudez não é somente sugerida, mas ao mesmo tempo não predomina em cena –e profundamente atenta ao detalhe do significado da arte em tempos de dificuldade: A meia hora final, onde os aspectos musicais do filme crescem a olhos vistos, é um testemunho da necessidade humana de descontração e alegria trazidas em meio ao caos que as formas de arte como a  música, o teatro e certamente o cinema são capazes de levar às almas aflitas.

Despido de cinismo e imbuído de um bocado de ingenuidade, Frears concebeu, ainda assim, o que quase pode ser enxergada como um “Cabaret” dos novos tempos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Uma Cilada Para Roger Rabbit

A idéia de uma fusão entre animação e live-action sempre foi um objetivo dos Estúdios Disney –Quem não lembra das cenas de “A Canção do Sul”, de 1946, ou a seqüência envolvendo os pingüins animados em “Mary Poppins”? –mas, havia todo um empecilho técnico limitando esse intento: A animação destoava da realidade simplesmente porque haviam barreiras evidentes que separavam as duas linguagens; e dizer isso soa antiquado nos dias de hoje, quando a computação gráfica oferece a cada ano novas inovações em forma de longas animados.
Poucas inovações técnicas, contudo, tiveram uma ressonância tão poderosa quanto “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, de 1988, que prometeu (e cumpriu!) uma união sem precedentes de atores reais e personagens animados em cena.
Isso só foi possível graças à junção da Disney com o produtor Steven Spielberg, detentor de vastos recursos no campo dos efeitos visuais, graças a sua amizade de longa data com George Lucas, o dono da Industrial Light & Magic, a empresa responsável pela magia que se testemunha na tela.
Para dirigir essa junção entre desenho e filme (e ciente de que tal junção precisaria ter a especificação de uma narrativa que englobasse o dinamismo natural das animações à encenação real) Spielberg chamou seu apadrinhado, Robert Zemeckis (que tinha dirigido para o próprio Spielberg o sucesso “De Volta Para O Futuro” e teve de adiar em três anos as filmagens das duas continuações para concretizar este projeto).
Zemeckis deu a condução narrativa e a percepção ideal para que os efeitos visuais complexos que colocavam desenhos e atores lado a lado transcorressem com naturalidade em cena. A história, também ela, contribuía para essa experiência sensorial: Numa brilhante sacada de metalinguagem, Hollywood, nos anos 1930, é uma indústria que produz desenhos animados (os chamados cartoons) da mesma forma que produzia filmes; os personagens animados são astros que se comportam longe das câmeras que maneira quase sempre distinta do que são em frente à elas –e esse retrato fantasioso mas não despido de lógica e observação aproveita para lançar mão de pontas luxuosas de verdadeiros astros animados como Pateta, Betty Boop (numa cena em que relata ao protagonista seu problema de desemprego, já que é um desenho em preto & branco, e agora eles só eram feitos à cores), Pato Donald e, numa cena considerada histórica, um encontro entre Mickey Mouse e o Coelho Pernalonga (cedido pela Warner sob a condição de que aparecesse durante o mesmo tempo de cena que o Mickey!).

Um dos grandes astros dos estúdios daquele período é o coelho Roger Rabbit.
Mas, como muitos astros de carne e osso daquele mesmo período, Roger tem um casamento cujas atribulações dão dor de cabeça aos produtores; sua esposa é, também ela, uma animação, no entanto, não há nada do histrionismo e da fanfarronice que sobra em Roger –trata-se da inacreditavelmente sexy Jessica Rabbit.
Sobra para o protagonista do filme, o detetive particular Eddie Valiant (o ótimo Bob Hoskin, se esbaldando com um divertido retrato de um herói de film noir e com a pantomina exigida pela sua interação com as dezenas de personagens animados) fazer assim um trabalhinho sujo: Tirar fotos que flagrem um instante de adultério de Jessica com um provável amante.
Contudo, o tal amante, dono das terras onde fica a tal cidade dos desenhos, Toontown, aparece morto e as circunstâncias tornam Roger Rabbit, que desapareceu, o suspeito número 1. Em sua mentalidade algo non-sense de cartoon, Roger procura pelo próprio Valiant para lhe ajudar: Já que foi ele quem o colocou nessa encrenca!
Na verdade, tudo é uma conspiração cheia de segredos e reviravoltas que podem impressionar quem espera um filme leve (embora ele o seja) com uma trama simplória: “Roger Rabbit” aposta alto na inteligência do público, mesmo aquele que assiste produções censura livre, e oferece muito o que ver à platéia adulta também –são inúmeras as referências ao cinema noir (grande homenageado do filme) e outras tantas aos desenhos da Era de Ouro de Hollywood, aqueles que os pequenos certamente não tinham idade para ter visto.
Tudo, porém, fica redundante diante do assombro que é a interação perfeita e espantosa dos cartoons com os atores reais: Um misto de arrojada animação com computação gráfica (que à época ainda era uma ferramenta bastante experimental) dá às imagens animadas um formato tridimensional que lhes confere textura e saliência, tal e qual os personagens de carne e osso; a partir daí, são incessantes as cenas sensacionais que o diretor Zemeckis entrega uma a uma.
“Roger Rabbit” não foi o primeiro filme a buscar tal efeito –os já mencionados “A Canção do Sul” e “Mary Poppins” são prova disso, além de inúmeras outras tentativas menos expressivas –e certamente não foi o último –a ele seguiu-se, nas décadas seguintes, os irregulares “Space Jam-O Jogo do Século” (que reunia o jogador de basquete Michael Jordan e o Pernalonga), “Looney Tunes-De Volta À Ação”, de Joe Dante, e até mesmo o italiano e malicioso “Volere, Volare”, de Maurizio Nichetti –mas a realização conjunta de Steven Spielberg e dos Estúdios Disney, capitaneada por Robert Zemeckis, entrou para a história do cinema como o mais perfeito exemplo de um efeito visual que hoje pode parecer antiquado, mas continua traduzindo brilhantemente a máxima de “sonho tornado realidade”.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Cotton Club

É curioso perceber que, excetuando os excepcionais clássicos pelos quais é lembrado, o diretor Francis Ford Coppola sempre teve uma carreira claudicante, realizando filmes em geral equivocados, como se tentasse perseguir aquele empuxo criativo que ele obteve com a trilogia “O Poderoso Chefão”, “Apocalypse Now”, “A Conversação” e “Drácula de Bram Stoker”. Não são tão poucos títulos assim, é verdade, mas basta lembrar o quando realizaram (e ainda realizam) seus amigos Steven Spielberg, Martin Scorsese e Brian De Palma para notar que Coppola é o mais oscilante deles.
Contudo, não é de se reprovar a atitude do produtor Robert Evans em bancar este que terminou sendo um fracasso comercial: Qual produtor negaria a chance de estar num projeto onde o diretor de “O Poderoso Chefão” revisita, sob um novo viés, o tema máfia?
No final da década de 1920, acompanhamos dois irmãos caucasianos que seguem caminhos diferentes no Harlem, bairro de predominância negra, em Nova York; enquanto um deles, Dixie Dwyer (Richard Gere), trompetista profissional, apaixona-se por Vera Cícero (Diane Lane, jovem e linda), amante do gangster Dutch Schultz (James Remar) –uma figura real que volta e meia desperta interesse no cinema, como em “Billy Bathgate-O Mundo À Seus Pés” onde foi interpretado por Dustin Hoffman; o outro irmão, Vincent Dwyer (Nicolas Cage), ao tornar-se capanga do próprio Schultz passa a trilhar caminhos mais violentos.
Paralelamente, vemos também a trajetória de outros dois irmãos, artistas negros, tentando sobreviver trabalhando na boate, pertencente à Owney Madden, outro gangster, que serve de palco para a maioria desses dramas: O Cotton Club.
Coppola logrou juntar aqui os elementos de dois de seus trabalhos: O colorido e a vibração musical jazzística de “O Fundo do Coração”, com a tensão e a violência impactante de seus dois épicos de “O Poderoso Chefão” (o último filme da trilogia ele só faria alguns anos depois).  Ele é bem sucedido na construção da atmosfera fervilhante e da cacofonia do Cotton Club onde se vê registrado todo o fluxo infinito de entrecruzadas linhas narrativas dos personagens, sejam eles os clientes, ou os artistas seja no palco, seja nos bastidores.
Todavia, a fusão de gêneros à que se presta não se cumpre harmoniosamente e o roteiro (nitidamente escrito e reescrito à exaustão) oferece inúmeras soluções tolas.

O melhor de tudo é a química fantástica (e um pouco mal aproveitada) entre Richard Gere e a bela Diane Lane (que tornariam a se reencontrar, com bons resultados, em “Infidelidade”, de 2002, e em “Noites de Tormenta”, de 2009). Coppola é um hábil diretor e consegue imbuir uma quantia considerável de charme à narrativa, uma pena que a equivocada escolha do apático e nada carismático James Remar para interpretar Schultz ponha tudo a perder...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Disfarce Cruel

Quem viu o falecido ator Bob Hoskin em filmes como o já clássico “Uma Cilada Pra Roger Rabbit” não poderia imaginar as inclinações bizarras, fantasiosas e pouco usuais de sua incomum, e em muitos momentos até perturbadora, estréia na direção, datada de 1988.
E cabe aqui um comentário: Como é difícil encontrar imagens ou qualquer informação sobre esse filme na internet! É como se o mundo tivesse esquecido dele!
“Disfarce Cruel” acompanha um jovem soldado europeu (o exótico, porém, simpático Dexter Fletcher, que muitos anos depois estaria em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”) que luta uma guerra nunca de fato explicada nem contextualizada. Logo no início do filme, ele se torna um desertor e passa a fugir pelos campos infindáveis que vê pela frente. Em algum momento dessa fuga, ele assume a identidade de uma mulher louca e nessa condição é adotado por um grupo de ciganos que fogem, eles próprios, no violento preconceito alheio. Eles julgam ser ele capaz de fazer premonições, e a partir de algum momento, ele adquire de fato esse dom. Porém, a sua paixão pela jovem filha do líder do grupo colocará tudo a perder.
Não há dúvida que Hoskin abraça a estranheza nesse seu ousado trabalho não só na direção como na roteiro, mas se esse aspecto flertar perigosamente com a possibilidade de tornar o filme ruim, ele também lhe confere uma atmosfera poética e desigual.

Ao menos coragem não faltou a Hoskin, nesta sua incursão em um tipo audaz de cinema, fatalista, melancólico, místico, violento, trágico e impactante. Palmas por fazer a diferença!