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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Amsterdam


 Escrito e dirigido pelo mesmo David O’Russell que surpreendeu público e crítica com “O Lado Bom da Vida” e “Trapaça”, “Amsterdam” passou despercebido quando foi lançado em 2022. A intriga verborrágica, mirabolante e intrincada que ele descortina (ainda que ampara em fatos reais, a chamada Conspiração Empresarial de 1933) não caiu no gosto dos expectadores, e a condução de O’Russell –como sempre, inclinada ao fascínio por tipos disfuncionais e por uma sistemática estranheza –não ajudou a tornar mais apetecível uma obra que, em sua indefinição, parece não pertencer a gênero nenhum: Durante suas mais de duas horas de duração, “Amsterdam” reúne elementos de film noir, suspense conspiratório, drama, comédia de humor negro e thriller político, tudo numa roupagem desigual que remete à década de 1930.

O enredo cheio de melindres gira em torno de três grandes amigos: Os soldados Burt Berendsen (Christian Bale), Harold Woodman (John David Washington, de “Resistência”) e a enfermeira Valerie (Margot Robbie). Em meados de 1918, Burt e Woodman se conheceram no front da Primeira Guerra Mundial e logo foram despachados para o hospital em que Valerie servia. A amizade foi instantânea –bem como o romance entre Harold e Valerie –e os três logo fugiram para Amsterdam a fim de viver um sonho até o limite do tolerável.

Entretanto, Burt, casado com a abastada Beatrice Vandenheuvel (Andrea Riseborough), precisou voltar para a América, trazendo Harold à reboque. Quinze anos depois, os dois trabalham numa clínica médica de quinta categoria para soldados veteranos em Nova York –Burt como médico-cirurgião, Harold como advogado –quando são procurados por Elizabeth Meekins (a cantora Taylor Swift), certa de que seu pai, o Senador Meekins, não morreu de causas naturais ao voltar de uma viagem à Europa.

Durante a autópsia, perpetrada por Burt e pela enfermeira Irma St. Clair (Zoe Saldaña), eles descobrem que o Senador foi envenenado e, quando dão por si, são tragados para dentro de um furacão: Na sequência, Elizabeth é assassinada, a culpa recai sobre Burt e Harold que logo se tornam os principais suspeitos aos olhos da polícia –personificada nos paspalhos personagens de Matthias Schoenaerts e Alessandro Nivola. Ao fugirem, Burt e Harold dão início à sua própria investigação a fim de limpar seus nomes, quando reencontram novamente Valerie, e vão descobrindo uma trilha de pistas que irá levá-los até um influente político de Washington (Robert De Niro) e, por fim, à uma terrível verdade acerca de um mal inominável que começa a despontar em certos governos totalitários da Europa, como a Itália e a Alemanha, E acredite, essa é só a ponta do iceberg!

Uma sinopse descrita em características normais não dá conta das idas e vindas, da deliberada excentricidade e da atmosfera de incomum ironia que persiste durante todo o tempo no filme de O’Russell, e embora esse elemento seja certamente grande parte de seu charme e diferenciação, ele é também seu calcanhar de Aquiles –o diretor O’Russell sempre foi muito afeito à esquisitices pontuais em suas narrativas. Em alguns casos, esse gosto curioso e apurado resultou em obras que foram capazes de contornar o estranhamento para surpreender ou até emocionar seu público; em outros –sobretudo seus trabalhos de início de carreira como a bizarra comédia romântica “A Mão do Desejo”, o inconformista “Flying With Disaster” e o filme sobre e para loucos (!) “Huckabees” –o produto final acabava sendo tão distante das convenções que simplesmente não se revelava palatável ao público. É esse o caso, aqui, de “Amsterdam”.

Não é que não seja um bom trabalho (ele é), não é que seu elenco não esteja bem (Christian Bale, pra variar, se mostra excelente, e os nomes estelares da produção só mostram o quanto a reputação de O’Russell é positiva), não é que o roteiro seja ruim (muito pelo contrário, ele reúne com certa maestria elementos díspares que poderiam, com menos talento, jamais surgirem tão bem ordenados numa narrativa) e nem que a direção de O’Russell deixe a desejar (seu manejo das inúmeras facetas de gêneros que se presta a abordar é extremamente elegante e inspirado,e nunca soa forçado ou cansativo), mas o fato é que “Amsterdam”, na sua originalidade tão contundente, provavelmente, está condenado a ser um cult-movie, uma obra incompreendida que, nos anos ou décadas por vir, será redescoberta por cinéfilos e admiradores que o enaltecerão, observando nele as qualidades que não foram notadas na sua época.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Grande Truque


 Projeto do diretor Christopher Nolan ensanduichado entre “Batman Begins” e “Batman-O Cavaleiro das Trevas”, este “O Grande Truque” pode ter sido encarado por ele como um respiro da imersão no universo de histórias em quadrinhos, imergindo, em contrapartida, nos meandros nebulosos e enigmáticos do mundo dos ilusionistas.

Curiosamente, na mesma época, outro trabalho brilhante, “O Ilusionista”, de Neil Burger, com Edward Norton, também dividiu com ele o mesmo tema, os louros da crítica e algum sucesso de bilheteria. Na comparação com a aventura mais singela estrelada por Edward Norton, “O Grande Truque” é logística e narrativamente ambicioso lançando mão de muitas aspirações cerebrais que Nolan só iria amplificar em obras futuras, transformando em seu grande diferencial, como realizador, esse esforço em conciliar, em blockbusters nada discretos, essa predisposição autoral e até intelectual com narrativas escapistas para as massas.

Muitos podem dizer que “O Grande Truque” é desafiador até demais para as percepções do público: Pra começar, há um esforço claro de Nolan e dos atores Hugh Jackman e Christian Bale em tornar ambígua a disputa implacável e incessante entre os mágicos ilusionistas Robert Angier e Alfred Borden. À despeito dessa disputa –mote central do filme –envolver os atores que viviam então Wolverine e Batman nas telas (e de ser esse embate uma clara referência aos olhos do público), não há distinção de bem e mal esboçada nas caracterizações; um elemento corajoso, mas que pode desanimar uma parte considerável da audiência.

Angier é frívolo, amargurado e rancoroso. Borden é arrogante, presunçoso e esnobe. São personagens construídos não para cativar de pronto o público, mas para enfatizar a ele suas características humanas e, não raro, reprováveis: Em ambos jaz uma obsessão injustificada de superar as realizações do outro.

Para cada truque de mágica que Angier elabora, Borden já tem um novo para arrebatar o público e lhe roubar alguns expectadores em plena Londres do Século XIX. Entretanto, sabemos que algo deu tremendamente errado: O filme já se inicia com Borden na cadeia por um crime estarrecedor. Os propósitos que levaram a esse crime são então esmiuçados num flashback –recurso que a narrativa de Nolan usa até levar o público a perder o fio da meada –e dizem respeito aos truques de mágica que, encenados noite após noite nos palcos londrinos, serviram de duelo entre dois homens dispostos a serem insuperáveis em seu ofício.

Levando o conceito de disputa às últimas consequências, Nolan arremessa seus protagonistas num empate que ganha circunstâncias cada vez mais fantasiosas e imprevisíveis –e, portanto, trágicas.

Há, no cinema de Christopher Nolan, esse inusitado resgate de temas masculinos por meio de um prisma onde gêneros improváveis são investigados. Disso se alimenta sua filmografia, incluindo a aclamada “Trilogia do Cavaleiro das Trevas”: Temos o temor do esquecimento (“Amnésia”), ou da dissolução do legado (“Interestelar”) e da imponderabilidade dos anseios (“A Origem”); em “O Grande Truque” está em pauta o medo da derrota perante um adversário, a tornar bastante humana a percepção de um filme todo incomum.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Ford Vs Ferrari

As 24 Horas de Le Mans representam a corrida mais desgastante, difícil e exigente do mundo. É como uma grande montanha: Nada é tão desafiador ou intransponível.
Uma disputa de motores, ânimos e estratégias que se inicia num dia para só se encerrar no dia seguinte, com suas equipes competidoras trituradas pelo cansaço, pelo stress, pela pressão psicológica e, não raro, pelos acidentes atrozes decorridos nas pistas.
Quando o todo poderoso magnata do automobilismo Henry Ford II teve sua proposta de aliança de negócios recusada pelo também poderoso Enzo Ferrari, ele compreendeu que a recém-descoberta rivalidade entre os dois só podia ser de fato resolvida nas pistas de Le Mans –onde a Ferrari havia vencido as quatro últimas disputas!
A Ferrari tinha uma tradição automobilística por meio da qual seu carro era visto como um oponente impossível de ser batido.
Ford enxergava nessa oportunidade um meio de mostrar que, em sua área, não estava para brincadeiras. Todos, entretanto, concordavam que a Ferrari, ao menos nas pistas de Le Mans, não era um adversário que deveria ser desafiado.
É em torno dos meandros por vezes espetaculares dessa richa que se debruça o filme magnífico dirigido por James Mangold.
Engana-se, contudo, quem julgar que torna central a sua trama os chefões Henry Ford II e Enzo Ferrari: Seus protagonistas de fato são o ex-piloto e líder de escuderia Carroll Shelby (vivido por Matt Damon) e o indomável piloto e mecánico Ken ‘Bulldogue’ Miles (vivido por Christian Bale).
Dessa forma, o trabalho de Mangold desvia-se o foco dos nomes lendários envolvidos na trama, e o concentra no esforço heróico de homens comuns, no primeiro de seus inúmeros acertos.
Outrora um vencedor habilidoso de Le Mans, Shelby é procurado por um executivo de Ford, Lee Iacocca (Jon Berthal) que o recruta para capitanear a empreitada de tentar superar a Ferrari.
Shelby compreende que para disputar Le Mans não apenas deve construir o melhor e mais rápido carro –tarefa esta que, ainda assim, se mostrava cheia de percalços inacreditáveis –mas, também deve conseguir o melhor piloto; alguém que compreenda a máquina num nível tão intuitivo que seja capaz, num improviso, de arrancar dela o máximo.
Essa pessoa, ele sabe, é Ken Miles.
E aí começam alguns problemas: De difícil temperamento, Ken não é habituado a seguir ordens e, embora obtenha resultados assombrosos nas pistas de corrida, ele também obtém a antipatia do executivo-sênior de Ford, o arrogante Beebe (Josh Lucas, de "Uma Mente Brilhante" e "Hulk", especializado nesses papéis).
Tanto Ken, quanto principalmente Shelby sofrem, portanto, pressão vindas de duas extremidades distintas: De um lado, são pressionados para que consigam o rendimento que garanta à Ford a improvável supremacia nas 24 Horas de Le Mans (e nisso, têm como obstáculos as próprias leis da Física!); de outro, são sabotados por seus próprios dirigentes –algo antecipado pelo próprio Ken Miles –que ignoram as habilidades e o conhecimento de sua equipe para impor suas próprias restrições na execução e confecção do carro, na escolha dos pilotos (onde prevalecia Ken, contra a vontade de Beebe) e nos procedimentos da equipe.
Munido de muito jogo de cintura, Shelby tem de fazer política para garantir em sua equipe o único talento que sabia ser essencial para a vitória: Ken Miles.
Semelhante em muitos aspectos ao brilhante “Rush-No Limite da Emoção”, o filme de Mangold vale-se do mesmo inteligente princípio narrativo, onde sua trama dá prioridade aos pormenores extraordinários que faziam desta uma história frequentemente inacreditável. Matt Damon está ótimo como Carroll Shelby, em cujo comportamento austero se deposita o ponto de equilíbrio do filme, mas quem rouba mesmo as cenas é Christian Bale, como Ken Miles, cuja interpretação une maneirismos de seu personagem no excelente “O Vencedor” com algumas nuances minimalistas de seu papel em “A Grande Aposta”.
Um filme envolvente no registro minucioso e orgânico que faz dos bastidores tumultuados das grandes corridas, e arrebatador na recriação raivosa e eletrizante da alta voltagem obtida pelos pilotos dentro das pistas.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Não Estou Lá

Consciente da desigual singularidade que seu biografado, o cantor e compositor Bob Dylan, experimenta na cena artística, o diretor Todd Haynes (também ele dono de um desigual pendor artístico) cria uma quase anti-biografia, num estilo solto e atrevido que, em seu inconformismo, sua ousadia e sua originalidade consegue evocar exatamente o espírito de Bob Dylan, e sua capacidade de não se deixar apreender ou rotular; existem pois seis personagens principais diferentes (!), interpretados por seis atores diferentes (um deles, inclusive, é uma mulher!).
E todos de alguma maneira são Bob Dylan.
E nenhum deles realmente é.
Em sua infância, ele é Woody Guthrie, vivido pelo pequeno Marcus Carl Franklin. Woody Guthrie é, na realidade, o nome homônimo também do cantor que Dylan venerava quando muito novo. Numa manobra que torna a confusão de identidades proposta pela narrativa ainda mais contundente, o pequeno Woody vai visitar o Woody Guthrie, verdadeiro e famoso, no hospital.
Um pouco mais velho, Ben Wishaw (o Q de “007 Operação Skyfall”) interpreta Arthur Rimbaud, homônimo, por sua vez, do poeta francês que serviu de fonte constante às citações de Dylan. Suas profecias e frases dissertativas sobre o mundo, a vida e o ser humano pontuam inúmeras passagens protagonizadas pelos outros ‘Dylans’.
Na metade da década de 1960, época da consolidação como astro emergente da música, mais precisamente em 1965, encontramos talvez a melhor dentre todas as personificações: O irrequieto Jude Quinn, vivido com detalhado brilhantismo por Cate Blanchett –que, por esta atuação concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2008 –e, por incrível que possa parecer, a composição que mais se aproxima do Bob Dylan como ele é mundialmente conhecido: Um astro aclamado por seu dom musical singular, frequentemente inadequado ao próprio sucesso, cujo (mau) comportamento lhe arruma desafetos entre a imprensa e os puristas da música folk (gênero que, em sua genialidade, ele insistia em desconstruir).
Um ano depois, 1966, encontramos outro personagem que talvez seja uma peça nesse quebra-cabeça chamado Bob Dylan: Trata-se de Billy (Richard Gere), um homem absolutamente comum –e plenamente disposto a SER comum –a morar de forma humilde e reclusa em um afastado vilarejo.
Em 1966, Dylan sofreu um acidente de moto após o qual desapareceu durante tempo; Billy é a personificação desse ímpeto de reclusão de Dylan, uma tentativa dos realizadores compreenderem o que ele fez durante aquele tempo e, mais importante, o que se passava então em sua cabeça.
Já nos anos 1970, ele está de volta à música folk, desta vez como Jack Rollins (Christian Bale), um músico de sucesso que não tarda a enxergar, no alcance quase transcendental da música sobre as massas, um poder que chega às raias do religioso –e, disposto a ir até o fim nessa analogia, abraça essa similaridade convertendo-se, ele próprio, num líder religioso; como, aliás do ocorreu com Bob Dylan realmente numa reconhecida fase de sua vida.
Por fim, encontramos o ator Robbie Clark (o saudoso Heath Ledger, num dos últimos projetos antes de seu falecimento) escalado, por sua vez, a interpretar Jack Rollins em um filme. Robbie Clark, a espelhar tormentos do próprio Dylan, é assombrado por esse personagem exuberante, influente e carismático que esperam dele –uma atribulação que o persegue, como a uma maldição, em sua vida pessoal. Há um vislumbre, por sinal, de seu relacionamento com a carinhosa Claire (Charlotte Gainsbourg), mãe de seu filho, inspirada, por sua vez, em Sara Lownds, a primeira esposa de Dylan.
Se não é (e nem deseja ser) uma biografia no sentido convencional do termo, o trabalho de Todd Haynes faz uma investigação íntima cheia de propriedade na forma com que assume a complexidade de seu biografado fragmentando-o em distintas pessoas e personalidades, a explorar assim suas fases contrastantes de vida, as cores radicais que separam o público do privado, e o sentimento de ambiguidade inerente à arte e ao artista.
Um filme difícil certamente, mas tão enigmático quanto sedutor em sua bela originalidade.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Êxodo - Deuses e Reis

Apesar da lembrança ainda poderosa do épico clássico de Cecil B. De Mille, o diretor Ridley Scott arriscou em 2014, uma nova versão de “Os Dez Mandamentos”.
Vindo de uma tentativa controversa de retomar a série “Alien” (“Prometheus”), Scott moldou um projeto com deliberada aparência de Oscar: História mítica e grandiosa; diretor e equipe técnica renomados; elenco de astros talentosos; até mesmo a data de lançamento nos cinemas era estrategicamente propícia –meados de dezembro, fácil, portanto, de ser lembrado pelos votantes da Academia.
Deveras, Scott também tinha um objetivo bem claro em relação a essa nova repaginação: Abordar a jornada de Moisés (Christian Bale), o filho adotivo do Faraó que descobre ser o prometido libertador do povo hebreu, com um realismo táctil e desmistificador que ia de encontro aos tratamentos anteriores dados à história.
É razoável então que o retrato de Moisés, aqui, seja tão distinto da famosa personificação messiânica de Charlton Heston –Moisés quase ganha um viés de líder terrorista, enfatizado nas manifestações alucinatórias que ele alegadamente tem de Deus (que, na narrativa de Scott, adquirem a possibilidade de ser um mero surto).
E, dessa forma, são também abordados os outros momentos vultuosos da trama: As sete pragas do Egito (cujo respaldo científico de cada uma delas fornecido pelo roteiro faz lembrar o terror “A Colheita do Mal”, lançado pouco antes); a travessia do Mar Vermelho (da qual é removido o teor milagroso de que o mar se abriu, substituído por uma alternação ocasionada por maré alta e maré baixa); a concepção dos 10 mandamentos (mostrados como tendo sido esculpidos pelo próprio Moisés).
No raciocínio dos realizadores, essa é uma ideia que agrega audácia e originalidade à produção (e ainda uma chance de dar à história de Moisés toda uma reflexão ambígua), mas, no final das contas, isso resulta, em grande parte, frustrante.
Há, por exemplo, um premeditado clima de preparação quando o filme adentra seu último terço, no qual se cria expectativa para uma inédita batalha entre os oprimidos hebreus e os opressores egípcios.
Nada, porém, acontece: Scottt, apesar dos lampejos pouco contundentes de subverter a história conhecida, termina por segui-la com proximidade.
“Êxodo” é assim uma superprodução indefinida entre a intenção reverente de manter-se algo fiel ao filme clássico (almejando com alguma pretensão o reconhecimento que ele desfruta) e o ímpeto transgressivo (mais na teoria que na prática...) de oferecer um viés inesperado do famoso episódio bíblico.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Indicados Ao Oscar 2019


Os indicados ao Oscar 2019 foram anunciados. Vamos a eles:

Melhor Filme
Pantera Negra
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book-O  Guia
Roma
Nasce Uma Estrela
Vice

O público ainda se encontra extasiado pelas sete indicações de “Pantera Negra”, que inclusive se estendem até a mais importante nomeação –a de Melhor Filme –todavia, os filmes mais importantes na categoria, aqueles que têm a chance de ganhar o prêmio de fato são “Green Book” (que ganha cada vez mais força junto à crítica) e “Nasce Uma Estrela” (desde sempre um favoritíssimo), entretanto, nenhum goza de mais prestígio no momento do que “Roma” que obteve o maior número de indicação (dez) e ostenta uma excelência que levou a Academia a uma inédita aceitação das produções de streaming (às quais ele pertence) reconhecendo assim o cinema como uma arte que transcende os formatos impostos do passado.

Melhor Ator
Christian Bale, Vice
Bradley Cooper, Nasce Uma Estrela
Rami Malek, Bohemian Rhapsody
Viggo Mortensen, Green Book-O Guia
Willem Dafoe, No Portal da Eternidade

Bradley Cooper e Willem Dafoe perderam o Globo de Ouro de Ator em Drama para Rami Malek, e sua aplaudida personificação de Fred Mercury; Viggo Mortensen perdeu o mesmo prêmio para Christian Bale (desta vez, na categoria de Comédia), cuja transformação física quase sempre surte efeito positivo nos votantes da Academia.
Embora muitos críticos apreciem com ressalvas o trabalho de Rami Malek, há certa coerência em pensar que o Oscar de Melhor Ator pode ser o único prêmio válido e real para “Bohemian Rhapsody” –e o mesmo argumento pode valer para “Vice”, também.
Meu palpite é que o vencedor será definido no SAG Awards!

Melhor Atriz
Lady Gaga, Nasce Uma Estrela
Yalitza Aparicio, Roma
Glenn Close, A Esposa
Olivia Colman, A Favorita
Melissa McCarthy, Poderia Me Perdoar?

A atriz de “Roma” –que muitos críticos afirmavam ser uma injustiça sua ausência em algumas premiações –pegou muitos de surpresa aparecendo nesta categoria que, ninguém duvida, irá ficar polarizada entre Glenn Close e Lady Gaga; até mesmo a vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical, Olivia Colman, surge à sombra delas.
Provavelmente o prêmio ficará com Glenn Close visto que já chegou a hora dela ser reconhecida com um Oscar –o quê ela, sendo a grande atriz que é, nunca levou!
Não que Lady Gaga vá sair da cerimônia de mãos abanando: Sua vitória na categoria de Melhor Canção Original é considerada certa.

Melhor Direção
Spike Lee, Infiltrado na Klan
Pawel Pawlikowski, Guerra Fria
Yorgos Lanthimos, A Favorita
Alfonso Cuarón, Roma
Adam McKay, Vice

Parece difícil acreditar, mas esta é a primeira indicação ao Oscar de Spike Lee, um dos diretores essenciais para a aceitação de temáticas minoritárias no cinema norte-americano no início dos anos 1990, e ela veio por um filme brilhante e aclamado, explosivo em seu tema como é de agrado de Lee.
Surpresa mesmo, porém, é a presença do polonês Pawel Pawlikowski (diretor do celebrado “Meu Amor de Verão”) quando muitos esperavam ver ali Bradley Cooper ou Peter Farrelly. Ainda assim, as atenções se voltam para Alfonso Cuarón que, cinco anos depois de “Gravidade”, fez mais uma obra que promete arrebatar prêmios.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams, Vice
Marina de Tavira, Roma
Regina King, Se A Rua Beale Falasse
Emma Stone, A Favorita
Rachek Weisz, A Favorita

Outra surpresa foi o aparecimento de Marina de Tavira (por “Roma) ocupando o lugar que poderia ter sido de Claire Foy, por “O Primeiro Homem” –filme que foi bastante esquecido em muitas categorias.
Vencedora do Globo do Ouro, Regina King aparece com ligeiro favoritismo –há quem acredite que possa ser esse o único prêmio de expressão de “Se A Rua Beale Falasse” –mas, muitos apostam na força de Amy Adams para quem ela começa a perder mais terreno.

Melhor Ator Coadjuvante
Mahershala Ali, Green Book-O Guia
Adam Driver, Infiltrado na Klan
Sam Elliot, Nasce Uma Estrela
Richard E. Grant, Poderia Me Perdoar?
Sam Rockwell, Vice

Talvez, a única categoria (ao lado de Filme Estrangeiro) onde o vencedor já é certo: Será muito improvável que Mahershala Ali perca o prêmio, que ele já ganhou, dois anos atrás, por “Moonlight-Sob A Luz do Luar” –aliás, só para constar, o premiado do ano passado (Sam Rockwell, por “Três Anúncios Para Um Crime”) está ali, a disputar com ele...

Melhor Edição
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
A Favorita
Green Book-O Guia
Vice

Melhor Animação
Os Incríveis 2
Ilha de Cachorros
Mirai
WiFi Ralph-Quebrando A Internet
Homem-Aranha No Aranhaverso

Ao repetir exatamente a mesma lista dos indicados ao Globo de Ouro, imagina-se que o Oscar repetirá também sua premiação: O ótimo “Homem-Aranha No Aranhaverso”, que vem, por sinal, amealhando diversos prêmios.
Curioso notar como os outros estúdios finalmente conseguiram igualar a genialidade narrativa que em animações, até outro dia, era exclusividade da Pixar e da Disney –que surgem na disputa com “Os Incríveis 2” e “WiFi Ralph”.

Melhor Fotografia
Guerra Fria
Roma
Nasce Uma Estrela
A Favorita
Nunca Deixe de Lembrar

Melhores Efeitos Visuais
Vingadores-Guerra Infinita
Christopher Robin
O Primeiro Homem
Jogador Nº 1
Han Solo-Uma História Star Wars

Notável a lembrança de três filmes estrangeiros na categoria de Melhor Fotografia (“Roma” já era esperado, mas “Guerra Fria” e “Nunca Deixe de Lembrar” foram surpresas) sendo que dois deles são filmados em preto & branco!
Nos Efeitos Visuais, “Guerra Infinita” proporcionou tanta comemoração quanto as numerosas indicações de “Pantera Negra” –vale lembrar que, até então, nenhum filme da Marvel Studios jamais levou um Oscar!

Melhor Roteiro Original
A Favorita
No Coração das Trevas
Green Book-O Guia
Roma
Vice

Melhor Roteiro Adaptado
A Balada de Buster Scruggs
Infiltrado na Klan
Poderia me Perdoar?
Se a Rua Beale Falasse
Nasce Uma Estrela

Um grande suspense que antecipou os anúncios dizia respeito se a Academia iria se render à necessidade de reconhecimento de grandes obras realizadas pelas plataformas de streaming (no caso, a Netflix) ao nomear “Roma”.
Daí a surpresa que, não apenas o filme de Cuarón apareceu entre os indicados como também o belo trabalho dos Irmãos Coen, “A Balada de Buster Scruggs”, foi merecidamente lembrado na categoria de Melhor Roteiro Original, assim como na da Figurino e Canção Original.

Melhor Filme Estrangeiro
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)
Roma (México)
Assunto de Família (Japão)

Melhor Canção Original
All of The Stars - Pantera Negra
The Place Where the lost things go - O Retorno de Mary Poppins
Shallow - Nasce uma Estrela
I'll Flight - RBG
When a Cowboy Trade... - A Balada de Buster Scrugss

Melhor Documentário em Curta-Metragem
Black Sheep
End Game
Lifeboat
A Night at the Garden
Period.

Melhor Documentário em Longa-Metragem
Free Solo
Hale County this Morning , This Evening
Minding the Gap
RBG
Of Fathers and Sons

Melhor Design de Produção
Pantera Negra
A Favorita
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins
Roma

Melhor Figurino
A Balada de Buster Scrugss
Pantera Negra
A Favorita
O Retorno de Mary Poppins
Duas Rainhas

Melhor Mixagem de Som
Pantera Negra
Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Roma
Nasce Uma Estrela

Melhor Edição de Som
Pantera Negra
Bohemian Rhapsody
O Primeiro Homem
Um Lugar Silencioso
Roma

Melhor Maquiagem
Border
Vice
Duas Rainhas

As categorias técnicas representam a melhor chance de “Pantera Negra” sair com algumas estatuetas debaixo do braço, ainda que hajam filmes bem cotados e merecedores nas de Melhor Design de Produção, Melhor Figurino (“A Favorita”, em ambos), Melhor Mixagem (“O Primeiro Homem”, já que não concorre a quase nada), e Melhor Edição de Som (“Um Lugar Silencioso”, outro apontado como um dos grandes injustiçados deste ano).

Melhor Curta em Animação
Animal Behaviour
Bao
Late Afternoon
One Small Step
Weekends

Melhor Curta-Metragem
Detainment
Fauve
Marguerite
Mother
Skin

Melhor Trilha Sonora
Nicholas Britell – Se a Rua Beale Falasse
Alexandre Desplat – Ilha de Cachorros
Ludwig Göransson – Pantera Negra
Marc Shaiman – O Retorno de Mary Poppins
Terence Blanchard - Infiltrado na Klan

A entrega dos prêmios será dia 24 de fevereiro.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Vencedores do Globo de Ouro 2019


Foi dada a largada à temporada de premiações com a cerimônia ocorrida neste dia 6 de janeiro que, de início, pelo menos, foi estranhamente enfadonha e pouco marcante, mesmo diante do fato de que o Golden Globe costuma ser uma festa mais animada e solta. Dessa forma, há pouco de interessante para se falar que vá além dos filmes ganhadores, com “Green Book” e “Bohemian Rhapsody” revelando um inesperado favoritismo que só o tempo dirá se irá manter-se.
Por sua natureza mais descontraída, é normal esperar do Golden Globe algumas atitudes distintas dos prêmios que se seguirão, só não podemos saber com precisão quais serão elas.
Teria “Roma”, de Alfonso Cuarón, as mesmas chances de se consagrar em outras premiações mesmo com o selo da Netflix?
Por outro lado, o badalado “Nasce Uma Estrela” terá alguma atenção nas próximas premiações que se estendam para além das generosas indicações?

Melhor filme - Drama
"Bohemian Rhapsody"

Melhor ator de filme - Drama
Rami Malek, "Bohemian Rhapsody"

Não foi todo mundo que ficou satisfeito com a premiação de “Bohemian Rhapsody” na categoria principal –houve até quem acusasse o Golden Globe por não se levar a sério com esse gesto.
Entretanto, o prêmio de Melhor Ator Dramático para Rami Malek pareceu bem mais apropriado, uma vez que é sua composição como Freddie Mercury o grande chamariz da obra.
Curiosa também é a postura de todos os envolvidos de praticamente omitir o nome do diretor Bryan Singer de todos os discursos de agradecimento –ele que foi afastado do projeto faltando duas semanas de sua conclusão devido ao escândalo de denúncias de abuso sexual.

Melhor atriz de filme - Drama
Glenn Close, "The Wife"

A torcida do público aparentemente se inclinava para o ótimo trabalho de Lady Gaga, mas o Golden Globe optou por seguir a lógica do merecimento, reconhecendo uma veterana que não tinha sido, até então, contemplada com os prêmios que merece.
Assim como ocorreu com Gary Oldman no ano passado (ele quem, aliás, apresentou o prêmio), este parece ser o momento de Glenn Close, atriz que, há algum tempo vem sendo falado, é um absurdo que nunca tenha levado um Oscar.
O Golden Globe é um indício dos rumos que a premiação de Melhor Atirz pode tomar ao longo da temporada de prêmios em geral, e na cerimônia do Oscar em particular.

Melhor Filme - Musical ou Comédia
"Green Book: O Guia"

O trabalho solo de Peter Farrelly (pela primeira vez sem colaborar com seu irmão Bobby) terminou superando predileções do público (“O Retorno de Mary Poppins” e “Podres de Ricos”) e obras apontadas com mais favoritismo (“A Favorita” e “Vice”).
Se há uma obra que ganhou inesperada força com este Golden Globe foi essa.

Melhor atriz em filme - Musical ou Comédia
Olivia Colman, "A Favorita"

Eis que o filme de Yorgos Lanthimos sobre o inusitado triângulo amoroso na corte da rainha Anne de Inglaterra teve uma de suas protagonistas premiada.
Da forma como está, parece que Olivia Colman está representando todo o trio principal. Resta saber se essa tendência –a de colocar Olivia nas categorias principais e Rachel Weisz e Emma Stone nas de coadjuvante –se manterá ao longo de toda a temporada de prêmios.

Melhor diretor de filmes
Alfonso Cuarón, "Roma"

Melhor filme em língua estrangeira
"Roma" (México)

A excelência do trabalho de Alfonso Cuarón confirma sua tendência em prevalecer nas premiações da temporada, não obstante “Roma” ser um produto oriundo da plataforma de streaming Netflix. O que traz um dilema aos membros da Academia: Render-se ao novo formato quebrando os paradigmas que definem o que é cinema, ou recusar o reconhecimento a um filme que o merece plenamente?

Melhor ator em filme - Musical ou Comédia
Christian Bale, "Vice"

Melhor roteiro para filme
Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Brian Currie ("Green Book: O Guia")

Melhor ator coadjuvante em filmes
Mahershala Ali, "Green Book: O Guia"

O sempre empenhado Christian Bale arrebatou o prêmio de Melhor Ator Cômico por um trabalho que surpreende, sobretudo, por sua completa metamorfose para o papel –é sua segunda colaboração com o diretor Adam McKay depois do ótimo “A Grande Aposta” (deu pra perceber uma ligeira embriaguez em seu discurso. Coisas do Golden Globe).
A partir de um ponto, porém, foi “The Green Book” que passou a se impor entre os prêmios na categoria de comédia, tornando Mahershala Ali um dos nomes a se acompanhar bem de perto nas premiações.

Melhor atriz coadjuvante em filmes
Regina King, "Se A Rua Beale Falasse"

Não parece haver maiores diferenças entre “Se A Rua Beale Falasse” e “Sob A Luz do Luar”, trabalho anterior do diretor Barry Jenkins. A mesma aparência de discreto filme independente que amealha prêmios inesperados.
Aqui, esse imprevisto já coloca Regina King como a favorita da temporada, inclusive pela considerável ausência de concorrentes mais fortes.

Melhor música para filmes
"Shallow", "Nasce Uma Estrela"

Em meio ao intenso burburinho de sua badalação, fazia sentido mesmo que, ao menos, o único prêmio que não escapasse à “Nasce Uma Estrela” fosse o de Melhor Canção –e “Shallow” corresponde, por vezes, a um dos grandes momentos do filme.

Melhor trilha original para filmes
Justin Hurwitz, "O Primeiro Homem"

Depois de ter sido esnobado na maioria das indicações, ninguém esperava que “O Primeiro Homem” saísse vitorioso numa categoria onde alguns até se permitiam ter esperança pela vitória de “Pantera Negra”.
Foi Justin Hurwitz quem levou esse mesmo prêmio em 2017, também por um filme de Damien Chazelle, “La La Land-Cantando Estações”.

Melhor animação
"Homem-Aranha no Aranhaverso"

Quebrando a hegemonia Disney/Pixar que já durava sabe-se lá quanto tempo, a bem-sucedida animação da Sony Pictures conquistou a crítica estrangeira e ameaça, com isso, consagrar-se como a mais funcional e vibrante tradução do herói aracnídeo para as telas de cinema.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Reino de Fogo


Eis um filme até bastante habilidoso em sua esquisitice.
Vejamos: Trata-se de uma aventura de ação pós-apocalíptica envolvendo... dragões (?!?).
Dirigido por Rob Bowman (cujos créditos mais expressivos remetem a alguns episódios da série “Arquivo X”), “Reino de Fogo” promove uma miscelânea toda curiosa e desigual, mas sem muita razão de ser no final das contas, o que corrobora com a evidência de algumas de suas imperfeições.
Se o personagem Danton Van Zan, que Matthew McConaughey interpreta com fulgor raivoso, tem a exuberância para chamar para si o protagonismo, o seu aliado na luta contra os dragões, o inglês Quinn (Christian Bale, anos antes da ascensão na carreira promovida pelo “Batman” de Christopher Nolan) segue uma linha mais discreta e introspectiva –ainda assim, é Quinn o personagem principal de fato; desde o início quando ele, ainda criança, desperta inadvertidamente um dragão em meio às obras subterrâneas gerenciadas por sua mãe (e com isso, determina a desolação inapelável na qual a humanidade viverá dali para frente), até anos depois quando, já adulto, ele se vê à frente de uma comunidade que aprendeu a se virar escondendo-se o máximo possível das criaturas cuspidoras de fogo.
A caracterização da rotina desolada da comunidade de Quinn é impecável: Vivem de cavar obstinadamente para que tenham no subsolo um refúgio garantido e constante para o perigo dos dragões –tanto que tal ato está incluído no contexto de suas orações.
“Star Wars” não é mais que uma encenação de peça infantil –cuja autoria Quinn malandramente reclama para si!
Os dragões queimam tudo que vêem pela frente; seu alimento, de fato, são as cinzas de tudo que seu fogo destrói. Um dia –reza a narração em off do próprio Christian Bale –não haverá mais comida, tendo eles destruído tudo, e eles se extinguirão recorrendo ao canibalismo; é isso, supõe-se, que ocorreu aos dinossauros cuja extinção, Quinn afirma, é culpa deles.
Nesse cenário de desesperança (reforçado pela fotografia de Adrian Biddle que carrega nos tons de prata e cinza, assim como na luz difusa), surge o americano Van Zan e seu grupo de assim auto-intitulados ‘caçadores de dragões’ –tão ameaçadoras são as feras, porém, que a alcunha soa despropositada aos ouvidos de Quinn e de seu braço-direito Creedy (Gerard Butler, também ele, anos antes da fama por “300”).
Van Zan e sua arrogância tipicamente americana –temperada com uma amargura intensa –traz algum otimismo à comunidade, sobretudo, depois que seu grupo (numa cena arrojada) consegue matar um dragão.
A promessa do princípio de uma calejada supremacia da raça humana sobre as criaturas cuspidoras de fogo, no entanto, se revela fugaz quando Van Zan e sua postura começam a fazer mais mal do que bem: Ele entra em atrito com a liderança protecionista e isolacionista de Quinn quando resolve levar homens (mesmo os não-voluntários) à Londres, onde acredita, encontrará o único dragão macho da espécie –aquele mesmo que Quinn vislumbrou quando criança –cuja morte pode colocar um fim permanente à infestação de monstros.
Gradativamente, “Reino de Fogo” vai se afastando de sua inclinação para “Mad Max” ao imolar aspectos de filmes mitológicos de capa & espada (nos quais a aparição de dragões é, de fato, mais comum) com sua ambientação apropriadamente europeia lançando mão de castelos úmidos de tijolos e outras evocações típicas.
Causa uma impressão estranha, visto que nunca abandona também seus elementos de ficção científica. O trabalho de Rob Bowman parece se esbaldar com a originalidade embutida na premissa, e dele extrai vigor e euforia o suficiente para entreter do início ao fim.
Seu pecado é a incongruência: Seus protagonistas (a despeito do empenho verdadeiramente admirável de Bale e McConaughey) não têm carisma o bastante. Suas sequências (ainda que bem executadas) não se destacam de fato. E sua postura de gênero não fica clara em momento algum justamente por conta de sua singularidade.
É bom, mas podia ser sensacional.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Os Indicados Ao Globo de Ouro 2019


A temporada de prêmios começou. A lista divulgada hoje traz os concorrentes ao prêmio conferido pela Imprensa Estrangeira, o Globo de Ouro que, no passado, já foi o mais confiável dos termômetros para o Oscar. Eis os indicados somente nas categorias de cinema:

Melhor Roteiro
Alfonso Cuaron, por “Roma”
Deborah Davis e Tony McNamara, por “A Favorita”
Barry Jenkins, por “Se a Rua Beale Falasse”
Adam McKay, por “Vice”
Peter Farrelly, Nick Vallelonga e Brian Currie, por “Green Book-O Guia”

Melhor Diretor
Bradley Cooper (“Nasce Uma Estrela”)
Alfonso Cuaron (“Roma”)
Peter Farrelly (“Green Book-O Guia”)
Spike Lee (“Infiltrado na Klan”)
Adam McKay (“Vice”)

Melhor Filme Drama
“Infiltrado na Klan”
“Bohemian Rhapsody”
“Se a Rua Beale Falasse”
“Nasce Uma Estrela”

Melhor Musical ou Comédia
“Podres de Rico”
“A Favorita”
“Green Book-O Guia”
“O Retorno de Mary Poppins”
“Vice”

Além da predominância até já esperada do elogiadíssimo “Roma” e de “Vice”, a nova empreitada de Adam McKay depois da consagração com “A Grande Aposta”, o que surpreendeu foi a ausência de “O Primeiro Homem”, de Damien Chazelle, nas categorias principais.
Mas, nenhuma surpresa foi maior do que a lembrança de “Pantera Negra”, tornando-se assim o primeiro filme da Marvel Studios a concorrer em um prêmio de expressão –e ainda por cima na categoria de Drama, convenhamos, mais prestigiada que a de Musical ou Comédia.

Melhor Animação
“Ilha de Cachorros”
“Mirai”
“WiFi Ralph”
”Homem-Aranha no Aranhaverso”


Muitos trabalhos ainda inéditos no Brasil, como “WiFi Ralph” e “Homem-Aranha no Aranhaverso” disputam este prêmio tornando difícil apontar o favorito, mas “Os Incríveis 2” vem com o aval da Pixar e da Disney.
Penso que o prêmio ficará entre ele e a continuação de “Detona Ralph”.

Melhor Filme Estrangeiro
“Capernaum” (Líbano)
“Girl” (Bélgica)
“Never Look Away” (Alemanha)
“Roma” (Itália)
“Shoplifters” (Japão)

Imagina-se que, como ocorreu a quatro anos atrás, deva haver um predomínio do trabalho de Alfonso Cuaron nas premiações.
Nesta categoria não parece haver concorrente mais forte do que “Roma”, no entanto, a Imprensa Estrangeira pode ter conhecimentos a respeito de um desses indicados que nós ainda não temos.
Agora, mistério mesmo é como o Oscar irá se comportar em relação à Roma (que é um filme da Netflix!) se sua supremacia artística se confirmar ao longo desta temporada.

Melhor Ator Coadjuvante
Mahershala Ali (“Green Book-O Guia”)
Timothee Chalamet (“Beautiful Boy”)
Adam Driver (“Infiltrado na Klan”)
Richard E. Grant (“Can You Ever Forgive Me?”)
Sam Rockwell (“Vice”)

Com exceção de Richard E. Grant, os demais indicados são todos grandes atores surgidos nos últimos anos; não será fácil optar entre o fulgor de Sam Rockwell, o minimalismo de Adam Driver, a introspecção precisa de Timothée Chamalet e o surpreendente timing cômico de Mahershala Ali.

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams (“Vice”)
Claire Foy (“O Primeiro Homem”)
Regina King (“Se a Rua Beale Falasse”)
Emma Stone (“A Favorita”)
Rachel Weisz (“A Favorita”)

Eis que finalmente “O Primeiro Homem” aparece nesta categoria (ele só torna a reaparecer na de Trilha Sonora Original), representado justamente por Claire Foy que teve um 2018 promissor no cinema; com o papel de Lisbeth Salander em “A Garota Na Teia da Aranha” e este daqui ela começa a dar passos largos para obter na tela grande o mesmo reconhecimento que já tem na TV na série “The Crow”.
Quando à grande dúvida sobre as atrizes de “A Favorita” –ninguém sabia em quais categorias as três seriam colocadas –pelo menos o Globo de Ouro optou por colocar as mais famosas (Emma e Rachel) como coadjuvantes e a única desconhecida como atriz principal –já falamos dela...

Melhor Ator em Drama
Bradley Cooper (“Nasce Uma Estrela”)
Willem Dafoe (“At Eternity’s Gate”)
Lucas Hedges (“Boy Erased”)
Rami Malek (“Bohemian Rhapsody”)
John David Washington (“Infiltrado na Klan”)

Embora o público dê seu referendo aos trabalhos de Rami Malek e Bradley Cooper (este, é bom lembrar, também é diretor do filme), quem vem crescendo consideravelmente em rodas de apostas é a magnífica atuação de Lucas Hedges.

Melhor Atriz em Drama
Glenn Close (“The Wife”)
Lady Gaga (“Nasce Uma Estrela”)
Nicole Kidman (“O Peso do Passado”)
Melissa McCarthy (“Can You Ever Forgive Me?”)
Rosamund Pike (“A Private War”)

Embora a interpretação de Nicole Kidman seja apontada como uma das melhores do ano (e da sua carreira também) muito se aposta que esta seja finalmente a chance de Glenn Close ser premiada –não no Globo de Ouro, que ela venceu em duas ocasiões, mas no Oscar! Como o Globo de Ouro, bem como muitas das demais premiações, apontam o favoritismo que costuma se confirmar na festa do Oscar, é natural que ela saia na frente aqui.
Além de Nicole, ela tem a concorrência fortíssima de Lady Gaga, numa performance muito aplaudida por público e crítica.
Uma pena, porém, que não houve espaço para uma indicação para Tony Collette e seu poderoso trabalho no assustador “Hereditário”.

Melhor Ator em Comédia ou Musical
Christian Bale (“Vice”)
Lin-Manuel Miranda (“O Retorno de Mary Poppins”)
Viggo Mortensen (“Green Book-O Guia”)
Robert Redford (“The Old Man and the Gun”)
John C. Reilly (“Stan & Ollie”)

Entregando a excelência habitual com a qual nos acostumamos, Christian Bale e Viggo Mortensen chegam exigindo respeito, bem como o veterano Robert Redford que, a exemplo de Daniel Day-Lewis ano passado, anunciou sua aposentadoria de frente das câmeras.
É difícil, no entanto, ignorar o brilho e a emoção de John C. Reilly (debaixo de quilos de maquiagem) como Oliver Hardy na cinebiografia de o Gordo e o Magro, “Stan & Ollie”.

Melhor Atriz em Comédia ou Musical
Emily Blunt (“O Retorno de Mary Poppins”)
Olivia Colman (“A Favorita”)
Elsie Fisher (“Eighth Grade”)
Charlize Theron (“Tully”)
Constance Wu (“Podre de Ricos”)

Embora tenha a mesma importância na trama e o mesmo tempo de cena que suas companheiras de elenco, Emma Stone e Rachel Weisz, a desconhecida Olivia Colman ganhou a indicação como protagonista em detrimento da nomeação de suas colegas como coadjuvantes.
É essa indefinição uma das desvantagens dela na busca pelo prêmio que ela terá de disputar com os sempre bons trabalhos de Emily Blunt (na continuação de um clássico que as premiações podem insistir em lembrar), de Charlize Theron e de Constance Wu –possivelmente a favorita –num dos filmes-sensação da temporada.

Melhor Trilha Sonora Original
Marco Beltrami por “Um Lugar Silencioso
Alexandre Desplat por “Ilha de Cachorros”
Ludwig Göransson por “Pantera Negra”
Justin Hurwitz por “O Primeiro Homem”
Marc Shaiman por “O Retorno de Mary Poppins”

Melhor Música Original
All the Stars, de “Pantera Negra”
Girl in the Movies, de “Dumplin’”
Requiem for a Private War, de “A Private War”
Revelation, de “Boy Erased”
Shallow, de “Nasce Uma Estrela”

Nas categorias de Trilha Sonora e Música, “Pantera Negra” (que concorre em ambas) vai precisar disputar, no primeiro caso, com um filme magistral no uso da dinâmica entre o som e o silêncio (o muito digno de prêmios, “Um Lugar Silencioso” que infelizmente só foi lembrado aqui), e com um clássico dos musicais repaginado em toda sua glória (“Mary Poppins”).
Já no quesito Música Original, muitos acham improvável que “Nasce Uma Estrela” saia de mãos abanando.

A entrega dos Globos de Ouro ocorre dia 6 de janeiro.