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terça-feira, 30 de junho de 2020

A Conquista da Honra / Cartas de Iwo Jima

A Conquista da Honra
Quando Steven Spielberg lançou “O Resgate do Soldado Ryan”, seguido anos depois da minissérie “Band of Brothers”, ele estabeleceu entre os filmes de guerra num novo patamar a ser alcançado; diretores que se atreveram, naqueles anos seguintes, a se aventurar pelo gênero tinham por obrigação tentar, ao menos, igualar aquele feito.
Ninguém conseguiu.
Claro que houveram honrosas tentativas, também elas dignas de constar entre as grandes obras do gênero, como “Falcão Negro Em Perigo”, de Ridley Scott, e a interessante duologia de Clint Eastwood lançada em meados de 2006, “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima” –o detalhe interessante do projeto de Eastwood (cujo fato de ser um filme de guerra dirigido por ele já era atrativo o bastante) acabava sendo justamente sua divisão conciliatória e democrática entre dois filmes que assim adotavam os pontos de vista dos dois lados opostos do combate na Segunda Guerra Mundial, nesses tempos em que filmes desse gênero já estão bem longe de serem propaganda.
O primeiro –e visivelmente aquele no qual a produção coloca mais esmero e orçamento –é o ponto de vista norte-americano, “A Conquista da Honra” que, ao contar com roteiro de William Broyles Jr. e do consagrado Paul Hagis (de “Crash-No Limite”), dedica-se aos meandros inusitadamente políticos com os quais os combatentes do Dia D, em Iwo Jima, tiveram de lidar.
O filme entremeia antes e depois através de flashbacks, acompanhando os soldados John ‘Doc’ Bradley (Ryan Phillippe), Rene Gagnon (Jesse Bradford) e Ira Hayes (o ótimo Adam Beach).
Enviados pela marinha até o Pacífico e testemunhas da batalha pela ilha de Iwo Jima, no Japão, o grupo integrou os cinco soldados e um médico que posaram para a icônica foto na qual fincavam a bandeira americana na ilha, tomada após baterias brutais de bombardeios.
Um daqueles momentos divisores de águas na cultura americana que não se pode antecipar, a foto ganhou o mundo, se tornou famosa e levou três de seus integrantes a serem escolhidos para fazer uma turnê de propaganda de guerra pelos EUA, adquirindo fundos para a continuidade do conflito.
Todavia, o grupo presente na ocasião sabia que a história difundida heroicamente pela imprensa não era exatamente aquela; incluindo a veracidade em torno dos soldados que estavam ou não na foto tirada –alguns deles, tinham morrido ali mesmo na ilha e, foram providencialmente substituídos por outros, apenas para que o relato em torno da foto soasse heróico e vitorioso. Nem todos concordaram com isso, sobretudo, o descendente de índios Hayes que desde o começo mostrou-se o mais avesso em acatar as instruções da campanha de marketing e mascarar detalhes da verdade.
O filme de Clint Eastwood, assim, deixa de lado, os minimalismos explosivos do conflito, como inicialmente imaginava-se que ele faria, para mergulhar  na mente perplexa dos soldados americanos que, depois dos exasperos impronunciáveis experimentados em campo de batalha, ainda tiveram de lidar com as ambiguidades mentirosas do jogo político e midiático.

Cartas de Iwo Jima
Lançado alguns meses depois, “Cartas de Iwo Jima”, a contraparte japonesa do trabalho de Eastwood beneficiou-se que alguns elementos inusitados como o período de lançamento mais próximo do início de 2007 –“A Conquista da Honra” foi lançado no fim de 2006 em outubro –e propício a ser lembrado para nomeações do Oscar (para o qual o filme teve quatro indicações); a produção bem mais modesta que resultou num filme mais pessoal e mais redondo da parte de seu diretor; e, curiosamente, a expectativa mais amenizada após o lançamento do filme anterior (que, de certa maneira frustrou alguns expectadores com uma trama mais política e intimista, menos concentrada no combate), permitindo que público e crítica acabasse se surpreendendo com o trabalho bastante singelo, e por isso mesmo certeiro e emocionante obtido por Clint Eastwood aqui.
Diferente do outro filme, onde o protagonismo é dividido entre vários jovens soldados ás voltas com sua experiência, “Cartas de Iwo Jima” tem um único e sólido personagem principal, o Tenente-General Kuribayashi (o excelente Ken Watanabe), comandante incumbido pelo exército japonês a proteger a base fixada na Ilha de wo Jima do iminente ataque norte-americano.
Kuribayashi não dispõe de vastos recursos, nem de aparato bélico muito elaborado –diferente dos inimigos que veem para esmagá-los com poderio infinitamente superior –mas, tem a seu favor um série de pequenas vantagens de ordem estratégica: Kuribayashi morou, anos antes, nos EUA. Ele conhece a mentalidade e o procedimento militar dos inimigos e, embora lamente ter de enfrentar militares que um dia admirou –sentimento capturado nos flashbacks cheios de lirismo e melancolia de quando Kuribayashi viveu nos Estados Unidos –como militar, lhe pesa sempre a dedicação à pátria.
Ele elabora armadilhas, determina a escavação de uma rede de túneis ao longo de todo extenso território que os inimigos irão percorrer, e orienta seus soldados de que a furtividade será seu maior aliado no hora de subjugar os inimigos.
Por isso mesmo, “Cartas de Iwo Jima” se mostra menos explosivo e mais tenso e aflitivo em suas cenas de combate que se intercalam com clareza às angústias naturais de seus soldados, eixo dramático que tem como base as cartas escritas pelos combatentes japoneses ainda no front.
Em tempo: Existe um único personagem a conectar os dois filmes, trata-se do soldado norte-americano vivido por Alessandro Mastrobuono que, em “Cartas de Iwo Jima”, aparece com um lança-chamas na cena em que invade o bunker japonês.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Rocketman

O diretor (e também ator) Dexter Fletcher foi chamado para substituir Bryan Singer, afastado durante as gravações, para terminar as filmagens de “Bohemian Rhapsody”, cinebiografia de Fred Mercury e do “Queen”, o quê explica a imensa similaridade de tom, abordagem e proposta entre esses dois projetos.
Desta vez com direção 100% de Dexter Fletcher, “Rocketman” usa de maneirismos muito parecidos para contar por sua vez a história de Elton John, outra icônica figura do pop rock dos anos 1970 e 80 que, como muitos desses astros, teve seus imensuráveis altos e baixos que, neste caso, passaram pela dependência química, pelo alcoolismo e pela aceitação da própria homossexualidade.
A direção de Fletcher permite que o diferencial entre seus dois filmes seja mesma seu personagem principal: É a verve algo romantizada de Elton John que define a natureza da narrativa que passeia por impressões bem menos realistas, salta gigantescos blocos de tempo, abrevia percepções em números musicais desvairados e surreais, e intercala trechos distintos com um estilo que ameaça se sobrepor ao conteúdo.
Essa opção de linguagem já surge na primeira cena: Elton entrando, espalhafatoso, numa reunião de alcoólicos anônimos. Ali, nessa reunião –a partir da qual os flashbacks haverão de se estender ao longo de todo o filme –ele vai gradual e literalmente se despindo da persona extravagante com a qual encobriu suas inseguranças diante do mundo e revela, afinal, quem é: Nascido Reginald Dwight, morando numa residência classe média da Inglaterra, o protagonista cresceu num lar destituído de amor, esmagado entre a mãe egoísta e insatisfeita (Bryce Dallas Howard) e o pai insensível e desgostoso (Steven Mackintosh). Restando somente o carinho da avó (Gemma Jones, de “Razão e Sensibilidade”) para se refugiar, Reggie –como era chamado –se dedica a um talento que revelou desde cedo: O piano.
Com a juventude, veio a descoberta do rock’n roll, os sonhos de ascender na música e as apresentações em pubs (e a partir daí, já podemos vê-lo na emocionante interpretação de Taron Egerton, vencedor do Globo de Ouro), onde ele descobriu que precisaria se reinventar para alcançar o sucesso, assumindo a alcunha de Elton John –sendo Elton o nome de um baixista com quem trabalhou, e John, uma homenagem a John Lennon.
Ao procurar emprego numa gravadora, ele é apresentado à Bernie Taupin (Jamie Bell), que se torna seu melhor amigo, e com quem passará a compor músicas pelo resto de sua bem-sucedida carreira: Os dois logo vão para Los Angeles, nos EUA, onde as apresentações de Elton o transformam num milionário e no mais novo astro da música.
Contudo, sua solidão e carência afetiva são proporcionais ao seu sucesso e, na falta de, digamos, amor de verdade –que ele pensou equivocadamente ter encontrado em John Reid (Richard Madden) seu ambicioso agente –Elton se afunda em bebidas e drogas.
Assim como no filme sobre Fred Mercury, este também se foca, com invitabilidade, nos vícios de uma estrela fulgurante e talentosa, e também é batizado com o título de uma das mais famosas canções de seu biografado, mas, estranhamente, “Rocketman”, a música, não ocupa uma importância muito grande na trama (se excluirmos o emprego de trechos aleatórios ao longo da primeira metade), e muitas músicas famosas de Elton John, sobretudo, da década de 1980 (ao menos para mim), não aparecem, preteridas por outras nem tão conhecidas assim –e, se houver uma sensação de déjà-vu ao final, quando tocar “I’m Still Standing”, não é por acaso: O mesmo Taron Egerton dublou essa canção na animação “Sing-Quem Canta Seus Males Espanta”.

terça-feira, 25 de junho de 2019

King Kong

Numa revisão, o apaixonado trabalho de Peter Jackson permite transparecer as apuradas técnicas narrativas de adaptação em relação ao assombro de seus efeitos visuais que predominam na forte impressão deixada nas primeiras vezes.
Após a ressaca de bilheterias e premiações sem precedentes da “Trilogia Senhor dos Anéis”, o projeto seguinte de Peter Jackson –ao qual a mídia e o público dedicaram interessada expectativa –representava um retorno à gênese pessoal de seu próprio apreço ao cinema: O “King Kong” original, de 1933, dirigido por Merian Cooper e Ernest Schoedsack, foi uma das obras que definiram a identidade cinéfila de um ainda muito jovem Peter Jackson.
Com efeito, sua refilmagem é frequentemente uma declaração de amor.
Já havia sido feita uma refilmagem, por John Guilhermin, em 1976, e ela tomava o mesmo princípio de atualidade do original, ambientando a trama naquele tempo presente.
Ao decidir recriar com exatidão passional o filme de Merian Cooper, Jackson paradoxalmente afastou-se dele: Se o filme original trata sua época (1933) como o período presente, o “King Kong” de Peter Jackson, ao ambientá-lo no mesmo 1933 agrega elementos distintos da contemporaneidade como a atmosfera nostálgica a emular as características da Grande Depressão, as inescapáveis referências cinematográficas e a recriação de época em termos cinematográficos que, por si só, já proporciona um filtro à realidade inerente ao cinema enquanto arte e exercício de imaginação.
Assim sendo (e com as três horas de narrativa das quais se beneficia), este “King Kong” é, antes de tudo, um filme sobre Ann Darrow, vivida com a adequada noção de desamparo por Naomi Watts –nas mãos dela, a protagonista é tanto uma artista em busca de seu lugar ao sol, como também uma sonhadora romântica que, em algum lugar lá no fundo, alimenta a esperança de achar, ou ser achada, por um príncipe encantado.
Mas, a realidade é dura: Atriz de vaudeville, Ann, como todos, já beira os níveis desesperadores da pobreza. É quase uma providência divina quando o cineasta Carl Denham (Jack Black, evitando magistralmente os personagens cômicos com os quais é associado) lhe chama para estrelar um filme numa aventura imprevista.
King Kong” é também sobre Carl Denham. Visionário e entusiasta do cinema –e malandro acima de tudo –Carl vislumbra em cada projeto seu o sucesso; indiferente ao fato de que realmente nunca o encontra. O próximo, no entanto, promete: De posse de um mapa ancestral, Carl reúne uma equipe, um elenco, uma tripulação e ainda o escritor Jack Driscol (Adrien Brody, pouco aproveitado) para juntos partirem num navio a caminho da lendária Ilha da Caveira, habitada, dizem as lendas, por criaturas pré-históricas. Lá, Carl alimenta planos de fazer uma das mais singulares filmagens já feitas –e toda a primeira hora do filme de Jackson é dedicada a esmiuçar essas motivações, as dinâmicas estabelecidas entre os distintos personagens (como a afeição romântica nascida entre Ann e Jack; as intermináveis manobras de Carl que levam todos no papo; ou a hilária prepotência vaidosa do astro da película, vivido por Kyle Chandler, em sua melhor atuação no cinema), a empatia por eles nutrida e, por consequência, a elevação exponencial do suspense quando por fim estiverem em perigo.
Quando “King Kong” já está quase na metade, sua improvavelmente longa duração começa a se justificar: Jackson constrói com ela uma atmosfera que poucos realizadores hoje têm tanta paciência para fazer.
A Ilha da Caveira, portanto, enche os olhos do expectador com seus perigos inimagináveis que seus efeitos visuais de última geração convertem em momentos assombrosos.
E Kong. Quando o protagonista de fato deste filme surge, ele se mostra assombroso, personificado por uma excelência tátil por meio da computação gráfica e, sobretudo, através da performance minuciosa e abrangente de Andy Serkis que traz para o icônico primata gigante a mesma maestria que ele ostentou em Gollum, de “O Senhor dos Anéis”.
O resto é história. Falou-se muito também sobre o fato de Peter Jackson exercitar seu vasto aparato cinematográfico sobre um filme do qual todo mundo sabia o desenlace final, mas ele não o faz presumindo que o expectador não o soubesse: Em cada circunstância que leva a trama a avançar (a captura de Ann pelos nativos; sua entrega ao deus Kong; os perigos experimentados por Jack e a tribulação para reencontrá-la; a captura de Kong; e, por fim, sua apresentação e desastrosa fuga em Nova York), Jackson enfatiza não as surpresas em potencial, mas o drama de se moldar uma tragédia irreversível.
Esse primor encontra seus acordes mais elevados na construção complexa e nada verbal da relação afetiva entre Ann e Kong –e que culmina, por sua vez, numa cena inexistente em todas as outras versões, e que pode ser nomeada como a mais bela e emocionante sequência desta produção: Quando ela e Kong, pouco antes da perseguição aérea que o levará para sempre, brincam de escorregar no gelo nas águas congeladas do rio Hudson.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A Legião Perdida


Diretor dotado de personalidade e orientação próprias, passa longe da intenção de Kevin MacDonald (de “O Último Rei da Escócia”), ao revisitar a lenda da Nona Legião de Roma desaparecida, reprisar o épico de Ridley Scott, “Gladiador” –muito de sua estrutura e estilo, inclusive, foge dessa comparação.
A Nona Legião de Roma foi uma das muitas que fizeram incursões pelo norte inexplorado da Bretanha, quando o Império Romano buscava arduamente estender ao máximo seus domínios. Foi, entretanto, a única que não regressou: Diante de seu misterioso desaparecimento, o Imperador Adriano decretou a construção de uma grande muralha que determinava os limites do mundo conhecido –para além de suas fortificações, ficavam as terras ermas das selvagens tribos bretãs, certamente responsáveis pelo desaparecimento de tantos soldados.
A trama do filme de MacDonald –na única similaridade maior com o filme de Scott –pega emprestada a história real para dela fazer o eixo que impulsa seu enredo fictício.
Channing Tatum é, assim, Marcus Flavius Aquila, oficial romano designado para um dos entrepostos na Muralha de Adriano e filho do capitão da lendária Nona Legião.
Passados vinte anos do ocorrido, Marcus deseja, acima de tudo, restaurar a honra do nome da família; desde então, as especulações até cogitam a possibilidade de seu pai ter entregue o estandarte da águia, o símbolo da honra de Roma, para os inimigos.
Servindo como oficial, Marcus demonstra grande bravura, liderando suas tropas contra selvagens ofensivas dos nativos –e numa batalha é severamente ferido.
Enviado duzentas léguas ao sul, na mansão de um tio (Donald Sutherland), Marcus conhece o escravo Esca (o sempre ótimo Jamie Bell) quando este demonstra nobreza incomum numa arena –tão incomum que Marcus salva sua vida, o que deixa Esca em eterna dívida para com ele.
Quando surge um vago indício de que o estandarte de uma águia romana (certamente o do Nona Legião), foi tomado por uma tribo nortista de bretões, Marcus toma a decisão de seguir com Esca para além da Muralha de Adriano, e encontra-la, a fim de restaurar em definitivo a honra de seu pai e de sua família.
Mal sabe Marcus, porém, que sua jornada será ainda mais dolorosa e difícil do que ele poderia imaginar: Para além daquela fronteira, no inóspito mundo desconhecido, os conceitos de mestre e escravo que vinculam Marcus e Esca nada significam –mais, podem encontrar circunstâncias que até os inverterão! –e a sobrevivência de ambos, em meio à tribos cuja hostilidade está à flor da pele, pode depender de uma lealdade que eles não necessariamente serão capazes de manter um pelo outro.
Mais do que enfatizar a coreografia das batalhas –embora ele até dê uma colher de chá com alguns conflitos bem executados –o diretor MacDonald prefere se esbaldar com o suspense intenso inerente ao fato de seus protagonistas se lançarem numa missão insana nos confins distantes de um mundo selvagem, com o registro naturalista e autêntico (característico de um documentarista) de uma região onde a natureza se revela rica em texturas, humidade e perigos, e com a dinâmica fascinante entre Marcus e Esca, na qual a tensão se faz presente pelos ressentimentos representados pelos povos antagônicos a que eles pertencem, e pela constante mudança hierárquica que sua atribulada jornada promove entre os dois.
Curiosamente, num acaso que costuma assombrar algumas produções hollywoodianas, “A Legião Perdida” foi lançada no mesmo ano, 2011, que um outro filme, também ele girando em torno do mito da Nona Legião, o bem mais modesto “Centurião”, com Michael Fassbender.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Quarteto Fantástico

Talvez, o filme mais massacrado pela crítica e ignorado pelo público do ano. 
Mas, falando francamente, não chega a ser essa bomba que muitos falam. Não chega, também, a ser bom. Entretanto, não acho que mereça ganhar, por exemplo, o prêmio de Pior Filme de 2015, no Framboesa de Ouro (embora essa possibilidade exista). 
É uma ficção científica esmerada em sua maior parte do tempo, e com boa e caprichada produção. O problema desse novo “Quarteto Fantástico” é que suas qualidades ficam à sombra de seus erros, que depõem contra o bom produto que poderia ter sido. E em seu terço final, a narrativa se ressente dos problemas do filme, empalidecendo, cedendo à essa pressão, e concluindo muitas cenas com artifícios que beiram o ridículo, o quê é terrível para um filme que começa pretendendo-se realista, no nível dos filmes de Christopher Nolan. 
Outra influência que o filme parece ter é o “Hulk” de Ang Lee: Ele, por vezes, parece desviar-se de muitas características enraizadas dos quadrinhos (e que foram respeitadas à risca nas adaptações anteriores feitas em 1988, por Roger Corman –e nunca lançada comercialmente –e 2005, por Tim Story), para abraçar um conceito de gênero mais específico, mais calcado em alterações artisticamente justificáveis. Mas, o diretor Josh Trank (do muito mediano “Poder Sem Limites”) não tem aquela profunda noção de narrativa de Ang Lee, que permitiu a ele dar a seu “Hulk” uma atmosfera tão pouco usual. Na verdade, não falta somente essa noção de narrativa à Trank; falta-lhe também uma certeza do que, de fato, ele quer, qual é a direção que, afinal, pretende dar a seu filme. É isso tudo que prejudica as coisas, e faz com que o roteiro, o elenco, e todo o mais se perca em dado momento. 
Cenas particularmente ridículas: Quando resolvem fazer a tal viagem interdimensional, Reed Richards tem a idéia de levar seu melhor amigo com eles, Ben Grimm, que nada mais é do que um latoeiro trabalhando num ferro-velho. Por quê? Porque morando próximos um do outro quando eram crianças, e ele é seu amigo! Outra: Ao fazerem a viagem (Reed, Ben, e mais Johnny Storm e Victor Von Doom), eles esquecem (ou talvez a produção tenha esquecido...) do outro membro do quarteto fantástico, Sue Storm, a futura mulher-invisível; ela fica na Terra (!). Mas, como ela obtem seus poderes? Bem, isso não é muito bem explicado pelo filme, mas parece que ela os adquire quando a nave retorna, e emite uma espécie de explosão de energia. Mas, o mesmo acontece em outros momentos do filme (a viagem interdimensional com essa explosão de energia), pelo menos umas outras três vezes, e em todas elas, outras pessoas estão ali presentes, sem que nada lhes aconteça! 
Agora, eu percebo que, se for elaborar todos os deslizes que vão se sucedendo no filme a partir de determinado ponto, este se tornará um texto grande demais. Resumindo: “Quarteto Fantástico” nos faz perceber que, embora façam parecer fácil, as adaptações bem-sucedidas e bem feitas da DC Comics e, em especial, da Marvel Studios são trabalhos feitos com cuidado e critério, que merecem nosso reconhecimento.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O Expresso do Amanhã

Num futuro gélido e desprovido de esperança, tudo o que restou da humanidade se encontra confinado nos vagões de um trem imenso, que segue por uma extensão igualmente imensa de trilhos cuja rota, que cruza todo o planeta, leva exatamente um ano para ser feita. 
A ordem de habitação desses vagões segue uma espécie de “cadeia alimentar”, sendo assim, os ocupantes dos últimos vagões são, por assim dizer, a escória humana: comem apenas barras nutritivas suspeitas, vivem precariamente em termos de higiene e saúde, e quanto têm filhos, eles por vezes lhes são tomados em prol dos passageiros mais afortunados dos vagões à frente. Até que, após muito planejamento, uma rebelião tem início, conduzida de forma inicialmente relutante pelo ponderado Curtis. A intenção é avançar, vagão após vagão, até por fim chegarem à locomotiva, onde dizem reside o todo poderoso e messiânico Wilford. 
Estreando no cinema norte-americano, o diretor sul-coreano Bong Joon Ho (realizador do magistral “Mother”) imprime seu inegável talento na composição deste tenso conto de ficção científica adaptado de uma graphic-novel francesa, que guarda ecos de “Expresso Para O Inferno” de Andrei Konchalovsky (e que tinha roteiro de Akira Kurosawa), mas cujas características mais palatáveis, certamente são aquelas que o aproximam da série “Mad Max”, sobretudo, seu bem sucedido registro da insanidade, e o modo como faz uma peculiar síntese da raça humana e das desigualdades sociais.
No papel de Curtis, Chris Evans mostra um louvável esforço para afastar-se de seu mais emblemático personagem (o Capitão América), cercado por um elenco de tirar o chapéu: John Hurt, Octavia Spencer, Jamie Bell, Tilda Swinton, Ed Harris e outros.