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sexta-feira, 24 de maio de 2024

Furiosa - Uma Saga Mad Max


 Em 2015, o diretor australiano George Miller retomou a “Franquia Mad Max” ao trazer para o mundo uma verdadeira obra de arte chamada “Mad Max-Estrada da Fúria”. Sucesso avassalador e merecido de público e crítica, ganhador de seis prêmios Oscar, “Estrada da Fúria” reacendeu o interesse pela saga, outrora protagonizada por Mel Gibson (e que não ganhava um novo filme a pelo menos trinta anos), e com isso, muitos foram os que logo especularam a possibilidade de George Miller prontamente arregaçar as mangas e fazer um novo filme.

Nove anos depois, isso aconteceu. Contudo, ao contrário do que poderia se imaginar, Miller não deu uma continuidade àqueles eventos (e nem tampouco trouxe de volta o protagonista Max, agora vivido por Tom Hardy), ele na verdade entregou uma prequel (uma sequência que narra eventos anteriores) focada na personagem Furiosa, vivida naquele filme por uma inspirada e sensacional Charlize Theron. Essencial à trama, tanto ou até mais que o protagonista Max, Furiosa era uma personagem intrigante, sólida e imediatamente cativante que respondia pelo coração pulsante do filme.

Nesta espécie de origem que esclarece, explica e justifica certos tópicos que eventualmente ficaram nebulosos naquele filme (como a ambígua relação dela com o vilão Immortan Joe), acompanhamos a trajetória de sofrimento, bravura e persistência de Furiosa, desde sua infância, ao longo de anos (quinze, mais precisamente) até culminarmos no trecho em que a trama de “Estrada da Fúria” se inicia –o que converte esse dois filmes, unidos, numa única grande obra, completa e abrangente.

Ainda uma criança, Furiosa (então vivida pela pequena mas competente Alyla Browne) por uma série de lamentáveis contratempos acaba sequestrada do local onde nasceu, um oásis secreto administrado com sigilo e ferocidade por um clã de guerreiras, por um grupo desgarrado de motoqueiros do deserto. Esses motoqueiros compõem a gangue de maltrapilhos selvagens e brutalizados liderados por Dementus (Chris Hemsworth, satisfeito num exuberante papel de vilão), um líder sarcástico, cruel e desumano, travestido de uma versão escatológica e non-sense de Jesus Cristo (!).

Furiosa até é seguida por sua mãe, Mary Jabassy (Charlee Fraser, de “Todos Menos Você”), que em vão tenta tirá-la das mãos desses desordeiros, conseguindo apenas ser morta cruelmente no processo. Nos anos por vir, Furiosa (que em algum momento passa a ser interpretada por Anya Taylor-Joy, uma substituta formidável e impecável para Charlize Theron) procura sobreviver estando próxima o suficiente de Dementus para que ele não a descarte como muitas das vítimas que vão parar em suas mãos; mas distante e cautelosa o bastante para que ele não deseje extrair dela o segredo de como regressar para casa, e nem perceba seus planos de vingar-se dele, o assassino de sua mãe.

É dessa forma que Furiosa acaba se tornando uma testemunha da inusitada guerra por poder que se desenrola no deserto, a envolver as lideranças antagônicas de Dementos e Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne): Dominando a chamada Cidade Gasolina (uma fortaleza que acomoda as refinarias de combustível para as tantas máquinas de guerra, o único item tão precioso naquele mundo-cão quanto a água), Dementus se torna uma potência a ser respeitada, o que, com seu temperamento provocador e sua predisposição para traição, leva seus oponentes a elaborar constantes estratégias para lhe derrotar.

É assim que Furiosa, no decurso de embates árduos a envolver fogo, sangue e ferragens de carros em colisão, deve compreender que existe uma diferença imprevisível entre a expectativa daquilo que esperamos e a realidade que a vida termina por nos entregar.

Brilhantemente dirigido (toda a mitologia expandida e materializada em visual acachapante dos filmes anteriores é ainda mais aprofundada nesta narrativa) e realizado com minúcia ímpar e perícia absurda nos mais diversos quesitos (é bem provável que seus predicados sejam recompensados na próxima cerimônia do Oscar), “Furiosa” só não iguala o brilhantismo de “Estrada da Fúria” porque, ao abordar uma trama que se propõe a albergar vários anos com eventos ora intimistas, ora bombásticos, ele não evoca a mesma perfeição de ritmo e atmosfera daquele magistral trabalho –ainda que não falte a esta nova obra de Miller, o primor de acabamento que transformou “Estrada da Fúria” num espetáculo tão singular.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Thor - Amor & Trovão


 Se em “Thor-Ragnarok” o diretor Taika Waititi havia encontrado o que parecia ser enfim o tom certo para as aventuras de Thor –o de uma comédia do absurdo temperada com ação épica decalcada do “Flash Gordon” dos anos 1980 –em “Thor-Amor & Trovão” tais aspirações e, sobretudo, a necessidade muito mercadológica de superá-las, ameaçam ruir sob a pressão da própria narrativa.

Como em seu antecessor, “Amor & Trovão” pulsa espirituosidade, e até mesmo uma certa originalidade na maneira com que enxerga uma forma distinta de colocar seu herói mitológico num prisma diferenciado de graça, conflitos existenciais e visual arrojado, contudo, ao procurar ir um pouco mais longe do que foi “Ragnarok”, lhe aumentando o escopo e tudo o mais, este “Amor & Trovão” acaba também expondo as limitações de Waititi. Nota-se, agora, que ele perde um pouco a noção de seu humor a partir do momento em que se defronta com situações que perigam ser repetitivas, e que sua paciência para com as cenas de ação se esgota muito facilmente.

Experimentando uma crise existencial desde que deixou a Terra ao final de “Vingadores-Ultimato” acompanhado dos Guardiões da Galáxia, Thor Odinson (Chris Hemsworth, sempre formidável) revê sua identidade como super-herói –ele mal tem ânimo, ou motivação, para participar das injustificadas batalhas ao lado de seus novos companheiros. Ainda assim, seu caminho toma um novo rumo quando parte atrás do paradeiro de Lady Sif (Jamie Alexander, numa personagem que havia sido estranhamente esquecida em “Ragnarok”) e descobre que um certo Gorr, auto-intitulado Carniceiro dos Deuses, vem fazendo das suas. Vivido pela hábil concepção minimalista do sempre talentoso Christian Bale, Gorr é um personagem trágico como toca a todo bom vilão –suas incomensuráveis aflições sofreram tamanha indiferença da parte dos deuses para quem rogou ajuda que, uma vez dotado da famigerada Espada Necromante, ele decide dar cabo de todas as divindades universo afora.

Esses percalços levam Thor de volta à terra, onde se encontra a comunidade de Nova Asgard, remanescentes da destruição promovida em seu reino no último filme, e lá, em meio à uma batalha, ele reencontra Jane Foster, uma antiga ex-paixão –leia-se: A namoradinha do super-herói nos filmes “Thor 1” e “Thor 2”.

Interpretada por Natalie Portman, que na época havia acabado de levar o Oscar de Melhor Atriz por “Cisne Negro”, Jane Foster era, até então, algo entre uma donzela em perigo e um alívio cômico. Foi Taika Waititi quem convenceu a atriz a voltar ao papel prometendo-lhe um arco narrativo que parecia ser improvável de ganhar as telas de cinema: Nas HQs, Jane se torna digna de empunhar o Mjolnir –o martelo de Thor, feito em pedaços por Hela, a Deusa da Morte, em “Ragnarok” –e com isso adquire todos os poderes do Deus do Trovão convertendo-se numa versão feminina do herói e num dos tantos exemplos de empoderamento e emancipação que afloraram na cultura pop. Mais do que transpor essa trama para o audio-visual, o que Waititi faz aqui é finalmente mostrar porque uma atriz vencedora do Oscar está a desempenhar esta personagem: Se em “Ragnarok” ele remodelou Thor dando-lhe a ênfase de protagonista que outros diretores não souberam dar, em “Amor & Trovão”, ainda que ele mantenha o foco de seu enredo em Thor, ele transforma Jane numa heroína de fato, dando-lhe um propósito e, de certa maneira, um desfecho. Uma personagem numa jornada.

É claro que, no processo, muita galhofa é mostrada o que, na soma de seus elementos, quase converte “Amor & Trovão” numa comédia romântica: Lá está, afinal, o relacionamento cheio de altor e baixos entre dois personagens feitos um para o outro (ainda que os próprios sejam os únicos que não se deem conta disso); lá estão as piadinhas (algumas bem infames) que temperam as dores de amor com um aroma agridoce; e lá também está uma idealização muito cinematográfica das complicações românticas, onde elas ganham ares de conto de fadas. Se tudo isso é descoberto na moldura muito modernosa de um filme de super-herói, é porque trata-se aparentemente de uma das propostas da Marvel Studios nesta produção. Se “Viúva Negra” era um thriller de espionagem, “Shang Chi e A Lenda dos Dez Anéis” era um épico de artes marciais e “Dr. Estranho No Multiverso da Loucura”, um filme de terror, então, “Amor & Trovão” guardadas as devidas concessões com cenas de ação, batalhas e a profusão usual e incontornável de efeitos visuais, é deveras uma comédia romântica.

Desde os eventos bombásticos ocasionados em “Vingadores-Ultimato” muito se pergunta qual será o caminho trilhado pela Marvel daqui para frente. Ele ainda não ficou completamente claro, mas é visto, pelo que se observou até aqui, que o estúdio está disposto a pisar no freio: Afinal, é inconcebível entregar ano após ano um evento cinematográfico da estatura de “Ultimato”.

A saida, portanto, é experimentar com novas interpretações de gênero, daí a sensação de que, diferente de todos os longa-metragens que iniciaram seu festejado universo compartilhado, todos os filmes que integraram até agora a chamada Fase 4 parecem ser obras independentes, pouco ou nada ligadas umas às outras –ainda que, nas sutilezas, as ligações continuem todas lá.

Pela confiança depositada em Taika Waititi e pela natureza mais incomum do próprio protagonista, “Thor-Amor & Trovão” é a obra mais independente de todas as demais, narrativamente falando, o que significa que o expectador pode aproveitar seu humor claudicante (ora hilário, ora constrangedor), sua emoção ocasionalmente eficiente e o exuberante colorido de suas cenas por aquilo que realmente é: Um filme vibrante, ainda que imperfeito.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Resgate


 Os Irmãos Russo começaram a colher os louros por terem realizado quatro dos melhores filmes da Marvel Studios –“CapitãoAmérica-O Soldado Invernal”, “Capitão América-Guerra Civil”, “Vingadores-Guerra Infinita” e “Vingadores-Ultimato” –quando tiveram aval para fazer esta outra adaptação de uma história em quadrinhos de sua própria co-autoria financiada pela Netflix, desta vez, uma trama sem super-heróis ou histórias fantasiosas e mirabolantes. Aqui eles entram como produtores e argumentistas, deixando a direção a cargo de Sam Hargrave cuja habilidade nas cenas de ação salta aos olhos.

John Wick” fez escola. E é numa vibração muito parecida que este filme urgente e bem realizado se desenvolve –num personagem com bastante similaridade, Chris Hemsworth surge um pouco mais truculento e menos estiloso do que Keanu Reeves, no entanto, igualmente carismático e supino no papel de Tyler, um protagonista sobre o qual pouco sabemos exceto que trata-se de um ‘extrator’: Alguém capaz de tirar uma pessoa sequestrada dos lugares mais inexpugnáveis.

Isso o torna o homem perfeito para encarar a missão de tirar o jovem Ovi Mahajan (Rudhraksh Jaiswal) de Dhaka, localizada em Bangladesh. Filho de um líder do tráfico de drogas, Ovi foi sequestrado por Amir Asif (Priyanshu Painyuli), gangster ávido por deixar o segundo lugar que ocupa como barão do crime e ascender ao topo. O garoto está confinado em algum lugar das intermináveis favelas da cidade que Amir Asif controla como se fosse seu jardim, e é de lá que Tyler precisa tirá-lo. Antes mesmo da missão ser posta em prática já sabemos de antemão que ela tem chances mínimas de ser bem-sucedida: Se por um lado os sequestradores dominam toda a cidade e caçam o extrator e seu protegido pelos mais improváveis esconderijos, por outro, o próprio contratante do protagonista (Randeep Hooda) já faz planos para traí-lo: Ele não dispõe do dinheiro para pagar a alta quantia que Tyler pede por seus serviços, assim, muito mais barato para ele (e seguro para sua família) é tentar mantar Tyler no instante em que tiver concluído sua incumbência –a entrega do garoto.

Entretanto, este filme leva ao extremo a máxima de que nada, absolutamente nada, sai como o planejado: De perseguições motorizadas em plenas ruas de favela –com direito a um dos planos-sequências mais brilhantes dos últimos anos –até tiroteios a céu aberto e confrontos físicos para além da mais vigorosa resistência humana, a invencibilidade do protagonista, bem como sua prodigiosa experiência é colocada à prova.

“Resgate” é a epítone dos filmes de ação como eles hoje são considerados: Construções narrativas, perfomáticas e técnicas em torno de um protagonista invencível amparadas, quase sempre no carisma de seu astro, na habilidade de seu diretor, no desempenho físico de seus dublês, e no realismo flagrante de seus efeitos visuais. Os realizadores dessa nova safra ainda têm o trunfo de encontrar, nas brechas eventuais dessas premissas, concebidas para ser puro frenesi em detrimento de trama e prosa, instantes onde depositam elementos que agregam algo a uma certa dramaturgia assim sugerida, ou até a uma mitologia em gestação –sim, porque apesar do apoteótico desfecho onde não sobra pedra sobre pedra, “Resgate” sabe (e quer) se encerrar deixando a plateia salivando por mais.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Branca de Neve e O Caçador

É irônico que, perante essa nova e lucrativa tendência dos Estúdios Disney de refazer em filmes com atores suas animações clássicas, tenha sido outro estúdio, a Universal Pictures, quem repaginou em tons realistas o clássico maior da Disney, “Branca de Neve e Os Sete Anões”.
Claro que, por conta disso, “Branca de Neve e O Caçador” tem liberdades poéticas necessárias que afastam o risco de um processo autoral –como o fato de serem oito anões, e não sete (!), além da presença consideravelmente menos importante deles na trama.
Aqui, quem ganha destaque, como o próprio título já trata de esclarecer, é o breve personagem do Caçador (que Chris Hemsworth interpreta com propriedade e carisma) numa manobra narrativa um bocado comum, onde se aventa uma ‘história não contada’ dentro da própria história já muito difundida –e “Branca de Neve” é certamente uma das histórias mais famosas de todos os tempos.
Com uma austeridade narrativa que remete à obras de mitologia mais adulta como “O Senhor dos Anéis”, “Excalibur” ou “O Feitiço de Áquila”, a trama do filme se inicia com a pequena e doce menina Branca de Neve perdendo a mãe e vendo ela ser substituída, não muito depois, pela belíssima Ravena (Charlize Theron, espetacular em todas as facetas da personagem).
Entretanto, Ravena se revela uma feiticeira perigosa e nem um pouco interessada em desposar um rei –ela quer (e, de fato, consegue) é tomar-lhe seu reino, sagrar-se rainha e arremessar todos os súditos num regime tirânico e aterrorizante.
Com seu pai morto, Branca de Neve é convertida em prisioneira, crescendo no alto de uma torre nos anos seguintes –e adquirindo com isso as feições de Kristen Stewart; que não é a boa atriz, nem a linda mulher que é Charlize Theron, mas cujo protagonismo na série “Crepúsculo” lhe garantia estrelato o suficiente para ser aqui a personagem principal.
Se há algo que valoriza “Branca de Neve e O Caçador” é o fato de que, ainda em seus primeiros vinte minutos, já fica evidente a disposição entusiasmada do diretor Rupert Sanders em incorporar um cinema vistoso, assumidamente comercial e visualmente bem acabado para moldar um filme sedutor ainda que amparado numa história batida, e que com frequência não consegue escapar –a despeito de suas intenções de seriedade –das características pueris presentes no conto de fadas: Apesar de tudo, Ravena continua obcecada em manter o título de ‘Mulher Mais Bela’ aos olhos do onisciente Espelho Mágico (cuja personificação visual me lembrou as criaturas dos filmes de Guillermo Del Toro) e, quando Branca de Neve atinge idade o bastante para tomar-lhe tal honraria, a insatisfeita Ravena ordena sua execução.
É quando –em outro momento perigosamente implausível com os quais a trama flerta –Branca de Neve aproveita o ensejo e consegue sozinha fugir do palácio (!), terminando desaparecida na lúgubre e assustadora Floresta Negra.
Indignada com a inépcia de seus soldados, a rainha convoca o único homem capaz de encontrar alguém extraviado por lá, o Caçador.
Beberrão e desesperançado desde que se tornou viúvo (background mais aprofundado na continuação “O Caçador e A Rainha do Gelo”), o Caçador recebe da rainha uma oferta irrecusável: Ela usará seus poderes para ressuscitar sua amada se ele lhe trouxer o coração de Branca de Neve.
No entanto, após encontrar Branca de Neve, o Caçador começa a compreender as razões para a extrema atenção que a ira da rainha dedica a ela: A jovem é a única capaz de tirar Ravena de seu trono e restaurar harmonia ao reino.
Segue-se assim uma aventura episódica onde o diretor leva esse casal central a encontrar os agora oito anões, grupo de personagens que soa mais como alívio cômico do que como um adendo relevante da narrativa, embora entre eles hajam participações ilustres como Bob Hoskins, Eddie Marsan, Ray Winstone, Nick Frost e Ian McShane (todos miniaturizados por computador, como Peter Jackson fez com os hobbits em “O Senhor dos Anéis”).
E também, o providencial ‘príncipe encantado’, na forma do apaixonado amigo de infância William (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”) cujo exército contribui para a inevitável batalha final, reflexo condicionado do sub-gênero de filmes épicos que o trabalho de Sanders, em seu caráter evocativo, não resistiria.à tentação de incluir.
Há também a clássica passagem da maçã envenenada, seguida do igualmente clássico momento do beijo que faz Branca de Neve despertar –aqui, o trabalho de Sanders também aproveita para inserir uma sutil intenção transgressora ao sugerir que, longe dos olhos de testemunhas, foi o beijo do Caçador, e não o do príncipe quem despertou a protagonista –um prenúncio de triângulo amoroso que talvez estivesse nos planos da vindoura continuação, mas que foi completamente modificado em função da polêmica que envolveu a divulgação do filme: A atriz Kristen Stewart e o diretor Rupert Sanders, ambos comprometidos, foram flagrados juntos por paparazzis, o quê afastou ambos do segundo projeto, “O Caçador e A Rainha do Gelo”.
Contudo, se a continuação, por todas essas razões de afastamento, resultou fraca, aqui obtem-se uma produção fluente, de encher os olhos e satisfatória para os aficcionados de aventuras de espada & magia, num esforço até que válido, mas ocasionalmente banal, para ocultar os traços infantis de conto de fadas da história original.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores - Guerra Infinita

A Marvel Studios tinha um plano. Ele começou, mais ou menos em 2012, quando o vilão Thanos fez sua primeira e breve aparição na cena pós-créditos de "Vingadores".
Imaginou-se, na época, que aquele seria o gancho para uma continuação (que veio três anos depois, “A Era de Ultron”), mas o plano da Marvel Studios –e de seu competente presidente, Kevin Feigi –revelou-se muito mais complexo e ambicioso: Com o tempo e os inúmeros filmes que vieram depois (que variavam entre o divertido e o excelente), a Marvel construiu todo um universo de personagens e narrativas compartilhadas no cinema, repetindo uma linguagem que predominava nos quadrinhos originais, cujas direções apontavam para um único desenlace; a chegada de Thanos e sua conseqüente reunião das seis jóias do infinito.
Quem leu os quadrinhos sabe do quê se trata. As Jóias do Infinito são poderosas gemas de poder cósmico que reunidas proporcionam a onipotência. São elas, a jóia do espaço (o Tesseract visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador” e em “Vingadores), da realidade (o Aether, mostrado em “Thor-O Mundo Sombrio”), do poder (o Orbe revelado no primeiro “Guardiões da Galáxia”), da mente (a jóia que terminou constituindo parte do andróide Visão em “A Era de Ultron”), do tempo (o Olho de Agamoto, em “Doutor Estranho”) e da alma (jamais revelada até então, mas que ocupa uma parte essencial da trama neste filme).
Não é a toa, também que por meio deste filme, então, a Marvel Studios sinalize um desfecho para muitas das premissas que ela mesma iniciou nesses últimos dez anos.
Claro que ninguém é ingênuo de achar que eles deixarão de investir em seus filmes e em seus heróis, mas o trabalho dos Irmãos Russo (diretores primorosos de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Capitão América-Guerra Civil”) é tão contundente e corajoso que o filme consegue passar uma amarga impressão oposta –independente do rumo que seja tomado em outros filmes vindouros (e, sim, eles virão) a sensação que “Guerra Infinita” nos passa é, de fato, a de um encerramento.
A medida que Thanos (numa trabalho brilhante de Josh Brolin em captura de performance) vai tentando reunir as seis jóias, a história se reveza em três eletrizantes linhas narrativas: Na primeira (e que já havia sido devidamente esboçada no final de “Thor-Ragnarok”) acompanhamos o Deus do Trovão que, destituído de seu martelo, sua nave e seu povo, encontra os Guardiões da Galáxia –ao lado dos quais tentará obter um novo martelo para ter uma chance de se equiparar a Thanos na batalha final. Na segunda linha, vemos Tony Stark, o Homem de Ferro, unir-se ao mago Doutor Estranho e ao jovem Homem-Aranha para ainda no espaço sideral tentar deter a ameaça de Thanos. Na terceira linha, somos testemunhas dos esforços do Capitão América e seu grupo, Viúva Negra. Falcão, Feiticeira Escarlate e Visão, aliados ao Pantera Negra para tentar impedir uma invasão alienígena à Terra, na preparação para uma das mais espetaculares e gigantescas batalhas que o cinema já viu.
Três linhas narrativas. E nas três, a Marvel cuidou para que os protagonistas de cada um dos núcleos fossem os membros de sua Trindade Principal: Homem de Ferro, Capitão América e Thor que, vividos respectivamente por Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth, são assim as mais perfeitas traduções cinematográficas desses personagens.
É a Thanos, contudo, que “Guerra Infinita” de fato pertence.
Indo de encontro a uma das críticas mais contumazes de seus filmes (de que seus vilões são genéricos), a Marvel Studios faz de Thanos o grande protagonista de seu filme –e isso significa que suas motivações são esboçadas com um brilho e um zelo que ultrapassa o registro dos quadrinhos.
Significa outra coisa também: Não há nenhum personagem mais implacável que Thanos, e em seu propósito não entram as predileções do público –um dos assuntos mais discutidos pelos expectadores antes da estréia era quem morre ou não em “Guerra Infinita”, e dá pra dizer (sem entregar surpresas) que os Irmãos Russos foram inclementes: personagens absolutamente queridos e inesperados (e num número muito maior do que se pode supor) ganham um fim trágico em inúmeros momentos deste filme, o quê torna seu encerramento –o primeiro da Marvel a ter um aspecto de ‘final’ de fato –um tanto amargo.
Uma junção habilidosa e singular entre o escopo narrativo de “OSenhor dos Anéis-O Retorno do Rei” e o impacto emocional de “StarWars-O Império Contra-Ataca”.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Thor - Ragnarok

A Marvel Studios sempre naquela rotina de entregar ótimos filmes de entretenimento baseados em seus heróis de histórias em quadrinhos vive em um tênue equilíbrio. De um lado os detratores afirmam que sua escala de produção impede que diretores mais autorais expressem sua personalidade nas obras, do outro –quando a própria Marvel busca corresponder a essas críticas –eles reclamam que os filmes descaracterizam seus heróis; ataque dirigido, por exemplo, à “Homem de Ferro 3”.
É bem provável que este sensacional “Thor-Ragnarok” encontre ressalvas desse tipo, visto que ele de fato promove uma desconstrução do personagem Thor.
Carregando a alguns anos a ingrata pecha de protagonista de alguns dos mais fracos filmes da Marvel Studios –e, realmente, tanto “Thor”, de Kenneth Brannagh, quando “Thor-O Mundo Sombrio”, de Alan Taylor, estão entre os mais formulaicos –isso se refletiu fazendo de Thor, em meio às reuniões de todos os heróis nos filmes dos Vingadores, um dos personagens cujos elementos e cujo intérprete (o eficiente Chris Hemsworth) foram menos explorados.
Mas, a Marvel tinha plena consciência de que estava mudando as coisas quando chamou Taika Waititi para a direção deste terceiro filme solo do personagem.
Esperto, objetivo, capaz e perspicaz, Waititi de início –de início mesmo, já nos quinze primeiros minutos! –estabelece algumas mudanças profundas na abordagem que diferem seu filme dos anteriores. A primeira delas e mais pertinente, que define o filme a partir daqui: Na qualidade de protagonista, Thor é também tornado pelo roteiro e pela direção o personagem mais interessante em cena (Tom Hiddleston, como Loki, continua excelente, mas ele já não mais rouba a cena, pelo simples fato de que ele não é central à premissa).
A segunda: O humor –dono de um senso de humor tão irresistível quanto peculiar, Waititi encoraja o improviso e a descontração de seu elenco, evidenciando com isso o impecável timing cômico até então não aproveitado de Chris Hemsworth, e aproximando o tom de seu filme muito daquela deliciosa e divertida sensação de matinê que James Gunn soube imprimir ao seu “Guardiõesda Galáxia”. Até mesmo a concepção visual desses dois filmes, a partir de um determinado momento ganha similaridades.
A terceira diz respeito à própria habilidade de Waititi como diretor, e ela surge em momentos nos quais muitos o subestimavam, como as magníficas seqüências de ação já no início, quando vemos Thor, numa espécie de cruzada investigativa pelo universo, desde que ele se prestou a essa tarefa no final de “Vingadores-A Era de Ultron”.
Isso explica porque ele se manteve tanto tempo ausente de Asgard. Quando retorna o que ele encontra –como pôde ser visto ao fim de “Mundo Sombrio” –é Loki comandando Asgard no lugar que seria de Odin (Anthony Hopkins).
Uma rápida vinda à Terra (que abre espaço para uma participação sensacional de Benedict Cumberbath como “Doutor Estranho”) e eles encontram Odin exilado, temeroso do retorno de Hella, a deusa da morte (a bela e veemente Cate Blanchett), o quê pode deflagrar o Ragnarok, ou fim do mundo, em Asgard.
Em seu primeiro embate com Hella, Thor é exilado no planeta Sakar, de onde passará boa parte do filme tentando partir. E aí começam os esforços de Waititi em promover a tal da desconstrução do personagem. Thor perde seu poderoso martelo Mjolnir (isso não é spoiler, pois já é visto num dos trailers), tem suas longas madeixas cortadas e seu figurino radicalmente alterado, e isso não é nada perto do que se passará em Asgard até o final do filme –até chegar lá, todas as características do personagem que em muito o definiam (e tidas antes por intransformáveis) assim como sua mitologia de modo geral, terão sido chacoalhadas de modo irreversível por Waititi.
Como o grande diretor que é, ele aproveita cada instante desse processo para moldar cenas antológicas: Em Asgard, uma divertidíssima encenação teatral de eventos de “O Mundo Sombrio” coloca numa mesma participação Matt Damon e Sam Neil (!). Em Sakar, após ser capturado por Valkiria (a fabulosa Tessa Thompson), Thor deve se provar valoroso como gladiador aos olhos do Grão Mestre (Jeff Goldblum, impagável) e derrotar seu campeão que é, ninguém mais ninguém menos do que o Hulk –que recebe uma breve e eficiente explicação para seu desfecho nebuloso em “A Era de Ultron”.
A participação do Hulk –assim como de Bruce Banner que Mark Ruffalo interpreta de forma igualmente brilhante –é das mais suculentas em todos os filmes da Marvel: O gigante verde é essencial à narrativa contribuindo não só para as espetaculares cenas de ação, mas para a trama também, e ainda protagoniza a primeira cena de nudez da Marvel Studios (!).
Em outras palavras, eis um filme que exemplifica com propriedade a disposição da Marvel em criar cinema de verdade e entretenimento de primeira a partir de seus produtos.
Divertido, espetacular e, por que não, mágico.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Branca de Neve No Cinema

Branca de Neve e Os Sete Anões
O primeiro longa-metragem de animação de Walt Disney, “Branca de Neve...” impressiona até hoje por, entre outras coisas, ser ainda considerado por muitos, o melhor.
Podemos apenas imaginar como deve ter sido o assombro e o maravilhamento de platéias inteiras na época de seu lançamento, quando foram presenteados com uma obra animada sem precedentes; Pois é isso que “Branca de Neve...” é, um produto de arte da tal maneira refinada que estava, em diversos aspectos, a frente de seu tempo: Técnicas como a animação em três telas justapostas –que garantia um efeito de foco que simulava a câmera real e permitia a elaboração de incríveis proezas óticas –só foram assimiladas pela indústria muitas décadas depois.
Branca de Neve é a mais bela do reino em que vive. Essa realidade, entretanto, é demais para ser aceita por sua madrasta malvada que, orientada por seu espelho mágico, ordena que um caçador a mate na floresta. O homem a desobedece, poupando Branca de Neve que, fugitiva, encontra refúgio numa casa de pequenas proporções em meio à floresta. Ela pertence a sete anõezinhos que moram nela e trabalham numa mina próxima. Eles acolhem Branca de Neve ao chegarem em casa e achá-la dormindo sobre a cama. Mas, a notícia de que Branca de Neve ainda vive enfurece sua madrasta a ponto dela transformar-se numa bruxa hedionda e planejar matá-la, valendo-se do artifício de uma maçã envenenada.

Histórias Que Nossas Babás Não Contavam
Era inevitável –como tudo o mais –que o enredo rendesse lá um ou outro filme erótico (e devem existir centenas!), mas eis que a história do conto de fadas acabou inspirando aquele que é lembrado como um dos melhores e mais apreciados exemplares do nosso infame subgênero de pornochanchadas!
Num mundo fictício cuja galhofa só poderia mesmo existir num filme nacional dos anos 1980, a princesa Clara das Neves (a deliciosa Adele Fátima que, num contraste malicioso e divertido com a personagem do conto de fadas, é uma mulata das mais charmosas, belas e voluptuosas) se torna rapidamente um empecilho para a rainha má (Meiry Vieira), inclusive lhe tirando o favoritismo do príncipe (Denis Derkian) como o rabo de saia real mais cobiçado do pedaço (!). Ao confabular com o afeminado e petulante conselheiro fantasma (!) que mora em seu espelho mágico (vivido por Renato Pedrosa), a rainha resolve incumbir um caçador de matá-la em plena floresta.
Primeiro, o caçador (uma participação simplesmente hilária do comediante Costinha) se esbalda nos encantos sexuais de Clara das Neves, e depois –talvez, por gratidão à ela! –deixa que ela fuja para a floresta onde encontra uma casa habitada pelos sete anões.
Dos sete, seis deles ficam extremamente satisfeitos (maravilhados seria a palavra mais apropriada!) em ter uma mulher absurdamente esplêndida –e que fica nua a cada cinco minutos por qualquer razão! –morando em sua casa. O único anão que não concorda com a idéia, Zangado se sente protelado pelos demais que agora têm uma mulher de verdade para acariciar (!?!).
A divertida seqüência em que os anõezinhos vão, um a um, entrar no quarto onde Clara das Neves dorme pelada, e se fartam dela, um de cada vez, é simplesmente antológica!
Produzido por Aníbal Massaini Neto e dirigido por Osvaldo de Oliveira, “Histórias Que Nossas Babás Não Contaram” cai na possível situação onde poderia –na distorção tão descarada que faz da história original –ter supostamente estragado a infância de muita gente, contudo, sua malícia empregada na medida certa, sua chacota irresistível e seu bom humor até hoje saboroso e, sobretudo, o apelo sexualmente inquestionável da bela Adele Fátima o tornam um exemplo perfeito do que foi (ou do que deveria ter sido) o subgênero das pornochanchadas.

Floresta Negra
Numa das mais admiráveis versões já realizadas na história, a Madrasta Malvada (aqui batizada de Claudia) ganha expressão na competência à toda prova de Sigourney Weaver, em um filme que se debruça sobre os meandros complexos na relação de Branca de Neve e sua madrasta –que, na ambigüidade e na proposta dramaticamente rica da direção tem um belo arco narrativo que justifica o fato dela ser tão malvada assim.
O diretor Michael Cohn reavalia o conto dos Irmãos Grimm sob um prisma macabro, fatalista e sombrio vislumbrando as fissuras irremediáveis entre os relacionamento das duas antagonistas –basicamente, as únicas personagens que permaneceram intocadas nesta versão.
Branca de Neve é assim chamada Liliana (a jovem Monica Keena, de “Freedy X Jason”), e seu pai, Lord Hoffman (Sam Neil) casa-se com Claudia sobre quem já pesou a suspeita de práticas de bruxaria –a trama se ambienta no Período das Cruzadas, quando discussões e reflexões acerca do que era misticismo e religião estavam relativamente em voga.
Quando o pai da jovem falece cabe à Claudia e Liliana estabelecerem um consenso entre suas divergências, mas, à medida que a jovem cresce –e afloresce não apenas sua beleza, mas também sua rebeldia e impetuosidade –as diferenças entre ela e sua madrasta adquirem um desequilíbrio ainda maior, e mais perigoso.
Em fuga pela famigerada Floresta Negra, Liliana encontra refúgio em meio aos parias que se escondem na floresta de toda sorte violenta de discriminações alheias: Não, não são os sete anões, mais sim um grupo de lenhadores deformados –entre eles, o jovem Will (Gill Bellows, de “Um Sonho de Liberdade”) que assume a função de interesse romântico na ausência deliberada de um providencial príncipe encantado.
Essa necessidade enfática de afastar-se do caráter lúdico do conto e abraçar um viés realista só encontra alguns percalços prejudiciais no trecho final, quando alguns artifícios do roteiro se mostram bem menos inspirados no momento de seu desfecho do que o eram em seu ponto de partida.

Branca de Neve (ESP)
Transpondo o conto dos Grimm para a Espanha no que parecem ser meados dos anos 1920, o diretor Pablo Berger esbanja ousadia e personalidade ao converter o filme num exemplar com todos os cacoetes e características do cinema mudo –a exemplo do oscarizado, “O Artista”.
Este “Branca de Neve” se passa em Sevilha onde um grande toureiro (Daniel Gimenez Cacho), além de ser atingido por um touro –o que lhe imobiliza o corpo –tem também a esposa falecida durante o parto, restando-lhe assim somente a filha pequena. Como fica bem claro nesse prólogo, esta nova e audaciosa versão é de uma dramaticidade sem fim.
O toureiro, apesar de sua condição, logo irá desposar sua própria enfermeira, Encarna (Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também” e “O Labirinto do Fauno”) –de olho na fortuna do famoso toureiro –o quê a torna madrasta da filha pequena dele, Carmen (que, ao crescer, ganhará as formas da bela Macarena García).
A vida de Carmen será assim se submeter às crueldades de Encarna: Morando na mansão que ela rege depois do falecimento de sua avó, a jovem testemunha o pai ser confinado e esquecido dentro de um quarto enquanto a madrasta estabelece uma violenta relação com o chofer.
Carmen aprende com o pai suas prodigiosas técnicas de tourada, o quê só aumenta o ódio de Encarna por ela que, em algum momento, sugere que o chofer a mate.
Ao fugir disso tudo, Carmen termina perdida (e sem memória) numa floresta onde encontra (desta vez) seis diminutos toureiros, os anões que lhe darão o apelido de Branca de Neve –e aqui cabe, também, uma referência ao cult “Monstros”, de Todd Browning. Eles a protegerão e cuidarão, inclusive, quando se abater sobre ela a trágica maldição da maçã envenenada: Ao contrário das outras versões, Pablo Berger não faz concessões a um final feliz com o surgimento de um príncipe que quebre o feitiço –seu filme se encerra numa angustiante cena de circo de horrores, onde o corpo imóvel e cadavérico de Carmen (ou Branca de Neve) está à disposição de uma interminável fileira de interessados a beijá-la, e nenhum deles sinaliza qualquer possibilidade de vir a desfazer o encanto.
Por mais angustiante e depressivo que seja o desfecho deste “Branca de Neve”, o mais inacreditável é que ele ainda soa ameno e pueril perto de outra versão de mesmo nome, portuguesa, lançada no ano 2000 e dirigida por João César Monteiro: Um filme, dizem, difícil, radical e perturbador.

Branca de Neve e O Caçador
Com o lançamento do irregular, porém, bem-sucedido “A Garota da Capa Vermelha” –que, por sua vez, pega carona na moda de “Crepúsculo” –os estúdios passaram a adotar uma nova tendência: As adaptações de contos de fadas (muitos deles materializados em animações no passado) convertidos em filmes de apelo mais sério e mais infanto-juvenil, não raro, com influência de outros filmes de sucesso.
Dessa forma, surgiu (pouco antes de “Malévola”, com Angelina Jolie) este “Branca de Neve e O Caçador” –realizado pelos estúdios da Universal e não pela Disney –como o nome sugere (e como os desdobramentos tornam explícito), buscando uma quase reinvenção da história clássica.
Até então a adorável filha do rei, Branca de Neve (Kristen Stewart, de “Crepúsculo”, certamente escolhida com interesse na legião de fãs daquela saga) perde seu pai na mesma noite em que tem seu reino tomado pela maquiavélica Ravena (Charlize Theron, numa atuação memorável). Anos mais tarde, feita rainha e com sua beleza intocada graças ao uso constante de magia negra, Ravena recebe a notícia de seu espectral espelho mágico de que não é a mais bela entre as mulheres, honra que cabe agora à Branca de Neve, desde então prisioneira na torre mais alta. Quando tentam matá-la, Branca de Neve escapa e ruma para os confins sombrios da floresta negra, lugar que só um homem destemido e atormentado como o Caçador (Chris Hemsworth, o “Thor” da Marvel Studios) se atreveria a adentrar. Ele vai atrás dela sob um acordo com a Rainha, mas decide aliar-se à Branca de Neve e ajudá-la na épica batalha pelo reino que está por vir.
O escolhido para a direção, o inglês Rupert Sanders, deixa bastante claras suas aspirações cinematográficas: Além dos filmes de sucesso aos quais a escolha do elenco principal remete, seu filme emula, em tom, visual e intenção, do início ao fim, as qualidades épicas de “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson –inclusive, era Viggo Mortensen, uma de suas escolhas iniciais para viver o Caçador!
Da trama tão conhecida e difundida pelo desenho de Walt Disney sobrou pouco mais que o esqueleto: Se o Caçador tinha um papel breve e irrisório no conto de fadas, aqui sua presença e importância chegam a suplantar o príncipe encantado (Sam Claffin, de “Jogos Vorazes-Em Chamas”), e os anões –agora oito, ao invés de sete –não são mais que um gracioso reforço nas cenas de combate.
É um filme bonito, cujos valores de produção são bem aplicados e eficientes em torná-lo um espetáculo charmoso, seu grande calcanhar de Aquiles é mesmo sua atriz principal, Kristen Stewart, cuja apatia implícita na interpretação tira um pouco do brilho que a personagem poderia ter. A atriz, inclusive, envolveu-se com o diretor Sanders (que era casado) durante a divulgação do filme, escândalo que comprometeu os planos para a continuação –sugerida no final vagamente aberto –a saída do estúdio foi remover a atriz o diretor (Sanders depois encarregou-se de realizar “Ghost In The Shell-Vigilante do Amanhã”) tentando, um tempo depois, remodelar a produção obtendo como resultado “O Caçador e A Rainha do Gelo” que, como seqüência revelava-se ligeiramente irregular e incoerente.

Espelho, Espelho Meu
Lançado no mesmo ano de “Branca de Neve e O Caçador” –e repetindo o estranho equívoco de filmes extremamente similares lançados no mesmo período –este “Espelho, Espelho Meu”, dirigido por Tarsem Singh Dhandwar (da aventura “Imortais”) tinha por diferencial um tratamento escancarado de comédia.
A angelical Branca de Neve (Lilly Collins, filha do cantor Phil Collins) está em apuros. Nutrida de inveja para com sua beleza, a malvada madrasta (Julia Roberts, aparentemente a razão de ser deste projeto), rainha do castelo desde a morte do pai de Branca de Neve a deseja morta, pagando para isso os serviços de um caçador. Ao invés disso, porém, Branca de Neve vai parar na floresta onde torna-se hóspede de sete anõezinhos.
O diretor elabora um caprichado senso visual, repleto de cor e exuberância para esta versão em comédia do conto imortalizado pelo desenho de Walt Disney, no qual seu principal trunfo parece mesmo ser a escalação da estrela Julia Roberts para o vilanesco e afetado papel de Rainha Má (cujos rompantes de divas parecem fazer alusão involuntária aos chiliques da atriz na vida real), em contraponto a doçura e fragilidade de Lilly Collins. Outro elemento que depõem a favor desse ‘diferencial cômico’ é o príncipe encantado (o vistoso Armie Hammer) cuja suavidade de sua participação, a pouca expressão na trama e a inclusão de uma vergonhosa sub-trama paralela (onde vira um cachorro...) ameaçam transformá-lo num coadjuvante quase obsoleto.
Comédia não é um gênero fácil em torno do qual trabalhar. O humor é um paladar complicado ao qual se ajustar em relação ao que espera o público, e o diretor Dhandwar –notadamente oriundo de produções sombrias (como o suspense “A Cela”) –já não tinha muita desenvoltura nessa área, o quê fica patente aqui na desmesurada confiança que ele deposita não na narrativa, no roteiro ou no elenco, mas no aparato amplo e endinheirado de seu designer de produção –e essa característica, de fato, se revela em todos os seus filmes –terminando por carregar esta versão do conto de fadas em elementos excessivamente cartunescos, tornando o filme um trabalho infantilizado e superficial.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Rush - No Limite da Emoção

Os anos 1970 foram, de fato, um outro tempo: O nível de periculosidade a que se expunham os pilotos de Fórmula I e seus carros de condições precárias era algo absurdo e inconcebível para os dias de hoje –em contraponto, era também de se admirar o quão intrépidos, audazes e não raro, loucos pelo perigo eram os pilotos daqueles tempos.
É por meio desse prisma –o do espanto provocado pela comparação entre a comodidade de hoje e a audácia de ontem –que se sustenta muito do charme da narrativa que Ron Howard emprega em “Rush-No Limite da Emoção”.
Tão vibrante e tecnicamente fabuloso quanto “Apollo 13”, tão pertinente e dramaticamente relevante quanto “Uma Mente Brilhante” e tão dotado de senso de espetáculo e de esmero artístico quanto “Coccon”, “Um Sonho Distante” ou “O Código Da Vinci”, esta recriação astuta, eletrizante e inspirada do Grande Prêmio de Fórmula I de 1976 é, provavelmente, o melhor trabalho do diretor Ron Howard, em meio à uma carreira prolífica e diversa.
Naquele ano, todas as atenções encontravam-se voltadas para a rivalidade entre dois pilotos; o galanteador, mulherengo e playboy James Hunt (Chris Hemsworth) –visto desde sempre como uma forte promessa nas pistas –e o pouco social, metódico e arredio Nikki Lauda (Daniel Bruhl) –campeão de outras temporadas que apesar da fama de antipático, revelou-se um brilhante piloto e preparador de carros.
Determinados, um a superar o outro, esses dois pilotos de personalidades tão opostas quanto seus estilos de corrida, irão disputar ponto a ponto a liderança do campeonato, num duelo que encontrou para a história da Fórmula I –e com lances narrativos rigorosamente extraídos da realidade, porém tão inacreditáveis, tão carregados de reviravoltas dramáticas e de dramaticidade plena (incluindo o espetacular acidente sofrido por Nikki Lauda durante uma das corridas, onde teve noventa por cento do corpo queimado) que chega a ser espantoso não só o fato de tudo ter sido verdade, como também o de Hollywood ter demorado tanto tempo para transformar tudo em um filme.
Além dessa recriação sensacional de um dos mais espetaculares momentos do automobilismo, este filme, dirigido com perfeição por Ron Howard, tem ainda o mérito inequívoco de revelar grandes talentos em Daniel Bruhl e Chris Hemsworth (numa composição competente indo muito além da perfeita caracterização do super-herói “Thor”).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Vingadores - A Era de Ultron

É claro que após o êxito espetacular obtido com o primeiro filme dos “Vingadores”, a Marvel Studios manteria as coisas exatamente como estavam, a fim de não mudar a maneira acachapante com que seus filmes vinham tomando as bilheterias de assalto.
Leia-se: Tal e qual o primeiro filme, Joss Whedon continuaria a cargo do roteiro e da direção da segunda grande reunião dos heróis da Marvel.
Haviam, porém, algumas variáveis. A primeira: Os Vingadores –e todo o contexto que levava, de uma forma ou de outra, à sua junção, já não era novidade. Como também não era novidade, os filmes-solo que antecipavam esse evento –tudo isso já tinha sido mostrado, e com perícia, nos filmes da primeira fase.
A segunda: Joss Whedon, praticamente, engatou a execução do segundo filme, tão logo terminado o primeiro (minto, ele realizou, entre os dois uma adaptação semi-teatral, pequena, modesta e quase imperceptível de uma obra de Shakespeare, “Muito Barulho Por Nada”).
E sua exaustão é visível no desgaste da narrativa.
É assim que, numa continuação quase direta (e ligeiramente desleixada) dos eventos transcorridos em “Capitão América-O Soldado Invernal”, encontramos os Vingadores reunidos para o quê parece ser o último confronto com as forças remanescentes da organização diabólica Hidra (desmascarada pelo próprio Capitão América naquele filme).
Contudo, a crescente preocupação do inventor Tony Stark (Robert Downey Jr.) para com as intermináveis aflições do mundo –somadas aos perigos alienígenas que ele mesmo vislumbrou no filme anterior dos Vingadores –o levam a criar uma inteligência artificial denominada Ultron (personificado pelos movimentos e pela voz do ator James Spader), que não tarda a se rebelar contra os próprios Vingadores, partindo da dedução lógica (para uma máquina) que é a Humanidade a grande ameaça ao planeta Terra.
Ninguém disse que seria fácil para Whedon dar segmento ao seu excepcional trabalho em “Os Vingadores”.
“A Era de Ultron” termina sendo um exemplar bastante indicativo de tudo o que funciona e do que não funciona no método de trabalho dele; Whedon é muito melhor como roteirista que como diretor, mas ele próprio sabotou as chances de seu filme evoluir perante o anterior ao tomar a decisão (que reverbera em todos os filmes do Universo Marvel) de ignorar o vilão Thanos (esboçado no primeiro “Vingadores” e reservado para o terceiro filme) e partir aqui para uma trama de aspecto quase aleatório, sem a mesma importância nas estruturas de história do que o primeiro filme tinha.
Nota-se que a forma com que Whedon trabalha o humor é repetitiva em relação ao outro filme, e bem menos eficiente. Ele buscou dar um tratamento mais sombrio à premissa (encontrando na direção de fotografia de Ben Davis, um auxílio formidável), mas suas decisões afetam a condução, o tom e até mesmo uma certa coerência inerente aos seus personagens –Escolhas lamentáveis como o romance que entrelaça Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff (Scarlet Johansson), a maneira com que emprega os personagens da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e do Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson), ou mesmo do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), ou as piadinhas fora de hora ou de lugar minam o valor do filme como um todo, revelando as brechas de uma narrativa que não se conclui.
O resultado, de fato, acabou aquém de quaisquer expectativas, entregando um filme redundante, problemático e carente de frescor, ainda que mantivesse lá seus momentos divertidos –como produtora, a Marvel Studios não se permitiu a concepção de um produto de baixa qualidade.
Ainda que este seja um de seus títulos menos memoráveis, ele continua bem acabado, fluido em seu ritmo, bonito em seu visual, e empolgante em sua ação.
A Marvel Studios aparentemente aprendeu a lição: Os filmes posteriores à “Era de Ultron” apresentavam, todos, um tratamento diferenciado (visível desde o seu marketing), nada repetitivo, e ciente da evolução que a história e os personagens dentro desse universo precisavam experimentar.
E Joss Whedon, bem, ele foi descansar. Substituído, no comando do terceiro “Vingadores” pelos talentosos Irmãos Anthony e Joe Russo (de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Guerra Civil”).
Que eles façam algo grande!

sábado, 28 de janeiro de 2017

Thor - O Mundo Sombrio

Dentre os filmes da Marvel Studios, aqueles que mais encontraram certa dificuldade para se impor como entretenimento de qualidade e ao mesmo tempo obra notável de cinema, foram os protagonizados pelo Deus do Trovão, Thor.
Não havia nada de errado com o ator (Chris Hemsworth, com freqüência perfeito no papel), mas provavelmente com o tom: Oriundo de sua mitologia própria –fortemente inspirada nas lendas escandinavas –Thor pedia uma abordagem criteriosa, minuciosa para com suas extensões narrativas que envolviam não apenas seus inúmeros personagens secundários, e suas ambientações de natureza cósmica, mas que também se conectariam com outras linhas narrativas (a do Homem de Ferro, a do Capitão América...) que tinham por eixo uma orientação mais realista/científica.
O primeiro “Thor”, dirigido por Kenneth Brannagh, como filme de origem, saiu-se relativamente bem preparando o terreno para aquilo que o público de fato queria ver: O filme dos Vingadores.
Passado esse vendaval, contudo, a Marvel Studios sabia qual seria seu desafio: Voltar aos filmes-solo (e às narrativas individuais) de cada um de seus personagens, porém, desta vez com a pressão de que, agora, havia um alto patamar qualitativo pelo qual seriam comparados –“Os Vingadores”, de Joss Whedom.
E, se “Homem de Ferro 3”, escrito e dirigido por Shane Black –o primeiro filme lançado depois da reunião da equipe –havia passado pelo crivo de público e crítica dividindo opiniões, a Marvel não desejava que o mesmo (ou algo ainda pior!) ocorresse com Thor, uma vez que seu primeiro filme não era nenhuma unanimidade.
A fim de garantir o tom épico que eles almejavam desde o começo, a Marvel chamou inicialmente a diretora Patty Jenkins (de “Monster-Desejo Assassino” e que, atualmente, dedica-se ao filme da “Mulher Maravilha”), e diante de uma recusa, optou por um diretor dos mais apropriados: Alan Taylor, que assinou vários episódios da cultuada série de fantasia medieval “Game Of Thrones”.
O resultado, ligeiramente mais satisfatório como entretenimento do que o filme anterior de “Thor”, ainda o nivela por baixo, se comparado à outros trabalhos do Marvel Studios.
Após os eventos espetaculares de "Os Vingadores", Thor, o filho de Odin, leva Loki (Tom Hiddleston, ocasional ladrão de cenas dos filmes) seu irmão traidor para seu julgado em Asgard por seu pai (Anthony Hopkins, em solene piloto automático), mas a tranqüilidade dura pouco tempo.
Seres de uma maldade ancestral, os elfos negros e seu senhor, Malekith (Christopher Eccleston, de “Jude”, um vilão padrão), são despertados com a aproximação de um fenômeno cósmico conhecido por "convergência". Isso obriga Thor a voltar para a terra, onde reencontra a jovem astrônoma Jane Foster (Natalie Portman, cujo cacife de estrela a faz adquirir desnecessária relevância neste filme) que, devido a uma série de contratempos, torna-se fundamental para a solução dessa crise.
De certa forma, dando continuidade a todo o universo cinematográfico da Marvel –seus desdobramentos se referem não só ao filme anterior de Thor com ao dos Vingadores, e vários outros –este “Mundo Sombrio” promove um aumento de escopo, não há dúvidas (as ações de Thor têm imbricações quase galácticas!), mas o diretor Taylor padece de um mal óbvio: Sua direção não exibe uma personalidade própria, mas, hesitante, parece querer emular o estilo de Joss Whedon em “Vingadores”, mais perceptível em sua nem sempre adequada propensão para o humor –piadinhas que já não combinaram com Thor no outro filme –transformando o núcleo de personagens humanos (Natalie Portman, a charmosa Kat Dennings, o amalucado Stellan Skarsgaard) num alívio cômico quase indigesto.
O resultado ainda é divertido, embora irregular, deixando possível perceber, dessa forma, as tentativas de evolução que a Marvel Studios perscrutava –e que seriam sensivelmente mais bem sucedidas nos excelentes exemplares posteriores, “Capitão América-O Soldado Invernal” e “Guardiões da Galáxia”.
A Marvel ainda está tentando. O próximo filme do personagem, “Thor-Ragnarok”, trás a mais audaciosa e empolgante escolha de diretor já feita pelo estúdio: Taika Waititi, realizador do genial “O Quê Fazemos Nas Sombras”.
Que ele finalmente ganhe a produção épica que merece!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Vingadores

Guardados alguns casos à parte (e que também mostraram-se interessantes) a Marvel Studios sempre compreendeu, em suas adaptações cinematográficas, que o gênero de super-heróis é, em grande e significativa medida, uma fonte de inspiração. E não de introspecção.
Seus trabalhos assim, primavam pelo senso de humor, pela descontração (vide o emblemático filme do Homem de Ferro). Passam, enfim, longe de serem obras sombrias.
E a Marvel Studios deu-se muito bem com isso.
O sexto filme realizado por eles, após seu estúdio de cinema ser consolidado, foi justamente aquele que reunia todos os personagens introduzidos separadamente nas produções anteriores, e atendia pelo título de “Marvel’s Avengers”, ou simplesmente chamado “Os Vingadores” –foi também aquele mais cercado de expectativa.
Era, afinal, uma cartada e tanto aquela que a Marvel estava dando (e tão bem sucedida ela foi que hoje, com vários estúdios correndo atrás para fazer a mesma coisa, fica difícil imaginar que, em 2012, isso ainda era um projeto sem precedentes): Convergir todo um leque de narrativas paralelas para unir vários personagens protagonistas num filme só.
Uns imaginavam algo parecido com “Onze Homens e Um Segredo”; outros um reflexo com mais pompa daquilo que Bryan Singer já fazia em “X-Men” (o mero surgimento de um grupo de heróis, afinal). O risco de fracasso, se pararmos para avaliar, era imenso.
Mas, a Marvel surpreendeu meio mundo demonstrando aquilo que, como estúdio, ela sempre demonstrou: Bom senso.
Eles chamaram Joss Whedon para roteirizar e dirigir o projeto e, embora à época, o filme mais famoso dele fosse o divertido e despretensioso “Serenity”, Whedon revelou-se a escolha adequada: Seu senso de humor convulsivo na construção narrativa combinava perfeitamente com a proposta da Marvel; seu conhecimento nato dos meandros das histórias em quadrinhos (das quais ele mesmo foi roteirista durante algum tempo) veio a calhar ao juntar inúmeras narrativas vindas dos filmes antecessores, e ele ainda soube ser absolutamente fiel ao material original das HQs, além de construir um filme, propriamente dito, pulsante, empolgante e vibrante por si só.
E ainda fez parecer que era algo simples e fácil de ser feito.
Retomando muito de seu gancho dramático deixado ao filme de “Thor”, descobrimos, já na cena de abertura do filme, que Loki (Tom Hiddleston, ótimo), o deus da trapaça, roubou das sedes secretas da S.H.I.E.L.D. o artefato poderoso conhecido como Tesseract (visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
Como provavelmente ele será usado para criar um portal que possibilite uma invasão alienígena à Terra, o diretor-chefe da S.H.I.E.L.D., Nick Fury (Samuel L. Jackson), dá início ao "Projeto Vingadores", que consiste em reunir num único grupo o gênio e playboy Tony Stark (Robert Downey Jr.), trajando sua poderosa armadura de Homem de Ferro; Steve Rogers (Chris Evans), o super-soldado conhecido como Capitão América; o deus do trovão –e irmão de Loki –Thor (Chris Hemsworth); e o cientista Bruce Banner (Mark Ruffalo), capaz de se transformar na criatura Hulk; além dos agentes, Natasha Romannof, a Viúva negra (Scarlet Johansson) e Clint Barton, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Juntos, esses seres tão distintos e igualmente poderosos formarão um grupo em defesa da humanidade.
O filme que Whedon constrói a partir dessa premissa é um exemplo de como o entretenimento pode ser empregado com maestria, sem que se perca, com isso, a qualidade artística. A um só tempo, espetáculo visual (praticamente metade do filme é uma grande e brilhantemente filmada seqüência de batalha), roteiro equilibrado e afinado (com exceção de um único furo, quando Thor desaparece sem menores explicações em uma cena fundamental), e grande obra de cinema (há pelo menos três grandes cenas específicas que ficam em nossa mente depois do filme), “Os Vingadores” coroou a iniciativa da Marvel Studios em moldar um universo composto por linhas narrativas conectadas, a exemplo do que já existia a quase cinco décadas nos quadrinhos, e entregou ao público a mais satisfatória e extasiante aventura que se pôde saborear no cinema em muito tempo.