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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Resistência


 Responsável pelo aclamado “Rogue One”, o diretor Garreth Edwards realizou este épico de ficção científica que, por sua vez, em muito lembra as obras de Neil Bloomkamp (como “Distrito 9”), nas quais o futurismo inerente ao gênero serve como um estudo das complexidades humanas. Centralizando um tema muito em pauta nas discussões atuais, “Resistência” esboça um mundo onde a Inteligência Artificial evoluiu exponencialmente, a ponto de fazer frente, como espécie, à própria raça humana; nesse mundo concebido por Edwards e por seu co-roteirista, o também diretor Chris Weitz, as máquinas podem sentir (são os chamados ‘simuladores’ tão incrivelmente similares aos humanos que com eles se confundem) e, na medida do possível, podem também lutar por seus direitos –nas imagens de arquivos graduais que abrem o filme, somos inteirados da história que colocou humanos e máquinas uns contra os outros, e de como os primeiros perderiam a batalha para os segundos não fosse uma nave colossal de guerra intitulada “Nomad”, capaz de dizimar cidades inteiras escaneando seus alvos de altitudes quase orbitais.

É curioso, portanto, que uma vez tendo contextualizado esse mundo incrível (e, ainda assim, adornado de ponta a ponta com elementos palpitantes de realidade) o diretor foca sua trama num cerne assim tão intimista: O calejado soldado Joshua (John David Washington, filho de Denzel Washington e protagonista de “Tenet”), no decurso de uma missão na qual deveria rastrear a misteriosa Nirmata (uma entidade ou alguém que controla todas as estratégias adotadas pelas máquinas), acaba perdendo seu grande amor, Maya (Gemma Chan, de “Eternos”) em meio à um pesado ataque em ilhas isoladas do continente outrora conhecido como Ásia onde as máquinas criaram um reduto no qual embrenham-se e misturam-se robôs, ‘simuladores’ e humanos simpatizantes.

Cinco anos depois, Joshua é chamado para uma nova missão: A Coronel Howell (Alisson Janney) requer os resquícios de memória dele, de quando lá esteve infiltrado, para voltar à Nova Ásia e por lá encontrar o que parece ser uma espécie de arma elaborada pela resistência a favor das máquinas. Tal arma, Joshua descobre, é a garotinha Alphie (Madeleine Yuna Voyles), um ‘simulador’ de tamanha perfeição que replica involuntariamente o comportamento de uma criança, e como tal, aprende, cresce e evolui dia-a-dia. Alphie também tem poderes –pode controlar remotamente algumas máquinas próximas –que irão evoluir junto como ela, até que seja capaz de controlar a própria “Nomad” e destruí-la.

A missão da ensandecida Coronel Howell (como são ensandecidos todos os militares deste filme, inclusive seu vilão-mor, interpretado pelo ótimo Ralph Ineson) é, assim, eliminar Alphie, entretanto, Joshua é, ao mesmo tempo, aquele que pode levá-la até ela, e aquele que não a deixará eliminá-la: Alphie pode ou não ter sido criada com base na filha que ele perdeu no mesmo ataque em que Maya, ainda grávida, foi morta (!). Mais; talvez, a própria Maya possa ainda estar viva (pois há uma chance de que fosse ela a misteriosa Nirmata, esse tempo todo) e somente Alphie é capaz de levá-lo até onde ela está.

Construído com tanta ação quanto reflexão, o filme de Edwards não esconde que seu diretor ainda trabalha sobre a sombra da mitologia “Star Wars” –como lá, a premissa, no fim das contas, continua sendo a de rebeldes envoltos em surpreendente tecnologia tentando minar o poder destrutivo de uma Estrela da Morte –porém, ele o faz com uma obra de qualidade insuspeita. Mais do que qualquer outro filme já feito sobre o tema da Inteligência Artificial e seu eterno embate contra os nossos conceitos e preconceitos, “Resistência” apaga as linhas divisórias entre o que é humano e o que é mecânico –mais até do que obras que foram audaciosamente nessa direção como “Blade Runner” e “Blade Runner 2049”, “A.I.Inteligência Artificial”, “Ex-Machina” e o reflexivo “Ghost In The Shell” –criando personagens, ambientes e cenários que levantam a perturbadora discussão: Qual é, afinal, a virtude dos seres de carne e osso se eles ostentam tanta ou até mais predisposição à destruição e à auto-destruição do que os seres sintéticos?

Num emprego absurdamente inteligente e hábil dos efeitos visuais (merecedores de ganhar um certo careca dourado...), o mundo concebido em “Resistência” nos entrega cenas espantosas de um ambiente palpável, orgânico, não despido de tradição, empatia e texturas infindas para mostrar um cenário onde máquinas se integraram de tal forma ao ser humano que se tornaram quase simbióticas em relação à coisas que, presumia-se, eram tão intrinsecamente humanas como sua ancestralidade, seu exotismo e suas crenças.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Transformers - A Era da Extinção


 Após “O Lado Oculto da Lua” e seus contratempos, um alerta vermelho acendeu nos corredores da Paramount Pictures e nos escritórios de Michael Bay: A franquia “Transformers” pedia por uma espécie de reboot e os realizadores precisavam compreender o momento certo de fazê-lo, se antecipando à reação negativa do público; que seriam bilheterias cada vez menores. Dessa forma, “A Era da Extinção” abriu mão de todo o núcleo de protagonistas humanos dos dois filmes anteriores –que, convenhamos, não serviam para muita coisa nos filmes e tinham ainda menos importância na série de desenhos de onde se inspiravam –focando em novos acréscimos ao elenco. Saia assim o histrionismo de Shia LaBeouf e entrava em seu lugar a seriedade apropriada e confiável de Mark Wahlberg, com quem Michael Bay havia trabalhado anteriormente no ótimo “Sem Dor Sem Ganho”.

É curioso notar como, dessa forma, “A Era da Extinção” apontou involuntariamente para um calcanhar de Aquiles que a franquia possuía desde seu início: A insistência dos roteiristas em privilegiar o ponto de vista dos personagens humanos (ainda que construídos com tanta rasura quanto os personagens não humanos...) e deixar num nada satisfatório segundo plano as verdadeiras estrelas do show, os robôs gigantes, Autobots e Decepticons, que se enfrentam numa guerra interminável.

Assim, entra em cena, Cade Yeager (Mark Wahlberg, recém-saído de uma indicação ao Oscar por “Os Infiltrados”), fazendeiro norte-americano com todas as características de herói involuntário de ação: É pai de uma jovem ávida por procurar encrenca (Nicola Peltz, de “Tempo”, uma candidata genérica à ‘nova Megan Fox’), é viúvo e solitário (gancho para o interesse amoroso, que veio no filme seguinte) e muito hábil em mecânica –conhecimento que vem a calhar quando acaba caindo em suas mãos a carcaça de um caminhão antigo pedindo para ser restaurado. Quando acontece de encaixar e ajustar as peças certas, Cade não apenas conserta o caminhão, mas restaura suas diretrizes, descobrindo assim que ele é Optimus Prime (!), o poderoso líder dos Autobots.

Como é perfeitamente previsível, isso arremessa Cade diretamente no centro da guerra entre as duas facções de robôs, sobretudo, depois que sua filha acaba indo parar numa nave pertencente aos alienígenas (!), o que leva Cade a ter de aturar o namoradinho metido à besta dela (Jack Reynor, de “Midsommar-O Mal Não Espera A Noite”) para poder salvá-la, indo parar do outro lado do mundo, na China (uma nada aleatória escolha de ambientação, visto a China abrigar um dos mais numerosos públicos do planeta), onde as batalhas demolidoras e barulhentas de praxe se seguem.

Mais do que a satisfação do público (ainda que, no geral, a cotação deste quarto longa-metragem tenha sido melhor que as dos dois últimos), e mais do que a aprovação da crítica (esta cada vez mais injuriada com os vícios de linguagem e as redundâncias da narrativa de Michael Bay), “A Era da Extinção” é considerado um exemplar bem-sucedido dentro da saga por ser um orçamento consideravelmente menor que os filmes anteriores (algo que Bay havia prometido já durante a pré-produção) e, mesmo assim, manter o bom desempenho nas bilheterias, o que proporcionou à “Franquia Transformers” uma sobrevida.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Godzilla II - O Rei dos Monstros


 Último capítulo que faltava ser assistido do assim chamado ‘Monsterverse’ –eu e minha mania de assistir filmes sequenciados fora de ordem... –este “Godzilla II” se ambienta após “Godzilla” (do qual é continuação direta) e “Kong-AIlha da Caveira”, e pouco antes de “GodzillaVs Kong”.

O universo compartilhado de filmes estrelados por monstros gigantes icônicos do cinema terminou funcionando com mais eficiência do que o Universo da DC, no qual os Estúdios da Warner depositavam muito mais expectativa. Grande parte disso se deve, ironicamente, pelo pouco caso que o próprio estúdio fez dessa série de filmes –o que proporcionou liberdade criativa aos realizadores.

Certamente, a simplicidade da fórmula também ajudou muito: Amparadas assumidamente na pirotecnia, nenhuma dessas produções ocultava o fato de que os personagens humanos serviam como um tênue e tímido suporte às sequências de destruição promovidas pelos embates dos monstros. A trama aqui soa como uma obrigação burocrática. Um pretexto que os próprios realizadores reconhecem como sendo enfadonho e necessário; e, para tanto, transformam tais passagens em momentos básicos, fugazes e simplórios. Nem mesmo a presença de um elenco estelar ameniza esse descaso.

Os protagonistas humanos de “Godzilla II” são a garota Maddison (Millie Bobby Brown, da série “Stranger Things”), seus pais, a Dra. Emma Russell (a maravilhosa Vera Farmiga) e o Dr. Mark Russell (Kyle Chandler, de “Super 8”) e os cientistas ao redor deles, movidos por ocasionais e conflitantes motivações, interpretados por Charles Dance, Ken Watanabe, Sally Hawkins e Zhang ZiYi. São os nomes mais proeminentes que cobrem o núcleo humano e se encarregam dos diálogos só para que os produtores possam argumentar que seu filme tem sim uma história, contudo, a razão de ser de “Godzilla II” são mesmo os monstros gigantescos –denominados Titans –materializados em cena graças aos efeitos visuais de última geração.

Na comparação com os demais filmes do ‘Monsterverse’, “Godzilla II” traz a reunião mais numerosa de monstros em cena: Além do personagem principal, Godzilla –cujo surgimento no filme de 2014 despertou o interesse de diversos cientistas mundiais, inclusive aqueles a frente do Programa Monarch –aparecem também os míticos Mothra (uma mariposa gigantesca, tal como Godzilla, oriunda dos mesmos filmes japoneses dos estúdios Toho), Rodan (um pterodáctilo gigante constituído de fogo), Ghidorah (o grande vilão, uma espécie de dragão de três cabeças) e muitos outros.

Isso por conta de uma constatação megalomaníaca (e, no fim das contas, um tanto idiota) de alguns cientistas de que a raça humana é uma infecção no planeta, e os monstros representam glóbulos brancos criados pela natureza para combater esse “vírus”. Assim sendo, os monstros –ou Titans –seriam uma correção natural para as catástrofes climáticas acarretadas pela superpopulação mundial. Entretanto, o volume exorbitante de Titans que acabam despertando excede de tal forma o previsto que, liderados pelo mortífero Ghidorah, podem fazer com que a humanidade entre em extinção.

Como é inevitável, esse argumento coloca o poderoso Godzilla, uma vez mais, como a última esperança para que os seres humanos sejam salvos.

Haviam pequenos e pertinentes detalhes em cada um dos filmes realizados dentro do ‘Monsterverse’, a maioria deles, reflexos do manejo eventualmente inspirados de seus diretores: No primeiro “Godzilla”, a percepção de espetáculo a um só tempo intimista e épico de Gareth Edwards conferia-lhe diferenciação; em “Kong” o diretor Jordan Vogt-Roberts oferece um senso singular de cinema, enfatizando sua paixão por um sem-número de produções dos anos 1970 (onde a trama era ambientada); e no posterior “Godzilla Vs Kong” (para muitos, o melhor exemplar de todos), o diretor Adam Wingard uniu com propriedade e esperteza todas essas e outras facetas mais para construir um espetáculo feito de todos os elementos funcionais dos filmes anteriores. Aqui, neste segundo “Godzilla”, a narrativa perspicaz de ritmo e clímax do diretor Michael Dougherty (também ele vindo das fileiras do gênero terror como muitos dos outros) até compreende os inúmeros pontos positivos da produção e corre para valorizá-los, no entanto, a grandiosidade dos embates não chega a oferecer algo novo, os efeitos visuais não contribuem com qualquer sentimento de ineditismo ao que os filmes anteriores já trouxeram, e sua trama –que ousa apenas no detalhe de reunir o maior coletivo de monstros gigantes até então –se estende em debates e considerações verborrágicos que apenas preenchem tempo de filme.

Nunca aquela máxima de que a história apenas justifica a ação foi tão bem ilustrada quanto em “Godzilla II-O Rei dos Monstros”.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Ilha dos Cachorros


 Wes Anderson tem uma forma toda especial de mostrar-se a um só tempo contundente, tocante, desconcertante e lúdico em suas narrativas. Essas características normalmente se ressaltam quando ele trabalha com animações. “Ilha dos Cachorros” é seu segundo trabalho dentro desse território, antecedido unicamente por “O Fantástico Senhor Raposo”.

Nele –num reflexo bastante crítico da concepção de Anderson ao olhar a sociedade moderna –os humanos são menos compreensíveis que os animais; isso porque os cães não só narram a trama e participam dela ativamente na maior parte do tempo (com diálogos existencialistas e tudo o mais), mas também porque tudo se ambienta no Japão, e os personagens humanos falam somente o idioma de lá, sendo que o filme propositadamente omite as legendas das passagens em japonês –com exceção, de trechos traduzidos por intérpretes, legendas pontuais (e raras), e uma única personagem (uma aluna de intercâmbio) que fala a língua ocidental.

E é curioso notar assim o fascínio  e a intransponibilidade comunicativa que o Japão exerce tanto em Wes Anderson, como em Sofia Coppola (e seu “Encontros e Desencontros”), eles que têm em seu cinema muitas coisas em comum; muito mais do que apenas a presença de Bill Murray em suas obras –que aliás, aqui aparece dublando o personagem Boss!

Sendo assim, de modo geral, a trama de teor político que se descortina ao público é, em grande medida, expressada pelo ponto de vista dos cachorros: Após uma breve introdução de uma lenda segunda a qual o Japão –ou mais precisamente a cidade de Megasaki –viu-se polarizado entre apreciadores de cães e adoradores de gatos, acompanhamos, no futuro, os cães se tornarem alvo de uma manobra política do prefeito Kobayashi para serem dizimados, ao levarem a culpa pela disseminação de um vírus.

Os cães são assim exilados numa ilha –a Ilha do Lixo –e por lá abandonados. Anos depois, um grupo de cães (entre os quais está o narrador da história) testemunha a chegada de uma aeronave à ilha. Ela trás o jovem Atari Kobayashi, sobrinho do prefeito, indo atrás do seu cão guarda-costas, Spots (voz de Liev Schreiber), o primeiro animal para lá enviado.

Todavia, o paradeiro de Spots não é fácil de ser encontrado: Tudo indica que (se sobreviveu...) ele foi parar em algum lugar do extremo oposto da ilha, dominado por um grupo de cães selvagens de hábitos canibais!

Enquanto Atari tenta chegar lá, auxiliado meio a contra gosto pelo desiludido vira-lata Chief (voz de Bryan Cranston), as autoridades de Megasaki preparam uma medida para exterminar de uma vez a mal-fadada ilha dos cachorros: A fim de abafar a descoberta de que o vírus é perfeitamente curável (o que torna assim o retorno dos cães para o continente possível), o prefeito Kobayashi, ignorante da presença do sobrinho por lá, quer aprovar uma erradicação total à ilha, onde cães-robôs disseminarão um composto venenoso a partir de wasabi (!) que matará todos os seres vivos que estiverem lá.

Datado de 2018, é incrivelmente curioso, como um elemento essencial da narrativa de “Ilha dos Cachorros” remete ao cenário de 2020: O do vírus usado para manipular os anseios da população com fins políticos e certamente unilaterais.

Para além desse viés visionário, o diretor Wes Anderson ainda criou uma animação emocionante e pertinente, sobre a intolerância, sobre a intoxicante incapacidade de comunicação, e sobre a necessidade fundamental da preservação animal e ambiental.

terça-feira, 30 de junho de 2020

A Conquista da Honra / Cartas de Iwo Jima

A Conquista da Honra
Quando Steven Spielberg lançou “O Resgate do Soldado Ryan”, seguido anos depois da minissérie “Band of Brothers”, ele estabeleceu entre os filmes de guerra num novo patamar a ser alcançado; diretores que se atreveram, naqueles anos seguintes, a se aventurar pelo gênero tinham por obrigação tentar, ao menos, igualar aquele feito.
Ninguém conseguiu.
Claro que houveram honrosas tentativas, também elas dignas de constar entre as grandes obras do gênero, como “Falcão Negro Em Perigo”, de Ridley Scott, e a interessante duologia de Clint Eastwood lançada em meados de 2006, “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima” –o detalhe interessante do projeto de Eastwood (cujo fato de ser um filme de guerra dirigido por ele já era atrativo o bastante) acabava sendo justamente sua divisão conciliatória e democrática entre dois filmes que assim adotavam os pontos de vista dos dois lados opostos do combate na Segunda Guerra Mundial, nesses tempos em que filmes desse gênero já estão bem longe de serem propaganda.
O primeiro –e visivelmente aquele no qual a produção coloca mais esmero e orçamento –é o ponto de vista norte-americano, “A Conquista da Honra” que, ao contar com roteiro de William Broyles Jr. e do consagrado Paul Hagis (de “Crash-No Limite”), dedica-se aos meandros inusitadamente políticos com os quais os combatentes do Dia D, em Iwo Jima, tiveram de lidar.
O filme entremeia antes e depois através de flashbacks, acompanhando os soldados John ‘Doc’ Bradley (Ryan Phillippe), Rene Gagnon (Jesse Bradford) e Ira Hayes (o ótimo Adam Beach).
Enviados pela marinha até o Pacífico e testemunhas da batalha pela ilha de Iwo Jima, no Japão, o grupo integrou os cinco soldados e um médico que posaram para a icônica foto na qual fincavam a bandeira americana na ilha, tomada após baterias brutais de bombardeios.
Um daqueles momentos divisores de águas na cultura americana que não se pode antecipar, a foto ganhou o mundo, se tornou famosa e levou três de seus integrantes a serem escolhidos para fazer uma turnê de propaganda de guerra pelos EUA, adquirindo fundos para a continuidade do conflito.
Todavia, o grupo presente na ocasião sabia que a história difundida heroicamente pela imprensa não era exatamente aquela; incluindo a veracidade em torno dos soldados que estavam ou não na foto tirada –alguns deles, tinham morrido ali mesmo na ilha e, foram providencialmente substituídos por outros, apenas para que o relato em torno da foto soasse heróico e vitorioso. Nem todos concordaram com isso, sobretudo, o descendente de índios Hayes que desde o começo mostrou-se o mais avesso em acatar as instruções da campanha de marketing e mascarar detalhes da verdade.
O filme de Clint Eastwood, assim, deixa de lado, os minimalismos explosivos do conflito, como inicialmente imaginava-se que ele faria, para mergulhar  na mente perplexa dos soldados americanos que, depois dos exasperos impronunciáveis experimentados em campo de batalha, ainda tiveram de lidar com as ambiguidades mentirosas do jogo político e midiático.

Cartas de Iwo Jima
Lançado alguns meses depois, “Cartas de Iwo Jima”, a contraparte japonesa do trabalho de Eastwood beneficiou-se que alguns elementos inusitados como o período de lançamento mais próximo do início de 2007 –“A Conquista da Honra” foi lançado no fim de 2006 em outubro –e propício a ser lembrado para nomeações do Oscar (para o qual o filme teve quatro indicações); a produção bem mais modesta que resultou num filme mais pessoal e mais redondo da parte de seu diretor; e, curiosamente, a expectativa mais amenizada após o lançamento do filme anterior (que, de certa maneira frustrou alguns expectadores com uma trama mais política e intimista, menos concentrada no combate), permitindo que público e crítica acabasse se surpreendendo com o trabalho bastante singelo, e por isso mesmo certeiro e emocionante obtido por Clint Eastwood aqui.
Diferente do outro filme, onde o protagonismo é dividido entre vários jovens soldados ás voltas com sua experiência, “Cartas de Iwo Jima” tem um único e sólido personagem principal, o Tenente-General Kuribayashi (o excelente Ken Watanabe), comandante incumbido pelo exército japonês a proteger a base fixada na Ilha de wo Jima do iminente ataque norte-americano.
Kuribayashi não dispõe de vastos recursos, nem de aparato bélico muito elaborado –diferente dos inimigos que veem para esmagá-los com poderio infinitamente superior –mas, tem a seu favor um série de pequenas vantagens de ordem estratégica: Kuribayashi morou, anos antes, nos EUA. Ele conhece a mentalidade e o procedimento militar dos inimigos e, embora lamente ter de enfrentar militares que um dia admirou –sentimento capturado nos flashbacks cheios de lirismo e melancolia de quando Kuribayashi viveu nos Estados Unidos –como militar, lhe pesa sempre a dedicação à pátria.
Ele elabora armadilhas, determina a escavação de uma rede de túneis ao longo de todo extenso território que os inimigos irão percorrer, e orienta seus soldados de que a furtividade será seu maior aliado no hora de subjugar os inimigos.
Por isso mesmo, “Cartas de Iwo Jima” se mostra menos explosivo e mais tenso e aflitivo em suas cenas de combate que se intercalam com clareza às angústias naturais de seus soldados, eixo dramático que tem como base as cartas escritas pelos combatentes japoneses ainda no front.
Em tempo: Existe um único personagem a conectar os dois filmes, trata-se do soldado norte-americano vivido por Alessandro Mastrobuono que, em “Cartas de Iwo Jima”, aparece com um lança-chamas na cena em que invade o bunker japonês.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Godzilla


A vontade do ótimo diretor Garreth Edwards em emular Steven Spielberg é tanta que ele a extrapola: As cenas que sugerem a presença do famoso monstro nas quais mais se sugere do que se mostra remetem imediatamente às cenas elaboradas em “Jurassic Park” e principalmente em “Tubarão”.
Jovem e talentoso, Edwards (cujo crédito como realizador do interessante e independente “Monstros” certamente viabilizou seu passe para este projeto) compreendeu que havia a necessidade de uma referência cinematograficamente mais salutar nesta nova versão do cultuado lagartão hipônico depois da péssima produção de 1998, dirigida por Rolland Emmerich.
E Edwards dá a cara à tapa: Honra não apenas as lições de Spielberg como também realiza uma cena inteira com a arrepiante trilha sonora de Ligety para “2001-Uma Odisséia No Espaço”, de Kubrick; confere ao seu filme um elenco povoado de rostos não só famosos, mas indiscutivelmente competentes (o japonês Ken Watanabe, a inglesa Sally Hawkins, Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, Julliete Binoche); e finca o pé numa caracterização absolutamente fiel ao Godzilla no designer que ele se apresenta nos filmes originais –mesmo aqueles que padeciam de uma produção rudimentar.
Um longo prólogo (que dura mais do que o necessário) mostra os personagens de Cranston e Binoche (que infelizmente não têm tempo de tela o bastante) às voltas com uma estarrecedora descoberta dele: Após sucessivas pesquisas, uma raça desconhecida de monstros que se alimentam de radiação, os Mutos, é descoberta (e despertada) no Japão.
Anos depois do ocorrido –que a própria corporação envolvida no caso mantém cercada de mistério –e com as investigações à cargo do filho dos envolvidos naquele ocorrido (o papel de Aaron Talor-Johnson), os monstros retornam, agora nos dias atuais, novamente reanimados por radiação. E desta vez, sua sanha de destruição se revela implacável e inacobertável!
Ao mesmo tempo, surge uma criatura abissal e imensurável: o Godzilla. Rastreando esses perigos catastróficos em potencial, as autoridades norte-americanas elaboram o único plano possível: confrontá-los com suas mais poderosas armas.
Entretanto, a saída talvez esteja em permitir que o próprio Godzilla dê cabo de todos eles.
Além da luxuosa produção –que não poupa esforços ao estender a trama para diversos continentes numa notável escala global –e da sua peculiar percepção das cenas de destruição, bem como a forma pouco usual de reger o drama, que conferem sabor ao filme, o trabalho de Edwards ostenta uma nítida intenção de afastar-se às comparações com o “Godzilla” de Emmerich, e nesse esforço de se levar a sério acaba gerando uma estranha incongruência entre a sisudez de sua narrativa (e na seriedade compenetrada de seus intérpretes) e a natureza escapista do filme; Godzilla, afinal, ainda é um lagarto gigante de obras com apelo infanto-juvenil de matinê.
Se falta algum senso de humor para lembrar esse detalhe, o filme de Edwards ao menos compensa esse estoicismo com um belíssimo refinamento.

sábado, 29 de julho de 2017

O Último Samurai

Provavelmente o melhor trabalho do diretor Edward Zwick no terreno dos filmes épicos é, e continuará sendo por muito tempo, o brilhante drama de guerra “Tempo de Glória”, mas isso não significa que, nas décadas seguintes, ele não tenha tentado, senão superar sua obra-prima, ao menos igualá-la; esforços como o pouco conhecido e não muito eficiente “Coragem Sob Fogo” (com Meg Ryan e Denzel Washington) e este mais bem-sucedido “O Última Samurai” são indicações de um realizador que conseguiu conceber uma obra de qualidade espantosa até para si próprio, e que depois passou a tentar perseguir um novo pico de excelência.
E aqui ele até busca disfarçar bem esse objetivo: Se “Tempo de Glória” se passava na Guerra de Secessão Norte-Americana, “O Último Samurai” leva a ação para o Japão –ainda que partilhe do mesmo período de tempo, final do século XIX.
Nathan Algren, personagem de Tom Cruise, é, por sinal, um veterano daquela mesma guerra, beberrão e decadente por conta das agruras que as experiências em batalha lhe proporcionaram, ele é enviado por iniciativas privadas, como oficial militar norte-americano, ao Japão na esperança de que use sua habilidade em treinamento para auxiliar na luta contra samurais insurgentes que se opõem ao monopólio político americano sobre o Japão Imperial, uma situação que ele encara com o cinismo de quem pouco se importa.
É uma narrativa bastante norte-americana e, por isso mesmo, conivente, condescendente e dotada de considerável displicência em relação aos assuntos estrangeiros e da relação de superioridade dos EUA com eles. Ainda que inegavelmente charmosa.
O envolvimento de um astro como Tom Cruise promove, claro, uma abordagem respeitosa dessa outra cultura –no que o filme tem de mais admirável –embora essa percepção, de uma cultura distinta abordada com exotismo e indulgência jamais se dissipe.
As coisas mudam quando Algren chega ao Japão e, durante as primeiras batalhas logo é capturado e levado a um longínquo vilarejo comandado pelo samurai Katsumoto (Ken Watanabe, merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), um guerreiro devotado ao seu imperador e, por isso mesmo, líder de um movimento de oposição ao monopólio pernicioso praticado pelos americanos em sua terra.
Enquanto se recupera, longe do ambiente militarizado de onde veio, Algren toma contato com o ambiente genuíno do Japão, refletido naquele vilarejo, onde prevalece o modo de vida dos samurais, um código de conduta e nobreza ao qual ele resolve aderir (entre os outros samurais, lá está Hiroyuki Sanada, astro do maravilhoso “O Samurai do Entadecer”).
Livre e redimido, Algren retorna a civilização ciente de que deve buscar um meio pacifico na resolução do conflito, a fim de impedir que a cultura dos samurais seja esmagada. Mas em seu retorno um dilema crucial o aguarda.
O diretor Zwick tira de letra as facetas de superprodução do filme –leia-se, as belíssimas cenas coletivas de batalha que se intensificam, sobretudo, nos quarenta minutos finais, além desta ou daquela seqüência de luta –mas, sua grande responsabilidade ao abordar este projeto (e que, em parte, foi concluída com satisfação), é o modo com que se trabalha as complexas motivações de Katsumoto, um guerreiro que, como tal, só consegue –e só considera apropriado –expressar-se em meio às batalhas. A política é terreno, supõe ele, para indivíduos mais desenvoltos e manhosos. Daí, a dramaturgia visceral, traduzida neste ótimo épico de guerra, com que ele e seus aliados (Algren, incluso) tentam argumentar, por meio das batalhas que ganham ou que perdem, à sua autoridade maior, o imperador (mostrado como um jovem relutante e inseguro) e à ele clamar por um profundo respeito pelas suas culturas milenares.

sábado, 25 de março de 2017

Conspiração Xangai

Este filme dificilmente chamaria a minha atenção não fosse a presença da deslumbrante Gong Li.
E realmente, exceto por ela, sobra pouca coisa relevante de fato nesta obra a moda antiga, cujos produtores parecem contentar-se com um clima charmoso para atrair algum público. O quê a pouca expressiva bilheteria, e o fato de o filme ser tão pouco lembrado mostra que não foi o suficiente.
Shangai. Com a Segunda Guerra Mundial em curso (e ainda sem a intervenção dos EUA), um agente norte-americano disfarçado de jornalista (John Cusack, num papel não muito adequado à suas capacidades como ator) chega à única cidade não ocupada da China, a fim de solucionar o mistério do assassinato de seu melhor amigo (Jeffrey Dean Morgan, em uma breve e excelente participação). As pistas o levam a um casal de aristocratas chineses (Gong Li e o sempre eficiente Chow Yun Fat) que mantém conexões com os japoneses e alemães.
Ele torna-se amigo do marido e inicia um envolvimento com a mulher que, suspeita ele, guarda muitos segredos.
Embora a narrativa almeje emular o charme dos grandes títulos deste gênero, os realizadores parecem ignorar que a grande revelação ocorrida mais ou menos na meia hora final (e que trata-se do então iminente ataque japonês planejado contra a base americana de Pearl Harbor, no Hawaí) pode ser facilmente adivinhada muito antes desse momento chegar.
Uma falha grave num filme que acerta em outros tantos quesitos: E eles respondem, sobretudo, às questões técnicas que recriam a época e a ambientação com esmero –embora esse tipo de elogio, à uma superprodução norte-americana não seja exatamente um mérito, afinal, são gastos milhões em orçamento e equipe técnica de ponta para que tais filmes realmente tenham uma qualidade visual inquestionável.
O diretor Michael Hafstrom (de filmes de terror oscilantes e irregulares como “1408” e “O Ritual”) envereda por uma produção que busca agregar um requinte maior à sua filmografia, bebendo de vastas influências cinematográficas do passado (“Casablanca”, uma das mais evidentes, embora os trabalhos de Alfred Hitchcock também tenham um ressonância talvez ainda mais poderosa) para compor esta mescla de noir e filme de espionagem que não escapa de um certo deslumbramento formal, apesar de ter Gong Li, talvez a única atriz chinesa capaz de interpretar uma femme fatale.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Origem

E chegou então a hora de falar sobre o filme que virou um fenômeno no ano de 2011, e que na opinião de muitos é o único capaz de rivalizar com “Batman-O Cavaleiro das Trevas” como melhor filme da filmografia de Christopher Nolan.
“A Origem” guarda mesmo elementos de sobra para manter seu fascínio perene. A começar pelo notável (e, em princípio, intrigante) personagem de Leonardo Dicaprio, o torturado Dom Cobb, um ladrão de sonhos!
Sua especialidade é infiltrar-se na mente de certas pessoas enquanto dormem (através de uma tecnologia nunca, de fato, detalhada pela narrativa), e dentro de seus sonhos, roubar-lhes segredos e informações valiosas –e aí, mais do que o processo fantástico pelo qual se dá a ida para o mundo dos sonhos, é no rigoroso conjunto de fatores, regras, condições e pequenos detalhes que está o verdadeiro ponto de interesse da narrativa de Nolan.
Uma vez dentro dos sonhos existe toda uma cadeia de importâncias a ser respeitada e seguida: Se morrer no sonho, a pessoa desperta. O subconsciente pode oferecer perigo para o sonhador e seus “turistas”. Há uma forma específica de saber se você está sonhando ou não (e isso diz respeito aos “totens”). O tempo, no sonho, corresponde a um período muito breve na nossa realidade.
Tal arte, aparentemente, Dom Cobb domina como poucos.
Entretanto, em sua vida desperta Cobb é um homem torturado, afastado de seus filhos (que moram com o avô interpretado por Michael Caine) e injustamente acusado da morte da mulher que ama (Marion Cotillard, uma femme fatale extraordinária, que surge nos seus sonhos como um elemento tão sensacional quanto desestabilizador).
É quando surge então um milionário chamado Saito (o brilhante Ken Watanabe, com um personagem tão essencial à trama quanto Dicaprio), com uma proposta irrecusável: ter seu nome inocentado em troca de uma última missão. Só que desta vez, ao invés de tirar informações, ele deve inserir uma idéia numa determinada mente, o quê é muito mais difícil, talvez impossível.
Cobb monta uma nova equipe para essa arriscada tarefa –Arthur, seu braço direito, vivido por Joseph Gordon-Levitt, um “falsificador” (capaz de personificar diferentes personagens dentro do sonho) interpretado por Tom Hardy, um “arquiteto” (aquele que constrói o elaborado cenário dentro do qual o sonho irá se passar) na pele da jovem Ellen Page (de “Juno”), e um “químico” (que administra os efeitos do sedativo que fará a vítima dormir), vivido por Dileep Rao –afinal a mente humana (incluindo a do próprio Cobb) é um lugar desconhecido e cheio de armadilhas e a "inserção" requer um plano complexo.
É patente, como se pode perceber, que Nolan gosta de mesclar gênero que ele tem por inspiração –os filmes de assalto popularizados nos anos 1960, neste caso –e à eles conceder uma roupagem fantástica e, não raro, mirabolante. As influências cinematográficas de Nolan surgem quanto não se espera: Imagina-se que ele vá fazer alusão a algum grande diretor, ou grande filme, que tenha por base o mundo dos sonhos, como David Lynch, mas essas relações só aparecem por acaso; “A Origem”, em sua concepção desconcertante, busca remeter a obras como “O Golpe de John Anderson” (na sua estrutura de filme de assalto), ou “007 Na Mira dos Assassinos” (na forte referência que envolve cenas de ação na neve). Nota-se então o gênero a que “A Origem” quer realmente pertencer e aprimorar: A ação.
E a direção de Nolan dedica minucioso aparato de técnica e inventividade a fim de moldar cenas de ação singulares: Sendo a luta em gravidade zero provavelmente seu exemplo mais exuberante.
É o desfecho, contudo, que garante ao filme sua permanência na memória: Quando Cobb, redimido e prestes a reaver os filhos, tenta usar seu próprio “totem” (um pequeno peão que gira indefinidamente quanto é sonho, e para logicamente de girar quando é realidade), a fim de garantir se o que está se passando é real ou não. As crianças o chamam, e ele por fim ignora o peão que roda sem parar. A câmera de Nolan permite que seu protagonista vá embora, fixando-se no peão (e na expectativa de que ele logo caia), mas desafia o expectador, encerrando o filme antes de qualquer resposta.
Está aí o fator que fez de “A Origem” um dos filmes mais discutidos de 2011.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Memórias de Uma Gueixa

Após sua meteórica consagração (quando o musical “Chicago”, sua estréia no cinema, levou o Oscar de Melhor Filme em 2002), o diretor Rob Marshall viu sua estrela subir a ponto de herdar um projeto, antes acarinhado pelo próprio Steven Spielberg (que terminou assumindo a função de produtor): A Adaptação do best-seller “Memórias de Uma Gueixa”.
Curiosamente, um dos grandes méritos deste filme, a sua trilha sonora, é justamente de um grande colaborador de Spielberg, o veterano John Williams.
Considerada uma obra literária de difícil adaptação, o livro ganhou de Marshall uma encenação certamente primorosa, cuja concepção pictória resulta impressionante (não à toa, os três Oscars conquistados –fotografia, figurino e direção de arte –dizem respeito aos seus quesitos visuais).
Mas, não são raras as vezes em que Rob Marshall parece se esquecer que todo esse requinte é uma mera moldura para aquilo que, de fato, deveria funcionar: A dramaturgia.
Conseqüentemente, sua direção escorrega em inúmeros momentos, deixando entrever uma falta de profundidade brutal no tratamento para com a história e os personagens.
Isso tudo torna até redundante o fato de que a escalação de atrizes chinesas (a protagonista Zhang Zi Yi, a maravilhosa Gong Li e a conhecida Michelle Yeoh) para papéis japoneses chegou a gerar uma tola polêmica.
Nos anos 1920, garota japonesa filha de pescadores (a sempre competente Zhang Zi Yi) é levada para a cidade grande onde deve aprender a ser uma gueixa, e dominar a arte de fascinar os homens. Sua ambição é particularmente motivada pela disputa com outra gueixa, já famosa e estabelecida (Gong Li, quase sempre roubando as cenas em que aparece), e pela paixão secreta que nutre por um aristocrata (o ótimo Ken Watanabe).
Essa condução da história soa involuntariamente fantasiosa, aparentando ser não a intenção da direção, mas uma conseqüência da incompreensão de muitas das facetas do filme.
Não somente a adaptação em si é realizada de forma rasteira (para se ter uma idéia, o personagem de Watanabe, ou seja, o interesse romântico da protagonista durante as décadas em que a trama se passa, jamais ganha sequer um nome pelo qual ser chamado, sendo sempre referido como “Presidente”...), como também –o quê é ainda mais lamentável –o filme peca pela forma superficial com que aborda aspectos do livro e da cultura japonesa, especialmente no retrato que faz das gueixas, beirando uma relação com a prostituição.
O drama se dispersa assim, em constantes lampejos de imprecisão.
Em sua imponência cinematográfica, o trabalho de Rob Marshall encontra sua força mesmo no arrojado cuidado visual que vai desde o requinte dos figurinos e cenários (o set de filmagem construído para simular a orgânica e complexa estrutura da favela onde a protagonista vive é um trabalho cenográfico de maior amplitude do que o set de “Gladiador”) até o esplêndido tratamento de cores executado pela direção de fotografia.
Um belíssimo quadro no qual o objeto retratado importa menos ao artista do que as tintas que ele empregou.

domingo, 17 de abril de 2016

Batman Begins

Cada filme da trilogia do Cavaleiro das Trevas baseava sua história num elemento diferente, representado de uma certa forma no antagonista que o Batman enfrenta ao longo da trama. Uma das muitas sacadas geniais de Christopher Nolan ao longo dos três filmes.
No inaugural “Batman Begins”, o tema é o medo. O medo de ver seus pais sendo mortos por um bandido, ainda criança, e de ficar preso a essa lembrança para sempre. E medo é aquilo que, mais tarde, Bruce Wayne (Christian Bale, excelente) almeja incutir nos criminosos de Gothan usando assim o Batman. Não a toa, seus vilões aqui são o Espantalho (interpretado por Cillian Murphy, cujo poder é gerar o medo através de seu gás alucinógeno), e Rhas Al-Gul (Liam Neeson, ou Ken Watanabe, depende do enfoque...), um terrorista (!) e que, a propósito, serve como fonte para as plantas que provêm ao Espantalho sua arma secreta.
É fácil admirar a maestria com que Nolan conduziu essa reinvenção do Homem-Morcego, o quê talvez não seja tão fácil, é perceber que não foi algo simples chegar até ela.
Naquele ano, 2005, já contavam oito anos que o personagem tinha ganhado o que é considerado por unanimidade como o seu pior filme (e um dos piores filmes já realizados de todo o cinema!), o psicodélico, inadequado e inconveniente “Batman & Robin” de Joel Schumacher. O medo do estúdio em fazer outra bobagem só não era maior que o medo de perder o imenso lucro que um personagem como Batman proporcionou no passado, e assim, carregados de cautela, chamaram Christopher Nolan, recém-saído da aclamação por dois longa-metragens pouco usuais e primorosos: Os neo-noir “Amnésia” e “Insônia”.

Amparado num conceito de realismo (que, a rigor, sempre definiu sua filmografia) e munido de um elenco espetacular (Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, além dos já citados), ele deu início à criação de uma trilogia ímpar tida por muitos como o auge da tradução de uma história em quadrinhos para o cinema.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Terremoto - A Falha da San Andreas

Não é um filme que eu tenha o hábito de comentar aqui, mas acho que devo falar de tudo um pouco, então, vamos lá:
Registros sísmicos do laboratório de geologia da Califórnia apontam um evento sem precedentes: Um terremoto de proporções magnânimas, aguardado a muito tempo pelos especialistas varrerá a Costa Oeste. Em meio à esse cataclisma, um piloto de helicóptero de operações socorristas precisa reunir sua família: a esposa e a filha, as duas perdidas em algum lugar de São Francisco, centro de toda a convergência.
Não bastasse a enxurrada de filmes-catástrofe a que o público em geral foi submetido nos últimos anos (culpa, em grande medida, de Rolland Emmerich, que realizou a maioria dos trabalhos desse gênero como "O Dia Depois de Amanhã" e "2012"), este aqui ainda por cima é também refilmagem de um filme lançado nos anos 1970 (outra época em que esses filmes proliferaram).
Talvez, devido à tendência natural da proposta em oferecer cenas de impacto, que primam pela forma em detrimento do conteúdo, o cinema-catástrofe tenha encontrado toda essa exposição nos block-busters ao longo das últimas décadas, amparados pela repaginação de efeitos especiais desta era digital.
Prova disso, é que este novo "Terremoto" vem protagonizado por Dwaine Johnson, ainda lembrado por muitos como The Rock, um astro que reflete exatamente o cinema block-buster de ação executado hoje.
Contudo, o fato dele exalar carisma acaba sendo justamente um dos diferenciais em relação a outros trabalhos insípidos, como justamente os dirigidos por Emmerich, onde os astros eram os efeitos digitais.
O elenco tem, além do próprio The Rock, a maravilhosa Carla Gugino, a mais maravilhosa ainda Alexandra Daddario, e o sempre eficiente Paul Giamatti. O restante não passa de participações que, a despeito de uma ou outra importância que o roteiro lhes queira dar, passam completamente batido, caso dos dois irmãos que acompanham Alexandra durante a maior parte do tempo: São rasos e dispensáveis.
O diretor Brad Peyton faz um bom trabalho. Ele não consegue fugir de convenções desse tipo de cinema (especialmente no que diz respeito ao roteiro formulaico), nem de obstáculos logísticos de uma produção desse tamanho, mas ele imprime personalidade às cenas de destruição (com várias e interessantes tomadas que emulam um plano só) e que acabam por valorizar e destacar o filme. Em alguns momentos o trabalho dele faz lembrar o bom resultado que Gareth Edwards obteve com seu "Godzilla".