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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Rocketman

O diretor (e também ator) Dexter Fletcher foi chamado para substituir Bryan Singer, afastado durante as gravações, para terminar as filmagens de “Bohemian Rhapsody”, cinebiografia de Fred Mercury e do “Queen”, o quê explica a imensa similaridade de tom, abordagem e proposta entre esses dois projetos.
Desta vez com direção 100% de Dexter Fletcher, “Rocketman” usa de maneirismos muito parecidos para contar por sua vez a história de Elton John, outra icônica figura do pop rock dos anos 1970 e 80 que, como muitos desses astros, teve seus imensuráveis altos e baixos que, neste caso, passaram pela dependência química, pelo alcoolismo e pela aceitação da própria homossexualidade.
A direção de Fletcher permite que o diferencial entre seus dois filmes seja mesma seu personagem principal: É a verve algo romantizada de Elton John que define a natureza da narrativa que passeia por impressões bem menos realistas, salta gigantescos blocos de tempo, abrevia percepções em números musicais desvairados e surreais, e intercala trechos distintos com um estilo que ameaça se sobrepor ao conteúdo.
Essa opção de linguagem já surge na primeira cena: Elton entrando, espalhafatoso, numa reunião de alcoólicos anônimos. Ali, nessa reunião –a partir da qual os flashbacks haverão de se estender ao longo de todo o filme –ele vai gradual e literalmente se despindo da persona extravagante com a qual encobriu suas inseguranças diante do mundo e revela, afinal, quem é: Nascido Reginald Dwight, morando numa residência classe média da Inglaterra, o protagonista cresceu num lar destituído de amor, esmagado entre a mãe egoísta e insatisfeita (Bryce Dallas Howard) e o pai insensível e desgostoso (Steven Mackintosh). Restando somente o carinho da avó (Gemma Jones, de “Razão e Sensibilidade”) para se refugiar, Reggie –como era chamado –se dedica a um talento que revelou desde cedo: O piano.
Com a juventude, veio a descoberta do rock’n roll, os sonhos de ascender na música e as apresentações em pubs (e a partir daí, já podemos vê-lo na emocionante interpretação de Taron Egerton, vencedor do Globo de Ouro), onde ele descobriu que precisaria se reinventar para alcançar o sucesso, assumindo a alcunha de Elton John –sendo Elton o nome de um baixista com quem trabalhou, e John, uma homenagem a John Lennon.
Ao procurar emprego numa gravadora, ele é apresentado à Bernie Taupin (Jamie Bell), que se torna seu melhor amigo, e com quem passará a compor músicas pelo resto de sua bem-sucedida carreira: Os dois logo vão para Los Angeles, nos EUA, onde as apresentações de Elton o transformam num milionário e no mais novo astro da música.
Contudo, sua solidão e carência afetiva são proporcionais ao seu sucesso e, na falta de, digamos, amor de verdade –que ele pensou equivocadamente ter encontrado em John Reid (Richard Madden) seu ambicioso agente –Elton se afunda em bebidas e drogas.
Assim como no filme sobre Fred Mercury, este também se foca, com invitabilidade, nos vícios de uma estrela fulgurante e talentosa, e também é batizado com o título de uma das mais famosas canções de seu biografado, mas, estranhamente, “Rocketman”, a música, não ocupa uma importância muito grande na trama (se excluirmos o emprego de trechos aleatórios ao longo da primeira metade), e muitas músicas famosas de Elton John, sobretudo, da década de 1980 (ao menos para mim), não aparecem, preteridas por outras nem tão conhecidas assim –e, se houver uma sensação de déjà-vu ao final, quando tocar “I’m Still Standing”, não é por acaso: O mesmo Taron Egerton dublou essa canção na animação “Sing-Quem Canta Seus Males Espanta”.

domingo, 26 de junho de 2016

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes

Guy Ritchie é um diretor nada usual. Apesar de ser, comprovadamente, um dos grandes fracassos de 2015, eu adorei o seu “Agente da U.N.C.L.E.”, e posso dizer o mesmo de seus dois acelerados (ainda que demasiados!) “Sherlock Homes” com Robert Downey Jr.
O meu preferido dele, contudo, continua sendo este brilhante “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumagantes”, um caso raro de primor cinematográfico no qual o título incomum já dá uma idéia de toda a brincadeira: um obra cheia de força e ímpeto, sobre gente muito violenta e sem vontade de ocultar essa violência, mas que não deixa de ser engraçada de uma maneira desconcertante.
Raro também é o fato de Guy Ritchie ter levado esse inconformismo narrativo à todos os seus filmes, sempre fazendo questão de ostentar uma distinção pulsante do comum, ainda que tropeços tenham ocorrido aqui ou ali.
O filme que nos apresentou a Guy Ritchie começa com um grupo de jovens amigos, britânicos e espertalhões (entre os quais, Jason Statham, em sua estréia no cinema).
Um deles (Jason Flemyng) resolve arriscar suas chances (e economias) num jogo de pôquer com figurões mafiosos, e termina saindo de lá com uma astronômica dívida que, se não for saudada, pode fazer seu pai perder o negócio da família (ou ambos perder a própria vida).
Com a corda no pescoço, eles decidem então providenciar um assalto a um grupo barra-pesada de criminosos e arrumam duas armas antigas de cano longo para a operação.

Mas esses tais criminosos têm lá seus planos, bem como os mafiosos, e um grupo criminoso rival, isso e mais um assassino de aluguel (Vinnie Jones, sensacional) com o curioso hábito de levar seu filho pequeno para observar os ‘serviços’ do pai (!), todos, personagens que incrementam muito mais as confusões dessa narrativa absolutamente fabulosa.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Disfarce Cruel

Quem viu o falecido ator Bob Hoskin em filmes como o já clássico “Uma Cilada Pra Roger Rabbit” não poderia imaginar as inclinações bizarras, fantasiosas e pouco usuais de sua incomum, e em muitos momentos até perturbadora, estréia na direção, datada de 1988.
E cabe aqui um comentário: Como é difícil encontrar imagens ou qualquer informação sobre esse filme na internet! É como se o mundo tivesse esquecido dele!
“Disfarce Cruel” acompanha um jovem soldado europeu (o exótico, porém, simpático Dexter Fletcher, que muitos anos depois estaria em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”) que luta uma guerra nunca de fato explicada nem contextualizada. Logo no início do filme, ele se torna um desertor e passa a fugir pelos campos infindáveis que vê pela frente. Em algum momento dessa fuga, ele assume a identidade de uma mulher louca e nessa condição é adotado por um grupo de ciganos que fogem, eles próprios, no violento preconceito alheio. Eles julgam ser ele capaz de fazer premonições, e a partir de algum momento, ele adquire de fato esse dom. Porém, a sua paixão pela jovem filha do líder do grupo colocará tudo a perder.
Não há dúvida que Hoskin abraça a estranheza nesse seu ousado trabalho não só na direção como na roteiro, mas se esse aspecto flertar perigosamente com a possibilidade de tornar o filme ruim, ele também lhe confere uma atmosfera poética e desigual.

Ao menos coragem não faltou a Hoskin, nesta sua incursão em um tipo audaz de cinema, fatalista, melancólico, místico, violento, trágico e impactante. Palmas por fazer a diferença!