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sábado, 8 de agosto de 2026

Vivo Ou Morto - Um Mistério de Entre Facas e Segredos


 Neste “Vivo Ou Morto” já chegou-se num ponto em que o ator Daniel Craig interpreta o personagem Benôit Blanc como alguém que ele conhece e compreende integralmente (processo que ele certamente também experimentou vivenciando o agente 007), em que o roteiro e a direção de Rian Johnson já se acostumaram de tal forma a manipular o intrincados elementos do gênero policial investigativo, que sua condução é instintiva, sua descoberta das reviravoltas pontuais (e até inevitáveis) em seu plot é tão orgânica quando a capacidade de dissimulação plantada habilmente em seus personagens.

Terceira parte de uma trilogia iniciada com “Entre Facas e Segredos” e continuada com “Glass Onion” – e adquirida, do segundo exemplar em diante, pela Netflix – este “Vivo Ou Morto” traz toda a habilidade para tramas articuladas com infindável ardil por seus personagens que Johnson tão bem soube esbanjar em praticamente todas as produções que assinou, sendo superior à “Glass Onion”, porém, ainda inferior ao primeiro filme, o melhor de todos.

Antes do protagonista Benôit Blanc dar as caras, somos apresentados aos demais protagonistas desta trama – até porque, Blanc, diferente dos outros personagens, prescinde de apresentações, funcionando agora quase como um mestre de cerimônias – a começar pelo principal de todos, o padre Jud Duplenticy (o carismático Josh O’Connor, de “Dia D”), um ex-boxeador que largou os rings para dedicar-se à batina após matar um oponentes à socos. Por seu temperamento (e por saber muito bem como usar seus punhos quando provocado), Padre Jud é enviado à longínqua paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, comandada pelo Monsenhor Wicks (Josh Brolin), cujos métodos de pregação, Jud vai perceber com o passar dos dias, vão muito além do meramente não ortodoxo: Wicks possui uma oratória agressiva, egocêntrica e prepotente e mantém cativo um grupo muito específico de fiéis que aliena com sua pregação raivosa. Qualquer outra pessoa da fora (e isso inclui o próprio Jud) é excluída quase que imediatamente.

Os fiéis em questão: A serviçal da igreja Martha Delacroix (Glenn Close) e seu marido, Samson Holt (Thomas Adden Church), ambos habituados a surgirem repentinamente nos momentos mais inoportunos; o médico Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), um poço de amargura desde o abandono da ex-esposa; o escritor fracassado Lee Ross (Andrew Scott, de “1917”); a jovem violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny, de “Alien-Romulus”) presa a uma cadeira de rodas que aguarda, resignada, por um milagre; a advogada Vera Draven (Kerry Washington) obrigada pelo pai a criar um irmão adotivo com quem nunca se acertou; e o próprio irmão adotivo Cy Draven (Daryl McCormack, de “Boa Sorte, Leo Grande”), rapaz indiferente e esnobe, obcecado em fazer sucesso como influencer do youtube.

Todas pessoas ostentando neuroses que deveriam ser curadas pela fé, mas que o Monsenhor Wicks tão somente manipulou para continuarem suas fanáticas devotas. Cada um deles tinha um motivo para dar cabo do Monsenhor Wicks – principalmente após uma reunião à portas fechadas que culminou num rompimento completo entre Wicks e todos eles – e Padre Jud, mais do que todos eles, chegou a exprimir suas intenções numa confissão.

O problema é que, numa homilia matutina, o Monsenhor Wicks acaba realmente morto, esfaqueado nas costas, num recinto apertado sem espaço para uma segunda pessoa e sem quaisquer meios de ser invadido.

Como tal crime foi perpetrado? E quem está por trás dele?

A comunidade logo aponta o dedo para o novato Padre Jud que, em desespero, recorre aos conhecimentos prodigiosos de dedução e investigação do detetive Benôit Blanc chamado à cidadezinha pela xerife local, Geraldine Scott (Mila Kunis).

Tendo conferido as duas obras anteriores, é fácil para o expectador antecipar o que encontrará nesta produção aqui: Como em “Entre Facas e Segredos” e “Glass Onion”, Rian Johnson reúne, em torno de seu protagonista Blanc, um time vasto de personagens excêntricos e com motivações obscuras, interpretado por um elenco repleto de estrelas do cinema hollywoodiano. E como nos outros filmes, está aqui também o enredo muito decalcado dos clássicos intrincados de Agatha Christie, onde o crime só termina elucidado após diversas pistas se revelarem falsas e toda uma teia de segredos a interligar as mais diversas e inesperadas atitudes for revelada.

Contudo, o quê não é tão fácil assim antecipar é como Rian Johnson haverá de manejar todos esses ingredientes, sobretudo, quando e quais serão as reviravoltas surpreendentes que arremessarão os acontecimentos para rumos totalmente inesperados. Seu roteiro até mesmo brinca com essa possibilidade, sugerindo certas surpresas iminentes só para subverter algumas expectativas e seguir surpreendendo. O uso imodesto e ininterrupto de tal recurso pode soar um pouco mirabolante e improvável para o público, mas Rian Johnson o faz com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa que o resultado mais diverte do que confunde.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Os Reis de Dogtown


 Está certo que a diretora Catherine Hardwicke realizou o primeiro exemplar da “Saga Crepúsculo”, mas ela começou sua carreira como designer de produção em 1986 no cult-movie “Thrashin-Os Skatistas”, de David Winters (um drama juvenil sobre skate que conta com a participação de muitos skatistas famosos como Tony Alva, Tony Hawk e Christian Hosoi), e estreou na direção de maneira promissora com “Aos Treze”, no qual ficou patente sua habilidade para retratar com energia vívida e orgânica as celeumas da juventude. Obedecendo critérios parecidos, “Lords of Dogtown” é seu trabalho mais pessoal e ambicioso.

Em meados dos anos 1970, em Venice Beach, na Califórnia, um grupo de jovens adolescentes, procura se enturmar no meio local. Isso significa integrar o bando liderado pelo carismático e avoado Skyp (o saudoso Heath Ledger, sempre ótimo) que, de início, controlam a praia como os donos das ondas de surf –o próprio Skyp é dono de uma loja de pranchas, tornada ponto de encontro pela frequência dos jovens. Entre eles, estão três grandes amigos, o impulsivo Jay Adams (Emile Hirsch), o vaidoso Tony Alva (Victor Rasuk, de “Cinquenta Tons de Cinza” e “Stop Loss-A Lei da Guerra”) e o compenetrado Stacy Peralta (John Robinson, de “Elefante”, interpretando o próprio roteirista do projeto). Aprendizes de surfista, os garotos têm toda praia de Venice para surfar mas, com a estiagem sofrida na Califórnia naqueles tempos levando-os, com a ausência das ondas, a adotar a prática do skatismo, eles têm apenas as ruas turbulentas e acidentadas do subúrbio para praticar skate. Ainda assim, são ótimos! É Skyp o primeiro a identificar potencial no grupo: Ele monta uma equipe meio de improviso –chega a encomendar camisetas com a estampa “Equipe Zephyr” –e pensando num lucro imediato com a venda de skates e pranchas, inscreve os jovens numa competição de skate local.

Apesar de alguns atropelos (Tony dá um soco na cara de um dos juízes e Jay desobedece algumas regras da competição!), Stacy sai como primeiro colocado –isso porque, dias antes, o próprio Skyp havia tentado deixá-lo de fora, discriminando-o por ser o único do grupo a responsabilizar-se com um emprego por insistência do pai.

Junto de vários outros colegas, amigos e namoradas –entre esses amigos, o afável Sid (Michael Angarano, de “Quase Famosos”) –Jay, Tony e Stacy começam a procurar um local para treinar suas manobras no skate; uma modalidade que, sem ter sido ainda profissionalizada, não possuía um local para treinamento. A saída é invadir casas sistematicamente à procura de piscinas vazias d’água (ou que, na ausência, dos donos, eles mesmos pudessem esvaziar!), nas quais se torna possível praticar as manobras cada vez mais audaciosas que eles começam a criar.

A medida que vão galgando níveis do esporte –e, com sua repercussão, transformando a percepção do próprio skatismo em um esporte –os assim chamados Z-Boys de Dogtown vão também conquistando fama e dinheiro, logo saindo debaixo das asas do nada visionário Skyp: Jay, desejoso de proporcionar uma vida melhor para sua mãe (Rebecca De Mornay) é o primeiro a se afastar e fechar acordos que iam contra seus princípios, embora sua natureza indomável o faça voltar para os guetos; Tony, um dos mais auspiciosos, é contaminado pelas promessas do empresário Topper Burks (Johnny Knoxville) que passa a agenciá-lo; e Stacy, o último a deixar Skyp, fecha com a fábrica de skates Gordon & Smith.

A fama seduz a cada um deles, e por sua juventude, por imaturidade e inconstância diante de uma situação inédita, ameaça também tragá-los, inclusive, afetando sua amizade: Jay se revolta com os rumos despidos de despretensão em seu caminho; Tony deixa-se levar pelas promessas de ser o melhor do mundo (algo que ele chega até a concretizar no primeiro campeonato mundial de skate), até um acidente envolvendo seu olho quase cegá-lo; e Stacy busca racionalizar o turbilhão que começa a engoli-los, incapaz de conciliar esse estrelato meteórico com o que restou de suas vidas pessoais.

Adotando como linguagem visual uma câmera inquieta, prodigiosa em acompanhar mesmo as bruscas manobras sobre rodas dos skates, a diretora Hardwicke confere o dinamismo e a urgência tão adequados à sua narrativa, compreendendo perfeitamente o tom de euforia que a história exige em sua primeira parte, a sucessão quase asfixiante de sensações vindas de todos os lados que define a segunda, e o declínio moral e sentimental que precede o êxtase que traduz a terceira e última parte.

É uma obra especialmente curiosa no retrato pulsante de uma geração, tornando-a protagonista de suas aflições e expectativas como qualquer geração jovem de qualquer época. Os mesmos episódios serviram de inspiração também ao documentário “Dogtown and Z-Boys-Onde Tudo Começou”, lançado em 2001 (quatro anos antes deste filme), dirigido pelo próprio Stacey Peralta e narrado por Sean Penn.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Gavião Arqueiro


 Dentre os heróis originais a integrarem os Vingadores, o único que jamais conseguiu ganhar um filme-solo foi, infelizmente, o Gavião Arqueiro, vivido pelo competente Jeremy Renner. Na verdade, o Gavião Arqueiro foi (e, em grande medida, ainda é) sistematicamente subaproveitado dentro do Universo Marvel –basta lembrarmos de sua participação, boa parte dela como um comparsa hipnotizado de vilão, em “Vingadores”. A série “Hawkeye”, do Disney Plus, prometia corrigir esse lapso.

Como todas as demais séries lançadas pela Marvel em 2021 –“WandaVision”, “Falcão & Soldado Invernal” e “Loki” –esta chega narrativamente atrelada a todos os diversos filmes da Marvel Studios que a precederam, e seus acontecimentos, certamente irão reverberar em inúmeros projetos que ainda estão por vir. Na verdade, isso é bem nítido: Como parece ser inerente aos trabalhos mais recentes da Marvel, “Gavião Arqueiro” é uma trama sobre a passagem de bastão, onde uma nova geração surge para preencher o lugar dos combatentes veteranos e cansados, e nesse sentido, a série é também sobre Kate Bishop (a maravilhosa Hailee Steinfeld), até mais do que sobre Clint Barton, codinome do Gavião Arqueiro –detalhe que ameaça colocá-lo para escanteio dentro da própria série que protagoniza.

O primeiro episódio, dentre seis, começa inspirado: Testemunhamos os eventos de 2021, do primeiro filme dos Vingadores, contudo, não do já conhecido ponto de vista dos heróis, mas do ângulo da pequena Kate, então uma garotinha de apenas nove anos, que vê, estarrecida, das dependências em frangalhos de seu apartamento, a devastadora Batalha de Nova York. Algo em meio àquele caos chama a atenção de Kate: Um herói, munido de arco e flecha, enfrenta os alienígenas e salva a vida das pessoas (incluindo a dela própria). ele não é provido de superpoderes, não tem um martelo mágico, nem uma armadura tecnológica. Ele conta apenas com sua habilidade e vigor. É o Gavião Arqueiro.

Nos dias atuais, Kate já é uma moça com vinte e tantos anos, mas a inspiração do Gavião Arqueiro, de certa forma a definiu: Ela é prodigiosa em arcoaria. Já, a Batalha de Nova York foi devidamente assimilada pela cultura pop; Foi convertida em um musical –“Rogers-The Musical” –exibido nos palcos off-Broadway; é essa peça teatral que vemos Clint Barton assistindo com os filhos enquanto ainda digere os acontecimentos de “Vingadores-Ultimato”, entre eles, a morte de sua melhor amiga, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson). Esses contratempos e mais as árduas missões ao longo dos anos passaram a afetar seriamente a sua audição –numa manobra oriunda dos premiados quadrinhos escritos por Matt Fraction, que serve de produtor-consultor desta série,

Os caminhos de Kate e Clint, é óbvio, estão fadados a se cruzarem. E isso ocorre quando, por acaso, Kate veste o traje de Ronin –a identidade vigilante adotada por Clint quando sua família foi blipada por Thanos em “Vingadores-Guerra Infinita” –e acaba na mira de uma gangue nova-iorquina ávida por vingança, a Gangue do Agasalho (?!), também oriunda da graphic-novel de Matt Fraction.

Clint então precisa livrar Kate –que na empolgação assume o papel de sua parceira/pupila/ajudante –do encalço da Gangue do Agasalho, e de sua perigosa líder, Maya (Alaqua Cox), uma surda-muda hábil em artes-marciais, enquanto corre contra o tempo para tentar passar o Dia de Natal junto de sua família –a série busca emular assim, as narrativas ágeis e descontraídas de alguns filmes natalinos, aos quais, inclusive, a produção faz referência. Entretanto, tudo é somente a ponta do iceberg: A trama de “Gavião Arqueiro” se ramifica a medida que descobrimos mais a respeito de seus inúmeros personagens, como Eleanor Bishop (a ótima Vera Farmiga), mãe de Kate, que guarda terríveis segredos envolvendo o assassinato de um ricaço; ou o noivo dela, o bon vivant Jack Duquesne (Tony Dalton), um espadachim de habilidade um tanto suspeita (na realidade, ele próprio um importante personagem de histórias mais antigas da Marvel); até mesmo Laura Barton (Linda Cardelini), esposa de Clint, dona de um passado misterioso que ameaça voltar para persegui-la, algo que seu marido não pode deixar; ou Yelena Belova (a sempre sensacional Florence Pugh) que, desde a cena pós-créditos de “Viúva Negra” sabemos ter Clint Barton na mira por acreditar ser ele o responsável pela morte de sua irmã, Natasha Romanoff; e, para a alegria de inúmeros fãs de quadrinhos, a aparição-surpresa, já nos episódios finais, do verdadeiro vilão da trama, um personagem (e um ator) que fará o público vibrar.

De fato, mais do que enfim conceder um tão aguardado protagonismo ao Gavião Arqueiro –embora nesse quesito ele também seja compensador –esta série prepara o terreno para os novos personagens que estão chegando ao Universo Marvel, sendo a mais notável aqui a mocinha Kate Bishop, que a talentosa Haille Steinfeld transforma numa heroína  com a qual é impossível o público não se encantar. Mas, não é só ela: A produção dedica quase um episódio inteiro para evidenciar a química extraordinária que ela compartilha com a Yelena Belova de Florence Pugh –certamente as caras mais proeminentes daqueles que estarão a frente dos Vingadores no futuro. A produção sempre competentíssima de Kevin Feige tira imenso proveito do formato estendido e episódico da série e trabalha seus carismáticos personagens com minúcia, parcimônia e minimalismo, fazendo com que acompanhá-los, seja em momentos de ação, de humor ou de drama, torne-se  uma experiência nunca menos que deliciosa.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Extermínio 2

Para a continuação de seu ‘filme de zumbis que não são exatamente zumbis’, “Extermínio”, o diretor Danny Boyle abriu mão da cadeira de diretor para só ocupar a função de produtor executivo. Ainda assim, foi criterioso na escolha de seu substituto: O espanhol Juan Carlos Fresnadillo, realizador de um excelente trabalho em “Intacto”.
E “Extermínio 2”, de fato, revela inteligência promissora para uma continuação: Seu prólogo nos leva num refúgio dividido por meia-dúzia de pessoas, entre eles, Don (Robert Carlyle, presença ironicamente comum nos filmes de Boyle) e Alice (Catherine McCormack, de “Coração Valente” e “A Sombra do Vampiro”), casal que será pivô da trama em torno da qual este segundo filme se movimenta.
Tal e qual o filme anterior –e como todos os filmes e séries de zumbi que se prezam –o grupo se esconde numa casa dos infectados que devastaram a Grã-Bretanha.
Algo, porém, dá errado e, na necessidade de fuga que segue, podemos ver enfatizadas as características um tanto egoístas e acovardadas de Don, que não pestaneja ao deixar a própria esposa à mercê dos infectados para salvar a própria pele.
Findo o prólogo, somos assim informados do contexto em que a continuação se passa: Após os eventos do primeiro filme, todos os infectados pelo vírus morreram de fome nas semanas seguintes; logo depois, as Forças-Armadas dos EUA interviram ocupando Londres e montando uma zona de segurança a fim de dar início ao processo de recuperação da cidade.
É nesse cenário, 28 semanas depois (“28 weeks later” o título original), que os jovens Tammy (a lindíssima Imogen Poots) e Andy (Mackintosh Muggleton) chegam à Londres, vindos de uma excursão que, por sorte, os afastou do ponto crítico da epidemia.
Lá, está o pai deles os esperando, e qual não é a surpresa quando descobrimos que o pai é Don, que conseguiu chegar em Londres e juntou-se aos refugiados da zona de segurança.
Tudo parece bem e todos parecem em segurança.
Mas, Tammy e Andy não estão satisfeitos com a vaga explicação de Don para o paradeiro de sua mãe, e –numa manobra típica de personagens de filme de terror que deflagram toda a confusão com seus atos impensados –os dois fogem da barreira de contenção para a área de perigo; onde revemos os cenários característicos do primeiro filme, com bairros londrinos completamente desertos flagrados numa impressionante desolação.
As duas crianças, para surpresa de todos (até de Don), reencontram sua mãe (!) que continua viva apesar do ataque dos infectados.
A explicação: Quando é trazida à zona de segurança, a especialista em epidemiologia Oficial Ross (Rose Byrne) descobre que Alice tem uma raríssima imunidade ao vírus, o que pode ser a chave para uma cura.
Contudo, ela ainda tem o vírus em seu organismo e, quando se reencontra com Don, acaba infectando-o trazendo a praga que assolou o primeiro filme para dentro da zona de segurança.
Quando é iniciado o protocolo do Código Vermelho já é tarde demais: Os infectados já tomaram todo o Centro Médico e de lá para o restante do complexo.
Resta à Oficial Ross tentar proteger Tammy e Andy, prováveis portadores da cura, com o auxílio do Sgt. Doyle (Jeremy Renner, antes da consagração por “Guerra Ao Terror” e de virar o Gavião Arqueiro da Marvel), levando-os a um lugar seguros onde poderão ser resgatados.
Não tão referencial ao cinema de George Romero como o primeiro filme –tendo aproveitado dele somente o princípio básico de não repetir os protagonistas nas continuações de seus filmes de zumbi –este “Extermínio 2” apresenta um notável ponto de partida, recusando-se a ser um mero prosseguimento do filme anterior, construindo uma nova premissa de fato, e ainda fornecendo novos aspectos a esse mundo pós-apocalíptico antes esboçado. Ele só não consegue se fazer tão antológico quando o original em sua relevância porque seu roteiro insiste numa nem sempre apropriada valorização de um infectado específico (Don, o pai das crianças) como o ‘grande vilão do filme’, o que confere à um zumbi –uma criatura, por definição acéfala, irracional e incontrolável –uma série de atos e comportamentos mais inteligíveis que, quando se acumulam até o final, despertam alguma descrença no expectador.
Mas é um problema bem pequeno numa continuação que prima por se mostrar tão envolvente, arrojada e eletrizante quanto sua ótima produção original.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Kill The Messenger

Um grande filme investigativo agraciado com uma belíssima interpretação de Jeremy Renner, este “Kill The Messenger” –genericamente traduzido como “O Mensageiro” em português –une as orientações cinematográficas que definem grandes obras do sub-gênero como o clássico “Todos Os Homens do Presidente” e o premiado “Spotlight-Segredos Revelados” a um senso de denúncia que por vezes acaba rondando circunstâncias bem reais, mas que por seu teor mirabolante e absurdo soam inacreditáveis. Nesse sentido, o trabalho do diretor Michael Cuesta se aproxima da comédia de aventura “Feito Na América”, com Tom Cruise, todavia, se aquele era um trabalho que descontraía o expectador fazendo-o divertir-se com as guinadas tortuosas de sua premissa, também baseada num fato real, aqui, a condução metódica e austera de Cuesta impõe uma densa e adulta seriedade.
Está em pauta a lógica jornalística que foi torcida diante das circunstâncias.
Jeremy Renner vive Gary Webb, repórter do jornal regional San Jose Mercury News. Na busca por uma história bombástica e na proximidade intuitiva com alguns traficantes, ele acaba conhecendo Coral Baca (a absolutamente deliciosa Paz Vega), esposa de um traficante condenado disposta a entregar a Webb um documento que veio parar por acidente em suas mãos: Um protocolo rasurado e confidencial sobre Danilo Blandon (Yul Vazquez), um agente da CIA –talvez, um informante, talvez, um infiltrado –que tinha conexões com traficantes em todo solo americano.
Até aí nada demais. Contudo, ao aprofundar suas investigações, Webb descobre que Danilo Blandon, na qualidade de agente duplo a serviço da CIA, era mais que um mero espião entre os traficantes: Ele era um dos maiores e mais expressivos fornecedores de drogas dos EUA!
Tudo leva à constatação, mais tarde corroborada por outras fontes de Webb, de que o governo dos EUA contribuiu para a circulação de drogas ilegais em certos guetos americanos desde que o dinheiro ilicitamente obtido por esse tráfico financiasse uma guerrilha destinada a provocar uma revolução na Nicarágua, ditando os rumos políticos daquele país.
Sem intimidar-se com as advertências que as fontes encontradas lhe dão (ao mesmo tempo que confirmam, extraoficialmente toda essa verdade), Webb segue em frente e escreve uma matéria que coloca o pequeno San Jose Mercury News no radar de gigantes da mídia jornalística como o Washington Post e outros.
Contudo, os grandes jornais –e, portanto, os jornalistas profissionais neles inseridos –têm ligações com a CIA e, por conta delas, sua postura é defensiva para com os orgãos do governo: Na sequência às revelações, eles procuram invalidar a descoberta de Webb e, aos poucos, em função das próprias convicções, passam a atacá-lo e desacreditá-lo.
A pressão é tamanha que se estende até os profissionais que trabalhavam com Webb, sua editora Anna Simmons (Mary Elizabeth Winstead) e o dono do jornal Jerry Ceppos (Oliver Platt); ambos intimidados e pressionados pela postura antagônica dos veículos de mídia maiores acabam por negligenciar o empenho de Webb em perseguir a verdade, afastando-o da execução do jornalismo.
Esta é, pois, uma trama sobre um “Davi contra Golias” onde os desdobramentos não obedecem sobremaneira as expectativas do público, tão acostumado a ver a verdade prevalecer, sobretudo, em âmbitos americanos nos quais essa máxima é tão defendida.
Mais do que expor uma verdade desconcertante acerca de atividades obscuras e duvidosas do governo americano, o filme coloca o íntegro e transparente Gary Webb na angustiante posição de um mártir terminando por apontar os lapsos morais quando outros profissionais da área do jornalismo priorizam fatores secundários (e de interesse pessoal) em detrimento da verdade.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vingadores - Ultimato

Numa das cenas que abrem esta continuação praticamente direta de “Vingadores-Guerra Infinita”, vemos Tony Stark gravar um melancólico monólogo diante do capacete da armadura com a qual ele foi o Homem de Ferro –cena esta vista e revista em diversos trailers.
A referência à Hamlet, de Shakespeare, é clara, bem como também é clara a similaridade entre a ambientação soturna da nave –Stark está à deriva no espaço –com a caverna onde ele construiu sua primeira armadura, dando o primeiro passo para o surgimento do que é hoje conhecido como o Universo Marvel dos cinemas.
A cena mostra assim os dois elementos primordiais que os diretores Anthony e Joe Russo tratarão de manter impecáveis ao longo das avassaladoras três horas de duração de “Vingadores-Ultimato”: A referência do mais altíssimo nível a que se pode chegar –em termos técnicos, dramáticos e artísticos, inclusive –e uma compreensão insolúvel de que o passado embutido em toda a cronologia cinematográfica da Marvel Studios deve não só ser recordado, mas também, levado em consideração, apreciado e, no fim, louvado.
Ao dar continuidade aos eventos arrebatadores de “Guerra Infinita”, “Ultimato” imbrica por um caminho que a Marvel e nenhum outro estúdio encontrou meios até então de trilhar: O de um legado composto ao longo de 11 anos de produções cinematográficas, em meio aos quais ele corajosamente percebe a importância de encontrar um fim.
Sim, porque, preservadas as surpresas que a obra reserva –e, meu Deus, elas são muitas! –“Ultimato” é, antes de mais nada, um encerramento. Um desfecho de uma história que num único empuxo narrativo se iniciou com o astro Robert Downey Jr. e seu encaixe absurdo com o personagem de Tony Stark/Homem de Ferro no primeiro filme do estúdio, e prosseguiu num expansão sem precedentes dessa mitologia nos filmes “Thor”, “Capitão América-O Primeiro Vingador” e, na junção audaciosa e vibrante dessas linhas narrativas em “Vingadores”; que, em sua cena pós-crédito, introduzia pela primeira vez o grande vilão Thanos, interpretado aqui com eficiência incontestável e empatia amedrontadora pelo ótimo Josh Brolin.
Foi em torno da promessa da vinda de Thanos que a Marvel Studios construiu assim o fio condutor a unir todos os trabalhos que se seguiram –e que oscilavam entre excelente entretenimento e diversão descompromissada –em meios aos quais não tardaram a destacar-se as obras assinadas pelos Irmãos Russo.
Pelas mãos deles, o Capitão América logo assumiu uma posição existencialmente central nesse Universo Marvel, no magnífico “Soldado Invernal” e depois no brilhante “Guerra Civil”.
A demonstração de habilidade incomum dos Russo prosseguiu com o espetacular “Guerra Infinita” e, por fim, a revelação de Thanos como o mais complexo vilão já concebido pelo estúdio. O que nos leva a este “Ultimato”.
Incapazes de lidar com o fato de que o vilão os derrotou e sobrepujou –agonia que os fãs também experimentaram durante o ano inteiro que separam estes dois filmes –os Vingadores remanescentes (e que correspondem, por sua vez, à formação original vista no primeiro filme) unem-se num plano derradeiro para tentar um contra-ataque; estimulados pela aquisição da poderosa Capitã Marvel (Brie Larson).
Este é o ponto de partida do filme e corresponde a tudo que dele se pode falar sem entrar no terreno pantanoso e arriscado das surpresas, pois sua trama é repleta de reviravoltas inesperadas, e ramificações que se mostram mais complexas do que poderia se supor num filme de orientação tão comercial, conduzindo o expectador a uma meia hora final que está entre os mais assombrosos e embasbacantes momentos do cinema comercial de todos os tempos.
O que importa, porém, é que por trás da expectativa absurda que a Marvel conseguiu gerar no público –e do filme emocionante e arrebatador que criou para correspondê-lo –“Ultimato” é, no fundo no fundo, uma declaração de amor.
Ao legado extraído de décadas de quadrinhos e transposto com apaixonada propriedade para a tela de cinema. Aos fãs, que converteram as produções da Marvel em sucessos simultâneos de bilheteria (e que certamente transformarão este num novo fenômeno). Aos personagens e seus intérpretes que se revelaram, em sua esmagadora maioria, de um acerto fenomenal –e aqui, apesar de todas as presenças esplêndidas que se seguem (com destaque para Chris Evans e Jeremy Renner) não dá para não chamar Robert Downey Jr. à frente.
Ele é o princípio de tudo. O marco zero. E é nele, mais uma vez, que se ampara a escolha para encerrar esta jornada de 22 filmes. Ele foi (e sempre será) Tony Stark, o personagem que acendeu o estopim para um legado sem precedentes no cinema comercial, e ele é aqui aquele que, num dos momentos mais superlativos e emocionantes, executa enfim sua manobra final.
“Ultimato” é cinema como aquilo que ele deveria ser: Emocional, visceral, divertido (mágico, até!), arrebatador e espantoso em níveis que a indústria (e a própria Marvel Studios) encontrarão dificuldades de igualar nestes anos por vir.
Tê-lo nas salas de cinema é um privilégio.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Terra Selvagem

Aclamado roteirista de “Sicario” e “A Qualquer Custo”, Taylor Sheridan assume também a função de diretor neste novo roteiro que também reúne em cena os ótimos Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, respectivamente, o Gavião Arqueiro e a Feiticeira Escarlate da Marvel Studios, no entanto, tão bons e talentosos eles são que não tarda ao expectador esquecer esse detalhe e reconhece-los pelos personagens que vivem aqui.
Jeremy é Cory Lambert, um caçador de predadores naturais que trabalha nas amplas e gélidas imediações selvagens de uma reserva indígena no Wyoming. Habilmente, os primeiros minutos de filme nos emergem na circunstância dramática do protagonista, um pai ainda a chorar pela morte da filha; marido incapaz de lidar com o luto da esposa (uma descendente dos nativos) e, portanto, dedicado de corpo e alma ao trabalho, ode parece encontrar uma espécie de harmonia.
Essa harmonia sofre um abalo quando Cory encontra o cadáver de uma jovem indígena –outrora amiga de sua filha –com marcas do que parece ter sido uma agressão; a jovem, contudo, morreu de aflições provocadas pelo frio extremo.
De uma postura obtusa em relação ao que se passa nas reservas indígenas, as autoridades enviam para o caso uma agente do FBI quase principiante, ainda que dedicada, Jane Banner (Elizabeth), que não demora a notar a habilidade nata de Cory para extrair pistas fundamentais dos indícios da neve.
Ao lado dele e do chefe de polícia tribal Ben (Graham Greene, de “Dança Com Lobos”) eles formam uma parceria na tentativa de elucidar o caso.
Com isso, a narrativa de Sheridan explora com riqueza as três facetas dramaticamente relevantes relacionadas aos protagonistas: A morte da garota que, para Cory, reflete as circunstâncias da morte da própria filha, e que o instigam, assim, a usar suas assombrosas capacidades de rastreamento para perseguir o assassino; a luta da jovem agente Banner (numa evocação à “O Silêncio dos Inocentes”) buscando se impor num ambiente rude que a ignora e a subestima; e o algo resignado chefe de polícia, a frente da investigação de um crime para o qual ele sabe que (como tantos outros) as autoridades viraram as costas –o filme de Taylor Sheridan, em sua observação cuidadosa e criteriosa aponta o dedo para o descaso experimentado pelos povoados nativos no âmbito da jurisdição penal.
Ainda que haja brilho e relevância nesse aspecto, “Terra Selvagem” jamais se acomoda nele: Prefere, em vez disso, exercitar sua própria excelência cinematográfica se fazendo eficaz em seu drama; tenso e palpitante em seu suspense; e elaborado e intrigante na medida certa em sua trama policial.
O resultado desse acerto em tantas instâncias é um filmaço.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

João & Maria - Caçadores de Bruxas


Reformulação do famoso conto de fadas (como é hábito hoje em dia no cinema comercial) capitaneada por Tommy Wirkola, mesmo diretor da infame paródia "Kill Bujo". A exemplo de "Branca de Neve e O Caçador" e "Jack-O Caçador de Gigantes", ele busca uma reinvenção da trama como ela é conhecida, extraindo o verniz antigo e introduzindo elementos pop que, neste caso em especial, nem sempre se harmonizam com o material.
Sobreviventes da captura quase fatal de uma bruxa, os filhos de camponeses, João (Jeremy Renner, num papel que remete, ou tenta remeter, seu heróico personagem Gavião Arqueiro de “Vingadores”) e Maria (a inglesa Gemma Artenton), depois de crescidos, empreendem sucessivas caçadas, de vilarejo em vilarejo, às criaturas diabólicas que tanto os apavoraram no passado.
Uma aldeia em particular será o local onde eles encontrarão não apenas uma bruxa com planos muito especiais para sua aniquilação (Fanke Jansen) como também uma alternativa para a vida de caçadores de bruxas, cuja árdua rigidez começa e lhes cobrar um alto preço: João, por exemplo, se engraça com uma jovem ruiva da aldeia –e o bom entendedor logo nota que a moça (Pihla Viitala, a quem é dada até uma inesperada cena de nudez!) não somente é uma bruxa, mas também o mote para o previsível dilema do herói. Já Maria descobre que pode ter outras aptidões que sinalizam muito mais a sua feminilidade até então tão pouco explorada.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Missão Impossível - Protocolo Fantasma

Tendo mostrado o caminho a ser seguido em “Missão Impossível 3” –e assumido a co-produção dos filmes posteriores –o diretor J.J. Abrahams deixou caminho livre para que a série pudesse crescer. E foi o que de fato ocorreu, aliás, num momento bem propício para Tom Cruise: A época do lançamento deste quarto filme da série coincidiu com um dos períodos de mais baixa popularidade de sua carreira devido à uma bizarra entrevista no programa de Oprah Winfrey e à sua ligação com a cientologia.
Sorte para ele que Brad Bird, um aclamado diretor de animação (dos espetaculares "Os Incríveis" e "Ratatouile") resolveu fazer, com este trabalho, sua estréia em filmes live-action e realizou um filmaço de ação e espionagem.
Após a explosão de uma bomba no Kremlin, a tensão entre os EUA e a Rússia chega às vias de uma iminente guerra nuclear, uma vez que esse atentado terrorista recai sobre a equipe da IMF (Impossible Mission Force) que estava no local.
Ao ser instaurado o "protocolo fantasma", toda a IMF é desativada inclusive a equipe renegada, cujo líder –o agente Ethan Hunt, quem mais? –deve agora inocentar seu time que inclui, além dele, a linda agente Carter (Paula Patton, de “Preciosa” e “Idlewild”), o analista-chefe Brandt (Jeremy Renner, de “Vingadores” e “Guerra Ao Terror”) e o agente de campo Benji (Simon Pegg), para juntos deterem uma conspiração que tem por finalidade a Terceira Guerra Mundial.
Se o filme anterior, de JJ. Abrahams, começava a colocar as coisas em ordem dando relevantes características humanas a Ethan Hunt, este novo filme o coloca como um grande personagem de ação, equivalendo-o às figuras icônicas do gênero como Jason Bourne e James Bond; e o astro Tom Cruise, que já não é nenhum garoto, não nega fogo nas espetaculares cenas de ação.
Foi durante a realização deste filme que o astro Tom Cruise começou uma parceria com o roteirista e diretor Christopher McQuarrie –aqui contratado para aperfeiçoar o roteiro, uma prática na qual ele é especialista –protagonizando um projeto seu, o ótimo “Jack Reacher-O Último Tiro” e depois chamando-o para dirigir “Missão Impossível-Nação Secreta”, até então o melhor filme da série.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford

Passa longe de ser um faroeste nos moldes convencionais este trabalho do diretor Andrew Dominik, passa longe, até mesmo de ser um exemplar do faroeste revisionista surgido entre as décadas de 1960 e 70: O quê Dominik propõe aqui é uma observação distanciada de personagem por meio de uma encenação potencializada em suas propriedades cênicas –um elenco fantástico, uma fotografia sedutora –através da qual a índole de um personagem que nunca se deixa capturar revela-se o mistério insolúvel que, em seu drama, ele contempla.
Nesse sentido, há uma proximidade –não, porém, muito declarada –com a narrativa tortuosamente dúbia cheia de desvios labirínticos de “Cidadão Kane”.
Conhecido fora-da-lei e renegado ex-soldado durante a guerra de secessão, Jesse James era um bandido lendário nos EUA, nos meados de 1890. Fascinado por esse mito, o jovem e titubeante Robert Ford se junta ao seu bando seguindo os passos de seu irmão, Charlie. Mas o cerco cada vez mais apertado das autoridades no encalço de James, e o valor elevado da recompensa por sua captura acirram seu ânimo e o temor de ser traído, conduzindo ele e os homens de seu bando à um jogo de tensão, suspeitas e traições que tenta, por meio deste filme esclarecer as razões de sua morte.
Brad Pitt compõe com empenho sua interpretação de um Jesse James vulnerável em sua paranóia, embora a grande presença seja mesmo a do ótimo Casey Affleck, neste trabalho hermético e contemplativo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Vingadores - A Era de Ultron

É claro que após o êxito espetacular obtido com o primeiro filme dos “Vingadores”, a Marvel Studios manteria as coisas exatamente como estavam, a fim de não mudar a maneira acachapante com que seus filmes vinham tomando as bilheterias de assalto.
Leia-se: Tal e qual o primeiro filme, Joss Whedon continuaria a cargo do roteiro e da direção da segunda grande reunião dos heróis da Marvel.
Haviam, porém, algumas variáveis. A primeira: Os Vingadores –e todo o contexto que levava, de uma forma ou de outra, à sua junção, já não era novidade. Como também não era novidade, os filmes-solo que antecipavam esse evento –tudo isso já tinha sido mostrado, e com perícia, nos filmes da primeira fase.
A segunda: Joss Whedon, praticamente, engatou a execução do segundo filme, tão logo terminado o primeiro (minto, ele realizou, entre os dois uma adaptação semi-teatral, pequena, modesta e quase imperceptível de uma obra de Shakespeare, “Muito Barulho Por Nada”).
E sua exaustão é visível no desgaste da narrativa.
É assim que, numa continuação quase direta (e ligeiramente desleixada) dos eventos transcorridos em “Capitão América-O Soldado Invernal”, encontramos os Vingadores reunidos para o quê parece ser o último confronto com as forças remanescentes da organização diabólica Hidra (desmascarada pelo próprio Capitão América naquele filme).
Contudo, a crescente preocupação do inventor Tony Stark (Robert Downey Jr.) para com as intermináveis aflições do mundo –somadas aos perigos alienígenas que ele mesmo vislumbrou no filme anterior dos Vingadores –o levam a criar uma inteligência artificial denominada Ultron (personificado pelos movimentos e pela voz do ator James Spader), que não tarda a se rebelar contra os próprios Vingadores, partindo da dedução lógica (para uma máquina) que é a Humanidade a grande ameaça ao planeta Terra.
Ninguém disse que seria fácil para Whedon dar segmento ao seu excepcional trabalho em “Os Vingadores”.
“A Era de Ultron” termina sendo um exemplar bastante indicativo de tudo o que funciona e do que não funciona no método de trabalho dele; Whedon é muito melhor como roteirista que como diretor, mas ele próprio sabotou as chances de seu filme evoluir perante o anterior ao tomar a decisão (que reverbera em todos os filmes do Universo Marvel) de ignorar o vilão Thanos (esboçado no primeiro “Vingadores” e reservado para o terceiro filme) e partir aqui para uma trama de aspecto quase aleatório, sem a mesma importância nas estruturas de história do que o primeiro filme tinha.
Nota-se que a forma com que Whedon trabalha o humor é repetitiva em relação ao outro filme, e bem menos eficiente. Ele buscou dar um tratamento mais sombrio à premissa (encontrando na direção de fotografia de Ben Davis, um auxílio formidável), mas suas decisões afetam a condução, o tom e até mesmo uma certa coerência inerente aos seus personagens –Escolhas lamentáveis como o romance que entrelaça Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff (Scarlet Johansson), a maneira com que emprega os personagens da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e do Mercúrio (Aaron Taylor-Johnson), ou mesmo do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), ou as piadinhas fora de hora ou de lugar minam o valor do filme como um todo, revelando as brechas de uma narrativa que não se conclui.
O resultado, de fato, acabou aquém de quaisquer expectativas, entregando um filme redundante, problemático e carente de frescor, ainda que mantivesse lá seus momentos divertidos –como produtora, a Marvel Studios não se permitiu a concepção de um produto de baixa qualidade.
Ainda que este seja um de seus títulos menos memoráveis, ele continua bem acabado, fluido em seu ritmo, bonito em seu visual, e empolgante em sua ação.
A Marvel Studios aparentemente aprendeu a lição: Os filmes posteriores à “Era de Ultron” apresentavam, todos, um tratamento diferenciado (visível desde o seu marketing), nada repetitivo, e ciente da evolução que a história e os personagens dentro desse universo precisavam experimentar.
E Joss Whedon, bem, ele foi descansar. Substituído, no comando do terceiro “Vingadores” pelos talentosos Irmãos Anthony e Joe Russo (de “Capitão América-Soldado Invernal” e “Guerra Civil”).
Que eles façam algo grande!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os Vingadores

Guardados alguns casos à parte (e que também mostraram-se interessantes) a Marvel Studios sempre compreendeu, em suas adaptações cinematográficas, que o gênero de super-heróis é, em grande e significativa medida, uma fonte de inspiração. E não de introspecção.
Seus trabalhos assim, primavam pelo senso de humor, pela descontração (vide o emblemático filme do Homem de Ferro). Passam, enfim, longe de serem obras sombrias.
E a Marvel Studios deu-se muito bem com isso.
O sexto filme realizado por eles, após seu estúdio de cinema ser consolidado, foi justamente aquele que reunia todos os personagens introduzidos separadamente nas produções anteriores, e atendia pelo título de “Marvel’s Avengers”, ou simplesmente chamado “Os Vingadores” –foi também aquele mais cercado de expectativa.
Era, afinal, uma cartada e tanto aquela que a Marvel estava dando (e tão bem sucedida ela foi que hoje, com vários estúdios correndo atrás para fazer a mesma coisa, fica difícil imaginar que, em 2012, isso ainda era um projeto sem precedentes): Convergir todo um leque de narrativas paralelas para unir vários personagens protagonistas num filme só.
Uns imaginavam algo parecido com “Onze Homens e Um Segredo”; outros um reflexo com mais pompa daquilo que Bryan Singer já fazia em “X-Men” (o mero surgimento de um grupo de heróis, afinal). O risco de fracasso, se pararmos para avaliar, era imenso.
Mas, a Marvel surpreendeu meio mundo demonstrando aquilo que, como estúdio, ela sempre demonstrou: Bom senso.
Eles chamaram Joss Whedon para roteirizar e dirigir o projeto e, embora à época, o filme mais famoso dele fosse o divertido e despretensioso “Serenity”, Whedon revelou-se a escolha adequada: Seu senso de humor convulsivo na construção narrativa combinava perfeitamente com a proposta da Marvel; seu conhecimento nato dos meandros das histórias em quadrinhos (das quais ele mesmo foi roteirista durante algum tempo) veio a calhar ao juntar inúmeras narrativas vindas dos filmes antecessores, e ele ainda soube ser absolutamente fiel ao material original das HQs, além de construir um filme, propriamente dito, pulsante, empolgante e vibrante por si só.
E ainda fez parecer que era algo simples e fácil de ser feito.
Retomando muito de seu gancho dramático deixado ao filme de “Thor”, descobrimos, já na cena de abertura do filme, que Loki (Tom Hiddleston, ótimo), o deus da trapaça, roubou das sedes secretas da S.H.I.E.L.D. o artefato poderoso conhecido como Tesseract (visto em “Capitão América-O Primeiro Vingador”).
Como provavelmente ele será usado para criar um portal que possibilite uma invasão alienígena à Terra, o diretor-chefe da S.H.I.E.L.D., Nick Fury (Samuel L. Jackson), dá início ao "Projeto Vingadores", que consiste em reunir num único grupo o gênio e playboy Tony Stark (Robert Downey Jr.), trajando sua poderosa armadura de Homem de Ferro; Steve Rogers (Chris Evans), o super-soldado conhecido como Capitão América; o deus do trovão –e irmão de Loki –Thor (Chris Hemsworth); e o cientista Bruce Banner (Mark Ruffalo), capaz de se transformar na criatura Hulk; além dos agentes, Natasha Romannof, a Viúva negra (Scarlet Johansson) e Clint Barton, o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Juntos, esses seres tão distintos e igualmente poderosos formarão um grupo em defesa da humanidade.
O filme que Whedon constrói a partir dessa premissa é um exemplo de como o entretenimento pode ser empregado com maestria, sem que se perca, com isso, a qualidade artística. A um só tempo, espetáculo visual (praticamente metade do filme é uma grande e brilhantemente filmada seqüência de batalha), roteiro equilibrado e afinado (com exceção de um único furo, quando Thor desaparece sem menores explicações em uma cena fundamental), e grande obra de cinema (há pelo menos três grandes cenas específicas que ficam em nossa mente depois do filme), “Os Vingadores” coroou a iniciativa da Marvel Studios em moldar um universo composto por linhas narrativas conectadas, a exemplo do que já existia a quase cinco décadas nos quadrinhos, e entregou ao público a mais satisfatória e extasiante aventura que se pôde saborear no cinema em muito tempo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A Chegada

É certamente entre os grandes que por fim se coloca Denis Villeneuve neste seu mais recente e extraordinário trabalho.
Vindo daquele ramo da ficção científica onde os paradigmas do gênero servem para refletir as mais imponderáveis questões em torno da condição humana, “A Chegada” é mais uma contribuição impecável e imprescindível de um realizador que a cada projeto se mostra ímpar à uma lista a qual já não faltam títulos memoráveis: Kubrick e seu “2001”, Tarkovski e seu “Solaris”, Spielberg e seu “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, Zemeckis e seu “Contato”, Nolan e seu “Interestelar”.
Todos arriscam uma visão muito particular –plena de consciência técnica –sobre as elucubrações plausíveis da grande aventura humana, sob a ótica de nosso possível primeiro encontro com vida inteligente e consciente.
É nesse absurdo redemoinho de reviravoltas existenciais que é arremessada Louise Banks (Amy Adams, pronta para um Oscar de Melhor Atriz!), uma professora especialista em lingüística que, como toda a humanidade, é pega de surpresa com a aparição de 12 estranhas naves alienígenas em locais aparentemente estratégicos ao redor do mundo.
Para estabelecer contato com os ocupantes de uma delas (aquela que se acha nos EUA), ela é requisitada por um arredio e preocupado coronel do exército (grande presença de Forest Whitaker), ao lado de um cientista (Jeremy Renner, ótimo).
O processo de comunicação com os alienígenas é lento, frustrante e tenso –sobretudo, tenso: O grande perigo, logo fica claro, não são os supostos “invasores”, mas sim a própria humanidade –divergindo entre si, as nações do mundo têm diferentes idéias de como tratar os visitantes. E algumas delas, como a China, a Rússia e o Sudão, preferem a hostilidade à diplomacia.
Embora todos esses embates, filosóficos ou logísticos, sejam primorosamente filmados por Villeneuve (contando com uma equipe técnica primordial, em especial, a trilha sonora de Jóhan Jóhannsson e a fotografia de Bradford Young) é a inesperada jornada íntima da personagem de Adams que irá revelar-se o grande trunfo de “A Chegada”.
A partir daí, Villeneuve questiona a percepção de realidade, numa postura que começa semelhante à de Andrei Tarkovski em “Solaris” –quando o contato com algo de outro mundo parece suscitar lembranças dilacerantes de um ente querido que se foi –mas, que revela-se surpreendente conforme a narrativa avança.
Sem revelar demais, é tão emocionante que chega a ser doloroso.

Por isso, por esse insuspeito encontro de uma emoção tão plena com um cinema tão espetacularmente irrepreensível que promove, pela comprovação do mestre inquestionável que Villeneuve é, e por mostrar, à partir disso, um pouco de fé, nos claudicantes passos que, como humanidade, buscamos dar nesta terra, “A Chegada” é, até aqui, o grande filme de 2016.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guerra Ao Terror

Para muitos, este foi o filme independente que tirou de “Avatar” a glória de conquistar o Oscar de Melhor Filme em 2009.
É curiosa a opção da Academia em premiar este pequeno e esmerado filme de guerra, de fato artisticamente superior à produção de James Cameron, mas que não representa, por assim dizer, o repertório técnico do futuro cinematográfico como aquele filme o fazia.
“Guerra Ao Terror” é um pequeno Davi que venceu um gigante Golias, todavia, esse fato, na maioria das vezes, tira-lhe a verdadeira razão para ser visto: O fato de que a diretora Kathryn Bigelow realizou com um misto envolvente de descontração e empolgação um dos melhores filmes de todos os tempos a retratar a tensão de um conflito.
Ao contrário do que muitos podem esperar, contudo, ela não realizou um filme de ação: E um olhar mais austero sobre a questão pode concluir que –diferente de guerras mais físicas como o do Vietnam ou da Segunda Guerra Mundial –a Guerra do Iraque não deixa margem para seqüências de batalha.
É assim que acompanhamos a rotina de três soldados norte-americanos cuja função é encontrar e desarmar bombas. Na brilhante e tensa cena inicial um deles (interpretado por Guy Pearce, uma das muitas pontas ilustres do filme) morre e é substituído por outro.
A questão é que, faltando trinta e oito dias para serem liberados para casa, os soldados Sanborn (Anthonie Mackie) e Eldridge (Brian Geraghty) recebem como substituto o beligerante e inconseqüente Sargento William James (Jeremy Renner, num papel divisor de águas em sua carreira).
Viciado na adrenalina do perigo, James não tem uma postura moderada e razoável como a de seu antecessor, o quê eleva a carga de tensão entre seus dois companheiros em níveis estratosféricos a medida que ocorrências perigosas de verdade vão se sucedendo. E a diretora Kathryn é particularmente eficiente ao conduzir uma narrativa onde todos os humores e sensações exasperantes convergem dos personagens para o expectador.
O título original de “Guerra Ao Terror” é “The Hurt Locker” cuja tradução mais aproximada seria algo como “o invólucro da dor”. Trata-se de um termo entre usado nas Forças Armadas que define o lugar metafórico em que se encontra o soldado cuja missão não foi capaz de cumprir: E tem-se, justamente aí, o grande segredo para melhor definir o filme; mais do que cenas de alta tensão, e momentos estarrecedores (e eles existem, brilhantemente costurados e detalhados pelo ótimo roteiro de Mark Boal), o trabalho de Bigelow sempre lembra de lançar seu olhar para os seres humanos no centro da questão.
A despeito de suas atitudes no início inexplicáveis, o sargento James, na atuação magnificamente controlada e ponderada de Renner, revela-se um personagem de insuspeita profundidade, por quem passamos a torcer e nos importar.

“Guerra Ao Terror” também possui o mérito de ir um passo além de “Soldado Anônimo” talvez, o único filme sobre a Guerra do Iraque tão bom quanto este daqui: Naquele filme, nos apegávamos aos personagens, mas o diretor Sam Mendes, ao fim do conflito, logo abandonava o público terminando o filme antes de sabermos como foi a volta dos soldados para casa. Já, aqui Kathryn Bigelow estende sua narrativa um pouco mais, dando o vislumbre necessário para descobrirmos como foi o regresso do sargento James ao lar. O suficiente para descobrirmos junto com ele que a guerra deixou-lhe uma série de impressões que passaram então a definir quem ele é, e à guiá-lo para a acachapante decisão que ele toma na cena final.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Trapaça

Um trabalho e tanto este do David O' Russell.
Na verdade, toda a sua carreira, ainda que irregular, é notável. O primeiro filme dele que assisti, "Flying With The Disaster", é uma comédia dramática que ninguém mais lembra de ter visto; eram meados dos anos 1990 e tinha um jovem Ben Stiller ainda tentando convencer como ator dramático.
Depois, veio o interessante "Três Reis", um dos primeiros filmes de guerra a abordar a situação da Guerra do Golfo.
Em seguida, vi "Huckabees - A Vida É Uma Comédia", sua obra mais estranha e fraca, embora tenha lá algumas qualidades.
E então, algo mudou. Para melhor.
A década de 2010 chegou para O' Russell com seu melhor filme até então, o pulsante "O Vencedor" e com sua primeira indicação ao Oscar (e daí em diante, seus filmes jamais deixaram de marcar presença entre os indicados). Em seguida, veio a brilhante e cativante comédia romântica "O Lado Bom da Vida" e finalmente este "Trapaça".
Na trama, dois notórios vigaristas, Irving Rosenfeld e Sydney Prosser, cruzam-se no percurso de seus golpes em meados dos anos 1970, e um encontro de almas gêmeas se opera. Juntos, elaboram um esquema ilegal para tirar dinheiro de corretores mafiosos, o quê logo chama para eles a atenção do FBI, na pele do ambicioso agente Richie DiMaso. Unidos por circunstâncias inusitadas, esses personagens pra lá de excêntricos serão a espinha dorsal da chamada Operação Abascam que na década de 1970 desmascarou um escandaloso desvio de dinheiro que assombrou a nação americana.
Como lhe é de praxe,o diretor David O Russell, com base num primoroso roteiro (durante muito tempo uma das grandes histórias não filmadas em Hollywood), rege com excelência um elenco excepcional (uma combinação dos atores de "O Vencedor" -Christian Bale, Amy Adams -com os atores de "O Lado Bom da Vida" -Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, mais uma pontinha de Robert De Niro...), obtendo uma narrativa afiada, fazendo muito lembrar um jovem Martin Scorsese.

Era Uma Vez Em Nova York

Ewa Chibulsky (a quase sempre precisa Marion Cottilard), vinda da inóspita Polônia nos anos 1920, busca uma vida melhor ao lado da irmã ao tentar imigrar para os EUA. Mas sua irmã acaba detida por complicações de saúde, e Ewa acaba na companhia de um escroque nova iorquino (Joaquim Phoenix) que inicialmente a abriga e a alimenta, mas depois a prostitui, embora paradoxalmente vá também se apaixonando por ela.
Cada vez mais no domínio de sua técnica e seu estilo, o diretor James Gray narra um conto amargo sobre os meandros dolorosos e sujos do sonho americano mais uma vez colaborando com seu ator-fetiche, o competente Joaquim Phoenix.
É porém, a sempre linda Marion Cotillard quem dá energia e vivacidade à narrativa com sua presença inebriante e carismática. 
A cena final trata-se do mais belo enquadramento de câmera já filmado por Gray.

domingo, 16 de agosto de 2015

Missão Impossível - Nação Secreta

É ótimo poder ver um filme muito bom no cinema depois de uma desgraça completa como esse novo "Quarteto Fantástico". Talvez, seja empolgação do momento (embora isto não costume me acontecer muito) mas este último "Missão Impossível" é excelente, um dos melhores da série e, possivelmente, um dos melhores do ano, também.
A série começou irregular, lá em 1998, adaptando um seriado de TV famoso, com Tom Cruise em sua estréia como produtor. O primeiro filme, dirigido por Brian De Palma, fez sucesso, mas não foi um produto perfeito. Notícias a respeito de desentendimentos no set foram muito divulgadas, e a história parece ter sido refeita e repensada várias vezes. Talvez tenha sido isso que tenha levado a uma mudança de tom no segundo filme, dirigido desta vez por John Woo, com todo o seu gabarito de cenas de ação em câmera lenta.
O resultado foi morno, e eu considero, de longe o mais fraco de todos.
Uma nova mudança de direção trouxe J.J. Abrahams ao comando do terceiro filme, onde, enfim, tudo começou a funcionar. A franquia encontrou um estilo, uma personalidade. Ironicamente, igualando-se a muitas das características já presentes na série de TV, da qual a versão de cinema parecia querer uma certa distância.
Seguido pelo bem-sucedido terceiro filme, veio o melhor de todos até então, o maravilhoso "Missão Impossível - Protocolo Fantasma", dirigido por Brad Bird (de "Os Incríveis" e "Ratatouille" estreando na direção de live actions), que conseguiu, com originalidade e qualidade dar um novo fôlego à série.
E dar novo fôlego à "Missão Impossível" parece estar se tornando a especialidade de Tom Cruise ao assistirmos esse "Nação Secreta".
Dirigido desta vez pelo austero e habilidoso Christopher McQuarie (que já trabalhou com Tom Cruise em "Jack Reacher - O Último Tiro"), este novo filme trás mais realismo que os anteriores, embora não lhe faltem sequências de ação que beiram o mirabolante. O que mais surpreende, porém, a exemplo do belo trabalho do filme anterior, é o ótimo cuidado com o roteiro. Todas as surpresas, reviravoltas e manobras da trama têm aquele ritmo e atmosfera dos melhores e mais instigantes filmes de espionagem.
Em "Nação Secreta", Ethan Hunt (Cruise) se vê prestes a descobrir o mistério por trás de um certo Sindicato, uma organização terrorista que agiu nas sombras nos últimos anos, e da qual muitos sequer duvidam da existência. Isso acontece num momento complicado para a agência IMF, quando a própria CIA resolve dissolver o departamento, deixando Hunt meio que sozinho em campo.
Um de seus poucos aliados acaba sendo Ilza, uma agente do Sindicato que revela ter intenções dúbias e parece jogar para os dois lados. Ilza, diga-se de passagem, é uma personagem sensacional. Ambígua e enigmática, daquelas que, até uma boa parte do filme, não sabemos se está do lado do herói ou contra ele, inicialmente Tom Cruise queria Jessica Chastain para o papel (e dá para imaginar o quão fantástico seria se ela tivesse topado fazer!) em seu lugar entrou a pouco conhecida Rebbeca Fergunson que faz um trabalho muito bom.
Completam a "equipe" de Ethan Hunt, por assim dizer, o hacker Benji (Simon Pegg), o amigo Luther (Ving Rhames, o único além de Tom Cruise a ter participado de todos os filmes!), e o agente Brandt (Jeremy Renner).
"Missão Impossível -Nação Secreta" é aquele tipo de filme que dá gosto ver no cinema. Bem conduzido, bem escrito, bem produzido e bem interpretado, feito com a dose certa de ação, humor e intriga, ele acaba tornando-se ainda mais precioso numa época em que o cinema tem tão poucos exemplares de qualidade a oferecer.